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Saturday, August 7, 2021

A pesquisa nacional e a poda de inverno nos vinhedos III

Introito

   Começamos comentando uma matéria jornalística que ovacionava a produção de vinho mineira após a conquista de medalhas em degustação internacional e explicava o motivo para seu sucesso: a poda de inverno. A consulta ao preço de alguns dos vinhos mencionados motivou estas postagens, onde algumas reflexões intermediárias foram necessárias para podermos contextualizar não apenas o preço/valor do vinho como recobrar um pouco da estória dos produtores nacionais. Vamos à conclusão.

Diversas falácias

   Precisamos desmascarar diversas falácias que nos confundem. Se o leitor não tem os dados ele pode deixar-se enganar, porque sua postura é a de 'boa fé'. Veremos o quanto se mente ou, no mínimo, se distorcem dados. 

Rico/pobre. Mas é rico ou é pobre?

   Notamos que nossa indústria vitivinícola se regozija de seus feitos quando lhe é conveniente, para chorar com o chapéu nas mãos em outros momentos. Vide a postagem passada, a respeito das 'salvaguardas' que a indústria pediu ao governo quando crescia a taxa três vezes maior do que o PIB geral. Como o leitor sente-se quando informado dessas variações de humor (sic) dos nossos valorosos produtores?

A escala

   Querem nos fazer acreditar que o vinho nacional não em escala. Uma rápida pesquisa nos leva aos seguintes dados:
  • A Vinícola Aurora concluiu a colheita de 2021 colhendo 90 milhões de quilos de uvas.
  • A Vinícola Guaspari pulou da produção de... 30 (trinta) garrafas(!) em 2008 para 50 hectares, segundo o sítio do produtor, consultado nesta semana.
  • A Vinícola Miolo declara possuir uma área de 100 hectares próprios apenas na região do Vale dos Vinhedos.
  • A Casa Valduga orgulha-se se possuir a maior cave de espumantes da América Latina, com capacidade para abrigar mais de seis milhões de garrafas.
  • A Vinícola Marchese Di Ivrea declara em seu vídeo institucional produzir 50.000 garrafas por ano.
     
   

   


Os detratores dirão que trato dos grandes produtores e esqueço-me que os pequenos, que são boutiques de vinho com produção minúscula. Respondo:
  • A Guaspari citada acima é uma das vinícolas premiadas. Tem escala.
  • Produtores como Espaço Essenza, Vinhos Maria Maria ou Vinícola Campestre, apenas para ficar nestas, não declaram suas produções ou áreas plantadas, tornando-so impossível qualquer comparação. Mas vamos apostar que essa produção é 'alguma'. Umas 1.000 garrafas? Guarde esse dado.
   Certo. A Europa toda (principais produtores, França, Itália, Espanha e Portugal) está repleta de produtores pequenos com terrenos de até meio hectare. Vejamos o caso de um produtor espanhol. A Bodegas Pujanza produz seu ícone, o Cisma, em um vinhedo de... 0,8 hectare. Toda a produção é realizada em um único barril de 1.700 litros. Entre magnuns e garrafas comuns, dá umas 1.000...Veja aí abaixo a condição das vinhas que ocupam os 0,8 hectare... cada vinha dá um ou dois cachos... será que as vinhas dos nossos produtores são centenárias, de baixa produtividade? Qual nada! Leia lá (rs), muitas começaram nos últimos 10 ou 12 anos!

   Os detratores poderão continuar dizendo que Pujanza produz outros vinhos, e alguns chegam à casa de dezenas de milhares de garrafas por safra. Sim. Mas como dito, a Europa possue milhares de produtores que sobrevivem cultivando até meio hectare. Escolhi o exemplo de Pujanza porque de fato ela produz ampla gama de vinho e então falaremos de preços.

Finalmente, os preços

   Pujanza produz uma gama relativamente variada de vinhos:
   Hado é avaliado em 12 moedas
   Finca Valdepoleo vale 20 moedas
   Pujanza Norte fica entre 46 e 53 moedas
   Pujanza Cisma (ícone da vinícola) vale lá suas 125 moedas



   Vejamos o preço de alguns vinhos nacionais premiados pela Decanter:
   Vinícola Góes Philosophia Cabernet Franc 155 moedas
   Barbara Eliodora Syrah: 167 moedas
   Guaspari Viognier Vista do Bosque: 178 moedas
   Casa Valduga Identidade Gran Corte: 192 moedas ('promo' por 153,60 moedas)
   Vinícola Ferreira Piquant Soleil Syrah: 200 moedas
   Vinícola Ferreira Arcanum da Serra Merlot: 300 moedas

   Sejamos honestos: alguns produtores oferecem seus vinhos a preços mais palatáveis:
   Amitié Pinot Noir: 66,50 moedas
   Vinícola Campestre Zanotto Sangiovese: 70 moedas
   Mas veremos que, na verdade, não são tão palatáveis assim.

   E quando o leitor pensa que o céu é o limite, fiquemos com essas pérolas da nossa 'produção':
   Guaspari Cabernet Franc: 548 moedas
   Miolo Sesmarias: 1038,52 moedas. Se pechinchar acho que sai por 1038,00... 😆

   Comparemos com os preços de alguns vinhos verdadeiramente icônicos de nível mundial:
   Barbaresco da Cantina Produttori del Barbaresco: 46 moedas
   Chateauneuf-du-Pape Chateau de Beaucastel: 97 moedas
   Brunello di Montalcino Biondi Santi (2015, 2017), é o pai da denominação Brunello: 180 moedas
   Barolo Giuseppe Mascarello e Figlio Monprivato: 227 moedas
   Vega Sicilia Unico Gran Reserva: 460 moedas
   Chateau Lafite Rothschild: 1.272 moedas. E não, não deixam por 1.270 moedas... 😠 (😂)

   Famoso (mais por força do marketing do que pela qualidade per se) desde há muito, o Miolo Lote 43 é um vinho cujo preço varia de 280 moedas (há alguns anos; hoje deveria custar bem mais) a até 200 moedas em 'promo', e atualmente está cotado a 230 moedas. É um vinho que já bebi, assim como vários da Miolo. Veja aqui. É incrível como o preço de Lote 43 oscila de tempos em tempos, provavelmente em função dos estoques - sua tiragem é enorme. Mostrando que acompanho ainda que de longe a produção nacional, outra crítica deste articulista remonta ao Decima Gemina Gran Reserva 2005 da Piagentini, a 100 moedas (em 2012! Dóla = R$ 2,20). O que escrevi do Decima, e já comentei sobre o Lote, e que são vinhos para competir com um Gran Tarapacá. Note que refiro-me ao Gran Tarapacá e não ao Tarapacá Gran Reserva, que está um degrau acima e ainda vem muita gente (sic) depois dele na escala de vinhos desse produtor. Ora, Gran Tarapacá custa no Chile 5.000 pesos, o que dá em valores internacionais 6,34 moedas. Assim, nossos pesos-pesados nacionais, na faixa de 200-300 moedas só competem com os chilenos de 6-7 moedas. E, recobrando a primeira postagem, enquanto o Brasil tem 322 menções ou medalhas no evento da Decanter, o Chile tem... 6.733! Quem será que produz vinhos melhores? Mais um argumento: todo mundo que viaja sabe muito bem; compramos em países produtores vinhos 'razoáveis' na faixa de 6-8 moedas... o que corrobora a comparação com o valor do vinho chileno no Chile.
 

Nada fica tão ruim que não possa piorar

   Voltemos à questão da poda de inverno. Seu mérito é inverter a colheita das uvas, jogando o término da maturação para uma época de menos chuvas. OK. Acontece que a colheita é apenas um - e talvez não o mais importante - fator na produção de bons frutos. Citando o Vinhos de Todo o Mundo - Guia Ilustrado Zahar (Jorge Zahar Editor, edição brasileira de 2006),
p. 51 (sobre a França), "Mais ao sul, no Vale do Rhône e no sul da França, muitas cepas brancas tendem a ser menos ácidas devido ao clima mais quente."
p. 195, verbete sobre o Piemonte: "Os Alpes moderam o sol quente do verão, e as temperaturas mais baixas resultantes preservam a acidez e aumentam a complexidade das uvas."
   A região compreendendo Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo está aproximadamente no paralelo 20. Aquele mais ou menos famoso vinho argentino que provavelmente todos bebemosalguma vez (o Latitud 34) está, isso mesmo, no paralelo 34. O extremo sul de Portugal está no paralelo 37 (norte, claro), e às vezes neva por lá. O continente europeu começa dali para cima (sic), ou seja: as temperaturas só decrescem mais para o norte. Aí vão querer me convencer de que vinhas plantadas em regiões onde as temperaturas de verão superam facilmente os 30 °C terão alguma acidez quando comparadas àquelas cultivadas em regiões com máximas de até 25 °C? É isso mesmo? Gentem (rs! sic!), o extremo sul do Rio Grande do Sul ainda está no paralelo 33... precisa desenhar? Querem desmentir que a Vitis vinifera não se adequa ao Brasil. Ora, que bobagem! É o Brasil quem não se adequa a ela...

   Portanto, não adianta nossa indústria insistir em tocar um trabalho extremamente sério nas condições continentais do país. O resultado desse trabalho extremamente sério será absolutamente ruiníssimo. Não, eu não experimentei nenhum dos vinhos do evento da Decanter. Mas com os preços desproporcionais que nos apresentam, vou canalizar meus poucos reais para vinhos nos quais realmente acredito. Continuo indo a degustações (não durante a pandemia) e experimentando principalmente nacionais e sul-americanos. Minha opinião ainda não mudou: os chilenos estão demasiadamente caros para sua qualidade. O que dizer do preço dos brasileiros? Não terei o menor problema em reformar minha opinião quando experimentar qualquer vinho nacional e avalar que é de boa qualidade. Ainda aguardo o dia em que poderei ir para o Chile, levar um vinho nacional debaixo do braço, chamar os amigos chilenos, abrir um Tarapacá Gran Reserva (agora sim, um Gran Reserva) e dizer:
   - Este vinho brasileiro custa na minha terra o mesmo preço que um Gran Reserva aqui. - E então servi-lo com orgulho. Claro, aguardo sentado.

PS: tenho as imagens de tela de tudo o que escrevi. Pela extensão da postagem, poupei o leitor de apresentá-las todas. Se algum arrivista aparecer, posso fazer uma postagem amontoando-as sem muitos comentários. Obrigado pela paciência!

Friday, August 6, 2021

A pesquisa nacional e a poda de inverno nos vinhedos II

Introito

   Pensei muito sobre a continuação da postagem anterior e tentei abordar alguns assuntos resumidamente, mas não consegui uma apresentação adequada. Achei que será melhor cometê-la (sic) em três atos. Nestes comentários intermediários aproveitarei para marcar um rótulo (label) no blog para posterior referência, e pretendo situar o leitor em algumas controvérsias que desnudam picaretas e contam a estória de como andava o mercado nacional há uma década. Prepara-se para fortes emoções.

A estória das moedas

   Para começar a conversa, precisamos de uma reflexão para o que se seguirá no tocante a preços e valores. Falemos de dinheiro. Um dos parâmetros para refletirmos é o salário médio da população que consume vinho. Defendo que aqui a variação cambial não pode ser levada em conta. Um profissional recebeu seu salário de "x" unidades monetárias em seu país e precisa viver com aquele montante, pagando aluguel, alimentação, plano de celular, roupas, transporte, água, luz, plano de saúde e, se sobrar algum, comprando seu vinho. Tomando três países para efeito de comparação rápida, vejamos o salário de professores do ensino básico (ou educação infantil):

País

Salário

Estados Unidos

2.475,00

Portugal

1.518,63

Brasil

2.500,00


   Portanto, para mero efeito de comparação, podemos dizer que um professor nos EUA e no Brasil recebem 2.500 moedas, e em Portugal cerca de 1.500 moedas. Não importa se em um lugar são Dólares, em outro, Reais, e em outro ainda, Euros. Cada um tem suas moedas para gastar, e pronto. E não adianta querer dizer que no Brasil em alguns lugares os professores recebem 1500 moedas e que isso seria pouco em relação a quem ganha 2500 moedas. Primeiro: está igual a Portugal. Segundo: estamos falando na ordem de grandeza dos valores. A ordem de grandeza não se altera em uma escala de 10. Ou seja: é impossível um professor ganhar 15.000 moedas enquanto os outros ganhem apenas 1.500 moedas. Para qualquer efeito, um professor em Portugal ou EUA efetivamente não ganha 5.000 moedas, o que colocaria seu salário como o dobro de moedas do professor brasileiro. Terceiro, e não menos importante, se professores aqui ganham apenas R$ 1.500 moedas, os argumentos ficarão mais dramáticos! Abaixo, os valores pesquisados.



O mercado de vinhos, há 10 anos

It started - for me, it started - last Thursday, in response to an urgent message...
Invasores de corpos, 1956

   Toda estória que se preza tem vilões e mocinhos. Bem, algumas possuem apenas vilões... acredito que o leitor saberá que tipo de estória é essa, e quem são os vilões. 
   Creio que começou na última quarta-feira (sic! rs!) de setembro de 2009, quando a Abravin conseguiu, por meio de lobby, que o Congresso apreciasse uma lei que obrigaria as garrafas de vinho a portarem o Selo de Controle Fiscal. Sua aprovação aconteceu em 2010, e em 2011 todas as garrafas estavam obrigadas a ostentá-lo. No que isso impactava? Para o produtor nacional quase nada, uma vez que estes compraram uma máquina que 'emendava' o selo em cada garrafa após o envase. Para o importador... bem, cada caixa precisaria ser aberta e o selo aplicado. Manualmente. Felizmente essa lei foi cassada logo nos primeiros meses de 2011, mas ainda assim os importadores inicialmente viram-se obrigados a cumprir a regra. Algumas notícias no mínimo muito estranhas circularam, vejam só:

Vinícolas ajudarão Receita a checar selo fiscal em vinhos

  Não fosse suficiente o malfadado Selo, a Abravin chegou com outra logo em seguida, em 2012: pediu ao governo a adoção de  'salvaguardas' à indústria nacional de vinhos. Sugestão: aumento de alíquotas de importação para o vinho estrangeiro, dos então 27% para... 55%! Isso motivou ao pronunciamento que ficou conhecido como

Carta aberta de Ciro Lilla a seus clientes (trecho)
Proteção sem limites ao vinho nacional
Caro amigo,

O mundo do vinho no Brasil vive momentos decisivos. Agora é mais do que necessário fazer um alerta a nossos clientes sobre algumas notícias muito preocupantes para os amantes de vinho.

Por incrível que pareça, surgem outra vez notícias a respeito da pressão dos grandes produtores gaúchos sobre o governo para que haja um novo aumento de impostos sobre o vinho importado, como se a gigantesca carga tributária atual não representasse proteção suficiente para o vinho nacional. Fala-se agora em “salvaguardas”, como se a indústria nacional estivesse em perigo, em risco de falência, quando na verdade as notícias enviadas à imprensa reportam um grande crescimento de vendas. Afinal, é preciso definir qual discurso é o verdadeiro: o vinho nacional vai muito bem ou vai muito mal? Os comunicados e números oficiais dizem que vai muito bem, o que invalida o argumento a favor das “salvaguardas”. Além do que, os impostos atuais já são altíssimos, e representam o verdadeiro grande inimigo do consumo de vinhos no Brasil.

Além do aumento de impostos - pediu-se um aumento de 27% para 55% no imposto de importação, o primeiro da longa cadeia de impostos pagos pelo vinho importado - desejam também limitar a importação pelo estabelecimento de cotas para a importação de cada país. Ficariam livre das cotas apenas os vinhos argentinos e uruguaios. Incrível: cotas de importação para proteger ainda mais um setor, o de vinhos finos nacionais, que cresceu cerca de 7% em 2011 - ou seja, nada menos do que quase o triplo do crescimento do PIB brasileiro! Se forem adotadas salvaguardas para um setor que cresceu o triplo do PIB em 2011,  que medidas de proteção se poderia esperar então para o restante da economia? Repito porque parece incrível, mas é verdade: pedem salvaguardas para um setor que cresceu cerca de 7% em 2011! É preciso dizer mais alguma coisa?!
   O texto completo está aqui.

   Também na mesma época, alguns pequenos mas corajosos produtores ousavam pronunciar-se. Luiz Zanini, da vinícola Valontano, perguntava, dentre outras,
Por que o IBRAVIN não pede o SIMPLES para o pequeno produtor? Por que o IBRAVIN não pede o fim das normativas que limitam a produção artesanal? Por que o IBRAVIN não pede a dispensa do SELO FISCAL para quem produz até 50.000 litros de vinho? Por que o IBRAVIN não luta para baixar os tributos de nossos vinhos, ou cria um regime especial para os pequenos produtores? Isto seria a salvaguarda para a sobrevivência da diversidade do vinho brasileiro. Ao contrário disto, o IBRAVIN que, diga-se de passagem, não possui representantes de pequenas vinícolas, está se especializando em burocratizar o Setor.

   Então o que temos presenciado é uma sequência de movimentações no mínimo estranhas da parte dos nossos grandes produtores de vinho que, tudo indica, jamais teve como intuito proteger ou beneficiar o consumidor. Não bastasse - e agora vai para todos os produtores, e não apenas os grandes - os empresários do setor nos sobrecarregam com propaganda enganosa, marketing mentiroso e excesivamente ufanista e uma sobre-valorização de seus produtos, visando a confundir a percepção do brasileiro. Recobremos da postagem passada a posição de uma inocente compradora que parece não perceber o lodaçal em que ela própria está metida:
E vejo também que há muita resistência do consumidor para com os vinhos nacionais. Paga-se R$ 100,00 num vinho importado mas não quer pagar o mesmo preço num vinho nacional.
   Ao que o 'mediador' comenta,
Verdade. Com o dólar alto, hoje em dia o vinho nacional nessa faixa de preço provavelmente é de qualidade similar ou melhor que um importado. Temos ótimos vinhos e temos muito a expandir ainda.

   Percebe a desfaçatez? O 'mediador' não apenas continua induzindo a visão equivocada da consumidora como dá argumentos mentirosos acerca da qualidade do vinho nacional. E veja, também na postagem passada, a (suposta) mudança de posição do mediador: O empresário precisa de auxílio, sim, mas não privilégios. Ah, tá... vide as estórias acima. Cansaram de tentar impetrar tungas no brasileiro desavisado e mudaram o discurso. Como sempre digo... a informação precisa circular. Nunca pedi (rs), mas como está em moda pedir um like, peço que o inexistente leitor envie essa matéria a alguém próximo, que consuma vinho. The spice must flow...

   E ficamos assim: uma indústria que vai bem desde sempre, desde sempre conspira contra o consumidor. E agora vai a minha interpretação: as manobras não têm foco em impedir a entrada do vinho estrangeiro em nosso solo, mas forçar o preço do vinho importado para cima porque, dessa maneira, podem cobrar muito pelo seu próprio produto e então auferir lucros verdadeiramente absurdos com um produto de qualidade notadamente inferior. Olha, a indústria de tecnologia é quem provê lucratividade de 1.000% sobre o investimento, mas a riscos altíssimos. Não fosse o bastante, notemos que o restante da indústria agrícola não chega nem perto dessa lucratividade. Será que isso fecha a reflexão? O vinho no Brasil é um buraco-negro cheio de escorpiões onde poucos ousam botar a mão. Tonto que não sou, meto logo o pé... Hulk smash...

Tuesday, August 3, 2021

A pesquisa nacional e a poda de inverno nos vinhedos

Introito

   Vamos de saída a uma ameaça. Sim, o leitor leu corretamente. A ela: que nenhum mal informado, salafrário de má fé ou leitor com deficiência de interpretação venha dizer que a coluna não valoriza a pesquisa nacional. Não vai gostar do que ouvirá! O pesquisador nacional via de regra é muito sério. Falta-lhe senso crítico, é verdade, mas não podemos, de maneira geral, duvidar de sua competência e boa fé naquilo que ele pesquisa. Portanto, sim: os pesquisadores estão de parabéns antecipadamente. O resultado da pesquisas é que não pode ser levada a sério em seu contexto mais geral. 

Matéria do Diário do Comércio

   O Diário do Comércio é um jornal de Belo Horizonte, e publicou matéria onde exalta pesquisas levadas a cabo pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) sobre a técnica de dupla poda, que permite a colheita no inverno, período seco e portanto mais favorável para a colheita de uvas com maior concentração de açúcar. A matéria reporta ainda que a técnica vem sendo aplicada na Bahia e em São Paulo, Goiás e Brasília e estudos são conduzidos no Mato Grosso. Mais importante, cita nove vinhos regionais premiados em concurso internacional, amealhando medalhas de prata (1) e bronze (8). Observo que nosso país ganhou uma medalha de ouro com o Zanotto Sangiovese, da Vinícola Campestre; é a terceira conquista dourada da história segundo os dados anuais que remontam a 2007. O concurso é o Decanter World Wine Awards 2021, que avaliou  18.094 rótulos de 56 países. Citado na reportagem, o enólogo da Epamig Lucas Bueno do Amaral diz que
A técnica da dupla poda vem se mostrado (sic) muito favorável e permitindo a produção de um vinho de alta qualidade. Para se fazer um bom vinho, metade do caminho é ter uma boa uva. Com a técnica, conseguimos produzir uma uva sadia, com boa maturação, sem doenças fúngicas. Isso acontece porque conseguimos tirar a colheita do verão, que é chuvoso, e fazer no inverno. Por isso, estamos obtendo vinhos de muita qualidade.
   A vinícola Maria Maria teve seu Fernanda Sauvignon Blanc safra 2020 premiado. Para o engenheiro agrônomo e administrador dos vinhedos da Maria Maria, Eduardo Junqueira Nogueira Neto, o negócio está indo de vento em popa:
Este ano fomos novamente premiados. Ganhamos a primeira medalha em 2017 e foi surpreendente pelas uvas serem ainda jovens e não esperávamos este retorno tão cedo. Depois de 2017, quando tínhamos 10 hectares de uvas, ampliamos e hoje estamos com 21 hectares plantados. Nossa produção tem dado certo e nas cinco últimas edições do Decanter ganhamos prêmios em quatro. (grifo nosso)
   A reportagem comenta ainda que para a safra 2021, a meta é produzir 40 mil garrafas, com expectativa, para os próximos anos, de 60 mil garrafas por safra.

   A leitora Bárbara Aparecida Campanati deixou sua opinião na página do jornal:
E vejo também que há muita resistência do consumidor para com os vinhos nacionais. Paga-se R$ 100,00 num vinho importado mas não quer pagar o mesmo preço num vinho nacional.
ao que foi comentada pelo 'mediador'(?) Franc Virtu:
Verdade. Com o dólar alto, hoje em dia o vinho nacional nessa faixa de preço provavelmente é de qualidade similar ou melhor que um importado. Temos ótimos vinhos e temos muito a expandir ainda.

   Os leitores Orlando Santos e José Carlos Rosolia comentam ainda que é preciso baratear o preço dos vinhos sem perder a qualidade. Que o governo esfola o consumidor, e por isso não se consome mais vinho no país. O indefectível Franc Virtu volta à carga com explicações:
Essa é só a superfície... É preciso aumentar a produtividade tbm... No passado era comum dizer que a vitis vinifera não se adequava ao Brasil, mantendo-nos totalmente dependentes dos importados. Essa afirmação já foi refutada. Temos um mercado em franca expansão. O empresário precisa de auxílio, sim, mas não privilégios. (grifo meu)

Certo. Então vamos ao que o leitor não sabe...

  1. O certame de 2021 distribuiu, para produtores brasileiros, um total de 42 comendas. Para conferir, faça assim: vá neste endereço, selecione "year" (ano) 2021 e "country" (país) Brasil. Contudo, foram conferidas ao todo 179 medalhas de Platina, 635 de Ouro, 5.607 de Prata e 8.332 de Bronze, totalizando a bagatela de 14.753 medalhas outorgadas para os 18.094 participantes. Vemos que... 81.53% dos vinhos inscritos ganharam medalha ou comentário! Na escola do primário, era mais ou menos assim: bastava participar para receber um certificado. Lembra daquele menino espoleta (sic) da sua classe? Aquele tirava 80 de bom comportamento... do restante, todo mundo tirava 100...
  2. O Brasil está presente nesse concurso desde 2008, quando abocanhou um comentário favorável, e conquistou a primeira medalha em 2012, tendo acumulado desde então 322 medalhas ou menções.
  3. O Chile - país no qual este articulista gosta de bater, em função dos preços exorbitantes de seus vinhos e que, como digo, é o mais desimportante dentre os produtores importantes - está lá desde 2007 com medalhas de prata e acumula um total de 6.733 medalhas ou menções(!).
😅 Chu-pa, Bra-sil! 😂

   Então vejamos: o mais desimportante dos produtores possui, grosso modo, 23.7 vezes mais medalhas  ou menções do que nós. Veja só: 23.7x. E eu castigo os importadores porque suas margens mal excedem 4x ou 5x o valor do vinho lá fora. Eu sou um canalha, não é mesmo?

   O resultado preliminar desta postagem é a constatação de que a matéria tenta superestimar feitos mínimos alcançados pela nossa indústria, elevando a suposta qualidade do vinho nacional a um patamar pouco condizente com sua qualidade. A indústria está de parabéns pelos seus esforços, apesar de pouco profícuos. Pesquisar é o caminho, assim como debater sem paixões ajudará no aprimoramento do processo como um todo. Mas se ainda não ficou claro, caro leitor, esteja alerta, porque estão tentando enganar você. E como vimos alguns leitores - aparentemente de boa fé - caem na ladainha. É assim que anda nosso mercado interno de vinhos: importadores querem enganar você. Produtores querem enganar você. Muitos e muitos formadores de opinião (sic) querem enganar você. Cuide-se. E, como sempre, wine-searcher neles!

   A postagem está longa. Farei a parte 2, comentando um pouco mais. Não postarei comentários não identificados. O debatedor está obrigado a enviar nome e telefone (que será removido para publicação na seção de comentários), e entrarei em contato com ele para certificar-me de quem seja.