Tuesday, September 15, 2026

Baco, o fauno, a vinha, o sol...

Introito - algumas reflexões soltas, parte 2

À mulher de César não basta ser honesta, 
ela deve parecer honesta.
Júlio Cesar

   Na última postagem apresentei dois pensadores que, de diferentes maneiras, estabeleceram regras para classificar as pessoas de estúpidas - ou idiotas; a diferença é mínima. É verdade, muitos utilizam essas palavras como mero xingamentos diretos e não sustentam suas posições. Já enunciei as regras para tal tratamento a diversas pessoas com quem tenho contato mais direto. Inclusive inserindo a máxima Pare de ser estúpido, e eu paro de dizer que você é! (risos). Saiba um pouco mais sobre Bonhoeffer aqui, que é um short relativamente mal produzido mas dá conta de uma introdução. Aqui há um comentário mais longo (15 min) e melhor conduzido. De quebra, aborda os conceitos do Carlo Cipolla e dá uma palhinha sobre o pensamento de Freud e a psicologia das massas. Por 15 minutos do seu tempo? Uma pérola! O resumo da ópera é: existem critérios objetivos para que o qualificativo estúpido - ou idiota - deixe de ser mero insulto e passe a ser uma conclusão sobre determinado comportamento de uma pessoa (ou grupo).

   Tenho uma percepção que não é exatamente um sentimento nem uma sensação, mas que também não é propriamente uma ideia: percebo-a, embora seja difícil traduzi-la em palavras. Em meu idioleto, chamo-a universo moral. O universo moral de uma pessoa seria o conjunto de valores, princípios, intuições e critérios pelos quais ela distingue o que considera certo e errado, justo e injusto, aceitável e inaceitável, digno e indigno.

   A construção do universo moral acontece ao longo de nossas vidas conforme incorporamos valores e princípios, alguns dos quais se tornam inegociáveis e terminarão por constituir nosso caráter. Infelizmente em nosso país quase tudo vem sendo relativizado desde há muito tempo - similar ao homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda - e é difícil depois de certa idade criarmos um escudo contra tentações e deslizes. Se atingimos essa meta em relação àquilo que efetivamente reconhecemos como inegociável, tornamo-nos inflexíveis, intransigentes até, e é essa qualidade que nossos adversários usarão para nos (des)qualificar. Felizmente, pois não poderão nos tratar por corrupto, quadrilheiro, cínico, quadrilheiro (palavra da moda) e ladrão, por exemplo. 

   O indivíduo pode declarar seu universo moral, mas na verdade são suas ações que o demarcam. Vejamos: o caboclo se diz contra a corrupção. Mas seu candidato é um corrupto, ele apenas nega todas as evidências. O que aconteceu? Seu universo moral foi colonizado pelo grupo ao qual o sujeito pertence. A pessoa passa a julgar o mesmo ato de maneiras diferentes conforme quem o pratica, porque sua lealdade ao grupo precede o próprio juízo moral. Então seu universo moral não é o sustentado por ela mesma! Esse universo moral é menor, mais estreito do que se proclama possuir - e a pessoa, um idiota; suas ideias erradas e inconsistentes precisam ser repudiadas pelas pessoas de bem por serem falsas. Afirmo não votar em corrupto. Vem alguém sustentando ser contra a corrupção mas cujo candidato é corrupto e me chamar de... isentão(!). É um exemplo acabado de estupidez. Recobro a epígrafe, invocada neste espaço não pela primeira vez e afirmo: não negocio meu voto - muito menos com candidato desse tipo.

   O que acontece quando os fatos são incompatíveis com o universo moral que uma pessoa construiu? A resposta pode nos levar à dissonância cognitiva e à estupidez de Bonhoeffer. A dissonância cognitiva é - aproximadamente - o estado de tensão mental em que crenças, atitudes ou comportamentos entram em conflito. Para preservar determinadas convicções, a pessoa pode então rejeitar ou relativizar fatos que as contrariam. A teoria foi proposta por Leon Festinger. Ele foi citado em um vídeo sugerido em outra postagem, esta, do humorista Leo Lins - não é uma postagem humorística, mas é impossível não rir... O texto é de 8 de setembro de 2023... dei voltas, refleti e caí praticamente no mesmo lugar. Ou estou louco, ou estou muito certo. Estúpidos, enfileirem-se!

Itália 3, Portugal 1

Placares, assim como vinhos, nos enganam, às vezes. Olhando para a garrafa o leitor erguerá uma sobrancelha e se perguntará: quem trucidou um Crasto Reserva Vinhas Velhas 2021 dessa maneira? Devagar com o andor, e não que o santo seja de barro; começarei por onde normalmente termino, o preço: a confra recebeu uma oferta de caixa a pouco mais de R$ 300,00. Seu preço por aí facilmente atinge R$ 600,00, então os olhos da turma brilharam. E resolvemos comprar uma garrafa, porcada (rs), e uma para degustar e avaliar seu estado. Vários degustadores, inclusive a Jancis Robinson apontam-no com data de beberagem (sic! rs!) 2025-2035. Um avaliador nacional, segundo Wine Searcher, declarou "Tem final sedutor, suculento e persistente, com toques de cassis, de amoras, de violetas, de grafite e de alcaçuz, que pedem mais um gole". Bom, opinião unânime: mesmo passando por 8 horas de aeração, Crasto Reserva Vinhas Velhas mostrou fruta contida rodeada por taninos ainda pegados, novos demais embora não verdes. Tem boa estrutura, acidez presente, mas tudo meio desencontrado: um anão de cujas costas sai um adolescente por sua vez originando no mesmo lugar um adulto; quimera onde todas as pernas alcançam o chão e cada pé aponta para uma direção. A boca indica para um grande vinho, num futuro algo distante - quatro ou cinco anos - quando o buquê encontrará o paladar, os taninos, o álcool, a acidez, o açúcar e Baco, o fauno, ambos dançando e rindo ao som da Pã, em meio à vinha e ao sol. Guarde seu exemplar.

Alguém notará: é a segunda postagem seguida envolvendo o Argiolas Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019. De saída vou explicando: embora as postagens estejam próximas, os eventos situaram-se distantes no tempo - seguramente mais de um mês. E já comentei sobre a estratégia para montar sua adega: comprar uma caixa de um bom vinho, deixá-lo envelhecer e no momento correto provar uma garrafa a cada dois ou três meses. Quando o bebedor tiver estocadas seis, oito caixas, ou mais, e o amadurecimento delas chegar, ele poderá intercalá-las - quanto mais caixas tiver, maior o espaço entre as repetições. E o felizardo estará sempre bebendo um vinho bom. No presente caso, aconteceu de ter algumas garrafas e também aproveitar a "promo" da Enoeventos que ainda está valendo. E mais: gosto de mostrar vinhos bons para os confrades, além de compartilhar com eles as oportunidades. Esse exemplar, com meras duas horas de aeração, estava como os demais já descritos: balanceado e pronto para beber. Nariz e boca completos, finalizados, no ponto. Com aeração, o álcool em excesso vai-se embora e apresenta-se integrado ao conjunto da obra, que tem boa permanência e final. De resto, tudo lá: fruta, chocolate (café? - risos!), uma delícia. Compre e beba. Não poderia deixar de fazer menção: D. Neusa serviu um espumante nacional que ela não se recorda de onde, nem como, sobrou em suas mãos. Apenas estava lá, e ela sabe como eu aprecio provar espumantes nacionais - embora não os compre pelo mesmo motivo que me leva a não votar em corruptos: é simplesmente desnecessário. Fausto Brut Rosé, da Pizzato, tem buquê até gracioso, mas com baixa acidez e boca discreta, mais rápida que o Pepeu Gomes no Brasileirinho... e basta de comentários. Custa aqui R$ 80,00. Por 7 moedas lá fora compramos espumantes muito melhores.

Como se precisasse comprovar alguma coisa - como é mesmo a estória do universo moral? - seguem os preços do Crasto cá e lá.

Cá...



E lá...

   Sabendo que o produtor é também o proprietário da importadora que traz o vinho para cá, reflito se o preço aqui poderia ser mais atraente para o consumidor. Acaba vendendo porque um bando de idiotas - capturados pela mais profunda dissonância cognitiva - aceitam pagar seu preço cheio de praticamente 3x. Idiotas do mundo, uni-vos! E paguem... Marx e Engels nunca estiveram mais atuais...

Tuesday, September 8, 2026

Itália: a ilha e a colina

Introito - algumas reflexões soltas, parte 1

Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão envolvido em causas diversas como pacifismo e injustiça racial. De quebra, como opositor ao Adolfo e seu regime, esteve ligado à resistência que desembocou na Operação Valquíria. Foi executado às portas do final da Segunda Grande Guerra. Suas reflexões sobre a estupidez começaram em 1943, já no cárcere. Para ele, a estupidez não é uma condição congênita nem uma deficiência intelectual: uma pessoa muito inteligente pode ser estúpida, e uma pessoa de inteligência modesta pode não sê-lo. O estúpido é uma pessoa que perde sua independência intelectual e passa a pensar e agir de acordo com o grupo ou ideologia que o domina. Portanto, não é propriamente um problema de inteligência, mas de autonomia intelectual e, em última instância, de responsabilidade moral. É aí que a estupidez pode cruzar-se com a dissonância cognitiva: para preservar suas convicções, a pessoa passa a negar ou relativizar fatos que a contrariam.

Carlo Cipolla foi um historiador e economista cuja carreira teve seu ápice em Berkeley, como professor da Universidade da Califórnia. Um de seus ensaios mais famosos, As leis fundamentais da estupidez humana, versa sobre cinco leis que resumo:
1. Subestimamos sempre a quantidade de estúpidos existentes.
2. A probabilidade de alguém ser estúpido independe de sua inteligência, profissão, educação, classe social etc.
3. A definição propriamente dita: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si.
4. Pessoas não estúpidas subestimam enormemente o poder destrutivo dos estúpidos.
5. O estúpido é o tipo mais perigoso de pessoa - mais perigoso, inclusive, que o bandido.

   Observamos que o estúpido segundo Cipolla não precisa acreditar em nenhuma ideia absurda nem é um deficiente intelectual, e nesse último ponto sua concepção concorda com a de Bonhoeffer. Podemos resumir em uma aproximação - note bem: não é um definição completa ou perfeita - que Cipolla identifica o estúpido pelo que ele faz; Bonhoeffer, pelo que ele deixa de fazer. Um observa a ação; o outro, a abdicação da capacidade de pensar. Simplificando novamente, a estupidez é um estado da alma (sic!) passageiro, embora possa durar anos. E, para terminar, se uma pessoa é estúpida para alguma coisa, não significa sê-lo um estúpido completo - mas casos extremos flertam com isso também. É consequência direta de alguém que permanece na escuridão por tempo demais mesmo desprezando um caminhão de provas que lhe apresentem sobre um ou vários assuntos. Deixo para o leitor uma pausa para refletir sobre essas duas abordagens de estupidez com um último pensamento: se gente importante debruçou-se sobre o conceito de estupidez - ou idiotice - e de fato transformou nossa percepção sobre o tema, então não estamos falando de aplicar essas palavras como meros xingamentos gratuitos. Quem se esmera em certas ações e ideias pode, portanto, ser taxado assim com razão. Não que eu goste, apenas não me furto a fazê-lo quando necessário. A vida não é um concurso de bom mocismo.

Um Gran Selezione algo novo

Luciana deu uma italianada (rs!) e do frixópi de lá me liga aflita, pedindo ajuda. Para minha tristeza, Barolos e Brunellos novos conviviam com Amarones ainda mais jovens. Sugeri um Chianti; apesar de durarem, ficam prontos para beber mais cedo. E não bastava: ela desejava algo para provarmos já em sua volta. Chegou com um Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020, produzido pela Tenuta della Famiglia Cecchi, localizada em Castellina. Sugeri sua abertura ali pela hora do almoço e entregamos nossas esperanças para Baco. No início da reunião com a Liu presente, representando a ilha, servi um  Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, da Argiolas. Sugeri esse vinho há pouco, e até semana passada estava em 'promo' na Enoeventos. O produtor dispensa apresentações; sou fã do Korem, um bom degrau acima de Iselis, mas seu preço também anda em outro patamar. Está no auge, e ando mostrando aqui e ali. O Jairo do Shot Café representa a Enoeventos em S. Carlos, e pode trazê-lo ao mesmo custo da importadora - comprei dele, assoprando-lhe a impertinência de procurar outro fornecedor - as boas ofertas rareiam rapidamente. Ótimo buquê, com fruta vermelha e especiaria, a boca acompanhando a experiência com café (chocolate? - rs), taninos maduros, pegados mas redondos, produzindo boa persistência e final. Não muito mais a colocar sobre o que já foi dito e recomendar sua compra se estiver na promo. Pela colina, O Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020 encheu taças de vinho e corações de alegria, mesmo estando novo. Estruturado, tânico, encorpado, e claramente fechado. A cereja da Sanviogese mostrava sua assinatura clara, a despeito da madeira competindo ao fundo. Suas qualidades estavam um tanto encobertas pela juventude desse exemplar; ficará bom com mais cinco ou sete anos, e bebê-lo nos dias de hoje configurou-se um leve infanticídio (rs). Tenho visto em nosso mercado alguns outros Chianti e até o Brunello desse produtor. Talvez não seja exatamente o mesmo - parece que o negócio está dividido na família e quem produz uns não produz outros - mas algumas comparações de preço não haviam sido muito animadoras. Valeu a pena ter provado dele, é um bom vinho; que venham melhores oportunidades para comprá-los.

Monday, September 7, 2026

Vinho de primeira, taças grandes!

Introito

   Houve quem não entendesse a menção ao musaranho na postagem passada - passou algum tempo agora, e talvez todos saibam. Esse é o grupo de Uátizáppi usado por alguns bacanas 1, 2 para tratar de negócios pouco republicanos, como já virou clichê. Reportagens levadas a cabo por Veja e o Estadão estão debulhando a estória apesar do sigilo imposto. O filhote de NAP (Nosso Amado Presidente) foi pego com a boca naquilo e aquilo na boca, digo, trocando mensagens constrangedoras com uma conhecida lobista de Brasília. O assunto está bem explicado pelo jornalista Felipe Moura Brasil, aqui (matéria de 24 min). A imagem abaixo resume investigações onde a influenciadora teria recebido quantidade significativa de dinheiro e pago despesas do filhote, que teria atuado, supostamente, em alguns negócios de interesse da intermediadora.


   São mensagens de Lulinha: 
   - A gente tá se arriscando... é só esperar uns poucos meses e poderemos fazer isso sem medo de nada...
   - Eu não tenho nem dim dim nem origem para isso... Não dá preu (sic) gastar tanto agora... Qualquer merda não tem explicação nenhuma.
   - A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc q cuida das minhas finanças.

   Percebe o receio imediato? - bastaria esperar um pouco e fazer sem medo - e uma confissão. Continua: não tenho nem dim dim nem origem para isso. É-me difícil conceber aquele senhor dizer não ter dim dim e - pior - não conseguir justificar algum gasto pela falta de origem. É intrigante como ao Ronaldinho dos negócios não tenha sobrado sequer uma atividade pela qual pudesse, ao menos, ter emitido uma nota fiscal de qualquer serviço de assessoria. E notem: nada há de ilegal se o filho de um presidente, após a administração de Papi, aproveita-se do networking angariado e constrói, até com relativa facilidade, múltiplos negócios bem estruturados. Mas nada restou, e isso simplesmente contraria a proposta da comparação feita por NAP.
Ele próprio, aliás, furtou-se a responder perguntas sobre o filhote. Assim a alma mais honesta deste país põe em descrédito o ditado quem não deve não teme... ou estou enganado? Um passado já comprometedor e um presente ainda pior floreiam o caminho de NAP, em cuja administração se acumulam os maiores déficits da história deste país, descontando a pandemia. É preciso um atestado de idiota para pensar em votar nesse candidato. Sendo de esquerda, envergonha-me apresentar tal constatação. Um momento! Posso ser de esquerda, mas não sou intelectualmente desonesto. Muito menos apoio incompetentes. O que dizer dos recentes suspeitos de corrupção. Nas palavras do próprio NAP, a intermediadora a esse tempo passou a pilantra, e ele nega tê-la conhecido. Apenas um lapso, sabemos todos... Depois seus seguidores não gostam de ser chamados de idiotas, posam de ofendidinhos... um novo estado de espírito inaugurado por tempos de internet para pessoas com profunda dissonância cognitiva.

Amantes de Baco

   A confra Amantes de Baco promoveu outro encontro, já há um bom par de meses. Foram-se as últimas garrafas compradas em grupo e a partir de agora ou a turma se anima a outra compra ou entramos na fase do cada um por si. Se desejasse dar um troco no governo poderia especular alguma compra em modo Jack Sparrow - tenho visto muita oferta desse tipo por aí - mas isso me igualaria àqueles que critico. E nem os confrades aceitariam, conheço-os todos e dou fé. Dar o troco seria uma bela justificativa para que eu mesmo entrasse em dissonância cognitiva; além da questão moral, mantenho-me atendo para não cair nela. Vamos aos embates.

Maquis Gran Reserva Rosé 2023 chegou com um buquê delicado, diferente do cítrico que aprecio mais nos brancos - 😒 afinal, era um rosé... - mais floral. Ainda fresco mas ligeiro, acidez presente sem muita festa nem alarde, agrada quem mantém-se fiel aos vinhos sul-americanos; não tem muita presença em boca e não deixa rastro nem lembrança. Particularmente nunca fui fã de rosés mesmo tendo provado alguns europeus, mas se tivesse que promover uma lambança arriscaria um veredito como falta-lhes. O Akira refletia sobre bons vinhos brancos serem de produção mais complexa se comparados a tintos equivalentes. Fico pensando se produzir bons rosés não esteja um patamar acima. Não conheço, essa reflexão é um long shot. O Barrica 143 2023, alentejano produzido pela Ravasqueira em corte de cepas locais com um Syrah intrometido (rs) apenas não me marcou. Não tenho recordação de suas características e não desgostei para um momento de confraternização e convivência bacântica 😂. O produtor não é ruim - este aparenta ser um exemplar mais básico de sua gama -, e de algum tempo para cá tenho desfrutando - por obra da temperança e sugestão de Baco (mete o saca-rolha!) - de algumas garrafas guardadas por muitos anos ou compradas mais recentemente em ótimas 'promos'. Chegou a hora deles, e o padrão está aumentando. Claro, não recuso vinhos mais simples - apenas não os compro - e assim acompanho opções de mercado que de outra maneira me escapariam. Curiosamente não encontrei esse vinho em Portugal para comparar seu preço. Indicativo de ser um produto destinado especificamente ao público brasileiro? Não procurei muito. O Lopez de Heredia Viña Bosconia 2014, aerado por umas 6 horas, apresentou-se bem melhor do que a garrafa anterior, degustada com a mesma turma - compramos em duplicata. Encheu narizes, mentes e almas com fruta vermelha abundante em primeiro momento e ricas sugestões em segundo plano: especiaria, couro/tabaco (qual? ambos?), e mais. Boca equilibrada, sedosa, fruta repetindo-se, um pouco terroso com taninos vivos e ótima acidez. Permanência longa - querem invocar essa qualidade para cada vinhozinho chinfrim... Seu valor de venda é tubaronesco, embora tenha aparecido em promos aleatórias, com rótulo da importadora e tudo, conforme comentado e comprovado recentemente. Já o Brunello di Montalcino Castello Banfi 2020 levou uma saca-rolhada (sic) logo nas primeiras horas da manhã. Safra nova, precisaria de um serviço longo, com apreensão desde Enochato. Evoluiu bem e mostrou-se bom para ser degustado, embora não escondesse a juventude. A cerejona estava lá, firme, na frente de tudo. Tinha frutas nervosas e toques ricos; os taninos, se não estavam verdes, eram inquietos, apesar de não estressados (risos!). Boa acidez, bom conjunto em boca. Vai melhorar muito e apostaria em 2030 como um início de janela de beberagem para sua versão mais complexa - 10 anos é o piso para bons Brunellos, e esse, para quem não sabe, é o reba dos três produzido pelo Castello. Se você tem, guarde. De um lado vem a reflexão do mete o saca-rolhas, mas por outro recobro a reflexão da postagem passada: Este não é um momento para covardes. Apenas abra outros vinhos igualmente bons.

Vinho de primeira, taças grandes!

Essas moças estão viajadoras demais... Sobramos Liu e eu, e um para o outro nos agradamos, em alguma sexta-feira há algum tempo. Vai tempo de quando citei trecho de um diálogo impagável onde Peter Ustinov, como Batiatus, aborda o vinho. Vou expandi-lo. Batiatus, o proprietário de uma escola de gladiadores, recebe a notícia da visita surpresa de romanos notórios - ninguém menos do que o general Marcus Crassus. Para recepcioná-los, ele recomenda a seus escravos para servirem vinho de segunda, taças grandes... não, não... vinho de primeira... taças pequenas... Mas em uma reunião a dois o dito foi invertido, e ficamos com vinho de primeira, taças grandes! 😂 Quinta da Gaivosa (2015) não me é desconhecido; havia apreciado a safra 2011, em 2021. Já mencionei um bebedor estar se desfazendo de sua adega - felizmente apenas por questões amorosas, a esposa ou as garrafas, quando, até sob auspícios de Baco, ele tomou a decisão correta - e esse exemplar veio no meio de várias arrebatadas a bom preço. Quinta da Gaivosa é um ótimo vinho; nariz com fruta claramente vermelha e toques de chocolate (café?), especiaria e mais complexidade. Entrada em boca mostrando taninos pegados agora arredondados, algo a mentol, deixando aquele aspecto tridimensional de encher a boca, um doce discreto à chocolate, acidez marcante e ótimo final, com persistência longa. Um grande Douro em seu ápice e ainda escalando. Ótimo para beber, excelente para os próximos 5 anos, quiçá mais. Esse sim, se você tem junto do Banfi 2020, não pense duas vezes: mete o saca-rolha! É um vinho de USD 50,00 algumas vezes vendido a R$ 800,00-R$ 900,00, mas aparece em 'promos' por R$ 500,00 ou até menos. Por R$ 500,00, está no limite de 2x.

Uma loja de internet

Havia visitado o Empório Caçador de Vinhos, mas nunca tinha comprado deles. É preciso cuidado, a rede está repleta de golpes. No caso escolhi uma abordagem... agressiva (risos!): contatei o Whats deles e pedi uma ligação de vídeo, explicando ser um comprador que não conhecia a loja física e deseja vê-la. Fui prontamente atendido e a funcionária muito gentil fez um tour, mostrando-me inclusive a garrafa de meu interesse. A motivação aconteceu porque fora-se há pouco meu último Dulcamara, e sabia existir no Caçador, a R$ 199,00, o  Perbruno, do qual degustei duas garrafas. A linha toda era trazida pela Cantu, que nunca primou pelo serviço de seus produtos em degustações - e torna certos vinhos decepcionantes. Talvez por isso os vinhos da I Giusti & Zanza nunca tenham decolado por aqui: eles precisam de areação... mesmo o simples Nemorino, veja no comentário da postagem. Perbruno é vendido diretamente do sítio do produtor a €22,50 (R$ 134,00). O produtor dá um bom desconto ao atacadista, de modo que este não sofra concorrência na venda. Quando o vinho é exportado, ele provavelmente está livre de impostos locais - um governo precisa ser muito idiota para exportar impostos e tornar seus produtos menos competitivos no mercado mundial. De qualquer maneira seu valor estava abaixo de 2x, que é o limite onde este Enochato ativa seu modo comprador. Pesquisei outras opções, várias dentro dessa faixa e outras tantas fora dela - é preciso cuidado! Selecionei o que o leitor vê acima. A entrega foi rápida - menos de uma semana e as garrafas vieram bem embaladas. Empório Caçador de Vinhos é uma loja multimarcas: vende de diversos importadores, a preços algo espremidos. Por exemplo, o Viña Ardanza Reserva da tubaroníssma Zahil está lá a R$ 599,90, o que não deixa de ser atraente para o valor médio dele por aqui - é fácil encontrá-lo entre R$ 700,00 e R$ 900,00. Mas não adianta muito: ele custa 30,00 dólares lá fora (menos de R$ 200,00), e isso dá 3x para o valor do vinho lá fora. Acho que o lojista precisa fazer o dever de casa e recusar vinhos com tamanha variação em desvantagem para o consumidor. Principalmente quando ele aparentemente já está sacrificando parte de sua margem. O risco natural é sofrer encalhe. O consumidor inteligente deixa o produto na prateleira até que a inflação o corroa - ou até um trouxa passar e levá-lo por um valor intermediário, mas ainda assim corrosivo para seu bolso. O mercado está aí. Previna-se.

Ah, claro: como se este articulista ainda precisasse comprovar suas informações como fidedignas:



Saturday, August 22, 2026

Temporada de ratos!

Introito

Está aberta a temporada de caça ao eleitor. Idiotas de plantão colocam suas cabeças fora da toca. Alguns esperam a melhor paga, enquanto outros dão a cabeça à doutrinação alegremente, por conta de uma suposta convicção. Com o El Niño acercando-se e a temperatura subindo, as cidades começam a se infestar de ratos. Faz sentido: em tempo de sufrágio, os ratos naturalmente saem de seus covis procurando votos comida. Ratazanas principalmente, mas musaranhos também. E não se deixe enganar pelo tamanho: são os mais perigosos... Na competição de quem é mais fraco e quem abocanha mais trouxas para suas fileiras, Bolsonéscios e PTlhos são o verso e o reverso da moeda da estupidez, alimentada pela percepção empobrecida por anos e anos de profunda falta de senso crítico, com os cérebros dos eleitores mergulhados na mais completa dissonância cognitiva. Não! A dissonância surge quando a pessoa se depara com cognições contraditórias ao mesmo tempo. É então que o autoengano entra em ação e leva a pessoa a escolher o que lhe agrada em vez do que é lógico ou razoável. Pouco disso importa para PTlhos e Bolsonéscios: irmanados na ignorância, cada um tenta lavar-se nas travessuras do outro como se o erro deste desculpasse os deslizes daquele. Mas isso deveria importar para todos os votantes, porque o segundo turno com gente desse naipe significa dois lados polarizados, munidos de facas, num encontro fatal que condenará a Nação à desgraça nos próximos anos, qual Etéocles e Polinices na tragédia grega. Este não é um momento para covardes, nem para derrotistas ou coniventes - o gado em geral. Essa é a nossa hora de virar a maré, enquanto nação. Às portas da revolução da inteligência artificial, adiar qualquer decisão para 2030 equivale a nos condenar até o final dos tempos. Por alguém com um projeto de país, ou é melhor mudar para Cuba. Meu voto está declarado, e será em Renan Santos.

Uma pequena decepção, e um grande reencontro

Já faz algum tempo, então talvez quem participou vai notar quando eu rolar a picareta. Já bebi do Château Magence tinto duas vezes, e gostei. Andava curioso pelo branco. Combinei com a Liu e a Lu delas comprarem as safras disponíveis de ambos, para uma brincadeira. Por um erro no despacho da De la Croix acabamos com somente com o branco, em primeiro momento. Château Magence blanc 2019 é um corte 85% Sauvignon Blanc, 15% Semillon tinha toques cítricos óbvios com mais detalhes; só não fui suficiente perspicaz para entendê-los. O problema é que eu esperava algo a mais em boca, e isso não veio. Ele parece-me não fazer juz ao tinto do mesmo produtor. Tem sim alguma acidez (tende a ser "média"), alguma permanência, mas não... convence... falta melhor explicação, eu sei. Nessa faixa prefiro Chablis bem comprados (mesma faixa de preço, já com algum aumento recente, inexplicável pela queda do dóla). Claro, pode haver falta de bebedor para entender melhor a proposta - se alguém tiver alguma opinião, por favor apresente-se. O Dulcamara 2013, da I Giusti & Zanza, foi aerado por várias horas (umas oito?) antes de entrar no balde. As meninas puseram-no no nariz e riram ao mesmo tempo, contentes, alegres... satisfação por antecipação, só no buquê. Majoritariamente Cabernet Sauvignon com pequena parte de Merlot e toques de Petit Verdot, tocou o terror (sic! r!) a 14,5° de árco e mais um tanto de frexa (risos!), com aroma ainda rico e evidente em frutas - pode andar mais - especiaria e couro (café? chocolate? não me lembro nem creio em bruxas, mas que tinha, tinha!). Os taninos estão redondos, a acidez está bem presente, o conjunto é elegante, com uma ótima persistência em boca. Foi minha última garrafa, e foi bem compartilhada, com pessoas que adoram o vinho pelo vinho, sem se preocupar com sua procedência, atentas somente à qualidade e à satisfação proporcionada pela bebida. Não poderia ter sido melhor. Dando-lhe tempo para evoluir, Dulcamara é um grande vinho, em sua faixa de preço (uma safra nova, 2022, sai por uns USD 33.00 dólas na Itália, via WineSearcher). Bebi uma garrafa nova, certa vez, com uma patota até grande, e não convenceu. #Ficadica: não se apresse! Mudou de importadora, e atualmente está custando - não valendo... - cerca de R$ 650,00 - tu-ba-ro-nís-si-mo! Preço fora da realidade? Vamos para a próxima!

A próxima...

A próxima - não necessariamente a degustação, mas a parte da postagem - aconteceu com Don Flavitxo e este escravo de Baco na casa da Márcia. O Ghidelli estava presente sob a discreta benevolência dela, que demonstrou muita indulgência para com o grupo registrando o momento. Nota-se cada canalha com seu vinho devidamente embrulhado, os confrades mais enrolados do que cascavel na hora do bote pretendendo oferecer um bom serviço de seu vinho para não passar vergonha frente aos demais. Foi um ótimo pega-pá-capá (rs), acompanhado pelo sempre excelente cardápio promovido pelo casal. 

Sem prometer nem fazer sensação (rs), o branco do anfitrião causou furor pela mineralidade. Francamente, não lembro-me de ênfase nos tons cítricos - óbvios de uma cepa branca mais ou menos tradicional (Macabeo, ou Viura) -, mas o frescor e os toques minerais foram seu ponto alto. O Finca Allende Mártires 2022, de Rioja Alta, é um vinho que mereceria mais envelhecimento, mesmo já mostrando bom ataque e persistência. Não me lembro de outros detalhes; sei que gostei. Não é vendido no Brasil. Don Flavitxo chegou com cara de desavisado e verve de safado enquanto servia de sua garrafa. Apesar do esforço, não conseguiu enganar ninguém. Aliás, alguém enganou ele... Todos foram diretos: Toscana. A Márcia até disse Brunello. Não quis polemizar - estava psicologicamente fraco - mas era um toscano muito redondo para os traços, se posso dizer assim. Sem saber se as regras da DOC mudaram, permaneci calado a despeito da veia pulsando. Apenas fiquei na certeza de que era um corte. E ainda digo: mesmo com o contra-rótulo dizendo 100% Sangiovese, bem, o Brunellogate já mostrou que os italianos não se preocupam sem sacrificar certas leis locais em favor dos resultado$. O Brunello di Montalcino Cordella 2016 mostrou-se por demais redondo, acho que o Brunello mais redondo que alguma vez bebi - embora um Casanova di Neri Brunello Tenuta Nuova (não postado) degustado com a D. Neusa e o saudoso Wilson também estivesse espetacularmente sedoso e tenha deixado saudades duplas. A Casanova di Neri figurou entre os investigados do escândalo citado, sendo inocentada. Pode ter sido impressão, mas sempre mantenho um pé atrás quando encontro vinhos tão acertados quanto Cordella. Será que a safra '16 (espetacular) ajudou? Não sei por qual coincidência Don Flavitxo acabou detentor desse exemplar, entretanto ele estava realmente bom: nariz, boca, persistência, tudo devidamente ajeitado, redondo e pimpão. Se não anotei as notas, um ponto é certo: sua cereja estava lá, característica da Toscana. Agora, que um vinho de tão grandiosa safa e difícil cepa tenha amadurecido com tamanha complexidade em apenas 10 anos é algo além da minha compreensão. Sabendo ser Don Flavitxo um artimanhoso (sic) de primeira, fui preparado. E mais, caprichei no serviço: 12 horas de areação (em garrafa) no Quinta do Noval Reserva 2018. E ele chegou a galope! Nariz rico em frutas e mais notas. Apesar de novo, em bom momento para beber: é cedo para as sugestões de chocolate, cacau, café e similares aparecerem, embora o bebedor com melhor olfato encontrará muita diversão nele além da fruta. Equilibrado, boa acidez, taninos já aveludados e com o toque clássico do Douro, este corte Touriga Nacional (60%), Touriga Franca (25%) e outras cepas mostrou ótimo frescor e presença, com um final de boca realmente longo. Como lembro-me em detalhes desse vinho? Ele andou em 'promo' por aí e cheguei a pagar R$ 200,00 algumas garrafas. Sobram-me algo como meia dúzia, e enquanto degustava ia maravilhando-me ao lembrar de cada uma delas em minha prateleira. O futuro será... glorioso! 😂 Mais cinco anos ele estará um mel na chupeta; com segurança chega a 2036. Para um vinho que beira os USD 50,00, comprar a R$ 200,00 durante o ano passado foi uma pechincha. Como parte da sobremesa, sobrou o Ice Wine de Cabernet Franc da Magnotta Limited Edition em sua safra 2018. Já escrevi sobre ele em sua safra 2016, e esteva maravilhoso como sempre. O leitor usuário de celular pode procurar no menu da lateral direita pelo vinho, escolhendo 'Versão Web' ao final da primeira página do navegador.
😋
Teve mais do que bão...

Sunday, August 9, 2026

Desandado

Intróito: QI 83? Está errado!

   Escrevi em algum lugar sobre o QI dos nossos irmãos brasileiros ser de 83,38. Comentei ser uma estimativa superestimada, e teve até quem me tentou dar um breque: devagar com o andor. Aqui está a confirmação...


   O vídeo tem 3 minutos, sugiro ouvi-lo na íntegra. Os bolsonéscios são compreensivelmente estúpidos por serem idiotas há menos tempo. PTlhos, já o são há 22 anos (primeiro escândalo, Waldomiro Diniz - quem lembra dele? -, fevereiro de 2004). Ao ponto: se as formas de protesto são as apresentadas acima, o que dá pra pensar dessa turma? Você, leitor, aposta em QI menor ou junta-se àqueles cautelosos no andor? Escrevo isso porque um utente comentou, entre sorrisos, o quanto fui cínico na crítica a Renan Santos, na postagem passada. Tenho discutido com bolsonéscios, principalmente, e ouço deles a acusação de considerar Renan/Missão/MBL (confundem tudo) exemplar, sem defeitos. Com intenção puramente educacional, fiz a crítica anterior (chamando-o de coxinha) para mostrar didaticamente como se observa um erro no discurso da pessoa e a desmascara. A partir do exemplo é possível procurar declarações contundentes e pinçar erros mais graves - se existirem -, desconstruindo-se assim as ideias do adversário. No vídeo acima acontece o mesmo, pois no minuto 2:25 Renan comete erro similar, dizendo: "Isso tem nome, amigos, é abuso intelectual de idosos. Isso não é legal, isso é feio, é sujo...". Ele errou redondamente na avaliação. O problema não é o idoso em si. Um idoso culto não cai nessas histórias! Um idoso meramente esperto também não! Caem nessas histórias pessoas inocentes de qualquer idade! Alguém por aí já viu idoso bebendo detergente?! A idade traz alguma sabedoria (ainda que mínima). É o pessoal mais novo - inocentes - e toda essa gente de baixo QI (alguns idosos inclusive!), que se reúne num mar de mediocridade e desinformação comumente chamado de Bolsonarismo. A mais recente veio exclusivamente de bolsonéscios (eles parecem querer monopolizar a idiotia em sua forma mais acabada): pediam o currículo do Renan. A "imprensa" (marrom) - já disse, cuidado com eles! - soltou um pum, digo, os currículos dos principais candidatos à presidência, apontando Renan como letrado a nível de "Ensino Médio". É o cúmulo da desfaçatez, pois apresentou a ficha acadêmica integral de todos os demais, negando-lhe a citação de "Ensino superior incompleto". E não é um ensino superior qualquer. Pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - que Renan abandonou no segundo ano para trabalharpassaram exatos 13 ex-presidentes. Será o décimo quarto um membro do partido de número 14? 😎 Sabe o que isso significa, não é mesmo?

😂😁😅

   Não para por aí: são egressos desses mesmos bancos pelo menos 30 membros (ou ex-membros) da Academia Brasileira de Letras, além dos maiores nomes da ciência jurídica e da história do Direito no país: Rui Barbosa (esse caboclo parece pertencer a qualquer lista dos 10+ que tentamos estabelecer acerca das mentes mais consolidadas da República), Miguel Reale - cujo rebento, também competente, "construiu" o desemprego da Dilma - Ives Granda Martins, Celso Lafer, Dalmo de Abreu Dallari, Fábio Konder Comparato, Damásio de Jesus (famoso pelo curso preparatório 'do Damásio', em São Paulo) e uma infinidade de outros. Notou que tem gente de todo o espectro político?

   Mas ele não concluiu o curso! esbravejarão as antas. Bill Gates e Mark Zuckerberg frequentaram Harvard; Sam Altman (Open AI) e Evan Spiegel (Snapchat) vieram de Stanford, e nenhum deles concluiu a graduação. Não pretendo comparar Renan a eles; o rapaz almeja apenas ser presidente do seu país. Mas retornamos ao ponto: ele não é egresso de nenhuma universidade de beira de estrada, muito menos de um antro de engenharia de m3rd@ ou grupelho de físicos, químicos e matemáticos cuja contribuição à ciência brasileira é aderente à nulidade - e resguardamos alguma exceção que confirma a regra. Ele entrou na faculdade mais importante desde país, desde sempre! Não se surpreenda quando ele diz aspirar ser para nós o que foi Mustafa Kemal Atatürk para a Turquia. Ali Lulá teve essa oportunidade - votei nele pensando nisso -, mas o NAP preferiu aliar-se aos 40 ministérios (sic) e percorrer os corredores da Justiça contra sua vontade em vez de ocupar esse posto. Perdeu, mané! Aceitando antecipadamente algum obscurantismo de Bolsonéscio (orações no Gabinete Presidencial, por exemplo), ajudei a impedir o 'Andrada' de ter quatro anos de vida mansa, e também fui traído - a vingança teve volta! Idiotas e inocentes são enganados continuamente - Uma mentira repetida 1000 vezes torna-se verdade - e viva Goebbels!, por mostrar-nos essa amarga verdade (para minha sorte, boa parte das pessoas desconhece o rapá). É preciso estar alerta sempre, e a sentença agora é clara: sem mais votos para essa turma. Programa de governo fica para outra hora.

Blog desandado ...

   Gasta-se tanto tempo desarmando lorotas que o essencial acaba relegado às beiradas. O blog - seu articulista, na verdade - passa por períodos de baixa inspiração. Até vinho tem faltado. Digo, faltam momentos adequados para escrever ao sabor de uma boa taça, mesmo tendo 400 garrafas à disposição, sejam borgoinhas 2005 e 2009, Baroli e Brunelli 2004, 2006, Rhône 2007, Médoc 2010, Douro 2011, Rioja 2005... essas tralhas... Às experiências entre amigos, confrades e confrarias diferentes - diverso do momento introspectivo de manejar a pena - tem faltado o ímpeto à escrita. Segue-se que percepções exatas ficaram perdidas como... como... como... lágrimas na chuva(!), 
e tentarei passar ao leitor mais uma análise de qualidade, longevidade e aspectos da compra antes de notas e análises mais precisas. Para piorar, algumas fotos parecem ter sumido do meu Euphone, e se cheguei a encontrar algumas no EuCloud, parecem ser em menor número do que o esperado - juro ter registrado mais imagens e eventos. Steve Jobs, que cursou uma faculdadezinha de quinta (sem concluí-la!), está queimando onde merece...

Teve uma brincadeira muito interessante com a patota do #émuitovinho. O Chablis do Domaine de la Motte 2022 apareceu novamente em nossas taças. Já foi bastante comentado, e pode ser acompanhado na etiqueta de marcação na navegação (versão web) que fica à direita do navegador. O dóla baixou, mas seu preço subiu (agora a R$ 270,00 em 'promo' contra uns R$ 200,00 antes), e está saindo do radar. Quem comprou, aproveitou. O Tondônia 2011 andou flertando a R$ 500,00- (note o menos!); por USD 50,00, é o limite da compra. Os vinhos do produtor são sempre bons, mas aqui estão sob as barbatanas de uma das tubaronas do mercado. Aparece em Instagrans diversos - cuidado! Muitos golpes nessa rede (e em outras também!) -, creio que uma tentativa da importadora em fazer capital de giro nestes tempos difíceis, sem picanha na mesa do trabalhador. Tá duvidando que minhas garrafas são 'oficiais', né?

taí na foto, e mais de uma safra sendo descartada sem a menor solenidade. O Bridão colheita tardia 2016 foi uma grata surpresa. Produzida pela Adega Cooperativa do Cartaxo na região do Tejo, é um corte de Fernão Pires e Arinto cujo equilíbrio entre dulçor e acidez foi notado sem esforço pelos confrades. Creio ter sido trazido pela Elvira - ela é fã de vinhos de sobremesa. Vi por aqui em 'promo' (50%) no Empório Itiê, a R$ 82,00 - custa R$ 61,00 no sítio português Garrafeira Nacional. Nesse valor não compensaria ter posto na mala, mas não havia como saber da oferta... Encontrei ser importado pela Imperial, mas não pesquisei a fundo seus demais produtos. Talvez valha a pena ficar de olho. 

   O ponto alto foi - para completa imodéstia desde escriba - seu representante, o Domaine Baud Savagnin 2018. Para quem notou no rótulo o "Génération 9", vai um alerta: o produtor tem tradição familiar datada de 1742(!), um legado histórico absolutamente invejável. A Savagnin é tida como uma cepa "difícil", com seus amantes e detestantes (sic! rs!), estes aparentemente em número muito maior do que os daqueles. Seu estilo oxidativo é incomum e não passa despercebido, daí sua legião de detratores contra um número reduzido de simpatizantes. Destaca-se pela acidez marcante com toque muito seco em boca. Ótima persistência, quase pegajoso nas papilas, e o Ghidelli definiu, com uma única palavra e de maneira absoluta, seu ataque - a impressão que a bebida causa na boca logo após o primeiro gole. Não comentarei agora pelo motivo prosaico de algumas confrarias terem-se oferecido para rachar algumas garrafas de minha mala, e gostaria de apresentar o vinho a elas antes explicitar a percepção Ghidelliana. 

   Vários vinhos do Domaine Baud são trazidos pela Élevage. Embora não tenham um exemplar comum da Savagnin, possuem em catálogo o Château Chalon - denominação onde se produz o Vin Jaune, a expressão máxima dessa cepa no Jura. Infelizmente a quase 3x.


   Outro assunto:

   A última viagem ao Chile rendeu. Não estão incluídas na foto duas garrafas do Alión compradas a módicos R$ 520,00, contra os mórbidos R$ 1.999,97, preço cá. Assim você, brasileiro idiota, crente de estar sendo beneficiado momentaneamente pela ausência de tarifação das 'blusinhas' - que voltará em setembro! - segue sendo taxado em 50% até na compra de suas cuecas, respiros e flatos, enquanto quem pode viajar para o exterior traz produtos por 1/4 do preço e impostos a 14%, no máximo (tem o exorbitante lucro brasil embutido aí, mas é outra história). É isso, faça o "ele" e creia-se feliz, quando não passa de um otário de pai, mãe, avós, bisavós e demais ancestrais até a linhagem do Australopithecus.

   Fica a promessa de uma postagem em breve, sem a introdução política - por mais sensível que seja nossa situação, quase às portas do próximo pleito, a título de atualização das atividades. 

Como se precisasse comprovar...



   Para finalizar,



   A Enoeventos - uma das novas tubaronas do cenário nacional - está com algumas 'promos', e uma delas indico e recomendo. Não sei até quando vai, mas a oferta do Argiolas Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, de R$ 280,00 por R$ 230,00 ficou subitamente atraente. Em safras recentes, é encontrado a 16.00€ (R$ 94,00), mas esta 2019 está pronta para ser bebida, ótima, espetacular. Seu produtor (Argiolas), além de ser um das mais prestigiosos da Sardenha, ocupa lugar de destaque na elite vitivinícola italiana - seus vinhos frequentemente recebem alguma Bicchieri no Guia Gambero Rosso. Você pode desconfiar de guias e avaliadores - eu também! - mas me aponte um vinho ruim da Argiolas! Meus comentários sobre o Korem fazem alguns colegas que não o experimentaram morderem seus bigodes - e estão certos por invejar quem já o degustou. O Turriga também é grandioso - acho que não justifica seu preço, mas é outra conversa. Na outra ponta, com bom custo-benefício, prove de Iselis Monica di Sardegna. É feito com uvas autóctones, outro mérito do produtor ao lutar pela divulgação de seu tesouro local. Mas volte ao começo: 16,00€ = R$ 94,00. O valor sem 'promo' está a R$ 280,00? 3x... tubaronice pura. Até eu peguei umas garrafinhas a mais nessa 'promo'. Não perca tempo.

Thursday, May 7, 2026

As outras estórias

Introito - Renan, um coxinha

   Bolsonéscios e PTlhos voltaram suas metralhadoras de massinha para o pré-candidato Renan Santos. Ouço críticas - bisonhas - de ambos os lados; como sempre, as da esquerda cobrem-me de vergonha. Toca levantar a pena para ensinar essa turma a fazer a boa crítica, atacando a ideia sem arremeter contra a pessoa. O vídeo abaixo tem dois minutos e meio. Mostra como o sr. Renan Santos é um ótimo candidato a coxinha. O termo é usado maciçamente em São Paulo, significando uma pessoa conservadora e inocente que segue padrões típicos das burguesas classes média e alta; um mauricinho por assim dizer. Assista, e comentarei abaixo.


   Está claro, a partir de 38 segundos: "Veja, quando você é traído uma vez, a gente (sic) aceita. Pô, fui traído uma vez... acontece. Todo mundo tá sujeito a isso. Agora algo muito diferente é você permanecer sendo traído e aceitar...". Como é que é?! Sim, "todo mundo tá sujeito a isso", é uma grande verdade! Mas supor o cidadão sento enganado ininterruptamente por Flávio Bolsonéscio e aceitar esse cenário? Aí não! Que conjectura cretina! Não poderia sê-la mais, aliás! Onde já se viu, imaginar o cidadão de bem sendo embromado continuamente por seu líder e persistir impassível como gado no pasto. É preciso ser muito, mas muito, mas muito otário elevado ao quadrado para continuar nessa posição sem rebelar-se contra um eventual mentiroso contumaz cuja missão na Terra não parece ir além de atazanar nossos ânimos. Está bem, ambos os lados possuem QI inferior ao de uma Glyptemys insculpta, a popular Tartaruga-de-Madeira, que em testes de aprendizagem em labirinto em "T" precisou de apenas quatro tentativas para encontrar seu alimento. Humanos, presos em labirintos mentais, perduram cativos por anos, até décadas, e tanto não percebem quanto não fazem esforços para escapar dessa situação, mesmo se alertados! A tartaruga está melhor de inteligência (sic) do que muito título de eleitor preso em ambulante desavisado espalhados pelo país. Voltando, afinal a crítica tem Renan como destinatário. É isso: pego em um momento de improvisação, ele atenuou a análise sobre a postura de quem se deixa enganar sequencialmente e, ao fazê-lo, ficou parecendo um coxinha - posto assim, e apresentando o argumento para bolsonéscios e PTlhos, estes certamente o elegerão como tal, sem sombra de dúvida. É o mais longe que podem almejar atingir, pobres gados. Puxando o tema desta postagem, outras estórias, quer um projeto de país? Procura uma equipe jovem e com disposição de tocar avante uma transformação de verdade no Brasil? Escute esse senhor e seu time. Alguns improvisos podem soar coxinha (sic), mas ele é de longe a melhor opção para uma nação tão combalida como a nossa. Ah, tem mais: de quebra, ouve-se no final do vídeo uma reflexão oportuna por parte do coxinha. Bolsonéscio de bem (sic), apresente um plano de governo por parte de seu... líder... se consegue chamar assim quem o engana tão deslavadamente. PTlho, vou deixá-lo de fora nessa, por óbvio: NAP não tem qualquer proposta, está claro depois de três mandatos - fora os Anos Dilma. Ah, questiona a proeza da tartaruga? Leia aqui.

Outras estórias...

Os Paduquentos continuam sua jornada pelos brancos. Depois de um Saint Véran, foi a vez do Chablis, produzido pelo Vincent Wengier em 2023 (a safra está no contrarrótulo). O buquê cítrico de entrada foi facilmente reconhecido e agradou. Não estou certo se o Paulão disse Pera, mas tinha algo mais amarguinho. Limão? O Duílio destacou o impacto em boca, sem saber se expressar. Mineral, sugeri. Isso! Era a palavra que eu procurava!, ele se entusiasmou, de verdade. Um toque levemente salgado, não? - continuei, para a completa concordância do confrade. Sim, a mineralidade se destaca bem, como esperado em um Chablis. O mesmo cítrico repetia-se no paladar, com acidez média, talvez média-mais, álcool a 13%, o salgadinho já mencionado, com permanência e final não acompanhando a apresentação em boca, mas bem definidos. Pelo que pagamos (R$ 170,00), surpreendeu positivamente. CellarTracker e Vivino falam em USD 25,00-USD 30,00; no sítio do produtor custa € 21,00. Razoável. Esgotou (não sei quando, é uma dessas páginas que o Google encontra) em uma importadora a R$ 265,00, um pouco além de 2x. Mas a compra foi ótima. Está no ponto de beber, de agora até o próximo ano. 

   Há algum tempo abri um Noval, o Touriga Nacional 2017, se não me engano - não fotografei. O exemplar não evoluiu bem em garrafa, e mesmo com aeração não decolou. Os confrades não aprovaram com razão; embora mostrasse notas bem discretas de fruta e alguma acidez, estava no limite do bebível. Haviam provado de outros Novais, sabiam da qualidade, e aquele ficou um um sabor de ter faltado. Passou algum tempo e este Enochato sacou mais uma garrafa para espantar a frustração dos amigos, desta vez na safra 2020. Aerou por umas três horas e foi servido às cegas depois do Chablis: chegou com força, tocando o terror pra cima de mentes a almas, memórias e nervos, narizes e bocas, impondo-se, como adoram os Paduquentos. Muita fruta na frente, seguida de especiaria e algo herbáceo para fechar. Tem mais complexidade ali, café, ou chocolate, para ser desvendado. Gigante... Boca com taninos firmes encontrando a maciez em estágio inicial - vai longe... tem fruta, o chocolate (café?) volta a aparecer, tem uma pontinha do dulçor característico dos Durienses e ótima acidez. A madeira comedida deixa sua marca, os 15% de álcool estão equilibrados e a permanência é longa - longa de verdade, não àquela vergonha atribuída a sul-americanos de R$ 120,00. Chega a 30 dólas lá fora, e em algum momento comprei a R$ 199,00, ou até menos - estavam sendo desovados ali por '23 ou '24. A Vingardevalise ainda tem o Syrah 2018 por esse preço, e vale a pena. Está pronto para beber; se cabe no seu bolso, não perca. 

Mais estórias...

Havia combinado de jantar com a Liu - ela insistiu em levar o vinho. E às vezes dá tudo errado... 😨 Bem, não tudo, nem errado, para falar a verdade, e como veremos mais adiante. Ela estava abrindo uma garrafa quando a rolha deu uma esfarelada. Sem um saca-rolhas de pinça à mão, resolveu pegar outro exemplar para poder aerá-lo pelo menos uma hora. Felizmente a rolha do segundo colaborou... 😄 O vinho em questão era um dos meu preferidos, e eu a havia presenteado com ele! Ah, não é que deixou de sê-lo, eu apenas não consigo mais comprá-lo ao valor pago durante a pandemia (R$ 265,00 a R$ 290,00), quando devo ter comprado, durante aquele ano, um total de 12 garrafas. Mostrei pra muita gente. Bebi algumas garrafas sozinho - que felicidade! Dei pelo menos duas de presente. Então, num gesto muito carinhoso e desprendido, um precioso frasco voltou para mim...

Korem é o nome da fera! Produto da Argiolas, é um dos grandes representantes da Sardenha, em seu corte não linear (rs!) de Bovale, Carignano e Cannonau. Quão bela é a criação do Senhor - 😒 quando ela dá certo, claro! E Korem é sempre uma aposta certeira: buquê carregado como ficam nossas árvores frutíferas no verão do Sudeste, imerso em frutas maduras, e ainda sobra espaço para um desfile de sensações; nem precisa ter muito nariz para perceber, tem de tudo! Café, chocolate, fumo? Estavam lá, pelo menos dois deles e para melhores narizes classificarem. Algo de especiaria, couro, herbáceo. Essa talvez tenha sido a melhor garrafa que provei dele: a acidez está maravilhosa, a madeira dá o toque e os demais atores (álcool, dulçor) estão maravilhosamente equilibrados. Korem 2015 é o vinho em seu esplendor; ótimo momento para se degustado, com mais alguns anos pela frente. Não sei como ele poderia melhorar mais, a tendência é manter-se assim por algum tempo e depois começar a declinar. Ao final, uma certeza: ótimo agora. Sobre preço/valor, as postagem passadas já fecharam a questão.

Uma estória (quase) triste

Aqui recupero a estória da Liu e sua malfadada rolha. Ela estava abrindo nada menos do que um Quinta do Vallado Field Blend da histórica safra de 2011. Quando soube o que era, comentei que sim, o vinho sobreviveria na geladeira, mas precisaria ser consumido no dia seguinte... como ela tinha uma sequência encadeada de aniversário, casamento, crisma e batizado pelos próximos dias (risos!), não poderia bebê-lo. Pois eis que a Paduca veio salvá-la, ao melhor estilo de João de Santo Cristo quando aceitou a passagem do boiadeiro com destino a Brasília. Ela deixou a garrafa em casa e os Paduquentos, devidamente alertados, apresentaram-se para os trabalhos em uma incerta de surpresa mas muito bem vinda. A vinificação desse vinho está sob os cuidados de Francisco Olazabal, um ícone da viticultura portuguesa e cujo foco é a ênfase na melhor expressão do terroir lusitano. Já bebi dele algumas vezes e adianto: é grande; posto lado a lado, ele daria uma lapada em Korem. Lembre-se: ele repousou 24 horas em geladeira. A temperatura pode ter desacelerado a velocidade de oxidação, mas ela aconteceu. A fruta vermelha mostrou-se exuberante, intensa... alguém falou framboesa e/ou cereja, e concordamos com essas sugestões. Um toque de carvalho pegado convidava a prestarmos mais atenção, e por trás dele vinham mais notas. Chocolate/cafe? Tabaco? O destaque fica por conta da intensidade, mesmo face a Korem: mais... penetrante, profunda... seguramente mais complexas também. Em boca, taninos vivos mas macios e sem arestas misturavam-se a uma acidez delicada e enganadoramente discreta - parece baixa, mas o que explicaria a persistência? Frutas e chocolate (novamente), álcool bem integrado, um conjunto muito acertado aos 14 anos e ótimo momento para ser degustado. A permanência é outro ponto alto: após um gole o bebedor saliva, engole e ele continua lá. Outro indicador de acidez... Vallado ainda vai longe - cinco anos tranquilamente mantendo esse aspecto, e depois algumas notas poderão cair para outras se reforçarem: característica de um ótimo vinho ainda em evolução. Beba ou guarde. Um Vallado nem tão bom - safra regular - estraçalhou um ícone Uruguaio, está aqui. E custa USD 35,00 em safras recentes (tá, a 2011 está avaliada em uns USD 90,00). Mas qualquer ícone sul-americano custa USD 100,00+... Repito: estão caros. Bem, se idiotas pensam em votar em Bolsonéscio Filho ou NAP tudo é possível, inclusive pagarem tanto por vinhos de terceira quando poderiam comprar um de Quinta (rs! sic!). 

Sunday, April 26, 2026

Os 60 anos do Paulão e outras estórias

Introito: as faces da mesma moeda

Pior que se deixar enganar alegremente é, mesmo alertado, 
sucumbir à mentira, à desonra e à perfídia, por singela ignorância.
Oenochato

   Estava em um café com amigas, todos devotos de São Drogo, quando um PTlho, advindo de algures mas algo íntimo dos fiéis, senta-se e comenta uma piada acerca de crença dos bolsonéscios em alguma idiotice. Ri largo, aberto, companheiro (literalmente) e confiado de todos partilharem sua convicção. Pelo menos eles têm uma desculpa razoável, provoquei, e continuei após a resposta esperada (Qual?): Eles são idiotas há menos tempo. O caboclo calou-se, e é fácil saber do que se trata...


   Em uma sociedade polarizada idiotizada como a nossa, argumento contrário congela indivíduo com um mínimo de honestidade intelectual pego na infâmia; por outro lado, apetece o ânimo do idiota útil acorrentado à própria fé, e ele adentra a arena para enfrentar Golias sem ao menos portar uma funda, confiando na força exclusiva das mãos. Ora pois (rs!), na semana seguinte ouvi comentário equivalente, uma piada exatamente igual com sinal invertido, na boca de um bolsonéscio e retruquei da mesma maneira: A única diferença entre vocês é que os PTlhos são idiotas há mais tempo, vocês não perceberam que acreditam na mesma conversa mole pela boca de outro... e foi a deixa para o confrade sacar a espada e vir para o combate com a certeza dos ímpios quando defendem Satã acreditando pelejar pela mais sagrada ortodoxia. Essa é a percepção da população que se considera informada hoje: cada uma professa um mantra igual mas com sentido contrário ao de seus oponentes intelectuais (sic), vendo-se portadores da Palavra, senhores da boa-fé, arautos do bom, do sincero e do honesto. Assumem-se como o exército da verdade, não passam de uma turba de obtusos. Bolsonéscios e PTlhos são assim: as faces da mesma moeda, tostões de R$ 3,00; e não podendo ser mais falsos, acedem com estardalhaço sem vender uma única e singela ideia decente, digna ou honrada. A pergunta é se essa caterva deixa-se enganar alegremente ou submete-se pela ignorância.

O níver do Paulão

Numa extraordinária de quinta-feira o Paulão chegou aos 60 anos. Pensei em abrir um vinho de 1966, mas só tenho um de '67; apenas um ano, mas não vale... Procurei algo com "60" no rótulo: 60 medalhas, por exemplo, mas o exemplar disponível tinha apenas três... Considerei comprar um vinho de 60 cruzeiros, mas ponderei ser demasiada desfaçatez. Fui aos múltiplos: 15 é quociente de 60, e um vinho nessa idade viria a calhar. Pronto! Nem precisei procurar muito, 2010 foi uma ótima safra em praticamente toda a Europa, e por mera coincidência tenho alguns exemplares desse ano. Para acertar as contas, a colheita europeia acontece no segundo semestre, portanto um vinho de 2010 está chegando agora no meio dos 15 anos. Do começo... o recente interesse dos Paduquentos por brancos fez-me correr atrás de algumas ofertas, e escolhi algumas opções mais simples para introduzi-los a esse hábito. Enquanto servia a primeira taça, comentei sobre Saint Verán: uma região mais modesta da Borgonha dentro de Mâconnais, sem vinhedos Premier ou Grand Cru, com vinhos frescos para consumo jovem, embora - dizem - alguns sirvam para guarda. Alegremente frutado - o Paulão foi direto no abacaxi - e depois de deixar os confrades analisarem, emiti uma sugestão de lima em boca. O rosto do Duílio, que havia sugerido limão sem muita certeza, iluminou-se, e ele concordou. Seu buquê não resume-se a a abacaxi nem a boca a lima; tem mais complexidade a ser desvendada por narizes melhores. Château des Correaux Saint Veran 2023 mostra boca com o frescor esperado, acidez presente, um salgadinho da mineralidade e um conjunto ao agrado de todos. Wine Searcher aponta para 20 dólas, embora tenha encontrado a 14 Euros por fora. Pagamos R$ 190,00, uma boa compra pelo WS mas não tão boa em termos gerais. Não se pode ganhar todas... Com um lombo saindo do forno, servi o tinto às cegas. Paulão levou ao nariz e foi rápido: Já bebi algo parecido com isso... De fato, não foi postado mas havíamos provado um Nebbiolo da Fontanafredda há não muito tempo, uma ou duas reuniões antes. Daí ele deu mais uma cafungada na taça, aproveitou do buquê e disparou: Italiano... O Duílio não comprou a proposta e preferiu mais um de seus engraçadíssimos vacilos, além de suas opiniões políticas. O Barolo Broglio Serralunga 2010, da Azienda Agricola Schiavenza, aerado por 24 horas, chegou arrombando os narizes com notas pegadas de frutas vermelhas, couro/fumo (qual? ambos?) e um toquinho herbáceo. Boca gorda, taninos pegados, acidez média-mais, madeira discreta, integrada, álcool  adequado, comportado, e um ligeiro dulçor: uma ótima combinação para grudar nas bochechas e não soltar até o próximo gole! Para mim, vem-se tornando quase uma prática usual: ótimos vinhos, mesmo envelhecidos, abra um dia antes. 🤨 não arriscaria com Don Mechor e similares sul-americanos, o leitor prossiga nessa seara por sua conta e com discrição... (sic! rs!). É um vinho vigoroso, potente, ao estilo que gosto! Serralunga é uma comuna muito prestigiada em Barolo, e Broglio é um de seus vinhedos mais notáveis; vinhos novos do produtor (2021) podem ser encontrados por 30 Euros, e então a paciência fica por conta do comprador. Safras notáveis - como a 2010 - e devidamente envelhecidas alcançam USD 90,00, segundo o WS. Comprei há muito tempo, por algo como 3XX,00 cruzeiros (sic) na Casa do Vinho Famiglia Martini. Eles tinham ótimos preços à época, bem como uma boa variedade de opções. Atualmente parecem estar um pouco derrubados - não é de estranhar, com a crise não comentada em que vivemos - mas ainda assim encontram-se ótimos Brunellos das excelentes safras de 2006 e 2010 a preços razoáveis. Até há pouco tempo tinha alguns de 2001, algum sabichão passou por lá - não, não fui eu. E nunca é demais recomendar: confira os preços pelos do Wine Searcher. Por exemplo, o Langoa Barton 2005, ótima safra, está a quase R$ 1.700,00, o que dá 3x... não vale a pena.

   Encerro por aqui. A quem ficou esperando por outras estórias, conforme o título, lembro a postagem dos quatro vinhos onde entraram cinco: assim como aos Três Mosqueteiros juntou-se D'Artagnan, a este escriba acabou o fôlego nesta noite de domingo. Para quem chegou até aqui, meu muito obrigado! 😆