Thursday, October 22, 2026

Paduquices pré eleitorais

Introito: a divisão do trabalho das tarefas

Parodio Smith ao mencionar como não tenho problema em dividir tarefas, e os comentários políticos de hoje em parte vêm com meu completo endosso à matéria de Felipe Moura Brasil. Recomendo acompanharem-no; PTlhos e bolsonéscios estão dispensados, pela absoluta idiotia que lhes é peculiar. O vídeo distribui vergonha para ambos os lados, com precisão cirúrgica e fontes verificadas, suficientes para os gados precisarem aprofundar-se ainda mais em suas dissonâncias cognitivas, sendo-lhes algo inato há muito e sem surpresas. Escrevo estas linhas para colegas e amigos em boa parte ex-votantes de NAP ou eleitores nem de um, nem de outro, mas curiosos a ponto de conhecer um Livro Amarelo daqui, um posicionamento de Renan Santos dali, sem o menor compromisso de apoiar meus eventuais indicados - como deve ser! Nestes tempos perigosos, quando ratos saem de seus covis à caça de votos, nenhum lugar está a salvo. Nem o blog... gente sem caráter, escondida no anonimato e crente de incomodar-me, deixa uma sequência de recadinhos na esperança de perturbar-me a paciência. Divertem-me! Soa engraçado um cidadão enviar texto que ele sabe não será publicado. A insistência em gastar tempo entrando em postagens e deixando mensagens de conteúdo vazio de ideias vai ao encontro da concepção acabada de estupidez, no sentido de o caboclo fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Entre uma tarefa profissional e outra, confiro e-mails, vejo as notas, sorrio, paro para um café e volto a trabalhar com disposição renovada. O humor é parte importante do dia-a-dia; rir é viver, e viva o hedonismo epicurista! Houve uma intervenção da época da eleição passada e devidamente publicada aqui. Foi uma nota minimamente inteligente, onde o missivista ardilosamente perguntava qual tipo de vinho eu gostava. Ele sugeria poder ser aquele vinho estrelado, com 13 graus... considerei um desafio elegante, pois falava de vinho. Não precisei gastar muito tutano para retrucar sobre minha preferência: Amarones com 22 graus de potência e finesse. O próprio cidadão reconheceu a verve da resposta. Àquela altura já estava claro que eu não votaria em NAP nem em um candidato incompetente - muito menos em um com viés obscurantista, pouco afeito às regras democráticas e amigo da desinformação, sem contar todo o resto Mas como criticava NAP - e cada gado parece registrar somente as desaprovações a seus amos - o cidadão provavelmente considerara meu voto como bolsonéscio. Foi nulo. Portanto renovo minha opinião para quem, como eu, nascido no plantão de Minerva, precisa de pouco para perceber as coisas. Voto nulo! Não há quem mereça a confiança do cidadão de bem. Discípulos de Coalemos (obrigado, IA!), recuem! 


Na Paduca

Gerindo a adega dessa confra, peguei um Chianti já conhecido e acrescentei um branquinho nojento de entrada. O Deux Roches Saint-Véran 2023 chegou fresco, elegante, com o Paulão citando abacaxi logo de cara. Depois citou-se alguma outra fruta branca... seria pêssego? A acidez estava um pouco mais presente nessa garrafa, foi bem recebida pelos confrades. A certa altura o Duílio mencionou manteiga discreta: manteiga pura, não aquela que pomos no chão e ele na chapa... Sim, manteiga é uma das expressões da Chardonnay, e foi divertido notar a concentração do Paulão procurando-a. É mesmo um vinho simples mas bastante agradável, principalmente para quem começa a trilhar o caminho dos brancos. Alguém acertou a procedência... quem teria sido? 🙄Parece, infelizmente, ter-se esgotado no importador. O Tenuta Casuccio Tarletti Chianti Classico 2022, servido às cegas, quase fedia à cereja (risos!), mas ela passou despercebida pelos confrades. Apontaram algo como café/chocolate - tinha mesmo - terra (herbáceo), mas não cafungaram fruta. Gostaram da acidez, os taninos estavam redondos, o final não é tão longo, mas, para vinhos desse padrão, está na média. Se comprado a R$ 115,00, vale o preço. Por aí encontrei a R$ 180,00, tubaroníssimos 3x... refute. Também às cegas servi-lhes um final de LAN. Surpreendentemente sobreviveu bem em geladeira, ainda mantinha parte do buquê, e seu conjunto agradou, embora sem nenhum destaque em particular. Foi divertido, e o encontro serviu também para... adivinhe... claro!, programar a próxima reunião, uma extraordinária, na semana que vem. Quem vier, beberá...

Sunday, October 18, 2026

Bodegas LAN Crianza

Introito: um debate ingraçadíssimo

Habemus debatum! Os candidatos à presidência protagonizaram mais um grotesco episódio destas eleições, conforme observamos no evento promovido pela rede Bandeirantes. A parte engraçada dos diálogos ficou por conta da pergunta de bolsonéscio (filhote) a Nosso Amado Presidente (NAP) sobre este ter sido o mais votado dentro dos presídios, ouvindo como réplica que, se assim fosse, o próprio Bolsonéscio (pai), seria um dos detentos a votar em NAP contra o filho. Em outro momento, NAP defendeu o sujeito que se comportou bem podendo usufruir da saidinha do presídio no final do ano. Ora, por qual motivo o criminoso não se comportou bem a vida toda, em vez de cometer os crimes pelos quais foi condenado? Depois quer o benefício da saidinha? Bolsonéscio pretendeu ser bonzinho, escutando a população para votar a favor do final da escala 6x1, mesmo contra a avaliação de boa parte dos economistas de seu próprio campo ideológico, que advertem sobre o fracasso da medida. Desconsiderar estudiosos costuma dar ruim. A ver... No mais, promessas claramente eleitoreiras (sic) e desconectadas de quaisquer dados sólidos nos quais o eleitor possa efetivamente abalizar sua decisão. NAP disse que o dinheiro precisa circular, nas mãos dos pequenos e dos médios, mas o manda para os grandes (pagaremos algo como R$ 1,2 trilhão em juros da dívida, este ano!). bolsonéscio disse que sua campanha está propositiva. Nós vimos todas as propostas nos debates dos quais participou (sic) antes do primeiro turno, e em seu plano de governo, não é mesmo? Resumindo: um espetáculo repleto de desvairos, delírios e desatinos, com candidatos atacando-se e tripudiando, no discurso direto e nas entrelinhas, de todo o povo brasileiro. Qualquer um dos lados cantar vitória sobre o adversário significará o triunfo da mediocridade sobre a excelência, da insensatez sobre a lucidez, e do fanatismo sobre a razão. Minha opinião não mudou um milímetro: voto nulo no segundo turno. Nenhum deles merece nossa consideração.

Bodegas LAN

As Bodegas LAN parecem ser um conglomerado dentro de outro conglomerado (sic): parte da portuguesa Sogrape, na Espanha controla vinhedos em Rioja, Ribera del Duero, Rueda e Rías Baixas, produzindo algo como 4 milhões de garrafas por ano (dados da IA do Google). Em Rioja, produz uma linha ascendente de Crianza, Reserva e Gran Reserva com alguns produtos mais simples e outros em linha superior, terminando a escalada com o Culmen. Havia visto no Wine Searcher nos EUA o preço do LAN Crianza partindo de 13 dólas (R$ 66,00), e em uma loja de S. Carlos estava a R$ 170,00; dá 2,6x... Como não comprava lá há algum tempo, resolvi arriscar. Trata-se de um corte 94% Tempranillo, 6% Mazuelo. Abri-o devidamente resfriado um pouco antes do início do debate (20:00), que assisti enquanto jantava um bifim com batatas e o vinho. Escrevendo a partir das 23:00, aeração com pouco mais de 3 horas, portanto. Aroma discreto composto mais por frutas vermelhas, e algo mais, talvez um floral - raramente percebo -, a ser desvendado por narizes melhores. Boca com taninos médios, redondos, um pouco de madeira bem sutil, álcool pegando de leve e acidez indo a média, proporcionando bom frescor. O final é ligeiro e decididamente não figura entre suas qualidades; acaba rapidinho... Achei estranho seu preço, e fui conferir melhor. Outros sítios reportam seu preço a €7,00 (US$ 7,85). Para um vinho de US$ 8,00 está bom, mas para US$ 13,00 está mesmo fora - note que 13 para 8 dá mais de 50%... Por exemplo, o Cedro do Noval me agradaria mais. E por US$ 8,00 seu valor aqui fica verdadeiramente tubaronesco, R$ 40,00+, o que projeta 4x 😕. É por isso que às vezes colocamos um monte de dinheiro e o vinho de certa maneira não agrada... Não sei bem o que prever para os demais vinhos da família, mas no valor de R$ 220,00+... às vezes aparece Marquês de Riscal Reserva por R$ 180,00, e aí não tenho dúvida de que ele leva o Crianza de Lan... quiçá seu Reserva também, mas aí fico com medo de comprar... coisas do vinho...

Thursday, October 15, 2026

Um italiano diferente e um francês comum

Introito

O cidadão de bem torna-se bandido quando associa-se a bandidos.
Máxima d'Oenochato, publicada ad nauseam.

   Recebi uma mensagem algo efusiva do Plínio. Ele talvez não seja adorador de Baco, pois nunca antes assinara uma missiva e o conteúdo da nota era puramente político, um gentil reconhecimento e concordância com as ideias da última postagem. Este espaço, como já dito, não publica comentários sobre tal assunto, mesmo quando me sejam francamente favoráveis. Comecei a abordar o tema cansado tanto da posição bovina quanto da dissonância cognitiva - talvez então ainda não conhecesse o termo - que assolava muitas pessoas próximas a mim, levando-as, sem perceber, a assumir posições absolutamente estúpidas.  O blog continua, portanto, fiel às suas propostas, ainda que as premissas iniciais tenham mudado um pouco com o tempo. Todos evoluímos, não é mesmo? Bem, nem todos...

   Está muito masoquistamente divertido acompanhar PTlhos e bolsonéscios debaterem-se nesta reta final do pleito. Fúlvio bolsonéscio - ou o que seja, o nome é tão importante quanto o do Rodolfo - está à cata do seu voto para tornar-se o passarinho mandão da vez - e viva Cortázar! Estava sendo acusado de rachadinhas em algum episódio nebuloso quando parte dos elementos que embasavam a denúncia foram considerados ilegais pelos Supremos Sinistros (SS) da segunda turma do STF. A fonte é oficial. Como ignaro nessas lides, não consigo desperguntar-me (sic): mesmo ilegais, provas de um ilícito continuam sendo provas, certo? A ilegalidade despermite (sic) o andamento de um processo, mas não revoga fatos pretéritos. Assim parece-me... Depois, segundo agências de respeitada responsabilidade, Fúlvio bolsonéscio contou ao menos 43 mentiras para se afastar do caso Banco Master. Parece que o presidiário Vorcaro deu de patrocinar uma nova versão de Pinóquio. 🙋‍♂️ Tenho uma sugestão para o ator principal! Assim como NAP, Fúlvio promete até cansar. A si e a nós. Teve o episódio - abandonado - dos 70 milhões de celulares. Pensei até em pedir para a Manu algum vestido emprestado para me candidatar a receber um, pois o meu está velho e não consigo trocar. Mas sim, colaboraria para com esse projeto, se ainda estivesse em voga, afinal pago impostos, e de onde o leitor imagina que sairia a verba para tal? Sim, do seu bolso, estúpido. Esse sujeito fugiu de Renan Santos como o diabo da cruz, o vampiro da luz e o hipócrita de Jesus, quando chamado a discutir propostas. Sua fuga foi óbvia; não tinha qualquer propositura séria para contrapor às quase 500 páginas de um tal Livro Amarelo, que em sua versão resumida, apresentada ao STE, continha apenas 51. E nem entrei nos pontos mais polêmicos da extensa capivara do candidato. Estúpidos ainda pensam em votar nele? A esta altura, só posso dizer: vá em frente. Só não me chame para participar disso. Votar nulo não é estar isento. É estar contra Fúlvio e contra NAP.

Reuniãozinha light

A Luciana encontrou uma curiosidade, o Il Poggiarello Gutturnio Frizzante 2023, um espumante italiano tinto(!), produzido na região de Emilia-Romagna, em Gutturnio DOC. É um corte de Barbera com Croatina (nestas bandas, principalmente na Argentina, conhecida como Bonarda) à base de 60%/40%, dizem. Buquê com fruta discreta, até atraente e um pouco mais, mas não consegui identificar. A surpresa ficou no paladar: a Lu achou muito metálico, em excesso. Achei também, embora não tão agressivo. A Liu não viu isso. De qualquer maneira tinha sim algo de amargo, mas não a ponto de incomodar. Um traço do terroir? Três bocas e três vereditos tão distintos? Fiquei intrigado. Verdade seja dita, diminuiu quando a temperatura caiu mais um pouco, mas não explica as diferentes percepções iniciais. É um frisante de corpo leve indo a médio, suportado pela boa acidez, fresco... mas um tanto ligeiro, apesar de tudo. É um produto de 9 Euros lá fora (R$ 52,00), vendido a R$ 297,00 - dá incríveis 5,7x! 😖 Luciana, faça-me o favor! Sim, ela disse: olhou e ficou com vontade de experimentar. Isso não tem preço. Não padeço desse tipo de curiosidade. Vi o engraçadíssimo rótulo do The Old Bastard certa vez, e comprei... depois de procurar e ler sobre ele. Mas aqui trata-se de um enochato, não de uma mocinha curiosa disposta a encarar desafios. A Liu compareceu com o Château des Espoureys 2020, um Bordeaux Supérieur. Tenho comigo que o termo Superior advém de um vinho ordinário da região com meio grau de álcool a mais, e isso dá uma mãozinha na estrutura. Uma uva melhor - para atingir esse nível alcoólico - também tende a produzir um vinho um pouco mais estruturado. Não lembro-me se alguém conferiu, mas esses vinhos normalmente são um corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. Tinha suas frutinhas e um toque delicado de especiaria - comentei sobre a diferença de uma CS por aqui (Chile) e em Bordeaux, onde a chamada Rainha das Uvas atinge sua expressão máxima. Tento recordar-me se a Liu sugeriu compota... será? Boca com alguma estrutura: taninos presentes e arredondados, acidez indo a média, álcool integrado e final de pouca persistência... é um exemplar razoável, conquanto similar a diversos outros da mesma região, tornando-se então um vinho comum. Não encontrei seu preço por aqui, foi comprado há muitos anos. A Domazzi, importadora de Florianópolis, costuma praticar margens razoáveis e normalmente seu representante em S. Carlos é a Casa Deliza, que não usa exacerbar no preço. Para um dia de experimentações, teve bão. Obrigado, meninas!

++++++++++++++++
🐭 Rata?
Agradeço ao comentário de Don Flavitz, que o leitor atento poderá acompanhar no pé da postagem.

Ah, sim (😣):




Monday, October 12, 2026

O Iselis Monica di Sardegna na Amantes de Baco

Introito

O cidadão de bem torna-se bandido quando associa-se a bandidos.
Máxima d'Oenochato, publicada ad nauseam.

Vários comentários (não publicados) assolaram o blog recentemente. PTlhos sugerindo apoio de Renan, bolsonéscios classificando o candidato derrotado como esquerdista. Não respondo pelo Missão, mas a posição deles é sobejamente conhecida até por jumentos. Kim Kataguiri explica tudo aqui. Os PTlhos que me são próximos estão encolhidos; os bolsonéscios, exultantes. Prensada entre um e outro, 30% dos eleitores absteve-se ou procurou uma alternativa - por mais calamitosa. PTlhos são capazes de tudo, até invocar uma única frase - por mais poética - para acomodar suas convicções mais estúpidas. Parênteses: para quem não se lembra, veja aqui: confundindo e misturando extrema-direita, Centrão e direita, temerosos (sem motivo) da volta da ditadura, perpetram: Não cante vitória muito cedo, não, não leve flores para a cova do inimigo. As lágrimas do jovem são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal  antigo... mas na hora do aperto apresentam-se econômicos: Amar e mudar as coisas me interessa mais, desconsiderando que uma sentença solta pode caber em qualquer contexto. Fecho parênteses. O cidadão da foto, por mais detestável, poderia dizer que amou e mudou as coisas. Tente me contrariar... NAP agora tenta tirar votos de poços secos. As tais pautas identitárias - que as enfie no meio de suas ideias - apresentarão a conta. O descaso com a educação também cobrará seu preço - PTlhos de plantão defendem  que o país melhorou no último teste do PISA; veremos depois. E na economia - é a economia, estúpido! - entre voltar a comer picanha (25/08/2022) e Se não tem dinheiro pra comprar carne, a gente come ovo. Se não tem dinheiro pra ovo, come salada (2/10/2026) - o eleitor exigirá a prestação de contas de quem começou com carne de primeira e precisa se contentar com salada. Não estamos falando de um acém; sequer há músculo! E algum estúpido pretende argumentar que esse governo não é uma tragédia econômica em sua forma mais completa e acabada? É isso mesmo? Precisamos de um termo para a dissonância cognitiva elevada à sexta potência. Para fechar: Renan não declarou apoio a nenhum dos lados, mas eu declaro minha posição: Vote nulo! Apoio-me na máxima da epígrafe, que é antiga, reforçada pelos últimos parágrafos, para descredibilizar qualquer sugestão de voto em NAP. Sobre bolsonéscio, falo depois.

Amantes de Baco


Teve uma (sic! rs!) com a Amantes de Baco. Foi quando apareceu um Villa Antinori branco 2024, mistura pouco convencional - para mim - de Trebbiano, Malvasia, Pinot Bianco, Pinot Grigio e Riesling. A família Antinori tem tradição na Itália; está no mercado desde antes de 1400... originária da Toscana (Florença, em estreita ligação com os famosos Médici, mecenas de Da Vinci), expandiu-se para as principais regiões da bota (Úmbria, Piemonte, Púglia e Lombardia), além de fincar os pés nos Estados Unidos, Romênia, Hungria e Chile, onde adquiriu a Viña Haras de Pirque, conforme nos reportou a Ariane recém-retornada de lá, após uma rápida passagem pela bodega do produtor. Seus detratores reclamam de sua propaganda agressiva para suportar preços elevados. Não discordo. Mas o leitor jamais beberá um Antinori ruim. Se sofisticado, é outra conversa... Esse tinha buquê alegre, cítrico como convém as brancos em geral: abacaxi, e creio ter ouvido limão; boca com frescor advindo de acidez, embora nada de excepcional nela, relativamente baixa. Por isso mesmo ele passa rapidamente pela boca, deixando pouco rastro. Não é um grande pecado, afinal trata-se de um vinho simples, fácil de beber e agrada uma trupe na qual o companheirismo vale mais do que vinho. 🤨 E, se alguém perguntar quando o vinho é mais importante, a resposta será imediata: quase sempre! 🤣😂 É o motivo pelo qual todo mundo suporta este Enochato! Aliás, um desavisado veio perguntar sobre Moscatel... beba este Malvasia. Pelo menos o número de sílabas é o mesmo. Seguiu-se um Château de La Bouyère 2020, bordozinho também básico na clássica combinação CS/CF/Merlot. Bastante fruta e mais toques, com acidez um tanto melhor, taninos redondos mas sem tanta explosão e pouco volume em boca, com final também ligeiro. Para terminar, apresentei aos confrades o Argiolas Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, bastante citado aqui ultimamente. A coisa mudou de figura, como era de esperar - até porque o preço médio dele é o dobro dos anteriores, lá fora. Iselis esbanjou fruta e outras notas, que se alternaram conforme os confrades se arriscavam, de chocolate a couro e café. Claro, a acidez é melhor, os taninos estão redondos e mais firmes, perfazendo um conjunto completo e harmonioso. Ele também custa mais que o dobro do Bouyère, então convenhamos: tem a obrigação de ser bem melhor. E nisso cumpre o dever. Não fui atrás de conferir os preços do Antinori e do Bouyère lá fora, mas, pela qualidade, não devem ultrapassar 8 dólas. Para um dóla a R$ 6,00 (com IOF, etc.), se pagar até R$ 100,00, não desagrada. O problema é que a régua deste escrivinhador acomodou-se em uma altura um tanto maior; então, a boa opção para vários bebedores pode não me satisfazer. Assim como as minhas opções desagradam bebedores melhore$. É o vinho...

Wednesday, October 7, 2026

Um espanhol que NÃO fraquejou!

Introito

Ninguém jamais perdeu dinheiro por subestimar 
a inteligência do público americano
 H.L. Mencken (1926), apud 
Sagan, Broca's Brain (1979)

   Segundo dizem, a porcentagem de norte-americanos com diploma superior - contando a formação técnica pós-secundária - está próxima de 50%. Para o Brasil, o número mais confiável que encontrei é de 21,4% (dado de 2026), e na mesma página há um vínculo para o levantamento completo. Esse povo elegeu o Trampi. Bem, antes, o Baiden. Por aqui preferimos - 92% dos votantes... - Ali Lulá dos 40 ministérios e Bolsonéscio. A votação final foi muito estranha: Zema amealhou 0,27% (pouco mais de 300 mil) dos votos. Um ex-governador, vindo do segundo maior colégio eleitoral do país, eleito com mais de seis milhões de votos em seu estado e avaliado como ótimo ou bom por algo como 60% do eleitorado recebe, na eleição seguinte, meros cinco por cento de apoio em seu próprio estado, desconsiderando os votos país afora? Está claro o quanto a propaganda bolsonéscia mostrou-se eficaz em sua proposta de encerrar a fatura no primeiro turno, favorecendo a migração de votos de toda a direita para o primeiro colocado. Outro fator foi importante, embora eu não saiba explicar direito: por capricho do TSE, as páginas de todos os candidatos foram desarticuladas, tendo seu alcance a novos leitores severamente limitado ou mesmo extinto. Para uma campanha dotada de quase 900 milhões (PL), fica fácil se recompor usando influenciadores pagos para veicular sugestões de votos. Se é que foi mesmo isso que aconteceu, recomendo uma pesquisa pelo leitor. Parece claro que o Missão - partido no qual votei - foi soterrado pela falta de estrutura e aporte financeiro para conduzir sua campanha. Nem tudo foram lágrimas, e algumas verdades inconvenientes vieram à tona: Andrada foi derrotado na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, com um detalhe quase lascivo para este analista: enquanto NAP ganhou de bolsonéscio na capital, seu pupilo perdeu; justamente onde anteriormente ele próprio fora prefeito. Uma bela comprovação de suas habilidades gerenciais, não é mesmo? Também foi satisfatório acompanhar outros cidadãos sendo desempregados pelo eleitor, como, por exemplo, o amapaense Rodolfo, um deslumbrado por NAP. Tivemos muitos outros, mas esses bastam.

Um espanhol com karma, mas sem chacra

Sob o pretexto de acompanhar a apuração da eleição a #emuitovinho se reuniu na noite de domingo. Eu havia chamado as meninas para uma pizza, e para minha surpresa Dona Neusa chegou com um vinho a mais, e ele entrou no balde tão logo foi aberto, onde permaneceu enquanto apreciávamos um Cordon Negro, da Freixenet. Não é preciso falar muito mais sobre ele: bate similares nacionais de valores próximos, e isso é apenas mais um indicativo de como nosso vinho exorbita nossos bolsos. Compre vinhos caros, eles valem a pena... mas não pague caro por vinho, é estupidez em sua forma mais acabada. Pensando na Introdução, talvez não... continuemos.  Chacra Treinta y Dos 2016 Pinot Noir apresentou um buquê muito agradável, complexo, repleto de frutas vermelhas, especiarias e madeira - que mal percebi e fui  confirmar na ficha técnica - muito discreta. A boca passou longe do nariz, com um pouco de fruta, taninos leves, acidez indo a média - mas não chegando lá - tímidos 12% de álcool e final ligeiro, típico da maioria dos sul-americanos. Não deu sinal de estar comprometido, pois não apresentava defeitos óbvios. Procurando sobre ele e seu valor no mercado, notei como fala-se de sua acidez viva, mas não vi isso em nosso exemplar. A uma safra com 10 anos - nem tão antiga - parece claro faltar estrutura ao vinho para que ele mantenha a acidez mesmo por um tempo relativamente curto. Essa garrafa veio diretamente da bodega e manteve-se refrigerada até o consumo, então não levantemos problema de armazenamento. Acontece que ele é o melhor do produtor, com a safra 2016 celebrada pelos críticos, com James Sucks atribuindo-lhe 98 pontos, contra 96 do Parque. Comenta-se por aí esse vinho ter um estilo borgonhês. No... no se puede... (risos!). Vamos por partes. Partindo do suposto acima, a falta de estrutura comprometendo a acidez, e ele recebe 96 e 98 pontos de avaliadores enquanto Borgonhas como o Domaine de la Vougeraie Clos de Vougeot Grand Cru na ótima safra de 2009 não vai além de 95, e um Cros Parantoux do Meo-Camuzet (mesmo ano) mal chega a 93 (Wine Spectator) soa como uma piada dos Trapalhões para uma plateia com QI superior a 70: risos amarelos. Orra meu (risos!), um Borgonha dura, tá sabendo? Chacra pode competir muito bem com os melhores chilenos e argentinos, mas pelo que apresentou ao final de dez anos não bate um Borgonha Village de bom produtor. Por exemplo - reclamo muito da margem praticada pela Mistral, mas não questiono a qualidade da curadoria - tomemos um vinho simples do Domaine Jean-Marc Millot, o Gevrey-Chambertin 2021, um Village. Duvido que Chacra chegue perto. Não, não bebi do JM Millot, mas recentemente provei o Dugat-Py Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009  dessa mesma região, e não é difícil afirmar - se tivesse três neurônios, ainda sustentaria - que a diferença entre eles não é grande, é abissal. E a melhor nota dele é 18,5 no Gault & Millau... Está na hora do pessoal começar a ficar sério, a quantidade de patetices está sobrepujando a fruta (dos próprios vinhos - risos!). Se ele é melhor do que isso, então sua janela de beberagem é muito estreita. Next! 

   Com um perfil bem diferente, Juan Gil Etiqueta Azul 2018, um corte Monastrell (a Mourvèdre francesa, célebre no Rhône), Cabernet Sauvignon e Syrah, 15,5% de álcool, aerou duas horas antes de ir para o balde, e chegou explosivo, intenso: rico em frutas e mais notas de chocolate, couro e especiarias; Dona Neusa apontou mentol, sorrindo de satisfação. Não lembro a opinião da Elvira, mas creio que ela separou algumas frutas - algo muito difícil para mim. Sua potência está amparada por taninos muito marcados mas agora bem redondos, acidez média + e madeira bem integrada, perfazendo um conjunto rico e complexo. Tem ótima permanência com final um tantinho amargo, e isso é uma característica, não um defeito. Jumilla é uma DO de Múrcia, uma pequena região na costa mediterrânea do sudeste da Espanha; Juan Gil é reconhecido por ter colocado Jumilla no mapa internacional do vinho e compete com os melhores produtores da região. No segundo dia - enquanto escrevo esta parte da postagem - apresenta-se pegado, firme, e ao mesmo tempo elegante... acompanhou muito bem um hambúrguer com toucinho e batata frita, trazendo à lembrança o fauno de algumas postagens. Chacra também não desceu de um dia para o outro, mas Juan Gil estava mais ao meu agrado: melhor estrutura, encorpado e pronto para ser degustado, com vida longa pela frente. Este, beba ou guarde. Ademais, esse vinho de bom karma custa uma fração de Chacra; para mim, este é mais um vinho superestimado.

Sobre preços

   Juan Gil custa algo como 27 dólas lá fora (x5, R$ 135,00), e por aqui é encontrado a R$ 430,00. Isso dá quase 3.2x, tubaronice. Seguramente paguei menos nos tempos de Enoeventos com boas ofertas. A importadora tem algumas outras opções do produtor, e são bem razoáveis no quesito qualidade. Só precisa conferir se no preço também continuam interessantes.





   Chacra é um vinho caro na Argentina, R$ 667,80. Se disser no sítio que a indicação é deste Enochato, sai por R$ 667,00. Isso dá USD 120,00, mais ou menos. Chega nos EUA, dependendo da safra, entre USD 90,00 e USD 135,00 (mais taxas!). A pergunta de sempre: por quanto saiu da Argentina? Ainda assim, seu preço "lá", pelo que apresentou, é assustadoramente alto. Espero que venda bem; de repente alguém viaja para lá e me traz um Xatenêfi que esteja sobrando pelos mesmos USD 130,00. Nesse valor dá pra pegar um Beaucastel 2007... com qual você ficaria?










Wednesday, September 30, 2026

Um espanhol que fraquejou...

Introito: o engodo da democracia

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Apparício Torelly, o Barão de Itararé

O cidadão de bem torna-se bandido quando associa-se a bandidos.
O Enochato


   A primeira parte do engodo chamado festa da democracia está para acabar, sob os auspícios da emissora que desde há muito escancara sua preferência por um candidato sem contudo assumi-lo. Bolsonéscio, quando teve oportunidade de purgar o país dessa praga, para surpresa de apenas seus estúpidos seguidores, fraquejou, ficou nas ameaças, recolheu-se à sua insignificância habitual e justificou a primeira citação da epígrafe. A última da Globo é alijar Renan Santos de seu debate sob alguma regra casuística provavelmente declarada logo de início da proposição de seu evento já com esse propósito em mente. O risco é ver no evento três candidatos cujas intenções de voto, multiplicadas, possivelmente não cheguem à margem inferior do postulante Missioneiro. E a isso, querem dar o nome de democracia. Obviamente os estúpidos engolirão - qual sua serventia, senão prestar-se a serviços assim?

   A questão real, para o eleitor consciente, resume-se a quais (bons) pleiteantes escolher para cada cargo disponível. Não é difícil, basta não ser estúpido; mas isso é um contra-senso, pois estamos assumindo um eleitor sensato em vez de um imerso em profunda dissonância cognitiva. Se olhar para a segunda frase da epígrafe e refletir sobre a razão e boa-fé que há nela, metade do caminho já estará andado.

   Um bom candidato deve ter propostas, mas não apenas - afinal todos têm. Bem, isso deixou de ser verdade neste pleito. Onde estão os planos de governo dos principais atores? Dos nanicos, nem se fala. E, se você pensa que não poderia ser pior, pode! Quase todos eles têm projetos baseados em ideias do MBL antigas de muitos e muitos anos - e até então ignoradas por todos. Coincidência? Há uma boa pergunta que o eleitor pode fazer para ajudá-lo a escolher: nos últimos anos, seu político de estimação está mais ou menos enrolado em escândalos? Nos últimos anos seu político de estimação parece ter-se tornado mais ladrão ainda, ou menos? 🙄 Claro, sempre teremos um estúpido para responder: ele nem é um ladrão... naturalmente. O país vai de mal a pior por conta do acaso. 

   Apresento uma lista de sugestões para todos os cargos. Ela é firmemente calcada na segunda citação da epígrafe e, portanto, não dialoga com membros da esquerda corrupta, do Centrão, da direita estúpida nem com os extremos do espectro político. Para um cidadão de esquerda como eu, aderir a essa lista não é fácil; faço pensando no país. Essa geração tem um projeto. Tanto o tem que, em muitas e muitas entrevistas, jornalistas de todo o espectro político não criticam suas ideias. Apenas perguntam como o grupo atuará para aprovar tais propostas - vindo de analistas tão hostis, é um reconhecimento tácito de como elas são virtuosas. Sair disso é, literalmente, dar as costas para o futuro. Se a principal revista de economia do mundo faz esse alerta e aponta para Renan Santos, podemos interpretar a mensagem de duas maneiras: ou ela mente descaradamente, contribuindo para nos jogar no precipício, ou faz uma análise séria e crítica das propostas do Missão e de seu candidato. Mas na frase anterior já temos a resposta: ninguém criticou suas ideias, apenas perguntaram como implementá-las. É isso.

   Deputada federal: Ana Hering 1400
   Deputado estadual: Engenheiro Leo 14123
   Senador 1: Guto Schiavetto 144
   Senador 2: nulo
   Governador: nulo
   Presidente: Renan Santos 14

Noitada na Paduca

Depois de um tempo enrolados, a Paduca retornou impávida. Há algum tempo comprara o Altivo, um Rioja produzido pela Criadores de Rioja, com alguma expectativa: em certas bocas da internet era ofertado a R$ 250,00, mas encontrei no Empório Caçador a R$ 156,00. Lembrava-me do valor lá fora em cerca de USD 12,00, a proporção estava próxima de 2x. Resolvei apresentar para os Paduquentos. 🙄 O tiro saiu meio pela culatra: logo no primeiro ataque a percepção foi de um vinho de USD 6,00... Com calma, do começo. É um corte 90% Tempranillo, 5% Mazuelo, and 5% Graciano, típico da região, cujo envelhecimento é de 5 anos. Nesse caso foram 2 em barrica e 3 em garrafa. A primeira cafungada chegou com madeira, fruta vermelha e algo enjoativo. Não sei, um doce que pegou mal. Os confrades gostaram, e, quieto, deixei rolar; foram duas rodadas com o pessoal apontando a boa acidez - tem mesmo - e a fruta que se repetia no paladar com taninos médios. Um vinho com vida pela frente. Minha observação do travo doce despertou-lhes a atenção; além do açúcar sobrando, e mesmo com a acidez, não deixava muito rastro na garganta, uma vez engolido. No frigir dos ovos, fraquejou. Escrevo agora com os últimos dedos dele. Não desceu, para minhas surpresa; a acidez permanece, tem um toque a couro, mas a boca continua meio xoxa. A garrafa não está ruim, e pelo valor por aí (chega a USD 30,00), está muito abaixo do esperado. Mesmo para os R$ 156,00 aqui, não convenceu. O segundo vinho foi servido, em pequena dose - ainda não estava resfriado o suficiente, e todos notaram bem isso -, após a segunda taça de Altivo. Sem saber o que era, o pessoal olhou para o topo da garrafa ainda repousando no balde. A expressão dos companheiros mudou, num Opa... agora tem vinho... Bonfante e Chiarle Barbera D'Asti Superiore Sabolla 2016 é outro vinho no padrão USD 11,00, e foi comprado aqui, de R$ 199,90, a R$ 99,90. Poderia ter aerado uma hora antes de ir para o balde, mas mesmo na primeira taça já mostrou corpo e complexidade melhores. Com a temperatura certa, vieram os aromas alegres de frutas, compota e fumo ou couro. Corpo médio, taninos redondos, também médios, acidez equilibrada e sem o doce incômodo de Altivo. Final muito melhor... e como combinou com a pizza de Pepperoni... O resultado foi que, mesmo chegando em segundo e os confrades terem apreciado Altivo, foi ele quem secou. O Rioja sobrou quase um quarto, e os colegas não são exatamente fracos de copo. Ninguém quis levá-lo... Bonfante e Chiarle está disponível na Vinhobr a R$ 140,00, um pouco além de 2x. A despeito disso, vale a pena.

   Evite estúpidos nos próximos dia. Ouvi dizer que contagia.

Uísque no níver da Rê

Introito - conclusão em pedaços; pedaço 2

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
A Pátria, Olavo Bilac, 1919

   Estava a refletir sobre a distribuição ideológica entre pessoas mais próximas. Nem todas tomam posição; a estimativa leva em conta quem assume um lado. Os tais envergonhados - eleitores discretos que não partilham sua escolha com outros - não figuram no cálculo. Cerca de 40% são bolsonéscios e 60% são PTlhos. Refiro-me apenas aos apoiadores desta ou daquela quadrilha, sem contabilizar outras possibilidades. À luz das teorias da estupidez de Cipolla e Bonhoeffer, o caso mais grave é, sem sombra de dúvida, o dos PTlhos, e a explicação é direta: eles o são há muito mais tempo. A dissonância cognitiva nesses elementos (sic) encaminha-se para umas nada comoventes bodas de prata com seus cérebros. Continuando assim, é provável que morram na senilidade absoluta.

Vejamos alguns exemplos de como PTlhos reagem quando confrontados com questões morais. A imagem ao lado é do comentário em vídeo onde Renan Santos analisa o final da reunião em que Supremos Sinistros (SS) riem ante um suposto acerto político com o presidente do Senado. Sugiro que ouçam para entender. Perguntei a um grupo: Se alguém me disser que a conclusão  não é verdade, eu vou agradecer muito. Claro, não basta dizer, é preciso argumentar... Entre três ouvintes, a única resposta foi um exemplo de candura: Não duvido, a única certeza q tenho é q eu não estava na tal foto e nem reunião... mto difícil nossa situação... Ou seja: utente imerso em dissonância cognitiva só admite não estar na foto, mas despreza todo o seu entorno constrangedor. Em acordos pouco republicanos entre ambos os lados do espectro político, bolsonéscios e PTlhos irmanados não no combate à corrupção - que no papel dizem enfrentar - mas, segundo o vídeo, seguem acasalados justamente para jogar falcatruas para baixo do tapete. Pergunto-me se há alguma (des)conexão entre esse duplipensar, neologismo de Orwell anterior à formulação da teoria de dissonância cognitiva, e a epígrafe. De fato, criança, não verá nenhum país como este...

Uma sequência de discussões engraçadíssimas - não fossem trágicas - deu-se com um jovem defensor da esquerda tosca e pregador, dentre outras coisas, da cultura Uóque. Precisei repetir as perguntas, pois no primeiro momento elas foram ignoradas. As respostas falam por si. O detalhe: para ajudar meu querido utente a responder à pergunta 3, eu enviara uma informação oficial. É uma página do Banco Central na qual está explícito o crescimento do déficit fiscal. Ainda assim o fato é negado, e este argumentador é colocado "na bolha". A conversa continuou, e a certa altura recebo a reflexão baseada em trecho de Belchior Não cante vitória muito cedo, não, não leve flores para a cova do inimigo. As lágrimas do jovem são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal  antigo, sobre seu receio da volta de dias mais autoritários. Como se já não os vivêssemos... - já notou como lado que apoia uma ditadura nunca a considera como tal? Respondi de maneira segura: Não Leve Flores é bem sugestiva, mas recomendo a música homônima do álbum onde ela está... O interlocutor conhece muito de música, e suponho que tenha conectado imediatamente a sugestão de Alucinação e esta à sua condição. Tentou sair-se com um trecho dela, Amar e mudar as coisas me interessa mais, apenas se esquecendo que um único verso solto de qualquer música pode defender até Lúcifer. Expresso uma declaração mais direta e abrangente advinda dessa mesma obra:
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...
   Sim, é isso: a minha alucinação é calcada no dia-a-dia, no real, sem dissonância cognitiva nem entregando-me à delusional perspectiva de que toda a direita é uma só, a extrema-direita. Trata-se de uma confusão épica, monumental, colapsando direita, extrema-direita e Centrão em uma única categoria. O Centrão de Valdemar Costa Neto, um dia aliado de Nosso Amado Presidente (NAP) e preso no escândalo do Mensalão, hoje parça de primeira hora da família bolsonéscia - ela própria aliada ao Centrão - não pertencem à extrema-direita. Misturando tudo, PTlhos enganam-se ao julgar todas as propostas igualmente fétidas, sujas e abjetas. Aliás, para que ler as propostas dos outros se eles mesmos não as têm?

Creio já ter comentado(?) sobre bolsonéscios: não comemoram possíveis vitórias advindas de argumentos, porque não argumentam; eles no máximo festejam esquivas quando conseguem mudar de assunto ao sentirem-se emparedados. Com PTlhos não é diferente. Na continuação do diálogo acima, o assunto em desenvolvimento era outro, mas então chega, do nada, esta pérola; um pequeno mantra de bolso (risos!) para repúdio instantâneo de inimigos ideológicos que poderia constar em... um livro pequeno, encadernado em couro sintético preto, com letras douradas na capa: Manual do Messias - Lembretes para a Alma Adiantada, de tão iluminado, profundo e edificante. Donald Shimoda ficaria enciumado. Sem entrar no mérito: percebem a diferença de estilo? Enviei para o sujeito perguntas simples, para responder com sim ou não. O propósito é fazer o infeliz refletir. Qual é o contra-ataque? Uma sequência de fatos, acusações e julgamentos morais fundidos em uma única categoria e, pior, voltados contra quem eu mesmo critico. Agora, entrando no mérito: tirando um ou outro fato pontual, as demais implicações serviriam a NAP tão bem quanto a Bolsonéscio (pai). Vejamos: Machismo e misoginia? Por onde andarão as mulheres de grelo duro(!)? E a Clara Ant, que recebeu cinco homens em sua casa e - segundo NAP - acreditou ser um presente de Deus? Estão aqui. Homofobia? Pelotas foi classificada como um polo exportador de viados (sic). Precisa mais? O sujeito pode ser estúpido (segundo Bonhoeffer) a ponto de dizer que novamente estou "na bolha", inventando... bem...


a fonte é esta; o vídeo foi publicado há 13 anos, então não pode ter sido gerado por IA... "Na bolha"... eu? Ah, tá... Queimadas? ...o primeiro quadrimestre de 2024 registrou a taxa mais alta de queimadas desde 2016 (trata-se da Amazônia) e está aqui. Não adianta explicar que El Niño daqui, El Niño dali. Queimada é queimada, não fui eu quem trouxe o assunto à baila. Preciso continuar, ou mesmo o mais idiota dos idiotas conseguirá encontrar um exemplo do mantra acima no governo de NAP mergulhado nos problemas que aponta em Bolsonéscio?

O crème de la crème PTlho para rejeitar Renan Santos em particular está em criticar sua postura de aparelhar o país com a bomba atômica. Pasmem: o argumento foi dado por três pessoas diferentes, que não se conhecem e votam (ou votavam) na esquerda. Um, convenci em dois minutos. Não, não foi bem assim. Falei durante dois minutos. Depois a pessoa fez o dever de casa: foi pesquisar e ela mesma retornou com suas descobertas. Declarou estar reavaliando a opinião anterior. Ela apenas fez o óbvio... PTlhos mais encarniçados insistem em dizer-se contra essa política. Ignoram um ditado ancestral, Si vis pacem, para bellum - Se quer paz, prepare-se para a  guerra (atribuído a Flávio Vegécio, publicação incerta, próximo a 450). Trazendo a discussão para mais próximo, em Crônica de Uma Guerra Secreta Sergio Corrêa da Costa nos traz os planos atribuídos a Perón para aliar-se aos nazistas e tornar-se o grande ditador da América do Sul sob o nada sutil vaticínio de que Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso. Essa abordagem dialoga com o pensamento de Lord Palmerston, As nações não têm amigos eternos ou inimigos perpétuos; elas têm apenas interesses permanentes. Tucídides nos brinda com Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem, e  George Washington colabora com É uma ilusão esperar favores desinteressados de nação para nação; aquilo que uma recebe como favor, acabará pagando mais tarde com a sua própria independência. Estúpidos insistem em desprezar conceitos históricos em favor de alguma posição não beligerante. Por maior que seja minha boa-vontade com o pacifismo de Gandhi, as opiniões de tantos outros estadistas e pensadores contrapõem-se à solução não-armamentista. Desprezar isso é ser um estúpido aderente à terceira lei de Carlo Cipolla: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si. Os idiotas tampouco percebem que a lógica da posse de uma bomba atômica está centrada na dissuasão: eu não ataco você, e você não me ataca. Forças convencionais não possuem tal poder de desencorajamento.

   Antes de terminar, uma palavrinha sobre os Uóques. Eles acreditam que NAP de fato trabalha em favor dos pobres. Não conseguem entender - ou simplesmente desprezam - os gastos com juros da dívida versus o montante efetivamente destinado aos desfavorecidos. É algo como um quinquagésimo do que se gasta com juros. Esse povo não sabe fazer conta. Sustentam a decadência do Ocidente e, em sua grotesca concepção civilizacional, feita de valores e virtudes não liberais, mas libertinos, apresentam-se em evento oficial do Ministério da Saúde com esta,


como era mesmo a estória sobre decadência? Diante das reclamações, ainda vieram dizer que não sabiam... Aliás, NAP também não...

   Estes exemplos são mais ricos porque bolsonéscios são idiotas demais para debater, e deles só vem o silêncio. Já PTlhos consideram-se uma casta mais nobre, elitizada, tentam argumentar - contando com o refúgio da dissonância cognitiva quando necessário - e assim portam-se como o último bastião de alguma coisa. Do meu ponto de vista, quando alguém/alguma classe considera-se um último bastão de algo, é porque o país está suficientemente idiotizado para tomar a contra-mão da história. Não por acaso o editorial a revista The Economist tem por título Brazil turns its back on the future, elogiando o plano econômico de Renan Santos que promete, dentre outras, acabar com as favelas do país. Em 20 anos de poder, NAP apenas as ampliou. Estúpido é quem não vê.

   Está longo, mas este tiro no escuro é necessário. Ninguém flerta tanto com a estupidez quanto bolsonéscio. Alardeou pelos quatro ventos sua ida ao último debate. Não se tocou de quem o promove, franca aliada de NAP. O Presidente já disse que não comparecerá. Adivinhem se na última hora não chamarão Renan Santos? E não estranhem se os outros dois participantes trocarem perguntas entre si e com Renan, deixando para este torpedear o costado bolsonéscio com as perguntas mais constrangedoras de todos os debates da história deste país. Essa perguntas - e as repostas, seguramente idiotas - constituirão a munição preferida para um eventual segundo turno contra o desavisado. A estratégia está armada. O eleitorado pode desarticulá-la completamente, votando em Renan Santos, número 14.




O níver da Rê

Comemoramos, com um pouco de atraso, o níver da Rê(giane), com a Carol e a Silvinha. Servi minha cava preferida, o Freixenet Cordon Negro, sempre com boa presença de nariz: um toquinho de pão/fermento junto a notas cítricas de frutas como maçã e abacaxi. Tem bom frescor e acidez, perfazendo uma estrutura elegante em sua faixa de preço (R$ 100,00). Acho que supera com folga diversos competidores nacionais cujo valor é similar. Rê e eu estávamos interessados mesmo nos uísques... Começamos com o Buchanan's Deluxe 12 Anos, o único blend. A proposta era partir de algo consagrado e conhecido para utilizar como calibre. Nariz levemente adocicado, com madeira e baunilha que combinam com a boca também doce, com o álcool pegando um pouco. Seguiu-se o The Glenlivet Founder's Reserve, o primeiro single malt da noite. Uma curiosidade sobre ele é a não apresentação do envelhecimento - sua categoria é NAS (No Age Statement), embora os peritos indiquem uma maturação entre três e seis anos. Você compraria um uísque 3, 4, 5 ou 6 anos? Conhecendo agora, eu compraria. Mais um detalhe: ele é amadurecido com tonéis de carvalho americano que receberam sua primeira passagem de Bourbon. Não podendo ser reaproveitados, as barricas são vendidas mundo afora e seu uso na produção de uísque já estava consagrado nos anos 1960. É um bom uísque, com madeira mais discreta se comparado ao Buchanan's, e boca com uma pegada mais discreta de baunilha. Como o Buchanan's, tem nariz mais complexo, e preciso começar a prestar mais atenção para identificar essas notas. Em seguida servi o Aberlour 12 Anos Double Cask Matured, onde o mesmo single malt é envelhecido separadamente em dois tipos de barris, o de Bourbon e o de Jerez. A combinação é feita no envasamento, resultando em um produto com a riqueza de ambos os barris fundindo-se no garrafa. O nariz tinha um pouco de doce e especiaria, principalmente, e mais notas. Em boca, um uísque mais persistente, rico, mas não consegui distinguir bem as notas. Mas a diferença de qualidade para os anteriores é evidente. Foi a vez do Laphroaig Quarter Cask e a misteriosa chamada do rótulo, The perfect marriage of peat and oak (o casamento perfeito entre a turfa e o carvalho). Sua técnica de produção é um pouco diferente: depois de colhida, a cevada é limpa, transferida para o chão interno da destilaria e ligeiramente molhada, quando o grão começa a brotar novamente. Enquanto isso, prepara-se a turfa, um material orgânico esponjoso, formado pela decomposição parcial de vegetação, como musgos, ervas, raízes e plantas aquáticas. Quando os brotos da cevada atingem certo tamanho, eles são levados a um forno alimentado pela turfa, e assim a cevada é defumada, adquirindo as características da fumaça desta. Esse grão seco e com cheiro de fumaça é então moído e misturado com água quente para iniciar a fabricação do uísque. Deu trabalho pesquisar isso, mas a estória é interessante... Laphroaig Quarter Cask tem um buquê inconfundível, misturando lembranças ancestrais do tempo de eu menino: iodo, esparadrapo e notas medicinais, exatamente como recordo-me das pharmácias de antanho. O paladar é robusto, carregado de caramelo e bem mineral, com mais complexidade a ser desvendada. Está aberto há algum tempo - pelo menos desde o começo do ano - e o toque medicinal diminuiu de intensidade, mas permanece bastante marcado. Decididamente não é um uísque para fracos, mas é delicioso. O Macallan Sherry Oak Cask 12 anos é, como sugerido, um uísque guardado por esse período apenas em barris de Jerez. Tem olfato bastante complexo, e sabendo de antemão é possível perceber a presença do figo, tão caro nas bebidas da Andaluzia. Também tem especiaria e um tostado. O paladar tem um corpo elegante, quase um afago na língua, duradouro, sensualmente provocante pela duração em boca. Por fim, o Dalwhinnie 15 Years Old envelhece exclusivamente em barricas de Bourbon, tem um travo adocicado - mel - que se repete na boca. Tem mais notas a serem desvendadas - é-me difícil, em alguns momentos - mas a complexidade é clara. Achei bastante mais pegado do que o Macallan - 43% de álcool, um pouco a mais que os 40% deste último -, então seu peso vem de outro lugar. Seria o tipo de barrica? Foi uma experiência arrebatadora, e se precisar condensar a percepção das duas estrelas, Dalwhinnie 15 e Macallan 12, diria fogo para o primeiro e veludo para o segundo. Teve bão...