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Monday, October 28, 2024

Evento Mercearia 3M e novas comparações

Introito

O demônio mora nos detalhes.
Alguém. Mas bem poderia ser este Oenochato.


   Goethe era relativamente bom. Claro, em nome da honestidade intelectual preciso dar-lhe a precedência quando a assunto são minúcias, embora ele próprio não tenha sido o autor da epígrafe (às vezes é-lhe atribuída por engano) nem o primeiro a preocupar-se do tema: Aristóteles, Léo(nardo), Buonarroti e Galileu vieram antes dele. Atual e localmente, pelo que tenho visto de estúpidos encarregados da defesa de bocós e boçais, ser o portador desta causa cabe ao Enochato a vos escrever. Recentemente, convocada por uma Comissão Parlamentar, a Sinistra do Meio Ambiente foi curralada (sic), ou algo assim, por um bando de idiotas direitosos cujo QI aparenta ser 90, no máximo. Diz pouco sobre os parlamentares, eleitos por gente de inteligência inferior às deles, mas diz muito sobre a Sinistra deixar-se enredar por essa choldra. Um trecho do debate está aqui (11 min); observe que o mérito nem de perto está na qualidade das críticas à Sinistra, mas na autodefesa esboçada pela própria, com pouca competência ou sentido. No minuto 8:30 diz-nos que mais de 80% dos 'focos de calor' estão controlados. Mas como se iniciaram?! Onde estão leis rígidas e medidas eficazes para coibir esses malfeitos, ou pelo menos para punir exemplarmente os bandidos depois de feito o estrago? Não seria um dever de Sinistro de Estado encaminhar para o Congresso propostas nesse sentido? Onde estão elas, paradas no Congresso, na gaveta da Sinistra ou sequer foram alguma vez escritas? Que Deus dê o veredito de culpada à malandra. E ao seu superior, por ainda não tê-la demitido antes, para o bem da Nação.

Paduca

Teve um encontro da Paduca, ambos os vinhos às cegas. Ninguém acertou a procedência dos atores - ou acertou?, mas valeu (risos). Paulão, nosso membro mais adepto à experimentação e novas descobertas, chegou com um Beronia Crianza 2019, riojano corte Tempranillo (83%), Garnacha (15%) e Mazuelo (2%), dizem (rs), frutadão (não é uma crítica!) e mais notas na direção de chocolate, bem agradável no nariz. Boca alegre, fácil de beber, equilibrado, taninos e madeira discretos, alguma acidez. Beronia é um bom produtor, embora às vezes possa meter os pés pelas mãos - aqui. Seus Crianza e Reserva ficam atraentes nas numerosas 'promos'  encontradas nos quatro cantos da internet, e quando isso acontece são interessantes de se provar. Usar o Wine Searcher e comparar seu valor na Espanha com o da oferta daqui é primordial. Jamais pague mais de 2x, sob pena de alimentar um mercado francamente explorador do consumidor. E, nos dias correntes, com crise e tudo, teje esperto (sic): podem aparecer pechinchas melhores. Use o Wine Searcher sempre! Na esteira veio um italiano, o IGT da I Giusti & Zanza Belcore 2019. Corte  80% Sangiovese e 20% Merlot, tem mais pegada se comparado ao Beronia: o nariz vem marcado à fruta vermelha e notas como fumo/couro, a boca é mais complexa pela melhor acidez, taninos mais pronunciados - mas já bem redondos - e maior permanência. A Merlot é uma ótima uva para ser usada em cortes, e ajuda bastante a amaciar a Sangiovese - quem já leu sobre o Brunellogate (1, 2, 3), escândalo onde os vinhos 100% Sangiovese supostamente foram cortados com justamente a Merlot - sabe muito bem. Declarado como IGT, Belcore atesta a presença da cepa francesa em seu vinho e não engana o consumidor. Ele é amplamente melhor, mas tem a obrigação de sê-lo, pelo preço: custa 50% a mais, USD 19,00 contra USD 13,00 de Beronia Crianza. Por aqui seu preço tem variado muito, entre R$ 160,00 e R$ 287,00(!), oscilante entre boa oferta e tubaronice. Mas repetindo: para o 2x de Belcore, o consumidor atento pode encontrar melhores opções.

Malucadeliu

Por ocasião de algum encontro da Maluca (rs), provoquei os confrades sobre um desafio explícito Sul-americano versus Europeu. A turma aceitou e nos reunimos alguns dias depois, para uma prova às cegas. Trouxe alguns bois de piranha em minha última viagem para o Chile, e tenho feito algumas brincadeiras, como esta na Paduca, ou esta na #Émuitovinho, onde todos identificam, sem muita dificuldade, a diferença de qualidade entre os vinhos. E nunca é o caso de se colocar vinhos díspares - pelo menos não no preço! - na mesa, pois assim torna-se claro que, para produtos do mesmo valor, a diferença de qualidade torna-se abertamente observável, para bebedores com um mínimo de traquejo. A questão, então, gira em torno da possibilidade do leitor promover com seus confrades comparações adequadas: é necessário colocar vinhos de valores similares em seus respectivos países de origem, e para isso nada como o Wine Searcher. E sempre lembro: um vinho de valor 'x' em seu país de origem pode custar no Brasil 1,8x, 2.5x, 3.2x ou 4.8x. Esteja atento! Nunca pague algo superior a 2x! Nunca! A presente brincadeira envolveu um vinho já degustado aqui, entre um ilustre representante da desconhecidíssima cepa Monica, o Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, da Argiolas, e um dos vinhos que já esteve entre meus prediletos, o Tarapacá Etiqueta Negra CS, safra 2020. Degustado inicialmente em maio deste ano, Iselis não teve dificuldade em amassar o Tarapacá; pelas degustações relativamente recentes (siga os vínculos), creio-me dispensado de comentar as notas de cada um deles. Como nota, de propósito deixei o Tarapacá resfriar um pouco mais para ver se empesteava com buquê à pirazina, mas não aconteceu, ao contrário do ocorrido com um Casillero recentemente degustado. Comento mais abaixo.

Mercearia 3M

A Mercearia 3M promoveu uma rapidinha estes dias. Não estava sabendo, mas o sr. Cristian Olate Rojas, representante da Calcu, ligou-me avisando. Nos conhecemos em maio de '23 quando tive a grata surpresa de provar seu ótimo branco, o Calcu Branco Gran Reserva. Conversamos mais um tanto sobre o estado do preço (sic) dos vinhos chilenos, e ele concorda que de maneira geral estão caros. Atribuiu parte do custo à evolução e cuidados dos produtores com o processo. Depois fiquei pensando, e não me convenceu que tais custos justifiquem os vinhos triplicarem de preço... ademais, as comparações com as confrarias demarcam a qualidade dos vinhos como o oceano demarca a distância entre Américas e Europa... Calcu Branco 2023 está com a acidez marcante, frescor e final marcado como da safra anterior, e cairá bastante bem com um sushi. Os tintos mais simples de Calcu agradarão os consumidores de vinhos chilenos, mas para mim faltou-lhes acidez. A Ravanal estava lá, mas não lembro-me do nome de seu representante 🙄. Os toques de pirazina revelaram-se mais discretos - como nos Calcu tintos - e a explicação foi a alteração da época da colheita para um momento onde esta pronuncia-se com menor força. Parece estar dando certo, pois não a notei como em safras provadas há uns poucos anos. Falta resolver o problema da acidez. E do preço. 


O inesperado atacou novamente na figura da Bodega Albaflor, com seus Merlot (2019) e Syrah (2020). Ambos com mais de 14% de álcool, mostraram acidez surpreendente com boa persistência - para sul-americanos, bem entendido. Gostei mais do Syrah pela expressão de fruta mais marcante e toques chocolate ao nariz, bom corpo, taninos já arredondados, pronto para beber. Se o preço for mesmo cerca de R$ 150,00, bem... sabemos como eles seriam alvos fáceis numa competição com europeus. Penso por exemplo no Quinta do Noval, cujo Syrah 2018 embalou a parte inicial desta postagem... não se compara... o mais engraçado é que havia sobrado um pouco dele, quando convidei a Débora para dar-lhe cabo. Mas achei pouco meia garrafa para dois, e acabei abrindo também um Valduero Crianza 2016, e adivinhem... sim, sobrou meio Valduero para o dia seguinte - o mesmo a embalar o final destes comentários... como o leitor percebe, postagens bem atrasadas. E não espero dar conta, esta semana a programação promete ser intensa.

Monday, March 18, 2024

Uma semana triste

Introito

No dia 13 passado tivemos mais um encontro no Shot Café/Vinho, com apresentação de uma viagem ao Egito pelo viajor Eduardo, da Caminhos do Turismo. Não bastasse, era aniversário dele. A surpresa para todos chegou quando o Edu começou a tentar nos dizer, com olhos embargados, parando de tanto em tanto para tentar conter a emoção, que preferia nenhuma manifestação mais efusiva pela data; ela estava eclipsada de maneira indelével pelo estado de saúde crítico da mãe de uma de nossas queridas confrades. Ela veio a falecer na sexta-feira, e infelizmente a distância a separou de nós todos. Ficam nossos melhores sentimentos - não apenas os meus, mas de todos os participantes do encontro, que manifestaram sua solidariedade sem mesmo conhecer a confrade.

A degustação das Arábias

Bem, a degustação não foi das Arábias, mas do Egito, embora o Edu tenha passado ali por perto também. Mas tinha camelo, o que por algum motivo dá-me um quê de Arábias... Os vinhos não foram de lá, apenas o assunto rondou esses lugares. Começamos com dois brancos, mas lembro-me de somente um: o Corte del Golfo Coda di Volpe Irpinia 2020. As coisas complicam, aqui. Coda di Volpe - Rabo da Raposa - é o nome da invulgar cepa branca da região da Campania, na 'canela' da bota. Infelizmente foi servido em uma taça desajeitada, e meu nariz estava algo ruim no dia. A mulherada estava afiada: alguém disse ter mel - segundo a ficha técnica, tinha mesmo. Ainda cravou-se outra expressão corretamente, não lembro-me qual. Sem acidez, não chamou-me a atenção. Tivemos um Brumes de Gascogne Merlot e Tannat 2021, localizada no sudoeste da França - mais ou menos fica abaixo de Bordeaux, em direção à Espanha. Pega um pouco mais das terras à direita também - lembre-se: Bordeaux fica próximo ao Atlântico; o sudoeste vitivinícola desce em direção da Espanha espalhando-se para o interior, a leste. Essa região é caracterizada, dentre outros detalhes, por ser o lar da Tannat e da Malbec na França, em comunas distintas. Brumes de Gascogne é um pouco ligeiro, leve, e novamente a mulherada notou (e acertou) cereja. Alguém ainda mencionou a cepa. Os homens ficaram como avestruzes. Achei que casou com pizza, mas aprecio mais vinhos de maior corpo; pode ter seu público e apenas este Enochato não faz parte dele. O Castello Di Querceto Rosso Toscana 2020, com melhor corpo, agradou. Se não me engano o corte Sangiovese, Syrah e Merlot é produzido em Chianti, e Querceto acaba rotulado como IGT pela presença da Syrah - até onde sei a Merlot foi permitida na DOCG, mas não a Syrah. Tinha fruta evidente, e outras notas; boca um pouco mais pegada mas faltou um teco de acidez para dar graça à composição. Tinha outras expressões, mas acabaram passando.

Esticando na adega do Enochato: erros que foram acertos

Apesar do infortúnio anunciado, a data ainda era comemorativa. Convidei os presentes para esticarem a noite. Fui à pizzaria, duas quadras dali, encomendar uma única peça, e quando retornei o número de pessoas dispostas a degustar mais algum vinho tinha dobrado 😣. Uma turma heterogênea, pensei rápido: mais um ótimo grupo para experiências deste Enochato. Servi dois vinhos às cegas enquanto o terceiro respirava um pouco à vista de todos. Como mencionado, o grupo continha desde neófitos até gente mais experiente, que curte viajar para vinícolas e conhece vinho há até mais tempo do que este escriba. Após ouvir algumas opiniões rápidas "gostei/não gostei/gostei mais", pedi ao Waldomiro uma análise mais técnica. Confrade eventual de quase duas décadas, ele tem bastante experiência com vinhos do velho e novo mundo. Achou o primeiro vinho 'até bom' embora ligeiro; podia ser bebido sozinho e agradar; avaliou em uns R$ 80,00. O segundo, bem mais estruturado, mereceria um acompanhamento, e estaria na faixa dos R$ 120,00-R$ 150,00. O primeiro era o Tarapacá Etiqueta Negra Cabernet Sauvignon (preço: R$ 170,00 em 'promo' a até R$ 320,00), e o segundo era nosso valente e valoroso Quinta de Chocapalha 2016, que comprei a cerca de R$ 90,00. Em termos de preço de mercado, as avaliações do Waldomiro soaram um fora excepcional. Mas... como é mesmo a estória repetida ad nauseam por aqui?, vinho sul-americano está caro demais.... Pois é! O Waldomiro avaliou corretamente - comparando pelo preço de mercado - o quanto deveria valer (posto aqui!) um Tarapacá Etiqueta Negra e acertou o preço 'normal' (tubaronesco) do Quinta de Chocapalha. O preço baixo (na verdade, honesto) de Chocapalha (abaixo de R$ 100,00) deve-se possivelmente, à crise não comentada pela qual passam as tubaronas - e talvez todas as importadoras do país. O pessoal está queimando 'lucro excessivo' e desovando com margens mais condizentes. Se prestar atenção tem muita oferta interessante por aí. E voltando ao Waldomiro, sua avaliação correta do 'preço brasio' para o Chocapalha mostra (risos!) quanto ele precisa usar mais o Wine Searcher e preservar suas compras. Fora isso, walew, Waldomiro!

   A segunda parte foi um fora deste pobre-coitado: o Edu falou em beber um Rioja; imerso na soberba, puxei um Ribeira del Duero... 😣. Era o Pago de Los Capellanes Joven 2019, já comentado outras vezes. Pelo menos, após aerar por uma boa hora antes de ir para o balde, ele mostrou ótima fruta e estrutura, deixando para trás os dois primeiros. É mesmo outro padrão de vinho, e esta safra pode ser guardada por mais alguns anos. Tenho comentado isso com a Paduca: eles ficaram entusiasmados após experimentar o Gran Reserva do Bilbao - está aqui - contra um Muga Reserva novo e não pronto para ser degustado, e exultaram-se com o primeiro, sem notar bem o potencial do segundo. Observemos tratar-se de um Reserva versus um Gran Reserva. A estória repete-se: um produtor melhor faz diferença. Não que os vinhos da bodega Ramón Bilbao sejam ruins, mas para mim afigurou-se uma boa fronteira para futuras experiências, principalmente com iniciantes: comparar o quanto um Gran Reserva de certo produtor pode ficar abaixo de um Reserva - ou mesmo Crianza - de outros produtores. Um tema a ser explorado em futuras brincadeiras.

Outro falecimento

Nesta segunda-feira, amiga querida e confrade faleceu, levada pelo câncer, na flor dos 82 anos. A Margarida M.M. Tavares, terceira da esquerda, entre a Márcia (segunda) e Elvira (cabeceira) sempre compareceu às reuniões munida de bom humor, graça e leveza, insistindo que não entendia nada de vinho; ela apenas gostava ou não gostava do que ia provando. Não entendendo, do que gostava mais, ao final repetia uma taça. Convençam-me dessa verdade sob minha afirmação: ela sempre escolhia, para repetir, o melhor vinho da noite... 😏 safadinha, enganava todo mundo e jamais percebemos. Tão logo escureceu nesta noite, busquei meu telescópio e apontei para a saída do nosso sistema solar. Não vi, mas senti: ela já passara por lá, em direção ao Grande Tudo. Fique onde ficar, esse lugar está mais divertido agora.

Wednesday, March 6, 2024

Paduca em noite de acertos

Introito

A reunião da Paduca nesta terça foi animada e divertida, repleta de acertos e alguns enganos engraçados. O duro, analisado friamente, foi constatar o quanto tais erros pouco tinham a ver com a interpretação dada aos vinhos - um deles estava mesmo muito diferente do esperado. Começou com a proposta de dois vinhos às cegas capitaneados por este Enochato, mas como os ânimos estavam animados acabamos consumindo três garrafas. O acompanhamento foi providenciado pelo Duílio, com seu já popular (rs) quibe assado. Desta vez o Paulão trouxe um mato estranho e ainda tentou fazer-me crer ser ele bem popular entre os naturebas. Rúcula, acho que era isso. Não é nem um pouco popular aqui em casa... 

Com Paulão e Duílio, servi o primeiro vinho fora da temperatura adequada - mas pelo menos tínhamos algo nas taças... 😣 O primeiro cafungou e lançou um já bebi desse vinho... ele está ficando viciado nisso (rs). Samba, suor e ouriço nas conversas - principalmente ouriço - sirvo o segundo, em temperatura já adequada. No rastro, servi novamente do primeiro. O Paulão não se fez de rogado: O primeiro parece português. O segundo, sulamericano. O Duílio viu Cabernet Sauvignon no primeiro, e alguma espanholidade (sic, rs) no segundo. Chega o Fernando esbaforido, vindo de viagem, e mal cafunga já manda, de cara: Este segundo é sulamericano sem dúvida, o outro parece.... italiano. Dizemos mais uma rodada, as opiniões mantiveram-se. Saia o quibe e voltou a conversa inicial, samba, suor e ouriço - principalmente ouriço - e observamos a harmonização. Chocapalha casou bem com o quibe, os convivas ficaram satisfeitos. Já mostrara e comentara os dois primeiros vinhos aos confrades quando percebi os apetites insaciáveis, e convoquei a terceira garrafa. Essa todos viram logo de saída qual era...


O primeiro vinho foi o Quinta de Chocapalha 2017, um corte 65% Touriga Nacional, 10% Tinta Roriz, 10% Alicante Bouschet, 10% Touriga Franca e 5% Castelão, produzido na região de Lisboa. Com 14% de álcool, fruta bem evidente e mais notas - achei café, Paulão disse toques de terra, herbáceo - com boa permanência, acidez quase média, taninos macios e bem integrados ao conjunto, realmente casou com o quibe ao azeite. Final algo curto, mas razoável para seu preço. O segundo foi o Tarapacá Gran Reserva Etiqueta Negra 2020, um Cabernet Sauvignon que nada guarda com as edições mais antigas de quando eu era fã da marca. Seu doce de entrada no nariz - goiaba - surpreendeu negativamente e sequer lembrou o exemplar de mesma safra degustado no Chile ano passado, por ocasião do aniversário do Nagibim. As versões mais antigas apoiavam-se bastante na madeira, enquanto nas novas safras essa característica ficou em segundo plano. Verdade seja dita, a fruta enjoativa cedeu um pouco com a temperatura mais baixa - ou teria sido a aeração? -, mas deixou um quê de decepção. Tem sim outras notas de frutas, todavia seu dulçor ainda competiu muito com os taninos. Acidez? Baixa... nada como ter a comparação de taça ao lado... final? Oh, Lord... para ter final precisa ter início... Servi a terceira garrafa sob os olhares atentos do Lemão.

Cafungávamos da terceira garrafa quando comentei meu propósito na reunião:
- O que eu queria era um vinho europeu para comparar com o Tarapacá, e que o batesse no menor custo possível, dentre o que tenho aqui na adega.
- E conseguiu justinho! De fato o Chocapalha bateu o Taracapá! - apoiou o Duílio, enquanto abria um sorriso largo ao dar-se conta da proposta e do objetivo. Os demais confrades concordaram com a avaliação, unânimes. O Fernando disse que o terceiro talvez fosse o vinho mais fraco, opinião não compartilhada. E ao final ficou claro: este acabou, enquanto o Etiqueta Negra sobrava em pouco menos de meia garrafa. Já escrevi algo como os melhores vinhos encontram as taças antes dos demais. É isso aí... La Garnacha Salvaje Del Moncayo é um dos exemplares do Proyecto Garnachas, baseado em La Rioja e com o intuito de resgatar essa cepa - conhecida como Grenache na França e Cannonau em algumas regiões da Itália - em diversas regiões do norte da Espanha, apresenta expressões do Priorato, dos Pirineus, de Aragão e da Serra da Cantábria - próxima a Rioja. Tem nariz com fruta bem vermelha, boca redonda com 14% de álcool, madeira discreta, acidez presente - não tão alta, mas não desaponta - e final condizente. Agrada, e não deixou por menos: conforme já relatado, evaporou na frente do Etiqueta Negra. 

Os preços

Quinta de Chocapalha está por volta dos 10,00€ em Portugal, o que dá lá seus R$ 54,00. Tarapacá custa no Chile entre 15.000 e 20.000 Pesos, o que dá entre R$ 75,00 e R$ 100,00. La Garnacha Salvaje custa 9,00€, ou R$ 49,00, na página do produtor. O preço de 20.000 Pesos é o normal, e temos a promo com desconto. Verdade, seu valor lá oscila bastante - bem como de outros vinhos mais premium, o que só reforça a tensão para cima do valor pedido por eles. Grosso modo vemos um chileno a 2x do português e do espanhol, levando couro de ambos! E note: Tarapacá é rotulado como Gran Reserva, enquanto os outros são apenas vinhos simples, sem qualquer 'ostentação'. Chocapalha pode se encontrado aqui por até R$ 100,00- (menos de cem reais!), enquanto La Granacha estava uns R$ 110,00, para pagar no pix, o limite da compra; em seu preço normal, é tubaronesco. Já Taracapá pode, com muita sorte, ser encontrado a R$ 170,00. Seu preço normal antes das 'promos' pelas quais anda passando é uns R$ 230,00, embora possa esticar a até R$ 320,00(!). Vinho sul-americano está caro... mas onde você já leu isso, mesmo?

Preço do Chocapalha, lá e cá.



Preço do Tarapacá, lá e cá:




La Garnacha, lá e cá


Friday, July 28, 2023

Alguns embates com chilenos

Introito

Agora nós estamos em guerra com a Lestásia.
O inimigo sempre foi a Lestásia.
Eurásia é uma nação aliada.
1984, de George Orwell


   Novamente os MBLers foram aprontar das suas em algum lugar, uma pocilga onde juntaram supostos agressores - tenha certeza, foram pagos pela organização para simular o conflito - e produziram mais um teatrinho para incriminar os Sagrados Portadores do Saber (SPS) numa tentativa vã de desconectar o movimento universitário de Nosso Amado Presidente (NAP). NAP finge não ver, e está correto; para que dispender seu tempo precioso com querelas tão pequenas? Por outro lado, SPS de verdade jamais entrariam em tamanha confusão. São pessoas do bem, do bom carácter, do amor, da racionalidade, da argumentação...  veja parte da orquestração:


   Não é mesmo uma produção mambembe digna de novela mexicana? Ou vai dizer ser possível reconhecer as instalações de alguma universidade por essa filmagem? Faça o seguinte: para evitar ser enganado por calhordas cuja única função além de respirar é propagar notícias falsas, veja o que está acontecendo de maneira bem simples, acompanhando as postagens deles. Veja aqui. E não se deixe enganar por idiotas cujo discurso sequer faz sentido. Tem muitos, principalmente uns querendo mamar nas tetas do NAP sem ele perceber. De boas intenções o mundo está cheio... Né, Janja? Olha, próxima presidência está logo aí...

Extra! Extra!

A Enoeventos está comemorando aniversário com promoções que valem a pena conferir. Começou hoje, e nos próximos 4 dias novos vinhos serão agregados às ofertas até o final do último dia ou venda dos estoques. Dê uma passada por lá, mas nunca sisqueça: Wine Searcher sempre!

Embates com chilenos

   O leitor cansou de ler minhas críticas aos vinhos chilenos. Digo, a seus preços, porque vinho é uma relação custo-benefício. Tá, tem um componente exclusividade aí, mas vale para apenas algo como 5% dos vinhos. Alguns colegas e confrades comentam sobre o fato de não experimentado safras mais novas de vinhos chilenos, seja de vinhos mais premium ou mesmo ícones. Já discuti o preço do Don Melchor - um dos 'grandes' vinhos chilenos - em 2019, e ficou claro o quanto ele é caro em seu país de origem. Pouco mudou: está USD 250,00 (R$ 1.250,00) no frixópi do Chile, e aqui foi ofertado neste julho a R$ 900,00 (algo como USD 180,00). Como sempre, a pergunta persevera: veio do Chile por algum tipo de frete, pagou cerca de 60% de impostos brasileiros e chegou à prateleira a preço final de 900tão, dando lucro para o importador e para o lojista. Saiu de lá por quanto? Qual a justificativa para seu valor, ainda mais no frixópi?

   


   Bem, vejamos alguns embates: o primeiro, por um lapso, não fotografei. Consistiu do mesmo Domaine Ferraton  Côtes du Rhône Samorens 2021 da foto abaixo contra um Tarapacá Etiqueta Negra CS 2020. Cuidei do serviço, alguma aeração (1 hora), resfriei... ambos com bom buquê, bastante fruta, e a grande diferença perceptível na boca: enquanto o Etiqueta passava lépido e faceiro, sem deixar marca ou lembrança pela garganta, o Côtes deixava sua marca nem tão discreta. Sim, o Etiqueta apresentou a picância típica da Cabernet Sauvignon enquanto seu oponente tinha igual tanino, a elegância do doce discreto do corte GSM e a acidez necessária para dar-lhe ampla vantagem.

   

   Encontrei com o Klaus, amigo chileno que conheci por conta do casamento do Nagib lá pelos idos de 2002, 2003, e ele levou-me a uma loja próxima ao condomínio onde mora. Encontramos o El Enemigo 2019 por cerca de USD 60,00 (o dobro da Argentina), e um pelo outro, na hora agá apresentei o Château de Saint Cosme Gigondas, também de 2019. Aeração de algumas horas neles - 2 ou 3 - e o Gigondas apresentou-se fechado. O Wine Searcher dá-lhe uma janela de beberagem 2022-2030. Acho que dura mais, e o patamar inferior está muito errado. Tinha fruta sim, mas claramente presa; taninos presentes e com arestas; boca quase pegajosa (risos) querendo mais tempo para se desenvolver. Mas a acidez estava vibrante. O El Enemigo tinha fruta e mais notas, tinha melhores taninos e, mais uma vez, a diferença da baixa acidez fez o próprio Klaus olhar para mim surpreso com o Gigondas quando o experimentamos em segundo lugar. Por viajar muito a trabalho - e não deixar de experimentar algo diferente quando pode - ele tem mais vivência do que a média dos chilenos e sabe apreciar com vinho com maior acidez. No aniversário do Nagib, quando apareceu o Calcu Futa CS 2012 eu já estava ao lado para auxiliar na abertura (risos). Foi para o aerador e tasquei um dedal para experimentar. Tive a certeza do bom oponente para ele: a segunda garrafa do Ferraton. Abri, respiraram ambos, resfriei e pimba! Nesse encontro o Klaus estava com sua esposa. Chamei-os, servi-lhes o Futa - gostaram - e depois o Ferraton. Foi quando seus olhos brilharam. Futa estava rico no nariz, com fruta, couro, chocolate, os taninos estavam bons, mas novamente rápido na boca. Tanino por tanino, o Ferraton também os tinha, e adivinhem quem fez a diferença: claro, a acidez... Ao fim e ao cabo, os chilenos competiram bem no nariz, mas no quadro geral levaram uma sova quando entravam na boca. Vai uma para causar polêmica: vinho para mim é na boca. Não adianta ser 1001 maravilhas no nariz e não se completar no paladar. 

   Nos preços, estamos assim:
   Gran Tarapacá aprox. 18 mil pesos.
   Ferraton: aprox. 18 mil pesos.
   Futa: aprox. 54 mil pesos (é 30% mais caro do que o Saint Cosme).
   Saint Cosme: aprox. 42 mil pesos.
   Fiz as contas e temos a tabela abaixo para conversão de valores:
   18 mil pesos = R$ 103,00 = USD 22,00
   43 mil pesos = R$ 250,00 = USD 52,00
  O Ferraton custa cerca de USD 15,00 na Europa, e o Saint Cosme custa cerca de USD 50,00. Então o primeiro estava um pouco mais caro no Chile, e o segundo o mesmo preço de lá. O leitor percebeu o ponto que sempre bato aqui: vinhos chilenos não conseguem competir com europeus de mesmo preço, ou mesmo de preços menores lá da Europa. Um vinho chileno a 54 mil pesos (USD 65,00) é sim um vinho premium... e no frigir dos ovos perdeu para um de USD 15,00... Notemos ainda que Futa recebeu 95 pontos do Guia Descorchados. Quando assevero que esse guia serve apenas e tão somente para conceder ótimas notas a vinhos chilenos (inicialmente) e argentinos e brasileiros também (atualmente), ouço estar sendo muito severo. O que posso responder? Então tá...

À luz dessa comparação, volto a perguntar: valeria a pena apostar qualquer valor em um ícone chileno, como o Don Melchor ou um Don Maximiamo de Errazuriz Founder's Reserve a USD 115,00? Recordemos: paguei cerca de USD 100,00 (pouco menos) por um Clos des Porrets... é tarefa inglória trocar o seguro pelo quase seguramente errado (sic! rs!). Sempre comento com os confrades, e repito aqui novamente: não compro mais vinho sul-americano, mas os bebo com o maior prazer, para acompanhar sua evolução. E... OK, trouxe algumas garrafas de lá, desta vez. Fiz uma vez, e tornarei a fazer, a comparação às cegas entre chilenos 'premium' e europeus diversos com o intento de exemplificar meu ponto de vista às confrarias das quais participo. E novamente: nada contra o vinho chileno em particular ou o sul-americano de maneira geral; eles apenas apresentam o que conseguem em função das condições climáticas de produção, estas sim um fator bastante limitante. Nada contra a não ser, claro, seu preço. Acho perigoso dizer isso: deveria mesmo é ficar calado, porque se as pessoas que consomem esses vinhos nesse preço tivessem alguma noção do que bebem, seguramente trocariam para os europeus. O consumo destes aumentaria, e seu preço também. E este pobre Enochato não conseguiria mais comprar suas garrafinhas no padrão habitual. Fique quieto, Enochato!

Os valores, para devido registro.