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Thursday, May 7, 2026

As outras estórias

Introito - Renan, um coxinha

   Bolsonéscios e PTlhos voltaram suas metralhadoras de massinha para o pré-candidato Renan Santos. Ouço críticas - bisonhas - de ambos os lados; como sempre, as da esquerda cobrem-me de vergonha. Toca levantar a pena para ensinar essa turma a fazer a boa crítica, atacando a ideia sem arremeter contra a pessoa. O vídeo abaixo tem dois minutos e meio. Mostra como o sr. Renan Santos é um ótimo candidato a coxinha. O termo é usado maciçamente em São Paulo, significando uma pessoa conservadora e inocente que segue padrões típicos das burguesas classes média e alta; um mauricinho por assim dizer. Assista, e comentarei abaixo.


   Está claro, a partir de 38 segundos: "Veja, quando você é traído uma vez, a gente (sic) aceita. Pô, fui traído uma vez... acontece. Todo mundo tá sujeito a isso. Agora algo muito diferente é você permanecer sendo traído e aceitar...". Como é que é?! Sim, "todo mundo tá sujeito a isso", é uma grande verdade! Mas supor o cidadão sento enganado ininterruptamente por Flávio Bolsonéscio e aceitar esse cenário? Aí não! Que conjectura cretina! Não poderia sê-la mais, aliás! Onde já se viu, imaginar o cidadão de bem sendo embromado continuamente por seu líder e persistir impassível como gado no pasto. É preciso ser muito, mas muito, mas muito otário elevado ao quadrado para continuar nessa posição sem rebelar-se contra um eventual mentiroso contumaz cuja missão na Terra não parece ir além de atazanar nossos ânimos. Está bem, ambos os lados possuem QI inferior ao de uma Glyptemys insculpta, a popular Tartaruga-de-Madeira, que em testes de aprendizagem em labirinto em "T" precisou de apenas quatro tentativas para encontrar seu alimento. Humanos, presos em labirintos mentais, perduram cativos por anos, até décadas, e tanto não percebem quanto não fazem esforços para escapar dessa situação, mesmo se alertados! A tartaruga está melhor de inteligência (sic) do que muito título de eleitor preso em ambulante desavisado espalhados pelo país. Voltando, afinal a crítica tem Renan como destinatário. É isso: pego em um momento de improvisação, ele atenuou a análise sobre a postura de quem se deixa enganar sequencialmente e, ao fazê-lo, ficou parecendo um coxinha - posto assim, e apresentando o argumento para bolsonéscios e PTlhos, estes certamente o elegerão como tal, sem sombra de dúvida. É o mais longe que podem almejar atingir, pobres gados. Puxando o tema desta postagem, outras estórias, quer um projeto de país? Procura uma equipe jovem e com disposição de tocar avante uma transformação de verdade no Brasil? Escute esse senhor e seu time. Alguns improvisos podem soar coxinha (sic), mas ele é de longe a melhor opção para uma nação tão combalida como a nossa. Ah, tem mais: de quebra, ouve-se no final do vídeo uma reflexão oportuna por parte do coxinha. Bolsonéscio de bem (sic), apresente um plano de governo por parte de seu... líder... se consegue chamar assim quem o engana tão deslavadamente. PTlho, vou deixá-lo de fora nessa, por óbvio: NAP não tem qualquer proposta, está claro depois de três mandatos - fora os Anos Dilma. Ah, questiona a proeza da tartaruga? Leia aqui.

Outras estórias...

Os Paduquentos continuam sua jornada pelos brancos. Depois de um Saint Véran, foi a vez do Chablis, produzido pelo Vincent Wengier em 2023 (a safra está no contrarrótulo). O buquê cítrico de entrada foi facilmente reconhecido e agradou. Não estou certo se o Paulão disse Pera, mas tinha algo mais amarguinho. Limão? O Duílio destacou o impacto em boca, sem saber se expressar. Mineral, sugeri. Isso! Era a palavra que eu procurava!, ele se entusiasmou, de verdade. Um toque levemente salgado, não? - continuei, para a completa concordância do confrade. Sim, a mineralidade se destaca bem, como esperado em um Chablis. O mesmo cítrico repetia-se no paladar, com acidez média, talvez média-mais, álcool a 13%, o salgadinho já mencionado, com permanência e final não acompanhando a apresentação em boca, mas bem definidos. Pelo que pagamos (R$ 170,00), surpreendeu positivamente. CellarTracker e Vivino falam em USD 25,00-USD 30,00; no sítio do produtor custa € 21,00. Razoável. Esgotou (não sei quando, é uma dessas páginas que o Google encontra) em uma importadora a R$ 265,00, um pouco além de 2x. Mas a compra foi ótima. Está no ponto de beber, de agora até o próximo ano. 

   Há algum tempo abri um Noval, o Touriga Nacional 2017, se não me engano - não fotografei. O exemplar não evoluiu bem em garrafa, e mesmo com aeração não decolou. Os confrades não aprovaram com razão; embora mostrasse notas bem discretas de fruta e alguma acidez, estava no limite do bebível. Haviam provado de outros Novais, sabiam da qualidade, e aquele ficou um um sabor de ter faltado. Passou algum tempo e este Enochato sacou mais uma garrafa para espantar a frustração dos amigos, desta vez na safra 2020. Aerou por umas três horas e foi servido às cegas depois do Chablis: chegou com força, tocando o terror pra cima de mentes a almas, memórias e nervos, narizes e bocas, impondo-se, como adoram os Paduquentos. Muita fruta na frente, seguida de especiaria e algo herbáceo para fechar. Tem mais complexidade ali, café, ou chocolate, para ser desvendado. Gigante... Boca com taninos firmes encontrando a maciez em estágio inicial - vai longe... tem fruta, o chocolate (café?) volta a aparecer, tem uma pontinha do dulçor característico dos Durienses e ótima acidez. A madeira comedida deixa sua marca, os 15% de álcool estão equilibrados e a permanência é longa - longa de verdade, não àquela vergonha atribuída a sul-americanos de R$ 120,00. Chega a 30 dólas lá fora, e em algum momento comprei a R$ 199,00, ou até menos - estavam sendo desovados ali por '23 ou '24. A Vingardevalise ainda tem o Syrah 2018 por esse preço, e vale a pena. Está pronto para beber; se cabe no seu bolso, não perca. 

Mais estórias...

Havia combinado de jantar com a Liu - ela insistiu em levar o vinho. E às vezes dá tudo errado... 😨 Bem, não tudo, nem errado, para falar a verdade, e como veremos mais adiante. Ela estava abrindo uma garrafa quando a rolha deu uma esfarelada. Sem um saca-rolhas de pinça à mão, resolveu pegar outro exemplar para poder aerá-lo pelo menos uma hora. Felizmente a rolha do segundo colaborou... 😄 O vinho em questão era um dos meu preferidos, e eu a havia presenteado com ele! Ah, não é que deixou de sê-lo, eu apenas não consigo mais comprá-lo ao valor pago durante a pandemia (R$ 265,00 a R$ 290,00), quando devo ter comprado, durante aquele ano, um total de 12 garrafas. Mostrei pra muita gente. Bebi algumas garrafas sozinho - que felicidade! Dei pelo menos duas de presente. Então, num gesto muito carinhoso e desprendido, um precioso frasco voltou para mim...

Korem é o nome da fera! Produto da Argiolas, é um dos grandes representantes da Sardenha, em seu corte não linear (rs!) de Bovale, Carignano e Cannonau. Quão bela é a criação do Senhor - 😒 quando ela dá certo, claro! E Korem é sempre uma aposta certeira: buquê carregado como ficam nossas árvores frutíferas no verão do Sudeste, imerso em frutas maduras, e ainda sobra espaço para um desfile de sensações; nem precisa ter muito nariz para perceber, tem de tudo! Café, chocolate, fumo? Estavam lá, pelo menos dois deles e para melhores narizes classificarem. Algo de especiaria, couro, herbáceo. Essa talvez tenha sido a melhor garrafa que provei dele: a acidez está maravilhosa, a madeira dá o toque e os demais atores (álcool, dulçor) estão maravilhosamente equilibrados. Korem 2015 é o vinho em seu esplendor; ótimo momento para se degustado, com mais alguns anos pela frente. Não sei como ele poderia melhorar mais, a tendência é manter-se assim por algum tempo e depois começar a declinar. Ao final, uma certeza: ótimo agora. Sobre preço/valor, as postagem passadas já fecharam a questão.

Uma estória (quase) triste

Aqui recupero a estória da Liu e sua malfadada rolha. Ela estava abrindo nada menos do que um Quinta do Vallado Field Blend da histórica safra de 2011. Quando soube o que era, comentei que sim, o vinho sobreviveria na geladeira, mas precisaria ser consumido no dia seguinte... como ela tinha uma sequência encadeada de aniversário, casamento, crisma e batizado pelos próximos dias (risos!), não poderia bebê-lo. Pois eis que a Paduca veio salvá-la, ao melhor estilo de João de Santo Cristo quando aceitou a passagem do boiadeiro com destino a Brasília. Ela deixou a garrafa em casa e os Paduquentos, devidamente alertados, apresentaram-se para os trabalhos em uma incerta de surpresa mas muito bem vinda. A vinificação desse vinho está sob os cuidados de Francisco Olazabal, um ícone da viticultura portuguesa e cujo foco é a ênfase na melhor expressão do terroir lusitano. Já bebi dele algumas vezes e adianto: é grande; posto lado a lado, ele daria uma lapada em Korem. Lembre-se: ele repousou 24 horas em geladeira. A temperatura pode ter desacelerado a velocidade de oxidação, mas ela aconteceu. A fruta vermelha mostrou-se exuberante, intensa... alguém falou framboesa e/ou cereja, e concordamos com essas sugestões. Um toque de carvalho pegado convidava a prestarmos mais atenção, e por trás dele vinham mais notas. Chocolate/cafe? Tabaco? O destaque fica por conta da intensidade, mesmo face a Korem: mais... penetrante, profunda... seguramente mais complexas também. Em boca, taninos vivos mas macios e sem arestas misturavam-se a uma acidez delicada e enganadoramente discreta - parece baixa, mas o que explicaria a persistência? Frutas e chocolate (novamente), álcool bem integrado, um conjunto muito acertado aos 14 anos e ótimo momento para ser degustado. A permanência é outro ponto alto: após um gole o bebedor saliva, engole e ele continua lá. Outro indicador de acidez... Vallado ainda vai longe - cinco anos tranquilamente mantendo esse aspecto, e depois algumas notas poderão cair para outras se reforçarem: característica de um ótimo vinho ainda em evolução. Beba ou guarde. Um Vallado nem tão bom - safra regular - estraçalhou um ícone Uruguaio, está aqui. E custa USD 35,00 em safras recentes (tá, a 2011 está avaliada em uns USD 90,00). Mas qualquer ícone sul-americano custa USD 100,00+... Repito: estão caros. Bem, se idiotas pensam em votar em Bolsonéscio Filho ou NAP tudo é possível, inclusive pagarem tanto por vinhos de terceira quando poderiam comprar um de Quinta (rs! sic!). 

Saturday, April 11, 2026

Quatro vinhos e as Quatro Liberdades de FDR

Introito

A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir 
para separar as pessoas boas das ruins.
Oenochato

O Discurso sobre o Estado da União é na verdade um relatório, exposto anualmente, normalmente entre janeiro e fevereiro, pelo Presidente norte-americano a seu Congresso. Ele comenta as condições do país, apresenta sua proposta legislativa para o mandato em curso e enuncia prioridades nacionais. Exemplo de organização; não nos faria mal copiar. Corria o Ano Santo da Misericórdia de Nosso Senhor de 1941. O Lend-Lease Act só seria assinado em 11 de março, mas em 6 de janeiro, antevendo o recrudescimento da guerra e já tendo adiantado que a América seria o arsenal da democracia, F.D. Roosevelt expunha suas ditas Quatro Liberdades: liberdade de expressão, de religião, de viver sem necessidades e de viver sem medo. Desde há muito vemos humoristas sendo condenados em tribunais justamente por exercer a primeira das liberdades; já escrevi a respeito. Amigos juristas temem que eu sofra algum processo por diversas opiniões publicadas neste espaço. Na falta da primeira liberdade, pessoas que bem me querem são oprimidas pela ausência da quarta autonomia, viver sem medo. Concordo: a liberdade de religião segue relativamente intocada - os evangélicos sempre na berlinda, na opinião dos espertos -, mas a liberdade de viver sem penúria não tem se concretizado, a despeito de quase 20 anos de NAP e sua turma no comando da nação. A liberdade de expressão vem sendo solapada pelo STF quando o bloqueio de contas em redes sociais (dentre outras ações) intimida e restringe o debate público. Alega-se respaldo legal para tais atitudes, ou pelo menos essa foi a interpretação dada pelos próprios Juízes a alguma lei. Não importa. Ao valer-se dessa prerrogativa, por mais legal, nosso Supremo parece ter subvertido de uma tacada só todo o pensamento ocidental sobre igualdade entre os poderes - a base da democracia - pois aparentemente legislou sem ter poderes para tanto. Imagine se alguém aparece das massas dizendo ser necessário impixar todos eles, de uma só vez, com direito a cadeia depois do devido processo. A justificativa está dada acima; carecemos da personagem. Ela falta, mesmo? Em nossa atual Câmara e Senado (embora a responsabilidade seja do último) encontraremos tal bravura? Nem debaixo da cama, diriam alguns humoristas - sob risco de prisão. Não sinto vivermos, nós brasileiros, em uma democracia. No dia em que puder ouvir de um cidadão, em alto e bom som, sem ele sentir medo de processo ou repressão, que na casa dele não entra preto fedido, viado almiscarado nem judeu (ou árabe) cafajeste, então sim, sentirei o sujeito soberano em meus direitos. É muito mais fácil para todos quando as pessoas pronunciam-se sem filtros, e não se trata de validar o ódio, mas de trazê-lo à desinfetante e pungente luz reveladora dos preconceitos de cada um. A peneira, pois, estará na ação; uma pessoa que invocasse qualquer um dos enunciados acima jamais entraria na minha casa, e muito menos gozaria da minha amizade. É claro, injúrias devem ser tratadas na esfera penal; aumentar a pena pode trazer melhor punição aos tagarelas em tempos de redes sociais de amplo alcance e repercussão. A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir para separar as pessoas boas das ruins. Já passou o tempo de restaurarmos as Quatro Liberdades das quais um dia gozamos. Alguns uma vez no comando invocariam ser necessário montar um cadafalso. Não concordo. Mas não moveria um dedo contra, com medo de ser preso. Poderes arbitrários acabam nos transformando em pessoas cautelosas...

Quatro vinhos

   O tempo passou, a pedra no rim a atacar-me o corpo e o espírito com a força e vigor de um anão da Terra-Média parou na tecnologia de um laser e, dentre outros problemas, o blog anda devagar. Faz parte da vida, cujas vicissitudes vão-nos minando mais ou menos, conforme permitimos. Preciso revoltar-me contra isso...

Há algum tempo queria passar uma lição na Paduca. Digo, aportar-lhes sem prévia dois vinhos para tirar-lhes o chão, balançar-lhes a percepção, apresentando-lhes outra visão, abordagem e direção dentro da trilha que vêm galgando desde nossos primeiros encontros. Servi-lhes o primeiro, e notei os cenhos franzidos. Sua qualidade foi imediatamente celebrada, e suas notas devidamente identificadas: muita fruta na frente, com mais toques de tabaco ou chocolate, e medicinal segundo algum Paduquento; bom corpo (médio), acidez agradável e ótimo 'conjunto'. Adiciono final elegante e permanência, dignos de um vinho admirável no auge. Alguém chutou italiano, mas foi isso, um chute. Não deixou de ter razão. Para minha completa satisfação sobram-me os últimos exemplares de Korem 2015 para compartilhar aqui e ali. Faltarão garrafas... 😔. Da segunda botelha, os elogios vieram logo na prova do buquê: igualmente rico, frutado em primeiro plano com toque herbáceo no fundo. Boca equilibrada, também de corpo médio, acidez presente, equilibrada, boa persistência... os rapazes se entusiasmaram com o Fonterutoli Chianti Classico 2019, mesmo sem perceber o serviço correndo livre três horas antes do início da reunião. Da minha parte percebia Korem tocando o terror pra cima de Fonterutoli enquanto os confrades dividiam-se nas opiniões. Foi divertido observá-los batendo cabeça com o a sugestão de "O Carlão não colocaria dois italianos de uma vez", opinando um ou outro terem tal procedência. Sempre digo, e repito: O vinho pelo vinho! Não pense em quem serve, não mire a garrafa, não procure a rolha, olhe para a bebida! Acidez e açúcar, principalmente; esta última aporta dicas importantes, quase sempre: um melaço, à cana de açúcar? Sul do Rhone, quiçá. O dulçor mais discreto, sutil, marcado? - e o leitor não pode confundir com o açucarado de porcarias sul-americanas fedendo à goiaba -, quem sabe, Alentejo. Um tipo muito específico de cereja (é preciso aprender a reconhecer)? Toscana. Não conheço muito além disso, mas oras, estão aí os pontos para leitores de melhor nariz começarem a se tocar e aprender; sigam em frente, desvendem, divirtam-se! 


   O valor de Korem já foi discutido exaustivamente, e a reflexão mais importante está aqui. Como atualização, a safra 2019 esgotou na Enoeventos a mórbidos R$ 479,00, muito distante do R$ 245,65 pagos anteriormente - confira no vínculo! - mostrando a recente inclinação à tubaronice da importadora. Mas se olhar com atenção tem alguns espanhóis antigos a preço razoável - desconto, encerrado, desde a última vez que olhei. Note: razoável, não mais. Ponto bom: prontos pra beber. Dica: o nome do produtor começa com "B". Voltando: Fonterutoli não apresenta-se em melhor situação. Trazido pela Grand Cru e pela TodoVinho, que se não me engano é o braço internético (sic) da Casa Flora, está na casa de R$ 300,00, para 20 dólas lá fora. Algo como 2.5x, acima do aceitável; existem compras melhores, não direi de Chiantis, mas de vinho. Lembrando o ditado, quem não tem cão, caça com faisão. Esse exemplar foi-me trazido do Paraguai por um amigo que nem bebe, mas passava uma semana no sul e tinha cota de frixópi sobrando. Valeu, Edu Amaral!

Para rebater a uruca considerei um banho de descarrego com sal grosso e ervas aromatizadas, mas desisti; sal grosso, só na picanha. Pensei no uso de um defumador de incenso e mirra - pela ação cicatrizante da última -, mas bem... já tinha sarado e talvez não valesse a pena gastar tiro à toa. Ainda matutei valer-me de cristais de turmalina negra cuja proteção contra mau-olhado, chifre (como se me preocupasse) e vibrações negativas é amplamente reconhecida até pela Ciência, mas ora... estou imune a chifre, portanto descartei também. Só restou uma saída, e com a Liu responsável pela comida, convoquei a Luciana a comparecer com um borgoinha. Para uma autêntica purificação, só um borgonhão dos nervosos... então não hesitei em dar uma aliviada na minha Prateleira Celestial, que agora reclama a devida reposição. Virá (espero...). Rully é uma comuna de Côte Chalonnaise, por sua vez localizada ao sul de  Côte d'Or, nos informa a Wikipedia. Não conta com nenhum vinhedo Grand Cru, mas abriga 23 Premier Cru para alegria e satisfação de muitos e para oposta inveja e humilhação de outros. A Maison Jaffelin é considerada por alguns como a menor das grandes casas da Borgonha, reputação calcada em produção artesanal de ótima relação custo-benefício. Primariamente um négociant, consegue uvas de vinhedos Grand Cru de prestígio e possui alguns vinhedos Premier Cru. É presentada pela Chez France, importador que infelizmente, de um momento para outro, e sem maiores (rs), virou uma tubarona: duplicou os preços de maneira geral, e fica o tempo todo promovendo ofertas com 50% de desconto. Tenho muitas notas fiscais de compras passadas para comprovar isso. E, para completa tristeza, as 'promos' de hoje estão aquém dos descontos de 20% de antigamente. Tecnicamente parece ser Rouge, mas também um AoC. Para mim, Rouge seria um vinho composto por uvas de qualquer lugar da Borgonha, enquanto um AoC seria confeccionado a partir de uvas com localização demarcada: Rully, por exemplo. Preciso consultar as fontes... 😠 Por onde andará Don Flavitxo? Bem, Jaffelin Rully 2020 chegou com fruta elegante e bem marcada na frente e mais notas em segundo plano para bons narizes - não lembro se as meninas apontaram algo. Como se espera de um bom Borgonha, sua acidez firme e elegante - mesmo para um AoC - estava bem presente e conferia-lhe um toque alegre, fácil de desfrutar para um admirador da região. O problema é que para competir com ele levei um Dugat-Py Gevrey-Chambertin Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009. Seria claramente uma competição desonesta - mas nem era uma disputa; lembre-se, era um descarrego! - colocar um produtor considerado de primeira linha representado por um dos melhores vinhedos da Borgonha contra qualquer outro artesão que não igualmente favorecido. Repito: não era uma peleja do diabo com o dono do céu (rs); antes, um momento de descontração em que a evolução em espiral de nossa bebida predileta apenas coroou um encontro de  conversas, risadas e instantes de contemplação quase bacântica diante do mais puro estado da arte enoica. Voltando: havia lido sobre uma combinação notável para esse vinho, um boeuf bourguignon. Nem gastei muito tempo, joguei a sugestão para as meninas sem perceber ser esssa uma receita trabalhosa. Para completa sorte, a Liu abraçou a ideia e começou os primeiros preparos no mesmo dia - é demorada! Não deixei por menos: abri a garrafa às 10:00 daquela noite. O que dizer de um vinho de primeira, devidamente aerado, com uma comida apropriada? É a prescrição perfeita para a felicidade em seu estado mais puro, o bem-viver exponenciado e a alegria da vida expressa nos passos saltitantes do fauno em nossos sonhos mais delirantes. E sim, como ele estava rico! Frutas! Frutas delicadas em meio a um oceano tânico elegante e majestosamente casado com excelente acidez. Pouco de aspectos terciários, indicando bom tempo de guarda à frente, e ainda assim redondo em boca, madeira presente mas discreta e belíssima persistência. Ah, Borgonha, por isso te amo tanto! 😍 Beba dessa safra agora ou nos próximos 10 anos. Esse vinho nem é um Premier Cru - embora digam por aí que está em nível similar aos melhores de Gevrey-Chambertin - e é caro, algo como USD 200,00, atualmente, lá fora. Mas é o preço a se pagar por um bom Borgonha (foi menos, há muito tempo).  O bebedor pode escolher um vinho desses e pensar em faunos, felicidade, sétimo céu, ápice do êxtase ou procurar a fada azul imersa no Absinto de USD 15,00... sem qualquer demérito à bebida. Como ainda estou na fase mais delicada da vida, prefiro abrir a carteira, sobreviver a alguns hot-dogs durante a semana e então provar um desses no sábado... Seu preço por aqui está superior a 2.5x (R$ 3.100,00), na importadora 'oficial', a Mistral. Mas a safra é a 2019. Pela estrutura, principalmente taninos, não acho adequada para degustação imediata; certos vinhos precisam de aging... aquele processo contínuo e natural de progressão que nenhuma taça superpoderosa poderá proporcionar. Mesmo satisfeita, a Luciana saiu feliz mas jurando vingança (risos!). A estas alturas já foi e voltou da África do Sul com diversos generais na mala, à procura de uma desforra. Que venha...

Minha sobrinha Manuele (rs - prima em segundo grau) chega em S. Carlos para um doutorado em computação. Primeira na prova de mestrado, estimulada pelo orientador prestou o exame para "doutorado direto" e... passou em primeiro lugar, para orgulho do tio. Conto isso de pescoço empinado porque ela é outra adoradora de Baco que agrega-se à veneração dessa deidade neste último ponto do trem do velho-oeste da região central do estado povoado por bocas-tortas cultivadas há décadas à custa de sommerdiers locais especializados nas mais profundas, tortuosas e dementes técnicas de empurrar chinelos chilenos, argentinos, uruguaios e nacionais para as gargantas de idiotas abastados crentes na força da produção local. Já escrevi: tenho um dever moral de beneficiar a sociedade cujos impostos financiaram minha educação no terceiro grau, e venho por meio desse pacto não juramentado cumprir minha obrigação de alertar essa mesma sociedade acerca do engodo à qual está submetida: compare europeus básicos com sul-americanos de alta gama (sic), principalmente esses de R$ 200,00 por R$ 99,00, sanfonada que mal traz o produto a seu valor razoável, com boas compras de europeus. Campoalto Chianti Classico Riserva, da Tenuta Casuccio Tarletti, é um exemplo. Paguei R$ 110,00 numa 'promo' - a safra ficou no contrarrótulo - e ele bate sul-americanos de R$ 150,00 já com o devido desconto. A força (rs) do italianinho está calcada nos bons taninos da Sangiovese e na estrutura razoável (na média de USD 15,00), com toques frutados característicos de vinhos mais novos, apresentando relação custo-benefício eficiente. Faltou sim um pouco de acidez, mas nesse valor, para um vinho de dia a dia, é muito satisfatório pelo conjunto. É claro que comparado a outros Riservas de melhores produtores com vinhedos de maior qualidade ele passa vergonha, mas nesses casos o custo também é outro. Encontrando por cento e pouco, compre e beba. Está pronto.

Falei 4 vinhos no título, mas citei cinco. Ora, assim como aos Três Mosqueteiros juntou-se D'Artagnan, por qual motivo o leitor haveria de reclamar? Na Era de Informação, saber nunca é demais.

Tuesday, September 23, 2025

Maluca na traição: 1

Introito

Teve uma manifestação hoje, quando começo a escrever a postagem. Não estava sabendo - a informação dessa insignificância chegou-me via Chile, na observação do Nagibin, o bom Palestino. A esquerdalha perdeu completamente os pudores e receios, tomando as ruas com a altivez dos canalhas. Isso foi pavimentado em paralelepípedos dourados pelo bolsonéscio filho fugido para os EUA, cujas medonhamente estúpidas estratégias só fazem melhorar a imagem de Nosso Amado Presidente - NAP. PTlhos sisquecem de diversos parlamentares seus votando a favor a medida, para assegurar a aprovação. Esses irrefutáveis traidores passaram ilesos ao julgamento da malta. Encerrada a votação da medida, idiotas de primeiro escalão tentaram justificar suas escolhas de diferentes maneiras. Um pretendeu mesmo voltar atrás da decisão, recorrendo a algum Supremo para alterar sua deliberação inicial. Kim Kataguiri comentou sua decisão caso fosse juiz da corte: "Indefiro, pois o impetrante alega ter sido coagido por sua própria mão a votar sim no projeto..." (risos!) Outra apareceu dizendo ter recebido telefonemas de colegas ameaçando-a(!) com retaliações caso não mudasse seu voto no segundo turno. Não sei do leitor, mas a covardia em quem eventualmente escolhi como representante (não foi o caso) é imperdoável! Quis ir lá defender uma causa? Vai defender até o fim, ou morrer tentando! A desonra e o esquecimento são o destino do covarde! E não parou em desculpas tão esfarrapadas. Veja mais aqui e cubra-se da mais pegajosa vergonha alheia.

   As recentes manifestações de PTlhos e bolsonéscios são pretendidas grandes por seus respectivos defensores. Ora, vejo-as claramente minúsculas quando comparadas às de 10 ou 12 anos atrás! Sobrou um restolho de otários cuja representatividade limita-se a grupelhos ideológicos de quinta categoria, e de maneira alguma representam o povo brasileiro. Existe pesquisa direta demonstrando isso, e foi registrado aqui: boa parte das pessoas de bem da esquerda repudiam NAP e seus sequazes, e número similar de eleitores de direita rejeitam Bolsonéscio e bolsonéscios em geral. O símbolo dessa insânia toma corpo na voz de um homem caquético que perdeu a oportunidade de (mais uma vez) calar-se. Ele saiu-se assim: A PEC da bandidagem - que é o que é - tem que receber da sociedade brasileira uma resposta socialmente saudável... uma manifestação de que grande parte da população brasileira não admite um negócio desses. Esse mesmo sujeito disse isto:


   Os bilhões da Petrobrás são nada, comparados a esse projeto... Não conheço exemplo de confissão  mais explícita sobre algum evento... Foi nesse tipo de governo em que você votou? Por longo, faço uma pausa, mas o assunto não se esgota. Terá mais.

Traições: 1

A cada troca de fotos pós-reunião da Maluca, a Luciana, em trânsito, envia reclamações iradas no grupo de Uátizzápi. Traidores! tem sido a palavra mais frequente. Se é assim 😈, façamos com gosto... 😱 Nunca é demais repetir: a Maluca é uma confraria que deu muito certo. Surpreende por serem pessoas unidas pelo mesmo interesse, participando dos eventos Vinho e Turismo organizados pelo Shot Café e pela Caminhos do Turismo, cujas afinidades foram convergindo rapidamente. Hoje a falta de algum confrade é sentida por todos... 😜 mas não deixamos de comemorar a alegria de viver quando alguém está distante! Nessa  reunião aproveitei para uma experiência; chegarei a ela. A Liu compareceu com um Champagne Brut Blanc de Blancs, o Elegance, da Peterlongo. Existe uma estória acerca da permissão por escrito que o produtor recebeu, no início do século passado, de algum consórcio francês autorizando o uso do nome Champagne em uma categoria de seus vinhos. Some-se a isso uma lembrança afetiva dela para com a marca, e por liberdade poética justificamos sua compra de um lote de produtos até sem olhar o valor; o coração não se incomoda com certos detalhes. Já este Enochato... Elegance mostra perfuminho à cítrico e ligeiras notas de pão/fermento, e pode ter bom efeito inicial, principalmente se o provador estiver vendado. À vista, as borbulhas são grossas/grosseiras; não enchem a boca à menor quantidade degustada, mas não a poupam de algum desconforto estufatório (sic! rs!). Logo na primeira prova comentei algo como "Posso dizer algo que esta Champagne não tem",  enfatizando bem o 'não', e a Liu foi a primeira a responder, na sequência do vácuo: "Acidez..." Não tinha mesmo. Nenhuma. Isso limita seu frescor e impacto, tornando o produto muito desbalanceado, rápido em boca, sem graça. As bolhas estavam lá, não há de se falar em produto passado ou algo assim. Portanto é fraco mesmo, e ao custo de R$ 230,00, segundo o Google - esgotou(!) no sítio da empresa e existem ofertas entre R$ 199,00 e R$ 280,00 na internet. Há alguns dias compramos uma Xampa de verdade (Pommery) por R$ 310,00. Pense o que quiser...

Como entrada tivemos uma 'saladinha' com camarão e mais alguns elementos diferentes preparada pela Liu: deliça! 😋 (rs! sic!). A Débora sacou seu Drouhin Mâcon-Villages 2022, vinho reba de produtor top (rs), opção, segundo este Enochato, sempre preferível ao vinho top de produtor reba... nariz com cítrico óbvio representado por frutas brancas algo discretas, sem tanta força. Melhor em boca, com acidez 'média-menos', mas ainda assim bom corpo e persistência. Sem tanta complexidade, fica fácil de beber e 'entender'; casou bem com o camarão. O preço entra em jogo com força... ofertado por notória importadora tubarona a mórbidos R$ 375,00, apareceu em liquidação nesses distribuidores de redes sociais pela bagatela de R$ 199,00. É um vinho de 20 dólas lá fora, e seu valor de 'promo' fica um pouco inferior a 2x! Existem muitas ofertas mais atraentes a R$ 375,00, mas a R$ 199,00 ele torna-se matador. Nosso mercado é complexo... Mantenho a foto do contrarrótulo se algum detrator tentar provocar sugerindo ser contrabando...

   Depois de aerar por mais de quatro horas antes de ser resfriado - essa foi a proposta -, o Korem 2015 da Argiolas chegou com tudo: parrudo, nota primária de (muita) especiaria, madeira e toques à chocolate/café com mais complexidade. Boa acidez, taninos bem presentes, álcool à 14,5% sem incomodar, apenas parte da estrutura da bebida, integrado, denunciando aos ventos um vinho em seu esplendor e com possibilidade de permanecer nesse estágio por mais uns bons anos. Mas está pronto e ótimo para beber, com esse serviço. O produtor é consagrado, nunca bebi um rebento de suas adegas que decepcionasse. Antigamente importado por alguma tubarona, chegou a custar USD 120,00, contra USD 30,00, à época. Hoje custa um pouco mais (USD 35,00), e por aqui anda a R$ 480,00 na Enoeventos, a preço cheio. Quando o proprietário escolheu não vender-me uma caixa (12 garrafas) a preço de Enoclube, à vista, fui procurar outras alternativas no mercado. Claro, as encontrei. Não parece-me inteligente perder uma venda à vista de 12 unidades com um desconto praticado para 'assinantes' que são contemplados com abatimento similar comprando uma única garrafa, mas cada empresário cuida de seu negócio como bem entende. Desde então recheei a adega com diversos Novais quando poderia ter escolhido Crus Bourgeois, Capellanes ou Barons de Ley, cujos preços eram atraentes à época. Não sei agora. Wine Searcher para preservar a saúde de sua carteira! Não podemos ter de tudo... e escolher com sabedoria, tanto vinho quando candidatos a cargos eletivos, é-nos sempre uma prática salutar. Quem a pratica, soa-me inteligente. Mas como já repetido aqui milhares de vezes, o brasileiro contenta-se com lavagem no café da manhã, porcaria no almoço e estrume à noite. Sem aparente interesse em melhorar. Saúde para quem escolhe bem!

O Drouhin Mâcon-Villages 2022


Na oferta, a R$ 199,00. Lembre-se: 20 dólas lá fora.


Lá fora. USD 'quase 17,00' + 1,7 de impostos, encosta em 20 dólas. Achou que eu estava mentindo, né carcará... Sabi di nada, inocente...


Aqui, a preço cheio, como para tirar uma dos idiotas/inocentes. Uma indecência completa.


Um brinde às amizades!

Sunday, October 20, 2024

O Road Xou da Qualimpor, e mais

Introito


O posto de maior herói nacional desde Caxias está vago.
Oenochato

O posto de maior herói nacional desde Caxias está vago. E tem gente querendo ocupá-lo. Não é Ali Lulá com seus sequazes cujos primeiros 14 anos dominando os destinos do país passaram liberalmente em branco, sem resolver uma e apenas uma das grandes mazelas nacionais: o MST deveria ter sido extinto, tendo todos os trabalhadores atuantes e vindouros terra à disposição para produzir, em vez de envolver-se em confusão pelo país afora; na educação, o desempenho dos jovens no PISA já foi vastamente discutido, quando o valor investido no ensino quadruplicou e ainda assim andamos para trás(!); finalmente, o término do (des)governo de Ali Dilmá evidencia como a economia foi entregue ao sucessor. Aliás, (des)governo abreviado pelo bem da nação e da próxima geração, de maneira democrática e usando-se das entrelinhas da lei, diga-se. Vemos claramente como a tal da Nova Matriz Econômica colocou-nos na rota de um (de)crescimento seguro e irremediável. A fonte é oficial (IBGE), portanto não pode haver dúvida. Ademais, a média do crescimento destacada no gráfico (2.5%) é pífia se comparada às 500 nações que mais cresceram no período (sic!).


   Também não será bolsonésio e caterva quem colocará o país na rota do crescimento. Sua atuação como deputado em diversos mantados só não foi mais ridícula do que a própria gestão presidencial; a sequência de desmandos presenciados pelos eleitores foi a mais vexatória da história da República. Sua política econômica mesmo pré-pandemia não surtiu nenhum efeito de longo prazo simplesmente porque nada foi sequer enviado para o Congresso. Onde estão as propostas de cortes de impostos, privatizações e fechamento de estatais inúteis? Ninguém viu!

   A despeito desses grupelhos há um grupo sério com propostas intelectualmente honestas e politicamente factíveis para o país. Se você não assiste às lives do MBL, pode não saber do que eles estão falando. Mas está tudo (sendo) escrito, aqui: é a proposta de mudança acontecendo na sua frente. Cidadão honesto, acompanhe ou deixe passar para se envergonhar depois, por mim tanto faz. Só não defenda-se na própria ignorância quando for o último da fila! Leitor interessado que gostar, propague essa ideia - não a minha, nem desta página - até porque não estou interessado em gado e pulhas vindo aqui falar besteiras; não publico comentários sobre política neste espaço. Propague sim a ideia desse pessoal que, independente da orientação política - e mesmo sendo diferente da minha - é quem tem apresentado o projeto de nação mais consistente que já vi em minha vida. Lamento que não seja a esquerda a fazê-lo. Ele teve sua vez, e deixou a oportunidade escorrer por entre os dedos; prostrada, entregou o país a meia dúzia de... você sabe!

Korem na Paduca

Rolou encontro da Paduca no começo do mês. Para abrir as festividades do meu aniversário - e ainda falta muito... - resolvi preparar-lhes uma surpresa. Inicialmente servi às cegas o Chablis Vielles Vignes 2022 do Domaine de la Motte, degustado algumas vezes com outras turmas. Infelizmente o Fernando não estava, mas os confrades remanescentes não fizeram feio. Um foi direto na acidez, disse-a impressionante. Outro atentou para estilo da boca; não soube se expressar adequadamente perante a nova experiência, mas claramente pretendia chamar a atenção para a mineralidade. Quando sugiri um salgadinho na boca, disse entusiasmado: - Exatamente isso! 
Assim está indo a Paduca, pingaiados (rs) de cerveja e uísque descobrindo as lides do vinho e maravilhando-se com ela; podem carecer de experiência, mas já está se emendando na vida (rs). Era para ser uma reunião descompromissada, e o Duílio trouxe às cegas um Valpolicella Classico Bolla 2021, declarando depois nunca termos bebido juntos um vinho icônico nas prateleiras brasileiras desde há muito. É verdade, não bebia um Bolla há uns 25 anos... o nariz estava alegremente frutado, e a fruta repetia-se em boca, com uma pontinha de acidez - baixa... Corpo médio, macio, pronto para beber. Não acompanhou tão bem o bifim a molho gorgo, mas o prato foi não escolhido para acompanhá-lo. E tão logo ergui a garrafa para servir a primeira taça, o próprio Duílio olhou a cor e cantou sua derrota: - Olha a cor desse ordinário... 
   Bem, somente a cor de um vinho não entrega suas qualidades - embora em muitos casos possa conter informações interessantes. O problema é que Korem 2015 está pronto para ser bebido, continuará assim pelos próximos anos, tem a coloração de novo, o nariz elegante e a boca complexa e passou como um rolo compressor por cima do pobre Bolla. Grande parte de sua composição é Bovale, mostrando o quanto devemos desapegar quando o assunto são cepas diferentes. Uma mistura ampla de frutas e notas ao estilo couro ou chocolate, e mais. Boca com taninos amaciados, boa acidez, madeira presente, álcool contido (mesmo nos 14,5%), extraído, com boa persistência - o pessoal elogiou como ficava na boca. O bebedor mais calejado sabe como existem experiências melhores, mas para vem na espiral ascendente e encontra um Korem pela proa, a sensação é uma quebra de paradigma. Comprei Korem da Enoeventos a vários preços no começo da pandemia, e fui comprando ao longo do ano conforme entrava em 'promo'. Cheguei a pagar por três garrafas o valor de R$ 245,00 a unidade - atualmente é um vinho de uns USD 40,00 nos EUA, mas recordo-me de na época custar menos. Nas mãos da importadora anterior - excelsa tubarona cujos calhordas de plantão insistem em defender - custava a bagatela de USD 118,50 (sim, o preço de catálogo deles vem em dólas). Não direi que é a Mistral por uma questão de édica (sic! rs!). O Korem 2019 está custando R$ 480,00 na Enoeventos. Convenhamos, dá 2x, mas existem atualmente diversas ofertas de vinhos com relação lá x cá bem melhor. Estes dias comprei a xampa Taittinger Brut Réserve a R$ 360,00 e não quis pegar o Sassoaloro a R$ 270,00. A primeira custa uns USD 50,00, e o segundo, USD 35,00- USD 40,00. O mercado parece estar encolhendo...

O Road Xou da Qualimpor

Andava meio durango da vida - conforme comentei com o Sommelier Conectado Eustáquio Fragalle, o Lemão aliviou-me em quase um Barca Velha. Depois fui conferir, e o susto diminuiu: custou-me apenas um Ferreirinha Reserva Especial, a parte da cirurgia. É meu amigo por 11 anos, não vou poupar umas meras garrafas se precisar tratá-lo, não é mesmo? Mas estava indi$po$to para comparecer ao Road Xou da Qualimpor em S. Carlos quando um imprevisto da Liu fez-me ser contemplado com seu convite... claro, fui salvá-la de perder o investimento! Ela não aceitou ser ressarcida, para meu desapontamento. O portfólio da Qualimpor cresceu bastante nos últimos anos: de uma empresa cujos produtos limitavam-se às linhas de Crasto e Esporão surgiram a Quinta dos Murças, a Quinta do Ameal, a  importante produtora de vinho do Porto Taylor's, a Colinas de São Lourenço e outros mais. São todos vinhos muito bons, embora estejam um pouco caros. Chamaram atenção: Principal Tète de Cuvée Pinot Noir Rosé, e olha que torço o nariz para rosés, como todos sabem. Mas esse tinha presença, espírito - não corpo, se tem corpo não serve pra ser rosé (risos!) - nariz rico à frutas vermelhas, ótima acidez, frescor, muito chique. O preço assustou, algo como R$ 600,00. Custa caro lá fora, quase USD 70,00, mas não vejo-me comprando um rosé nesse valor. Por mais USD 30,00 dá pra pegar um Xatenêfi &#🙉@😲-de-roda pronto pra beber... é um vinho para bebedores muito mais endinheirados e refinados do que este Enochato, não há dúvida. 

Os Porto Crasto 10 e 20 anos da foto anterior também surpreenderam muito positivamente. Os preços, cerca de R$ 550,00 e R$ 900,00 é que não... mas são ricos, untuosos, o 20 anos até lembra Xerez, elegante mesmo. Mas USD 100,00 é um investimento alto para a maioria dos bebedores; no meu caso guardaria para comprar algo lá fora. O Quinta da Ameal Solo Único, indicado por Don Flavitxo a exemplo do rosé - só ele para fuçar tanto (rs) - também estava deliciosamente complexo, mas àquelas alturas não consegui guardar as notas. Lembro que impressionou. A foto do Principal Reserva (Grande Reserva?) mostra o estado deste Enochato em algum momento: saiu de foco, a despeito de toda a tecnologia disponível nos celulares... no sítio da Qualimpor está disponível o Grande Reserva da safra 2011. Já bebi outros mais antigos, tanto o Reserva quanto o Grande Reserva. São vinhos de bom corpo, acidez presente, fruta generosa e mais detalhes. Àquela hora, impactou sim: tanto pela extração em boca como pelo preço: R$ 1.400,00, algo assim... Tá, priscas eras, com dóla a uns R$ 2,50... paguei menos de R$ 250,00! O dóla pouco mais que dobrou, e o preço sextuplicou! Don Flavitxo comentou que tiveram êxito com ele, lá fora - não lembro os detalhes para tanto êxito - e Princpal Grande Reserva não está saindo por menos de USD 150,00. Lamento... é um bom vinho, mas não sei se vale. Fico lembrando-me, por exemplo, de um Remirez de Ganuza - pode ser o Reserva ou o Trasnocho -, ou de um Domaine du Pegau Cuvee Reservee, ou de um Pape Clement, ou um Comte Armand Clos des Epeneaux, borgoinha de Pommard... São vinhos mais baratos (menos o Clos des Epeneaux, um tantinho mais caro) e francamente superlativos se comparados ao Principal. Sinceramente não entendo onde os portugueses querem chegar com alguns de seus vinhos. Parecem estar incorrendo no mesmo erro de vários sul-americanos... ou não... ambos apostam em impressionar o consumidor desavisado com preços altos. Já escrevi neste espaço: que bom! Se os bebedores soubessem o valor de Xatenêfis - até de alguns Côtes-du-Rhône Villages - eles provavelmente não sobrariam na mão deste Enochato.

   Um comentário que se repete: importadores que propõem um preço ao lojista, mas no mercado acabam praticando outro valor. Não sei se a Mercearia 3M está sendo vítima disso ou se apenas está usando a tabela cheia do preço proposto pela importadora - cujo desconto é gordo - sem repassar qualquer tantinho de benefício para o consumidor. Mas por aí encontram-se ofertas melhores. O sr. Idinir deveria estar atento a isso. Ora, convenhamos(!), este Enochato não é o único que tem ou que sabe usar internet. Qualquer cidadão sabe! Vejamos o que ele encontra:

Esporão Private Selection: não, ele não está por aí a R$ 1.100,00, ou algo assim... está mais um tanto mais barato...



O Calcário3 (a R$ 300,00, até tinha desanimado a falar dele), ficou razoável,

 

   Enfim, não vou procurar os demais, o leitor - que usa a internet tão bem quanto eu! - pode fazê-lo. Sempre digo, devemos prestigiar o lojista local, pois é ele quem nos provê as degustações sempre tão importantes para conhecermos os vinhos, conversarmos com os produtores e aprendermos sobre processo e outros detalhes, mas ele também deve fazer sua parte e suprir seu consumidor com bons vinhos a preços condizentes. No presente caso, infelizmente, os vinhos são bons mas estão muito caros - lá fora e aqui também. No mercado mundial eles não se traduzem em compras são boas, basta conferir os valores do vinhos citados e procurá-los nas postagens. Quem bebe, sabe...

Finalmente, demonstro (como se precisasse...) o valor pago pelo Korem na 'promo' e o valor pelo qual era vendido pela tubarona antes de ser descartado por ela e ir para a Enoeventos.





Saturday, June 4, 2022

Uma visita inesperada

 Introito

   Pensava que nos píncaros da idiotice estavam os importadores tubarões e seus asseclas energúmenos espalhados pelos quatro cantos da internet, assaltando à mão desarmada e enganando com ladainha de fazer inveja às sereias. Meu erro grosseiro foi de orientação vetorial, posto que píncaros indica uma altura máxima, da qual não é possível ir além, como o Sétimo Céu, o Nirvana e outros exemplos de serenidade máxima. Mas não, é nas fossas da idiotice que eles se encontram. Na primeira aproximação, a fossa abissal; na segunda, a séptica. Porque sempre podemos ir mais fundo - basta cavar mais um metro - ou, de outra maneira, jogarmos mais um quilo de dejetos ao que já está ruim para piorar tudo um pouco mais. Mas há algo abaixo - ou com mais budum - do que importadores e seus asseclas: políticos. Dia destes um grupo de PTelhos ajuizou ação contra o juiz Moro, segundo a qual suas ações causaram prejuízos à Petrobrás. Ficou assim: a Lava Jato recuperou algo como 6 bilhões de reais desviados por empresários e funcionários da alta cúpula da empresa, valor estimado em apenas 25% das fraudes, segundo o TCU. E Moro é o culpado. Tá. Que tal em vez disso chamar a Dilma, cuja política de controle de preços forçou prejuízos de 100 bilhões à mesma Petrobrás, em apenas dois anos? Lembre-se dos nomes dos perpetradores da ação: Rui Falcão (SP), Érika Kokay (DF), Natalia Bonavides (RN), José Guimarães (CE) e Paulo Pimenta (RS). Já já pedirão seu voto. Comprove sua estupidez, vote neles.

Uma visita inesperada

   Romeu liga-me para marcar um vinho e logo avisa: O Rodrigo está aqui. Rodrigo del Río é pesquisador e químico chileno e mantém intercâmbio com a UFSCar em São Carlos, para onde vinha todo ano até a pandemia. Foi ele quem trouxe-me as últimas garrafas de Don Melchor (safra 2006) antes do fantástico aumento pelos quais os vinhos passaram em 2008 ou 2009. Eu estava devendo para o Romeu, se o leitor lembra-se do malfadado Chianti de algumas postagens. Ele não perdoou e mandou uma provocação, Desta vez eu levo o vinho. Aí não... 🙄 a proposta estava clara de antemão: precisaria de um representante que não exorbitasse no preço e pudesse competir com qualquer petardo que o Romeu disparasse em minha direção. Nem precisei pensar muito, sabia ter a resposta adequada. Adequadíssima, aliás.

Avisara o Luciano Osório - o evento aconteceu na terça-feira imediatamente posterior à visita dele - que compareceu ávido para acompanhar o embate. Ele conheceu o Romeu no início dos 2000's quando trabalhamos todos juntos em um projeto editorial, e o reecontro gerou conversas animadas entre todos nós. Não houve vinho às cegas, no primeiro momento. Apresentei o Korem 2015, da Argiolas, produtor da Sardenha. Corte Bovale, Carignano e Cannonau, foi servido com cerca de uma hora de respiro, mostrou nariz explosivo muito rico em frutas vermelhas, café (chocolate?), toques terrosos e mais. Um nariz tridimensional, como costumo dizer. Boca com boa acidez e taninos, álcool a 14,5% bem discreto, não notei a madeira (tem!), corpo médio, bem como seu final e persistência. Esse vinho era vendido pela importadora tubarona a USD 118,00, R$ 720,00 com o dóla a R$ 6,00 de 2021, enquanto Enoeventos vendia a R$ 265,00 (com choro) naquele mesmíssimo período. Romeu chegou com seu Robert Mondavi Cabernet Sauvignon 2015 - uma feliz coincidência de safras - do Vale do Napa. Nariz com fruta um pouco mais contida, especiado, madeira mais evidente, mostrou boca mais pegada e firme, com taninos bem presentes e um pouco menos de acidez, motivo pelo qual apesar da combinação tanino e madeira não 'derrubou' Korem. Sorri satisfeito: Korem 'guenta' muita coisa boa que você possa tacar (sic) pra cima dele. É um vinhão. Não que o Mondavi seja menor, mas como o demônio mora nos detalhes, podemos dizer que Korem ganhou por meia cabeça. Ambos custam por volta de USD 35,00 em seus países de origem. Monvadi CS aqui está por R$ 690,00 (quase o mesmo valor do Korem em importadora tubarona) mas dá pra encontrar a R$ 340,00 (😣), veja abaixo. O Akira chegou atrasado e recebeu a primeira taça às cegas. Cafungou, balançou a cabeça num 'não' e foi certeiro: Italiano. No segundo, ficou em dúvida. Descartou Itália e França, e ficou em dúvida entre um espanhol diferente e um novo mundo, destacadamente EUA/Austrália. Com a arma na testa, declarou que 'possivelmente americano'. E enfatizou: ambos muito fechados (😨); chamou-nos de infanticidas e daí pra baixo - lembre-se do referencial adotado no Introito! Não nos importunamos; àquela hora estávamos todos felizes...

Na primeira visita do Luciano, desejoso de chegar à narrativa final com abraços, choro e troca de uatizápis que tão brilhantemente bolara (sic), não comentei a sobremesa: servi-lhe uma taça do Tokaji Aszú 2003 da Oremus, produzido pela empresa húngara propriedade da espanhola Vega Sicília. Corte Furmint, Harlesvelu, Zéta e Sárgamuskotály, mostrou nariz com folha de laranjeira muito proeminente, que para mim mascarou o que pudesse vir depois. Está um pouco oxidado (aberto em novembro de 21), mas mantém o frescor, com o travo doce contrabalançado pela ótima acidez. É um vinho com grande persistência e ótimo final; após engolir e salivar ele continua em boca enquanto vamos salivando e tornando a engolir a saliva, comprovando ser mesmo um grande produto. Havia comentado que o Luciano dedicou-se profissionalmente à fotografia? Pois é, a foto ao lado foi realizada por ele, com esse enquadramento, sem corte ou recorte deste que escreve. Se notar, dá para ler 'Bodegas Vega Sicilia' no contrarrótulo da garrafa... Ia servir dele aos convidados do dia seguinte, mas a conversa estava animada até o momento em que Romeu e Rodrigo resolveram que a quarta-feira seria puxada e saíram mais ou menos de susto. Não, não foi uma deixa para este Enochato miguelar (sic) uma taça aos convivas. Se o Rodrigo voltar ainda este ano, conforme comentou, a parte dele estará garantida.




Saturday, July 10, 2021

O ditado, o Korem e o um sábado a mais em nossas vidas

Introito

Tolo quem empresta um livro. Mais tolo quem o devolve.
Ditado popular 
  
A querida Angelina andava preocupada em círculos na ampla sala de sua casa. Pegou o telefone, discou nervosamente e aguardou que alguém atendesse. Estava realmente transtornada; não se fez de rogada, saiu gritando:
   - Carlos! Estou com seu livro há mais de um ano! Estou indo devolvê-lo agora!
   Detalhe: ela mora em Campinas; eu, em São Carlos. Aqui, recobro a invocação desta postagem e os poderes a mim investidos por Baco em Deussoa (sic! não é uma pessoa, é um deus!) quando tornei-me mensageiro de Sua Palavra: Há de fazer potente seu dito e desdito; há de conferir ao animado e inanimado o poder da tua sugestão! E eis que, quando empresto um livro, empenho a este o destino de volver às minhas mãos em algum momento. Sem pressa nem afobação, mas com a certeza do retorno. Daí que na pandemia, vítima da regra de ouro da devolução, a Angelina viu-se acossada pela necessidade devolvedora (rs! sic!) dos livros que continham contos de minha autoria - esse fato reforça ainda mais o poder da sugestão - retornarem a mim. De forma que mal tive tempo de responder:
  - Ah, Angelina, que bom. Vou preparar alguns vinhos para louvarmos a Baco nesse momento tão especial e... - o telefone já emitia sinal de ocupado. Imaginei-a em seu carro e a caminho... Poderes... nada como sabermos usá-los com parcimônia... 😝 Devo dizer ainda que a própria Angelina saiu de casa em descarrego, murmurando a Baco que cumprira seu destino e esperava tornar-se merecedora de algum descanso. Tenho certo comigo que Baco atendeu-lha (sic! rs!). A vida segue em linha reta. Até que procuremos o próximo desvio, claro. É uma prerrogativa do livre-arbítrio... só para quem pode...

Vinhos, vinhos à mão cheia...

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
Castro Alves, Espumas Flutuantes (1870)


   Gosto muito da citação acima; tenho certeza de já tê-la utilizado aqui no blog. Não faz mal repetir - assim como não faz mal repetir vinho bom. O problema é repetir vinho ruim e citação sem-vergonha! 😣; vinho bão e citação inspiradora são bem-vindos a qualquer momento...
   Falando em repetir vinho, ofereci à Angelina um de produtor que é-me muito caro, a melhor cooperativa da Borgonha, La Chablisienne, em sua versão Premir Cru Beauroy, safra 2016. Beauroy é  uma região dividida entre vários produtores que realizam a colheita no tempo que julgam adequado e realizam a vinificação sem separado. La Chablisienne produz - dados antigos - 500 mil caixas por ano. É tido como um produtor 'consistente', com preços justos (lá fora, claro). Aqui, se você encontrar em 'promo' (40% de desconto sobre o preço de tabela) é uma excelente compra. Mesmo com esse dóla a R$ 6,00 (tá, um pouco mais de 5,30 agora, mas faça as contas completas no seu cartão). Mas com os 40% fica bom, asseguro. Sem os 40%, fica ruim, asseguro também! Compre na 'promo'; se ela não vier, teje (sic) de olho em outras ofertas, porque elas existem.
   Outra repetição (para mim) foi o Korem. Esse vinho é assim: põe de joelhos (para mamar 😂😝😱) sul-americanos de 5x seu preço. Motivo? O já extensamente discutido aqui: sul-americanos estão pornograficamente caros, enquanto na Itália o mercado é competitivo. Mais: o consumidor tolo deixa os olhos brilharem para qualquer porcaria in natura e não sabe apreciar a tão-me (sic) cara acidez. Assim, pagam pau para iconos chinelos chilenos que são vendidos, nos EUA, à metade do preço do que na terra natal. Tem algo errado com isso! Vejamos: o vinho (chileno) sai de cá (Chile, Pacífico), cruza o Equador, aporta na costa Oeste (o 'velho oeste'), vai para Noviorqui e é vendido à metade de preço do país de origem?! Metade! Cruzou o hemisfério! Depois cruzou um continente! Passou pelo importador, pelo distribuidor regional e chegou ao lojista do lado do Atlântico, ainda assim pela metade do preço do país de origem?! É assim?! É isso mesmo?! 😠 Picaretas! Cadê os energúmenos para justificarem isso?! Canalhas, apareçam! Bem, voltando... Korem é um vinho de preço médio a USD 30,00 que dobra a concorrência local. USD 30,00? Íconos chinelos custam USD 150,00 no Chile. Pois é, vem mais por aí. Economize estômago 😌.

Os vinhos...

La Chablisienne Premir Cru Beauroy 2016 apresentou a boa mineralidade esperada da região. Floral com toques de abacaxi (nariz), amanteigado (boca), boa acidez e ótima persistência, casou muito bem com queijos Gruyère e Gouda, e com xarxixa (sic) de vitela. Tem 13% de árco (e mais um tanto de frexa - sic! rs!), bom corpo, final muito redondo, se bem comprado é felicidade engarrafada. Tente, e seja feliz. Essa combinação já experimentei com outros vinhos do produtor - e curiosamente com o Korem no mesmo episódio! - E com a Porto Adriano! Em mais de uma ocasião! Os Chablisienne são vinhos realmente bons! Se puder gastar sem olhar para a relação custo benefício, mande ver sem 'promo'. Se for $deficiente$ (sic) ou mão de vaca (sou ambos), espere a promo ou traga de fora. No meu caso, pobresse oblige 😓...
   Argiloas Korem 2015 é aquele caso que menciono sempre que posso: se puder fechar uma caixa e beber um a cada seis meses, terá um ótimo vinho para beber por seis anos. Quando tiver seis caixas nesse padrão, terá completado o círculo, e poderá beber uma garrafa por mês durante o mesmo período. Tendo mais bala e fechando mais vinhos equivalentes... você é feliz! Poderá beber a cada quinze dias? Semanalmente?(!) Parabéns! Korem, comprei a cerca de USD 50,00 (Enoeventos) quando era vendido a USD 100,00 pelo importador anterior, e é um vinho de USD 30,00 'lá'. Está espetacular; choro a cada oportunidade em que o experimento. Esgotou na Enoeventos, mas fique de olho! Tem energúmeno sugerindo que a importação de Enoeventos não é feita sem container climatizado, etc. Olha, se Korem não foi importado por Enoeventos com os cuidados que se espera, se ficou 30 dias tomando sol no chão do porto do Rio de Janeiro e ainda é tudo isso... pow, então Korem é o melhor vinho do mundo! Mas experimentei Korems da antiga importadora, e estavam igualmente bons. Então afirmo: padrão é esse mesmo! Comprovação de que energúmenos são... energúmenos! Korem 2015 tem fruta muito viva - vivíssima! - , explosiva, ótima persistência, bons taninos, acidez e corpo médios e madeira elegante - justamente o contrário da madeira sul-americana de uma década atrás, em excesso - além de ser daqueles vinhos que entram no nariz e boca 'em três dimensões' - quem entende, sabe o que pretendo dizer. Um vinhão, sempre. Se comprar a R$ 300,00, é felicidade engarrafada com certeza. 
   Ao final, servi à Angelina o último dedo de um Tarapacá Late Harvest que estava há mais de um ano na geladeira, com um roquefort francês. Ela adorou. Depois, um Tokaj três putônios. Só ela experimentou, eu estava sorvendo - feliz e serelepe - o Korem. Angelina não conseguiu prosperar para o Sauternes ou para o Porto - Adriano, com vínculo mencionado acima. Mas eu tasquei um dedinho neste final de escrita. É um vinho não vintage, engarrafado em 2001 e que abri em fevereiro. Continua ótimo, com frutas secas - nozes - persistente, redondo, macio... felicidade engarrafada. Tenho ainda uns bons três dedos, para partilhar com quem se apresentar. Alistem-se!

Wednesday, February 17, 2021

Um feliz reencontro

Introito

   A confraria principal andava às traças. Também pudera: pandemicamente falando (sic), todos andam ressabiados. Ademais, o infortúnio levou-nos o confrade Wilson para... o Olimpo?... o Céu?... o... o... como se chama o Céu para os japoneses? Bem, ele se foi. Levou um pedaço dos nossos corações em sua subida, que às vezes nos devolve na forma de sonhos com ele mesmo. No domingo a sra. N, dona Neusa, que debutou no blog em 2016, resolveu que era passado o luto e, ela vacinada, marcamos um encontro. O Ghidelli, que perdeu a mãe porque Tânato estava preocupado com a concorrência (ela tinha 97) foi o participante convidado. Pena o Jaci não poder comparecer. Akira veio. Para receber a Dona Neusa após praticamente um ano sem contato, decidi com o Akira que abriríamos algo que valesse a pena após tanto tempo afastados. Eu tinha passado por (mais) um perrengue com Don Flavitxo, e resolvi que colocaria suas concepções à prova. Doesse a quem doesse... desde que fosse nele... 😝

Vinhos, vinhos à mão cheia

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
Castro Alves, Espumas Flutuantes, 1870

   Acho que já citei esse trecho de Espumas Flutuantes, que particularmente gosto muito. Li há uns 40 anos... Atualmente aprecio pelo paralelo com o vinho quando este nos traz certa satisfação: vinhos à mão cheia, que faz as pessoas felizes... E são muitas felicidades, na verdade: a do vinho pelo vinho, das experiências que ele nos proporciona, e quando acontece, a dos reencontros. Quando os convivas chegaram, enquanto terminava o preparo das quitutes, abri o branco, que servi com queijos e xarxicha (sic) de vitela. Como se nada pudesse melhorar - piorar sempre pode, comentei isso aqui avisando que sempre dá pra jogar mais um quilo de m... ao que já está suficientemente ruim - mas enfim, como se nada pudesse melhorar, o Ghidelli ainda aparece com um pão caseiro de sua última fornada. Simplesmente um luxo... (veja em 1min50).

Venham os meninos (e a menina)

Ao centro, não necessariamente o Redentor...
 La Chablisienne Chablis Grand Cru Les Preuses 2014: um Chablis que me fez perguntar se era cítrico - e que o Akira achou que não tivesse essa característica tão marcada. Les Preuses é tido como um climat onde de fato esse aspecto dos vinhos de Chablis não aparece tanto, vide aqui. Bem, não conheço muito de Chablis... apenas sei que gosto. E esse La Chablisienne combinou muito bem com Gouda e Gruyère - mas bem... são combinações clássicas. A surpresa foi a xarxicha (sic) de vitela. Sua acidez muito elegante combinou bem com todas as propostas. Alguém falou 'abacaxi' no nariz. E 'damasco' também. Muito rico, vinho de encher a boca, com final longo e ótima persistência.  Dona Neusa trouxe esse vinho de NY, quando esteve lá, há uns 3 anos. Ótima compra. Aberto e aerado em decantador uma hora antes da chegada da turma, e passado de volta para a garrafa, o próximo foi o Korem 2015. Já havia experimentado dele há algum tempo - não postei. Mas aquela experiência foi a 'deixa' para começar a estocar Korem como se não houvesse amanhã (rs). Seu peço no Brazio estava pornográfico enquanto uma importadora tubarona o trazia, e caiu quase pela metade(!) 😛 nas mãos da Enoeventos. Diz (sic) que ainda tem uma garrafas lá... Fruta vermelha muito viva, chocolate - é um vinho longevo, bebi safras com 10 anos que pareciam novas - muito especiado, boca também rica. É corte de castas típicas da Sardenha: Bovale, Carignano e Cannonau (o sítio do importador não especifica as proporções), tem graça e equilíbrio. Pelo preço aqui, é de longe o sinônimo de felicidade engarrafada mais completo e acabado que experimentei nos últimos tempos. Se custasse 500tão não seria...

Depois de um perrengue com Don Flavitz acerca da idade para se beber Xatenêfis - e tudo quanto é vinho, também - ele veio com essa: Xatenêfis podem ser bebidos em 3 anos. Claro, dito por um bebedor de Barolos com 5 anos... Mas note, 3 anos.  'Escalei' um Xatenêfi com mais de 5 anos, um Chateau de Beaucastel Chateauneuf-du-Pape 2015. Também trazido pela D. Neusa, aerou uma hora em decantador e ficou mais umas 3 horas em garrafa, enquanto os outros vinhos eram consumidos - houve uma pausa enquanto preparamos um bifão para acompanhá-lo. O Ghidelli ficou falando durante meia hora: "Fechado, Fechado, Fechado...". O Akira repetia somente duas vezes o 'fechado', a intervalos regulares... Estava bom, mas... fechado (risos!). Boa fruta, acho que o Ghidelli falou 'carne', sim, um tostado no nariz que adentrava quase até a alma. Corpo médio, taninos indômitos (sic) faziam um peso que o tempo seguramente equilibrará. "É muito vinho" bradava o Ghidelli, enquanto sorvia um tanto e suspirava, com o olhar distante. Dona Neusa apenas sorria, encantada: "Veio naquela viagem a NY?". Ara, o degas aqui (sic) foi quem comprou as duas caixas que vieram daquela empreitada de parte da família Tachibana ao centro mundo civilizado. Beaucastel, apesar de ser um vinho de corpo médio, acidez muito equilibrada, estava de fato um tanto 'nervoso'.  O que, curiosamente, não impediu que mostrasse sua classe. Veremos a seguir.

Aqui o ponto ao qual sempre volto. O de que o demônio mora nos detalhes. Já escrevi algo como 'os melhores vinhos sempre encontram as taças antes', ou algo assim. Faça o teste por si qualquer hora. E, se fizer às cegas, verá o quanto essa é uma regra de ouro. Beaucastel estava nervoso. Foi servido depos de Korem, que estava 'um mel'. Veja-se acima a garrafa de Beaucastel praticamente vazia, enquanto a de Korem - repito, servido primeiro - felicidade engarrafa que é, acabou ficando para trás e ainda sobram-lhe uns bons 4 ou 5 dedos quando Beaucastel já ia consumido e acabado - a despeito de todos seus 'problemas'. Acontece que Beaucastel é um vinhão, e mesmo servido fora de seu melhor momento ainda é muito mais vinho do que 'muito vinho muito bom' (sic). Isso pode soar conversa mole para boi dormir, mas o fato não pode ser negado. Por que Beaucastel secou enquanto Korem... sobrou?(!) Korem é outro ótimo vinho... Tem certos mistérios que esse Enochato não sabe explicar. Já havia bebido esse vinho em sua safra 2007, com 7 anos, em 2014. Está aqui a avaliação do próprio Don Flavitz. Em suas palavras de então, O vinho vai se transformando. É um camaleão! Característica de grandes vinhos. Isso não se repetiu para o mesmo vinho com apenas 5 anos... 

Fechamento

Um evento de reencontro como esse não poderia ter um final menos que apoplético apoteótico... desci para a adega e peguei um Porto da Adriano Ramos Pinto, um Adriano Reserva Particular sem vintage. É somente rotulado como 'vinho do Porto', tão antigo que era anterior a esse modismo de Ruby, Tawny, etc... (risos!). Não, não, não é assim... esse apenas não era rotulado como tal. Não sei explicar, precisaria consultar melhor a legislação. Estava oxidado, mas não da maneira como eu gostaria mais. Não estava com aquele toque de noz tão típico que alguns vinhos verdadeiramente oxidados alcançam, mas nem por isso apresentou-se menos 'diferente'. Cor bem atijolada, nariz com aquele dulçor típico dos Porto - não resisti e peguei mais uma taça agora, enquanto escrevo - dulçor que repete-se na boca e dá tanta tipicidade aos Portos em geral. Os 19,5% de álcool não aparecem. Parece ter cereja na boca... e alegra o fundo da alma, também. Fazia um certo tempo que não bebia um Porto oxidado. Foi outro feliz reencontro...