Showing posts with label resenha. Show all posts
Showing posts with label resenha. Show all posts

Sunday, March 31, 2024

Vaticínios de Don Flavitxo, ou O Dilema do Enochato

Introito

Melhor um ano antes
do que um dia depois.
Don Flavitxo

Com essa máxima, Don Flavitxo explica: é preferível beber o vinho um pouco mais jovem a correr o risco de perdê-lo para um maior envelhecimento na tentativa de encontrá-lo em seu pico. Não discordo totalmente, mas também não é justificativa para ele beber (bons) Barolos e Brunellos 2017, 2018 😣...  tá, ele também bebe uns 2012, 2014, às vezes 🤣😂😅... Apenas - palavras dele! - um dos melhores e mais poderosos Chiantis que já bebi foi um Felsina (produtor) Berardenga (região de Chianti Classico) 1999, oferta minha, degustado em janeiro de 2021... minha postagem está aqui, e a dele, aqui - espero que esse link funcione depois... 🙄. Claro, segurando vinhos corremos alguns riscos. De repente - não sei se estou correto - algum problema de rolha - e não do vinho em si - pode ser potencializado pela guarda. Tá, faz parte do risco... eu o corro. Até uns poucos anos atrás minha adega era muito nova: barolinhos e brunelinhos '04 a '06, xatenefinhos '09, 10, borgoinhas '05, '09, e o pior, bordozinhos '09, 10... bordozinhos são vinhos para durar 50 anos, especialmente nessas safronas... como eu iria bebê-los na mais tenra idade? Sim, o leitor atento presenciou algum xatenefinho '01, o Berardenga, um Montrose com 17 anos e uma ou outra degustação de vinhos algo melhores devidamente envelhecidos. Mas sou somente um pobretãozinho, e não pobretãozão completo, certo?!

Recentemente, Don Flavitxo me cutucou no Zapi: estou guardando meus vinhos por muito tempo. Ele mesmo relatou experiências desastrosas com vinhos mais antigos, e tem muitos envelhecendo ao mesmo tempo. De fato, é uma infelicidade aquele vinho tão carinhosamente guardado estar passado... Mas faz tempo que não me chama, o canalha!, enquanto isso os vinhos dele envelhecem! Prá reclamá (rs), ele está aí presente, né?! Lavação de roupa à parte 😆, fiquei realmente apreensivo: o vaticínio de Don Flavitxo tem base sua própria adega, muito melhor do que a minha. 😱 Deus do Céu, colocou-me em um dilema sério - seríssimo!: E se meus vinhos estiverem mesmo indo?! Com que cara vou servi-los a meus ilustres convidados, abrir alguma garrafa com toda a pompa e notar que o vinho foi embora?! Penso, penso, penso, e só encontro uma possibilidade: urge poupar meus confrades de tamanho dissabor - e a mim de enorme desgraça, tornando-me alvo de seus comentários resgatando as sábias palavras de D. Flavitxo! Começarei a tocar fogo (sic) nas garrafas, sozinho! Assim, guardarei para mim a vergonha dos que não estiverem bons! E olha, é pra já!

Bruno Clair Aloxe-Corton 2008

O Bruno Clair - dizem por aí - não está na parte de baixo da tabela (sic) dos bons produtores da Borgonha. Nem no meio. Proprietário de vários vinhedos Grand Cru, seus principais rótulos alcançam USD 500,00 em boas safras. Sobram para pobretões os exemplares mais simples e intermediários, pacote do qual este Corton é bom exemplo. Custa entre USD 60,00 e USD 80,00 e, junto de Pommard, é outra região da Borgonha onde os vinhos são os mais pegados, com taninos poderosos e ótima estrutura. Notas terrosas e compota denotaram seu envelhecimento. A cor também revelou seu estágio terciário indo para um pouco atijolado, mas a boca estava como eu gosto: tânico, pegado, ótima acidez, álcool (13%) bem integrado, toques de carne e herbáceo, com persistência longa de verdade, daquele tipo que quando mastigamos com a boca vazia, notamos quanto do vinho continua lá. Tinha pensado em beber dessa garrafa com alguém, mas não lembro-me agora quem seria... o próprio Don Flavitxo? Talvez fosse... já foi - uma pena para ele - e esteve bão, mas bão mesmo... a rolha desta vez não foi a vilã, pelo contrário: como podemos ver, cumpriu seu papel conforme o esperado.


O segundo dia

   Concluo a postagem no segundo dia, vinho aberto há praticamente 24 horas. O buquê a carne acentuou-se um pouco, e os toques terrosos também estavam lá. A acidez estava vibrante, e a persistência bem perceptível. Cortons em geral apresentam essa cara, e boa longevidade. Bebe um Grand Cru '99 do Bertrand Ambroise há alguns anos - beirava 20 anos - e, mesmo aerando por seis horas, notava-se claramente como ele estava fechado. Teria ficado ótimo com 24 horas... Não combinou com o bifim ao molho gorgo, mas foi o que eu tinha comprado para o final de semana com feriado. Sei, sei... Borgonha combina com pato. Preciso apender a cozinhar de verdade...

Resenha: O Problema dos Três Corpos (livro!)

O Problema dos Três Corpos
é o primeiro volume da trilogia de Cixin Liu, escritor chinês e primeiro autor não anglófono a ganhar o Prêmio Hugo de ficção científica na categoria Best Novel, em 2015. Saiba mais sobre o prêmio aqui. Antes de comentar sobre a obra, uma palavra acerca das resenhas, nos dias de hoje. Impressiona o quanto pseudo-resenhistas não conseguem escrever um parágrafo sem adiantar temas ou passagens importantes das obras, sejam elas cinematográficas ou literárias. Esses estragos não limitam-se a colunas, e atualmente invadem até mesmo a contracapa ou orelhas das próprias obras que deveriam ser enaltecidas, mas jamais desnudadas às vezes até a seus clímaces! A edição brasileira tem ainda alguns erros graves de tradução - mas há crédito a duas revisoras... Não bastasse, o comentário da contracapa é grosseiro: Uma novela clássica de ficção científica no melhor estilo de Arthur C. Clarke (para quem não pegou, ele foi o autor de 2001 - escrito depois da produção do filme - O Fim da Infância, A cidade e as Estrelas e Encontro com Rama, obras seminais da ficção científica escritas entre os anos 1950 e 1970). Completamente errado. É preciso ler o livro direito para resenhá-lo! Escrito com delicadeza literária raras vezes visto no gênero - sua preservação para o português é seguramente mérito da versão em inglês, utilizada na versão brasileira - a estória está muito mais para a poesia de Ray Bradbury do que para o cientificismo de Clarke - mesmo sendo O Problema dos Corpos um exemplo de Ultra-Hard Science Fiction por excelência (para saber o que é Hard-Science Fiction, aqui; entenda esse Ultra-Hard como um passo além da definição de Hard). Tá entendendo (sic) porque a obra papou o Hugo?

Durante a Revolução Cultura chinesa, a astrofísica Ye Wenjie, presencia o assassinato de seu pai, cientista da Universidade de Tsinghua. Enviada como membro de uma brigada de trabalhos na Mongólia, acaba presa sob acusação de atividades subversivas mas é resgatada para trabalhar em um laboratório secreto próximo. Acreditando tratar-se de uma arma chinesa para danificar satélites inimigos em órbita, ela passa a conhecer cada vez mais o equipamento. Ao deparar-se com informações de outras pesquisas que levam-na a acreditar poder utilizar-se do nosso Sol como amplificador de mensagens para as estrelas, ela tem a ideia de fazer um teste escondido de seus superiores. Com o relaxamento das dissenções sociais, ela volta a ser professora em Tsinghua e conhece um ambientalista ocidental vivendo como eremita na China, alguém com quem ela descobre ideais em comum e um profundo desejo de mudar a humanidade. Após partilhar com ele seu experimento inicial, eles embarcam em uma jornada cujos acontecimentos arrastarão o leitor para questões filosóficas e morais acerca de nossa espécie, e muito mais além. Com a estreia da série homônima na Netflix, o leitor talvez saiba mais do que se trata, mas assumirei que não saiba. Como o autor só revela suas intenções ao redor da página 200 - o romance tem 320 - deixo o convite para o leitor desta resenha descobrir por si o caminho seguido pelos protagonistas e suas implicações. A estória é super tecnológica - mas didática na maior parte do tempo - sem complexidade exagerada, embora profunda, e trata do futuro da humanidade com seriedade e muita imaginação, mantendo o leitor cada vez mais interessado, até a última página. Não tenho acompanhado muito da ficção científica mais recente, mas O Problema dos Três Corpos seguramente se encaixa entre os melhores romances que já li no gênero. Para quem contabiliza a leitura de uns 1.000 livros dentro dessa categoria, foi um prazer encontrar uma estória dessa qualidade. Já estou na metade do segundo volume.

Tuesday, May 2, 2023

Espanholeto vinhas velhas

Introito


   Há uma semana recebi uma não requisitada mas muito bem vinda avaliação jurídica de minhas manifestações políticas no blog. Amigo desde os anos 2000 - e portanto de confiabilidade acima de mais comentários -, ele ponderou sob o risco corrido por este articulista ao manifestar-se incisivamente sobre aquele presidente que trafegou pelos corredores da justiça contra a vontade e cujo processo andou para trás devido a uma suspeitíssima suspeição (sic) do julgador, baseada - até onde recordo-me - em supostas mensagens 'hackeadas' e impossíveis de se auditar como absolutamente verdadeiras. Face ao risco de um processo - desacredito um tanto da possibilidade, vide a baixíssima visibilidade do blog - com grandes custas, ainda se comprovando alguma verdade nas afirmações, há de se avaliar a aceitação dessas causas por alguns juízes, levando a discussão a instâncias mais altas e com mais custos. Assim, passei a semana revisando muitas postagens e reeditando alguns textos para torná-los críticos sem contudo invocar qualificações mais fortes. Não tenho um 'esquema' (sabemos quem o tem!) de proteção judicial para enfrentar processos. Talvez esse orador o tenha:


O link está está aqui, e pertence à seção de 'Cortes' do vereador por São Paulo Rubinho Nunes. Ele é explícito acerca de uma manifestação acontecida em Portugal:

...lugar de Lula é na prisão podia ser também, porque Lula e Ladrão são sinônimos...

...talvez a gente precise de uma intervenção mundial para as pessoas (daqui) entenderem que Lula é um bandido.

   O vereador é advogado. E, claro, não pretendo fazer um enfrentamento entre a opinião de meu amigo e a de Rubinho. Ele somente alertou-me para eventual processo e suas custas, capaz de gerar uma situação falimentar não apenas em mim mas em talvez 90% do brasileiros. Sobre nossa justiça - e também a respeito Ali Lulá - vem da Espanha uma matéria no mínimo controversa. Está em espanhol, mas traduzo um parágrafo para o leitor:

Para saber quem é Lula, é preciso saber o que é o Brasil hoje e como funciona o regime que rege os destinos dos brasileiros. O Brasil de hoje não vive em democracia, mas sim sob um sistema que pode ser chamado de ditadura da "corrupção". Esse sistema é regido por um triângulo formado por: a) a esquerda de Lula, seu "Partido dos Trabalhadores" e satélites; b) o Grande Centro ou Centrão, por sua vez constituído por diferentes grupos políticos; e c) o Supremo Tribunal Federal, que se tornou o órgão decisório máximo do país e atua como instituição política e não judicial. O que hoje se chama comumente de “democracia” no Brasil é o jogo de poder entre esses três atores, e de forma alguma o exercício da vontade popular.

   Os negritos são da própria publicação, os destaques em vermelho são meus. Note na reportagem quem é o autor... Assim seguimos, sem esmorecer e sem deixar de ser crítico das cafajestagens perpetradas contra o consumidor-eleitor destas plagas.

Loucos por promoções se trumbicam

   Conversava com alguém - quem? - sobre o comportamento desinformado do brasileiro. Poderia ser acerca de política, mas o assunto era vinho. A pessoa defendia a inclinação do consumidor-eleitor em aproveitar-se de 'promos' a qualquer preço, mesmo se a 'promo' não fosse 'promo'. Ontem mesmo recebi uma exatamente nessa direção, por isso compartilho com o leitor-eleitor-consumidor (rs):

    De R$ 947,90 por R$ 568,74 (desconto de 40%!) o consumidor pode levar... pode levar... pode levar um Fonseca Porto Vintage Quinta do Panascal 2008.


   #Sóquenão (sic! rs!)... é 'promo'! Veja,
   Na loja Garrafeira Nacional, em Portugal, o vinho custa R$ 280,00, exatamente a metade do valor aqui! Ora, a margem defendida por este Enochato como valor final razoável para um vinho no brasio é algo como 2x vezes o valor do produto 'lá'. A 'promo', com desconto de 40%, recai justamente nessa margem! Certo, o quase exato (sic! rs!) 2x é uma bela coincidência, mas mostra ao leitor-consumidor-eleitor o mantra incansavelmente repetido nestas páginas. Importadoras mais honestas preocupadas com o bolso do cliente praticam essa margem (às vezes menos!), enquanto outras trabalham com 3, 6, 9 vezes o valor original. Essa informação precisa circular - the spice must flow! - tanto quanto a de quem vota 'sim' no PL das fake news!

Atteca Garnacha Old Vines 2017

Havia bebido dele em 2021, por obra e graça do Ghidelli. E desta vez não havia um Percalo no meio do caminho - pela Madona! A fruta vermelha vem com tudo e preenche o olfato com gosto, a ponto de acobertar - para este Enochato - maior complexidade claramente presente. Tem algo dentro daquele trio café-chocolate-fumo muitas vezes difícil de discernir para este prejudicado escriba. Mas está lá, quem experimentar confirmará... A acidez tem destaque, os taninos encontram-se arredondados, nada rascante, um toque herbáceo com um pouco de especiaria - proveniente da madeira, creio. Tem boa permanência, provavelmente por culpa (rs) da acidez, e retrogosto presente, mas não identifiquei alguma particularidade. Portanto só posso confirmar a boa percepção inicial da primeira degustação, e passar à comparação de valores. A safra disponível atualmente em Enoeventos é a 2019, ao preço de R$ 195,00 (Enoclube) e R$ 230,00 (reles mortais). O valor médio lá fora (EUA) é de USD 16,00, o que dá, digamos, R$ 80tinha. Seu preço esperado (desejado...) aqui seria então R$ 160,00. O patamar de R$ 195,0 está, como dizíamos em confraria, 'no limite da compra', e R$ 230,00 (quase 3x!) dá as mãos para a tubaronice. Enoeventos tem compras melhores (próximas do 2x), e pergunto-me se acontece com ela algo similar ao 'fenômeno' Chez France, cujas críticas encheram algumas postagens passadas. Fica a impressão de que, entre preocupados com 'promos' chamativas e contabilidade - além de alguma tubaronice - estão perdendo a mão, Chez e Enoeventos. As 'promos' de Chez apenas trazem os vinhos para valores antes praticados normalmente (menores de 2x), enquanto Enoeventos, apesar de vinhos dentro do patamar 2x, tem escorregado consistentemente. E 'consistentemente' nesse caso pega muito mal. Por comentário final, pergunto se essa estória de clube ao final não divide Sua Majestade O Consumidor entre cidadãos de primeira e segunda classe. Isso soa terrível! Cada loja/importadora - e veja, todas têm! Diga-me uma que não! - procura cativar seu feudinho de felizes enganados com algum desconto como o Flautista de Hamelin encantou os ratos da cidade para dar-lhes fim na curva do rio. Você, leitor, é um rato de Hamelin? Se for, está bem, aproveite suas 'promos'. não sendo, que tal praticar meu esporte predileto, um bom pontapé nos fundilhos dos 'clubistas'? Se alguns insistem em manter um sorriso idiota, durmam com essa: nenhum dos conhecedores de vinho com quem converso e muitas vezes me influenciaram jamais assinou qualquer clube. Groucho nunca esteve tão certo...

Resenha de livro

Li há muito tempo O Incrível Congresso de Futurologia (Congresso Futurológico pela Editora Caminho, Portugal, denunciando um 'Incrível' por conta da edição brazileira), do Stanislaw Lem. O autor merece uma nota à parte. Muito mais respeitado como filósofo tanto quanto como futurólogo, produziu obras seminais dentro da ficção científica com qualidade realmente literária. Talvez seja o maior escritor de ficção científica desde sempre. Evitando polemizar, direi estar entre os dois maiores, e seguramente não em segundo...  Solaris (1961) é tido como sua obra-prima, embora muitos desconheçam a resposta tecnológica à obra eminentemente sociológica dada pelo próprio autor em A Nave Invencível, de 1964 (publicado na Coleção Argonauta - portuguesa - no número 264). Uma das abordagens icônicas do romance, reviver a memória de um cadáver pelo uso de... nanobôs! foi roubada na cara dura em algum filmeco classe "E" dos anos '90. Tem ainda o excepcional A Voz do Dono (1968) onde o autor trata do recebimento de uma mensagem de rádio alienígena pela espécie humana - alô, alô, fãs cegos do Sagan! Em O Congresso... temos o caboclo a participar de um evento acadêmico onde encontra um capiau também pesquisador que conta-lhe da quimiocracia, forma pela qual os governos mantêm os cidadãos crentes de pertencerem a um presente brilhante e destinados a um futuro glorioso e dignificante da espécie humana. É tudo uma ilusão turbinada à base de substâncias químicas - daí a quimiocracia... - induzindo a felicidade na população. O capiau tem um antídoto, e uma vez ingerido pelo caboclo revela-lhe um mundo diferente do conhecido por ele. Em outra rodada, o capiau volta e comenta sobre problemas com o antídoto: a realidade desnudada seria apenas parcial... Publicado em 1971, antecipou em uns 20 anos, pelo menos, o uso maciço de antidepressivos pela sociedade ocidental. Entendeu porque Lem é mais respeitado como futurólogo? Na verdade... esse nem foi um dos grandes acertos dele... leia para conhecer mais.

Voltando ao vinho,

Wednesday, March 9, 2022

Vinho e burgue de Carnaval 2

Introito

   Putin vem metendo os pés pelas mãos. Não torço por ele. Torço por uma situação de equilíbrio na região. Com uma invasão atrapalhada, perdendo 'moral', não conseguirá formar o escudo de proteção entre os mísseis da Otan e sua capital. O tempo de resposta russo face a um ataque ficará curto. Essa é a situação que poderá levar, até por causa de algum mal-entendido, a uma guerra nuclear de fato. Não agora, nem na semana que vem, mas depois que tudo se acalmar, com a poeira baixa e a Rússia devidamente enquadrada pelos 'mocinhos'. Será como em The Day After (O Dia Seguinte, 1983): ninguém jamais soube quem tinha disparado primeiro. 

Burgue e vinho II - A continuação

Quando do primeiro encontro para degustação de burgue (sic) dos membros do grupo Vinho e Turismo, várias pessoas não puderam participar, por agenda cheia. Mas algumas ainda combinaram um encontro para o final de semana no pós-Carnaval. Eis que para não perder a oportunidade este Enochato imiscuiu-se em mais este evento, para não perder o hábito de louvar a Baco, prática levada a cabo com fervor e dedicação sempre que possível. Assim reuniram-se as vestais Luciana, Dayane e Renata, a Sofia filha da Renata e este que vos escreve. Tínhamos comprado um vinho juntos há certo tempo, e eu ainda pensava em conferir uma opinião que ouvira certa vez. Na foto, eu com a mão na massa e as meninas felizes pelo encontro, fomos todos noite adentro sob recepção da Luciana (esq.) e selfie da Dayane (dir).

Um espumante e dois tintinhos

Como do encontro passado, levei meu já popular Bacio Della Luna Cuvée Brut. A exemplo das degustadoras da postagem anterior, elas acharam-no mais atraente do que nosso conhecido Blanc de Blancs Bacio Della Luna, degustado outras vezes por aqui. Opinaram ainda que seria melhor do que vários espumantes nacionais e, conforme apuramos depois, pelo preço consideraram-no muito interessante. Infelizmente está esgotado... Não repetirei as impressões, que estão aqui. Na sequência nos alegramos com o Château Haut Queyran 2016, um Cru Bourgeois (Médoc, portanto), comprado em uma 'promo' da Vinho e Ponto. Já comentei sobre os Cru Bourgeois aqui. Queyran mostrou nariz com fruta vermelha e especiaria. Discutimos ainda sobre algum café ou couro, se não me engano. Boca com fruta, taninos mais salientes do que a acidez - esta, achei faltar um pouco. Álcool e madeira sem comprometerem, equilibrados. É um corte 60% Cabernet Sauvignon e 40% Merlot com a especiaria da primeira presente. Pede acompanhamento com mais corpo, então não combinou tão bem com o burgue. Foi quando apresentei meu candidato. Ouvira falar que Beaujolais casariam bem com hambúrguer, então lá fui com o meu debaixo do braço. Domaine de Colette Fleurie 2014, 100% Gamay, também com fruta vermelha e para diferenciar-se um travo herbácio, se lembro-me bem. Corpo médio, 13% de álcool, boa acidez, creio ter mostrado fruta e alguém comentou... chocolate? Fumo? Algo nessa direção. Não passa por madeira, e, combinou muito bem com o burgue, para surpresa e felicidade geral. Esse e um dos problemas da harmonização: às vezes um vinho mais simples pode casar melhor do que um mais potente ou mesmo mais complexo. Não que Colette perca na complexidade - achei até mais elegante, pela acidez - mas no preço a diferença é grande. De qualquer maneira, não devemos usar um canhão para matar um passarinho. Sem copiar os preços, Queyran é um vinho de uns USD 20,00, pelo qual pagamos R$ 230,00. Colette vale uns USD 14,00, pelo qual paguei cerca de R$ 100,00. A relação é francamente favorável ao Beaujolais, mas são vinhos diferentes para situações diferentes. Queyran está no limite de 2x, boa compra para um vinho em nosso mercado.

Resenha

A Deliciosa História da França: As Origens, Fatos e Lendas por trás das Receitas, Vinhos e Pratos Franceses mais Populares de Todos os Tempos. Esse é o inusitado título de um livro que nos apresenta a história francesa conectada à evolução dos hábitos alimentares daquela que desde há muito é conhecida como a mais sofisticada cozinha do Velho Mundo. Fico pensando: qual seria o resultado dessa avaliação se tivéssemos à disposição o equivalente estudo realizado na Itália. É uma questão acadêmica, claro. A leitura de seus 52 capítulos é divertida, fluida, bem humorada a informativa. Fica mais instrutiva se o leitor tiver boa memória para guardar tantas datas e árvores genealógicas, o que não é meu caso, mas não torna o livro menos interessante. Sua pesquisa é ótima: as notas de cada capítulo apresentam-se ricas e os autores recuperam detalhes às vezes dramáticos sobre ingredientes tão banais: Tantas lágrimas foram derramadas pelo açúcar que, por direito, ele deveria ter perdido sua doçura (a respeito da conexão entre escravidão e produção açucareira). Partindo da Gália do século I a.C. até o pós-Segunda Guerra, vamos acompanhando como diversos ingredientes foram gradualmente sendo absorvidos pela culinária francesa sem o menor pudor ou preocupação. E, como os autores enfatizam diversas vezes sem a menor vergonha, a grande culinária francesa é uma mistura de influências distintas com os quais a nação teve contato durante toda sua história de 2000 anos. Os vinhos, claro, estão lá, em diversos capítulos. O vin du diable (vinho do diabo), acerca do Champagne, talvez seja o mais engraçado no tocante à nossa bebida predileta, embora outras estórias (Cognac, Absinto) apresentem-se igualmente envolventes. Uma leitura recomendada. Ganhei de presente da vestal Luciana, e foi um uma leitura prazerosa. Se o leitor dá-me licença, chegou o momento da minha hora verde... 

Esta postagem foi tocada (rs) aos restos de um Arínzano Chardonnay e um Pecchenino Dolcetto. Sinta-se ameaçado por eles, para uma próxima postagem...

Sunday, March 6, 2022

Uma piaba no Putin e mais um vinho antes do fim do mundo

Introito

   Não tenho acompanhado a guerra na Ucrânia como talvez devesse. Sei que um comboio gigantesco está parado próximo a Kiev, enfrentando graves problemas de logística. Parece que pneus foram enviados para Vladivostok (quem aí já jogou War?); uma quantidade imensa de plasma foi entregue em São Petersburgo e Novosibirsk recebeu um estoque estonteante de munições. Camarada Putin, saiba que nosso general Eduardo Pazuello, especialista em logística, passou para a reserva recentemente. E aposto que seu badalo de baixo ventre bolsonésio ficaria extremamente honrado em vê-lo assessorando a mãe-Rússia. 
   Está certo que Putin foi obrigado pela Otan a tomar as medidas que adotou. Não torço por ditadores nem apoio guerras, mas reconheço que ele não está errado, sob sua ótica defensiva. O mundo mudou com a derrocada da União Soviética. Para o Ocidente, foi mais fácil calar-se sobre a discussão da dita zona de influência definida na Segunda Guerra Mundial enquanto a URSS esfacelada tentava não cair no caos. Aguardaram que vários países da Cortina de Ferro migrassem para a Otan enquanto a Rússia carecia de poderio econômico para opor-se, e agora precisam enfrentar um Putin indo à forra. Esse contexto estava na conta; apenas talvez não acreditassem que pudesse acontecer - e foi um erro crasso. Só o Putin não precisava fazer uma campanha tão desastrada. As pessoas estão com medo de uma guerra nuclear? Já comentei os motivos pelos quais não a temo. Mas os líderes mundiais devem fazer a coisa certa: 1. Avisar o Putin bem avisado de que guerra nuclear é uma só, e 2. Ir atrás do dinheiro dos oligarcas e forçá-los a forçar (sic) Putin a uma solução menos tensa para o problema. Não adianta ficar com desculpas - um pobre infeliz d'O Antagonista relatou que os luxuosos iates (e outros ativos) dos magnatas russos estão em nomes de companhias em paraísos fiscais, que por suas vezes são controladas por testas de ferro, o que tornaria difícil suas apreensões... conversa. Em uma situação de guerra os países podem atropelar todas as regras estabelecidas, pronto-cabô (sic). E a senha está dada, pois o próprio Putin ordenou estado de alerta às forças nucleares de seu país. Se isso não é um prenúncio de guerra, do que mais precisa? Sinal de que o Ocidente vem falhando sucessivamente na análise estratégica da situação. Depois que der m... m... melindres aos quatro cantos do planeta, ficarei repetindo feito papagaio: 
   - Eu avisei, eu avisei, eu avisei...

Reunião (antes) do fim do mundo

   A senhora N. reclamou que não nos reuníamos há tempos. Verdade, este ano ainda nada. Mas teve minha Covid... Eis que na quarta passada aconteceu uma reunião na casa da Elvira. Acertado o cardápio - massa com molho vermelho, e antepastos - fui escolher alguns vinhos. Como sempre, e para diversão (garantida) da plateia, pegamos o Akira para analisar o primeiro vinho (branco). Ele cheirou e cheirou. Cheirou e cafungou. Cafungou e pensou. 
   - É europeu, mas não é francês... não é italiano... parece ser espanhol... a madeira deixa o nariz um pouco mas complexo, mas não é Viúra... não é Macabeo... parece ser Chardonnay... 
   Coloquei a mão na saia a vestir a garrafa desde seu gargalo, e soltei uma pista:
   - Você já cafungou o irmão menor dele.
   - É um Arínzano de Pago. - disse ele sem piscar, enquanto eu subia a saia da garrafa. A plateia foi ao delírio. Lembro que ele já havia nos brindado com uma matada similar a essa há não muito tempo, veja aqui.

Então o primeiro foi o Arínzano Gran Vino 2016, um Vino de Pago, indicativo de produtor pertencente à elite dos vinhateiros espanhóis. Mostrou bons aromas com toque claramente cítrico e mais, mas não consegui distinguir. Acho que alguém comentou 'damasco'; depois de apontado, ficou mais fácil perceber. A boca é igualmente boa, cítrica, mineral, com ótima acidez, o que proporciona final igualmente bom e longo, com persistência. Na sequência provamos um Patriarche Chassagne-Montrachet 2013, Borgonha bem estruturado (Chardonnay, claro), talvez um pouco oxidado, o que deixou os provadores confusos. Minha sugestão de 'amanteigado' foi bem aceita, e a estória se repete: a impressão bem dada de um acaba fazendo a cabeça dos demais. O Akira, adorador de Borgonhas, não acertou que fosse um. Mesmo assim, igualmente cítrico e mineral com boa acidez, mas não tão marcante na boca. Um degrau abaixo do Arínzano, que, convenhamos, é um ótimo vinho. Servido o Penne com um molho à base de carne (diversas), fomos para os tintos. O Poggio Le Volpi Baccarossa 2017, produzido na Lazio, é um  100% Nero Buono di Cori, cepa desconhecida para mim, que mostrou ótima fruta, chocolate ou fumo - o Ghidelli disse fumo, creio -, corpo médio para pegado, taninos muito redondos e acidez marcada, produzindo um conjunto harmônico com bom retrogosto e persistência. Achei que casou bem com o prato principal, mas não foi a melhor combinação. Tenuta di Capraia Chianti Classico Riserva 2013 apresentou nariz com ótima combinação de frutas, vermelhas mais nítidas, mas acho que negras também. A cereja clássica da Sanviogese estava lá. Especiado, chocolate/fumo, corpo médio, madeira, álcool e acidez integradas, para mim fez o melhor par com a massa. Repeti outras duas vezes sem o menor constrangimento (🙄), tanto que não sobrou espaço para a sobremesa. Seu bom final e persistência completaram para mim a melhor harmonização. Lamentei ter comprado apenas uma garrafa... O final ainda teve um Porto com torta, mas... este escriba estava devidamente adernado e não conseguiu provar...

Os felizes confrades Ghidelli (esq), Márcia, Margarida, Elvira, Oenochato, Akira e Neusa, a Sra. N.


Resenha 

Ainda hoje, em uma noite muito fria, quando vou deitar-me com minha esposa, a primeira coisa que digo comigo é que estou feliz por não estar em Bastogne.
Depoimento de um dos soldados da Easy Company, no início destes depoimentos.

Estes dias, um pouco por causa da guerra na Ucrânia, dei-me conta de que já se vão quase 21 anos da minissérie Band of Brothers, produção da BHO que estreou em setembro de 2001. Foi interessante reassistí-la novamente durante o Carnaval. Até onde lembro-me, essa série foi a primeira realizada com 'tecnologia' e 'cuidados' do cinema transplantados para a tv. O realismo das cenas de batalha são impressionantes. Choca ao vermos um soldado caminhando e no passo seguinte simplesmente cair morto enquanto um fio de sangue perde-se no ar. O enredo foi muito bem produzido e é em fechado. Depoimentos de ex-combatentes da Easy Company na abertura cada episódio trazem uma carga de confiabilidade e realismo ao que vamos assistir na sequência. Se sabemos que muitos fatos não são historicamente precisos, por outro lado não há patriotadas no meio da estória. Vemos a matança em escala industrial aplicada a uma companhia de homens e como esses fatos vão moldando cada um deles. Sabiamente, os diversos episódios vão focando um ou outro membro da companhia em vez de aterem-se a apenas um ou dois personagens principais. Assim, a exploração de diversos indivíduos distintos torna toda a trama mais coesa, crível e humana. Convido o leitor a assistir ou reassistir Band of Brothers para tomar ciência - ainda que de longe - dos horrores de uma guerra.

Rata! 🙈

   Alerta-nos o leitor Dionísio que Viura e Macabeo são a mesma uva. Eu não sabia, ou pelo menos não lembrava, o que não justifica o erro grosseiro. E, no afã de contar a estória envolvendo o Akira, posso ter trocado alguma outra cepa branca que ele tenha evocado. Desculpas ao Akira e agradecimento ao Dionísio pela observação.

Monday, April 5, 2021

Eu estava certo! 😃 Mas errei... 🙄

Introito

   A pandemia freou um melhor desenvolvimento da recém-formada confraria 'Noivas de Baco', o que foi uma pena. Eu esperava ansioso por algum encontro onde os participantes comparecessem vestidos a rigor. Seria engraçado ver o Gustavo, o Ricardo, o Edu e o Evaldo com modelitos de noivas... Quem poderia aparecer com os ombros de fora? Quem se apresentaria com vestuário mais recatado? 😂
   Na condição de prelado de grupo, sou responsável pela condução do rebanho pelo bom caminho do Senhor. Daí que tenho algumas propostas guardadas na manga para eventuais e futuros encontros. Uma dessas propostas era tentar apresentar um vinho que pudesse abrir fechado (sic! rs!) e, desagradando em primeiro momento, fosse deixado de lado e surpreendesse a todos no final. A ideia seria então ilustrar o grupo acerca da importância de um bom serviço do vinho e alertasse para alguns estilos de produção que de fato requerem tal atenção. E na minha opinião os italianos são ótimos para esse propósito... Achava que tinha esse vinho - e estava certo!, tinha mesmo! Só que sisqueci e, de repente, quando notei, estava com a rolha dele na mão!... 😟
   A inspiração veio da degustação de um Nemorino na famosa (sic! rs!) Noite dos Barolos sanguinolentos, que aconteceu em 2012: após uma abertura muito tímida como 'entrada' para uma noite de Barolos, voltamos a ele quando todas as principais garrafas haviam se acabado e a surpresa foi geral. 

I Giusti & Zanza Nemorino 2014

Já falei desse produtor, a  I Giusti & Zanza, há algum tempo, quando bebi seu Perbruno. Também havia comentado n'A Noite dos Barolos Sanguinolentos: Nemorino, Belcore e Dulcamara têm nomes retirados da ópera burlesca O Elixir do Amor (L'elisir d'amore). Nemorino é um campesino que se enamora por Adina. Nessa perspectiva, representando um humilde aldeão, é o vinho mais simples da I Giusti & Zanza. Corte de Syrah, Sangiovese e Merlot, novamente abriu fechado (sic!) às 19:30, quando vi-me com sua rolha na mão e lembrei-me que a ideia era abri-lo em outro momento. Mas já estava feito... Experimentei um pouco. Estando na fruta, aberto, bastaria recolocar a rolha e depositá-lo na geladeira. Não estava. Decantador, para aerar, não para separar resíduos. Até posterguei um pouco o jantar, e sentei-me com tudo pronto depois das 21:30. Escrevo às 22:30. Em algum bosque, Nemorino encontrou-se com Pã. Este tocou sua flauta enquanto o sol brilhava sobre as videiras; a terra fez seu trabalho e como resultado o vinho abençoou a todos com seu esplendor, enquanto Pã e Nemorino dançavam seus passos repletos de felicidade. Nemorino expressa fruta abundante, um toque terroso e couro. Tem corpo médio, boa acidez, taninos bem marcados e redondos, 14% de álcool um pouquinho perceptíveis. Tem ainda alguma especiaria na boca, com um final que surpreende para um vinho de entrada a um custo de 15,00 dóla la fora. I Giusti & Zanza é um produtor mal compreendido por aqui principalmente em função de seu péssimo serviço nas degustações promovidas pelo importador. Para um serviço tão... tão... tão porco, não vem ao ocaso (sic! rs!) quem seja. Curiosamente, continuam a importar. Tem no Pão de Açúcar a R$ 102,00, e em outros lugares a até R$ 180,00. É um absurdo o quanto pode variar. Mas o preço no PdA está bom. Só que - outro serviço de porco - não revelam a safra. Compre e beba (direito) ou guarde.

Resenha de filme: Godzilla vs. Kong

Gosto muito de ficção científica (e seu sub-gênero, a fantasia. Por que nessa ordem? Ora, porque foi a ciência quem triunfou, e não o contrário. Por mais que alguns obscurantistas tentem desconstruir essa verdade). Filmes e livros - claro, também poesia, pintura, artes plásticas... é um tema sempre apaixonante. Mas principalmente livros. Como a maior parte das pessoas conhece o gênero mais pelos filmes, tenho por premissa acompanhar a vertente um pouco mais de perto - mas não acompanho tudo. Godzilla começou como boa ficção científica. Veja a obra original dos Estúdios Toho, de 1954. Lembre-se que o Japão apresentava-nos essa obra 9 anos depois de ter sido destroçado, inclusive sob duas bombas atômicas. Jogassem uma única em S. Paulo, a pátria jamais se levantaria novamente - em verdade nunca estivemos em pé. Mas certifique-se de ser a versão japonesa original, e não aquela mostrada nos cinemas norte-americanos. São diferentes! Já King Kong apresenta um mundo (uma ilha) desconhecida, algo que fazia sentido, em 1933. O Everest só foi conquistado em 1953(!), então em '33 brincar com o imaginário popular de ilhas ainda não descobertas fazia algum sentido. Não tínhamos satélites! Pow, vamos falar do filme?
   Godzilla e Kong simplesmente traem toda sua estória e origem. Deixaram de ser ficção científica para flertar com ideias obscurantistas como terra oca - só faltava ser a plana! - e soluções ridículas para situações absurdas. Nem aqueles filmecos dos robôs que se transformam em carros ganha na ruindade! (sic) A um dado momento, Kong está lá em algum lugar da terra oca. Um lugarzinho chinfrim onde nem a gravidade funciona direito. Sei lá quantos quilômetros abaixo da superfície. Seu arqui-inimigo, Godzilla, solta um raio pela boa - tá, ele faz isso - e abre um buraco desde a superfície até 'lá embaixo'. Detalhe: a garganta de Godzilla tem um certo diâmetro. Quanto? Uns 25 metros? Claro que não! Uns 43 centímetros, no máximo! (gargalhadas!) Bem, ele solta o catso do raio pela boca e 'cava um buraco' (sic! rs!) da superfície até o lugar onde está o outro catso da terra oca de um diâmetro tal que o Kong pula nele (e a gravidade!?) e volta para a superfície da terra de novo! PERAÍ! (Esquecendo o problema da gravidade), quanta potência é necessária para isso? Para onde foi esse volume colossal de terra derretida? Tá, cai uns 10 metros cúbicos em cima de algum bandido que precisava morrer bem naquele momento. Falta explicar para onde foram os outros 999.990 metros cúbicos de 'lava'. Aí Kong e Zilla se pegam pra capá (sic! rs!), este dá-lhe um Roundhouse kick que quase mata Kong e vai brigar com outro monstro que nada tinha a ver com a estória. Nesse meio tempo, um tonto de um 'cientista', que vira exímio piloto de uma aeronave fora de linha (sim, um protótipo) tem a brilhante ideia de reanimar Kong dando-lhe um choque com a potência de... 'iluminar Las Vegas'. PERAÍ! É um protótipo que parece operar algum campo gravitacional descomunal e o tonto do cientista aprendeu a pilotar só porque o piloto foi comido por um passarinhão lá na terra oca?(!) E estamos falando de amperagem, e não de voltagem. Algo suficiente para transformar 300 King Kongs, 150 Godzillas e mais uns 150 Jesus Cristinhos em farelo de mandioca de uma vez só... Mas o único Kong presente em cena levanta-se rodando a baiana e ajuda seu novo amigo Zilla a destroçar a criatura que apareceu do nada 😂. No final, eles se fazem um sinal de positivo e cada qual segue seu caminho. Se o leitor é estúpido o suficiente para reclamar do tanto de spoilers daqui, deve, deve, deve... bem, já sabem o que ele 'deve' (fazer). Ora, depois de todo esse disparate você considera assistir? Então vá... 😟 Os spoilers não farão qualquer diferença. É gado o suficiente para aceitar qualquer m... m... mandracaria chinfrim e sem vergonha que vier pela frente. Nota: 5 vinhos de garrafão. Da pior qualidade.

Saturday, March 27, 2021

Para onde ele aponta

Introito

   Sextou, dia de vinho. Desci para a adega escolher alguma coisa. No caminho, em meio a outros pensamentos, lembrei-me de uma cena de Excalibur: Perceval, ainda o cavalariço de Lancelot, esbarra em Merlin com uma pergunta. Follow your nose, é a resposta do mago. Sem compreender bem, o inocente rapaz vai seguindo seu próprio nariz e chega ao destino, a cozinha do Castelo de Camelot. Assim, ao pé da escada, resolvi seguir meu nariz. Lembrando-me, claro, que havia comprado quatro garrafas de um bom português em excelente 'promo' logo na hora do almoço. Foi assim, seguindo a rota apontada pelo nariz, que cheguei em frente a um vinho do Douro. Se já tinha comprado mais portugas, bem que poderia 'sacrificar' um agora. Talvez o leitor mais ligado já tenha decifrado a estória. Os demais, farei sofrer um pouco mais...

Resenha de filme: Excalibur (1981)

Normalmente deixo as resenhas para o final da postagem; é um plus a mais (sic! rs!) que ofereço ao leitor que se arrastou até as últimas linhas dos comentários sobre o que degustei. E oras, como vou esticar a conversa e torturar um pouco mais meu nobre leitor antes de comentar sobre o vinho de hoje? Ninguém o impede de pular a resenha, mas sei que meu fiel leitor não fará isso... Lembro-me de assistir a Excalibur no cinema. Saí da sessão impressionado, a ponto de voltar um ou dois dias depois para uma reprise. Algum tempo depois fiz uma gravação de fita de vídeo para vídeo, depois comprei o DVD, e reassisti regularmente ao longo dos anos. Recentemente assisti mais uma vez, em alta definição. Para mim é um filme que aposentou tudo o que se filmou antes sobre o tema, e jogou pesada sombra sobre tudo o que se filmou depois. Parece que sim, refilmaram algo. Duvido - du-vi-do - que tenha sido bom. Porque? Excalibur é essencialmente um filme com fortes imagens, às vezes belas, outras vezes de crua violência e outras, ainda, de grande simbolismo. A trilha realça todos os momentos do filme, e os mais marcantes tornam-se simplesmente espetaculares. Destaco duas: a abertura do filme seguida da batalha da abertura, ambas ao som de A Marcha Fúnebre para Siegfried, de Wagner, e o momento quando, depois que está posta para o espectador a ligação entre o Rei e a terra e Arthur alcança a redenção ao beber do Graal trazido pelo já Cavaleiro Perceval, a marcha para a batalha final, ao som de O Fortuna, de Orff, que é arrebatadora. Pode assistir às cenas, principlamente a última, não há antecipação de qualquer fato importante para a narrativa. Se já assistiu, sabe que revisitar essa obra é muito melhor do que a maior parte das produções dos últimos tempos. Se não assistiu, largue tudo, inclusive esta leitura, e corra assistir. Depois me confirma que valeu a pena trocar estas mal traçadas linhas por aquelas bem transadas cenas.

Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016

Já falei um pouco da Quinta da Romaneira. Está aqui. Este Apontador é um vinho de 'alto padrão' da vinícola. Escrevo em sua terceira hora de aberto. A combinação, claro, foi o tradicionalíssimo deste cozinheiro de um prato só, o medalhão de filé ao molho gorgo. Gorgo é um monstro do cinema. Meu molho gorgo é monstruoso, mesmo 😝. Combinaram muito bem, porque o vinho é realmente gastronômico. Mas nem tudo foi festa ou felicidade... Apontador, desde o início, tem um nariz explosivo em fruta e especiaria. O álcool, sobrando um pouco no começo, acertou-se. Mas sente-se que o nariz, apesar de marcado, tem um quê de fechado. A boca é potente - daí que pede comida - a especiaria repete-se de forma muito marcada. A acidez, essa sim, está viva, vivíssima, o que não compromete, pelo contrário. Tem aquele travo de doce que associo mais facilmente com portugueses, que não é enjoativo. Os taninos estão um pouco pegados. Mais ou menos redondos, mas mais pegados, se o leitor me entende. A madeira aparece um pouco. Ou seja: está fechado também na boca. Mesmo com três horas de aeração. Sobrou um pouco na garrafa, e posso apostar que amanhã não estará melhor. Aeração aqui não é a questão. A aeração produz um envelhecimento diferente daquele produzido pelo tempo. Então nem tudo foi felicidade porque Apontador está fragrantemente novo; precisa de uns cinco anos para se desenvolver. Se abrir agora, ele vai impressionar mas deixará as arestas bem evidentes. Quando tudo se arredondar, será um vinhaço. Ainda bem que comprei três garrafas...
Apontador tem ainda uma cor escura, para mim mais identificável com a Syrah, seja em vinhos chilenos, do norte do Rhône ou australianos. A combinação tanino e acidez tornam-no em um 'potente' do tipo que eu gosto, quando a potência precisa tomar o lugar da sutileza. Paguei, durante o ano passado, cerca de R$ 180,00, em 'promo'. Hoje está R$ 400,00. Vejamos: é um vinho de USD 50,00, preço 'lá'. Se fizermos um dóla amistoso (sic) de R$ 4,00, então USD 50 x R$ 4,00 = R$ 200,00, e seu preço cá, R$ 400,00, é o dobro. Como o dóla não está R$ 4,00, seu preço deve ser considerado uma pechincha, já que 'o dobro' é a marca registrada das casas que praticam margens honestas por aqui. Afinal, temos uma taxação algo como 45% superior (aqui deve ser uns 65%, enquanto na Europa é de 20%). Às vezes o vinho entra em 'promo' na Lovino, o importador, mas não mais a esse preço. Não custa ficar de olho, e se entrar em 'promo' por qualquer valor abaixo de R$ 400,00, lembre-se de que é um vinho para guardar. Para onde ele aponta? Ora, o leitor mais atento percebeu faz tempo: felicidade engarrafada no mais amplo sentido, para quem tiver tempo e paciência, escapando da tentação do consumo rápido. Compre, se couber no bolso, que vale a pena. E, comprando, guarde, que valerá a pena bem mais.

Post scriptum/Rata! 🙈

   Experimentado no dia seguinte, Apontador arredondou um pouco no nariz. A boca também cedeu um pouco, mas a impressão de estar fechado persistiu. Mais na boca. Pondero que, aberto esse vinho, a tendência é não sobrar. A galera vai mamar dele até o final, sem direito a dia seguinte. Na abertura, estará fechado (sic! rs!). Se o bebedor desejar abrir com 12 ou 14 horas de antecedência está bem, mas não vai desfrutar de todo seu potencial. Apontador '16 está com seu destino traçado, ele será uma estrela. Não o é, mas será. Agora, se você bebe como se não houvesse amanhã, então tá bom, é. A errata é relativa ao preço. Paguei R$ 197,00 em 29 de julho de 2020. Se pegar uma promo a uns R$ 250,00 e tiver bala, não vacile; avance nele.