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Wednesday, February 19, 2025

Konvokation

Introito

Um governo do polvo, pelo polvo e para o polvo. Só isso explica um mandato ilegítimo do ponto de vista ético, exercido por um descondenado e cuja última propositura serviu apenas para tolos autoenganarem-se crendo-o merecedor de seus votos. É verdade, do outro lado não havia algo melhor nem menos fétido. Mas não justifica o voto em tamanho incompetente. A sequência de erros levou o dóla passar dos R$ 6,00 (recuou, é verdade, mas... até quando?) e ao insuportável aumento no preço dos gêneros alimentícios de dois anos para cá. Com IQ similar ao de polvo, esses eleitores seguem espalhando suas própria besteiras ao longo de seus caminhos e do tempo.

Mais um exemplo acabado de casuísmo foi uma portaria sugerindo que ovos vendidos a granel precisariam de um carimbo individual na casca de cada unidade. O equipamento para produzir tal marca está muito além do poder aquisitivo de pequenos e mesmo médio produtores. A 'jogada' foi óbvia: feita sob encomenda para concentrar a venda nas mãos dos poucos grandes players do mercado, beneficiando a gigante JBS recém entrada no setor e cujos proprietários se enroscaram feio com a justiça há não muito tempo. Isso, e apenas isso, seria suficiente para marcar de maneira indelével a honestidade de um governo posicionado supostamente ao lado do povo. Some-se o restante da obra - aumentos salariais maiores para as classes mais abastadas em detrimento dos pobres, e paremos por aqui - fica claro como essa administração falhou vergonhosamente desde seus primeiros dias. PS: se o raro leitor não percebeu, polvo também é um molusco...

Maremma: amantes e detratores

Era fim de semana. Havia combinado com a Débora uma troca de reféns - um tinha garrafas do outro, compradas aqui e ali -, quando a Liu apareceu do nada enviando um bom dia, via uátiz. Levou uma Konvokation no meio da fuça que sequer se atreveu a recusar 😂. Hora marcada, apareceu ela com o sorriso largo de sempre e pronta para um Calcu branco Gran Reserva. É um vinho já conhecido e degustado aqui diversas vezes; tem ótimo frescor, cítrico, mineral, boa acidez, acertadinho... mas está ficando caro (R$ 100,00+), e se bobear começará a sofrer concorrência de exemplares de Chablis... Da minha parte, ainda estava algo insatisfeito... sentia não ter aberto bem o ano, provado um tintão daqueles. OK, houve uma tentativa, mas a garrafa faiô (sic) e terei de tentar outro Montevetrano qualquer hora. Mas o Saffredi 2004, da Fattoria Le Pupille, correspondeu a meu desejo em alto estilo: basta dizer que a Débora levou-o ao nariz e simplesmente riu... não aquele sorrizinho hi hi hi, tímido, acanhado... riu à larga, solta, feliz, e a Liu não ficou atrás. Saffredi flerta - fácil - com a opulência: aerando por algo como uma hora, apresentou nariz rico, explosivo, fruta viva, junta e misturada (rs), vermelha e negra, mas não consegui distinguir alguma em especial. Ainda tinha chocolate - as meninas parecem  ter pego na taça seguinte. Tenho alguma sensibilidade em pegar chocolate nesses vinhos-bãos (rs), e algumas vezes notei esse toque até na frente do Akira, momentos em que ficava especialmente empertigado. Na boca, taninos maravilhosamente redondos, gosto à fruta, denunciando o exemplar ainda novo e com tempo de envelhecimento à frente. Ótima persistência, longa, agradável, marcante. Tudo muito integrado, os 14% de álcool nem se notam. Essa safra 2004 está madura e o no ponto, mande ver. 

À guisa de explicação

Saffredi é produzido como IGT na Toscana, na região de Maremma, ao lado de Chianti e próximo à costa italiana. Seus detratores dizem tratar-se, antigamente, de uma região pantanosa. Mas ora, pântanos drenam-se... Depois, acusam os produtores de modismos, por lá cultivar cepas bordalesas - principalmente, mas não só. Aí fica fácil: basta julgar o vinho! Na ficha técnica da safra 2022 - a única disponível na página do produtor - é uma combinação Cabernet Sauvignon (60%), Merlot (30%) e Petit Verdot (10%); tipicamente medocano. Como já atestado, é um vinhão. Assim os produtores claramente acertaram ao plantar aquelas cepas na região, e o resto é reclamação vazia. Na dúvida, prove-se do vinho! Sim, está algo caro (USD 100,00 qualquer safra, antiga ou nova; mas paguei menos dólas (sic) há uns 15 anos). Ele briga com Xatenêfis como o Cuvée Réservée do Domaine du Pégau ou o Cuvée Mon Aïeul do Usseglio, embora perca por boas duas cabeças, em minha opinião. Então sim, está um pouco caro atualmente. Há 15 anos esses CdP's não estavam nos preços atuais, e a briga seria igualmente dura. Paguei um vinho 20 ou 30 dólas mais caro? Sim. Valeu a experiência? Sim, pois ele é bom e um travesti de avaliador simplesmente paga por suas curiosidades. Por ter uma percepção 105% cartesiana dos fatos, não seria a minha grande compra. Paguei algumas moedas a mais pelo conhecimento, e poderei facilmente tornar-se um amante desses vinhos caso seus preços sejam algo menores. Alternativamente, volto a um Xatenefinho ou até a um Bordeaux, pois tem muito Graves excepcional - dentre outros - nesse mesmo valor.

   Registros finais de um encontro que teve bão...

   


Monday, October 28, 2024

Evento Mercearia 3M e novas comparações

Introito

O demônio mora nos detalhes.
Alguém. Mas bem poderia ser este Oenochato.


   Goethe era relativamente bom. Claro, em nome da honestidade intelectual preciso dar-lhe a precedência quando a assunto são minúcias, embora ele próprio não tenha sido o autor da epígrafe (às vezes é-lhe atribuída por engano) nem o primeiro a preocupar-se do tema: Aristóteles, Léo(nardo), Buonarroti e Galileu vieram antes dele. Atual e localmente, pelo que tenho visto de estúpidos encarregados da defesa de bocós e boçais, ser o portador desta causa cabe ao Enochato a vos escrever. Recentemente, convocada por uma Comissão Parlamentar, a Sinistra do Meio Ambiente foi curralada (sic), ou algo assim, por um bando de idiotas direitosos cujo QI aparenta ser 90, no máximo. Diz pouco sobre os parlamentares, eleitos por gente de inteligência inferior às deles, mas diz muito sobre a Sinistra deixar-se enredar por essa choldra. Um trecho do debate está aqui (11 min); observe que o mérito nem de perto está na qualidade das críticas à Sinistra, mas na autodefesa esboçada pela própria, com pouca competência ou sentido. No minuto 8:30 diz-nos que mais de 80% dos 'focos de calor' estão controlados. Mas como se iniciaram?! Onde estão leis rígidas e medidas eficazes para coibir esses malfeitos, ou pelo menos para punir exemplarmente os bandidos depois de feito o estrago? Não seria um dever de Sinistro de Estado encaminhar para o Congresso propostas nesse sentido? Onde estão elas, paradas no Congresso, na gaveta da Sinistra ou sequer foram alguma vez escritas? Que Deus dê o veredito de culpada à malandra. E ao seu superior, por ainda não tê-la demitido antes, para o bem da Nação.

Paduca

Teve um encontro da Paduca, ambos os vinhos às cegas. Ninguém acertou a procedência dos atores - ou acertou?, mas valeu (risos). Paulão, nosso membro mais adepto à experimentação e novas descobertas, chegou com um Beronia Crianza 2019, riojano corte Tempranillo (83%), Garnacha (15%) e Mazuelo (2%), dizem (rs), frutadão (não é uma crítica!) e mais notas na direção de chocolate, bem agradável no nariz. Boca alegre, fácil de beber, equilibrado, taninos e madeira discretos, alguma acidez. Beronia é um bom produtor, embora às vezes possa meter os pés pelas mãos - aqui. Seus Crianza e Reserva ficam atraentes nas numerosas 'promos'  encontradas nos quatro cantos da internet, e quando isso acontece são interessantes de se provar. Usar o Wine Searcher e comparar seu valor na Espanha com o da oferta daqui é primordial. Jamais pague mais de 2x, sob pena de alimentar um mercado francamente explorador do consumidor. E, nos dias correntes, com crise e tudo, teje esperto (sic): podem aparecer pechinchas melhores. Use o Wine Searcher sempre! Na esteira veio um italiano, o IGT da I Giusti & Zanza Belcore 2019. Corte  80% Sangiovese e 20% Merlot, tem mais pegada se comparado ao Beronia: o nariz vem marcado à fruta vermelha e notas como fumo/couro, a boca é mais complexa pela melhor acidez, taninos mais pronunciados - mas já bem redondos - e maior permanência. A Merlot é uma ótima uva para ser usada em cortes, e ajuda bastante a amaciar a Sangiovese - quem já leu sobre o Brunellogate (1, 2, 3), escândalo onde os vinhos 100% Sangiovese supostamente foram cortados com justamente a Merlot - sabe muito bem. Declarado como IGT, Belcore atesta a presença da cepa francesa em seu vinho e não engana o consumidor. Ele é amplamente melhor, mas tem a obrigação de sê-lo, pelo preço: custa 50% a mais, USD 19,00 contra USD 13,00 de Beronia Crianza. Por aqui seu preço tem variado muito, entre R$ 160,00 e R$ 287,00(!), oscilante entre boa oferta e tubaronice. Mas repetindo: para o 2x de Belcore, o consumidor atento pode encontrar melhores opções.

Malucadeliu

Por ocasião de algum encontro da Maluca (rs), provoquei os confrades sobre um desafio explícito Sul-americano versus Europeu. A turma aceitou e nos reunimos alguns dias depois, para uma prova às cegas. Trouxe alguns bois de piranha em minha última viagem para o Chile, e tenho feito algumas brincadeiras, como esta na Paduca, ou esta na #Émuitovinho, onde todos identificam, sem muita dificuldade, a diferença de qualidade entre os vinhos. E nunca é o caso de se colocar vinhos díspares - pelo menos não no preço! - na mesa, pois assim torna-se claro que, para produtos do mesmo valor, a diferença de qualidade torna-se abertamente observável, para bebedores com um mínimo de traquejo. A questão, então, gira em torno da possibilidade do leitor promover com seus confrades comparações adequadas: é necessário colocar vinhos de valores similares em seus respectivos países de origem, e para isso nada como o Wine Searcher. E sempre lembro: um vinho de valor 'x' em seu país de origem pode custar no Brasil 1,8x, 2.5x, 3.2x ou 4.8x. Esteja atento! Nunca pague algo superior a 2x! Nunca! A presente brincadeira envolveu um vinho já degustado aqui, entre um ilustre representante da desconhecidíssima cepa Monica, o Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, da Argiolas, e um dos vinhos que já esteve entre meus prediletos, o Tarapacá Etiqueta Negra CS, safra 2020. Degustado inicialmente em maio deste ano, Iselis não teve dificuldade em amassar o Tarapacá; pelas degustações relativamente recentes (siga os vínculos), creio-me dispensado de comentar as notas de cada um deles. Como nota, de propósito deixei o Tarapacá resfriar um pouco mais para ver se empesteava com buquê à pirazina, mas não aconteceu, ao contrário do ocorrido com um Casillero recentemente degustado. Comento mais abaixo.

Mercearia 3M

A Mercearia 3M promoveu uma rapidinha estes dias. Não estava sabendo, mas o sr. Cristian Olate Rojas, representante da Calcu, ligou-me avisando. Nos conhecemos em maio de '23 quando tive a grata surpresa de provar seu ótimo branco, o Calcu Branco Gran Reserva. Conversamos mais um tanto sobre o estado do preço (sic) dos vinhos chilenos, e ele concorda que de maneira geral estão caros. Atribuiu parte do custo à evolução e cuidados dos produtores com o processo. Depois fiquei pensando, e não me convenceu que tais custos justifiquem os vinhos triplicarem de preço... ademais, as comparações com as confrarias demarcam a qualidade dos vinhos como o oceano demarca a distância entre Américas e Europa... Calcu Branco 2023 está com a acidez marcante, frescor e final marcado como da safra anterior, e cairá bastante bem com um sushi. Os tintos mais simples de Calcu agradarão os consumidores de vinhos chilenos, mas para mim faltou-lhes acidez. A Ravanal estava lá, mas não lembro-me do nome de seu representante 🙄. Os toques de pirazina revelaram-se mais discretos - como nos Calcu tintos - e a explicação foi a alteração da época da colheita para um momento onde esta pronuncia-se com menor força. Parece estar dando certo, pois não a notei como em safras provadas há uns poucos anos. Falta resolver o problema da acidez. E do preço. 


O inesperado atacou novamente na figura da Bodega Albaflor, com seus Merlot (2019) e Syrah (2020). Ambos com mais de 14% de álcool, mostraram acidez surpreendente com boa persistência - para sul-americanos, bem entendido. Gostei mais do Syrah pela expressão de fruta mais marcante e toques chocolate ao nariz, bom corpo, taninos já arredondados, pronto para beber. Se o preço for mesmo cerca de R$ 150,00, bem... sabemos como eles seriam alvos fáceis numa competição com europeus. Penso por exemplo no Quinta do Noval, cujo Syrah 2018 embalou a parte inicial desta postagem... não se compara... o mais engraçado é que havia sobrado um pouco dele, quando convidei a Débora para dar-lhe cabo. Mas achei pouco meia garrafa para dois, e acabei abrindo também um Valduero Crianza 2016, e adivinhem... sim, sobrou meio Valduero para o dia seguinte - o mesmo a embalar o final destes comentários... como o leitor percebe, postagens bem atrasadas. E não espero dar conta, esta semana a programação promete ser intensa.

Monday, December 11, 2023

QI de ostra

Introito

É dito ter QI de ostra quem se apresenta com QI de ostra.
Oenochato

- Carlão... o MLB está derretendo! - assim provocava-me, à beira de um orgasmo e de supetão, bolsonésio de alta estirpe. Corria o ano de 2019; imerso na mais profunda dissonância cognitiva possível, ele chegava a rir de si mesmo quando tentava explicar o inexplicável para justificar as atitudes de seu mito. Ao final do primeiro turno da eleição passada ('22), Kim Kataguiri  e Guto-Negão-Capitalista eleitos - nenhum deles com meu voto (Beraldo e Amanda...) -, e sendo chamado de isentão pelas hostes do atraso, continuei inflexível em anular meu voto para presidente e governador. Também não adiantou argumento de PTlho sugerindo a (suposta) vinda de dinheiro federal para meu ramo de atividade - junto da ciência brasileira - caso Ali Lulá ganhasse, o que justificaria meu voto nele. Bem... além de negar aliar-me a transeuntes escoltados nos corredores da justiça, de onde saíram condenados - sentença cuja confirmação seguiu-se por todas as instâncias conhecidas e desconhecidas do Judiciário - antes de votar em um candidato dito amigo da universidade (não da Ciência! Não da erudição!) eu voto em um projeto de país. Pouco importa se minha atividade profissional possa ser beneficiada por este ou aquele postulante. E, para constar, este ano o ensino superior sofreu dois cortes drásticos em suas verbas. Outro amigo, ainda, queria porque queria sugerir-me a Simone Palíndromo. Caiu na vergonha quando ela aderiu a quem aderiu, e ainda levou ovo na cara e tinta na nuca até depois da eleição. Já escrevi à exaustão: sou de esquerda, embora envergonhe-me a esquerda de hoje (desde 2004). Desencanta-me quase toda ela - posto apoiarem quem apoiam - mas a esquerda é muito mais do que essa turma com QI de ostra. No campo diametralmente oposto (QI de ostra com sinal trocado), bolsonésios ainda não caíram na real. O mais curioso é os esquerdalhas chamando o MLB de extrema direita, enquanto os direitolhos chamam-no de extrema esquerda (sabia disso?). Leitor, pense um pouco e diga-me: como isso pode ser possível, senão por uma alucinação coletiva?
   Pelo que vi das atuações de Kataguiri (agora em segundo mandato), Arthur (impedido covardemente durante um final de semana e na calada da noite, literalmente) e Guto (comandou na Alesp a importante privatização da Sabesp), além de diversas lives assistidas ao longo do ano, vejo o MBL como direita sim, extrema direita jamais, e o único grupo capaz de não causar outra profunda desilusão à população. Não, não assisto lives da esquerda. Tiveram 14 anos para fazer algo pelo país. Caímos no Pisa. A tão sonhada reforma agrária não foi realizada - ou não haveria motivo para o grupo que a defende estar ativo. Dilma foi impetxada (sic) a favor da economia e pelas razões políticas - o impitxe é um ato político - sobejamente conhecidas, e já dentro de uma recessão cujos efeitos se fazem sentir até hoje. Percebe? Essa turma teve sua oportunidade, a mais longa sequência de governo na história deste país (sic), e acabamos n'água. Não perco mais meu tempo com eles; suas ideias esgotaram-se, perderam-se na própria imbecilidade de onde foram geradas. Às vezes penso se o proposto QI de ostra não está superestimado.

Paduca outra vez

Prezando pelas reuniões quinzenais - e algumas extemporâneas - a Paduca vem sendo protagonista constante no blog, e encontrou-se dia desses para outra celebração da amizade (em primeiro lugar), do vinho (também em primeiro lugar! 🤣) e da boa vivança (sic! rs! e idem, novamente!). Desta vez a recepção correu na casa dos bon vivants Duílio (sentado) e Eva, ela ao lado do Enochato, com o  Paulão e o Fernando à esquerda. Pensamos na difícil harmonização de vinhos e xuxi e mandamos ver. Levei, por entrada e curiosidade, a cava brut Freixenet Cordon Negro, e assim iniciamos os trabalhos. Comentei há pouco dela, é um espumante simples mas bem adequado para meu padrão, acima de muitas opções nacionais no mesmo valor, com preço razoável por aqui; tem seu buquezinho cítrico, gostoso, bolhinhas mais ricas dentre os espumantes apreciados recentemente em degustação, alguma acidez e nenhuma, absolutamente nenhuma harmonização com xuxi. Aqui um parênteses: o pessoal pediu um mix bem sortido de xuxis; eu aprecio somente o corte de peixe cru e aquela variação do peixe sobre arroz - sejam quais forem os nomes... 🙄 A questão é quanto outros ingredientes das diversas misturas - cream cheese, por exemplo - podem alterar a harmonização... não sei, porque não consumo...

Aportei ainda um Montemajor Passerì 2019. Corte entre a desconhecida Petit Manseng e a onipresente Chardonnay, esse exemplar de IGP da Lázio não estava tão fresco quanto da primeira vez que o experimentei, nas degustações online promovidas pela Enoeventos durante a pandemia, veja aqui. Seu buquê antes rico pareceu menos consistente, embora a boca mantivesse acidez - talvez não tão boa - e toques cítricos, combinando um pouco com o pescado. Na trilha de boa experiência passada, o Paulão trouxe um Calcu Gran Reserva branco 2021, corte Sauvignon Blanc-Semillion, vinho de ótima acidez e já comentado aqui. Tem um toque cítrico bem marcado no nariz que repete-se na boca, com acidez e boa permanência. Em alguma temperatura - foi fugidio - teve melhor combinação com o salmão, e não consegui reproduzi-la mais, mesmo voltando a garrafa na água gelada, servindo e degustando aos poucos, com fatias do peixe. A menos desse momento, que pareceu realçado, não combinou tanto, mas não descombinou, na opinião dos confrades. Ele defendeu-se bem com um pexim de hamoniazação sabidamente complicada. Teve bão...

Degustação do Shot Café

Jairo apresentou sua nova linha de vinhos portugueses importados pela Wine Concept Brasil. Essa turma não faz muito lançou uma linha de vinhos do Alceu Valença, ótimo cantor, de quem gosto muito, homenageando sua famosa canção La Belle de Jour. Não experimentei, mas pergunto: que fim deu o vinho do Brédi-bonitinho-da-bala-Chita-Pitt e da Angelina-maravilhosa-Jolie? E os vinhos do Sting, chegaram por aqui? Como está o do Danilo Gentili, o alentejano Putos? (puto significa garoto ou menino em português portugaico - rs!) Quem se lembra do vinho em homenagem à seleção canarinho na copa de '14, Faces? Seus detratores reclamaram da letra trocada no nome, o correto seria Feces; não provei. E o... já percebeu, né? Nada contra homenagens, mas essa não parece ser uma estratégia vencedora em vinhos. Eu pretendia mesmo era recobrar um pouco da história do vinho nacional para os leitores mais jovens ou aqueles sem muito interesse direto em fatos pitorescos, a ponto de procurar por eles. Há uma postagem engraçada sobre o Faces aqui. Agora, com seriedade.


O Jairo/Shot Café andava à procura de uma linha básica de vinhos para começar a repor seu estoque para 2024, e contatou seu conhecido Johnson Rogenski, da Wine Concept Brasil. Organizou uma degustação com seis exemplares do portfólio da WC, e compromissos de fim de ano não permitiram muitos dos confrades regulares das atividades do Shot participarem. Foi uma pena - para eles! 🤤 Sobrou vinho para nós! Para esta postagem, uso a foto do fotógrafo Essio Pallone e recobro meus comentários da postagem de outubro acerca de fotografia. Vejam que bela foto. Nem precisei recortá-la, o enquadramento estava pronto! A transparência das garrafas foi capturada com perfeição, a claridade do entardecer ficou onde precisava - do lado de fora - e no final eu gostaria de saber de vinho o que o Essio sabe de fotografia...

Animado com as conversas - faltei à degustação anterior -, confesso não ter anotado as características dos vinhos. São simples, custam na faixa de R$ 60,00. Experimentei o Moço Fidalgo tinto antes dos brancos e rosés, pois já estava resfriado e achei-o algo ligeiro e com um dulçor a mais. Tinha sim alguma fruta - qual? - mas acidez baixa, com final pouco marcado. Pelo valor, é melhor se comparado a joias (sic) ofertadas por lojas de venda maciça a valor similar. Eu o colocaria às cegas na Paduca, por exemplo, pois é uma turma que começa a galgar os primeiros degraus na degustação séria do vinho, embora os confrades venham provando vinhos há uma década ou mais, sem tanto compromisso. Com a confraria e minhas preleções Enocháticas (rs) nas reuniões, estão desentortando a boca (😂), e esse alentejano, mistura de Trincadeira, Aragonez e Castelão, talvez possa ser identificado por eles. Mas não será agora... Fui procurar o preço no Wine Searcher, e encontrei apenas uma citação dele em Portugal, a cerca de 5,00 €, o que dá quase R$ 30,00. Portanto o valor de venda - inferior ao próprio sítio do importador - está no limite de 2x. Aí gostei... O estranho de uma única citação de um vinho em sua terra natal sugere um produto desenvolvido para  o gosto brasileiro. Tinha achado um doce a mais no paladar, não é mesmo? Então... Mas esse doce não compromete. O Mar Salgado - toda a linha - achei um pouco abaixo do Moço Fidalgo. A grata surpresa - e ponto alto - veio do Moço Fidalgo branco, corte Antão Vaz, Síria e Arinto. Pelo encontro recente da Paduca, perguntei-me sobre sua harmonização com xuxi, e acho que a tentarei mesmo, dada sua boa acidez, aliado ao nariz que também chamou atenção. Os aperitivos vieram da Bahja Culinária Árabe, e proporcionaram boa harmonização com os brancos. O quibe também não jogou contra o Moço Fidalgo. Ainda não aprendi a apreciar rosés; ouvi bons comentários de ambos, embora - e novamente - as preferências recaíssem sobre Moço Fidalgo. O leitor apreciador de rosés deve evitar preconceitos, e experimentar dos dois. Como diria, teve bão. Aguardemos uma degustação com vinhos melhores para 2024.

Monday, May 29, 2023

Evento da Mercearia 3M - parte III: teste de campo

Introito: encerramento do encontro


A Salete lembrou-se de registrar parte da turma que circulou pelo evento. Dentre uma galerinha que volta e meia encontra-se ou na Mercearia ou no Shot, estavam este Enochato, a Aninha, a Thais mais atrás, a Tatiana, a Salete ao meio com o Eduardo da Caminhos do Turismo e a Ana. Um pouco mais atrás, tímido, rapá que só viria a conhecer em degustação no meio da semana seguinte, o Moisés. Salete enviara a foto em tempo do fechamento da última postagem, mas na pressa para postar e sair correndo (rs) para outra degustação em pleno domingo - aguardem, tem mais besteira vindo por aí - acabei deixando passar. Fica o registro de uma galera que tornou a noite muito agradável...

Teste de campo do Calcu Gran Reserva Branco

Paulão liga convocando para comemoração da formatura do Vinícius, cuja colação de grau vem aí. Na foto, Vini à minha frente, junto de Paulão e Dona Claudia; ao meu lado a Jéssica e o Francisco, filho mais novo do casal. A provocação - comida japonesa - não poderia ser melhor: no ato lembrei-me do Calcu branco. Encontrei a família reunida degustando um Vinha da Defesa Branco 2018, já comentado aqui. Sem surpresas: mostrou seus toques cítricos, acidez presente, boa persistência e final. Costumo comer mais sashimis e nighiris, (salmão e atum), deixando variações mais condimentadas de lado. Harmonizar cozinha japonesa é difícil; se começar a inventar com mais temperos e variações, nada funciona... Defesa não fez feio; se não foi uma harmonização com "H", não nadou contra a corrente. Servi Calcu Gran Reserva 2020 e logo ouvi dois suspiros enquanto Paulão olhou-me feio e disparou: O canalha recomenda vinhos e depois traz essas coisas diferentes para acabar com o que comprei! 😔 O mundo não é perfeito... 🤣. Enquanto Calcu também repetiu as notas já descritas aqui, para os novos provadores foi uma descoberta feliz; a mesa toda preferiu o chileno ao português. Sim, ele está mais fresco - é 2020! - contra um vinho algo envelhecido e tem a seu favor a madeira cuidadosamente harmonizada. Sua maior acidez e frescor de fato aderiram com mais graça aos peixes, conquistando os convivas. Tecnicamente, reputo Calcu como melhor. Não harmonizou (com "H") tampouco, mas apresentou-se melhor. Agora vejamos os valores.

   Calcu custa no Chile entre 6 e 10 'Luca' (1 Luca = 1000 Pesos Chilenos), o que dá entre USD 7,50 e USD 12,50 (R$ 38,00 e R$ 62,00), na safra 2021. Defesa tem um valor de marcado mais constante nas lojas de Portugal, cerca de 6,70 a 7,20 Euros (R$ 35,50 a R$ 38,600). Olhando o preço inferior de Calcu no Chile, não é injusto classificá-los na mesma faixa de preço para o consumidor, em seus respectivos países. No evento da Mercearia - se não estou enganado - custava R$ 90,00, mas encontrei Calcu na internet por R$ 80,00. Tomando por base o menor preço do Chile dá cerca de 2x para os R$ 80,00 do Laticínio Marcelo. Se custar muito mais, está caindo na tubaronice... Defesa, conforme já comentado, é um bom vinho na faixa do R$ 60,00 - dá menos de 2x! - e mencionei não valer os R$ 95,00 regulares cobrados amiúde por aí (2.7x...). Vemos agora um chileno batendo um português - e um português tradicional - em preço e qualidade. Os importadores que se emendem. Não tenho o menor constrangimento em reformar opiniões antigas e mudar de vinho. 

Calcu, no Brasil


Calcu, no Chile



Defesa, no Brasil

Defesa, em Portgal




Monday, May 22, 2023

Evento da Mercearia 3M - parte I

Introito

Num país desinformado, 
os canalhas mostram-se prestativos.
Dito d'Oenochato

   As últimas considerações acerca do PL da Mentira gerou um e outro comentário de amigos via uátizáppi; o ponto comum versava sobre a dificuldade do cidadão comum acompanhar o trâmite das leis em discussão no país. Sim, é muito pouco acessível e complicado. Uma vez apresentada, a lei pode sofrer emendas (e, não tenho certeza, alterações mais profundas - tais questões são complexas. Sei que emendas e outras alterações não podem mudar o espírito da lei. Por exemplo, a lei Roubar não é permitido não pode virar Roubar é permitido - embora essa frase pareça ser o mantra de alguns políticos muito conhecidos de todos nós). As reflexões seguiram a direção de como saber o leitor estar acompanhando a última versão do texto. Seguramente deve existir uma forma, mas não a vemos estampada por aí aos quatro ventos, por iniciativa de qualquer partido, do governo ou mesmo do Legislativo, a quem, supostamente, deveria interessar a participação popular no destino do país. Quanto ao Judiciário - eram do TRE aquelas propagandas incentivando o brasileiro a votar, evidenciando a importância do sufrágio? Pois é, na ora de encorajar o eleitor a acompanhar a tramitação das leis cuja aplicação ficará sob seu encargo, 'nada' também: o Judiciário cala-se, não orienta. Depois pretende tomar para si a tarefa de legislar, e acredita poder escapar do repúdio da população.
   Uma abordagem deixou margem para a questão: como podemos nós, indivíduos comuns, tomar partido em qualquer lei tramitando no Congresso? Problema difícil, para a qual arriscarei uma solução simplista: veja quem propõe (menos importante), quem está contra (importante) e quem está a favor (importantíssimo). Acreditando os bandidos (sic) estarem a favor, sua posição - sendo cidadão de bem - está automaticamente definida. A menos, claro, de você estar ganhando algum com tal aprovação, e não devo mais designá-lo cidadão de bem. Formar a própria opinião - mesmo não sendo a melhor, ou sendo até um tanto equivocada, mas sendo sua, e sabendo discuti-la com quem sabidamente não esteja claramente tomando partido de um dos lados  - é de suma importância, principalmente em um país desinformado onde os canalhas mostram-se prestativos e prontos para indicar-lhe a boa maneira de votar ou posicionar-se. Faça a diferença: tome partido por si.


Evento da Mercearia 3M

   A Mercearia 3M promoveu uma feira de vinhos de sua importação, com a presença de alguns produtores ou seus representantes. Dentre os mas conhecidos - para mim - estavam as chilenas Ravanal, Perez Cruz e Viu Manent. Defendendo as cores de Portugal, a Vale de Lobos. Com a promessa de 50 rótulos à disposição do degustador, sabia de antemão ser necessário concentrar-me em uma gama restrita. No caso dos chilenos, a proposta sempre tem sido avaliar o estágio da arte de seus produtores e observar se e quanto evoluíram desde minha desistência em comprar vinhos do país andino. Cheguei um pouquinho cedo - fui o primeiro! - e passei fotografando todas as mesas antes de instalar-se o movimento. 

Notei um jovem expositor a falar espanhol; olhei os rótulos - Calcu - do Vale do Colchagua e desconhecidos para mim, com quem puxei conversa. O senhor Cristian Olate contou-me do início da vinícola, com o plantio das vinhas em 2003 e o lançamento dos primeiros exemplares muitos anos depois, enfatizando a evolução dos vinhos nesse curto espaço de tempo. Ofereceu-me seu Calcu Branco Gran Reserva (2020?), corte Sauvignon Blanc-Semillón com nariz cítrico e mais complexidade que não distingui por pura incompetência - mas está lá. O cítrico repete-se na boca com ótima acidez, surpreendente até, de tão marcada, alguma mineralidade e bom frescor acompanhados de final harmônico e muito agradável. Fiquei muito surpreso e para minha admiração tanto as pessoas para quem comentei sobre ele tiveram a mesma impressão de um vinho muito bom quanto outras ao longo do evento vieram conversar e apontaram Calcu Branco Gran Reserva como o melhor vinho da mostra. Se o leitor não acredita mas acompanha postagens do blog, sabe das reclamações quanto aos vinhos chilenos versus seu preço de mercado. Calcu Branco vale quanto pesa e pelos cerca de R$ 90,00 é boa compra. Prova maior está no fato deste escriba ter adquirido duas garrafas ao final do evento, rompendo uma recusa em comprar vinhos chilenos já a durar mais de uma década. Fica posto então o mantra deste articulista sobre honestidade intelectual e disposição em reformar a opinião quando confrontado com as evidências. Não sei quanto ele custa no Chile - vou procurar, até para mostrá-lo aos amigos de lá - mas seguramente ele não raspará no absurdo de um Sol de Sol, certa vez comparado às cegas lá no Chile com um Jadot AoC da Borgonha e ficando em segundo lugar. Detalhe: o melhor Chardonnay chileno, como é vendido na El Mundo del Vinho perdendo para um reles AoC borgonhês cujo preço em seu país de origem era a metade do sul-americano. E comprei ambos ao mesmo custo - 18 mil pesos - com o chileno em promoção(!) e o segundo a valor regular. Voltemos aos Calcu: o Rosé Gran Reserva (Malbec-Petit Verdot?) não convenceu, mas, como adiantara ao Cristian, sou um emérito detrator de rosés (risos!). Nos tintos, dois Reservas Especiais, um de Malbec e um corte - segundo a Internet, 60% Cabernet Sauvignon, 30% Carménère e 10% Malbec. Em ambos, boa fruta, especiaria sem o impacto do pimentão característico da região, madeira discreta e álcool contido. Faltou para ambos a generosa acidez presente no branco, tornando-os um pouco ligeiros no final e portanto sem maior diferencial se comparado aos demais chilenos.


Fui para os Ravanal - nunca esqueci-me da recepção maravilhosa proporcionada pela Pia Ravanal na vinícola, há muitos e muitos anos - e escolhi em primeiro o Cabernet Sauvignon Gran Reserva 2020. O indefectível pimentão está lá, como estava na safra 2016. Explicou-me ela em 2021, quando provamos dele, ser essa uma característica específica do Colchagua. Com o Carmenère ao lado, provei dele logo em seguida. Sim, está lá no Ravanal Carmenère Gran Reserva o mesmo pimentão! Ambos com boa entrada na boca, taninos bem presentes, pecando pela baixa acidez. Final um pouco ligeiro, para quem já aprendeu o verdadeiro significado de um final longo, são vinhos para fazer sim a alegria dos adeptos... apenas o meu gosto mudou, está para o outro lado do Atlântico onde a acidez deixa sua marca indelével na língua e na memória do bebedor. A vinícola estava muito bem representada com 12 rótulos se contei corretamente, mas centrei-me na linha Gran Reserva; havia muita coisa pela frente, ainda. Com tantas opções e pela minha disposição em participar mais pela diversão e reencontro com diversos colegas e amigos, deixei passar em muitos casos as safras (veja os rótulos da Calcu, não as trazem na parte frontal, e isso repetiu-se em vários outros casos) e sem tomar notas mais precisas sobre muito do que foi degustado. O importante, creio, é a impressão geral da feira, a ser complementada na próxima postagem. Obrigado pela leitura e paciência...