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Wednesday, September 7, 2022

O níver do Ghidelli II

Introito

Neste 7 de setembro deixamos de comemorar os 200 anos de nossa independência. Algumas notícias ouvidas por este escriba dão conta que, convidado para participar da festividade, Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, foi escanteado pelo idiota que ocupa o cargo maior do país. bolsonésio não se cansa de nos decepcionar e envergonhar; mistura vergonhosamente as obrigações do cargo que ocupa com suas vontades e obsessões. Não bastasse, colocou entre si e o convidado um empresário investigado pela Polícia Federal por conspirar contra a República, trocando mensagens golpistas com outros distintos cidadãos. E, ao fim e ao cabo, nada falou da efeméride em si, reduzindo a data apenas mais um dia de campanha. Só perdeu para a comemoração dos 500 anos do Descobrimento, a cargo de idiota maior ainda. Está claro que meu voto para presidência será nulo, primeiro e segundo turnos. Apesar de entender quem não deseja anulá-lo, venho tendo comigo que é a opção mais... mais... mais cidadã possível.

O níver do Ghidelli II

Ghidelli mal acabou de ler a postagem anterior e já ligou descendo a madeira: 
- Pow, você esqueceu de registrar que o Flavitxo matou meu Tapada do Chaves no nariz!
😣 Grande verdade, e devo desculpas. Não foi proposital. Já registrei outras matadas de Don Flavitxo, veja uma delas aqui, portanto está claro não ter havido má-fé. E fica o registro, a bem da verdade.

Fomos então para os tintos; servi o meu enquanto chegava o ossobuco oferecido pelo aniversariante. Bom casamento, o Ghidelli disse de saída que seria um italiano, e acertou na mosca. Amarone Corte Brà 2008 é produzido pela Sartori di Verona; corte Corvina, Corvinone, Rondinella e Oseleta, 15,5% de álcool, mostrou compota, carne e alguém falou... sangue(!). Muito corpo (à força de álcool, madeira e acidez média); os taninos arredondaram-se e compõem um conjunto bem harmonioso. Está no auge, e minha aeração (6 horas antes de ir para o encontro) mostrou-se um tanto longa, pois o doce característico dos Amarones - que estava presente na abertura - sumiu por completo. Isso até confundiu um pouco os bebedores, e em minha opinião aumentou o mistério sobre qual vinho poderia ser. Também às cegas veio outra oferta do Flavitxo, o Mas La Plana 2009, da Miguel Torres. Esse D.O. Penedès é um 100% Cabernet Sauvignon que não consegui identificar como tal! Nariz rico, muita fruta, boca com ótima acidez, chocolate (café?) e especiaria, mas não a picância que aprendi a reconhecer como característica de outras Cabernets, que é uma impressão na ponta da língua. Ela pegava mais para o meio, e para mim seria uma especiaria da madeira... Sabe de nada, inocente! 😂 Marcou bem o paladar com boa permanência e bom final, longo mesmo, e surpreendeu a todos por ser um CS espanhol. Já havia bebido dele há muito tempo, também por obra de Don Flavitxo, mas não consegui pescar a origem. Finalmente, para acompanhar a sobremesa tivemos o Magnotta 2016 Cabernet Franc Limited Edition, já comentado aqui. Teve tudo bão: vinhos, comidas e principalmente as companhias. De quem é o próximo niver?

Friday, September 17, 2021

Quando a harmonização funciona III : sobremesa

Introito

Chegamos à última postagem do memorável jantar na casa do Ghidelli. Pow, 😕, mal chegando a ela, já está na hora do próximo jantar! Assim num dá... 😁 
A harmonização de vinho de sobremesa é uma das mas fáceis e tem combinações verdadeiramente clássicas. Não que conheça muito, mas já experimentei umas boas. A primeira que encantou-me foi a de Sauternes com queijo azul. Nas oportunidades que tive de comprar Sauternes um pouco melhores, a opção campeã recaiu sempre no Chateau Guiraud, um Premier Cru reconhecido e citado por muitos como um dos três Sauternes que se aproximam muito do famoso Château D`Yquem. Di quêim? É, 'dele', 'dele'. Já provei de umas 4 ou 5 garrafas do Guiraud, e ainda tenho uma bem guardada. Repeti muito? Ara, elas foram consumidas nos últimos 10 anos... não é muito. Outra boa combinação é o bom e velho vinho do Porto e chocolate amargo. Na mesma linha, temos ainda o Banyuls, produzido em Roussillon, e o Jerez Pedro Ximenez de Montilla-Moriles no sul da Espanha. Já experimentei um bom Jerez, mas sem harmonizar. Banyuls, nunca. Se alguém me chamar, vai desligar o telefone e escutar meu carro estacionando na frente da casa antes de repousar o aparelho na base. Não é uma ameaça, é um aviso.🤣

Ice wine

O ice wine é um vinho de sobremesa característico de países muito frios, porque usa como matéria prima a uva congelada ainda na parreira. Por conta disso a concentração de açúcar aumenta, pois o mosto é prensado com as uvas congeladas, o que aumenta o dulçor à custa de muita matéria-prima para pouco produto final, aumentando significativamente seu preço. Os principais produtores desse tipo de vinho são o Canadá e a Alemanha. Estados Unidos, Áustria, Luxemburgo e até o Japão produzem vinhos nesse estilo. O Canadá, até onde conheço, é o mais tradicional. A Alemanha não fica atrás. Nesta a cepa usada é a Riesling, enquanto naquele os astros são a Vidal e a Cabernet Franc. Aqui no brasio, terra de gente ridícula e sem noção, produziu-se ice wine, certa vez. Sim, aqui onde neva aos píncaros, com nossa extensa e reconhecida produção vitivinícola, a maior e melhor de toda a Terra-plana, cometemos esse feito em 2009, conforme noticiado pela imprensa. Notemos que ela não tem culpa por apenas ter veiculado a notícia. Falemos de cousa de gente grande, não de traquinagens inconsequentes.

Magnotta 2016 Cabernet Franc  Limited Edition ice wine

Uma pesquisa rápida no Google indica como principais produtores do Canadá as seguintes vinícolas: Pillitteri Estates, Inniskillin, Pelee Island, Peller Estates, Reif Estate Winery, Henry of Pelham e... Magnotta! Opa, é gente grande. Produz uma linha surpreendentemente grande de ice wines, para todos os bolsos: por 4 'dóla canadense' (sic!) dá pra comprar 50 mL do exemplar mais simples. O Limited Edition, feito na Península do Niagara, custa 45 dóla canadense (sic) a garrafa de 375 mL. Não é barato não... em compensação é uma amostra terrena do céu. Fruta vermelha muito intensa no buquê, com dulçor intenso compensado pela bela acidez. Não anotei as características, e agora, uma semana depois, só resta fazer feio perante o leitor. Não importa... se tiver a oportunidade de experimentar Magnotta, verá que ele faz bonito em quantidade mais do que suficiente para compensar esse deslize. A forma como fruta, torta e vinho misturam-se é uma experiência que o leitor precisa experimentar uma vez na vida. É difícil falar mais sem desvalar para o piegas; sua harmonização com a torta foi realmente marcante. É a típica combinação por semelhança que funciona sem a menor sombra de dúvida. Ice wines são raros no brasio, então não é possível fazer uma comparação de preços. Mas podemos invocar o Sauternes que citei acima. Vejamos: um Guiraud custa, 'lá', USD 54,00 a garrafa de 750 mL. Temos que 45 dóla canadense (sic) valem 35 dolá americanos. Dá uns 20% a menas (sic). Um Guiraud aqui custa, garrafa de 375 mL, a bagatela de R$ 700,00. Não gostou? Chama o Latino pra uma festa no seu apê... depos me conta se não preferiria ter pago o valor do ice wine...