Introito - algumas reflexões soltas - parte 3
Andei eu mesmo refletindo sobre as duas últimas postagens, e por mero diletantismo aprofundei-me um pouco mais nas leis do Cipolla. Inspirado por conversas com bolsonéscios e PTlhos, não resisti a cunhar mais duas:A sexta: Estúpidos não gostam de ser avisados de sê-lo e, quando alertados, frequentemente demonstram que o são.A sétima: Estúpidos nunca mudam de opinião; mudam os fatos.
Faço os testes em mim mesmo. O problema com a sexta lei é que, apesar de ter categorizado muitos estúpidos, nenhum conseguiu retornar-me o elogio - então minha reação não existiu, para ser observada. Bem, um retornou apenas com um xingamento: não havia qualquer contra-argumentação em seu discurso, apenas insatisfação. Faço outro alerta estúpidos, comentando assim - principalmente depois de apontar fontes-m3rd@$ especializadas em veicular informações enviesadas e sob as quais eles se apoiam: "Você continua acreditando nisso mesmo depois de eu ter demonstrado o viés capcioso da fonte, mas não acredita em mim que supostamente sou seu amigo - e portanto não tenho nenhum motivo para enganá-lo". Recebo o vácuo de volta. A pessoa emudece. Talvez seja reflexão, mas ao final ela cala-se e pronto. Tá, os muito estúpidos mudam de assunto - estratégia básica. Sob a sétima, meu passado me fortalece. Vejamos meus votos para presidente (sempre iguais nos dois turnos, quando houveram): FHC em HFC1, nulo, Lula em Lula1, nulo, nulo, nulo, Amoedo -> contra o Andrada no segundo turno, e finalmente nulo. Deixei a Social Democracia - muito mal aplicada por aqui - para ir à esquerda e, enganado, repudiei e nunca mais voltei. Essa geração esquerdalha precisa desaparecer antes de eu voltar a votar na corrente com a qual mais me identificava. Venderam-se todos - ou no mínimo acovardaram-se, sem coragem para defender o país dos maiores escândalos de corrupção de sua história. Votei contra ela, aceitando antecipadamente algum obscurantismo - orações no Gabinete da Presidência, por exemplo, dado o Estado ser laico - mas não a sequência de idiotices proporcionadas no governo natimorto de Bolsonéscio que vendeu a nação por 30 dinheiros em troca de salvar seu rebento. Nenhuma manada me capturou; até aqui passei pelo crivo proposto. Ah, mais engraçado: chamam-me baba ovo porque apoio um candidato - Renan Santos! Ele não me parece um pouco, ele me parece absolutamente diferente, em sua trajetória e propostas, de todos os candidatos já inscritos em uma eleição presidencial desde a redemocratização - se tem dúvida, procure saber. E fechamos assim: mesmo com meu passado agora - na ideia de outros - caio refém de um candidato a quem tenho acompanhado desde quando bolsonéscios me visitam para um café e soltavam a voz: "Carlão... o MBL derrrrrreteuuuuuu...". Qual MBL, capivara? O que montou um partido quando Bolsonéscio não o conseguiu, mesmo dispondo da máquina do governo federal como eventual apoio? E tem a pretensão de adular seu candidato com palavras tais como competente? Ah, claro...
Buscando uma conclusão, deparo-me na verdade com uma descoberta. As duas leis que tive a petulância de acrescentar às de Cipolla fornecem um crivo para detectar a estupidez em uma situação real. Entenda a sexta lei como um teste e note como uma pessoa reage ao ouvir ser estúpida. Amparado pela sétima lei, observe a reação dela quando os fatos contrariam suas convicções. Minhas propostas expandem os horizontes de Cipolla e Bonhoeffer uma vez que, além de reflexões sobre a estupidez, existe agora uma forma de testá-la. Novamente: Estúpidos, enfileirem-se!
PS: a sétima lei recebeu sua forma a partir de uma "conversa" com o ChatGPT. Eu tinha essa ideia, mas não conseguia resumi-la. Pedi-lhe que formulasse uma frase curta, levando em consideração as ideias de Cipolla e Bonhoeffer e o conceito de dissonância cognitiva. Ele foi cirúrgico.
Uma incerta bastante certeira
Aconteceu de encontrar o Mário, e junto dele a Salete e a Aninha. Palco pronto e perfeito para a abertura de algumas garrafas descompromissadas. Ele chegou com um Nieto Senetiner Patrimonial Sémillon 2021, exemplar de bom frescor com notas cítricas na frente, bem definidas, e um pouco mais. Fui atrás da ficha: flores brancas e ervas... não notei - provavelmente por deficiência. Mineral? Não. Dez meses de barrica? A madeira estava bem integrada, não é de primeiro uso - e nem precisaria. Mas a boca era sem dúvida ligeira, com baixa acidez e permanência; a mesma história de não deixar rasto nem saudades. Vou me repetir: uma ótima oportunidade de provar vinhos que não compraria pelo histórico sul-americano de preço versus qualidade: não fecha, na minha opinião. Vejamos por quê: às cegas - só na primeira taça - apresentei o Château des Correaux 2023, um Saint-Véran, zona muito simples da Borgonha, sem um único vinhedo Premier Cru, com vinhos de Chardonnay feitos para serem consumidos jovens. Vi os olhos dos confrades brilharem logo ao primeiro buquê: cítrico mais pegado, rico, acompanhado de notas mais destacadas, à espera de um nariz mais competente que as desvendasse. Ataque elegante pela acidez vibrante, aqui sim, mineralidade presente e o discreto amanteigado típico de um Borgonha. Não há mistério, a acidez torna o vinho mais persistente e presente em boca; a diferença foi gritante. Notemos: o Mário não produziu o Patrimonial, ele apenas o comprou a título de experimentá-lo. O Chianti Classico da Tenuta Casuccio Tarletti 2022 não enganava ninguém com aquela cerejona típica da Toscana. Ainda, algo como café/fumo (qual?) e um toque herbáceo. Boca tocada por acidez quase média, 13,0% de álcool, bem comportados na estrutura, madeira discreta em segundo plano e muita fruta madura. Um vinho fácil de se beber, e com duas horas de aeração em garrafa mostrou-se verdadeiramente alegre. Ótima expressão da Sangiovese na faixa de € 11,00. Aqui foi comprado a R$ 110,00 - menos de 2x, ótima descoberta. A Ana, que ofertou o vinho, saiu com a segunda garrafa toda feliz. Os brancos: Château des Correaux pode ser encontrado por volta de € 11,00 na Europa, enquanto, na Argentina, o Patrimonial vale algo como 11.000 Pesos, o que dá R$ 38,00, ou um pouco mais de USD 6,00. Arredondando, de 6 para 11 moedas pode ser o dobro, mas Château des Correaux oferece muito mais. Não é de R$ 100,00 para R$ 200,00; para quem está acostumado a pagar um pouco a mais por produtos bem melhores, meros 6,00 USD (ou 6,00 €) não farão diferença. Então, apesar de tudo, o valor modesto de Patrimonial na Argentina ainda o torna um vinho um tanto caro para o bebedor com um filme fino de um diâmetro atômico de sofisticação estampado na língua. Por aqui é que a coisa fica ruim. Comprei Correaux a R$ 130,00 - tá, uma 'promo' relâmpago, peguei a caixa e nem comuniquei os confrades, estou pondo na mesa à medida que aparecem as oportunidades. A oferta acabou em duas horas; se esperasse alguém se manifestar teria perdido. Patrimonial custa, bem comprado, os mesmos R$ 130,00. Na Grand Cru, importadora tubarona, o Mário comprou a R$ 160,00. Tá vendo? De R$ 40,00 lá por R$ 160,00 cá. Dá 4x+. des Correaux está em 2x, e não foi à toa que todos lamberam os beiços ao prová-lo: como boa compra, situa-se muito acima do padrão de R$ 150,00 praticado por aí para vinhos bem mais simples. É por isso que, dependendo da importadora, precisamos colocar um caminhão de dinheiro para melhorar só um pouco o nível do vinho. O brasileiro tenta não ser estúpido, mas é tratado como tal por boa parte das importadoras. Às favas com a comprovação dos valores neste setembro de 2026. Estou um pouco cansado de idiotas e de tubaronas.