Wednesday, September 30, 2026

Um espanhol que fraquejou...

Introito: o engodo da democracia

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Apparício Torelly, o Barão de Itararé

O cidadão de bem torna-se bandido quando associa-se a bandidos.
O Enochato


   A primeira parte do engodo chamado festa da democracia está para acabar, sob os auspícios da emissora que desde há muito escancara sua preferência por um candidato sem contudo assumi-lo. Bolsonéscio, quando teve oportunidade de purgar o país dessa praga, para surpresa de apenas seus estúpidos seguidores, fraquejou, ficou nas ameaças, recolheu-se à sua insignificância habitual e justificou a primeira citação da epígrafe. A última da Globo é alijar Renan Santos de seu debate sob alguma regra casuística provavelmente declarada logo de início da proposição de seu evento já com esse propósito em mente. O risco é ver no evento três candidatos cujas intenções de voto, multiplicadas, possivelmente não cheguem à margem inferior do postulante Missioneiro. E a isso, querem dar o nome de democracia. Obviamente os estúpidos engolirão - qual sua serventia, senão prestar-se a serviços assim?

   A questão real, para o eleitor consciente, resume-se a quais (bons) pleiteantes escolher para cada cargo disponível. Não é difícil, basta não ser estúpido; mas isso é um contra-senso, pois estamos assumindo um eleitor sensato em vez de um imerso em profunda dissonância cognitiva. Se olhar para a segunda frase da epígrafe e refletir sobre a razão e boa-fé que há nela, metade do caminho já estará andado.

   Um bom candidato deve ter propostas, mas não apenas - afinal todos têm. Bem, isso deixou de ser verdade neste pleito. Onde estão os planos de governo dos principais atores? Dos nanicos, nem se fala. E, se você pensa que não poderia ser pior, pode! Quase todos eles têm projetos baseados em ideias do MBL antigas de muitos e muitos anos - e até então ignoradas por todos. Coincidência? Há uma boa pergunta que o eleitor pode fazer para ajudá-lo a escolher: nos últimos anos, seu político de estimação está mais ou menos enrolado em escândalos? Nos últimos anos seu político de estimação parece ter-se tornado mais ladrão ainda, ou menos? 🙄 Claro, sempre teremos um estúpido para responder: ele nem é um ladrão... naturalmente. O país vai de mal a pior por conta do acaso. 

   Apresento uma lista de sugestões para todos os cargos. Ela é firmemente calcada na segunda citação da epígrafe e, portanto, não dialoga com membros da esquerda corrupta, do Centrão, da direita estúpida nem com os extremos do espectro político. Para um cidadão de esquerda como eu, aderir a essa lista não é fácil; faço pensando no país. Essa geração tem um projeto. Tanto o tem que, em muitas e muitas entrevistas, jornalistas de todo o espectro político não criticam suas ideias. Apenas perguntam como o grupo atuará para aprovar tais propostas - vindo de analistas tão hostis, é um reconhecimento tácito de como elas são virtuosas. Sair disso é, literalmente, dar as costas para o futuro. Se a principal revista de economia do mundo faz esse alerta e aponta para Renan Santos, podemos interpretar a mensagem de duas maneiras: ou ela mente descaradamente, contribuindo para nos jogar no precipício, ou faz uma análise séria e crítica das propostas do Missão e de seu candidato. Mas na frase anterior já temos a resposta: ninguém criticou suas ideias, apenas perguntaram como implementá-las. É isso.

   Deputada federal: Ana Hering 1400
   Deputado estadual: Engenheiro Leo 14123
   Senador 1: Guto Schiavetto 144
   Senador 2: nulo
   Governador: nulo
   Presidente: Renan Santos 14

Noitada na Paduca

Depois de um tempo enrolados, a Paduca retornou impávida. Há algum tempo comprara o Altivo, um Rioja produzido pela Criadores de Rioja, com alguma expectativa: em certas bocas da internet era ofertado a R$ 250,00, mas encontrei no Empório Caçador a R$ 156,00. Lembrava-me do valor lá fora em cerca de USD 12,00, a proporção estava próxima de 2x. Resolvei apresentar para os Paduquentos. 🙄 O tiro saiu meio pela culatra: logo no primeiro ataque a percepção foi de um vinho de USD 6,00... Com calma, do começo. É um corte 90% Tempranillo, 5% Mazuelo, and 5% Graciano, típico da região, cujo envelhecimento é de 5 anos. Nesse caso foram 2 em barrica e 3 em garrafa. A primeira cafungada chegou com madeira, fruta vermelha e algo enjoativo. Não sei, um doce que pegou mal. Os confrades gostaram, e, quieto, deixei rolar; foram duas rodadas com o pessoal apontando a boa acidez - tem mesmo - e a fruta que se repetia no paladar com taninos médios. Um vinho com vida pela frente. Minha observação do travo doce despertou-lhes a atenção; além do açúcar sobrando, e mesmo com a acidez, não deixava muito rastro na garganta, uma vez engolido. No frigir dos ovos, fraquejou. Escrevo agora com os últimos dedos dele. Não desceu, para minhas surpresa; a acidez permanece, tem um toque a couro, mas a boca continua meio xoxa. A garrafa não está ruim, e pelo valor por aí (chega a USD 30,00), está muito abaixo do esperado. Mesmo para os R$ 156,00 aqui, não convenceu. O segundo vinho foi servido, em pequena dose - ainda não estava resfriado o suficiente, e todos notaram bem isso -, após a segunda taça de Altivo. Sem saber o que era, o pessoal olhou para o topo da garrafa ainda repousando no balde. A expressão dos companheiros mudou, num Opa... agora tem vinho... Bonfante e Chiarle Barbera D'Asti Superiore Sabolla 2016 é outro vinho no padrão USD 11,00, e foi comprado aqui, de R$ 199,90, a R$ 99,90. Poderia ter aerado uma hora antes de ir para o balde, mas mesmo na primeira taça já mostrou corpo e complexidade melhores. Com a temperatura certa, vieram os aromas alegres de frutas, compota e fumo ou couro. Corpo médio, taninos redondos, também médios, acidez equilibrada e sem o doce incômodo de Altivo. Final muito melhor... e como combinou com a pizza de Pepperoni... O resultado foi que, mesmo chegando em segundo e os confrades terem apreciado Altivo, foi ele quem secou. O Rioja sobrou quase um quarto, e os colegas não são exatamente fracos de copo. Ninguém quis levá-lo... Bonfante e Chiarle está disponível na Vinhobr a R$ 140,00, um pouco além de 2x. A despeito disso, vale a pena.

   Evite estúpidos nos próximos dia. Ouvi dizer que contagia.

Uísque no níver da Rê

Introito - conclusão em pedaços; pedaço 2

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
A Pátria, Olavo Bilac, 1919

   Estava a refletir sobre a distribuição ideológica entre pessoas mais próximas. Nem todas tomam posição; a estimativa leva em conta quem assume um lado. Os tais envergonhados - eleitores discretos que não partilham sua escolha com outros - não figuram no cálculo. Cerca de 40% são bolsonéscios e 60% são PTlhos. Refiro-me apenas aos apoiadores desta ou daquela quadrilha, sem contabilizar outras possibilidades. À luz das teorias da estupidez de Cipolla e Bonhoeffer, o caso mais grave é, sem sombra de dúvida, o dos PTlhos, e a explicação é direta: eles o são há muito mais tempo. A dissonância cognitiva nesses elementos (sic) encaminha-se para umas nada comoventes bodas de prata com seus cérebros. Continuando assim, é provável que morram na senilidade absoluta.

Vejamos alguns exemplos de como PTlhos reagem quando confrontados com questões morais. A imagem ao lado é do comentário em vídeo onde Renan Santos analisa o final da reunião em que Supremos Sinistros (SS) riem ante um suposto acerto político com o presidente do Senado. Sugiro que ouçam para entender. Perguntei a um grupo: Se alguém me disser que a conclusão  não é verdade, eu vou agradecer muito. Claro, não basta dizer, é preciso argumentar... Entre três ouvintes, a única resposta foi um exemplo de candura: Não duvido, a única certeza q tenho é q eu não estava na tal foto e nem reunião... mto difícil nossa situação... Ou seja: utente imerso em dissonância cognitiva só admite não estar na foto, mas despreza todo o seu entorno constrangedor. Em acordos pouco republicanos entre ambos os lados do espectro político, bolsonéscios e PTlhos irmanados não no combate à corrupção - que no papel dizem enfrentar - mas, segundo o vídeo, seguem acasalados justamente para jogar falcatruas para baixo do tapete. Pergunto-me se há alguma (des)conexão entre esse duplipensar, neologismo de Orwell anterior à formulação da teoria de dissonância cognitiva, e a epígrafe. De fato, criança, não verá nenhum país como este...

Uma sequência de discussões engraçadíssimas - não fossem trágicas - deu-se com um jovem defensor da esquerda tosca e pregador, dentre outras coisas, da cultura Uóque. Precisei repetir as perguntas, pois no primeiro momento elas foram ignoradas. As respostas falam por si. O detalhe: para ajudar meu querido utente a responder à pergunta 3, eu enviara uma informação oficial. É uma página do Banco Central na qual está explícito o crescimento do déficit fiscal. Ainda assim o fato é negado, e este argumentador é colocado "na bolha". A conversa continuou, e a certa altura recebo a reflexão baseada em trecho de Belchior Não cante vitória muito cedo, não, não leve flores para a cova do inimigo. As lágrimas do jovem são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal  antigo, sobre seu receio da volta de dias mais autoritários. Como se já não os vivêssemos... - já notou como lado que apoia uma ditadura nunca a considera como tal? Respondi de maneira segura: Não Leve Flores é bem sugestiva, mas recomendo a música homônima do álbum onde ela está... O interlocutor conhece muito de música, e suponho que tenha conectado imediatamente a sugestão de Alucinação e esta à sua condição. Tentou sair-se com um trecho dela, Amar e mudar as coisas me interessa mais, apenas se esquecendo que um único verso solto de qualquer música pode defender até Lúcifer. Expresso uma declaração mais direta e abrangente advinda dessa mesma obra:
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...
   Sim, é isso: a minha alucinação é calcada no dia-a-dia, no real, sem dissonância cognitiva nem entregando-me à delusional perspectiva de que toda a direita é uma só, a extrema-direita. Trata-se de uma confusão épica, monumental, colapsando direita, extrema-direita e Centrão em uma única categoria. O Centrão de Valdemar Costa Neto, um dia aliado de Nosso Amado Presidente (NAP) e preso no escândalo do Mensalão, hoje parça de primeira hora da família bolsonéscia - ela própria aliada ao Centrão - não pertencem à extrema-direita. Misturando tudo, PTlhos enganam-se ao julgar todas as propostas igualmente fétidas, sujas e abjetas. Aliás, para que ler as propostas dos outros se eles mesmos não as têm?

Creio já ter comentado(?) sobre bolsonéscios: não comemoram possíveis vitórias advindas de argumentos, porque não argumentam; eles no máximo festejam esquivas quando conseguem mudar de assunto ao sentirem-se emparedados. Com PTlhos não é diferente. Na continuação do diálogo acima, o assunto em desenvolvimento era outro, mas então chega, do nada, esta pérola; um pequeno mantra de bolso (risos!) para repúdio instantâneo de inimigos ideológicos que poderia constar em... um livro pequeno, encadernado em couro sintético preto, com letras douradas na capa: Manual do Messias - Lembretes para a Alma Adiantada, de tão iluminado, profundo e edificante. Donald Shimoda ficaria enciumado. Sem entrar no mérito: percebem a diferença de estilo? Enviei para o sujeito perguntas simples, para responder com sim ou não. O propósito é fazer o infeliz refletir. Qual é o contra-ataque? Uma sequência de fatos, acusações e julgamentos morais fundidos em uma única categoria e, pior, voltados contra quem eu mesmo critico. Agora, entrando no mérito: tirando um ou outro fato pontual, as demais implicações serviriam a NAP tão bem quanto a Bolsonéscio (pai). Vejamos: Machismo e misoginia? Por onde andarão as mulheres de grelo duro(!)? E a Clara Ant, que recebeu cinco homens em sua casa e - segundo NAP - acreditou ser um presente de Deus? Estão aqui. Homofobia? Pelotas foi classificada como um polo exportador de viados (sic). Precisa mais? O sujeito pode ser estúpido (segundo Bonhoeffer) a ponto de dizer que novamente estou "na bolha", inventando... bem...


a fonte é esta; o vídeo foi publicado há 13 anos, então não pode ter sido gerado por IA... "Na bolha"... eu? Ah, tá... Queimadas? ...o primeiro quadrimestre de 2024 registrou a taxa mais alta de queimadas desde 2016 (trata-se da Amazônia) e está aqui. Não adianta explicar que El Niño daqui, El Niño dali. Queimada é queimada, não fui eu quem trouxe o assunto à baila. Preciso continuar, ou mesmo o mais idiota dos idiotas conseguirá encontrar um exemplo do mantra acima no governo de NAP mergulhado nos problemas que aponta em Bolsonéscio?

O crème de la crème PTlho para rejeitar Renan Santos em particular está em criticar sua postura de aparelhar o país com a bomba atômica. Pasmem: o argumento foi dado por três pessoas diferentes, que não se conhecem e votam (ou votavam) na esquerda. Um, convenci em dois minutos. Não, não foi bem assim. Falei durante dois minutos. Depois a pessoa fez o dever de casa: foi pesquisar e ela mesma retornou com suas descobertas. Declarou estar reavaliando a opinião anterior. Ela apenas fez o óbvio... PTlhos mais encarniçados insistem em dizer-se contra essa política. Ignoram um ditado ancestral, Si vis pacem, para bellum - Se quer paz, prepare-se para a  guerra (atribuído a Flávio Vegécio, publicação incerta, próximo a 450). Trazendo a discussão para mais próximo, em Crônica de Uma Guerra Secreta Sergio Corrêa da Costa nos traz os planos atribuídos a Perón para aliar-se aos nazistas e tornar-se o grande ditador da América do Sul sob o nada sutil vaticínio de que Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso. Essa abordagem dialoga com o pensamento de Lord Palmerston, As nações não têm amigos eternos ou inimigos perpétuos; elas têm apenas interesses permanentes. Tucídides nos brinda com Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem, e  George Washington colabora com É uma ilusão esperar favores desinteressados de nação para nação; aquilo que uma recebe como favor, acabará pagando mais tarde com a sua própria independência. Estúpidos insistem em desprezar conceitos históricos em favor de alguma posição não beligerante. Por maior que seja minha boa-vontade com o pacifismo de Gandhi, as opiniões de tantos outros estadistas e pensadores contrapõem-se à solução não-armamentista. Desprezar isso é ser um estúpido aderente à terceira lei de Carlo Cipolla: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si. Os idiotas tampouco percebem que a lógica da posse de uma bomba atômica está centrada na dissuasão: eu não ataco você, e você não me ataca. Forças convencionais não possuem tal poder de desencorajamento.

   Antes de terminar, uma palavrinha sobre os Uóques. Eles acreditam que NAP de fato trabalha em favor dos pobres. Não conseguem entender - ou simplesmente desprezam - os gastos com juros da dívida versus o montante efetivamente destinado aos desfavorecidos. É algo como um quinquagésimo do que se gasta com juros. Esse povo não sabe fazer conta. Sustentam a decadência do Ocidente e, em sua grotesca concepção civilizacional, feita de valores e virtudes não liberais, mas libertinos, apresentam-se em evento oficial do Ministério da Saúde com esta,


como era mesmo a estória sobre decadência? Diante das reclamações, ainda vieram dizer que não sabiam... Aliás, NAP também não...

   Estes exemplos são mais ricos porque bolsonéscios são idiotas demais para debater, e deles só vem o silêncio. Já PTlhos consideram-se uma casta mais nobre, elitizada, tentam argumentar - contando com o refúgio da dissonância cognitiva quando necessário - e assim portam-se como o último bastião de alguma coisa. Do meu ponto de vista, quando alguém/alguma classe considera-se um último bastão de algo, é porque o país está suficientemente idiotizado para tomar a contra-mão da história. Não por acaso o editorial a revista The Economist tem por título Brazil turns its back on the future, elogiando o plano econômico de Renan Santos que promete, dentre outras, acabar com as favelas do país. Em 20 anos de poder, NAP apenas as ampliou. Estúpido é quem não vê.

   Está longo, mas este tiro no escuro é necessário. Ninguém flerta tanto com a estupidez quanto bolsonéscio. Alardeou pelos quatro ventos sua ida ao último debate. Não se tocou de quem o promove, franca aliada de NAP. O Presidente já disse que não comparecerá. Adivinhem se na última hora não chamarão Renan Santos? E não estranhem se os outros dois participantes trocarem perguntas entre si e com Renan, deixando para este torpedear o costado bolsonéscio com as perguntas mais constrangedoras de todos os debates da história deste país. Essa perguntas - e as repostas, seguramente idiotas - constituirão a munição preferida para um eventual segundo turno contra o desavisado. A estratégia está armada. O eleitorado pode desarticulá-la completamente, votando em Renan Santos, número 14.




O níver da Rê

Comemoramos, com um pouco de atraso, o níver da Rê(giane), com a Carol e a Silvinha. Servi minha cava preferida, o Freixenet Cordon Negro, sempre com boa presença de nariz: um toquinho de pão/fermento junto a notas cítricas de frutas como maçã e abacaxi. Tem bom frescor e acidez, perfazendo uma estrutura elegante em sua faixa de preço (R$ 100,00). Acho que supera com folga diversos competidores nacionais cujo valor é similar. Rê e eu estávamos interessados mesmo nos uísques... Começamos com o Buchanan's Deluxe 12 Anos, o único blend. A proposta era partir de algo consagrado e conhecido para utilizar como calibre. Nariz levemente adocicado, com madeira e baunilha que combinam com a boca também doce, com o álcool pegando um pouco. Seguiu-se o The Glenlivet Founder's Reserve, o primeiro single malt da noite. Uma curiosidade sobre ele é a não apresentação do envelhecimento - sua categoria é NAS (No Age Statement), embora os peritos indiquem uma maturação entre três e seis anos. Você compraria um uísque 3, 4, 5 ou 6 anos? Conhecendo agora, eu compraria. Mais um detalhe: ele é amadurecido com tonéis de carvalho americano que receberam sua primeira passagem de Bourbon. Não podendo ser reaproveitados, as barricas são vendidas mundo afora e seu uso na produção de uísque já estava consagrado nos anos 1960. É um bom uísque, com madeira mais discreta se comparado ao Buchanan's, e boca com uma pegada mais discreta de baunilha. Como o Buchanan's, tem nariz mais complexo, e preciso começar a prestar mais atenção para identificar essas notas. Em seguida servi o Aberlour 12 Anos Double Cask Matured, onde o mesmo single malt é envelhecido separadamente em dois tipos de barris, o de Bourbon e o de Jerez. A combinação é feita no envasamento, resultando em um produto com a riqueza de ambos os barris fundindo-se no garrafa. O nariz tinha um pouco de doce e especiaria, principalmente, e mais notas. Em boca, um uísque mais persistente, rico, mas não consegui distinguir bem as notas. Mas a diferença de qualidade para os anteriores é evidente. Foi a vez do Laphroaig Quarter Cask e a misteriosa chamada do rótulo, The perfect marriage of peat and oak (o casamento perfeito entre a turfa e o carvalho). Sua técnica de produção é um pouco diferente: depois de colhida, a cevada é limpa, transferida para o chão interno da destilaria e ligeiramente molhada, quando o grão começa a brotar novamente. Enquanto isso, prepara-se a turfa, um material orgânico esponjoso, formado pela decomposição parcial de vegetação, como musgos, ervas, raízes e plantas aquáticas. Quando os brotos da cevada atingem certo tamanho, eles são levados a um forno alimentado pela turfa, e assim a cevada é defumada, adquirindo as características da fumaça desta. Esse grão seco e com cheiro de fumaça é então moído e misturado com água quente para iniciar a fabricação do uísque. Deu trabalho pesquisar isso, mas a estória é interessante... Laphroaig Quarter Cask tem um buquê inconfundível, misturando lembranças ancestrais do tempo de eu menino: iodo, esparadrapo e notas medicinais, exatamente como recordo-me das pharmácias de antanho. O paladar é robusto, carregado de caramelo e bem mineral, com mais complexidade a ser desvendada. Está aberto há algum tempo - pelo menos desde o começo do ano - e o toque medicinal diminuiu de intensidade, mas permanece bastante marcado. Decididamente não é um uísque para fracos, mas é delicioso. O Macallan Sherry Oak Cask 12 anos é, como sugerido, um uísque guardado por esse período apenas em barris de Jerez. Tem olfato bastante complexo, e sabendo de antemão é possível perceber a presença do figo, tão caro nas bebidas da Andaluzia. Também tem especiaria e um tostado. O paladar tem um corpo elegante, quase um afago na língua, duradouro, sensualmente provocante pela duração em boca. Por fim, o Dalwhinnie 15 Years Old envelhece exclusivamente em barricas de Bourbon, tem um travo adocicado - mel - que se repete na boca. Tem mais notas a serem desvendadas - é-me difícil, em alguns momentos - mas a complexidade é clara. Achei bastante mais pegado do que o Macallan - 43% de álcool, um pouco a mais que os 40% deste último -, então seu peso vem de outro lugar. Seria o tipo de barrica? Foi uma experiência arrebatadora, e se precisar condensar a percepção das duas estrelas, Dalwhinnie 15 e Macallan 12, diria fogo para o primeiro e veludo para o segundo. Teve bão...

Friday, September 25, 2026

Vinho não pode sobrar...

Introito - conclusão em pedaços; pedaço 1

   Desde há muito tenho convivido com bolsonéscios e PTlhos e notado seus cacoetes. Não os abarquei de imediato, mas, ao longo do tempo, passaram a fazer sentido. A quantidade de estupidez nos argumentos dessa turma envergonharia qualquer pessoa intelectualmente honesta a ponto dela enfiar-se num buraco e chorar. Mas, claro, devidamente embalados na mais profunda dissonância cognitiva, estúpidos não padecem de semelhante sensação. Darei alguns exemplos de como operam os bolsonéscios com seu gado - e não pretendo descartar a tese do mesmo valer para PTlhos - e a hora deles chegará. Apenas vi operando mais detalhadamente nos primeiros.

   Parece estar na origem de todo o mal (sic, rs) a validação imediata, em grupos de autoapoio, das concepções mais toscas - desde que em consonância com o ideário coletivo. Sustentado pelo desejo de validar sua crença, o utente encontra na aprovação dos pares um mecanismo que, aos poucos, enfraquece seu senso crítico, tornando-o influenciável por argumentos cada vez mais rústicos. Então os influenciadores desse sistema começam a produzir conteúdos dizendo de início verdades rapidamente misturadas a meias-verdades continuando com omissões deliberadas e insinuações maliciosas, desembocando em conclusões cujo sentido só pode ser aceito por quem já foi dominado pelo discurso bestializante. Como bolsonéscios se estupidificaram velozmente - a amortização do cérebro às vezes é tão banal quanto profunda -, passaram a simplesmente espalhar vídeos sem um único comentário, deixando clara sua concordância com tais sinalizações - e, sem dúvida, esperando a reverberante aprovação de seus iguais. Em exemplo antigo, datado de 2021, ao qual intitulei O fedelho da gasolina, um fedelho qualquer explicava em tom professoral a razão do aumento do preço da gasolina, jogando a culpa nos governadores dos estados. Não foi difícil desmascarar o falatório: bastou pesquisar a elevação do barril do petróleo Brent e a desvalorização do Real frente ao Dólar no período e apresentar a convergência dos dados: entre janeiro e dezembro de 2021, o Brent subiu cerca de 35% em dólares, mas, convertido em reais, encareceu aproximadamente 43%(!). E não estamos falando coisa alguma de impostos nessa conta... Elementar, não é mesmo?

  Exemplo recente refere-se a um vídeo, aqui. É um curta de 2:15 e o leitor não compreenderá muito sem olhar. Gaste dois minutos. Em resumo: a discussão gira em torno de países comunistas/socialistas serem pobres e países capitalistas serem ricos. Invocando um laureado com o Nobel de Economia, o orador dá como exemplos de países ricos a Irlanda, a Dinamarca e a Suíça. Em dado momento o sujeito mostra uma foto por satélite das duas Coreias, o sul muito iluminado e o norte quase completamente às escuras. A discussão foi assim (há uma edição para torná-la mais civilizada):
   [Provocação] - E ainda tem pessoas ( 🤔) que apoiam ESQUERDA.🤦🏻‍♂️🤦🏻‍♂️🤦🏻‍♂️
   [Eu, sobre o argumento do influenciador] - Diz que o outro lado escolheu o estado controlando tudo e outro escolheu o mercado... Ora, a Coreia do Norte é sabidamente um dos estados mais corruptos do mundo. Seu atual presidente é filho e neto de ditadores. O patriarca ascendeu ao poder por meio de um sanguinário golpe de estado. 
   [Continuo] - Maicon fala em índice de liberdade econômica de países como Suíça, Irlanda e Dinamarca. 
✔️ A atual presidente da Irlanda é de esquerda;
✔️ A Dinamarca tem em Mette Frederiksen uma primeira-ministra ligada à Social-Democracia;
✔️ A Suíça hoje é governada pela centro-direita, mas de 2014 a 2022  também esteve com o Partido Social Democrata!
   A resposta?
   [Provocação] - Você está certo, a BÍBLIA tá errada.✔️ Viva feliz na sua ideologia.😌

   A intenção dos exemplos era simples: mostrar que riqueza e liberdade econômica não são incompatíveis com governos de esquerda. Não se tratava de afirmar que esses países fossem “de esquerda” em algum sentido absoluto, tampouco que sua prosperidade decorresse de seus governos de esquerda. Talvez eu não tenha deixado isso claro para meu debatedor. De qualquer maneira sua resposta obedece à máxima que já comentei sobre o estúpido: ele deixa de responder aos argumentos e introduz uma nova autoridade, terminando com uma atribuição de identidade ideológica a mim.

   Para continuar, torna-se necessária uma explicação detalhada. Porque um laureado com Prêmio Nobel foi citado, o ouvinte desavisado considera toda a argumentação como uma verdade suprema: a Bíblia. E o meu ponto é: não vou assustar-me de enfrentar um Nobel, apenas vou conferir se a sua invocação foi bem aplicada ou se é - como enunciado, uma sequência que vai da verdade inicial às insinuações maliciosas já previstas. Antes, um aviso legal, um disclaimer... a proximidade de um canalha de primeira grandeza nas vizinhanças, por certo tempo, obrigou-me à leitura de uma obra há muito negligenciada: A Arte de Ter Razão, de Schopenhauer. Nessa obra o filósofo demonstra os expedientes pelos quais pode-se buscar a vitória em um debate por meios lícitos ou ilícitos, em vez da verdade. Conhecer Schopenhauer é saber onde os patifes trapaceiam. E, tão importante quanto, não usar dessas ferramentas para distorcer o debate é uma questão de até onde chegam nosso universo moral e nossa honestidade intelectual. Percebe como as coisas vão-se fechando?

   Começemos a explicação. O Nobel não foi concedido a Hayek pela demonstração que países com maior liberdade econômica são mais ricos. A motivação do prêmio foi "por seu trabalho pioneiro na teoria da moeda e flutuações econômicas e pela análise penetrante da interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais". Não pode haver dúvida, está aqui! Não entendo de economia, mas a leitura do laureado é esta. Então submeti ao ChatGPT o vídeo e os dados sobre Hayek disponíveis nos vínculos, e perguntei se a teoria do acadêmico sustentava a conclusão do discurso. A resposta foi: O Nobel não foi concedido a Hayek por demonstrar que países com maior liberdade econômica são mais ricos. Aí está. O texto usa a autoridade de Hayek para conferir legitimidade a uma conclusão sobre liberdade econômica, propriedade privada e prosperidade que o Nobel, por si só, não demonstra. Se essa autoridade per se é apresentada como suficiente para validar a conclusão, estamos diante de um argumentum ad verecundiam (apelo à autoridade). É o Estratagema XXX de Schopenhauer em A Arte de Ter Razão. Ao fim e ao cabo, parece claro que o vídeo não é exatamente uma informação ou reflexão, caracterizando-se mais como uma catequização de ignorantes.

   A dado momento comento: Confia em vídeos de quem nem conhece, mas desconfia da palavra de quem lhe é próximo, nada ganha com sua ignorância e o avisa do lodaçal onde está metido há muito tempo. A resposta? Rapaz!! Você se sente dono da razão e não há argumento que o tire dessa posição. Isso não é um argumento. É uma imputação simples, sem qualquer amparo, que tenta descartar uma argumentação completa.

   Mais: a imagem do mapa da Coreia do Sul iluminada não me saía da cabeça. Fui procurar... e adivinhe... veja se a comparação abaixo não faz sentido: a foto da direita ou foi saturada artificialmente ou ela apenas tem uma exposição um pouco maior (uma combinação de ambas, ou com outro tipo de manipulação?), aumentando a impressão de iluminação. O resultado é de fato impressionante, mas não representa "a verdade" do que se vê ao olhar para a região a partir do espaço. À esquerda temos uma foto tirada da estação espacial e ela própria reconhecidamente melhorada para aumentar o contraste, confira a informação exata aqui. Nenhuma delas é uma fotografia "real" - neutra - mas demonstra como uma pequena alteração pode afetar enormemente nossa percepção.


  O bolsonéscio recebe informações aparentemente verdadeiras, mas que, analisadas com algum senso crítico, são claramente enviesadas: Um lado escolheu o Estado controlando tudo... - não! Os norte-coreanos não escolheram! Eles são reféns! Seu sistema eleitoral é fraudulento; toda a comunicação é controlada pelo Estado. Mais: procure no mapa os vizinhos do país: ao norte, Rússia e China. Ao sul, separado por um corredor minado e casamatas, a Coreia do Sul. A leste, o Mar do Japão, e, a oeste, o Mar Amarelo com suas costas 'adequadamente' patrulhadas. Para que lado corre o pobre norte-coreano? Mas nada disso ocorre ao ouvinte. Trata-se tipicamente de uma estupidez à la Bonhoeffer... 

   Por conclusão: o modus operandi das lideranças bolsonéscias é invariante no tempo e no espaço, limitando-se ao envio de "comunicados" prontamente aceitos sem questionamento pela comunidade de idiotas - comumente designada "gado".  Retomo aos cérebros amortizados. É isso: a estrutura crítica desse utente vai-se amortizando aos poucos, em parcelas de uma dívida inesgotável corroendo seu universo moral a cada prestação. Chamei a esse comportamento deserto de ideias, pois bolsonéscios - e seu candidato - não têm ideias. Nenhuma. Depois será a vez dos PTlhos.

Vinho não pode sobrar...

Havia imaginado uma pegadinha com a confra Nóis Trêiz (sic), ultimamente turbinada pela Manuele. Mas a experiência mostrava: duas garrafas para os quatro membros representavam a justa medida - mesmo com este Enochato saindo com a sensação de carecer um fundinho de taça ao final... Com três, mesmo pelo maior esforço, sobraria um bom tanto. Faltava boca, então... foi quando a corneta de konvokation (sic) soou no celular da D. Neusa, e ela não se fez de rogada. Um dos vinhos estava posto, por combinação anterior. Havíamos pego um Château Magence 2014, e a brincadeira giraria em torno dele, servido por último. Havia comentado com a Lu e a Liu: vinho da região de Graves, de onde, no meu aniversário passado, havíamos provado do Domaine de Chevalier. Fui enfático: aquele era um Grand Cru Classé e este seria um vinho comum da região, portanto o tema da comparação não seria com aquele; Magence 2014 seria o calibre. As três garrafas tiveram tempo de respiro similar: uma hora antes do encontro. Simplificando, fizemos a primeira rodada após todas elas resfriarem. A Manu palpitou primeiro: Tem Merlot. 😒 safadinha... As confrades não opinaram sobre a cepa, mas gostaram. E veio a segunda. Dúvidas, comentários, opiniões começando a se formar. Dois franceses?, teria dito alguém, sem unanimidade. O terceiro era conhecido e foi provado. Fizemos mais uma ligeira rodada. Um dos exemplares havia resfriado um pouco e foi-lhe sugerida - pela presença de muita pimenta (pimentão?) - a titularidade de chileno, logo descartada quando a temperatura subiu um pouco. Mas, enquanto percepção, foi divertido - e um alerta: o ponto de serviço é uma variável à qual deveríamos dar mais atenção. Ao final, houve uma concordância esmagadora: o segundo vinho às cegas era o melhor. Atrás dele, houve quem gostasse mais do Magence 14 e quem gostasse mais do primeiro (eu). O resultado deixou todas boquiabertas...

Três safras distintas do mesmo vinho: 2005 e 2010, clássicas, e 2014, fora do comum, separadas por (quase) cinco anos cada. Já havia provado de um Magence com quase 20 anos quando, em 2020, degustei a safa 2001. Por isso estava confiante de que o 2005 poderia aguardar o mesmo período. E foi assim, à sombra de uma boa taça, com tão agradáveis companhias, a vertical desse bom vinho foi apreciada. Château Magence 2005: curiosamente (ou não!) senti falta de alguma nota terciária. Não havia! Fruta, madeira discreta, especiaria e couro. A ficha técnica no sítio do produtor está corrompida, mas consegui a informação no Vivino: 50% Cabernet Sauvignon, 40% Merlot e 10% Cabernet Franc - creio que as demais sejam no máximo pequenas variações em torno dessa proporção, pois o Château só produz dois vinhos. Manu pegou a Merlot no pulo... Em boca os taninos bem redondos acomodavam-se bem e harmonizou com a entrada de Parmesão, mel e Parma. A pimenta da Cabernet estava lá, discreta, como é típica da cepa em Bordeaux. Acidez média+, com toque de carne(?) e final persistente. Está em boa hora, mas pode envelhecer ainda mais e chegar nos toques terciários. Château Magence 2010: tecnicamente um degrau acima enquanto safra (2005 recebeu nota 98, e 2010 nota 99), estava mais vibrante... harmonizou melhor com a entrada e com o prato principal - carne, claro. Buquê mais complexo, taninos mais firmes, mais acidez. Comparando com a primeira, seria mais uma diferença entre garrafas do que uma distinção entre safras? Estava mais completo, por isso agradou a todos. Château Magence 2014: como dito, alguns apreciaram mais este do que o 2005. Os taninos estavam claramente mais novos, a acidez aparentava-se mais presente, um vinho, no geral, mais marcado. Acho que foi ele que, resfriado um pouco além do ponto, passou por chileno. Mas foi só por um momento (risos!). Ainda na fase às cegas, estimuladas por mim, as confrades estimaram a idade dos vinhos. Na melhor das hipóteses foram considerados de mesma idade, o 2005 ligeiramente mais velho. Mas nove anos os separavam. Foi de fato muito divertido. Não tenho muitas mais oportunidades para brincar dessa maneira - até porque o valor do Romanée-Conti subiu demais na última década, e ficou impraticável adquirir uma garrafa de safra recente. Tudo bem, dividem em três vezes, mas ainda assim está puxado. Bom, tem outra alternativa...

Friday, September 18, 2026

Uma incerta bastante certeira

Introito - algumas reflexões soltas - parte 3

   Andei eu mesmo refletindo sobre as duas últimas postagens, e por mero diletantismo aprofundei-me um pouco mais nas leis do Cipolla. Inspirado por conversas com bolsonéscios e PTlhos, não resisti a cunhar mais duas:
A sexta: Estúpidos não gostam de ser avisados de sê-lo e, quando alertados, frequentemente demonstram que o são.
A sétima: Estúpidos nunca mudam de opinião; mudam os fatos.
   Faço os testes em mim mesmo. O problema com a sexta lei é que, apesar de ter categorizado muitos estúpidos, nenhum conseguiu retornar-me o elogio - então minha reação não existiu, para ser observada. Bem, um retornou apenas com um xingamento: não havia qualquer contra-argumentação em seu discurso, apenas insatisfação. Faço outro alerta estúpidos, comentando assim - principalmente depois de apontar fontes-m3rd@$ especializadas em veicular informações enviesadas e sob as quais eles se apoiam: "Você continua acreditando nisso mesmo depois de eu ter demonstrado o viés capcioso da fonte, mas não acredita em mim que supostamente sou seu amigo - e portanto não tenho nenhum motivo para enganá-lo". Recebo o vácuo de volta. A pessoa emudece. Talvez seja reflexão, mas ao final ela cala-se e pronto. Tá, os muito estúpidos mudam de assunto - estratégia básica. Sob a sétima, meu passado me fortalece. Vejamos meus votos para presidente (sempre iguais nos dois turnos, quando houveram): FHC em HFC1, nulo, Lula em Lula1, nulo, nulo, nulo, Amoedo -> contra o Andrada no segundo turno, e finalmente nulo. Deixei a Social Democracia - muito mal aplicada por aqui - para ir à esquerda e, enganado, repudiei e nunca mais voltei. Essa geração esquerdalha precisa desaparecer antes de eu voltar a votar na corrente com a qual mais me identificava. Venderam-se todos - ou no mínimo acovardaram-se, sem coragem para defender o país dos maiores escândalos de corrupção de sua história. Votei contra ela, aceitando antecipadamente algum obscurantismo - orações no Gabinete da Presidência, por exemplo, dado o Estado ser laico - mas não a sequência de idiotices proporcionadas no governo natimorto de Bolsonéscio que vendeu a nação por 30 dinheiros em troca de salvar seu rebento. Nenhuma manada me capturou; até aqui passei pelo crivo proposto. Ah, mais engraçado: chamam-me baba ovo porque apoio um candidato - Renan Santos! Ele não me parece um pouco, ele me parece absolutamente diferente, em sua trajetória e propostas, de todos os candidatos já inscritos em uma eleição presidencial desde a redemocratização - se tem dúvida, procure saber. E fechamos assim: mesmo com meu passado agora - na ideia de outros - caio refém de um candidato a quem tenho acompanhado desde quando bolsonéscios me visitam para um café e soltavam a voz: "Carlão... o MBL derrrrrreteuuuuuu...". Qual MBL, capivara? O que montou um partido quando Bolsonéscio não o conseguiu, mesmo dispondo da máquina do governo federal como eventual apoio? E tem a pretensão de adular seu candidato com palavras tais como competente? Ah, claro...

   Buscando uma conclusão, deparo-me na verdade com uma descoberta. As duas leis que tive a petulância de acrescentar às de Cipolla fornecem um crivo para detectar a estupidez em uma situação real. Entenda a sexta lei como um teste e note como uma pessoa reage ao ouvir ser estúpida. Amparado pela sétima lei, observe a reação dela quando os fatos contrariam suas convicções. Minhas propostas expandem os horizontes de Cipolla e Bonhoeffer uma vez que, além de reflexões sobre a estupidez, existe agora uma forma de testá-la. Novamente: Estúpidos, enfileirem-se!

PS: a sétima lei recebeu sua forma a partir de uma "conversa" com o ChatGPT. Eu tinha essa ideia, mas não conseguia resumi-la. Pedi-lhe que formulasse uma frase curta, levando em consideração as ideias de Cipolla e Bonhoeffer e o conceito de dissonância cognitiva. Ele foi cirúrgico.

Uma incerta bastante certeira

Aconteceu de encontrar o Mário, e junto dele a Salete e a Aninha. Palco pronto e perfeito para a abertura de algumas garrafas descompromissadas. Ele chegou com um Nieto Senetiner Patrimonial Sémillon 2021, exemplar de bom frescor com notas cítricas na frente, bem definidas, e um pouco mais. Fui atrás da ficha: flores brancas e ervas... não notei - provavelmente por deficiência. Mineral? Não. Dez meses de barrica? A madeira estava bem integrada, não é de primeiro uso - e nem precisaria. Mas a boca era sem dúvida ligeira, com baixa acidez e permanência; a mesma história de não deixar rasto nem saudades. Vou me repetir: uma ótima oportunidade de provar vinhos que não compraria pelo histórico sul-americano de preço versus qualidade: não fecha, na minha opinião. Vejamos por quê: às cegas - só na primeira taça - apresentei o Château des Correaux 2023, um Saint-Véran, zona muito simples da Borgonha, sem um único vinhedo Premier Cru, com vinhos de Chardonnay feitos para serem consumidos jovens. Vi os olhos dos confrades brilharem logo ao primeiro buquê: cítrico mais pegado, rico, acompanhado de notas mais destacadas, à espera de um nariz mais competente que as desvendasse. Ataque elegante pela acidez vibrante, aqui sim, mineralidade presente e o discreto amanteigado típico de um Borgonha. Não há mistério, a acidez torna o vinho mais persistente e presente em boca; a diferença foi gritante. Notemos: o Mário não produziu o Patrimonial, ele apenas o comprou a título de experimentá-lo. O Chianti Classico da Tenuta Casuccio Tarletti 2022 não enganava ninguém com aquela cerejona típica da Toscana. Ainda, algo como café/fumo (qual?) e um toque herbáceo. Boca tocada por acidez quase média, 13,0% de álcool, bem comportados na estrutura, madeira discreta em segundo plano e muita fruta madura. Um vinho fácil de se beber, e com duas horas de aeração em garrafa mostrou-se verdadeiramente alegre. Ótima expressão da Sangiovese na faixa de € 11,00. Aqui foi comprado a R$ 110,00 - menos de 2x, ótima descoberta. A Ana, que ofertou o vinho, saiu com a segunda garrafa toda feliz. Os brancos: Château des Correaux pode ser encontrado por volta de € 11,00 na Europa, enquanto, na Argentina, o Patrimonial vale algo como 11.000 Pesos, o que dá R$ 38,00, ou um pouco mais de USD 6,00. Arredondando, de 6 para 11 moedas pode ser o dobro, mas Château des Correaux oferece muito mais. Não é de R$ 100,00 para R$ 200,00; para quem está acostumado a pagar um pouco a mais por produtos bem melhores, meros 6,00 USD (ou 6,00 €) não farão diferença. Então, apesar de tudo, o valor modesto de Patrimonial na Argentina ainda o torna um vinho um tanto caro para o bebedor com um filme fino de um diâmetro atômico de sofisticação estampado na língua. Por aqui é que a coisa fica ruim. Comprei Correaux a R$ 130,00 - tá, uma 'promo' relâmpago, peguei a caixa e nem comuniquei os confrades, estou pondo na mesa à medida que aparecem as oportunidades. A oferta acabou em duas horas; se esperasse alguém se manifestar teria perdido. Patrimonial custa, bem comprado, os mesmos R$ 130,00. Na Grand Cru, importadora tubarona, o Mário comprou a R$ 160,00. Tá vendo? De R$ 40,00 lá por R$ 160,00 cá. Dá 4x+.  des Correaux está em 2x, e não foi à toa que todos lamberam os beiços ao prová-lo: como boa compra, situa-se muito acima do padrão de R$ 150,00 praticado por aí para vinhos bem mais simples. É por isso que, dependendo da importadora, precisamos colocar um caminhão de dinheiro para melhorar só um pouco o nível do vinho. O brasileiro tenta não ser estúpido, mas é tratado como tal por boa parte das importadoras. Às favas com a comprovação dos valores neste setembro de 2026. Estou um pouco cansado de idiotas e de tubaronas.

Tuesday, September 15, 2026

Baco, o fauno, a vinha, o sol...

Introito - algumas reflexões soltas, parte 2

À mulher de César não basta ser honesta, 
ela deve parecer honesta.
Júlio Cesar

   Na última postagem apresentei dois pensadores que, de diferentes maneiras, estabeleceram regras para classificar as pessoas de estúpidas - ou idiotas; a diferença é mínima. É verdade, muitos utilizam essas palavras como mero xingamentos diretos e não sustentam suas posições. Já enunciei as regras para tal tratamento a diversas pessoas com quem tenho contato mais direto. Inclusive inserindo a máxima Pare de ser estúpido, e eu paro de dizer que você é! (risos). Saiba um pouco mais sobre Bonhoeffer aqui, que é um short relativamente mal produzido mas dá conta de uma introdução. Aqui há um comentário mais longo (15 min) e melhor conduzido. De quebra, aborda os conceitos do Carlo Cipolla e dá uma palhinha sobre o pensamento de Freud e a psicologia das massas. Por 15 minutos do seu tempo? Uma pérola! O resumo da ópera é: existem critérios objetivos para que o qualificativo estúpido - ou idiota - deixe de ser mero insulto e passe a ser uma conclusão sobre determinado comportamento de uma pessoa (ou grupo).

   Tenho uma percepção que não é exatamente um sentimento nem uma sensação, mas que também não é propriamente uma ideia: percebo-a, embora seja difícil traduzi-la em palavras. Em meu idioleto, chamo-a universo moral. O universo moral de uma pessoa seria o conjunto de valores, princípios, intuições e critérios pelos quais ela distingue o que considera certo e errado, justo e injusto, aceitável e inaceitável, digno e indigno.

   A construção do universo moral acontece ao longo de nossas vidas conforme incorporamos valores e princípios, alguns dos quais se tornam inegociáveis e terminarão por constituir nosso caráter. Infelizmente em nosso país quase tudo vem sendo relativizado desde há muito tempo - similar ao homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda - e é difícil depois de certa idade criarmos um escudo contra tentações e deslizes. Se atingimos essa meta em relação àquilo que efetivamente reconhecemos como inegociável, tornamo-nos inflexíveis, intransigentes até, e é essa qualidade que nossos adversários usarão para nos (des)qualificar. Felizmente, pois não poderão nos tratar por corrupto, cínico, quadrilheiro (palavra da moda) e ladrão, por exemplo. 

   O indivíduo pode declarar seu universo moral, mas na verdade são suas ações que o demarca. Vejamos: o caboclo se diz contra a corrupção. Mas seu candidato é um corrupto, ele apenas nega todas as evidências. O que aconteceu? Seu universo moral foi colonizado pelo grupo ao qual o sujeito pertence. A pessoa passa a julgar o mesmo ato de maneiras diferentes conforme quem o pratica, porque sua lealdade ao grupo precede o próprio juízo moral. Então seu universo moral não é o sustentado por ela mesma! Esse universo moral é menor, mais estreito do que se proclama possuir - e a pessoa, um idiota; suas ideias erradas e inconsistentes precisam ser repudiadas pelas pessoas de bem por serem falsas. Afirmo não votar em corrupto. Vem alguém sustentando ser contra a corrupção mas cujo candidato é corrupto e me chama de... isentão(!). É um exemplo acabado de estupidez. Recobro a epígrafe, invocada neste espaço não pela primeira vez e afirmo: não negocio meu voto - muito menos com candidato desse tipo.

   O que acontece quando os fatos são incompatíveis com o universo moral que uma pessoa construiu? A resposta pode nos levar à dissonância cognitiva e à estupidez de Bonhoeffer. A dissonância cognitiva é - aproximadamente - o estado de tensão mental em que crenças, atitudes ou comportamentos entram em conflito. Para preservar determinadas convicções, a pessoa pode então rejeitar ou relativizar fatos que as contrariam. A teoria foi proposta por Leon Festinger. Ele foi citado em um vídeo sugerido em outra postagem, é este, do humorista Leo Lins - não é uma postagem humorística, mas é impossível não rir... O texto é de 8 de setembro de 2023... dei voltas, refleti e caí praticamente no mesmo lugar. Ou estou louco, ou estou muito certo. Estúpidos, enfileirem-se!

Itália 3, Portugal 1

Placares, assim como vinhos, nos enganam, às vezes. Olhando para a garrafa o leitor erguerá uma sobrancelha e se perguntará: quem trucidou um Crasto Reserva Vinhas Velhas 2021 dessa maneira? Devagar com o andor, e não que o santo seja de barro; começarei por onde normalmente termino, o preço: a confra recebeu uma oferta de caixa a pouco mais de R$ 300,00. Seu preço por aí facilmente atinge R$ 600,00, então os olhos da turma brilharam. E resolvemos comprar uma garrafa, porcada (rs), e uma para degustar e avaliar seu estado. Vários degustadores, inclusive a Jancis Robinson apontam-no com data de beberagem (sic! rs!) 2025-2035. Um avaliador nacional, segundo Wine Searcher, declarou "Tem final sedutor, suculento e persistente, com toques de cassis, de amoras, de violetas, de grafite e de alcaçuz, que pedem mais um gole". Bom, opinião unânime: mesmo passando por 8 horas de aeração, Crasto Reserva Vinhas Velhas mostrou fruta contida rodeada por taninos ainda pegados, novos demais embora não verdes. Tem boa estrutura, acidez presente, mas tudo meio desencontrado: um anão de cujas costas sai um adolescente por sua vez originando no mesmo lugar um adulto; quimera onde todas as pernas alcançam o chão e cada pé aponta para uma direção. A boca indica para um grande vinho, num futuro algo distante - quatro ou cinco anos - quando o buquê encontrará o paladar, os taninos, o álcool, a acidez, o açúcar e Baco, o fauno, ambos dançando e rindo ao som da Pã, em meio à vinha e ao sol. Guarde seu exemplar.

Alguém notará: é a segunda postagem seguida envolvendo o Argiolas Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019. De saída vou explicando: embora as postagens estejam próximas, os eventos situaram-se distantes no tempo - seguramente mais de um mês. E já comentei sobre a estratégia para montar sua adega: comprar uma caixa de um bom vinho, deixá-lo envelhecer e no momento correto provar uma garrafa a cada dois ou três meses. Quando o bebedor tiver estocadas seis, oito caixas, ou mais, e o amadurecimento delas chegar, ele poderá intercalá-las - quanto mais caixas tiver, maior o espaço entre as repetições. E o felizardo estará sempre bebendo um vinho bom. No presente caso, aconteceu de ter algumas garrafas e também aproveitar a "promo" da Enoeventos que ainda está valendo. E mais: gosto de mostrar vinhos bons para os confrades, além de compartilhar com eles as oportunidades. Esse exemplar, com meras duas horas de aeração, estava como os demais já descritos: balanceado e pronto para beber. Nariz e boca completos, finalizados, no ponto. Com aeração, o álcool em excesso vai-se embora e apresenta-se integrado ao conjunto da obra, que tem boa permanência e final. De resto, tudo lá: fruta, chocolate (café? - risos!), uma delícia. Compre e beba. Não poderia deixar de fazer menção: D. Neusa serviu um espumante nacional que ela não se recorda de onde, nem como, sobrou em suas mãos. Apenas estava lá, e ela sabe como eu aprecio provar espumantes nacionais - embora não os compre pelo mesmo motivo que me leva a não votar em corruptos: é simplesmente desnecessário. Fausto Brut Rosé, da Pizzato, tem buquê até gracioso, mas com baixa acidez e boca discreta, mais rápida que o Pepeu Gomes no Brasileirinho... e basta de comentários. Custa aqui R$ 80,00. Por 7 moedas lá fora compramos espumantes muito melhores.

Como se precisasse comprovar alguma coisa - como é mesmo a estória do universo moral? - seguem os preços do Crasto cá e lá.

Cá...



E lá...

   Sabendo que o produtor é também o proprietário da importadora que traz o vinho para cá, reflito se o preço aqui poderia ser mais atraente para o consumidor. Acaba vendendo porque um bando de idiotas - capturados pela mais profunda dissonância cognitiva - aceitam pagar seu preço cheio de praticamente 3x. Idiotas do mundo, uni-vos! E paguem... Marx e Engels nunca estiveram mais atuais...

Tuesday, September 8, 2026

Itália: a ilha e a colina

Introito - algumas reflexões soltas, parte 1

Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão envolvido em causas diversas como pacifismo e injustiça racial. De quebra, como opositor ao Adolfo e seu regime, esteve ligado à resistência que desembocou na Operação Valquíria. Foi executado às portas do final da Segunda Grande Guerra. Suas reflexões sobre a estupidez começaram em 1943, já no cárcere. Para ele, a estupidez não é uma condição congênita nem uma deficiência intelectual: uma pessoa muito inteligente pode ser estúpida, e uma pessoa de inteligência modesta pode não sê-lo. O estúpido é uma pessoa que perde sua independência intelectual e passa a pensar e agir de acordo com o grupo ou ideologia que o domina. Portanto, não é propriamente um problema de inteligência, mas de autonomia intelectual e, em última instância, de responsabilidade moral. É aí que a estupidez pode cruzar-se com a dissonância cognitiva: para preservar suas convicções, a pessoa passa a negar ou relativizar fatos que a contrariam.

Carlo Cipolla foi um historiador e economista cuja carreira teve seu ápice em Berkeley, como professor da Universidade da Califórnia. Um de seus ensaios mais famosos, As leis fundamentais da estupidez humana, versa sobre cinco leis que resumo:
1. Subestimamos sempre a quantidade de estúpidos existentes.
2. A probabilidade de alguém ser estúpido independe de sua inteligência, profissão, educação, classe social etc.
3. A definição propriamente dita: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si.
4. Pessoas não estúpidas subestimam enormemente o poder destrutivo dos estúpidos.
5. O estúpido é o tipo mais perigoso de pessoa - mais perigoso, inclusive, que o bandido.

   Observamos que o estúpido segundo Cipolla não precisa acreditar em nenhuma ideia absurda nem é um deficiente intelectual, e nesse último ponto sua concepção concorda com a de Bonhoeffer. Podemos resumir em uma aproximação - note bem: não é um definição completa ou perfeita - que Cipolla identifica o estúpido pelo que ele faz; Bonhoeffer, pelo que ele deixa de fazer. Um observa a ação; o outro, a abdicação da capacidade de pensar. Simplificando novamente, a estupidez é um estado da alma (sic!) passageiro, embora possa durar anos. E, para terminar, se uma pessoa é estúpida para alguma coisa, não significa sê-lo um estúpido completo - mas casos extremos flertam com isso também. É consequência direta de alguém que permanece na escuridão por tempo demais mesmo desprezando um caminhão de provas que lhe apresentem sobre um ou vários assuntos. Deixo para o leitor uma pausa para refletir sobre essas duas abordagens de estupidez com um último pensamento: se gente importante debruçou-se sobre o conceito de estupidez - ou idiotice - e de fato transformou nossa percepção sobre o tema, então não estamos falando de aplicar essas palavras como meros xingamentos gratuitos. Quem se esmera em certas ações e ideias pode, portanto, ser taxado assim com razão. Não que eu goste, apenas não me furto a fazê-lo quando necessário. A vida não é um concurso de bom mocismo.

Um Gran Selezione algo novo

Luciana deu uma italianada (rs!) e do frixópi de lá me liga aflita, pedindo ajuda. Para minha tristeza, Barolos e Brunellos novos conviviam com Amarones ainda mais jovens. Sugeri um Chianti; apesar de durarem, ficam prontos para beber mais cedo. E não bastava: ela desejava algo para provarmos já em sua volta. Chegou com um Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020, produzido pela Tenuta della Famiglia Cecchi, localizada em Castellina. Sugeri sua abertura ali pela hora do almoço e entregamos nossas esperanças para Baco. No início da reunião com a Liu presente, representando a ilha, servi um  Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, da Argiolas. Sugeri esse vinho há pouco, e até semana passada estava em 'promo' na Enoeventos. O produtor dispensa apresentações; sou fã do Korem, um bom degrau acima de Iselis, mas seu preço também anda em outro patamar. Está no auge, e ando mostrando aqui e ali. O Jairo do Shot Café representa a Enoeventos em S. Carlos, e pode trazê-lo ao mesmo custo da importadora - comprei dele, assoprando-lhe a impertinência de procurar outro fornecedor - as boas ofertas rareiam rapidamente. Ótimo buquê, com fruta vermelha e especiaria, a boca acompanhando a experiência com café (chocolate? - rs), taninos maduros, pegados mas redondos, produzindo boa persistência e final. Não muito mais a colocar sobre o que já foi dito e recomendar sua compra se estiver na promo. Pela colina, O Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020 encheu taças de vinho e corações de alegria, mesmo estando novo. Estruturado, tânico, encorpado, e claramente fechado. A cereja da Sanviogese mostrava sua assinatura clara, a despeito da madeira competindo ao fundo. Suas qualidades estavam um tanto encobertas pela juventude desse exemplar; ficará bom com mais cinco ou sete anos, e bebê-lo nos dias de hoje configurou-se um leve infanticídio (rs). Tenho visto em nosso mercado alguns outros Chianti e até o Brunello desse produtor. Talvez não seja exatamente o mesmo - parece que o negócio está dividido na família e quem produz uns não produz outros - mas algumas comparações de preço não haviam sido muito animadoras. Valeu a pena ter provado dele, é um bom vinho; que venham melhores oportunidades para comprá-los.

Monday, September 7, 2026

Vinho de primeira, taças grandes!

Introito

   Houve quem não entendesse a menção ao musaranho na postagem passada - passou algum tempo agora, e talvez todos saibam. Esse é o grupo de Uátizáppi usado por alguns bacanas 1, 2 para tratar de negócios pouco republicanos, como já virou clichê. Reportagens levadas a cabo por Veja e o Estadão estão debulhando a estória apesar do sigilo imposto. O filhote de NAP (Nosso Amado Presidente) foi pego com a boca naquilo e aquilo na boca, digo, trocando mensagens constrangedoras com uma conhecida lobista de Brasília. O assunto está bem explicado pelo jornalista Felipe Moura Brasil, aqui (matéria de 24 min). A imagem abaixo resume investigações onde a influenciadora teria recebido quantidade significativa de dinheiro e pago despesas do filhote, que teria atuado, supostamente, em alguns negócios de interesse da intermediadora.


   São mensagens de Lulinha: 
   - A gente tá se arriscando... é só esperar uns poucos meses e poderemos fazer isso sem medo de nada...
   - Eu não tenho nem dim dim nem origem para isso... Não dá preu (sic) gastar tanto agora... Qualquer merda não tem explicação nenhuma.
   - A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc q cuida das minhas finanças.

   Percebe o receio imediato? - bastaria esperar um pouco e fazer sem medo - e uma confissão. Continua: não tenho nem dim dim nem origem para isso. É-me difícil conceber aquele senhor dizer não ter dim dim e - pior - não conseguir justificar algum gasto pela falta de origem. É intrigante como ao Ronaldinho dos negócios não tenha sobrado sequer uma atividade pela qual pudesse, ao menos, ter emitido uma nota fiscal de qualquer serviço de assessoria. E notem: nada há de ilegal se o filho de um presidente, após a administração de Papi, aproveita-se do networking angariado e constrói, até com relativa facilidade, múltiplos negócios bem estruturados. Mas nada restou, e isso simplesmente contraria a proposta da comparação feita por NAP.
Ele próprio, aliás, furtou-se a responder perguntas sobre o filhote. Assim a alma mais honesta deste país põe em descrédito o ditado quem não deve não teme... ou estou enganado? Um passado já comprometedor e um presente ainda pior floreiam o caminho de NAP, em cuja administração se acumulam os maiores déficits da história deste país, descontando a pandemia. É preciso um atestado de idiota para pensar em votar nesse candidato. Sendo de esquerda, envergonha-me apresentar tal constatação. Um momento! Posso ser de esquerda, mas não sou intelectualmente desonesto. Muito menos apoio incompetentes. O que dizer dos recentes suspeitos de corrupção. Nas palavras do próprio NAP, a intermediadora a esse tempo passou a pilantra, e ele nega tê-la conhecido. Apenas um lapso, sabemos todos... Depois seus seguidores não gostam de ser chamados de idiotas, posam de ofendidinhos... um novo estado de espírito inaugurado por tempos de internet para pessoas com profunda dissonância cognitiva.

Amantes de Baco

   A confra Amantes de Baco promoveu outro encontro, já há um bom par de meses. Foram-se as últimas garrafas compradas em grupo e a partir de agora ou a turma se anima a outra compra ou entramos na fase do cada um por si. Se desejasse dar um troco no governo poderia especular alguma compra em modo Jack Sparrow - tenho visto muita oferta desse tipo por aí - mas isso me igualaria àqueles que critico. E nem os confrades aceitariam, conheço-os todos e dou fé. Dar o troco seria uma bela justificativa para que eu mesmo entrasse em dissonância cognitiva; além da questão moral, mantenho-me atendo para não cair nela. Vamos aos embates.

O Maquis Gran Reserva Rosé 2023 chegou com um buquê delicado, diferente do cítrico que aprecio mais nos brancos - 😒 afinal, era um rosé... - mais floral. Ainda fresco mas ligeiro, acidez presente sem muita festa nem alarde, agrada quem mantém-se fiel aos vinhos sul-americanos; não tem muita presença em boca e não deixa rastro nem lembrança. Particularmente nunca fui fã de rosés mesmo tendo provado alguns europeus, mas se tivesse que promover uma lambança arriscaria um veredito como falta-lhes. O Akira refletia sobre bons vinhos brancos serem de produção mais complexa se comparados a tintos equivalentes. Fico pensando se produzir bons rosés não esteja um patamar acima. Não conheço, essa reflexão é um long shot. O Barrica 143 2023, alentejano produzido pela Ravasqueira em corte de cepas locais com um Syrah intrometido (rs) apenas não me marcou. Não tenho recordação de suas características e não desgostei para um momento de confraternização e convivência bacântica 😂. O produtor não é ruim - este aparenta ser um exemplar mais básico de sua gama -, e de algum tempo para cá tenho desfrutando - por obra da temperança e sugestão de Baco (mete o saca-rolha!) - de algumas garrafas guardadas por muitos anos ou compradas mais recentemente em ótimas 'promos'. Chegou a hora deles, e o padrão está aumentando. Claro, não recuso vinhos mais simples - apenas não os compro - e assim acompanho opções de mercado que de outra maneira me escapariam. Curiosamente não encontrei esse vinho em Portugal para comparar seu preço. Indicativo de ser um produto destinado especificamente ao público brasileiro? Não procurei muito. O Lopez de Heredia Viña Bosconia 2014, aerado por umas 6 horas, apresentou-se bem melhor do que a garrafa anterior, degustada com a mesma turma - compramos em duplicata. Encheu narizes, mentes e almas com fruta vermelha abundante em primeiro momento e ricas sugestões em segundo plano: especiaria, couro/tabaco (qual? ambos?), e mais. Boca equilibrada, sedosa, fruta repetindo-se, um pouco terroso com taninos vivos e ótima acidez. Permanência longa - querem invocar essa qualidade para cada vinhozinho chinfrim... Seu valor de venda é tubaronesco, embora tenha aparecido em promos aleatórias, com rótulo da importadora e tudo, conforme comentado e comprovado recentemente. Já o Brunello di Montalcino Castello Banfi 2020 levou uma saca-rolhada (sic) logo nas primeiras horas da manhã. Safra nova, precisaria de um serviço longo, com apreensão desde Enochato. Evoluiu bem e mostrou-se bom para ser degustado, embora não escondesse a juventude. A cerejona estava lá, firme, na frente de tudo. Tinha frutas nervosas e toques ricos; os taninos, se não estavam verdes, eram inquietos, apesar de não estressados (risos!). Boa acidez, bom conjunto em boca. Vai melhorar muito e apostaria em 2030 como um início de janela de beberagem para sua versão mais complexa - 10 anos é o piso para bons Brunellos, e esse, para quem não sabe, é o reba dos três produzido pelo Castello. Se você tem, guarde. De um lado vem a reflexão do mete o saca-rolhas, mas por outro recobro a reflexão da postagem passada: Este não é um momento para covardes. Apenas abra outros vinhos igualmente bons.

Vinho de primeira, taças grandes!

Essas moças estão viajadoras demais... Sobramos Liu e eu, e um para o outro nos agradamos, em alguma sexta-feira há algum tempo. Vai tempo de quando citei trecho de um diálogo impagável onde Peter Ustinov, como Batiatus, aborda o vinho. Vou expandi-lo. Batiatus, o proprietário de uma escola de gladiadores, recebe a notícia da visita surpresa de romanos notórios - ninguém menos do que o general Marcus Crassus. Para recepcioná-los, ele recomenda a seus escravos para servirem vinho de segunda, taças grandes... não, não... vinho de primeira... taças pequenas... Mas em uma reunião a dois o dito foi invertido, e ficamos com vinho de primeira, taças grandes! 😂 Quinta da Gaivosa (2015) não me é desconhecido; havia apreciado a safra 2011, em 2021. Já mencionei um bebedor estar se desfazendo de sua adega - felizmente apenas por questões amorosas, a esposa ou as garrafas, quando, até sob auspícios de Baco, ele tomou a decisão correta - e esse exemplar veio no meio de várias arrebatadas a bom preço. Quinta da Gaivosa é um ótimo vinho; nariz com fruta claramente vermelha e toques de chocolate (café?), especiaria e mais complexidade. Entrada em boca mostrando taninos pegados agora arredondados, algo a mentol, deixando aquele aspecto tridimensional de encher a boca, um doce discreto à chocolate, acidez marcante e ótimo final, com persistência longa. Um grande Douro em seu ápice e ainda escalando. Ótimo para beber, excelente para os próximos 5 anos, quiçá mais. Esse sim, se você tem junto do Banfi 2020, não pense duas vezes: mete o saca-rolha! É um vinho de USD 50,00 algumas vezes vendido a R$ 800,00-R$ 900,00, mas aparece em 'promos' por R$ 500,00 ou até menos. Por R$ 500,00, está no limite de 2x.

Uma loja de internet

Havia visitado o Empório Caçador de Vinhos, mas nunca tinha comprado deles. É preciso cuidado, a rede está repleta de golpes. No caso escolhi uma abordagem... agressiva (risos!): contatei o Whats deles e pedi uma ligação de vídeo, explicando ser um comprador que não conhecia a loja física e deseja vê-la. Fui prontamente atendido e a funcionária muito gentil fez um tour, mostrando-me inclusive a garrafa de meu interesse. A motivação aconteceu porque fora-se há pouco meu último Dulcamara, e sabia existir no Caçador, a R$ 199,00, o  Perbruno, do qual degustei duas garrafas. A linha toda era trazida pela Cantu, que nunca primou pelo serviço de seus produtos em degustações - e torna certos vinhos decepcionantes. Talvez por isso os vinhos da I Giusti & Zanza nunca tenham decolado por aqui: eles precisam de areação... mesmo o simples Nemorino, veja no comentário da postagem. Perbruno é vendido diretamente do sítio do produtor a €22,50 (R$ 134,00). O produtor dá um bom desconto ao atacadista, de modo que este não sofra concorrência na venda. Quando o vinho é exportado, ele provavelmente está livre de impostos locais - um governo precisa ser muito idiota para exportar impostos e tornar seus produtos menos competitivos no mercado mundial. De qualquer maneira seu valor estava abaixo de 2x, que é o limite onde este Enochato ativa seu modo comprador. Pesquisei outras opções, várias dentro dessa faixa e outras tantas fora dela - é preciso cuidado! Selecionei o que o leitor vê acima. A entrega foi rápida - menos de uma semana e as garrafas vieram bem embaladas. Empório Caçador de Vinhos é uma loja multimarcas: vende de diversos importadores, a preços algo espremidos. Por exemplo, o Viña Ardanza Reserva da tubaroníssma Zahil está lá a R$ 599,90, o que não deixa de ser atraente para o valor médio dele por aqui - é fácil encontrá-lo entre R$ 700,00 e R$ 900,00. Mas não adianta muito: ele custa 30,00 dólares lá fora (menos de R$ 200,00), e isso dá 3x para o valor do vinho lá fora. Acho que o lojista precisa fazer o dever de casa e recusar vinhos com tamanha variação em desvantagem para o consumidor. Principalmente quando ele aparentemente já está sacrificando parte de sua margem. O risco natural é sofrer encalhe. O consumidor inteligente deixa o produto na prateleira até que a inflação o corroa - ou até um trouxa passar e levá-lo por um valor intermediário, mas ainda assim corrosivo para seu bolso. O mercado está aí. Previna-se.

Ah, claro: como se este articulista ainda precisasse comprovar suas informações como fidedignas: