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Friday, October 8, 2021

Sob o signo de Mengele

Introito

   Chegamos à triste e inacreditável marca dos 600 mil mortos pela Covid. Entre 1939 e 1945 registramos cerca de 60 milhões de mortes em geral e 6 milhões de judeus no conflito mais sangrento da história da humanidade. Aqui, perderam a vida 1% do total de vítimas da Segunda Grande Guerra, ou 10% do total de vítimas semitas. Note que era uma situação de guerra. E estendeu-se por seis anos... Não bastasse tudo o que vimos em desmandos e negação do óbvio nos últimos meses, a semana que passou trouxe-nos fatos dignos da mais cruel câmara dos horrores. Discípulos de Josef Mengele portando títulos de doutor só não perpetraram barbaridades maiores daquelas do mestre porque ainda vivemos em uma democracia. Não duvide da degenerescência dessa gente, se as bases da Nação tivessem sido solapadas como tolos desejavam e torciam. Mais tolo ainda é acreditar que existe sub-notificação de casos. Bem, a estupidez humana não conhece limites. O cidadão de bem não pode deixar de manifestar-se face à barbárie, e é muito o caso agora. Há anos manifestávamo-nos por um simples (como se pudesse sê-lo!) desmoronamento de morro em chuvas de final de ano com poucas dezenas de mortos. O que aconteceu conosco?


Louis Latour Santenay La Comme 2013

Por uma dessas tristes coincidências, havia bebido outra garrafa desse vinho em 30 de abril passado, quando registrei a falência coletiva das instituições enquanto o idiota-mor repetia a falácia sobre golpe e lamentávamos 400 mil brasileiros levados cedo demais da companhia de suas famílias. Quis o destino que na data de hoje resolvesse tentar uma harmonização com hambúrguer e escolhesse justamente a última garrafa desse Santenay. A fruta e a especiaria continuam lá, bem presentes. A  boa acidez, os taninos médios e álcool bem contido combinaram com a carne não à perfeição, mas a ponto de causar-me boa surpresa. Um pouco de carne - maneirei na mostarda e troquei a maionese por requeijão -, pão e vinho, tudo misturado e mastigado... hum... prova cabal de que mesmo algumas comidas muito simples podem ser enriquecidas quando a combinação funciona. Procurei sobre harmonização com hamburger e encontrei, em diversos lugares, o indicativo de Pinots terrosos... voltei a atenção ao Santenay e... não é que tinha mesmo notas terrosas! É-me muitas vezes difícil expressar o que sinto ao analisar um vinho - daí que o leitor não se surpreende com a cantilena de sempre, "fruta negra/vermelha, chocolate/café/couro" e por aí vai. Mas prestando atenção e atento à sugestão, ficou fácil identificar. Nenhuma vergonha para mim, apenas a confirmação do sub-título deste blog, resmungos de um deficiente nasal que sabe pouco para iniciantes que sabem menos.

Friday, April 30, 2021

400 mil e a falência coletiva

Introito

   Lamentavelmente chegamos nos 400 mil mortos pelo Covid. Uma CPI com suspeita de que acabará em pizza - quero estar errado; por enquanto a maioria é de senadores da oposição, mas dá para sair muito dinheiro dos cofres governamentais antes do país falir de vez - ainda dá-nos alguma ilusão de que o futuro próximo (6 meses) possa apresentar algum vislumbre de mudança. Um amigo bolsonésio, há dois meses, enviou-me uma agenda de vacinação. Minha idade estava prometida para iniciar-se no dia 5 maio. Ontem enviei-lhe um uatizappi - somos da mesma idade - convidando-o para irmos juntos tomar a vacina. Adivinhe o resultado... 
   Enquanto isso o Estúpido-Mor da República continua com seu negacionismo, ameaças de golpe - venha... - e  insistindo em fazer parte do problema em vez de tornar-se parte da solução. Já comentei aqui: deixe as tralhas, e junte-se aos bons. Bolsonésio e importador energúmeno: tudo a ver; fiel retrato de um país falido.

Santenay

   Santenay é uma comuna da 'macro' região de Côte de Beaune, que fica na Borgonha. É uma comuna Premier Cru, produzindo grande quantidade de tintos e um pouco de brancos - sempre Pinot Noir e Chadonnay, respectivamente. Claro, nem todos os vinhos são Premier Cru; existem doze regiões demarcadas com tal status, além de porções ditas Village. Dentro das regiões Premier Cru, muitos produtores plantam para vinificar ou vender suas uvas.

Maison Louis Latour

   Louis Latour é uma empresa négociant, estabelecida em 1797. Possui vinhedos Grand Cru, Premier Cru e Village, além de comprar uvas de produtores independentes. Produz, efetivamente, dezenas de rótulos por toda a Borgonha. É tido como um produtor consistente, mas vamos lá: no mundo do vinho, toda uva é vinificada. Não importa se de alta ou baixa qualidade: está na Borgonha, vai virar um Borgoinha. Está em Montalcino, vai virar um Brunelinho - ou Rossinho, ou alguma coisa mais estranha (rs!). Está no Brasil, vai virar um Colheita Selecionada (sic! rs!), ou o que o valha, e custar os olhos da cara.  O leitor entendeu... Assim, se comprar um Louis Latour Rouge e não estiver tão bom quanto o esperado - ainda mais pelo valor -, não venha reclamar a este blogueiro. Diria ainda que, com várias dezenas de rótulos em seu portfólio, não estranhe se a marca estiver presente nos catálogos de várias importadoras, cada qual com sua margem, pornográfica ou não.

Louis Latour Santenay La Comme 2013

La Comme é um dos vinhedos Premier Cru de Santenay. Não é incomum que vinhedos sejam repartidos entre diversos produtores, então se encontrar um La Comme de outra casa, não se assuste. A safra 2013 não foi lá grande coisa. Essa garrafa foi comprada no Chile há alguns anos por R$ 120,00. Dóla a uns R$ 4,00, talvez. Não faz sentido comparar o preço com o Brasil se não temos um importador precisamente desse rótulo por aqui - não encontrei. Tem nariz com fruta vermelha bem marcada, especiaria e algo doce. O doce repete-se na boca, onde está balanceado pela acidez muito expressiva, taninos leves, álcool também integrado (13%). A madeira - 12 meses em barrica - quase não se nota. Está pronto para beber. Em se tratando de Borgonha, não sei dizer quanto tempo mais poderia durar. Já bebi Grand Crus com 15 a 20 anos, e estavam novos. Borgonhas muitas vezes envelhecem, oxidam e continuam excelentes na modalidade oxidado. O ponto é que não sei avaliar esse exemplar, se poderia ter envelhecido mais e encontrado sua quinta essência. Estava desejoso de um vinhobão, e nesse quesito sei que meus borgoinhas não me decepcionariam. Pelos R$ 120,00 foi felicidade engarrafada. Para um Premier Cru? Ah, vá!