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Wednesday, October 7, 2026

Um espanhol que NÃO fraquejou!

Introito

Ninguém jamais perdeu dinheiro por subestimar 
a inteligência do público americano
 H.L. Mencken (1926), apud 
Sagan, Broca's Brain (1979)

   Segundo dizem, a porcentagem de norte-americanos com diploma superior - contando a formação técnica pós-secundária - está próxima de 50%. Para o Brasil, o número mais confiável que encontrei é de 21,4% (dado de 2026), e na mesma página há um vínculo para o levantamento completo. Esse povo elegeu o Trampi. Bem, antes, o Baiden. Por aqui preferimos - 92% dos votantes... - Ali Lulá dos 40 ministérios e Bolsonéscio. A votação final foi muito estranha: Zema amealhou 0,27% (pouco mais de 300 mil) dos votos. Um ex-governador, vindo do segundo maior colégio eleitoral do país, eleito com mais de seis milhões de votos em seu estado e avaliado como ótimo ou bom por algo como 60% do eleitorado recebe, na eleição seguinte, meros cinco por cento de apoio em seu próprio estado, desconsiderando os votos país afora? Está claro o quanto a propaganda bolsonéscia mostrou-se eficaz em sua proposta de encerrar a fatura no primeiro turno, favorecendo a migração de votos de toda a direita para o primeiro colocado. Outro fator foi importante, embora eu não saiba explicar direito: por capricho do TSE, as páginas de todos os candidatos foram desarticuladas, tendo seu alcance a novos leitores severamente limitado ou mesmo extinto. Para uma campanha dotada de quase 900 milhões (PL), fica fácil se recompor usando influenciadores pagos para veicular sugestões de votos. Se é que foi mesmo isso que aconteceu, recomendo uma pesquisa pelo leitor. Parece claro que o Missão - partido no qual votei - foi soterrado pela falta de estrutura e aporte financeiro para conduzir sua campanha. Nem tudo foram lágrimas, e algumas verdades inconvenientes vieram à tona: Andrada foi derrotado na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, com um detalhe quase lascivo para este analista: enquanto NAP ganhou de bolsonéscio na capital, seu pupilo perdeu; justamente onde anteriormente ele próprio fora prefeito. Uma bela comprovação de suas habilidades gerenciais, não é mesmo? Também foi satisfatório acompanhar outros cidadãos sendo desempregados pelo eleitor, como, por exemplo, o amapaense Rodolfo, um deslumbrado por NAP. Tivemos muitos outros, mas esses bastam.

Um espanhol com karma, mas sem chacra

Sob o pretexto de acompanhar a apuração da eleição a #emuitovinho se reuniu na noite de domingo. Eu havia chamado as meninas para uma pizza, e para minha surpresa Dona Neusa chegou com um vinho a mais, e ele entrou no balde tão logo foi aberto, onde permaneceu enquanto apreciávamos um Cordon Negro, da Freixenet. Não é preciso falar muito mais sobre ele: bate similares nacionais de valores próximos, e isso é apenas mais um indicativo de como nosso vinho exorbita nossos bolsos. Compre vinhos caros, eles valem a pena... mas não pague caro por vinho, é estupidez em sua forma mais acabada. Pensando na Introdução, talvez não... continuemos.  Chacra Treinta y Dos 2016 Pinot Noir apresentou um buquê muito agradável, complexo, repleto de frutas vermelhas, especiarias e madeira - que mal percebi e fui  confirmar na ficha técnica - muito discreta. A boca passou longe do nariz, com um pouco de fruta, taninos leves, acidez indo a média - mas não chegando lá - tímidos 12% de álcool e final ligeiro, típico da maioria dos sul-americanos. Não deu sinal de estar comprometido, pois não apresentava defeitos óbvios. Procurando sobre ele e seu valor no mercado, notei como fala-se de sua acidez viva, mas não vi isso em nosso exemplar. A uma safra com 10 anos - nem tão antiga - parece claro faltar estrutura ao vinho para que ele mantenha a acidez mesmo por um tempo relativamente curto. Essa garrafa veio diretamente da bodega e manteve-se refrigerada até o consumo, então não levantemos problema de armazenamento. Acontece que ele é o melhor do produtor, com a safra 2016 celebrada pelos críticos, com James Sucks atribuindo-lhe 98 pontos, contra 96 do Parque. Comenta-se por aí esse vinho ter um estilo borgonhês. No... no se puede... (risos!). Vamos por partes. Partindo do suposto acima, a falta de estrutura comprometendo a acidez, e ele recebe 96 e 98 pontos de avaliadores enquanto Borgonhas como o Domaine de la Vougeraie Clos de Vougeot Grand Cru na ótima safra de 2009 não vai além de 95, e um Cros Parantoux do Meo-Camuzet (mesmo ano) mal chega a 93 (Wine Spectator) soa como uma piada dos Trapalhões para uma plateia com QI superior a 70: risos amarelos. Orra meu (risos!), um Borgonha dura, tá sabendo? Chacra pode competir muito bem com os melhores chilenos e argentinos, mas pelo que apresentou ao final de dez anos não bate um Borgonha Village de bom produtor. Por exemplo - reclamo muito da margem praticada pela Mistral, mas não questiono a qualidade da curadoria - tomemos um vinho simples do Domaine Jean-Marc Millot, o Gevrey-Chambertin 2021, um Village. Duvido que Chacra chegue perto. Não, não bebi do JM Millot, mas recentemente provei o Dugat-Py Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009  dessa mesma região, e não é difícil afirmar - se tivesse três neurônios, ainda sustentaria - que a diferença entre eles não é grande, é abissal. E a melhor nota dele é 18,5 no Gault & Millau... Está na hora do pessoal começar a ficar sério, a quantidade de patetices está sobrepujando a fruta (dos próprios vinhos - risos!). Se ele é melhor do que isso, então sua janela de beberagem é muito estreita. Next! 

   Com um perfil bem diferente, Juan Gil Etiqueta Azul 2018, um corte Monastrell (a Mourvèdre francesa, célebre no Rhône), Cabernet Sauvignon e Syrah, 15,5% de álcool, aerou duas horas antes de ir para o balde, e chegou explosivo, intenso: rico em frutas e mais notas de chocolate, couro e especiarias; Dona Neusa apontou mentol, sorrindo de satisfação. Não lembro a opinião da Elvira, mas creio que ela separou algumas frutas - algo muito difícil para mim. Sua potência está amparada por taninos muito marcados mas agora bem redondos, acidez média + e madeira bem integrada, perfazendo um conjunto rico e complexo. Tem ótima permanência com final um tantinho amargo, e isso é uma característica, não um defeito. Jumilla é uma DO de Múrcia, uma pequena região na costa mediterrânea do sudeste da Espanha; Juan Gil é reconhecido por ter colocado Jumilla no mapa internacional do vinho e compete com os melhores produtores da região. No segundo dia - enquanto escrevo esta parte da postagem - apresenta-se pegado, firme, e ao mesmo tempo elegante... acompanhou muito bem um hambúrguer com toucinho e batata frita, trazendo à lembrança o fauno de algumas postagens. Chacra também não desceu de um dia para o outro, mas Juan Gil estava mais ao meu agrado: melhor estrutura, encorpado e pronto para ser degustado, com vida longa pela frente. Este, beba ou guarde. Ademais, esse vinho de bom karma custa uma fração de Chacra; para mim, este é mais um vinho superestimado.

Sobre preços

   Juan Gil custa algo como 27 dólas lá fora (x5, R$ 135,00), e por aqui é encontrado a R$ 430,00. Isso dá quase 3.2x, tubaronice. Seguramente paguei menos nos tempos de Enoeventos com boas ofertas. A importadora tem algumas outras opções do produtor, e são bem razoáveis no quesito qualidade. Só precisa conferir se no preço também continuam interessantes.





   Chacra é um vinho caro na Argentina, R$ 667,80. Se disser no sítio que a indicação é deste Enochato, sai por R$ 667,00. Isso dá USD 120,00, mais ou menos. Chega nos EUA, dependendo da safra, entre USD 90,00 e USD 135,00 (mais taxas!). A pergunta de sempre: por quanto saiu da Argentina? Ainda assim, seu preço "lá", pelo que apresentou, é assustadoramente alto. Espero que venda bem; de repente alguém viaja para lá e me traz um Xatenêfi que esteja sobrando pelos mesmos USD 130,00. Nesse valor dá pra pegar um Beaucastel 2007... com qual você ficaria?










Wednesday, September 30, 2026

Uísque no níver da Rê

Introito - conclusão em pedaços; pedaço 2

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
A Pátria, Olavo Bilac, 1919

   Estava a refletir sobre a distribuição ideológica entre pessoas mais próximas. Nem todas tomam posição; a estimativa leva em conta quem assume um lado. Os tais envergonhados - eleitores discretos que não partilham sua escolha com outros - não figuram no cálculo. Cerca de 40% são bolsonéscios e 60% são PTlhos. Refiro-me apenas aos apoiadores desta ou daquela quadrilha, sem contabilizar outras possibilidades. À luz das teorias da estupidez de Cipolla e Bonhoeffer, o caso mais grave é, sem sombra de dúvida, o dos PTlhos, e a explicação é direta: eles o são há muito mais tempo. A dissonância cognitiva nesses elementos (sic) encaminha-se para umas nada comoventes bodas de prata com seus cérebros. Continuando assim, é provável que morram na senilidade absoluta.

Vejamos alguns exemplos de como PTlhos reagem quando confrontados com questões morais. A imagem ao lado é do comentário em vídeo onde Renan Santos analisa o final da reunião em que Supremos Sinistros (SS) riem ante um suposto acerto político com o presidente do Senado. Sugiro que ouçam para entender. Perguntei a um grupo: Se alguém me disser que a conclusão  não é verdade, eu vou agradecer muito. Claro, não basta dizer, é preciso argumentar... Entre três ouvintes, a única resposta foi um exemplo de candura: Não duvido, a única certeza q tenho é q eu não estava na tal foto e nem reunião... mto difícil nossa situação... Ou seja: utente imerso em dissonância cognitiva só admite não estar na foto, mas despreza todo o seu entorno constrangedor. Em acordos pouco republicanos entre ambos os lados do espectro político, bolsonéscios e PTlhos irmanados não no combate à corrupção - que no papel dizem enfrentar - mas, segundo o vídeo, seguem acasalados justamente para jogar falcatruas para baixo do tapete. Pergunto-me se há alguma (des)conexão entre esse duplipensar, neologismo de Orwell anterior à formulação da teoria de dissonância cognitiva, e a epígrafe. De fato, criança, não verá nenhum país como este...

Uma sequência de discussões engraçadíssimas - não fossem trágicas - deu-se com um jovem defensor da esquerda tosca e pregador, dentre outras coisas, da cultura Uóque. Precisei repetir as perguntas, pois no primeiro momento elas foram ignoradas. As respostas falam por si. O detalhe: para ajudar meu querido utente a responder à pergunta 3, eu enviara uma informação oficial. É uma página do Banco Central na qual está explícito o crescimento do déficit fiscal. Ainda assim o fato é negado, e este argumentador é colocado "na bolha". A conversa continuou, e a certa altura recebo a reflexão baseada em trecho de Belchior Não cante vitória muito cedo, não, não leve flores para a cova do inimigo. As lágrimas do jovem são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal  antigo, sobre seu receio da volta de dias mais autoritários. Como se já não os vivêssemos... - já notou como lado que apoia uma ditadura nunca a considera como tal? Respondi de maneira segura: Não Leve Flores é bem sugestiva, mas recomendo a música homônima do álbum onde ela está... O interlocutor conhece muito de música, e suponho que tenha conectado imediatamente a sugestão de Alucinação e esta à sua condição. Tentou sair-se com um trecho dela, Amar e mudar as coisas me interessa mais, apenas se esquecendo que um único verso solto de qualquer música pode defender até Lúcifer. Expresso uma declaração mais direta e abrangente advinda dessa mesma obra:
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...
   Sim, é isso: a minha alucinação é calcada no dia-a-dia, no real, sem dissonância cognitiva nem entregando-me à delusional perspectiva de que toda a direita é uma só, a extrema-direita. Trata-se de uma confusão épica, monumental, colapsando direita, extrema-direita e Centrão em uma única categoria. O Centrão de Valdemar Costa Neto, um dia aliado de Nosso Amado Presidente (NAP) e preso no escândalo do Mensalão, hoje parça de primeira hora da família bolsonéscia - ela própria aliada ao Centrão - não pertencem à extrema-direita. Misturando tudo, PTlhos enganam-se ao julgar todas as propostas igualmente fétidas, sujas e abjetas. Aliás, para que ler as propostas dos outros se eles mesmos não as têm?

Creio já ter comentado(?) sobre bolsonéscios: não comemoram possíveis vitórias advindas de argumentos, porque não argumentam; eles no máximo festejam esquivas quando conseguem mudar de assunto ao sentirem-se emparedados. Com PTlhos não é diferente. Na continuação do diálogo acima, o assunto em desenvolvimento era outro, mas então chega, do nada, esta pérola; um pequeno mantra de bolso (risos!) para repúdio instantâneo de inimigos ideológicos que poderia constar em... um livro pequeno, encadernado em couro sintético preto, com letras douradas na capa: Manual do Messias - Lembretes para a Alma Adiantada, de tão iluminado, profundo e edificante. Donald Shimoda ficaria enciumado. Sem entrar no mérito: percebem a diferença de estilo? Enviei para o sujeito perguntas simples, para responder com sim ou não. O propósito é fazer o infeliz refletir. Qual é o contra-ataque? Uma sequência de fatos, acusações e julgamentos morais fundidos em uma única categoria e, pior, voltados contra quem eu mesmo critico. Agora, entrando no mérito: tirando um ou outro fato pontual, as demais implicações serviriam a NAP tão bem quanto a Bolsonéscio (pai). Vejamos: Machismo e misoginia? Por onde andarão as mulheres de grelo duro(!)? E a Clara Ant, que recebeu cinco homens em sua casa e - segundo NAP - acreditou ser um presente de Deus? Estão aqui. Homofobia? Pelotas foi classificada como um polo exportador de viados (sic). Precisa mais? O sujeito pode ser estúpido (segundo Bonhoeffer) a ponto de dizer que novamente estou "na bolha", inventando... bem...


a fonte é esta; o vídeo foi publicado há 13 anos, então não pode ter sido gerado por IA... "Na bolha"... eu? Ah, tá... Queimadas? ...o primeiro quadrimestre de 2024 registrou a taxa mais alta de queimadas desde 2016 (trata-se da Amazônia) e está aqui. Não adianta explicar que El Niño daqui, El Niño dali. Queimada é queimada, não fui eu quem trouxe o assunto à baila. Preciso continuar, ou mesmo o mais idiota dos idiotas conseguirá encontrar um exemplo do mantra acima no governo de NAP mergulhado nos problemas que aponta em Bolsonéscio?

O crème de la crème PTlho para rejeitar Renan Santos em particular está em criticar sua postura de aparelhar o país com a bomba atômica. Pasmem: o argumento foi dado por três pessoas diferentes, que não se conhecem e votam (ou votavam) na esquerda. Um, convenci em dois minutos. Não, não foi bem assim. Falei durante dois minutos. Depois a pessoa fez o dever de casa: foi pesquisar e ela mesma retornou com suas descobertas. Declarou estar reavaliando a opinião anterior. Ela apenas fez o óbvio... PTlhos mais encarniçados insistem em dizer-se contra essa política. Ignoram um ditado ancestral, Si vis pacem, para bellum - Se quer paz, prepare-se para a  guerra (atribuído a Flávio Vegécio, publicação incerta, próximo a 450). Trazendo a discussão para mais próximo, em Crônica de Uma Guerra Secreta Sergio Corrêa da Costa nos traz os planos atribuídos a Perón para aliar-se aos nazistas e tornar-se o grande ditador da América do Sul sob o nada sutil vaticínio de que Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso. Essa abordagem dialoga com o pensamento de Lord Palmerston, As nações não têm amigos eternos ou inimigos perpétuos; elas têm apenas interesses permanentes. Tucídides nos brinda com Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem, e  George Washington colabora com É uma ilusão esperar favores desinteressados de nação para nação; aquilo que uma recebe como favor, acabará pagando mais tarde com a sua própria independência. Estúpidos insistem em desprezar conceitos históricos em favor de alguma posição não beligerante. Por maior que seja minha boa-vontade com o pacifismo de Gandhi, as opiniões de tantos outros estadistas e pensadores contrapõem-se à solução não-armamentista. Desprezar isso é ser um estúpido aderente à terceira lei de Carlo Cipolla: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si. Os idiotas tampouco percebem que a lógica da posse de uma bomba atômica está centrada na dissuasão: eu não ataco você, e você não me ataca. Forças convencionais não possuem tal poder de desencorajamento.

   Antes de terminar, uma palavrinha sobre os Uóques. Eles acreditam que NAP de fato trabalha em favor dos pobres. Não conseguem entender - ou simplesmente desprezam - os gastos com juros da dívida versus o montante efetivamente destinado aos desfavorecidos. É algo como um quinquagésimo do que se gasta com juros. Esse povo não sabe fazer conta. Sustentam a decadência do Ocidente e, em sua grotesca concepção civilizacional, feita de valores e virtudes não liberais, mas libertinos, apresentam-se em evento oficial do Ministério da Saúde com esta,


como era mesmo a estória sobre decadência? Diante das reclamações, ainda vieram dizer que não sabiam... Aliás, NAP também não...

   Estes exemplos são mais ricos porque bolsonéscios são idiotas demais para debater, e deles só vem o silêncio. Já PTlhos consideram-se uma casta mais nobre, elitizada, tentam argumentar - contando com o refúgio da dissonância cognitiva quando necessário - e assim portam-se como o último bastião de alguma coisa. Do meu ponto de vista, quando alguém/alguma classe considera-se um último bastão de algo, é porque o país está suficientemente idiotizado para tomar a contra-mão da história. Não por acaso o editorial a revista The Economist tem por título Brazil turns its back on the future, elogiando o plano econômico de Renan Santos que promete, dentre outras, acabar com as favelas do país. Em 20 anos de poder, NAP apenas as ampliou. Estúpido é quem não vê.

   Está longo, mas este tiro no escuro é necessário. Ninguém flerta tanto com a estupidez quanto bolsonéscio. Alardeou pelos quatro ventos sua ida ao último debate. Não se tocou de quem o promove, franca aliada de NAP. O Presidente já disse que não comparecerá. Adivinhem se na última hora não chamarão Renan Santos? E não estranhem se os outros dois participantes trocarem perguntas entre si e com Renan, deixando para este torpedear o costado bolsonéscio com as perguntas mais constrangedoras de todos os debates da história deste país. Essa perguntas - e as repostas, seguramente idiotas - constituirão a munição preferida para um eventual segundo turno contra o desavisado. A estratégia está armada. O eleitorado pode desarticulá-la completamente, votando em Renan Santos, número 14.




O níver da Rê

Comemoramos, com um pouco de atraso, o níver da Rê(giane), com a Carol e a Silvinha. Servi minha cava preferida, o Freixenet Cordon Negro, sempre com boa presença de nariz: um toquinho de pão/fermento junto a notas cítricas de frutas como maçã e abacaxi. Tem bom frescor e acidez, perfazendo uma estrutura elegante em sua faixa de preço (R$ 100,00). Acho que supera com folga diversos competidores nacionais cujo valor é similar. Rê e eu estávamos interessados mesmo nos uísques... Começamos com o Buchanan's Deluxe 12 Anos, o único blend. A proposta era partir de algo consagrado e conhecido para utilizar como calibre. Nariz levemente adocicado, com madeira e baunilha que combinam com a boca também doce, com o álcool pegando um pouco. Seguiu-se o The Glenlivet Founder's Reserve, o primeiro single malt da noite. Uma curiosidade sobre ele é a não apresentação do envelhecimento - sua categoria é NAS (No Age Statement), embora os peritos indiquem uma maturação entre três e seis anos. Você compraria um uísque 3, 4, 5 ou 6 anos? Conhecendo agora, eu compraria. Mais um detalhe: ele é amadurecido com tonéis de carvalho americano que receberam sua primeira passagem de Bourbon. Não podendo ser reaproveitados, as barricas são vendidas mundo afora e seu uso na produção de uísque já estava consagrado nos anos 1960. É um bom uísque, com madeira mais discreta se comparado ao Buchanan's, e boca com uma pegada mais discreta de baunilha. Como o Buchanan's, tem nariz mais complexo, e preciso começar a prestar mais atenção para identificar essas notas. Em seguida servi o Aberlour 12 Anos Double Cask Matured, onde o mesmo single malt é envelhecido separadamente em dois tipos de barris, o de Bourbon e o de Jerez. A combinação é feita no envasamento, resultando em um produto com a riqueza de ambos os barris fundindo-se no garrafa. O nariz tinha um pouco de doce e especiaria, principalmente, e mais notas. Em boca, um uísque mais persistente, rico, mas não consegui distinguir bem as notas. Mas a diferença de qualidade para os anteriores é evidente. Foi a vez do Laphroaig Quarter Cask e a misteriosa chamada do rótulo, The perfect marriage of peat and oak (o casamento perfeito entre a turfa e o carvalho). Sua técnica de produção é um pouco diferente: depois de colhida, a cevada é limpa, transferida para o chão interno da destilaria e ligeiramente molhada, quando o grão começa a brotar novamente. Enquanto isso, prepara-se a turfa, um material orgânico esponjoso, formado pela decomposição parcial de vegetação, como musgos, ervas, raízes e plantas aquáticas. Quando os brotos da cevada atingem certo tamanho, eles são levados a um forno alimentado pela turfa, e assim a cevada é defumada, adquirindo as características da fumaça desta. Esse grão seco e com cheiro de fumaça é então moído e misturado com água quente para iniciar a fabricação do uísque. Deu trabalho pesquisar isso, mas a estória é interessante... Laphroaig Quarter Cask tem um buquê inconfundível, misturando lembranças ancestrais do tempo de eu menino: iodo, esparadrapo e notas medicinais, exatamente como recordo-me das pharmácias de antanho. O paladar é robusto, carregado de caramelo e bem mineral, com mais complexidade a ser desvendada. Está aberto há algum tempo - pelo menos desde o começo do ano - e o toque medicinal diminuiu de intensidade, mas permanece bastante marcado. Decididamente não é um uísque para fracos, mas é delicioso. O Macallan Sherry Oak Cask 12 anos é, como sugerido, um uísque guardado por esse período apenas em barris de Jerez. Tem olfato bastante complexo, e sabendo de antemão é possível perceber a presença do figo, tão caro nas bebidas da Andaluzia. Também tem especiaria e um tostado. O paladar tem um corpo elegante, quase um afago na língua, duradouro, sensualmente provocante pela duração em boca. Por fim, o Dalwhinnie 15 Years Old envelhece exclusivamente em barricas de Bourbon, tem um travo adocicado - mel - que se repete na boca. Tem mais notas a serem desvendadas - é-me difícil, em alguns momentos - mas a complexidade é clara. Achei bastante mais pegado do que o Macallan - 43% de álcool, um pouco a mais que os 40% deste último -, então seu peso vem de outro lugar. Seria o tipo de barrica? Foi uma experiência arrebatadora, e se precisar condensar a percepção das duas estrelas, Dalwhinnie 15 e Macallan 12, diria fogo para o primeiro e veludo para o segundo. Teve bão...

Tuesday, September 16, 2025

Uma Paducada perdida no níver do confrade Duílio

Introito

A certa idade, os próvidos se permitem alguns prazeres. Outros, apenas a idiotia.
Oenochato

Um agente da lei jurado de morte foi assassinado hoje, na Praia Grande. O delegado Ruy Ferraz tombou na luta contra o crime organizado. Você, PTlho idiota, saiba que sua residência está menos segura. O governo federal, em quem você votou, negou-lhe uma nota qualquer até as 20:30 desta terça-feira. A esta hora, um comentário já será considerado oportunismo e o silêncio soará ao descaso. Vacilos dessa monta não podem ser permitidos. Nem tolerados. Aliás, o partido que tinha um diálogo cabuloso com a mesma facção criminosa que vitimou o delegado aceita seus ministros submetendo-se às leis do tráfico, adentrando favelas onde a polícia só vai de Caveirão sob segurança mínima e sem roupas de combate(!) como colete a prova de balas ou capacete. Para mim, um Ministro é a personificação do Estado: deve proteger e fazer cumprir a Constituição, deve combater o crime (em suas diversas formas, como corrupção) e deve ser fiel para com a coisa pública. No tocante ao combate às transgressões, espera-se a luta resoluta. Ou que morra lutando - se pensar em fugir da batalha, não tem predicados morais para tornar-se Ministro; continue em vida mundana e se esqueça de servir à Pátria, que é tarefa para gente de fibra e onde dispensam-se pulhas. Voltemos ao assunto principal. A vítima normalmente usava carro blindado, mas então dia dirigia um veículo comum. E justamente nesse momento seus algozes resolvem emboscá-lo? São pelo menos duas falhas: uma de segurança, pois ele nunca poderia deixar de usar uma condução protegida. Outra, de inteligência: como é possível uma informação dessas chegar aos bandidos sem a devida interceptação? Estamos presenciando criminosos sendo soltos mesmo após 20 detenções - ou mais. Apenas para ficar nesse tipo de problema. Um governo sério já teria tomado medidas contra esse disparate. Mas o atual comando foi justamente quem patrocinou as bases legais para esse desplante ocorrer, portanto a conivência do Estado com essa situação absurda não pode mais ser ignorada. Pergunto novamente, PTlho otário: você votou na atual administração? Em 2001 eu tinha votado em outra bem diferente daquele cuja história começou em 2002 já com o escândalo do Waldomiro Diniz. Continuo sendo de esquerda, mas patetas mancomunados ao que há de pior não mudarão minha percepção ideológica, nem levarão meu voto.

Umas Paducadas por aí...

Esta vem bem atrasada. Logo quando fundamos a Paduca, o Duílio começou a se ligar com mais atenção em vinhos um pouco melhores. Tanto é que acompanhou-me na compra em ótima oferta de um Faustino I Gran Reserva 2009. O tempo passou, e em seu aniversário - junho passado - ele nos presentou com uma prova às cegas. Chegaremos lá. Em ocasiões especiais, brincadeiras especiais: levei dois espumantes às cegas, e servi primeiro o Cordon Negro da Freixenet. Tem sido nossa carne de vaca para alguns momentos um pouco mais formais, e não decepciona: fresco, leve, aquele toque de fermento no nariz e acidez combinando com o conjunto da obra. O divertido foi olhar as sobrancelhas dos confrades elevando-se em surpresa e os sorrisos se abrindo de satisfação. Carlos Andrééééé... isso é diferente..., teria dito o anfitrião. É uma Champanhe de buquê clássico: cítrico e notas de pão na frente, seguido de frutas brancas. Acidez média, ótima permanência em boca, comparada com a Cava - mas convenhamos, custa 5 ou 6 vezes mais, tem obrigação. Chegou-nos em oferta a R$ 310,00, custando no mínimo R$ 450,00 por aí. Nesse valor é uma boa compra. Por R$ 450,00, esperaria uma 'promo' da Philipponnat mais reba, a uns R$ 500,00. Tinha também um Marquês de Tomares Crianza 2014, já degustado. Entrega fruta e mais toques; não faz feio e o corpo médio ajuda a combinar com embutidos menos pegados como um lombinho, e é fácil de beber. A postagem anterior faz-lhe jus quanto à qualidade e preço. Vi hoje no Mercado Livre a R$ 116,00. Se encontrar o Chocapalha a preço similar, ainda acho mais vinho. Mas ele deu uma sumida... Então o Duílio, às cegas e fazendo cara de paisagem, serviu a primeira taça de seu campeão cuja aeração mostrou-se bastante benéfica antes de ir para o balde resfriar. Hum... como estava bom... Tirando um 2001 oferecido pelo Dr. Marcão (rs) há muito tempo, foi o melhor Faustino I que já bebi. Sabidamente longevo, está ótimo para degustação: o buquê permanece rico, frutado e com mais notas à chocolate/café/tostado (quais?), taninos domados, elegantes, boa acidez e final. Sei ter algumas garrafas dele, talvez uma da ótima safra 2005, e outra da 2009. Devem estar, nas palavras de Don Flavitxo, um mel... Estes dias apareceu uma 'promo' (não lembro a safra - '14?) a R$ 250,00. Seu preço normal, se procurar bem, começa em R$ 300,00. É um vinho dos seus USD 25,00, nos EUA. Cuidado ao sair comprando, pois pedem até R$ 400,00 por uma garrafa, tubaronice desenfreada. Ao final fiquei admirado com o coelho tirado da cartola pelo Duílio. Ele disse ter aberto pensando em deixar-me espantado. Conseguiu, com louvor.

Sunday, May 5, 2024

Sobre Hobbits e Homens

Introito: reservas infinitas de estupidez

   Sim, o brasio é isso: um dos poucos países do mundo com reservas infinitas de estupidez. Sendo nossa população finita (sic), e existindo cá alguns escassos iluminados - este a escrever é muito modestamente apenas mero ponto fora da curva - dá para calcular o quanto somos um povo sem noção. Dentro da plataforma do blog, clicando desavisadamente caí numa seção raramente visitada: aquela onde - não sei como nem porquê - mantém certos comentários descartados ou não encaminhados para meu e-mail. Por esse motivo vários apontamentos ficam sem reposta, embora outros foram sim descartados ao entrarem em minha caixa postal. Hoje apaguei mais de 200, e publiquei uns poucos - principalmente do sempre participativo e generoso Don Flavitxo. Preciso pedir desculpas pelo meu tosco domínio de Blog; o silêncio não foi desleixo nem soberba. Se o leitor recebe esta introdução como uma forçação (sic) de barra, invencionice do articulista para superestimar o espaço, veja só:


   Na postagem Escolha Sua Tragédia II, ato final foram no mínimo três comentários dispensáveis. Um reclama de ter suas bobagens democraticamente censuradas. Não tem noção; o sujeito quer ser publicado de qualquer maneira. Desconhece a célebre frase de Edward Coke, jurista inglês do Renascimento, para quem A casa de um homem é seu castelo. Certo, a frase tem muito mais profundidade do que atribuída aqui, não entrarei nesse mérito. Resumindo, a lei da 'vida real' vale para a 'vida virtual', e o blog é extremamente democrático dentro das leis estabelecidas por seu proprietário - eu. Minha opinião política não está sob julgamento ou discussão. Pule-a, se não quiser saber sobre política. O segundo idiota ignora o uso da ironia! A terceira opinião, inteiramente apagada, apenas registra para o leitor o fato de tontos em geral pretenderem poluir estas excelsas páginas com o excremento em estado puro exalado de seus cérebros. Não passarão. E tem mais:


   O primeiro comentário é até razoável, mas é isso mesmo: não publico réplicas sobre política, ainda que apoiem a premissa do blog! Pouco adianta reforçar meu ponto de vista; a proposta editorial é de não abrir oportunidade a tais comentários. Ponto! 


   Esta terceira, é um primor. Reforçando: o blog é democrático. E eu leio tudo sim - o que chega ao meu e-mail, pelo menos - não por curiosidade como pobremente supõe o detrator, mas para em primeiro moderar de fato (comprova meu apego à democracia), depois (e não menos importante) para procurar algum resquício de inteligência no debate, tornando-o digno de discussão. Claro, em 99% dos casos é perda de tempo. Mas o caboclo crê-me apenas curioso. É a estória conhecida, das reservas infinitas de estupidez.

A Dayane e a Renata

Um monte de postagens atrasadas, mas hoje a Dayane e a Renata passaram para almoçar. Saíram, estava escurecendo... horas e mais horas de conversa, reflexões, risadas, causos, planos e muito mais. Pelo começo: a Dayane já pensava em lançar mão de uma Xampa Taittinger - Brut básica, reba - que compramos em 'promo' de 300tinha. Ficou em cima da hora para cozinhar algo a contento, e sugeri uma mudança de planos: meu indefectível filé ao molho gorgo com um tintinho nojento, precedido um um espumantezinho honesto e sincero (risos!). A Cava Cordon Negro já apareceu demais aqui, principalmente nos últimos tempos, e é hors concours; como tintinho cacei um Castel del Monte Il Falcone Riserva 2013, da Azienda Vinicola Rivera, localizado na Puglia. Embora alguns lojistas nacionais digam tratar-se de um corte 70% Nero di Troia e 30% Montepulciano, o sítio do produtor diz 70% Nero di Troia e 30% de outras variedades locais. Também chamada de Uva di Troia, remete à cidade de Tróia na Puglia. A lenda de sua fundação faz conexão com a Tróia antiga, da atual Turquia, conquistada por Aquiles e sua turma, conforme Homero contou em sua Ilíada. Il Falcone aerou por uma hora antes de ganhar o balde e depois pular para as taças. Na primeira cafundaga a Dayane invocou Biotônico Fontoura...(!) Acho que a Renata falou um pouco da madeira, bem presente. Resfriado um pouco mais - além de maior aeração? - seus toques de fruta apareceram, junto de couro ou chocolate, e mais notas. Taninos já macios revelam o vinho em seu apogeu, com boa acidez e final médio, tudo bem equilibrado, casando razoavelmente com o bifim, em harmonização que não brilhou mas sem decepcionar. É bom enfatizar: nada tem a ver com essas porcarias de Primitivos de Puglia infestando prateleiras e tentando competir (sic) com igualmente ruins Primitivos de Manduria, todos invariavelmente doces e desbalanceados. Dizem existir Primitivos de Manduria sem o dulçor enjoativo. Talvez, conheço pouco. Só espero não me aparecerem pela frente, antes de morrer, a Mula sem Cabeça, o Boto Cor de Rosa e o ET de Varginha, tudo juntos e misturados, antes de eu conhecer um Primitivo (qualquer um!) sem esse dulçor dos quintos dos infernos (risos!)

A conclusão deu-se com um gorgo nojentinho escoltado por três vinhos de sobremesa, também provados todos em encontro não postado. Teve um Colheita Tardia da Aurora 2021, corte de Malvasia e Moscato. Para minha completa surpresa - já acontecera antes - ele praticamente equiparou-se ao Tarapacá Late Harvest com seu corte Sauvignon Blanc, Viognier, Gewurztraminer e Chardonnay. Ambos com agradável toque cítrico - para mim sempre soa à folha de laranjeira, embora as meninas identificassem um cítrico de outra origem - mas no Tarapacá a nota de mel também estava evidente, deixando-lhe um pouco mais de sofisticação. Ou talvez este Enochato simplesmente tenha notado esse ponto favorável do Tarapacá sem ter conseguido decifrar algum detalhe mais sutil do Aurora. Ambos, claro, com baixa acidez, deixando o doce prevalecer em boca e proporcionando algum desequilíbrio. O Doisy-Védrines, já muito comentado, levou todo mundo no peito, sem o mínimo esforço. Portanto, um vinho nacional competindo de igual para igual com um vinho Chileno aparece nas páginas do blog, e é retratado como tal, sem o menor preconceito do articulista. Um pelo outro, diria uma grata surpresa! É quando o nosso vinho, minúsculo, discreto, desimportante, um Hobbit por assim dizer (rs) pareia ombro a ombro com 'vinho de homem'. Afinal, bem ou mal, o Chile é o sétimo ou oitavo mais importante produtor de vinhos do mundo. Por favor, caterva, sem ilusões de achar que podemos competir com espumantes ou tintos de Xampanhe ou Médoc, como se entre nós e 'eles' (no caso de Xampas) não existissem Cavas, Brutos (um dos tipos de espumantes portugueses), Crémants (da Borgonha, da Alsácia, do Loire, de Bordeaux, de Limux, etc.), Prossecos, Sekts e uma miríade de outros. Apenas tolos sustentam que podemos competir com tintos e espumantes. 

Parece que podemos competir, regionalmente, com vinhos de sobremesa. Um Aurora Colheita Tardia custa R$ 30,00, o que dá USD 6,00. Um Taracapá custa no Chile USD 8,00. A bem da verdade essa safra da Aurora foi produzida com trabalho escravo, mas dou-me o direito de imaginar que o valor tenha sido reajustado desde aquele escândalo e hoje o sítio do produtor mostre um montante devidamente estabilizado. Então posso dizer: tem que custar a metade, e se necessário ser vendido em caixinha longa vida - o Taracapá vem de longe e usa rolha! - e assim poderemos reduzir o custo para o consumidor. Aguardo um vinho com qualidade mínima e preço adequado para dizer aos quatro ventos que produzimos vinho razoável. Vinho a custo alto não é admissível em um país agrícola

Monday, April 29, 2024

O níver do Paulão

Introito

Remember, gentlemen,
it’s not just France we are fighting for,
it’s Champagne!
Winston Churchill

In victory, you deserve Champagne;
in defeat, you need it.
Napoleon Bonaparte

Paulão está de níver novo (rs), e para prestar seus respeitos à data encontram-se os pingaidos da Paduca, suas respectivas e um casal de amigos dele, Neto e Andreza. Por ordem, Oenochato, Paulão, Dona Claudia e Chiquinho, Duílio e Dona Eva, Dona Andreza e Neto. O Fernando saíra mais cedo, por conta das crianças: não conseguindo uma reposição para a cuidadora do turno seguinte que o deixara na mão, precisou apresentar-se às 22:00 para render a vigia em sua jornada regular e assim passou a tomar conta de seus pais octogenários. Uma pena. Artimanhosamente (sic, rs), pedi ao aniversariante para comprar nosso espumante preferido, a Cava Cordon Negro, da Freixenet. Por 80tão aqui em S. Carlos, sempre é uma boa pedida para abertura de serviços (rs) ou comemorações em geral. A bem da verdade, antes do Cordon Negro - enquanto não chegavam todos os convivas - servi um La Belle de Jour rosé, o vinho do Alceu Valença, como dizem por aí. E é isso mesmo: o proprietário da vinícola Quinta da Atela - parece ser um dos seus menores negócios - é amigo do nosso grande cantor, e quis fazer um vinho homenageando-o. Acho válido, mas minha má estima para com rosés também não foi superada com esse exemplar. Frutadinho no nariz, leve em boca, baixa acidez e uma maravilhosa cor de salmão, esse vinho é produzido com a desconhecida (para nós) Castelão. Infelizmente o rótulo não mostra a safra... Os marmanjos, pelo menos, tiveram a decência de não reclamar; o Neto experimentou uma tacinha e começou a falar de sua especialidade: cachaças. Não me agradar conta muito pouco para um rosé; as meninas adoraram. Então, para leitores que curtem, está por cerca de 60tinha no Shot Café e Vinho, ali na Quinze. A dada altura servi o Cordon Negro. É um espumante já comentado aqui diversas vezes, mas notei mais frescor nesse exemplar. Acho que a Mercearia 3M recebeu reposição de lote importado recentemente, e comprar algumas garrafas para beber nos próximos meses deixará o consumidor bastante feliz.

Na sequência servi às cegas outro espumante. Ele mostrou nariz muito mais rico e delicado, cítrico com uma mistura de frutas, pão - fermento, na verdade -, e mais notas. Boca com ótimo frescor, acidez marcante e contrabalançada por um dulçor agradável e longa permanência, daquelas que o bebedor engole, saliva e sente a continuidade do vinho na boca. O Fernando fez cara de poucos amigos e disparou: Achara ambos muito parecidos. O Neto olhou surpreso e disse que o segundo era muito superior. Paulão achou superior e o Duílio não notou tanta diferença - ou foi o contrário? Entre as garotas, o interesse pelo segundo espumante foi explícito. Elas não tinham ideia do que bebiam, mas seus sorrisos diziam tudo. O Champagne Barbier-Louvet Cuvée D'Ensemble Grande Cru surpreendeu a todos pela exclusividade - nunca haviam bebido uma Xampa Grand Cru e precisei desmembrar-me em mentiras para dar-lhes um panorama geral sobre a região, comentando rapidamente sobre terrenos Premier Cru e Grand Cru. Quanto ao Fernando, achei honesto quando externou sua impressão com sinceridade. Eu mesmo já estive em situação similar com duas taças na mão, certa vez no Consulado de Portugal, provando de um Roquette e Cazes junto de um Esporão Private Selection e não percebendo muito bem suas diferenças. Quando bebemos vinhos muitos diferentes dos que estamos acostumados, é-nos difícil entender a experiência no primeiro momento. Comigo foi assim também quando abri um Porto que deixara oxidar por mais de 20 anos. O Akira adorou, e o longo de alguns meses consumiu boa parte da garrafa em pequenas doses. Eu o acompanhava comedidamente, sem curtir muito, inicialmente. Só pelo final a ficha foi caindo, e sua degustação passou a fazer sentido. Não há demérito em desconhecer sobre vinho; desmerecimento mesmo é fechar-se e privar-se de oportunidades. 

Com o salomão (rs) preparado pela D. Cláudia chegou um Chablis Premier Cru Côte de Léchet 2016 da La Chablisienne, ótima cooperativa borgonhesa. Um dos últimos exemplares da caixa comprada em ótima 'promo' da Clarets - na época acho que ficou por volta de R$ 200,00 rasos - mostrou nariz cítrico, algo mineral - indicando que, acredito, ainda esteja no ápice - mineralidade repetida em boca na forma de um ligeiro salgadinho, ótima acidez e permanência, bom final. O problema foi o salomão (rs) com um tanto de alho, que colidiu com o vinho e não permitiu melhor harmonização. Não antecipei que D. Cláudia pudesse optar por esse preparo do peixe... mea culpa, mea maxima culpa... Finalmente, o Calcu Gran Reserva Rosé 2021, feito de Malbec, apesar de uma cor bem bonita, pouco acrescentou à minha percepção sobre rosés. A ideia do Paulão era pegar o branco, já velho conhecido nosso, mas estava em falta. Para não deixar o vácuo - o inominável vácuo - tomar conta, ele optou pelo rosé em vez de escolher outro branco. Ligeirinho que só ele (rs), não fez jus à versão Sauvignon Blanc-Semillion: 12,5% de álcool, baixa acidez, alguma graça no nariz e rápido em boca, não foi suficiente para aproximar-se do Gran Reserva branco, que recomendo. Teve sobremesa e vinho, mas já tinha alcançado meu limite...

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🐭 Rata!
Como bem observado pelo Jairo, o Shot fica na Carlos Botelho...

Monday, January 1, 2024

Comemoração da Paduca e um Borgonha de final de ano

Introito

Final de ano: época de excessivos excessos (rs! sic!), este escriba ladeira abaixo e sem breque - com a breca! - confraternizando em todas as confrarias disponíveis cuja agenda permitiu ao menos uma reunião. Espero poder recuperar oportunamente um ou outro encontro não postado ainda. Com a Paduca, a combinação estava acertada desde o início do mês, para evitarmos conflitos, e o jantar aconteceu no dia 30, na casa do casal Cláudia e Paulo. Na foto, Paulo, o Enochato, Cláudia, Duílio e Eva. Fernandinho precisou ficar de plantão e cuidar de sua mãe, com idade avançada e algum problema inoportuno de labirintite. Esses contratempos acontecem... mas não nos sisquecemos de brindar a ele durante a noite.

Começamos experimentando às cegas dois espumantes, o Freixenet Cordon Negro, já comentado aqui, por exemplo. Frescor habitual, toque cítrico, boa acidez... seu oponente foi o Casa Valduga Extra Brut Premium, corte Chardonnay e Pinot Noir, é elaborado pelo método tradicional e mostrou toques cítricos mais discretos, alguma acidez e boca mais ligeira. Agradou, mas preferência da maioria recaiu sobre Cordon Negro. Valduga é um produto mais caro (R$ 99,00 na loja do produtor, contra uns R$ 75,00 da Cava), e isso absolutamente não pode... Freixenet vem de longe, tem um intermediário no meio do caminho (o importador) enquanto o produtor nacional vende para o lojista diretamente, e ainda assim nosso espumante é mais caro... para uma qualidade ligeiramente inferior. Teria de custar - olha lá, sou generoso e reconheço a quantidade de impostos das terras tupiniquins - R$ 50tão. Com esse exemplar de espumante nacional, e após a degustação da Mercearia 3M de outubro, dou por encerrada minhas compras de tais produtos domésticos. Não deixarei de experimentá-los em degustações, mas até melhorarem - e o preço cair - não preciso mais comprá-los. Verdade, degustei relativamente poucas marcas, mas elas não mostraram aprimoramento com relação a outras experiências passadas, e o resultado final é-me muito claro.

   Nos tintinhos, também às cegas, começamos com um Dame de Boüard 2017, produzido em Montagne-Saint-Émilion, uma apelação satélite de Saint-Émilion onde impera a Merlot, na companhia de Malbec, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Este é o segundo vinho do Château Clos de Boüard, um 100% Merlot com curioso toque de morango na frente de tudo, eclipsando outras notas. O quanto durou, permaneceu um tanto plano no nariz. A boca mostrou acidez discreta, corpo médio, um travo doce não enjoativo e final um tanto ligeiro. De Ribera del Duero veio o Pagos de los Capellanes Joven 2019, 100% Tempranillo e já degustado aqui. Ribera produz vinhos elegantes, e Pagos de los Capellanes não foge à regra, mesmo nesse exemplar mais simples - Joven - com seus 5 meses de madeira muito bem integrados às demais características: o nariz é rico, esbanja fruta, tem mais notas - chocolate? - e a boca peca pela acidez não acompanhar os taninos pegados. Mas para isso, vá no próximo vinho da 'escala', o Crianza; ele entrega mais. Por isso (acidez um pouco baixa), o corpo médio acaba num final algo ligeiro, desapontando um pouco pelo prenúncio do nariz. É um bom vinho, com personalidade, e vale a pena, para seu padrão de custo. Com seu Dame de Boüard a Chez France vem escalando os degraus da tubaronice: em promoção permanente de R$ 329,00 por R$ 246,00, custa lá fora algo como USD 20,00. Dá uns R$ 100,00... Capellanes está um pouco melhor: a cerca de 15 Euros, R$ 80,00, custa R$ 200,00 aqui. Está 2.5x, o limite da compra, e fora da proposta original da Enoventos em oferecer vinhos a preços realmente competitivos; durante muito tempo suas margens estiveram abaixo de 2x, e como já apontado ela tem se rendido um pouco à tubaronice. Cuidado e Wine Searcher sempre. 

A sobremesa ficou por conta do Duílio: banana caramelizada com casca de laranja, Cointreau e Cassis, com sorvete de creme. Para acompanhar, o Paulão ofereceu dois Jerez e um Madeira 3 anos; chamou-me mais atenção esse último - nunca havia provado vinhos da Ilha da Madeira - e suas características marcaram mais. Eles possuem uma vinificação singular, e vale saber um pouco mais. Leia aqui. Nariz de um caramelo e notas de frutas secas, 19% de álcool (é fortificado), boca doce contrabalançado pela boa acidez, deixa boa marca acompanhada de bom final, persistente. Não é um grande Madeira, mas como introdução ao estilo agradou muito. Se procurar, encontra na faixa de R$ 120,00.

Feliz 2024...

Para comemorar a passagem do ano abri um Borgonha de Gevrey-Chambertin. Essa comuna fica no distrito de Côte de Nuits, próximo a Dijon. Achei um mapa da região bem interessante aqui, https://bourgogne-maps.fr/, e na resolução de 300 metros pode-se acompanhar todo o recorte dos vinhedos ao redor das comunas. No mapa inicial, não se esqueça: faça o zoom com o ponteiro do mouse dentro do quadrado da Côte de Nuits, logo abaixo de Dijon. O viho em questão é o Les Cazetiers 2010, do négociant Luis Jadot. Les Cazetiers é um dos vinhedos Premier Cru mais importantes da vila de Gevrey; produz vinhos bem tânicos que, aliados à ótima acidez e bons taninos resultam em ótimo volume de boca. Com 13 anos, está em bom momento para degustação; redondo, com grande maciez a despeito dos taninos e acidez. Depois do último gole o movimento de mastigação mostra como ele permanece em boca. Eu não falei do nariz... é graciosamente complexo, a fruta vermelha vem na frente e é seguida de mais notas misturadas a um toque herbáceo. Um bom olfato pode se divertir muito desnudando suas nuances. O meu, infelizmente, deixa a desejar. Mas a boca muito bem marcada compensa as deficiências olfativas, e posso dizer ter sido uma ótima abertura de ano. Deixei metade da garrafa para o almoço de amanhã. Feliz 2024, e obrigado pelas leituras.

Monday, December 11, 2023

QI de ostra

Introito

É dito ter QI de ostra quem se apresenta com QI de ostra.
Oenochato

- Carlão... o MLB está derretendo! - assim provocava-me, à beira de um orgasmo e de supetão, bolsonésio de alta estirpe. Corria o ano de 2019; imerso na mais profunda dissonância cognitiva possível, ele chegava a rir de si mesmo quando tentava explicar o inexplicável para justificar as atitudes de seu mito. Ao final do primeiro turno da eleição passada ('22), Kim Kataguiri  e Guto-Negão-Capitalista eleitos - nenhum deles com meu voto (Beraldo e Amanda...) -, e sendo chamado de isentão pelas hostes do atraso, continuei inflexível em anular meu voto para presidente e governador. Também não adiantou argumento de PTlho sugerindo a (suposta) vinda de dinheiro federal para meu ramo de atividade - junto da ciência brasileira - caso Ali Lulá ganhasse, o que justificaria meu voto nele. Bem... além de negar aliar-me a transeuntes escoltados nos corredores da justiça, de onde saíram condenados - sentença cuja confirmação seguiu-se por todas as instâncias conhecidas e desconhecidas do Judiciário - antes de votar em um candidato dito amigo da universidade (não da Ciência! Não da erudição!) eu voto em um projeto de país. Pouco importa se minha atividade profissional possa ser beneficiada por este ou aquele postulante. E, para constar, este ano o ensino superior sofreu dois cortes drásticos em suas verbas. Outro amigo, ainda, queria porque queria sugerir-me a Simone Palíndromo. Caiu na vergonha quando ela aderiu a quem aderiu, e ainda levou ovo na cara e tinta na nuca até depois da eleição. Já escrevi à exaustão: sou de esquerda, embora envergonhe-me a esquerda de hoje (desde 2004). Desencanta-me quase toda ela - posto apoiarem quem apoiam - mas a esquerda é muito mais do que essa turma com QI de ostra. No campo diametralmente oposto (QI de ostra com sinal trocado), bolsonésios ainda não caíram na real. O mais curioso é os esquerdalhas chamando o MLB de extrema direita, enquanto os direitolhos chamam-no de extrema esquerda (sabia disso?). Leitor, pense um pouco e diga-me: como isso pode ser possível, senão por uma alucinação coletiva?
   Pelo que vi das atuações de Kataguiri (agora em segundo mandato), Arthur (impedido covardemente durante um final de semana e na calada da noite, literalmente) e Guto (comandou na Alesp a importante privatização da Sabesp), além de diversas lives assistidas ao longo do ano, vejo o MBL como direita sim, extrema direita jamais, e o único grupo capaz de não causar outra profunda desilusão à população. Não, não assisto lives da esquerda. Tiveram 14 anos para fazer algo pelo país. Caímos no Pisa. A tão sonhada reforma agrária não foi realizada - ou não haveria motivo para o grupo que a defende estar ativo. Dilma foi impetxada (sic) a favor da economia e pelas razões políticas - o impitxe é um ato político - sobejamente conhecidas, e já dentro de uma recessão cujos efeitos se fazem sentir até hoje. Percebe? Essa turma teve sua oportunidade, a mais longa sequência de governo na história deste país (sic), e acabamos n'água. Não perco mais meu tempo com eles; suas ideias esgotaram-se, perderam-se na própria imbecilidade de onde foram geradas. Às vezes penso se o proposto QI de ostra não está superestimado.

Paduca outra vez

Prezando pelas reuniões quinzenais - e algumas extemporâneas - a Paduca vem sendo protagonista constante no blog, e encontrou-se dia desses para outra celebração da amizade (em primeiro lugar), do vinho (também em primeiro lugar! 🤣) e da boa vivança (sic! rs! e idem, novamente!). Desta vez a recepção correu na casa dos bon vivants Duílio (sentado) e Eva, ela ao lado do Enochato, com o  Paulão e o Fernando à esquerda. Pensamos na difícil harmonização de vinhos e xuxi e mandamos ver. Levei, por entrada e curiosidade, a cava brut Freixenet Cordon Negro, e assim iniciamos os trabalhos. Comentei há pouco dela, é um espumante simples mas bem adequado para meu padrão, acima de muitas opções nacionais no mesmo valor, com preço razoável por aqui; tem seu buquezinho cítrico, gostoso, bolhinhas mais ricas dentre os espumantes apreciados recentemente em degustação, alguma acidez e nenhuma, absolutamente nenhuma harmonização com xuxi. Aqui um parênteses: o pessoal pediu um mix bem sortido de xuxis; eu aprecio somente o corte de peixe cru e aquela variação do peixe sobre arroz - sejam quais forem os nomes... 🙄 A questão é quanto outros ingredientes das diversas misturas - cream cheese, por exemplo - podem alterar a harmonização... não sei, porque não consumo...

Aportei ainda um Montemajor Passerì 2019. Corte entre a desconhecida Petit Manseng e a onipresente Chardonnay, esse exemplar de IGP da Lázio não estava tão fresco quanto da primeira vez que o experimentei, nas degustações online promovidas pela Enoeventos durante a pandemia, veja aqui. Seu buquê antes rico pareceu menos consistente, embora a boca mantivesse acidez - talvez não tão boa - e toques cítricos, combinando um pouco com o pescado. Na trilha de boa experiência passada, o Paulão trouxe um Calcu Gran Reserva branco 2021, corte Sauvignon Blanc-Semillion, vinho de ótima acidez e já comentado aqui. Tem um toque cítrico bem marcado no nariz que repete-se na boca, com acidez e boa permanência. Em alguma temperatura - foi fugidio - teve melhor combinação com o salmão, e não consegui reproduzi-la mais, mesmo voltando a garrafa na água gelada, servindo e degustando aos poucos, com fatias do peixe. A menos desse momento, que pareceu realçado, não combinou tanto, mas não descombinou, na opinião dos confrades. Ele defendeu-se bem com um pexim de hamoniazação sabidamente complicada. Teve bão...

Degustação do Shot Café

Jairo apresentou sua nova linha de vinhos portugueses importados pela Wine Concept Brasil. Essa turma não faz muito lançou uma linha de vinhos do Alceu Valença, ótimo cantor, de quem gosto muito, homenageando sua famosa canção La Belle de Jour. Não experimentei, mas pergunto: que fim deu o vinho do Brédi-bonitinho-da-bala-Chita-Pitt e da Angelina-maravilhosa-Jolie? E os vinhos do Sting, chegaram por aqui? Como está o do Danilo Gentili, o alentejano Putos? (puto significa garoto ou menino em português portugaico - rs!) Quem se lembra do vinho em homenagem à seleção canarinho na copa de '14, Faces? Seus detratores reclamaram da letra trocada no nome, o correto seria Feces; não provei. E o... já percebeu, né? Nada contra homenagens, mas essa não parece ser uma estratégia vencedora em vinhos. Eu pretendia mesmo era recobrar um pouco da história do vinho nacional para os leitores mais jovens ou aqueles sem muito interesse direto em fatos pitorescos, a ponto de procurar por eles. Há uma postagem engraçada sobre o Faces aqui. Agora, com seriedade.


O Jairo/Shot Café andava à procura de uma linha básica de vinhos para começar a repor seu estoque para 2024, e contatou seu conhecido Johnson Rogenski, da Wine Concept Brasil. Organizou uma degustação com seis exemplares do portfólio da WC, e compromissos de fim de ano não permitiram muitos dos confrades regulares das atividades do Shot participarem. Foi uma pena - para eles! 🤤 Sobrou vinho para nós! Para esta postagem, uso a foto do fotógrafo Essio Pallone e recobro meus comentários da postagem de outubro acerca de fotografia. Vejam que bela foto. Nem precisei recortá-la, o enquadramento estava pronto! A transparência das garrafas foi capturada com perfeição, a claridade do entardecer ficou onde precisava - do lado de fora - e no final eu gostaria de saber de vinho o que o Essio sabe de fotografia...

Animado com as conversas - faltei à degustação anterior -, confesso não ter anotado as características dos vinhos. São simples, custam na faixa de R$ 60,00. Experimentei o Moço Fidalgo tinto antes dos brancos e rosés, pois já estava resfriado e achei-o algo ligeiro e com um dulçor a mais. Tinha sim alguma fruta - qual? - mas acidez baixa, com final pouco marcado. Pelo valor, é melhor se comparado a joias (sic) ofertadas por lojas de venda maciça a valor similar. Eu o colocaria às cegas na Paduca, por exemplo, pois é uma turma que começa a galgar os primeiros degraus na degustação séria do vinho, embora os confrades venham provando vinhos há uma década ou mais, sem tanto compromisso. Com a confraria e minhas preleções Enocháticas (rs) nas reuniões, estão desentortando a boca (😂), e esse alentejano, mistura de Trincadeira, Aragonez e Castelão, talvez possa ser identificado por eles. Mas não será agora... Fui procurar o preço no Wine Searcher, e encontrei apenas uma citação dele em Portugal, a cerca de 5,00 €, o que dá quase R$ 30,00. Portanto o valor de venda - inferior ao próprio sítio do importador - está no limite de 2x. Aí gostei... O estranho de uma única citação de um vinho em sua terra natal sugere um produto desenvolvido para  o gosto brasileiro. Tinha achado um doce a mais no paladar, não é mesmo? Então... Mas esse doce não compromete. O Mar Salgado - toda a linha - achei um pouco abaixo do Moço Fidalgo. A grata surpresa - e ponto alto - veio do Moço Fidalgo branco, corte Antão Vaz, Síria e Arinto. Pelo encontro recente da Paduca, perguntei-me sobre sua harmonização com xuxi, e acho que a tentarei mesmo, dada sua boa acidez, aliado ao nariz que também chamou atenção. Os aperitivos vieram da Bahja Culinária Árabe, e proporcionaram boa harmonização com os brancos. O quibe também não jogou contra o Moço Fidalgo. Ainda não aprendi a apreciar rosés; ouvi bons comentários de ambos, embora - e novamente - as preferências recaíssem sobre Moço Fidalgo. O leitor apreciador de rosés deve evitar preconceitos, e experimentar dos dois. Como diria, teve bão. Aguardemos uma degustação com vinhos melhores para 2024.

Monday, November 13, 2023

A Paduca e as Paduquetes

Introito

   Aproveitemos a indulgência do leitor e tentemos reerguer este blog quase morto... conversando com alguns deles, seja por uátiz seja pessoalmente, notei a falta de mais reflexões acerca da avaliação de vinhos, deixando margem para dúvidas ou mal entendimento da questão.
   Gostaria de comentar sobre a cepa da uva, tipo do vinho (seco, doce ou espumante) ou detalhes da vinificação na avaliação: pouco importa. Ainda, abordando idade, passagem ou não por madeira, tipo de terreno do parreiral ou mesmo preço: pouco importa, também.
   É-me estranho ver avaliações precoces de vinhos muito jovens e sabidamente feitos para durar décadas. Vinhos de enorme complexidade, cujo desabrochar situa-se pelo menos uma década após seu lançamento - às vezes eles descansam 4 ou 5 anos entre barrica e garrafa -, são avaliados quando seguramente verdes. E não, não existem taças superpoderosas (sic! rs!) fazedoras de milagres aerando o vinho em segundos. Taninos verdes necessitam de anos para madurar, e essa é uma lei da natureza. Dá para beber um Barolo com menos de 10 anos. Sim, dá. Afinal, existem BAROLOS, Barolos, barolos e barolinhos. Estes últimos, mais simples, são bebíveis mais jovens. O resto, é Barolicídio. Além do mais, qualquer um deles vai se aproveitar da aeração de um dia para o outro. Não são apenas Barolos; exemplo recente, com um espanholeto bem decente, está aqui. Nagibin experimentou e não me deixa mentir sozinho. Paulão - da Paduca - sabe do que falo. Mas voltando: como podemos avaliar vinhos tão novos? Acredito ser possível, com treino e conhecimento. O vinho pode não estar desenvolvido, mas suas características estão lá. Possivelmente é mais fácil quanto mais grandioso ele for, mas vinhos onde a elegância sobrepuje a opulência acrescentam novas variáveis ao parecer. Estranho mesmo é a conversa de avaliadores tupiniquins sugerindo o valor do vinho como elemento de sua apreciação. Seria assim: o vinho, com aquelas qualidade, custando R$ 120,00 reais, poderia merecer 90 pontos. Mas se custasse, digamos, R$ 200,00, então seria apenas 88 pontos. 😇 Oh, Senhor, duas grandezas mensuráveis são infinitas:  o espaço e a estupidez das pessoas. E não temos certeza do primeiro... Notem, isso é bem diferente deste Enochato classificar um vinho simples, numa faixa de preço, como felicidade engarrafada. Porque, naquele valor, você bebe e fica satisfeito. Mas não há nota envolvida aí. Seguramente ele seria - levando ao pé da letra a pontuação - um vinho 82, 84 pontos. Diferente dos vinhos 90 pontos a fazer concorrência com o número de estrelas no céu... - uma barreira psicológica que, acredito, precisava ser batida para deslanchar a venda calcada em vinhos pontuados. Volte lá (sic! rs!) e veja as qualidades de um vinho 90-95 pontos. Repito abaixo:

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Excepcional complexidade e carácter. Lembre-se sempre dessa palavra: excepcional... Aplique essa máxima a qualquer vinho sul-americano - e muitos e muitos europeus, também - e veja-os ir pelo ralo. Claro, para tanto o leitor precisa ter ideia do que vem a ser um vinho de excepcional complexidade. Reconheço, o chão afunda. Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016 e Quinta do Noval Syrah 2017, degustados na postagem passada, são bons vinhos, mas estão aquém da premissa.

   Um fato onde a coincidência foi o principal ator está narrado aqui. Degustando um espanholeto Vall Llach 2000, cuja avaliação indicava notonas - 96, 98 pontos - anotei a minha nota no celular do Jacimon e mostrei para ele. 94. Provei Don Flavitxo pela sua avaliação. 94. Claro, uma feliz coincidência. Poderia ter sido 92-93 de um, e 93-34 de outro, e ainda assim o ponto seria o mesmo: como disse no começo dessa estória, se você treinar, dá para chegar lá na avaliação de vinhos. E sou muito mais as notas discordantes de Don Flavitxo e minha (mesmo se fossem 92 e 94) do que os 96-98 pontos dos avaliadores profissionais. Vemos como os amadores são mais confiáveis... O Cellar Tracker está cheio de gente boa avaliando vinhos. Confiar no lojista pode ser uma faca de dois legumes, pois está cheio de lojista picareta por aí. Ele concorda sempre consigo? É picareta. Ele vem com aquela máxima vinho bom é o vinho que você gosta? É picareta. Você comprou meia dúzia de vinhos e ele já chega com aquela tenho um vinho que é a sua cara? É picareta. Em um país com tantos políticos picaretas fazendo moda, qual tipo de influência vai pegar na população? 

As Paduquetes

Por sugestão dos confrades - Paulão já fizera as contas no começo do mês e abordara a data de antemão -, a última reunião de outubro aconteceu com a presença das Paduquetes. Apesar de conhecê-las a mais de década e eventualmente bebermos um vinho em jantares aqui e ali, elas estavam curiosas para conhecer a dinâmica dos nossos encontros. Em U a partir da esquerda, D. Cláudia, esposa do Paulo, D. Eva, esposa do Duílio, o Enochato, Fernando - ameaçou trazer a namorada, mas ao final não teve coragem de atirá-la aos leões - Duílio e Paulo. Para atiçar-lhes a curiosidade, recebi-os com dois espumantes, às cegas, e expliquei tratar-se de dois Bruts. A esperança, portanto, era boca tendendo mais para o seco, sem excessos de um lado ou de outro. 

Surpresas estavam reservadas... para dois exemplares feitos pelo método tradicional, o primeiro apresentou-se com bom frescor, de fato seco, embora um fundinho doce desse o ar da graça. Nariz cítrico e um pouco de fermento, boca equilibrada, acidez presente sem marcar tanto, bolhinhas graciosas, compõem um espumante de padrão razoável e diria agradável dentro do meu consumo mais corriqueiro. Era uma cava Cordon Negro, da Freixenet. O segundo apareceu com uma cor amarela marcante, influenciando positivamente alguns dos presentes. Cítrico no nariz e boca, ainda com notas que não identifiquei bem, apresentou um dulçor extra, mais para enjoativo, menor acidez e mais ligeiro nas papilas. Mesmo Eva e Cláudia, mais acostumadas a esse paladar, preferiram o Cordon Negro. Duílio preferiu o segundo, o Fausto Brut, produzido pela Pizzato a partir de seu vinhedo Doutor Fausto. Opinião não unânime, Cordon Negro sobrou face Dr. Fausto; quase todos prefeririam comprar o primeiro ao segundo. Pelo sítio do produtor, fiquei sabendo que Dr. Fausto tem uma coleção de 90 pontos em diversos guias. Como é, mesmo?

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Agora entendi... é a definição é que está errada! 🤣😂 Porque Fausto passa a léguas de tudo isso. Não dá, né? Seus preços são mais ou menos compatíveis, na casa dos R$ 75,00, enquanto Cordon Negro custa, na Espanha, algo como 8 moedas (R$ 40,00). É um valor ridículo, e praticamente a metade do que pagamos aqui por algo de qualidade menor. Certo, temos impostos altos, mas Cordon Negro chega aqui pelo mesmo valor pagando as mesmas taxas... Competindo mal com um espumante Espanhol simples, cai por terra o mito do Saci, digo, do nosso espumante competindo de igual para igual com Xampas de verdade. 

   Seguimos com um Hacienda de Arínzano branco 2019, já degustado por aqui em safra 2018. Um Chardonnay espanhol com nariz cítrico, mineral, bastante fresco com toques tostados, em boca com algum amanteigado de Chablis. Mas, claro, não chega a comparar-se aos franceses. Tem boa acidez, final agradável, é um vinho bem arranjado, embora alguém o tenha achado enjoativo. Não reparei... acho que em breve beberei sozinho a outra garrafa que tenho, para tirar a teima... Se encontrar uma promo a R$ 150,00, é boa compra. No preço cheio, R$ 245,00, é um tanto salgado; parto pra tintinhos nojentos. Combinou razoavelmente bem com salsicha de vitela e melhor com uva passa branca: o encontro da boa acidez com o doce é uma combinação infalível... 😜

Na parte dos tintinhos... bem... ano passado havia oferecido para a turma um Quinta do Noval Touriga Nacional 217, e estava um pouco fechado. Como o Syrah 2017, devidamente aerado, havia feito boa figura contra o Gran Enemigo, resolvi brindá-los com esse exemplar na safra 2016 e proporcionar-lhes a experiência de um bom vinho completamente pronto para ser degustado. Servido às cegas, alguém falou 'português', e alguém falou 'Syrah', mas ninguém conseguiu juntar as percepções; ainda assim as garotas gostaram de ver o pessoal atingindo algum sucesso em identificá-lo. Repetiu com pujança as características de seu irmão mais novo: nariz rico, frutas, especiaria e mais complexidade, acidez presente, taninos macios, bom final, combinou bem com meu bifim ao molho gorgo. O segundo tinto foi mal compreendido: O Château Chantemerle 2016, um Cru Borgeois corte Cabernet Sauvignon 60%, Merlot 35%, Petit Verdot 3% e Cabernet Franc 2% não recebeu uma única sugestão de ser Cabernet Sauvignon. Aquela estória: CS's de qualidade um pouco melhor, da França, apresentam expressão muito diferentes daquela à qual estamos acostumados na América do Sul. São elegantes, sutis, nariz bastante rico em frutas - vermelhas? negras? ambas? - fumo, um pouco herbáceo e mais, boca com boa acidez, taninos macios e suaves - não 'pega', aquela picada na ponta da língua da Cabernet sul-americana está presente mas devidamente amaciada - e no final tudo isso não encantou tanto o pessoal; a preferência recaiu sobre o Noval. Observemos aqui tratar-se de gosto; é claro, ele é permitido sim, em um avaliação simplificada. Lembram-se da estória?, o avaliador amador pode estimar a qualidade do que está acostumado a reconhecer; novas experiências devem ser devidamente exploradas, precisam tornar-se mais comuns e assim o bebedor ganha um degrau em sua experiência geral. Pois, é o que temos, para amadores...

Por sobremesa apreciamos uma torta cheesecake de frutas vermelhas acompanhada do Tarapacá Colheita Tardia 2021 e depois do Château Doisy-Védrines DV 2016. Deste último, comprei uma caixa em promoção imperdível (R$ 140,00) há bastante tempo - nunca mais se repetiu -, e ainda defendo-me nos últimos exemplares. Comparados, ninguém teve dúvida da qualidade do Sauternes sobre o Colheita Tardia: seu frescor e acidez superiores, bem como sua persistência colocam o segundo muito à frente do primeiro. É quando a estória do preço faz sentido: atualmente há uma oferta pelo Tarapacá a R$ 55,00 na Adega Curitibana (sabe-se lá por quanto tempo este vínculo será válido), 


No Chile, ele é vendido - pela cotação atual - a exatos R$ 25,00 (USD 5,00). Por R$ 55,00 aqui, mesmo sendo em 'promo' - importa o valor pago - está 2x. Está bem abaixo, em qualidade, de um Château Doisy-Védrines DV mas custa uma fração de seu preço (normalmente, uns USD 20,00). O preço do Colheita Tardia pode esticar até uns R$ 80,00, mas não encontramos Sauternes por menos de R$ 220,00. É o panorama onde os vinhos sul-americanos, mesmo sem tanta qualidade, conseguem competir pelo menos no preço com os europeus. Quero dizer: alguns chilenos conseguem, porque nossos espumantes passam um verdadeiro carão. O que se tem feito com os tintos é bem outra estória; eles custam caro e competem menos que os brancos ou de sobremesa. Mas é ótimo bocas tortas continuarem a se esbaldar neles; se lessem O Enochato e testassem as ideias debatidas aqui, as boas compras do nosso mercado diminuiriam sensivelmente... um claro prejola para este escriba de final de semana.