Sunday, November 6, 2016

Quando potência e elegância andam de mãos dadas

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Introito

   A senhora N. encontrou meu endereço e escreveu-me, entre triste e aflita. Participante de uma confraria de amigos que se conheceram na graduação e seguiram caminhos diferentes, para reencontrar-se anos depois sob a égide de Baco, tinham por brincadeira reunir-se uma vez por mês para degustar às cegas os vinhos que cada um levava ao encontro, atribuindo-lhes notas e elegendo o melhor noite. Ainda, quem identificava o próprio vinho - eram servidos às cegas, lembre-se - ganhava alguns pontos extras na classificação geral.
   Acontecia que a senhora N. ocupava o penúltimo lugar dentre os sete membros votantes na brincadeira mensal. Ainda, ela era, dentre os casais, a única mulher que votava nessas reuniões. Assim, sentia um peso suplementar sobre os ombros, pois promovia uma defesa solitária da honra feminina.
   Ela sabia que sempre levava bons vinhos e, em diversas ocasiões, ficou se perguntando por que suas garrafas italianas e francesas tinham ficado atrás de chilenos, principalmente, e argentinos.

 - Help me, Enochato sem Galochas, you're my only hope - assim ela terminava sua primeira missiva.

   Tirei os óculos, agarrei uma das pernas com os dentes e deixei-o fazendo um movimento pendular à frente dos olhos enquanto caminhava pela sala pensativo. Senti um leve peso pelas costas, como se algo se estendesse quase até os calcanhares, e fiz menção de ajeitar os ombros. Procurei mas não encontrei nada. Ainda olhei para a cintura e não, não estava com um cuecão vermelho por cima da calça. De qualquer maneira, era um trabalho para o Super-Enochato...

   Refleti melhor: uns bocas-tortas amantes de chilenos (risos!) quase certamente confundiam madeira com potência. Como eu poderia ajudar a pobre mulher e, de quebra, dar uma lição inesquecível naquelas almas desvirtuadas do bom caminho? Na verdade não precisei pensar muito; já tivera uma experiência deveras didática*, quando um IGTzinho com jeito de morto transformou Brunellões de peso em menininhas correndo amedrontadas pelo Lobo Mau. Escrevi de volta sucinto:
   - A senhora pode escolher um Galardi Terra Di Lavoro, atualmente disponível na safra 2010.
   Junto, seguiam alguns links para lojas onde o produto estava disponível. E não aconteceu que a senhora N., além de comprar duas garrafas, chamou-me para degustar uma delas?!

Galardi Terra Di Lavoro 2010

Roccamonfina, onde este IGT é produzido, é uma das várias regiões vinícolas da Campânia, localizada na canela da Bota. Os tintos são predominantemente de Aglianico, Piedirosso e Sciascinoso (ou Olivella), com ocasional presença de Primitivo (veja aqui). O nome Roccamonfina é referência a um vulcão extinto, o que confere ao solo características muito minerais. Isso, é claro, reflete diretamente nos vinhos.
A vinícola Galiardi foi fundada em 1991, e em 1993 lançou seu primeiro vinho (veja aqui). Pedindo perdão pelo clichê, o resto é história.
Terra Di Lavoro, 80% Aglianico e 20% Piedirosso, com teor alcoólico de 14%, passa por envelhecimento em carvalho durante 12 meses, e foi servido com uma hora e pouco de aeração. Já estava começando a ficar bom para ser degustado, e só cresceu ao longo das quatro horas que passamos à mesa. Infelizmente o nariz deste enochato encontra-se em situação calamitosa, entrando em saturação após algumas poucas cafungadas.
   Depoimentos dos diversos presentes atestaram sua evolução, alterando as notas entre frutas (bem presentes no início, detectáveis até por este que escreve) para o surgimento de chocolate ou café (não sou o único com essa dificuldade!) e fumo.

O Bressia Conjuro



Produto da Bodega Bressia,  estabelecida em Mendoza, Bressia Conjuro é um corte Malbec, Cabernet Sauvignon e Merlot de vinhas plantadas no Vale do Tupungato, a 1100 metros de altitude. Envelhece 18 meses em carvalho e outros 24 meses em garrafa.
Infelizmente, afetado pelo problema de nariz, não ocupei-me de registrar o rótulo, nem guardei a safra. Bressia Conjuro tem bom nariz - agradou aos participantes mais do que a mim, mas meu julgamento estava claramente afetado -, bom ataque, mas seu grande pecado foi encontrar pela frente um Terra di Lavoro. A falta de acidez ficou evidente na boca: transformou a garganta em escorregador.
   Eu não tenho certeza do que vou dizer agora: talvez se degustado junto de outros sul-americanos, a falta de acidez passe meio batida. Na comparação, fica muito evidente. Talvez apenas falte mais experiência a este enochato para cravar que falta de acidez seja notória, mas como sou um pobre iniciante nesse assunto, o leitor mais qualificado fica no direito de julgar-me muito encima do muro.
   Mas há um ponto onde não fico em cima do muro: Bressia Conjuro custa entre R$ 405,00 e R$ 730,00(!), contra R$ 540,00 do Terrra di Lavoro. Em se tratando de um sul-americano, é um bom vinho. Mas não encara o confronto com um do Velho Mundo. Se custasse R$ 400,00, o meu veredito seria claro: quem chega em R$ 400,00, coloca mais R$ 140,00 e vive feliz. Se Terra de Livoro vale R$ 540,00, Bressia talvez valha a metade.

A competição

D. Neusa voltou da competição com o resultado oficial do mais recente embate. Seu vinho tinha pego em terceiro lugar. Perdeu para um Cobos corte uNico 2008 (preço no Brasil: R$ 1.500-R$ 2.000) e para um Châteauneuf du Pape Bosquet des Papes Chante le Merle 2012 (preço no Brasil: R$ 500-R$ 600). Entubou (risos) um Ridge Monte Bello 2009 (cerca de R$ 1.000,00), um Chateau Smith Haut Lafite, Pessac-Léognan 2010 (R$ 900,00) e um Brunello di Montalcino 2010 (produtor não especificado). O detalhe é que todos eram vinhos 97+. Tinha subido alguma posição no ranking, e, se não estava 100% feliz, certamente ficou mais animada. Outro desentiressado trabalho deste Enochato em prol da divulgação e defesa dos bons vinhos e bons costumes (risos!)


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Resenha

Vinho & Guerra. Os Franceses, os Nazistas e a Batalha Pelo Maior Tesouro da França
   Já havia lido as primeiras páginas do capítulo 1 há muito tempo, quando estava hospedado na casa de um primo, e dividia com ele a leitura do presente de Natal que ele ganhara da esposa. Desta vez consegui um exemplar emprestado e fui até o final.
   Vinho e Guerra tem uma narrativa dinâmica, entrelaçando o dia-a-dia de vários produtores tradicionais de diferentes regiões da França com os esforços do povo francês na árdua resistência face à ocupação alemã. Apresenta também a figura dos weinführers, agentes especializados a serviço do Reich cuja principal missão era garantir que os melhores vinhos francesas molhassem as gargantas certas dentro da cadeia de comando nazista.
   O livro contém muitas passagens belas e emocionantes. Uma das que mais gostei foi acerca da confraternização que Gaston Huet conseguiu promover no campo de concentração para oficiais em que esteve preso durante quase toda a guerra:
Huet se retirou para um canto da sala para saborear seu copinho de mostarda de vinho. Deu um suspiro de satisfação. Era um vinho branco seco do vale do Loire; não era do seu vinhedo, mas ainda assim trazia um gosto de casa. Olhou fundo sua cor esverdeado-dourada, depois se deteve para aspirar seu aroma, seu buquê floral com sugestões de limão, pêra, maçã e mel.
Quando levou o copo aos lábios, o vinicultor Huet falou mais alto: "Hum, um pouquinho acidífero", pensou. "Verde no palato médio e o final é fraco. Duvido que as uvas de Chenin Blanc tenham ficado bem maduras".
Essa análise, contudo, durou apenas alguns breves segundos, pois de repente emergiu o Huet amante do vinho, e os sabores e aromas da bebida o envolveram.
Para quem conhece um pouco acerca vinhos do Vale do Loire, sabe o que significa o nome Domaine Huet na produção vinícola em Vouvray. E, sobretudo, se já experimentou um Moelleux de sua lavra, o trecho acima traz um sentimento particular. Está certo que o vinho degustado por Huet na ocasição era um seco, mas seu Moelleux marcou-me profundamente. Saiba mais sobre a região aqui, e aqui. Siga também o vínculo Vouvray Moelleux na última página para saber melhor o que estou tentando dizer.

Entre o Terra di Lavoro e Vinho e Guera, não tenha dúvida: se puder, fique com os dois!

Vinho & Guerra
Don e Petie Kladstrup
Jorge Zahar Editora
Preço: aproximadamente R$ 45,00


*O André referido na postagem não era eu, que participei do evento na condição de simples comensal.


Sunday, September 25, 2016

Um vinho improvável

Introito

   O Romeu convidou-me para uma pizza e vinho em sua casa. Cheguei ganhando atenção das meninas, duas Akitas, senhoras de certa idade, cujo único inconveniente - se o é, de fato - está em receber-me ao portão com pulos de alegria. A uns 45 kg cada uma, o único cuidado necessário é não ser literalmente atropelado por tanta demonstração de felicidade.
   A Sonia recebeu-me com o bom humor de sempre e contou-me da saúde da Hani (mel, em japonês) e da Panda, enquanto a adrenalina delas baixava a níveis aceitáveis. Então pudemos nos sentar. O Romeu apareceu com uma garrafa lisa - tirara o rótulo para fazer um ensaio às cegas. Abriu a garrafa, serviu um tantinho, conversamos um pouco e chegou a pizza. Fomos recebê-la ao portão e em um tantinho estávamos instalados à frente de um prato bem servido e uma taça.

A degustação

   - Vamos lá, diga-me de onde é esse vinho - convidou o Romeu.
   Gosto dessas brincadeiras, embora saiba o quanto é difícil dar palpite na hora h. Ao nariz, buquê de fruta (vermelha ou  negra, não me pergunte - rs), sem carvalho. Simpático. Pensei que poderia ser algo na linha do León de Tarapacá, que, na infância de meu aprendizado sobre vinhos, fora o meu favorito.
   No primeiro gole, ainda sob efeito da percepção olfativa, o ataque mascarou as fases posteriores da avaliação. Sem saber o que esperar, fui "meio que" surpreendido pelo primeiro contato do vinho com a boca. Não tinha amargor. Olhei para a taça, uma cor "normal" para vinhos jovens.
   - Quero dizer que parece um chileninho bem básico - arrisquei - mas não é isso...
   Provei novamente, então prestando mais atenção no conjunto. De fato quase não tinha amargor, mas também passava praticamente sem marcar a garganta - retrogosto e persistência mínimas. Como costumo dizer, é quando a garganta vira um escorregador (rs).
   - Poderia passar por um Bordeaux bem simples - atalhei. Mas também não é...
   O anfitrião estava se divertindo:
   - Chile... França... o que vem agora?
   Experimentei mais um gole.
   - É nacional, não é mesmo?  - estava morta a charada.

O vinho

   O senhor Paulo Rocha plantou cepas Cabernet Sauvignon e Merlot em 2009, na cidade de Lages, região serrana de Santa Catarina. O vinhedo ocupa 0,7 hectares e está a 940 metros - o que o caracteriza como vinho de altitude da serra catarinense - e, em 2014 produziu as primeiras 100 garrafas desse corte, para um primeiro teste. A meta é produzir 3000 garrafas por safra. O nome Seu Romeu vem da homenagem ao patriarca da família.

   A vinificação ficou a cargo do Centro de Ciências Agroveterinárias de Lages, da Universidade do Estado de Santa Catarina. O que mais chamou atenção foi o vinho não ter em destaque aquele amargor tão típico dos vinhos nacionais. Este é um amargor que, na minha opinião, desbalanceia o vinho. Não sei exatamente de onde ele vem, se do esmagamento das sementes ou do engaço não removido no processo. Mas esse amargor tão estranho e sem graça não estava presente em Seu Romeu.
   O vinho não tem acidez - acho que é o que contribui para transformar a garganta num escorregador (rs). Os taninos leves também não contribuem para dar-lhe maior estrutura. É um vinho simples, mas não é um vinho ruim. O pessoal do CAV sabe o que está fazendo.
   A incógnita que gostaria de registrar será a dificuldade de vencer a produção artesanal e partir para a produção industrial. Será que os mesmos cuidados serão preservados na escala? Nada como apostar em uma nova prova quando isso acontecer...

Conclusão

   Quem acompanha o assunto vinho, principalmente o que acontece no Brasil, está nauseado com tanto marketing que só pretende enaltecer qualidades que nosso vinho não tem. Merlots nacionais ganhando concursos na França - para descobrirmos depois que o "concurso" foi promovido pelo importador local do produto, e destina-se a vinhos de até 5 ou 10 Euros, enquanto esses mesmos vinhos custam aqui o equivalente a 30 Euros! - dentre outros, apenas jogam um véu de má estima para com o produtor nacional. Não deixa de ser uma injustiça, uma vez que "meia dúzia" de produtores acabam concentrando "dezenas de porcento" (sic) da produção nacional e absolutamente 100% de todos os "acontecimentos estranhos" que são noticiados ou descobertos acerca do tema.
   O vinho nacional é estremamente caro - pelo que oferece. Poderia ser uma forma de entrada para o consumidor mais informal, que está galgando seus primeiros passos nas descobertas desse quase infinito universo do vinho. E Seu Romeu poderá ter seu espaço nesse cenário. Um ponto central, a meu ver, poderá ser o excesso ou a falta de ambição de seu proprietário. Volto ao tema quando puder experimentar outra garrafa.


Imagens do vinhedo em Lages.


Thursday, August 11, 2016

Chianti Riserva Le Merlaie Trambusti - Quem é o importador?

Estava para colocar na segunda metade do título "Quem importa?", mas achei que daria margem a outra interpretação, tipo "quem se importa com ele"... (rs).

Olhaí (sic), na oferta de R$ 100,00 por R$ 90,00. Uma garrafinha. Compre meia dúzia por R$ 86,00 (preços aproximados - gargalhadas!). Ah, depois não reclame se enjoar de beber sempre o mesmo vinho, porque R$ 86,00 é na caixa.


Fui pesquisar por outras ofertas na minha ferramenta de pesquisas predileta:


 Como?! R$ 90,00 aqui, e R$ 97,00 lá fora? Estarei ficando louco?
Ponha os óculos, jacaré! R$ 97,00 por três garrafas!

Bom, se não melhorarem o preço da promoção, vou deixar pra comprar lá fora (risos!). E eu pensava que o imposto fosse de "apenas" 100%. Quanta cretinice a minha...


O leitor iniciante, novato mesmo, que procurando um pouco encontra coisa melhor para ler (os experientes já passam longe - rs) deve atentar para o que considero um erro juvenil: comprar caixas e caixas (ou apenas uma...) do mesmo vinho. Já fiz muito disso. Meus detratores poderiam até dizer que eu era bebedor "de um determinado vinho", e não um bebedor "de vinho". Estariam certos, naquele momento. Hoje dificilmente repito uma garrafa. Até repito. Mas precisa valer muito a pena.

Wednesday, July 27, 2016

Mais uma tunga para cima do consumidor desavisado? Estudo de caso

Está difícil voltar a escrever, apesar de ter experimentado algumas joias nesse tempo todo. Mas algumas notícias não podem passar tão a seco. No nosso pujante mercado de vinhos, algum grau de picaretagem é aceitável (é? se acreditou nessa introdução, em que mundo você vive, cara-pálida? E acredita em tudo o que lê?), porque a concorrência é grande. Cada um defende-se e contra-ataca como pode. Vamos analisar um caso.

 A oferta


The Wine offer Premium
Vinhos de alta qualidade com preços imbatíveis

Château Marjosse Rouge 2010
Na compra de 6 garrafas: De R$ 199,00 por R$ 99,50
Na compra de 3 garrafas: De R$ 199,00 por R$ 119,90
Na compra de 1 garrafa:  De R$ 199,00 por R$ 139,00



A safra de 2010 foi uma das melhores do século em Bordeaux, superou todas as expectativas.

No selo ao lado da garrafa, nota-se a pontuação dada por um experiente pontuador do mercado: 90 pontos. Na verdade, parece que o correto é 91 pontos (http://www.wine-searcher.com/wine-47739-2010-chateau-marjosse-bordeaux-france), mas essas informações nunca são precisas.

Quanto custa a oferta "por aí"?


R$ 31,00 na Inglaterra?
R$ 42,00 na Alemanha?
R$ 60,00 nos EUA?
E você nem é obrigado a comprar 6 garrafas de uma vez, podendo diversificar sua adega, se preferir?

Vamos lá, a velha pergunta? Se está a R$ 60,00 nos EUA, quanto custava antes de atravessar o Atlântico? Porque saindo da Europa, a diferença entre a América e o Brasil são alguns pares de milhas náuticas, ou nem isso (gargalhadas!).

Sei de um comerciante que está vendendo na loja dele, lá na França, por R$ 29,45. Ele não deve ter pago tudo isso no vinho, para não vender com prejola... certo?

O preço no país de origem



2010: uma das melhores do século em Bordeaux?

Bem, eu não pesquisei muito. É preciso dar uma change para a caterva, não é mesmo? (rs) Para mim, é necessária e suficiente a tabela de safras da Mistral, disponível aqui, de onde reproduzo pequena parte para alimentar a discussão:


A safra 2010 foi de fato boa (nota 9), mas... inferior à de 2009. Na verdade, olhando para a tabela, apenas as safras 2012, 2007 e 2002 parecem ter ficado abaixo de um padrão médio, apesar de também serem muito boas! O que diferiu a maior parte das safras parecem ter sido meros detalhes!

Um vinho realmente bom para merecer alarde?

Vejamos:

A pontuação - por mais controverso que seja o sistema - ficou muito próxima para diversos avaliadores. Safras premiadas desse vinho foram as de 2012 e 2011, e não a 2010 (vide Awards, logo abaixo do rótolo da garrafa). Além disso, pelas próprias notas de degustação (tasting notes), nota-se que é um vinho bom, o que também é condizente com as pontuações atingidas. Mas... merece tanto alarde? Porque, como é vendido, uma oferta premium de uma das melhores safras do século, deveria ser pelo menos muito boa. Senão, es-pe-ta-cu-lar!

Perguntas que não se calam:

É mesmo um vinho de alta qualidade?
É digno de constar como uma oferta premium?
Seu preço pode ser considerado imbatível?

Bem, falando apenas do preço: no preço regular, para uma garrafa, parece-me tão próximo de imbatível quanto a Voyager encontra-se próxima de Alfa Centauri (uns 10.000 anos de viagem...). Na oferta premium, custa o dobro que pagaríamos nos EUA. E quatro vezes mais caro do que pagaríamos na França.

Next!

Tuesday, August 25, 2015

Clemente é um bom camarada

A região de Chianti Classico

   Genericamente falando, Chianti está situada na Toscana, que por sua vez faz parte da Itália Central. Chiani Classico (assim, sem acento) é o cerne dessa DOCG, produzindo 1/3 dos vinhos da denominação. Originalmente, era um corte de Sangiovese, Canaiolo, Mammolo e Colorino (o que quer que seja isso - rs), e remonta ao Século XIX. Uma revisão de 1990 permitiu tanto a produção de Chiantis com 100% de Sangiovese como ainda aceitou a introdução de cepas internacionais na região (Cabernet Sauvignon e Merlot). Era o começo da produção dos Supertoscanos. Isso aconteceu pela dificuldade em produzir-se vinhos mais redondos com a Sangiovese, o que foi conseguido mais facilmente pela adição de pequenas quantidades dessas uvas como corte. É claro que bons produtores não precisam desse recurso... mas eu arriscaria dizer que ele é útil quando as condições de uma dada safra não ajudam tanto. De qualquer maneira, desde então existem aqueles que reclamam da perda da regionalidade do vinho, e há aqueles que aprovam essa certa internacionalização.

Uma curiosidade sobre Chianti

   Como o leitor deve saber, a unificação italiana aconteceu já tarde, no meio do Século XIX. Pequenos reinos consideravam-se estados independentes, e escaramuças políticas eram frequentes. Uma delas aconteceu entre Florença e Siena, que disputavam terras e a primazia sobre o nome Chianti. Acordou-se que uma corrida de cavalos resolveria a delimitação das fronteiras e a primazia sobre a denominação. Ao cantar do galo, em cada cidade, um cavaleiro sairia em disparada por cada ponta de uma estrada que ligava as cidades, e o encontro de ambos demarcaria o limite entre as regiões. Imagino que emissários de cada cidade foi recebida na outra, para conferir a saída do cavaleiro.
   Assim, os líderes de Siena escolheram um galo vistoso, novo e bem alimentado, enquanto os florentinos - gosto de pensar que inspirados por Leonardo da Vinci (rs) - escolheram um galo preto, raquítico e mal alimentado. Com fome, o galo de Florença acordou mais cedo e, a seu primeiro canto, o cavaleiro florentino disparou, encontrando-se com o outro cavaleiro praticamente às portas de Siena. Assim, Florença conquistou um território muito maior e tambem o direito sobre o uso do nome Chianti. Como uma espécie de agradecimento, o galo negro estampa todas as garrafas da região.

Castelli del Greve Pesa

A Cooperativa de Castelli del Greve Pesa reune 18 vinicultores espalhados pelas colinas da zona Chianti Classico com a missão de preservar a antiga tradição da viticultura toscana produzindo vinhos de boa qualidade por meio da seleção cuidadosa das uvas e sob estrita obediência às regras do Consórcio Gallo Nero - aquele mesmo da estória pouco acima. Portanto, produzem uma extensa gama de vinhos, indo do branco ao tinto, passando pela Grappa e pelo Vin Santo. Infelizmente o sítio do produtor não traz informação do porque da escolha dos nomes de seus produtos. Foram degustados em dias diferentes, mas a postagem comentará ambos.

Clemente VII Chianti Classico Riserva 2007: 95% Sangiovese, 5% Merlot,
envelhecido por 36 meses em barricas.
Clemente VII Chianti Classico 2008: 100% Sangiovese, envelhecido por 24 meses em barricas.
Note, em ambos, o selo do galo negro.


   O Clemente VII Chianti Classico Riserva 2007 apresentou-se "reticente" no início, bem herbáceo, e a evolução depois de aberto foi melhor notada somente após a segunda hora. Boa fruta, acidez adequada, taninos presentes e harmonizados. Até o final - mais umas duas horas - continuou a evoluir. Bom final, boa persistência, mas sem assombrar. A impressão é que pode aguentar mais alguns anos, embora esteja pronto para consumo, com aeração adequada.

   O Clemente VII Chianti Classico 2008 foi aberto e decantado por duas horas antes de ser servido. Esteve reticente durante todo o tempo - mais umas três horas! - e só melhorou mais para o final. Fiquei surpreso, pois havia experimentado o Riserva antes, e julguei que este deveria estar mais pronto. Sobraram uns 4 ou 5 dedos, que eu experimentei no dia seguinte tendo conservado em geladeira sem vácuo. Explosão de fruta. Boa acidez, bons taninos, equilíbrio excelente. Surpreendente. Final e persistência igualmente bons, e igualmente sem assombrar. Mas... acho que tivéssemos de somar isso às características de ambos, eles não custariam o que custam...

   Preços: paguei por volta de R$ 115,00 (o Riserva) e R$ 90,00. Os preços em comparação com o exterior estão bastante bons. São vinhos de pontuações consistentes entre alguns avaliadores (89-91 pontos para o Riserva, em diversas safras consecutivas). O leitor pode perguntar: mas "apenas 90 pontos?". Bem, eu já devo ter comentado em outras postagens que algumas avaliações - principalmente espanhóis e argentinos - com certas pontuações 92+ não me pareceram adequadas; o correto seria "reposicioná-las" uns 3 ou 4 degraus abaixo. Ou subir estes Chiantes para 94-95 pontos. Seria o efeito Jay Miller? Esse escândalo arranhou a credibilidade do site erobertparker.com e, em cascata, jogou uma sinistra nuvem de desconfiança sobre os demais avaliadores. Claro que o leitor pode tentar outras alternativas. Por exemplo, confiar em algum produtor de procedência, mas vai precisar da indicação de algum suposto Iniciado Supremo (e pagar pelo serviço de consultoria dele, é lógico).

Diante dos fatos, podemos aclamar:
    Clemente é um bom camarada,
      Clemente é um bom camarada,
          Clemente é um bom camarada...
              Ninguém pode negar!


PS: Leitura posterior apontou que a lenda do Gallo Nero pode remontar, na verdade, ao Século XIII. Veja aqui, na caixa de texto The Black Rooster. No meu texto perdeu-se a inspiração de Leonardo, mas a imagem continua bela.

Friday, August 21, 2015

Traquinagens de um leitor anônimo acerca da postagem "Fattoria di Travalda 2010: Contraponto"

   Vou afrontar o raro leitor com a discussão em que entrei com um leitor anônimo acerca da postagem supracitada, onde comento o preço do produto ofertado, o marketing envolvido e o custo do mesmo lá fora. Em resumo, é um vinho de 10 Euros vendido, na promotion (sic) a R$ 149,00. Vejamos o que ele escreveu primeiramente:
Você deveria abrir uma loja ou importadora para sentir na pele o que é ter uma. As coisas não são tão simples como você imagina. Quer comprar meu estoque encalhado, que paguei à vista?
   Ponderei que ele havia aberto uma importadora, que é um negócio de risco - como aliás qualquer outro negócio - por conta própria. Ninguém o havia obrigado a isso. Ele disse que eu fazia suposições erradas acerca de sua identidade. Minha presunção acerca da identidade (ser importador) tinha certa base lógica, afinal, dizer da necessidade de ter-se uma importadora para sentir na pele os problemas, e afirmar ter estoque encalhado, sugeriam fortemente tratar-se de alguém do ramo. Afinal, quem mais teria estoque encalhado? Bem, a ficha caiu logo: não um importador, mas um lojista. Trocamos  alguns insultos (rs) que o leitor pode acompanhar na área de comentários da postagem, e sua última postagem está abaixo, que eu vou responder por precisar "provar" alguns pontos através de imagens, o que não consigo fazer nos comentários. Ele disse:
Xabec? Que vinho é este? O Sr. acredita mesmo no Parker e sua equipe, não? Compra e bebe pontos, não vinhos. O Sr. conhece mesmo pessoalmente as importadoras que cita desta tabela e site que eu desconheço? Já visitou o depósito de alguma? Duvido. E por que acha que eu tenho uma importadora? Eu estou sim defendendo aqueles que sofrem com as dificuldades empresariais em nosso país.
Sugiro que o Sr. beba mais vinho de procedência, conheça os produtores pessoalmente, visite as vinícolas, em vez de beber pontos. Tente se divertir. Sou capaz de apostar que nunca colocou vossos pés em um vinhedo, ou entrou em uma área de produção de vinhos.
Saudações

   Vamos por partes.

  •    Xabec? Que vinho é este? O Sr. acredita mesmo no Parker e sua equipe, não?

O infeliz pergunta que vinho é este? como se o desconhecesse, mas cita que tem uma pontuação do Parker. Bem, parece que para esse pessoal que não dorme à noite porque o Parker simplesmente existe, um dublê de colunista como este sequer pode comentar a pontuação Parkeriana para alguns vinhos. E olha que na postagem (está aqui) eu sequer concordo com ela! Ou seja, o leitor anônimo nega-me o direito de concordar ou discortar (no caso, discordar) do Parker e critica-me por "acreditar no Parker"... sem ter lido o que eu escrevi! Beleza, heim?


  • Compra e bebe pontos, não vinhos

Essa é a máxima de todos os otários que criticam os avaliadores de maneira geral e aqueles que compram qualquer vinho avaliado. Se esquecem que os vinhos são avaliados, em sua maioria, à relevia dos produtores! Mas, para eles, avaliar é proibido. Um vinho é uma obra de arte em si; você compra e aprecia. Apenas aprecia! Criticar (no sentido de avaliar) não pode. Cadê a liberdade? Caro leitor anônimo: compro e bebo pontos sim senhor, compro e bebo vinhos sim senhor, e compro e bebo "não-pontos". Significa que compro (ou bebo, com os confrades) vinhos que não necessariamente tenham boas avaliações. Veja esse Brunelinho aí, cuja postagem está aqui:
Recebeu 87 (oitenta e sete) pontos do Parker. Eu não mencionei isso na postagem, mas pelos comentários fica claro que gostei muito.


  •  Por que acha que eu tenho uma importadora? Eu estou sim defendendo aqueles que sofrem com as dificuldades empresariais em nosso país. 

O porque de achar que o sujeito tem uma importadora (primeira opção que aventei) foi pela própria menção ao encalhe. Se tem um encalhe, ou é importador ou é lojista - que aventei no início da postagem, como segunda opção. Agora vamos lá: o leitor anônimo defende aqueles que sofrem com as dificuldades empresariais em nosso país. Ah, vá?! Então defende todo mundo, porque ninguém está livre dos encargos excessivos, dos novos impostos que afloram a cada crise ou da bagunça fiscal que é nossa legislação. Ademais, aqueles que operam em margens razoáveis sofrem as mesmas dificuldades daqueles que operam em margens pornográficas! Para mim, então, a diferença de margem tão díspar entre importadoras explica-se por pelo menos um dos motivos (pode ser uma conjugação): inefável apetite por dinheiro ou espetacular exemplo de baixa eficiência ou mesmo incompetência na gestão empresarial. No Brasil a má gestão ainda é possível, enquanto no "mundo civilizado", já teria falido; a concorrência é grande e má gestão enterra qualquer empresa. Aqui, os importadores aproveitam-se de consumidores desavisados para (tentar) cobrar o quanto querem por seus produtos.


  • Sugiro que o Sr. beba mais vinho de procedência, conheça os produtores pessoalmente, visite as vinícolas, em vez de beber pontos.
Vinho de procedência... não é, este mesmo, apenas outro sistema de avaliação? Com o grave inconveniente de ter absolutamente nenhuma transparência. Parece ser assim: o Iniciado Supremo diz qual é o vinho de procedência e o consumidor compra, quieto, às cegas. Qual a diferença de comprar às cegas, somente, sem a recomendação do Iniciado Supremo? Claro a diferença é o próprio Iniciado Supremo (risos!), que no final parece servir apenas para nos cobrar os tubos pela sua sapiência.. Como alternativa, prefiro o sistema de pontuação, sem dúvida nenhuma.
O duro é que nosso leitor anônimo menciona nas suas postagens iniciais sobre mim que "objetividade não é o seu forte". É aí que fica patético. Mas olha, a sugestão em si não é tão ruim. Só falta dizer onde eu arrumo uma "entrada de dólares", preferencialmente em notas de 100, para manter minha taça cheia de... "vinhos de procedência". E afinal, se os vinhos dali de cima não são de procedência (ele deveria ter lido minhas postagens antes de sugerir isso, né?), fica a pergunta: quais seriam, então? Os vinhos caros que ele vende? Permita-me dizer: eu posso beber vinhos de procedência, conforme sugerido. Mas não aqueles comercializados com margens abusivas. Envie-me sugestões de boas compras de verdade, que eu terei prazer em experimentar.

Conhecer os produtores? Isso é tarefa do importador, e do lojista, não do consumidor final. O argumento é fraco por definição. Mas vamos lá, apesar de não ser fácil manter contato com produtores quando se mora no interior:

Com Tomás Roquete, da Qualimpor. Não costumo usar fotos de outros lugares em minhas postagens; a foto acima foi publicada aqui.

Com Giuseppe Albertino, enólogo da Podere Roche Dei Manzoni. Postagem original aqui. Ou seja: o interlocutor não lê as postagens, mas quer opinar e sugerir... o óbvio, nada mais que o óbvio...

Com Pia Ravanal (à minha direita), da Vinã Ravanal.



Como já disse, eu bebo vinhos, eu bebo pontos, e eu bebo "não-pontos". Não preciso seguir sugestões limitantes, por óbvio. Ademais, como pretenso "jornalista" do mundo do vinho, tenho por obrigação opinar sobre; a alternativa é cair no jornalismo marrom ao engolir sugestões daqueles que só bebem... vinhos de procedência.


  • O Sr. conhece mesmo pessoalmente as importadoras que cita desta tabela e site que eu desconheço?

Olhaí a barbaridade  (rs). O "site que eu desconheço" é o Enoeventos, citado na matéria em questão. O infeliz desconhece as fontes que cito, mas quer me criticar assim mesmo. E não estamos falando de um livro raro, de difícil acesso, mas de... um sítio de internet! Ô, cara-pálida, vai se informar antes de entrar na discussão, para não passar por tolo. Enoeventos faz um ótimo trabalho de divulgação de vinhos, abriu uma importadora que trabalha com preços honestos, e os dados acerca da avaliação das margens das importadoras por eles publicados estão à disposição do internauta. Então informe-se. Pare de lutar pelas tralhas, e junte-se aos bons. O pior: cobra-me que conheça todas as importadoras. Algumas parecem-lhe são ser o suficiente. Conheço, por exemplo, a Delacroix. Ligue lá, converse com o senhor Daniel. Diga-lhe meu nome e fale da cidade onde moro (todos esses dados estão disponíveis no meu perfil). O telefone deles é 11 3097 8917. Ele vai confirmar que conheço a loja e o estoque.


  • Sou capaz de apostar que nunca colocou vossos pés em um vinhedo, ou entrou em uma área de produção de vinhos.

Bem, vamos lá:
Na vinícola Aurora. Sim, a data da foto está correta, foi em 2.000. Espero que o senhor saiba reconhecer um tonel de 6.000 litros.


Em um dos vinhedos da Concha y Toro, e na cave onde matura o Casillero del Diablo.

Na Viña Ravanal, onde ocorre a fermentação em tonéis de inox.

Tenho ainda fotos na Cousino Macul, na Santa Rita, na Santa Carolina e na própria Ravanal, em meio aos vinhedos e na área de produção dessas vinículas e outras na Argentina. Questão de procurar. E haja paciência para tirar fotos de fotos, conforme mostra a seleção abaixo, com intuito de certificá-lo de que são fotos mesmo. Pensando bem, não é questão de procurar; não farei isso. Acho que vosso ledo engano está mais do que demonstrado.




  • Tente se divertir.

   Do meu jeito, pode ser? Ou tem que ser do seu, sem a liberdade de escolher meus vinhos, pontuados ou não?
   Ah, em tempo:
Chile: país lindo, de mulheres maravilhosas. Acho que eu sei me divertir. De fato não preciso dessa sugestão, por mais cheia de boas intenções.

Como é que se diz, mesmo?

Enoabraços, do
Enochato sem galochas

Thursday, August 20, 2015

Maipo vs. Ribera: um confronto desigual

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Introito

   O Vale do Maipo está localizado na região central do Chile, próximo a Santiago. Tem uma longa tradição na produção de vinhos de reconhecida qualidade para o padrão chileno, especialmente quando falamos em Cabernet Sauvignon. Dentre os produtores, destacam-se De Martino, Haras de Pirque, Cousino Macul, Chadwick, Undurraga, Aquitania, Concha y Toro e outros tantos. A prevalência da CS é tamanha que alguns chamam a região de "Bordaux Sul Americana".
   Ribera del Duero é uma Denominação de Origem (ou DO, o equivalente a uma DOC francesa) de Castilla y León, no Reino de España. Fica no noroeste do país, mais ou menos equidistante das fronteiras de Portugal e da França, é cortada pelo rio Duero e tem na cepa Tinta del País seu carro chefe. Essa cepa também é conhecida por outros nomes: Tinta de Toro, Tinto Fino, Aragones, Cencibel e... Tempranillo!
   E mandou o destino que o Roger, adorador de Carmenères e Riojas, viesse me visitar. Só não pergunte o eventual leitor o que Carmenère tem a ver com Maipo, nem Rioja com Ribeira. É claro, ao rever um amigo de tanto tempo, minha intenção foi a melhor possível...

Os contendedores

Viña El Principal - Memórias 2009. 74% Cabernet Sauvignon, 13% Carmènere, 8% Petit Verdot e 5% Cabernet Franc, com envelhecimento de 15 meses em carvalho francês. Seu buquê revela pimenta em demasia quando aberto, e ela não amansa com o passar das horas. Na boca, a pimenta também está presente (em quantidade menor) e sobra um pouco de álcool, e isso não colabora para termos um vinho redondo. Ainda assim, bons taninos e bom final, com retrogosto algo doce. No dia seguinte a pimenta foi devidamente domada; havia aparecido um buquê mais floral, e algo como chocolate (café? - rs!). Foi guardado em vácuo, e mesmo alguns dias depois continuou agradável e arredondou mais. Mas para beber "na hora" a pimenta torna o menino um pouco descalibrado.

Bodegas Aalto - Aalto 2008. 100% Tinto Fino (ou Tempranillo...), envelhecido por 23 meses em barricas de carvalho francês. No nariz, ótima fruta e algo torrado no fundo, que não pude discernir. Na boca, integração excelente entre tanino e madeira, álcool não aparecendo, e boa acidez. Uma boa combinação de potência e maciez deixam seu final e persistência realmente longos. Se AAlto tivesse um nome do meio (rs), ele seria Elegante. Eu já havia experimentado o Aalto PS, que é superlativo (veja aqui). Este irmão menor não pode ser comparado com aquele, mas justifica a fama de seu criador, Mariano García, enólogo chefe da Vega Sicilia por 30 anos (1968-1998), que deixou o emprego para fundar a Bodegas Aalto em 1999.

Os preços

   Lembro-me de ter pago meros USD 45,00 pelo Aalto, há alguns anos. Hoje custa por volta de USD 60,00. Memórias custou-me 21 "Luca" no Chile, o que dá cerca de USD 42,00. Aí não dá. Se você só tem 42,00 no bolso, e quer beber um vinho, e quer gastar tudo e tem poucas opções (está no Chile, por exemplo), então pode ficar com Memórias. Por outro lado, se você tem opções e está disposto a comprar um vinho legal, e pensa em gastar 40 dólares, então vale a velha máxima: quem tem 40,00 pode gastar 60,00. A diferença em moeda pode ser de 50%, mas em qualidade ela é des-pro-por-cio-nal. Assim mesmo, soletranto sílaba a sílaba. Infelizmente, é mais uma constatação de que os vinhos chilenos estão sobreprecificados, tanto lá (no Chile) quanto cá.
   No Brasil, o Aalto custa na faixa de R$ 390,00, e o Memórias cerca de R$ 190,00. Aí não dá de novo! Bem, a importadora do Aalto não está nas melhores posições naquela tabelinha clássica do Enoeventos (ocupa o décimo quinto lugar). Por outro lado, Memórias está com a Decanter, e esta sim ocupa bom lugar na referida tabela (quarto lugar!). Como está, comprar Aalto é difícil, e para gastar R$ 190,00 em um chileno... temos opções bem melhores, inclusive na própria Decanter, como o Kilikanoon Medley. E ainda tem tolo por aí pensando que a importadora não faz diferença.