Introito - conclusão em pedaços; pedaço 1
Desde há muito tenho convivido com bolsonéscios e PTlhos e notado seus cacoetes. Não os abarquei de imediato, mas, ao longo do tempo, passaram a fazer sentido. A quantidade de estupidez nos argumentos dessa turma envergonharia qualquer pessoa intelectualmente honesta a ponto dela enfiar-se num buraco e chorar. Mas, claro, devidamente embalados na mais profunda dissonância cognitiva, estúpidos não padecem de semelhante sensação. Darei alguns exemplos de como operam os bolsonéscios com seu gado - e não pretendo descartar a tese do mesmo valer para PTlhos - e a hora deles chegará. Apenas vi operando mais detalhadamente nos primeiros. Parece estar na origem de todo o mal (sic, rs) a validação imediata, em grupos de autoapoio, das concepções mais toscas - desde que em consonância com o ideário coletivo. Sustentado pelo desejo de validar sua crença, o utente encontra na aprovação dos pares um mecanismo que, aos poucos, enfraquece seu senso crítico, tornando-o influenciável por argumentos cada vez mais rústicos. Então os influenciadores desse sistema começam a produzir conteúdos dizendo de início verdades rapidamente misturadas a meias-verdades continuando com omissões deliberadas e insinuações maliciosas, desembocando em conclusões cujo sentido só pode ser aceito por quem já foi dominado pelo discurso bestializante. Como bolsonéscios se estupidificaram velozmente - a amortização do cérebro às vezes é tão banal quanto profunda -, passaram a simplesmente espalhar vídeos sem um único comentário, deixando clara sua concordância com tais sinalizações - e, sem dúvida, esperando a reverberante aprovação de seus iguais. Em exemplo antigo, datado de 2021, ao qual intitulei O fedelho da gasolina, um fedelho qualquer explicava em tom professoral a razão do aumento do preço da gasolina, jogando a culpa nos governadores dos estados. Não foi difícil desmascarar o falatório: bastou pesquisar a elevação do barril do petróleo Brent e a desvalorização do Real frente ao Dólar no período e apresentar a convergência dos dados: entre janeiro e dezembro de 2021, o Brent subiu cerca de 35% em dólares, mas, convertido em reais, encareceu aproximadamente 43%(!). E não estamos falando coisa alguma de impostos nessa conta... Elementar, não é mesmo?
Exemplo recente refere-se a um vídeo, aqui. É um curta de 2:15 e o leitor não compreenderá muito sem olhar. Gaste dois minutos. Em resumo: a discussão gira em torno de países comunistas/socialistas serem pobres e países capitalistas serem ricos. Invocando um laureado com o Nobel de Economia, o orador dá como exemplos de países ricos a Irlanda, a Dinamarca e a Suíça. Em dado momento o sujeito mostra uma foto por satélite das duas Coreias, o sul muito iluminado e o norte quase completamente às escuras. A discussão foi assim (há uma edição para torná-la mais civilizada):
[Provocação] - E ainda tem pessoas ( 🤔) que apoiam ESQUERDA.🤦🏻♂️🤦🏻♂️🤦🏻♂️
[Eu, sobre o argumento do influenciador] - Diz que o outro lado escolheu o estado controlando tudo e outro escolheu o mercado... Ora, a Coreia do Norte é sabidamente um dos estados mais corruptos do mundo. Seu atual presidente é filho e neto de ditadores. O patriarca ascendeu ao poder por meio de um sanguinário golpe de estado.
[Continuo] - Maicon fala em índice de liberdade econômica de países como Suíça, Irlanda e Dinamarca.
✔️ A atual presidente da Irlanda é de esquerda;✔️ A Dinamarca tem em Mette Frederiksen uma primeira-ministra ligada à Social-Democracia;✔️ A Suíça hoje é governada pela centro-direita, mas de 2014 a 2022 também esteve com o Partido Social Democrata!
A resposta?
[Provocação] - Você está certo, a BÍBLIA tá errada.✔️ Viva feliz na sua ideologia.😌
A intenção dos exemplos era simples: mostrar que riqueza e liberdade econômica não são incompatíveis com governos de esquerda. Não se tratava de afirmar que esses países fossem “de esquerda” em algum sentido absoluto, tampouco que sua prosperidade decorresse de seus governos de esquerda. Talvez eu não tenha deixado isso claro para meu debatedor. De qualquer maneira sua resposta obedece à máxima que já comentei sobre o estúpido: ele deixa de responder aos argumentos e introduz uma nova autoridade, terminando com uma atribuição de identidade ideológica a mim.
Para continuar, torna-se necessária uma explicação detalhada. Porque um laureado com Prêmio Nobel foi citado, o ouvinte desavisado considera toda a argumentação como uma verdade suprema: a Bíblia. E o meu ponto é: não vou assustar-me de enfrentar um Nobel, apenas vou conferir se a sua invocação foi bem aplicada ou se é - como enunciado, uma sequência que vai da verdade inicial às insinuações maliciosas já previstas. Antes, um aviso legal, um disclaimer... a proximidade de um canalha de primeira grandeza nas vizinhanças, por certo tempo, obrigou-me à leitura de uma obra há muito negligenciada: A Arte de Ter Razão, de Schopenhauer. Nessa obra o filósofo demonstra os expedientes pelos quais pode-se buscar a vitória em um debate por meios lícitos ou ilícitos, em vez da verdade. Conhecer Schopenhauer é saber onde os patifes trapaceiam. E, tão importante quanto, não usar dessas ferramentas para distorcer o debate é uma questão de até onde chegam nosso universo moral e nossa honestidade intelectual. Percebe como as coisas vão-se fechando?
Começemos a explicação. O Nobel não foi concedido a Hayek pela demonstração que países com maior liberdade econômica são mais ricos. A motivação do prêmio foi "por seu trabalho pioneiro na teoria da moeda e flutuações econômicas e pela análise penetrante da interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais". Não pode haver dúvida, está aqui! Não entendo de economia, mas a leitura do laureado é esta. Então submeti ao ChatGPT o vídeo e os dados sobre Hayek disponíveis nos vínculos, e perguntei se a teoria do acadêmico sustentava a conclusão do discurso. A resposta foi: O Nobel não foi concedido a Hayek por demonstrar que países com maior liberdade econômica são mais ricos. Aí está. O texto usa a autoridade de Hayek para conferir legitimidade a uma conclusão sobre liberdade econômica, propriedade privada e prosperidade que o Nobel, por si só, não demonstra. Se essa autoridade per se é apresentada como suficiente para validar a conclusão, estamos diante de um argumentum ad verecundiam (apelo à autoridade). É o Estratagema XXX de Schopenhauer em A Arte de Ter Razão. Ao fim e ao cabo, parece claro que o vídeo não é exatamente uma informação ou reflexão, caracterizando-se mais como uma catequização de ignorantes.
A dado momento comento: Confia em vídeos de quem nem conhece, mas desconfia da palavra de quem lhe é próximo, nada ganha com sua ignorância e o avisa do lodaçal onde está metido há muito tempo. A resposta? Rapaz!! Você se sente dono da razão e não há argumento que o tire dessa posição. Isso não é um argumento. É uma imputação simples, sem qualquer amparo, que tenta descartar uma argumentação completa.
Mais: a imagem do mapa da Coreia do Sul iluminada não me saía da cabeça. Fui procurar... e adivinhe... veja se a comparação abaixo não faz sentido: a foto da direita ou foi saturada artificialmente ou ela apenas tem uma exposição um pouco maior (uma combinação de ambas, ou com outro tipo de manipulação?), aumentando a impressão de iluminação. O resultado é de fato impressionante, mas não representa "a verdade" do que se vê ao olhar para a região a partir do espaço. À esquerda temos uma foto tirada da estação espacial e ela própria reconhecidamente melhorada para aumentar o contraste, confira a informação exata aqui. Nenhuma delas é uma fotografia "real" - neutra - mas demonstra como uma pequena alteração pode afetar enormemente nossa percepção.
O bolsonéscio recebe informações aparentemente verdadeiras, mas que, analisadas com algum senso crítico, são claramente enviesadas: Um lado escolheu o Estado controlando tudo... - não! Os norte-coreanos não escolheram! Eles são reféns! Seu sistema eleitoral é fraudulento; toda a comunicação é controlada pelo Estado. Mais: procure no mapa os vizinhos do país: ao norte, Rússia e China. Ao sul, separado por um corredor minado e casamatas, a Coreia do Sul. A leste, o Mar do Japão, e, a oeste, o Mar Amarelo com suas costas 'adequadamente' patrulhadas. Para que lado corre o pobre norte-coreano? Mas nada disso ocorre ao ouvinte. Trata-se tipicamente de uma estupidez à la Bonhoeffer...
Por conclusão: o modus operandi das lideranças bolsonéscias é invariante no tempo e no espaço, limitando-se ao envio de "comunicados" prontamente aceitos sem questionamento pela comunidade de idiotas - comumente designada "gado". Retomo aos cérebros amortizados. É isso: a estrutura crítica desse utente vai-se amortizando aos poucos, em parcelas de uma dívida inesgotável corroendo seu universo moral a cada prestação. Chamei a esse comportamento deserto de ideias, pois bolsonéscios - e seu candidato - não têm ideias. Nenhuma. Depois será a vez dos PTlhos.
Vinho não pode sobrar...
Havia imaginado uma pegadinha com a confra Nóis Trêiz (sic), ultimamente turbinada pela Manuele. Mas a experiência mostrava: duas garrafas para os quatro membros representavam a justa medida - mesmo com este Enochato saindo com a sensação de carecer um fundinho de taça ao final... Com três, mesmo pelo maior esforço, sobraria um bom tanto. Faltava boca, então... foi quando a corneta de konvokation (sic) soou no celular da D. Neusa, e ela não se fez de rogada. Um dos vinhos estava posto, por combinação anterior. Havíamos pego um Château Magence 2014, e a brincadeira giraria em torno dele, servido por último. Havia comentado com a Lu e a Liu: vinho da região de Graves, de onde, no meu aniversário passado, havíamos provado do Domaine de Chevalier. Fui enfático: aquele era um Grand Cru Classé e este seria um vinho comum da região, portanto o tema da comparação não seria com aquele; Magence 2014 seria o calibre. As três garrafas tiveram tempo de respiro similar: uma hora antes do encontro. Simplificando, fizemos a primeira rodada após todas elas resfriarem. A Manu palpitou primeiro: Tem Merlot. 😒 safadinha... As confrades não opinaram sobre a cepa, mas gostaram. E veio a segunda. Dúvidas, comentários, opiniões começando a se formar. Dois franceses?, teria dito alguém, sem unanimidade. O terceiro era conhecido e foi provado. Fizemos mais uma ligeira rodada. Um dos exemplares havia resfriado um pouco e foi-lhe sugerida - pela presença de muita pimenta (pimentão?) - a titularidade de chileno, logo descartada quando a temperatura subiu um pouco. Mas, enquanto percepção, foi divertido - e um alerta: o ponto de serviço é uma variável à qual deveríamos dar mais atenção. Ao final, houve uma concordância esmagadora: o segundo vinho às cegas era o melhor. Atrás dele, houve quem gostasse mais do Magence 14 e quem gostasse mais do primeiro (eu). O resultado deixou todas boquiabertas...Três safras distintas do mesmo vinho: 2005 e 2010, clássicas, e 2014, fora do comum, separadas por (quase) cinco anos cada. Já havia provado de um Magence com quase 20 anos quando, em 2020, degustei a safa 2001. Por isso estava confiante de que o 2005 poderia aguardar o mesmo período. E foi assim, à sombra de uma boa taça, com tão agradáveis companhias, a vertical desse bom vinho foi apreciada. Château Magence 2005: curiosamente (ou não!) senti falta de alguma nota terciária. Não havia! Fruta, madeira discreta, especiaria e couro. A ficha técnica no sítio do produtor está corrompida, mas consegui a informação no Vivino: 50% Cabernet Sauvignon, 40% Merlot e 10% Cabernet Franc - creio que as demais sejam no máximo pequenas variações em torno dessa proporção, pois o Château só produz dois vinhos. Manu pegou a Merlot no pulo... Em boca os taninos bem redondos acomodavam-se bem e harmonizou com a entrada de Parmesão, mel e Parma. A pimenta da Cabernet estava lá, discreta, como é típica da cepa em Bordeaux. Acidez média+, com toque de carne(?) e final persistente. Está em boa hora, mas pode envelhecer ainda mais e chegar nos toques terciários. Château Magence 2010: tecnicamente um degrau acima enquanto safra (2005 recebeu nota 98, e 2010 nota 99), estava mais vibrante... harmonizou melhor com a entrada e com o prato principal - carne, claro. Buquê mais complexo, taninos mais firmes, mais acidez. Comparando com a primeira, seria mais uma diferença entre garrafas do que uma distinção entre safras? Estava mais completo, por isso agradou a todos. Château Magence 2014: como dito, alguns apreciaram mais este do que o 2005. Os taninos estavam claramente mais novos, a acidez aparentava-se mais presente, um vinho, no geral, mais marcado. Acho que foi ele que, resfriado um pouco além do ponto, passou por chileno. Mas foi só por um momento (risos!). Ainda na fase às cegas, estimuladas por mim, as confrades estimaram a idade dos vinhos. Na melhor das hipóteses foram considerados de mesma idade, o 2005 ligeiramente mais velho. Mas nove anos os separavam. Foi de fato muito divertido. Não tenho muitas mais oportunidades para brincar dessa maneira - até porque o valor do Romanée-Conti subiu demais na última década, e ficou impraticável adquirir uma garrafa de safra recente. Tudo bem, dividem em três vezes, mas ainda assim está puxado. Bom, tem outra alternativa...