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Saturday, February 23, 2013

O Château Latour que não latiu

Grandes vinhos e grandes enganos

   A atual fase francesa do nosso amigo Akira acabará por nos levar à bancarrota. Por enquanto, felizmente - e para êxtase dos leitores - apenas a pequenos e deliciosos enganos. Estava o Akira conversando com um lojista de onde ele tem garimpado boas oportunidades em S. Paulo. Entre uma queima e outra, apareceu o Borgonha-Valisére da postagem recente. Da vez seguinte ele estava conversando sobre vinhos de Bordeaux. O lojista disse ter a magnum de um "bastante bom" em promoção, e apontou para prateleira:
   - Te faço 250... não vou trabalhar mais com a marca e estou queimando esta última garrafa.
   O Akira deixou escorrer uma lágrima do olho enquanto murmurava:
   - Você vai me vender um Château Latour por 250?
Grandes vinhos e grandes enganos...

   O lojista aproximou-se da garrafa e virou-a, posicionando-a de frente, e antes que pudesse falar qualquer coisa o Akira enxugou a lágrima e, curto (apenas curto): - Vou levar... (terminou abaixando a cabeça, talvez para esconder a vergonha...).

   Eu não deixo passar a chance de perder um bom amigo. Desfeito o engano, marcamos a degustação. A parte boa de uma magnum, dividida em quatro - outros vinhos acompanharam o momento, mas falarei apenas deste - é que podemos ir devagar, começar a degustação sem decantação prévia e deixar o tempo fazer seu trabalho enquanto a conversa flui. Demos sorte, também: a safra 2001 indicava que provavelmente estávamos em um bom momento para degustar o danado. Por outro lado a graduação alcoólica (13%) provocou-me um ligeiro calafrio. Costumo vincular longevidade diretamente (dentre outras coisas, claro) à graduação alcoólica. Como veremos, apenas mais um engano a somar-se ao folclórico evento. Com  um ano em barrica e outros 11 de garrafa, este corte 60% Cabernet Sauvignon, Merlot 35% e 5% Petit Verdot pareceu não ter envelhecido. Sequer a sugestão de estar atijolado, pelo contrário. Na boca, inicialmente bem fechado, muito diferente dos chilenos e argentinos aos quais sou mais acostumado. Contudo, já de cara, uma característica chamou atenção: acidez presente. Com a devida evolução, a acidez foi integrando-se aos bons taninos e à madeira. Apareceram couro e chocolate à medida que as taças oscilaram entre vazias e cheias, além de ótima fruta. É um vinho de corpo médio, e surpreendeu pelo final entre médio e longo e retrogosto bem presente.
   O que precisa ficar registrado para bebedores de sul-americanos (como eu) e ex-bebedores de sul-americanos e iniciantes em vinhos europeus (como eu), é que não trata-se se um vinho "fácil". Seu conjunto acidez-taninos-madeira tem boa pegada mas a "caída", se me entendem, é muito diferente dos vinhos deste continente. A boca menos acostumada tenderá a não apreciar devidamente esse tipo de vinho; ele pode passar por ruim. Não é. O tempo fez diferença e, embora ao final ele continuasse diferente do vinho mais fácil, sua estrutura atestou a qualidade. Este parágrafo pode ter fica um tanto confuso. Não faz mal; eu também, quando o degustei. Como último argumento, devo dizer que experimentarei outros vinhos do Médoc, com a devida atenção; não adianta abri-lo em uma festa e dar atenção a 30 colegas, largando o vinho na taça. Se servir de consolo, o Flávio Vinhobão seguramente fará uma apreciação mais precisa deste vinhos. Não é, Flávio?...
Château La Tour de By 2001, 13° de álcool, 60% Cabernet Sauvignon, Merlot 35% e 5% Petit Verdot.
Bom vinho, mas não para todas as bocas.

PS: após o comentário do Vitor, fui checar com o Akira o quanto ele havia pago na garrafona. Na verdade pagou R$ 200,00, e não R$ 250,00 como eu pensei inicialmente (blefe do amigo-bebedor, para valorizar o vinho dele? - rs!). Parece que esse assunto de vinho tem mais variáveis do que podemos sonhar conhecer algum dia.