Tuesday, April 21, 2026

Espanholeto da gema

Introito: a filial do inferno

   Recomendo ao leitor uma olhada no vídeo abaixo para ele conhecer um pouco mais do Brasil, e aviso desde já: versa sobre uma tragédia ambiental, e cenas assim sempre soam desagradáveis.


   A peça mostra onde estamos. Quanto tempo demoraria um cachorro para se decompor ao relento? Imaginemos que ninguém o guardou em casa um tempo, morto, para depois desová-lo na sua. Nem o desenterrou uma vez sepultado para promover poluição tão gratuita. A IA do Google responde: de algumas semanas a vários meses. Algumas semanas: esse é o tempo mínimo para o aparecimento da ossada. Está aí a humilhação à qual os brasileiros mais pobres estão submetidos. Após quase quatro mandatos cuidando de gente, Ali Lulá ainda nos lega essa ideia de nação. Foi nesse projeto de país (sic) em que você votou? É na continuação dele que votará?

   Para aumentar a sensação de escárnio acabado e completo das autoridades constituídas para com todos os cidadãos brasileiros, informo: no dia seguinte à publicação do vídeo, lá estava o poder público tomando providências (lembre-se: foram semanas de uma carcaça em decomposição). A tragédia para a esquerda não termina assim; deputado estadual do PSB no Maranhão faz uma crítica tão sem sentido à ação do Missioneiro (sic) que ao final só colabora para aumentar a credibilidade do denunciante. Não à toa, já havia tirado o pé da esquerda em geral e dos PTlhos em particular há muito, e tornei isso cristalino em 2022 (não votava em eleições majoritárias praticamente desde 2002). Foi divertido ver meu voto de protesto para Márcio França ao governo estadual (junto com outras centenas de milhares, creio), fazê-lo pensar ser um foguete no pleito seguinte, quando concorreu ao senado. Às vezes é assim: podemos não eleger quem gostaríamos, mas um apoio bem colocado na cabeça de um energúmeno estimula sua autoconfiança, infla-lhe o ego, agiganta-lhe a soberba e seu destino acaba sendo o desejado: a lata de lixo da História. É a sina que espero para toda a atual geração da esquerda que está por aí. Só não sei onde iremos buscar novos e melhores quadros, dados os mais novos serem de longe mais incompetentes, ignorantes e idiotas quando comparadas as seus predecessores. Mas essa é outra conversa.

Um espanholeto da gema

 López de Heredia é um produtor de primeira linha em Rioja, fundada em 1877 - olhaí seu sesquicentenário chegando... Cubillo é, em seus tintos, o vinho de entrada. Corte variável de Tempranillo, Garnacha, Mazuelo e Graciano - o mais típico corte riojano, a justificá-lo 'da gema' - segue a filosofia do produtor de envelhecer seus vinhos antes da distribuição. Wine Searcher indica como 2019 a safra mais recente... ele vem pronto para beber, mas normalmente com bom potencial de guarda - a sugestão do próprio sítio é 2036... Seu preço lá fora está na casa dos 20 dólas, patamar típico de vinhos de boa qualidade. Esse exemplar aerou por uma hora e meia antes de entrar na geladeira. Mostrou fruta abundante, direta, com algum toque na linha fumo/couro, e divertiu o casal Christiane e Mauro, os anfitriões. Não conheciam-no, e gostaram muito; não lembro se a Chris mencionou um toque de chocolate. Boca agradável, equilibrada, acidez presente e madeira discreta, mas achei os taninos 'médios um pouco abaixo', esperando mais corpo. Há não muito tempo provei da safra 2016, e lembrava como aportou mais de potência, justificativa para pareá-lo com a pizza de provolone; não foi assim: o queijo passou por cima dele. Verdade, ele tem um travo pegado, intenso, e justamente a Tempranillo (junto da Merlot) é a opção indicada. Só agora, lendo no Wine Searcher para esta postagem, noto a classificação das safras: 2017: boa. 2016: excelente(!). Boas safras normalmente produzem vinhos mais longevos - de carona, eles demoram mais para amadurecer. Não saberia avaliar até onde produzem, efetivamente, vinhos melhores, no sentido de mais encorpados e complexos. Explico: produtores responsáveis, ciosos de seus nomes, não poupam esforços na manutenção da qualidade de suas criações. Se a safra não é tão boa - e '17 foi! - eles descartam uma porcentagem maior de uvas, ou pode haver mudança na escolha da levedura, por exemplo. Não sei exatamente onde mais uma safra melhor afetar a qualidade final de um vinho, mas nesse caso subestimei o embate. Fique claro, a falta de harmonização não tirou a qualidade do vinho, apenas impediu sua melhor apreciação. Ainda assim, teve bão. Obrigado à Chris e ao Mauro, e a ausência da Renata foi sentida. Teremos outras...

Filial do inferno, 2

O leitor frequente já se cansou das minhas reclamações, insistindo como os vinhos sul-americanos estão caros. A rapaziada anda se sentindo a rainha da cocada preta, carcando a bota nos preços. E não é de hoje. Também não de hoje faço comparações entre vinhos de 'cá' e de 'lá' (Europa, principalmente), desmascarando sem esforço algum o embuste da pretensa qualidade embasada em altos preços. Veja aqui, aqui e aqui sobre o tão falado Gran Enemigo. O último vínculo, inclusive, traz um embate de 'segunda linha', entre vinhos de menor preço da França e da Argentina, além de uma observação completamente às cegas pela Elvira, confrade cuja competência - por mais amadora - na avalição de vinhos ninguém põe em cheque. O presente caso - não provei, nem pretendo... - é a 'oferta' de um produto da conhecida Bodega Noemia: de mórbidos R$ 2.200,00 por meros R$ 800,00. Espera um pouco... vinho agora é como carro zero na virada de modelo? Mas os descontos não ultrapassam 15%, 20% no máximo. Será modelo de Iphone obsoleto de dois anos? Gemini nos revela ter sido de 30%, mas hoje, com cenário mais agressivo, fica entre 40% e 55%. 


   Mas ora!, bons os vinhos que conheço aumentam de preço com o passar dos anos, pois vão ficando mais prontos para o consumo. Aqui temos uma oferta onde o valor a ser pago é praticamente 1/3 do preço cheio. Na Argentina ela vale (pedem por ele...) entre 258.000 e 391.000 Pesos, mas com outros preços de 269.000 e 271.500 Pesos. Convertendo essa sequência para Reais, dá R$ 928,00, R$ 1.406,00, R$ 968,00 e R$ 977,00. Portanto um preço próximo de R$ 1.000,00 (lá!). E aqui? Encontrei entre R$ 1.000,00 e R$ 1.250,00, embora também tenha aparecido a quase R$ 2.900,00 (ta, R$ 2.600,00 no Pix - risos!). Antes importado pela Mistral, o rótulo está atualmente na Vinci - mesmo grupo. Não sei como anda eventual contrato de exclusividade, mas olhando os valores mais em conta, vemos uma paridade de preços entre Argentina e Brasil. Aqui temos uma carga tributária próxima a 60%. Novamente, fica a pergunta: por quanto saiu? (da Argentina, e para chegar aqui pela mesma quantia). Mais uma: estamos falando em cerca de 200 dólas. Alguém me explica como ele chega nos EUA e Alemanha a apenas 150 dólas? Só reforça a pergunta: saiu por quanto? (da Argentina).


Achou que terminaria por aqui? Sabe de nada, inocente! A mais nova oferta da praça é o Viña Bujanda Crianza 2021, a 700tão na caixa com seis. Dá R$ 117,00, porcada! Não sei por qual cazzo de coincidência a mesmíssima safra dele está a R$ 212,65 na Mistral (se disser que falou com o Enochato, sai por R$ 212,00). Quase fechei cinco caixas, sem pensar, mas... aí, pensei... Wine Searcher nos mostra a €6.95 na rede espanhola Decantalo, ou entre USD 12,00 e USD 13,00 nos EUA. Ainda assim dá menos de R$ 70,00. Bem, 7 Euros dá R$ 41,00, fazendo da oferta de R$ 117,00 quase 3x, e do preço regular, 5.2x(!). Certos pulhas defendem margens das importadoras de 3x. Onde estão eles agora?! Percebemos facilmente: como na política, é fácil ser enganado por trambiqueiros. E a pergunta lá vale aqui: honorável consumidor, você aceitará essa trapaça quieto? É esse o país que você sonha em viver? Não compro uma única garrafa sem antes comparar seu preço aqui com o praticado lá fora. E digo: 2x é um limite mais do que razoável para pagar. Mesmo com o mega-vilão Taxad espreitando-o no quarteirão mais próximo a você.

Como se o blog não tivesse credibilidade...

Valores de Noemia na Argentina






Valores de Noemia no Brasil




   A 'oferta' de Noemia


Valores de Bujanda Crianza fora



Valor de Bujanda Crianza, preço cheio


Bujanda Crianza na 'promo'



Monday, April 13, 2026

O vinho 1x6 e a escala 6x1

Introito

Só existe uma vergonha maior que a própria:
aquela advinda da sua classe, clã ou guilda.
Oenochato


   O país está mergulhado no caos, faz tempo. Nosso último GPN (Grande Projeto Nacional) era, se não me falha a memória, estocar vento. Ideias rasas são apresentadas à plebe ignara como a salvação nacional - e sempre chegam acompanhadas do mesmo bodum que emana da situação geral de um país falido como o descrito em Não Verá País Nenhum, atualíssimo passados 45 anos. 

   Há não muito tempo (como anda?) o must era o cazzo da PEC 8/2025. A ideia em curso é bem simplista: vamos desocupar (de trabalho) o pessoal mais simples, podendo evoluir a até 4 x 3 (trabalho de segunda a quinta, descanso de sexta a domingo) e o empresário arca com mais essa obrigação, pagando pelo capricho do Estado.


   Pergunta clara: de que adianta gerar empregos de baixa qualidade, que em breve serão suplantados por robôs e pela inteligência artificial? A alternativa à PEC é clara: ...a solução são políticas públicas para melhorar a produtividade do povo brasileiro e aí (sic) ele vai conseguir receber mais e trabalhar menos. Não há qualquer mérito nessa proposta, de tão modesta! O problema é ela ser usada para estraçalhar o conceito basilar de um irmão de trincheira (rs! sic!) que é retratado com assertividade pelo antagonista por um palhaço. Como posso defender minha ala quando suas ideias são tão facilmente derrubadas e embrulhas prontas e acabadas para seu destino necessário, a lata do lixo? Desses conceitos cretinos tem vivido a esquerda, e seu maior efeito é transformar nossos opositores em pessoas até mais sensíveis e melhor preparadas para enfrentar os problemas nacionais. Note: melhorar a produtividade não apenas renega a escala 6x1; enfatiza a necessidade para nos tornarmos competitivos globalmente.


   A imagem acima comprova o ponto de vista e diz tudo: nossa competitividade chega a apenas 25% de profissionais mais estudados e melhor treinados, enfim, mais produtivos. NAP e sua turma tiveram 20 anos para operar essa transformação, e falharam miseravelmente - fora os escândalos. Então é assim que somos: (sic)

e é assim que continuaremos a ser, se ficarmos reféns dos projetos esquerdopáticos (sic) que vêm dominando o país nas últimas administrações. Em tempo: não é qualquer porcaria igualmente sem propostas e pendurada na indulgência de uma justiça prestes a conhecer o cadafalso - no imaginário de milhões de cidadãos de bem - que vai contribuir para o debate (volto ao assunto depois). Assumo o apoio às propostas deste rapá e sua turma. Eu, não tendo herdeiros, poderia estar pouco preocupado com o país. Poderia... não é o caso: continuo eterno devedor da sociedade que proporcionou-me estudo gratuito de alta qualidade na melhor universidade do país. Não mudarei de lado - não deixarei a esquerda, apesar dos esquerdopatas - mas não deixarei de apoiar um projeto de país moderno, ousado e competentemente proposto; ele está aqui e posso dizer que é tudo isso: li os seis volumes, e não carrego dilema moral em render-me a ele. Uma nação se faz (também) como pessoas corajosas a ponto de admitir sua derrota e trabalhar em prol dela. Chega de carregar a vergonha da minha classe, clã ou guilda.

Vinho é poesia, poesia é Verso...

Recebi da minha sobrinha o convite para almoçarmos no último domingo. Por entrada, Bruschetta de pepperoni e mozarela, seguida de macarronada ao molho sugo. Precisava de algo para combinar com isso, e nem foi difícil - embora a sorte tenha ajudado. Ora bolas, queria levar algo legal, e um exemplar eu sabia de antemão ter potencial para a elegância: o Chateau Haut Batailley Verso 2018, comprado há nem tanto tempo. Historicamente o Château Batailley foi classificado em 1855 - junto de outras 17 casas - como um Quinto Vinhedo. Comprado pela família Borie em 1932, foi posteriormente dividido em Batailley e Haut-Batailley. Por alguma brasileirice - o franceses gostam deu uma, e as estórias sobre os Cru Bourgeois estão aí - ambos permaneceram com o status de Grand Cru Classé. Uma coisa eu não sabia: o  La Tour L'Aspic era seu segundo vinho, homônimo da torre construída no Chateau Haut-Batailley em 1875. Ele simplesmente cedeu lugar ao Verso, que eu acreditava ser o terceiro vinho da casa. Fraquejo onde (e quando) dá; na hora da verdade podem ficar tranquilos que não farei como a franchona que vota da forma contrária a seu discurso e depois vem com repugnante desculpa de ter se enganado... duas vezes! 

   Ficarei com as palavras da Manu na avaliação do vinho: "morango, blueberry e caramelo provendo um toque de fundo". Sim, tinha riqueza de fruta no nariz, com mais alguma nota - o caramelo sugerido? não consegui identificar. Boca beneficiada por boa acidez e taninos médios, combinando bem com o pepperoni em rodelas e com ele na Bruschetta, e não fez feio com o queijo também. Ficou melhor com a macarronada com frango ao sugo, pois tem corpo médio e penaria um pouco para escoltar um bifão pegado como uma picanha. Não, bifão não é para Verso. Mas mostrou boa permanência em boca, e gostei desse detalhe. O mais curioso aconteceu quando perguntei para a Manu sobre as uvas. Ela estava só e desamparada: os últimos vinhos que bebemos foram português, espanhol, italiano... cafungou, pensou um pouco e sugeriu ter Merlot(!), comentando da delicadeza da cepa. É isso mesmo! O corte é Cabernet (majoritário) e Merlot. Já comentei sobre a expressão das uvas de acordo com o lugar; as uvas bordalesas, em Bordeaux, exibem toques delicados a ponto de bebedores primeiro-mundistas de vinhos não reconhecê-las. Para orgulho do tio (rs), a Manu saiu-se muito bem ao identificar uma delas. Como escrevi há pouco, o vinho pelo vinho em sua expressão acabada! 

   Paguei R$ 280,00, há algum tempo. Um ano? Compra conjunta, fiquei só um um garrafa, e lamento... Por aí está de R$ 570,00 por R$ 380,00 na safra 2020. Seu preço lá fora (safra '18) é de cerca de USD 30,00, algo como R$ 180,00. O preço sem desconto dá 3.1x: tubaronice pura. Na 'promo' dá 2.11x, o limite do limite.




   Não é um vinho cujo custo aqui esteja 6x como propôs o título da postagem. Toca o articulista se desdobrar... tomemos o La Dame de Montrose, segundo vinho do Chateau Montrose, um Segundo Vinhedo da classificação de 1855. Não é difícil encontrá-lo lá fora a USD 35,00, R$ 264,00 calculando um dóla a R$ 6,00 (está R$ 5,00). 


   Por aqui não é difícil (sic) encontrá-lo entre R$ 1.035,00 e R$ 950,00, o que dá 3.92x e 3.59x. Certo, ainda não é 6x... Bom, escolha pagar mórbidos R$ 1.998,00... isso dá 7.57x, até acima do 6x da canção... O leitor pode interpelar-me: Mas no Elite sai por R$ 999,00! Bom... você precisa pagar uma joia de R$ 1.425,00 para então poder usufruir (sic) de uma margem de 4x nas demais compras. Nem se comprar um Bolsonéscio (pai ou filho) pelo preço que ele vale e vendê-lo pelo valor que ele acredita valer dá pra fazer um negócio tão bom (para quem vende, claro...). Bom, errei na proporção, deu 7 x 1. A partir da próxima semana, sábados e domingos cancelados; passemos a trabalhar todos os dias sem descanso. Só assim conseguiremos gerar dinheiro para pagar os impostos da carga tributária que se avoluma ano após ano. Chega! Só idiotas completos e acabados não percebem a urgência na mudança de curso. Para esses - idiotas mesmo - recomendo beberem cachaça. É o que poderá anestesiar suas mentes entorpecidas por anos e anos acreditando em mentiras se questioná-las.

   Como se precisasse...







Saturday, April 11, 2026

Quatro vinhos e as Quatro Liberdades de FDR

Introito

A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir 
para separar as pessoas boas das ruins.
Oenochato

O Discurso sobre o Estado da União é na verdade um relatório, exposto anualmente, normalmente entre janeiro e fevereiro, pelo Presidente norte-americano a seu Congresso. Ele comenta as condições do país, apresenta sua proposta legislativa para o mandato em curso e enuncia prioridades nacionais. Exemplo de organização; não nos faria mal copiar. Corria o Ano Santo da Misericórdia de Nosso Senhor de 1941. O Lend-Lease Act só seria assinado em 11 de março, mas em 6 de janeiro, antevendo o recrudescimento da guerra e já tendo adiantado que a América seria o arsenal da democracia, F.D. Roosevelt expunha suas ditas Quatro Liberdades: liberdade de expressão, de religião, de viver sem necessidades e de viver sem medo. Desde há muito vemos humoristas sendo condenados em tribunais justamente por exercer a primeira das liberdades; já escrevi a respeito. Amigos juristas temem que eu sofra algum processo por diversas opiniões publicadas neste espaço. Na falta da primeira liberdade, pessoas que bem me querem são oprimidas pela ausência da quarta autonomia, viver sem medo. Concordo: a liberdade de religião segue relativamente intocada - os evangélicos sempre na berlinda, na opinião dos espertos -, mas a liberdade de viver sem penúria não tem se concretizado, a despeito de quase 20 anos de NAP e sua turma no comando da nação. A liberdade de expressão vem sendo solapada pelo STF quando o bloqueio de contas em redes sociais (dentre outras ações) intimida e restringe o debate público. Alega-se respaldo legal para tais atitudes, ou pelo menos essa foi a interpretação dada pelos próprios Juízes a alguma lei. Não importa. Ao valer-se dessa prerrogativa, por mais legal, nosso Supremo parece ter subvertido de uma tacada só todo o pensamento ocidental sobre igualdade entre os poderes - a base da democracia - pois aparentemente legislou sem ter poderes para tanto. Imagine se alguém aparece das massas dizendo ser necessário impixar todos eles, de uma só vez, com direito a cadeia depois do devido processo. A justificativa está dada acima; carecemos da personagem. Ela falta, mesmo? Em nossa atual Câmara e Senado (embora a responsabilidade seja do último) encontraremos tal bravura? Nem debaixo da cama, diriam alguns humoristas - sob risco de prisão. Não sinto vivermos, nós brasileiros, em uma democracia. No dia em que puder ouvir de um cidadão, em alto e bom som, sem ele sentir medo de processo ou repressão, que na casa dele não entra preto fedido, viado almiscarado nem judeu (ou árabe) cafajeste, então sim, sentirei o sujeito soberano em meus direitos. É muito mais fácil para todos quando as pessoas pronunciam-se sem filtros, e não se trata de validar o ódio, mas de trazê-lo à desinfetante e pungente luz reveladora dos preconceitos de cada um. A peneira, pois, estará na ação; uma pessoa que invocasse qualquer um dos enunciados acima jamais entraria na minha casa, e muito menos gozaria da minha amizade. É claro, injúrias devem ser tratadas na esfera penal; aumentar a pena pode trazer melhor punição aos tagarelas em tempos de redes sociais de amplo alcance e repercussão. A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir para separar as pessoas boas das ruins. Já passou o tempo de restaurarmos as Quatro Liberdades das quais um dia gozamos. Alguns uma vez no comando invocariam ser necessário montar um cadafalso. Não concordo. Mas não moveria um dedo contra, com medo de ser preso. Poderes arbitrários acabam nos transformando em pessoas cautelosas...

Quatro vinhos

   O tempo passou, a pedra no rim a atacar-me o corpo e o espírito com a força e vigor de um anão da Terra-Média parou na tecnologia de um laser e, dentre outros problemas, o blog anda devagar. Faz parte da vida, cujas vicissitudes vão-nos minando mais ou menos, conforme permitimos. Preciso revoltar-me contra isso...

Há algum tempo queria passar uma lição na Paduca. Digo, aportar-lhes sem prévia dois vinhos para tirar-lhes o chão, balançar-lhes a percepção, apresentando-lhes outra visão, abordagem e direção dentro da trilha que vêm galgando desde nossos primeiros encontros. Servi-lhes o primeiro, e notei os cenhos franzidos. Sua qualidade foi imediatamente celebrada, e suas notas devidamente identificadas: muita fruta na frente, com mais toques de tabaco ou chocolate, e medicinal segundo algum Paduquento; bom corpo (médio), acidez agradável e ótimo 'conjunto'. Adiciono final elegante e permanência, dignos de um vinho admirável no auge. Alguém chutou italiano, mas foi isso, um chute. Não deixou de ter razão. Para minha completa satisfação sobram-me os últimos exemplares de Korem 2015 para compartilhar aqui e ali. Faltarão garrafas... 😔. Da segunda botelha, os elogios vieram logo na prova do buquê: igualmente rico, frutado em primeiro plano com toque herbáceo no fundo. Boca equilibrada, também de corpo médio, acidez presente, equilibrada, boa persistência... os rapazes se entusiasmaram com o Fonterutoli Chianti Classico 2019, mesmo sem perceber o serviço correndo livre três horas antes do início da reunião. Da minha parte percebia Korem tocando o terror pra cima de Fonterutoli enquanto os confrades dividiam-se nas opiniões. Foi divertido observá-los batendo cabeça com o a sugestão de "O Carlão não colocaria dois italianos de uma vez", opinando um ou outro terem tal procedência. Sempre digo, e repito: O vinho pelo vinho! Não pense em quem serve, não mire a garrafa, não procure a rolha, olhe para a bebida! Acidez e açúcar, principalmente; esta última aporta dicas importantes, quase sempre: um melaço, à cana de açúcar? Sul do Rhone, quiçá. O dulçor mais discreto, sutil, marcado? - e o leitor não pode confundir com o açucarado de porcarias sul-americanas fedendo à goiaba -, quem sabe, Alentejo. Um tipo muito específico de cereja (é preciso aprender a reconhecer)? Toscana. Não conheço muito além disso, mas oras, estão aí os pontos para leitores de melhor nariz começarem a se tocar e aprender; sigam em frente, desvendem, divirtam-se! 


   O valor de Korem já foi discutido exaustivamente, e a reflexão mais importante está aqui. Como atualização, a safra 2019 esgotou na Enoeventos a mórbidos R$ 479,00, muito distante do R$ 245,65 pagos anteriormente - confira no vínculo! - mostrando a recente inclinação à tubaronice da importadora. Mas se olhar com atenção tem alguns espanhóis antigos a preço razoável - desconto, encerrado, desde a última vez que olhei. Note: razoável, não mais. Ponto bom: prontos pra beber. Dica: o nome do produtor começa com "B". Voltando: Fonterutoli não apresenta-se em melhor situação. Trazido pela Grand Cru e pela TodoVinho, que se não me engano é o braço internético (sic) da Casa Flora, está na casa de R$ 300,00, para 20 dólas lá fora. Algo como 2.5x, acima do aceitável; existem compras melhores, não direi de Chiantis, mas de vinho. Lembrando o ditado, quem não tem cão, caça com faisão. Esse exemplar foi-me trazido do Paraguai por um amigo que nem bebe, mas passava uma semana no sul e tinha cota de frixópi sobrando. Valeu, Edu Amaral!

Para rebater a uruca considerei um banho de descarrego com sal grosso e ervas aromatizadas, mas desisti; sal grosso, só na picanha. Pensei no uso de um defumador de incenso e mirra - pela ação cicatrizante da última -, mas bem... já tinha sarado e talvez não valesse a pena gastar tiro à toa. Ainda matutei valer-me de cristais de turmalina negra cuja proteção contra mau-olhado, chifre (como se me preocupasse) e vibrações negativas é amplamente reconhecida até pela Ciência, mas ora... estou imune a chifre, portanto descartei também. Só restou uma saída, e com a Liu responsável pela comida, convoquei a Luciana a comparecer com um borgoinha. Para uma autêntica purificação, só um borgonhão dos nervosos... então não hesitei em dar uma aliviada na minha Prateleira Celestial, que agora reclama a devida reposição. Virá (espero...). Rully é uma comuna de Côte Chalonnaise, por sua vez localizada ao sul de  Côte d'Or, nos informa a Wikipedia. Não conta com nenhum vinhedo Grand Cru, mas abriga 23 Premier Cru para alegria e satisfação de muitos e para oposta inveja e humilhação de outros. A Maison Jaffelin é considerada por alguns como a menor das grandes casas da Borgonha, reputação calcada em produção artesanal de ótima relação custo-benefício. Primariamente um négociant, consegue uvas de vinhedos Grand Cru de prestígio e possui alguns vinhedos Premier Cru. É presentada pela Chez France, importador que infelizmente, de um momento para outro, e sem maiores (rs), virou uma tubarona: duplicou os preços de maneira geral, e fica o tempo todo promovendo ofertas com 50% de desconto. Tenho muitas notas fiscais de compras passadas para comprovar isso. E, para completa tristeza, as 'promos' de hoje estão aquém dos descontos de 20% de antigamente. Tecnicamente parece ser Rouge, mas também um AoC. Para mim, Rouge seria um vinho composto por uvas de qualquer lugar da Borgonha, enquanto um AoC seria confeccionado a partir de uvas com localização demarcada: Rully, por exemplo. Preciso consultar as fontes... 😠 Por onde andará Don Flavitxo? Bem, Jaffelin Rully 2020 chegou com fruta elegante e bem marcada na frente e mais notas em segundo plano para bons narizes - não lembro se as meninas apontaram algo. Como se espera de um bom Borgonha, sua acidez firme e elegante - mesmo para um AoC - estava bem presente e conferia-lhe um toque alegre, fácil de desfrutar para um admirador da região. O problema é que para competir com ele levei um Dugat-Py Gevrey-Chambertin Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009. Seria claramente uma competição desonesta - mas nem era uma disputa; lembre-se, era um descarrego! - colocar um produtor considerado de primeira linha representado por um dos melhores vinhedos da Borgonha contra qualquer outro artesão que não igualmente favorecido. Repito: não era uma peleja do diabo com o dono do céu (rs); antes, um momento de descontração em que a evolução em espiral de nossa bebida predileta apenas coroou um encontro de  conversas, risadas e instantes de contemplação quase bacântica diante do mais puro estado da arte enoica. Voltando: havia lido sobre uma combinação notável para esse vinho, um boeuf bourguignon. Nem gastei muito tempo, joguei a sugestão para as meninas sem perceber ser esssa uma receita trabalhosa. Para completa sorte, a Liu abraçou a ideia e começou os primeiros preparos no mesmo dia - é demorada! Não deixei por menos: abri a garrafa às 10:00 daquela noite. O que dizer de um vinho de primeira, devidamente aerado, com uma comida apropriada? É a prescrição perfeita para a felicidade em seu estado mais puro, o bem-viver exponenciado e a alegria da vida expressa nos passos saltitantes do fauno em nossos sonhos mais delirantes. E sim, como ele estava rico! Frutas! Frutas delicadas em meio a um oceano tânico elegante e majestosamente casado com excelente acidez. Pouco de aspectos terciários, indicando bom tempo de guarda à frente, e ainda assim redondo em boca, madeira presente mas discreta e belíssima persistência. Ah, Borgonha, por isso te amo tanto! 😍 Beba dessa safra agora ou nos próximos 10 anos. Esse vinho nem é um Premier Cru - embora digam por aí que está em nível similar aos melhores de Gevrey-Chambertin - e é caro, algo como USD 200,00, atualmente, lá fora. Mas é o preço a se pagar por um bom Borgonha (foi menos, há muito tempo).  O bebedor pode escolher um vinho desses e pensar em faunos, felicidade, sétimo céu, ápice do êxtase ou procurar a fada azul imersa no Absinto de USD 15,00... sem qualquer demérito à bebida. Como ainda estou na fase mais delicada da vida, prefiro abrir a carteira, sobreviver a alguns hot-dogs durante a semana e então provar um desses no sábado... Seu preço por aqui está superior a 2.5x (R$ 3.100,00), na importadora 'oficial', a Mistral. Mas a safra é a 2019. Pela estrutura, principalmente taninos, não acho adequada para degustação imediata; certos vinhos precisam de aging... aquele processo contínuo e natural de progressão que nenhuma taça superpoderosa poderá proporcionar. Mesmo satisfeita, a Luciana saiu feliz mas jurando vingança (risos!). A estas alturas já foi e voltou da África do Sul com diversos generais na mala, à procura de uma desforra. Que venha...

Minha sobrinha Manuele (rs - prima em segundo grau) chega em S. Carlos para um doutorado em computação. Primeira na prova de mestrado, estimulada pelo orientador prestou o exame para "doutorado direto" e... passou em primeiro lugar, para orgulho do tio. Conto isso de pescoço empinado porque ela é outra adoradora de Baco que agrega-se à veneração dessa deidade neste último ponto do trem do velho-oeste da região central do estado povoado por bocas-tortas cultivadas há décadas à custa de sommerdiers locais especializados nas mais profundas, tortuosas e dementes técnicas de empurrar chinelos chilenos, argentinos, uruguaios e nacionais para as gargantas de idiotas abastados crentes na força da produção local. Já escrevi: tenho um dever moral de beneficiar a sociedade cujos impostos financiaram minha educação no terceiro grau, e venho por meio desse pacto não juramentado cumprir minha obrigação de alertar essa mesma sociedade acerca do engodo à qual está submetida: compare europeus básicos com sul-americanos de alta gama (sic), principalmente esses de R$ 200,00 por R$ 99,00, sanfonada que mal traz o produto a seu valor razoável, com boas compras de europeus. Campoalto Chianti Classico Riserva, da Tenuta Casuccio Tarletti, é um exemplo. Paguei R$ 110,00 numa 'promo' - a safra ficou no contrarrótulo - e ele bate sul-americanos de R$ 150,00 já com o devido desconto. A força (rs) do italianinho está calcada nos bons taninos da Sangiovese e na estrutura razoável (na média de USD 15,00), com toques frutados característicos de vinhos mais novos, apresentando relação custo-benefício eficiente. Faltou sim um pouco de acidez, mas nesse valor, para um vinho de dia a dia, é muito satisfatório pelo conjunto. É claro que comparado a outros Riservas de melhores produtores com vinhedos de maior qualidade ele passa vergonha, mas nesses casos o custo também é outro. Encontrando por cento e pouco, compre e beba. Está pronto.

Falei 4 vinhos no título, mas citei cinco. Ora, assim como aos Três Mosqueteiros juntou-se D'Artagnan, por qual motivo o leitor haveria de reclamar? Na Era de Informação, saber nunca é demais.

Friday, January 2, 2026

Paduquices de aniversário e desejos de um feliz ano novo

Introito

Poucas vezes a ignorância é uma dádiva. 
Na maioria delas, é fonte da suprema vergonha.
Oenochato

   Esquerdopatas continuam a ruminar injúrias contra bolsonéscio - houve um breve momento quando pararam a comemorar sua merecida prisão (se legal, trata-se de juízo que não é comigo). Diretopatas queixam-se do STF, das manobras do governo na Câmara e Senado (onde ele não é maioria) e tentam trazer o provo às ruas, com resultados sempre pífios. Menos em seu ideário, funcionando a serviço de devaneios flagrantes: - Apenas mais 72 horas, patriotas! Ao fim e ao cabo são duas turbas ignaras lutando entre si e em um obsceno todos contra todos, onde quem perde são as classes média e abaixo - uns 80% da população. Com seu QI de galinha cada lado limpa-se na sujeira do outro, crendo piamente em memes metodicamente planejados para confundir cada vez mais seus cérebros já injetados por narcose ideológica prolongada e onde o pensamento crítico foi substituído por reflexos pavlovianos de indignação seletiva. Todos têm suas certezas e ninguém se envergonha. Mas deixam passar despercebidos como seus governantes foram os piores da estória desse país.

Outra no aniversário

A Paduca reuniu-se em meu níver enxertada por Don Flavitxo. Para meu desespero só encontrei a garrafa do branco, o Fósil Chardonnay 2017 da Zuccardi, ofertado pelo visitante e servido às cegas. Tive uma clara estranheza ao provar dele: a mineralidade advinda de solos de calcário de San Pablo estava muito óbvia, mas não se encaixava no meu precário rol de brancos conhecidos. Tinha boa acidez e persistência - não lembro-me bem das notas além de algum cítrico óbvio para esse tipo de vinho. Não era aquela mineralidade chablisiesca como dizem alguns, mas era interessante. Aportou boa expressão, enchendo a boca e promovendo experiência singular para a confraria - principalmente para os colegas noviços nessa seara. O problema - como sempre - fica por conta do preço. Tem sítio argentino enfiando (sic) o valor em dóla 😣 - 92,00 - enquanto outros cobram 95.000 Pesos - R$ 560,00. Não procurei com muito afinco - e pouco conheço, também - mas por valor similar (USD 99,00) compra-se um Comtes Lafon Les Duresses da excelente safra de 2020. Um Premier Cru de quem é considerado apenas um dos melhores produtores de brancos do mundo. Provei um Villages dele, que é simples, e achei muito bom. Fósil mal competiria com ele (não no quesito mineralidade, onde ganharia, mas essa é apenas uma das características de um vinho, e ter mais não significa ser melhor), imagine disputar com outro um degrau acima. Certo, a comparação entre um vinho chablisiesco contra um Borgonha da gema (sic) pode parecer desproporcional, mas estamos falando de preço! Porque, preço por preço, por 70 dólas (na média) dá pra pegar um La Chablisienne Grand Cru Les Preuses, e não dá pra Fósil não... Quer dizer (sic): a 90 dólas ele está cercado de um lado por Borgonhas Premier Cru, e por outro de Chablis Grand Cru. Acho ótimo quando tolos preferem o primeiro aos demais; é como bolsonéscios e lulaslelés imersos em sua imbecilidade mais profunda escolhendo tão errado quanto a burrice permite. Vibro, porque sobra um pouco dos últimos para mim... Aqui Fósil está entre milão (sic) e R$ 1.360,00, se não for 'confrade', ou R$ 850,00 e R$ 1.150,00 se for cidadão de primeira categoria, digo, membro de clube (rs). O preço-confrade está próximo a 2x, o que indicaria uma boa compra. Indicaria... se não fosse uma montanha de dinheiro por um vinho que seguramente não se aproxima dos citados.

   Quanto aos tintos, foi tudo planejado. Até o convite a Don Flavitxo foi motivado a uma brincadeira de muito tempo atrás. Vinhos às cegas, paduquentos batendo cabeça, Flavitxo nadando de braçada. Ele identificou bem a procedência (Ribeira del Duero) do Pagos de Capellanes Joven 2019 - já degustado pelos confrades - e vibrou logo ao cafungar a primeira taça do El Nogal 2015: tinha a elegância discreta dos grandes vinhos quando estes não querem ser espalhafatosos. Notem: são ambos vinhos do mesmo produtor. O Joven é o mais simples e El Nogal está na linha ícone, composta, em ordem crescente, pelo próprio, pelo Doroteo e finalmente pelo El Picón. Ambos são Tempranillo, e enquanto o primeiro apresentou-se mais direto na fruta, alegre, boa pegada, acidez bem presente, o segundo expressava notas delicadas em espectro muito mais largo, indo da fruta ao herbáceo, com muitos toques entre um e outro ponto. Tem ótima boca, vibrante, adorável, também com muita fruta, especiaria, chocolate/fumo (qual?) e uma mistura que confundiu a percepção deste enólatra. Ótimo final de boca e persistência, com madeira e álcool integrados à boa acidez, e não precisa de mais (rs). Pagos de Capellanes tem representação repartida entre Grand Cru e Enoeventos. A segunda tem de momento apenas o Joven, de R$ 319,00 por R$ 217,55/R$ 229,00 (Enoclube/Cidadãos de segunda categoria - rs). Na primeira, R$ 280,42/R$ 329,90 (Confrade/Cidadãos de segunda). Encontra-se na Espanha por cerca de 15,00€ (R$ 96,00, sem contar IOF), então está mais de 2x em Enoeventos e 3x em Grand Cru. Quem comprou quando o preço era menor, comprou. Quem não comprou (sugestão), procure outro.

   A última garrafa, também às cegas, causou furor e justificou plenamente meu brinde: Meus caros confrades, conheçam a opulência e regozijem-se com ela! Novamente Flavitxo não teve dificuldade em notar o Riojano, enquanto os Paduquentos perdiam-se em considerações diversas. Já havia provado um Remirez de Ganuza Reserva da excelente safra 1998, e o degustado, da grandiosa safra 2005 também estava rico e em nível superior ao Nogal: avalanche de frutas para atordoar, madeira, pimenta e mais complexidade - fumo, e não só. Demonstra seu comprimento em boca: largo, profundo, aquela persistência que depois de engolir e salivar notamos como ele continua lá. Acidez média a alta, taninos pegados mas já devidamente arredondados, sem saliências: sofisticação aliada à personalidade. Na hora de comentar sobre ele para os confrades Duílio e Paulão, cometi um excesso: classifiquei como um dos 5 melhores da Espanha. Nem conheço tanto os ícones espanhóis para poder sugerir isso, e foi mesmo um ato falho. Remirez de Ganuza pode estar entre os 5% grandes produtores da Espanha, mas colocar seu Reserva entre os 5 vinhos excepcionais da Espanha não é são. De qualquer maneira teve bão, e agradeço aos confrades pela presença.

Passagem de ano

Passei a virada com meu fiel escudeiro, o Lemão. Sempre amedrontado pelos fogos - foram mínimos este ano, graças à chuva - nossos cães sofrem com a atitude pouco inteligente de alguns queimando dinheiro para fazer barulho. Bem... compramos os vinhos que compramos - procedência (sul americanos) e preço -; votamos em quem votamos e seguimos nas redes quem seguimos. Está explicado. E reputo não haver solidão quando se tem um ótimo vinho por parceiro de mesa, pois cada gole preenche o espaço que o momento esvaziou de companhias e conduz o espírito a um diálogo alegre e contemplativo consigo  mesmo. É quando a máxima de o vinho pelo vinho adquire seu significado mais profundo e arrebatador. De qualquer maneira fica meu agradecimento pelos mais de 10 convites para cear, vindos de confrades de todos os cantos da cidade e a Tia Ana chamando-me carinhosamente para sua mesa. Depois de tudo isso só faltava abrir um Concha y Toro Reservado e um espumante nacional para celebrar o momento. Qual! Ferrari Maximum Blanc de Blancs é um espumante italiano da região de Trentino-Alto Adige, produzido com Chardonnay que expressa toques cítricos misturados com frutas brancas e um discreto fermento/pão. O corpo um 'médio+' faz a entrada de boca agradável, enchendo o paladar com bolhas delicadas, discretas, aportando fruta branca e cítrica, boa acidez e final longo. Não sou especialista em espumantes, mas não apostaria um centavo em qualquer exemplar nacional contra ele. O melhor já degustado por mim é o Casa Valduga 130. Se fosse uma disputa de 100 metros rasos, chegaria 130 metros atrás. 

Algumas Malucas apareceram um pouco depois da meia noite, vindas de um jantar - o Mário entre elas. Mas ele e Débora não entraram, apenas a Liu, que flagrou-me na foto ao lado enquanto apreciávamos um  Barolo do Domenico Clerico, o Ciabot Mentin Ginestra 2001. Ginestra é uma  MGA, Menzione Geografica Aggiuntiva, coisa mais ou menos recente no Piemonte - o Consórcio de Barolo classifou 181 áreas como MGA em 2010. E o produtor pertence ao grupo de jovens (nos anos 80) que ficou conhecido como Barolo Boys - veja o filme - modernos produtores que causaram uma reviravolta de costumes na região. A questão é muito polêmica (o filme comenta e explica), e não entrarei nesse mérito. Termino a postagem hoje, dia 2, por falta de internet ontem. Aberto no dia 31, ele continua grandioso, talvez seja seu melhor momento. Esbanja fruta, couro, fumo e um herbáceo agradável. Em boca leva à prisão da alma num daqueles cumes dignos da melhor paisagem de cinema, com taninos já domados, redondos, elegantes... fruta vermelha, sem dúvida, mas talvez não apenas ela; mentol, que me dá a impressão de tridimensionalidade, aquele vinho que enche a boca e dá a sensação de que podemos mastigá-lo; madeira, acidez vibrante, enfim, a estrutura quase perfeita cuja nota 10 não se personifica apenas porque não ouvi música celestial escapando de dentro da taça. Relativamente muito pouco sedimento, uma surpresa para uma garrafa dessa idade. Se meu Natal não foi tão gratificante com o Pavie Decesse, o ano novo extrapolou com Domenico Clerico Ciabot Mentin Ginestra. Por comentário final, é a segunda garrafa degustada. A primeira (não postada) aconteceu quando o blog andava parado, talvez por 2018, algo assim. Mesmo com 17 anos, os taninos estavam verdes, e o conjunto completamente fechado. Barolinhos você talvez possa beber com 10 anos. Já Barolões, abri-los antes de 20 anos é um completo desperdício.

Um feliz 2026 para os leitores que acompanham os altos e baixos do blog, muitos vinhos e muitos momentos felizes! Até a próxima!

Thursday, December 25, 2025

Uma postagem de Natal

Introito

Até a rolha cheira a chocolate...
Oenochato, sobre o Pavie Decesse '09

Papai Noel existe! E tenho a prova: chego na adega e encontro um pacote em cima da mesa:


fiquei imaginando o que seria... um par de havaianas? Não importa! Abrirei no horário apropriado... agora! (sim, começo a postagem às 23:5X). Ara, um vinho... até com identificação do importador no pacote... já não se fazem mais Papais Noéis como antigamente...


...aliás, o assunto vem bem a contento... descobri que esse safado do Noel anda economizando... e bem! Filhodaputinha... encontra ofertas melhor do que eu... não sabia dessas, veja,


   É isso mesmo? Milão por um Pintia, um Tondônia Reserva e uma Xampa? Vejam, um Pintia - só ele! - custa R$ 1.561,94 na Mistral, importadora 'oficial' da marca. Querem eu eu mostre o selo do contrarrótulo ou só a logomarca na caixa está bom? E chamei o Papai Noel de filhadaputinha? Bom, cadê agora os filhadaputões que defendem essas importadoras tentando justificar os preços praticados por elas como 'custo de transporte do vinho para restaurantes associados'(!), dentre outras conversas-moles? Falei 'essas importadoras'? Você acha que é uma atividade solitária? (sic!)



Veja esta, 


Vinha Ardanza Reserva por uns R$ 350,00, acho - não lembro exatamente. Por aí está de R$ 900,00 por R$ 800,00, embora alguns lojistas que se acreditam espertos vendam de R$ 700,00 por R$ 530,00. Mal sabem que a importadora os passa para trás, vendendo na internet a um valor que eles talvez não consigam sequer pagar! (os cerca de R$ 350,00) Leitor, nunca na história deste blog (risos!) eu pedi um like, que nem existe nesta plataforma, mas é imperioso: faça essa informação circular, envie a postagem para quem você conhece e gosta de apreciar um bom vinho. As pessoas precisam ser alertadas desse estupro perpetrado por dinheiristas de araque suportados por vigaristas pseudo-avaliadores que induzem o consumidor a compras de valores superestimados vendendo-se - olhe lá - por umas poucas garrafas de brinde em troco de suas teclas indulgentes, alugadas a preço vil e mais afeitas à conveniência do que à verdade. Veja aqui os preços do Ardanza na praça:



Divaguei... apresento o valor do Pintia no sítio da Mistral:


   Não para por aí. O Tondônia Reserva, só ele, custa na mesma Mistral a bagatela de R$ 850,00. 


   Ambos, conta de padeiro - com o lápis atrás da orelha - somam R$ 2.400,00. Traduzindo: por menos da metade do preço da vitrine ainda leva-se grátis uma Xampa para enfiar no meio da ideia quando nada tiver o que fazer... não é bacana? Não trata-se apenas de um acinte contra o consumidor. O é também contra o lojista: ele seguramente não paga valores tão baixos pelos produtos se pretender tê-los em sua loja! O lojista é constantemente apunhalado pelo importador, quando a relação na verdade deveria ser uma comunhão, uma união de forças para fazer chegar ao consumidor um produto de qualidade a um valor honesto. Como vemos, não é o que acontece. 

   Quanto custa um Ardanza lá fora? Como vemos, na média, uns 40 dólas. Dá uns R$ 240,00.

   É média. Procurando melhor, encontramos por até 32 dólas nos EUA, com transporte transoceânico e o escambau.


   Os 40 dólas, R$ 240,00 lá fora, contra os cerca de 350,00 pagos pelo vinho aqui, são apenas um valor inferior a 2x - o qual concordo em pagar - adequado para uma mercadoria no Brasil tendo em vista a carga tributária. Valores como R$ 900,00 são apenas o 4x da face mais tubaronesca de algumas importadoras, como este espaço constantemente tem apontado. Consumidor, não apoie iniciativas corrosivas de seu próprio bolso. O cidadão não se entrega a tais achaques. Ele procura um preço honesto ou, no limite, escolhe outro produto. Quem sai no prejuízo? O lojista, que muitas vezes entra no negócio de boa fé sem fazer o dever de casa e acaba sendo parça na patifaria, sobrando com o mico nas mãos enquanto os consumidores mais ligados evitarão comprar dele. Não consigo ver um ciclo virtuoso nisso; é um circuito corroído pelo vício e pela insensatez.

   Sobretudo, não se enfie na internet procurando somente por preço. Já observei sites com ofertas maravilhosas mas andam pendurados em denúncias no Reclame Aqui e outros. Cautela! Principalmente - acabei percebendo - esses sites têm todos o mesmo design! Ou seja: é possível que alguma quadrilha esteja montando sites com ótimas 'ofertas' sem a pretensão de entregar a mercadoria de fato. Cuidado, muito cuidado. Espero conseguir fazer uma matéria sobre isso.

   Notícia complementar vem do Jairo, proprietário do ShotCafé: 


   A matéria cita "um cenário macroeconômico pouco convidativo" em 2024 - como se fosse novidade - obrigando a empresa Wine a uma reestruturação. As importadoras desovando vinhos na internet encontraram outra maneira de reestruturar o caixa, nada mais. E se reparar, são vinhos que não entram em promoções tido Black Friday e outras. Quando presto atenção em tais promoções destinadas ao grande público fico com a impressão de - não sempre, mas muitas vezes - tratarem-se de opções já a perigo, no limite da data para consumo. Quem vai domesticar esse mercado predatório não é outro senão o consumidor. Invoco um ditado chinês já citado nestas páginas:
Paciência é sentar-se à beira do rio
e aguardar o corpo do seu inimigo passar boiando.

   Sítios onde o leitor pode procurar no Reclame Aqui e encontrar poucas reclamações sem solução definitiva são Vingardevalise, VinhoBR e Casa da Bebida. Compro deles com alguma  regularidade. Às vezes acontecem atrasos, mas nunca tomei uma tunga. Na Vingarde, certa vez, a título de desculpas por um atraso excessivo, o sr. Bruno até enviou-me um ótimo azeite do Noval - para mim significa o cliente levado a sério. Dica: veja se tem lá o Quinta no Noval Syrah. Compare o preço lá com o de Portugal. Claro, previna-se: consulte as iniciativas de defesa ao consumidor sempre que for comprar em qualquer lugar.

Uma postagem de Natal

Comecei a noite de 24 com um Mâcon Villages 2022 do Drouhin. Vem de bom produtor, prevalecendo notas de frutas cítricas na entrada e outras brancas, como pera, depois. Mesmo no segundo dia, quando finalizo a postagem, tem boa entrada de boca com leve amargor, acidez quase chegando a média - faltou um pouquinho - e o mesmo toque cítrico do nariz. É fácil de beber, direto, equilibrado, com alguma complexidade para agradar melhores provadores. A dureza é seu preço cheio, R$ 375,00, contra USD 20,00 nos EUA. Dá 3x, como sempre... Paguei pouco mais de R$ 200,00, estava no 2x. Não fosse assim, não compraria. Depois veio uma das joias da coroa (rs): um Château Pavie Decesse 2009, safra lendária de Saint-Emilion. Essa região tem seu sistema próprio de classificação - parece que com revisão a cada 10 anos - e segundo o Stephen Brook na edição revisada da Enciclopédia do Vinho do Hugh Johnson, é onde adota-se a concentração do mosto com mais entusiasmo em toda Bordeaux. De fato, comparando com o Château Montrose e o Château Gloria, com boa presença de Cabernet Sauvignon e uma expressão muito discreta dessa cepa, Pavie Decesse tem uma pequena porcentagem de Cabernet Franc que passa por uma CS bem marcada. Refiro-me àquela picância da Cabernet, mais na ponta da língua para a Sauvignon e no meio dela para a Franc. Em Decesse é claramente meio de boca, e é bem presente, sem tanta sutileza como em outros Bordeaux. Depois vem um desfile de sensações, com menos fruta e mais chocolate/café/fumo, toques herbáceos e especiaria. Quando abri, notei como a própria rolha cheirava à chocolate... A fruta aparece mais em boca, onde repetem-se chocolate meio amargo, principalmente, e especiaria. É um vinho pegado, realmente de boa extração, acidez acima da média e boa permanência. Não tem traço de envelhecimento... vai longe... Estava assim ontem, após aerar umas quatro horas e permanece bom no dia seguinte. Tem ótimo conjunto e é um grande vinho, mas pergunto se é tão melhor do que um Remirez de Ganuza Reserva, do qual provei recentemente - não postei ainda. Certo, aquele era da ótima safra de 2005 e estava efetivamente no ápice, mas mesmo nesse safra pode ser encontrado pela metade do valor do Pavie Decesse. Não, eu não compraria outra garrafa desse, mas repetiria um Remirez de Ganuza Reserva - aquela foi minha segunda garrafa, havia provado uma apaixonante 1998 há algum tempo, ganho de presente da Dona Neusa em uma viagem que ela fez aos EUA e ajudei na seleção dos vinhos que ela trouxe. Poderia citar outros vinhos que preferiria, mas talvez caiba uma reflexão: provavelmente falte bebedor - cheirador, na verdade - para desfrutar de um vinho como Pavie Decesse. Quiçá a experiência de desvendar mais notas em um vinho assim sobrepujasse a opulência do Remirez e fizesse pender a balança. Não sei. Este Enochato, com suas deficiências, fica com o espanholeto. Em safra recente ('18), Pavie Decesse está em 'promo', de R$ 3.200,00 por R$ 1.995,00 - olha a crise aí. É um vinho de USD 120,00 lá fora (safra '18) e USD 240,00 na safra '09. Comprei por um tanto menos, mas então era jovem. Sempre vale provar um bom vinho, conhecer sua expressão e ampliar os limites do conhecido. Vamos à próxima garrafa.

O Mâcon Villages,



O Château Pavie Decesse por aqui...

Wednesday, December 24, 2025

Mais 61.

Introito

   Não tenho certeza do motivo, mas talvez essa postagem vá bem ao som do Falcão. Bolsonéscio foi preso, condenado a 27 anos e três meses. Sem comentários desbotados do tipo "É demais; 27 anos e 27 dias bastariam", porque saiu barato. A falta de prisão perpétua na legislação é (mais) uma prova de como nossa constituição precisa ser reformulada. Dizem 'jogada no lixo'; não sei. Mas se o esforço for o mesmo... Sei sim que escrever uma minuta de golpe em três vias justificaria três condenações à perpétua; se tal cumprimento é impossível, fica como agravo à vileza da atitude. E por aqui sequer temos tipificação para parte de seus crimes. Certas coisas deveriam estar escritas na pedra (aquela que funda uma nação), junto de algumas reflexões, como a do Capistrano: "Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Revogam-se as disposições em contrário". Quem a tem não vota em candidato incompetente. O que dizer de doar-se a ladrão, corrupto condenado ou cujo passado demonstra per se a falta de compromisso para com o país. É clichê, mas vamos lá: a frase centenária nunca esteve tão atual. Para piorar tudo, o recente PL da Dosimetria decreta (se entendi bem): 1. golpe de Estado e 2. abolição violenta do Estado democrático de Direito são crimes cujas penas não devem mais ser somadas. Para mim são questões bem distintas: a patuleia do 8 de janeiro definitivamente não estava lá para abolição violenta. Já escrevi aqui: não portavam armas nem se embarricaram para oferecer resistência; saíram como cordeirinhos - embora acreditando que seu apenas desejado golpe de Estado estivesse dado. Já Bolsonéscio tinha um plano de matar figuras da República - por mais execráveis - e tomar o poder. Não fosse isso (sic), poderia ser condenado penas por golpe de estado. Vê-se sem dificuldade que os atos são muito diferentes e independentes; portando não há motivo para não somar as penas. Em qualquer lugar decente elas seriam multiplicadas, e seria pouco! De onde tiramos a certeza de mais pizza no prato de cada brasileiro de bem. Estou farto dela, no cardápio político, há 30 anos. Precisamos mudar. Pescoço, só na ponta da corda - é o 'castigo' para traição - porque picanha, nenhuma também... então não deixemos o tranqueira desacompanhado...

Outras reuniões


Teve uma onde reuni a confraria #émuitovinho, e programei uma inesperada. Poucas vezes presenciei - além de outro, promovido por mim mesmo - um confronto com tais atores, até óbvios, como proposta de comparação. Nem foto sobrou, o que dizer da lembrança exata de tantas notas, sobrepujadas com força e intensidade pela presença de pessoas tão queridas e luminosas para mim... Mas vá lá (rs), teve lá uma xampa da Veuve Clicquot Brut, com o que se espera de uma xampa: equilíbrio, notas sempre bem-vindas de fermento, pão e cítricas; boca com fruta bem viva, ótima acidez, bolhinhas generosas e delicadas, não aquelas coisas grosseiras que fazem as bochechas se expandirem involuntariamente em um gole descuidado, como acontece com os segundos melhores espumantes do mundo, produzidos por aqui. Ninguém acertou um Brunello di Montalcino 2015 da Donatella Cinelli, que aos 10 anos está pronto para ser degustado. Verdade seja dita, a cereja tão típica não marcava o buquê, mas tinha fruta vermelha abundante e estava aveludado na boca. Lembro da acidez não ter marcado tanto - esperava mais - e os taninos estavam maduros, com corpo médio e permanência não tão longa. Sinceramente, me pergunto se ele vai longe, e acho que não. Alguns anos, sim, sem dúvida, mas não guarde além disso. Ainda, um Rivetto Barolo Serralunga 2011 que causou furor nas taças, principalmente pelo nariz rico - tabaco, couro, frutas maduras - e com boca mais refinada do que o Brunello: acidez mais presente, taninos mais pegados, boa permanência, final mais longo e melhor equilíbrio no geral, apontando para uma longevidade bem maior desse exemplar. As safras '15 na Toscana e '11 no Piemonte foram boas, com alguma vantagem para a primeira; o fato das garrafas degustas evidenciarem a prevalência da segunda deve ser creditado, acredito, um pouco à melhor qualidade do produtor, e em parte do fato de o exemplar proceder de um dos melhores vinhedos de Barolo, Serralunga D'Alba. Quem bebeu, gostou... 😄

   O Brunello está disponível na Enoeventos, em safra 2019, a R$ 899,00. Para os enoamigos (sic), R$ 764,15. Nunca fui muito da política de tratar cidadãos em categorias, tipo primeira e segunda, porque um é amigo do Rei e outro não. Um lojista minimamente inteligente trata melhor - no sentido de oferecer melhores descontos - seus melhores clientes. O que ele deveria preferir, alguém que compra, digamos, R$ 12.000,00 por ano em três ou quatro compras, ou seu fiel aliado do enoclubinho gastando tipo R$ 120,00 por mês? Ora, o lojista realmente inteligente prefere os dois!, e agrada tanto um quanto outro. Deixar de vender uma caixa de vinhos a preço de enoclube para um não-enocluber (sic) é uma tática desastrada compartilhada por diversas importadoras - e deixei de comprar em todas elas. Outra mancada da Enoeventos foi aderir à tubaronice: enquanto o Brunello da Donatella é vendido aqui ao equivalente a 160 dólas, nos EUA chega a custar um terço, sinal evidente de prática predatória. Já o Barolo tem preço variando bastante, por aqui: encontrei entre quase R$ 789,00, na safra '17 (mesmo valor do Barollo, portanto) e até por R$ 549,00 na safra '19 (bem melhor, dizem). Seu valor lá fora começa nos 40,00 dólas, ou algo como R$ 240,00, grosso modo. Seu melhor preço aqui dá um pouco mais de 2x; um pouco mais (de 2x) já não me serve, pois 2x é o máximo que pago por um vinho, mas indica uma margem pelo menos mais humana (sic) para um vinho que, no embate direto, mostrou-se melhor. Em tempos de seres humanos votando em Ali Lulá e Bolsonéscio, isso pode não significar muita coisa para a grande maioria das pessoas. Mas este blog está a serviço dos outros 30% dos seres pensantes, e não tem nenhum compromisso com erro, com a ignorância ou com a dissonância cognitiva.

   Esta postagem foi tocada a boas doses do branquinho nojento do Drouhin Mâcon Villages e tecos de um Pavie Decesse 2009, que vai entrar no gelo enquanto preparo um bifim. Quem estiver ligado e quiser passar para uma taça mais tarde, será bem vindo. Oh... enquanto publico esta postagem e chego ao pé da escada da adega, a campainha toca... tem leitor prá lá de atento ao blog já chegou para uma tacinha!

Feliz Natal!
Oeno





Ah, claro...
Os valores do Brunello




e do Barolo





Finalmente, seu preço lá