Introito
A reunião da Paduca nesta terça foi animada e divertida, repleta de acertos e alguns enganos engraçados. O duro, analisado friamente, foi constatar o quanto tais erros pouco tinham a ver com a interpretação dada aos vinhos - um deles estava mesmo muito diferente do esperado. Começou com a proposta de dois vinhos às cegas capitaneados por este Enochato, mas como os ânimos estavam animados acabamos consumindo três garrafas. O acompanhamento foi providenciado pelo Duílio, com seu já popular (rs) quibe assado. Desta vez o Paulão trouxe um mato estranho e ainda tentou fazer-me crer ser ele bem popular entre os naturebas. Rúcula, acho que era isso. Não é nem um pouco popular aqui em casa...Com Paulão e Duílio, servi o primeiro vinho fora da temperatura adequada - mas pelo menos tínhamos algo nas taças... 😣 O primeiro cafungou e lançou um já bebi desse vinho... ele está ficando viciado nisso (rs). Samba, suor e ouriço nas conversas - principalmente ouriço - sirvo o segundo, em temperatura já adequada. No rastro, servi novamente do primeiro. O Paulão não se fez de rogado: O primeiro parece português. O segundo, sulamericano. O Duílio viu Cabernet Sauvignon no primeiro, e alguma espanholidade (sic, rs) no segundo. Chega o Fernando esbaforido, vindo de viagem, e mal cafunga já manda, de cara: Este segundo é sulamericano sem dúvida, o outro parece.... italiano. Dizemos mais uma rodada, as opiniões mantiveram-se. Saia o quibe e voltou a conversa inicial, samba, suor e ouriço - principalmente ouriço - e observamos a harmonização. Chocapalha casou bem com o quibe, os convivas ficaram satisfeitos. Já mostrara e comentara os dois primeiros vinhos aos confrades quando percebi os apetites insaciáveis, e convoquei a terceira garrafa. Essa todos viram logo de saída qual era...
O primeiro vinho foi o Quinta de Chocapalha 2017, um corte 65% Touriga Nacional, 10% Tinta Roriz, 10% Alicante Bouschet, 10% Touriga Franca e 5% Castelão, produzido na região de Lisboa. Com 14% de álcool, fruta bem evidente e mais notas - achei café, Paulão disse toques de terra, herbáceo - com boa permanência, acidez quase média, taninos macios e bem integrados ao conjunto, realmente casou com o quibe ao azeite. Final algo curto, mas razoável para seu preço. O segundo foi o Tarapacá Gran Reserva Etiqueta Negra 2020, um Cabernet Sauvignon que nada guarda com as edições mais antigas de quando eu era fã da marca. Seu doce de entrada no nariz - goiaba - surpreendeu negativamente e sequer lembrou o exemplar de mesma safra degustado no Chile ano passado, por ocasião do aniversário do Nagibim. As versões mais antigas apoiavam-se bastante na madeira, enquanto nas novas safras essa característica ficou em segundo plano. Verdade seja dita, a fruta enjoativa cedeu um pouco com a temperatura mais baixa - ou teria sido a aeração? -, mas deixou um quê de decepção. Tem sim outras notas de frutas, todavia seu dulçor ainda competiu muito com os taninos. Acidez? Baixa... nada como ter a comparação de taça ao lado... final? Oh, Lord... para ter final precisa ter início... Servi a terceira garrafa sob os olhares atentos do Lemão.
- O que eu queria era um vinho europeu para comparar com o Tarapacá, e que o batesse no menor custo possível, dentre o que tenho aqui na adega.
- E conseguiu justinho! De fato o Chocapalha bateu o Taracapá! - apoiou o Duílio, enquanto abria um sorriso largo ao dar-se conta da proposta e do objetivo. Os demais confrades concordaram com a avaliação, unânimes. O Fernando disse que o terceiro talvez fosse o vinho mais fraco, opinião não compartilhada. E ao final ficou claro: este acabou, enquanto o Etiqueta Negra sobrava em pouco menos de meia garrafa. Já escrevi algo como os melhores vinhos encontram as taças antes dos demais. É isso aí... La Garnacha Salvaje Del Moncayo é um dos exemplares do Proyecto Garnachas, baseado em La Rioja e com o intuito de resgatar essa cepa - conhecida como Grenache na França e Cannonau em algumas regiões da Itália - em diversas regiões do norte da Espanha, apresenta expressões do Priorato, dos Pirineus, de Aragão e da Serra da Cantábria - próxima a Rioja. Tem nariz com fruta bem vermelha, boca redonda com 14% de álcool, madeira discreta, acidez presente - não tão alta, mas não desaponta - e final condizente. Agrada, e não deixou por menos: conforme já relatado, evaporou na frente do Etiqueta Negra.
Os preços
Quinta de Chocapalha está por volta dos 10,00€ em Portugal, o que dá lá seus R$ 54,00. Tarapacá custa no Chile entre 15.000 e 20.000 Pesos, o que dá entre R$ 75,00 e R$ 100,00. La Garnacha Salvaje custa 9,00€, ou R$ 49,00, na página do produtor. O preço de 20.000 Pesos é o normal, e temos a promo com desconto. Verdade, seu valor lá oscila bastante - bem como de outros vinhos mais premium, o que só reforça a tensão para cima do valor pedido por eles. Grosso modo vemos um chileno a 2x do português e do espanhol, levando couro de ambos! E note: Tarapacá é rotulado como Gran Reserva, enquanto os outros são apenas vinhos simples, sem qualquer 'ostentação'. Chocapalha pode se encontrado aqui por até R$ 100,00- (menos de cem reais!), enquanto La Granacha estava uns R$ 110,00, para pagar no pix, o limite da compra; em seu preço normal, é tubaronesco. Já Taracapá pode, com muita sorte, ser encontrado a R$ 170,00. Seu preço normal antes das 'promos' pelas quais anda passando é uns R$ 230,00, embora possa esticar a até R$ 320,00(!). Vinho sul-americano está caro... mas onde você já leu isso, mesmo?
Preço do Tarapacá, lá e cá:
La Garnacha, lá e cá










