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Friday, March 28, 2025

Cara de paisagem

Intoito: ainda NAP e o ovo

   Volte na postagem passada e reveja o vídeo de abertura. Nosso Amado Presidente (NAP) está querendo descobrir aonde é (sic) que tem um ladrão. Não surpreenderia se achasse-o no próprio bolso. Mas toquemos. Ele gosta de ovos. Eu se cumê dois ovos por dia, eu adoro um ovinho só com arroz... às vezes eu prefiro isso do que comer qualquer comida boa (sic!), e veja, o povo... o povo come ovo. Tá! Volte lá na conta que fiz: 260 ovos/ano x 211 milhões de brasileiros (OK, bebês não comem ovos, é só uma aproximação) dá... 54.86 bilhões de ovos! E o consumo per capta é de apenas 260 ovos/ano... já pensou 2 ovos por dia por habitante (desconte os recém-nascidos) durante o ano todo?! Ora, esse estrumela fez um estudo e não percebeu que os brasileiros maiores de cinco anos não têm à sua disposição dois ovos por dia! (a fonte da pirâmide etária abaixo é esta). Os menores de 5 anos são cerca de 7 milhões, o que dá uma população comedora de ovos de 204 milhões, a dois ovos por dia demandariam um consumo de 74.46 bilhões de ovos/ano, contra a produção de 59 bilhões de ovos/ano!



   Então não conseguimos comer dois ovos por dia, se nos guiarmos pela produção interna. O Brasil importa ovos? NAP não falou nisso - até disse que exportamos 0,8% da nossa produção! - Mas espere...


   A nossa classe media ostenta, e mais do que a classe média europeia (cujo rendimento médio anual, vamos deixar barato, é cerca de R$ 170.000,00). 


   Nosso rendimento médio é (tentemos não passar vergonha, então peguemos o rendimento da classe 'C1', seja o que for) R$ 48.000,00. O trabalhador europeu ganha em média 3.6X a mais do que o brasileiro - parece margem de importadora tubarona!). A fonte é esta, e não sei bem de onde tiraram uma média de 4 milão/mês, porcada (sic! rs!). Se fizer a conta na C2 dá uns 7x - aí faz sentido! Deixemos como está.


   E assim ficamos: ostentamos porque uma tevê só não basta, precisamos de uma em cada sala. E o governo - a mola motora da economia de qualquer país - não propicia um mercado que nos garanta a produção de dois ovos por dia. Dá para começar a entender porque o povo passa fome, não é mesmo? Dentre outros motivos, é porque mesmo o preço velho (sic) do ovo na verdade já era caro demais. Percebeu?!

Mais um ótimo final de semana...

Estávamos tentando marcar há algum tempo, e desta vez rolou. Reunidos da Ghidelândia em 22 último, recepcionados pelo casal comandado pela Márcia, estávamos Don Flavitxo e este narrador felizes da vida. Havíamos comprado a bom preço dois vinhões. Encarregado do serviço, abri um deles às 17:30, para receber uma mensagem irada de Don Flavitxo: Po##@, não era meia hora antes? 🙄 Tenho minhas fontes, tá sabendo? 😒, e alguns depoimentos no CellarTracker eram enfáticos sugerindo pelo menos algumas horas de aeração. Como não tenho taças superpoderosas, que aeram o vinho em segundos (rs!), fiei-me nos palpites de lá. O resultado? Vamos por partes...

Um branquelo, para abrir os serviços...

Don Flavitxo chegou com ele debaixo do braço, empacotado e pronto para ser servido às cegas. Abriu, tirou - o líquido, para nossas taças - e cheiramos. Oh Lord, have mercy... que aroma! Quantas fragrâncias! Não consegui distingui-las(!), mas estavam lá, potentes. Abundante em frutas brancas a inundarem meu nariz e confundir outras notas, mostrou boca com excelente acidez, toque mineral, muito frescor e uma permanência de causar desconforto(!). Há tempos não bebia um branco com tamanho equilíbrio e complexidade. Don Flavitxo pediu indicações de procedência. Particularmente não aprecio chutar por chutar; se não consigo sequer imaginar a procedência, prefiro o silêncio. Foi assim quando o mesmo Don Flavitxo apresentou-me a Savagnin pela primeira (e segunda!) vez. Pressionado - sob pressão até pato bota ovo - o Ghidelli sacou um 'Português' não sei de onde, e acertou. Já experimentei alguns  bons brancos portugueses. O Private Selection do Esporão agrada, mas não lhe faria sombra. O Tapada do Chaves Vinhas Velhas é ótimo, mas não tão misterioso. Bem mais simples, o Falcoaria Vinhas Velhas delicia as papilas, mas está notas abaixo, em termos financeiros e qualitativos. Antonio Madeira Branco 2019 é um corte estranhíssimo (rs) composto por Síria, Bical, Arinto e Cerceal, e surpreende muito gratamente. É um vinho do Dão, região de onde conhecia mais os exemplares tintos. Estou começando a ficar fã dos brancos, também... A entrada, figo roxo com geleia de figo, Jamon e Roquefort é ótima por si. Com Antonio Madeira, ficou ainda melhor.

Cara de paisagem

Causador de tanto desconforto espiritual para Don Flavitxo porque o abri um tanto mais cedo, Galiardi Terra di Lavoro 2010 aerou por umas 4 horas e chegou com buquê explosivo. Ghidelli olhou para mim e fez uma careta de satisfação, enquanto o elogiava. Don Flavitxo fez cara de paisagem... Já tive o prazer de experimentar algumas vezes dele. O produtor vinifica apenas esse vinho, um corte não linear (rs!) de Aglianico e Piedirosso rico, com muita fruta misturada à toques de piche, petróleo... cinzas, disse alguém. Tudo a ver com a região de solo vulcânico, bastante bem expressa ali. Tinha ainda notas algo como chocolate/tabaco, como sempre confundo, e mais. A boca mostrou-se pegada, ótimos taninos, acidez média, herbáceo, com permanência longa, muito corpo, aquele vinho tipo 'paulada'. Tão seco que pode lembrar... um uísque sendo degustado! É quando o bebedor precisa ser esperto (rs) e fazer um movimento de mastigação para salivar e perceber como ele permanece em boca! Para um prato principal composto de costelinha de porco assada no forno com vinho branco, temperada ao alho, alecrim, pimenta preta, e escoltado com batatas cozidas, combinou 120%! Como os taninos misturavam-se com a gordura! Combinação inesquecível. Na outra ponta do espectro estava Il Bosco Syrah 2006, um Toscano produzido em Cortona muito elegante: ainda com fruta de sobra - Flávio e Ghidelli sugeriram trufas e gás de cozinha(!) - boca com chocolate amargo, café e mais notas, chama atenção de como o chocolate é mesmo amargo, e não ao leite! Taninos macios, grande equilíbrio, e se recupero agora o comentário de Il Bosco estar na outra ponta do espectro é pela elegância, ao contrário da discrição quase troglodítica (rs!) do Terra di Lavoro. Mesmo apreciando vinhos mais encorpados, Il Bosco é de fazer balançar a preferência pela simples potência... potência elegante (sem me faço compreender) é outra estória. Difícil mesmo é encontrar vinhos com essa qualidade! Só posso dizer que este março tem sido maravilhoso... Sem fôlego para falar da sobremesa...

Sunday, November 6, 2016

Quando potência e elegância andam de mãos dadas

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Introito

   A senhora N. encontrou meu endereço e escreveu-me, entre triste e aflita. Participante de uma confraria de amigos que se conheceram na graduação e seguiram caminhos diferentes, para reencontrar-se anos depois sob a égide de Baco, tinham por brincadeira reunir-se uma vez por mês para degustar às cegas os vinhos que cada um levava ao encontro, atribuindo-lhes notas e elegendo o melhor noite. Ainda, quem identificava o próprio vinho - eram servidos às cegas, lembre-se - ganhava alguns pontos extras na classificação geral.
   Acontecia que a senhora N. ocupava o penúltimo lugar dentre os sete membros votantes na brincadeira mensal. Ainda, ela era, dentre os casais, a única mulher que votava nessas reuniões. Assim, sentia um peso suplementar sobre os ombros, pois promovia uma defesa solitária da honra feminina.
   Ela sabia que sempre levava bons vinhos e, em diversas ocasiões, ficou se perguntando por que suas garrafas italianas e francesas tinham ficado atrás de chilenos, principalmente, e argentinos.

 - Help me, Enochato sem Galochas, you're my only hope - assim ela terminava sua primeira missiva.

   Tirei os óculos, agarrei uma das pernas com os dentes e deixei-o fazendo um movimento pendular à frente dos olhos enquanto caminhava pela sala pensativo. Senti um leve peso pelas costas, como se algo se estendesse quase até os calcanhares, e fiz menção de ajeitar os ombros. Procurei mas não encontrei nada. Ainda olhei para a cintura e não, não estava com um cuecão vermelho por cima da calça. De qualquer maneira, era um trabalho para o Super-Enochato...

   Refleti melhor: uns bocas-tortas amantes de chilenos (risos!) quase certamente confundiam madeira com potência. Como eu poderia ajudar a pobre mulher e, de quebra, dar uma lição inesquecível naquelas almas desvirtuadas do bom caminho? Na verdade não precisei pensar muito; já tivera uma experiência deveras didática*, quando um IGTzinho com jeito de morto transformou Brunellões de peso em menininhas correndo amedrontadas pelo Lobo Mau. Escrevi de volta sucinto:
   - A senhora pode escolher um Galardi Terra Di Lavoro, atualmente disponível na safra 2010.
   Junto, seguiam alguns links para lojas onde o produto estava disponível. E não aconteceu que a senhora N., além de comprar duas garrafas, chamou-me para degustar uma delas?!

Galardi Terra Di Lavoro 2010

Roccamonfina, onde este IGT é produzido, é uma das várias regiões vinícolas da Campânia, localizada na canela da Bota. Os tintos são predominantemente de Aglianico, Piedirosso e Sciascinoso (ou Olivella), com ocasional presença de Primitivo (veja aqui). O nome Roccamonfina é referência a um vulcão extinto, o que confere ao solo características muito minerais. Isso, é claro, reflete diretamente nos vinhos.
A vinícola Galiardi foi fundada em 1991, e em 1993 lançou seu primeiro vinho (veja aqui). Pedindo perdão pelo clichê, o resto é história.
Terra Di Lavoro, 80% Aglianico e 20% Piedirosso, com teor alcoólico de 14%, passa por envelhecimento em carvalho durante 12 meses, e foi servido com uma hora e pouco de aeração. Já estava começando a ficar bom para ser degustado, e só cresceu ao longo das quatro horas que passamos à mesa. Infelizmente o nariz deste enochato encontra-se em situação calamitosa, entrando em saturação após algumas poucas cafungadas.
   Depoimentos dos diversos presentes atestaram sua evolução, alterando as notas entre frutas (bem presentes no início, detectáveis até por este que escreve) para o surgimento de chocolate ou café (não sou o único com essa dificuldade!) e fumo.

O Bressia Conjuro



Produto da Bodega Bressia,  estabelecida em Mendoza, Bressia Conjuro é um corte Malbec, Cabernet Sauvignon e Merlot de vinhas plantadas no Vale do Tupungato, a 1100 metros de altitude. Envelhece 18 meses em carvalho e outros 24 meses em garrafa.
Infelizmente, afetado pelo problema de nariz, não ocupei-me de registrar o rótulo, nem guardei a safra. Bressia Conjuro tem bom nariz - agradou aos participantes mais do que a mim, mas meu julgamento estava claramente afetado -, bom ataque, mas seu grande pecado foi encontrar pela frente um Terra di Lavoro. A falta de acidez ficou evidente na boca: transformou a garganta em escorregador.
   Eu não tenho certeza do que vou dizer agora: talvez se degustado junto de outros sul-americanos, a falta de acidez passe meio batida. Na comparação, fica muito evidente. Talvez apenas falte mais experiência a este enochato para cravar que falta de acidez seja notória, mas como sou um pobre iniciante nesse assunto, o leitor mais qualificado fica no direito de julgar-me muito encima do muro.
   Mas há um ponto onde não fico em cima do muro: Bressia Conjuro custa entre R$ 405,00 e R$ 730,00(!), contra R$ 540,00 do Terrra di Lavoro. Em se tratando de um sul-americano, é um bom vinho. Mas não encara o confronto com um do Velho Mundo. Se custasse R$ 400,00, o meu veredito seria claro: quem chega em R$ 400,00, coloca mais R$ 140,00 e vive feliz. Se Terra de Livoro vale R$ 540,00, Bressia talvez valha a metade.

A competição

D. Neusa voltou da competição com o resultado oficial do mais recente embate. Seu vinho tinha pego em terceiro lugar. Perdeu para um Cobos corte uNico 2008 (preço no Brasil: R$ 1.500-R$ 2.000) e para um Châteauneuf du Pape Bosquet des Papes Chante le Merle 2012 (preço no Brasil: R$ 500-R$ 600). Entubou (risos) um Ridge Monte Bello 2009 (cerca de R$ 1.000,00), um Chateau Smith Haut Lafite, Pessac-Léognan 2010 (R$ 900,00) e um Brunello di Montalcino 2010 (produtor não especificado). O detalhe é que todos eram vinhos 97+. Tinha subido alguma posição no ranking, e, se não estava 100% feliz, certamente ficou mais animada. Outro desentiressado trabalho deste Enochato em prol da divulgação e defesa dos bons vinhos e bons costumes (risos!)


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Resenha

Vinho & Guerra. Os Franceses, os Nazistas e a Batalha Pelo Maior Tesouro da França
   Já havia lido as primeiras páginas do capítulo 1 há muito tempo, quando estava hospedado na casa de um primo, e dividia com ele a leitura do presente de Natal que ele ganhara da esposa. Desta vez consegui um exemplar emprestado e fui até o final.
   Vinho e Guerra tem uma narrativa dinâmica, entrelaçando o dia-a-dia de vários produtores tradicionais de diferentes regiões da França com os esforços do povo francês na árdua resistência face à ocupação alemã. Apresenta também a figura dos weinführers, agentes especializados a serviço do Reich cuja principal missão era garantir que os melhores vinhos francesas molhassem as gargantas certas dentro da cadeia de comando nazista.
   O livro contém muitas passagens belas e emocionantes. Uma das que mais gostei foi acerca da confraternização que Gaston Huet conseguiu promover no campo de concentração para oficiais em que esteve preso durante quase toda a guerra:
Huet se retirou para um canto da sala para saborear seu copinho de mostarda de vinho. Deu um suspiro de satisfação. Era um vinho branco seco do vale do Loire; não era do seu vinhedo, mas ainda assim trazia um gosto de casa. Olhou fundo sua cor esverdeado-dourada, depois se deteve para aspirar seu aroma, seu buquê floral com sugestões de limão, pêra, maçã e mel.
Quando levou o copo aos lábios, o vinicultor Huet falou mais alto: "Hum, um pouquinho acidífero", pensou. "Verde no palato médio e o final é fraco. Duvido que as uvas de Chenin Blanc tenham ficado bem maduras".
Essa análise, contudo, durou apenas alguns breves segundos, pois de repente emergiu o Huet amante do vinho, e os sabores e aromas da bebida o envolveram.
Para quem conhece um pouco acerca vinhos do Vale do Loire, sabe o que significa o nome Domaine Huet na produção vinícola em Vouvray. E, sobretudo, se já experimentou um Moelleux de sua lavra, o trecho acima traz um sentimento particular. Está certo que o vinho degustado por Huet na ocasição era um seco, mas seu Moelleux marcou-me profundamente. Saiba mais sobre a região aqui, e aqui. Siga também o vínculo Vouvray Moelleux na última página para saber melhor o que estou tentando dizer.

Entre o Terra di Lavoro e Vinho e Guera, não tenha dúvida: se puder, fique com os dois!

Vinho & Guerra
Don e Petie Kladstrup
Jorge Zahar Editora
Preço: aproximadamente R$ 45,00


*O André referido na postagem não era eu, que participei do evento na condição de simples comensal.