Saturday, April 11, 2026

Quatro vinhos e as Quatro Liberdades de FDR

Introito

A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir 
para separar as pessoas boas das ruins.
Oenochato

O Discurso sobre o Estado da União é na verdade um relatório, exposto anualmente, normalmente entre janeiro e fevereiro, pelo Presidente norte-americano a seu Congresso. Ele comenta as condições do país, apresenta sua proposta legislativa para o mandato em curso e enuncia prioridades nacionais. Exemplo de organização; não nos faria mal copiar. Corria o Ano Santo da Misericórdia de Nosso Senhor de 1941. O Lend-Lease Act só seria assinado em 11 de março, mas em 6 de janeiro, antevendo o recrudescimento da guerra e já tendo adiantado que a América seria o arsenal da democracia, F.D. Roosevelt expunha suas ditas Quatro Liberdades: liberdade de expressão, de religião, de viver sem necessidades e de viver sem medo. Desde há muito vemos humoristas sendo condenados em tribunais justamente por exercer a primeira das liberdades; já escrevi a respeito. Amigos juristas temem que eu sofra algum processo por diversas opiniões publicadas neste espaço. Na falta da primeira liberdade, pessoas que bem me querem são oprimidas pela ausência da quarta autonomia, viver sem medo. Concordo: a liberdade de religião segue relativamente intocada - os evangélicos sempre na berlinda, na opinião dos espertos -, mas a liberdade de viver sem penúria não tem se concretizado, a despeito de quase 20 anos de NAP e sua turma no comando da nação. A liberdade de expressão vem sendo solapada pelo STF quando o bloqueio de contas em redes sociais (dentre outras ações) intimida e restringe o debate público. Alega-se respaldo legal para tais atitudes, ou pelo menos essa foi a interpretação dada pelos próprios Juízes a alguma lei. Não importa. Ao valer-se dessa prerrogativa, por mais legal, nosso Supremo parece ter subvertido de uma tacada só todo o pensamento ocidental sobre igualdade entre os poderes - a base da democracia - pois aparentemente legislou sem ter poderes para tanto. Imagine se alguém aparece das massas dizendo ser necessário impixar todos eles, de uma só vez, com direito a cadeia depois do devido processo. A justificativa está dada acima; carecemos da personagem. Ela falta, mesmo? Em nossa atual Câmara e Senado (embora a responsabilidade seja do último) encontraremos tal bravura? Nem debaixo da cama, diriam alguns humoristas - sob risco de prisão. Não sinto vivermos, nós brasileiros, em uma democracia. No dia em que puder ouvir de um cidadão, em alto e bom som, sem ele sentir medo de processo ou repressão, que na casa dele não entra preto fedido, viado almiscarado nem judeu (ou árabe) cafajeste, então sim, sentirei o sujeito soberano em meus direitos. É muito mais fácil para todos quando as pessoas pronunciam-se sem filtros, e não se trata de validar o ódio, mas de trazê-lo à desinfetante e pungente luz reveladora dos preconceitos de cada um. A peneira, pois, estará na ação; uma pessoa que invocasse qualquer um dos enunciados acima jamais entraria na minha casa, e muito menos gozaria da minha amizade. É claro, injúrias devem ser tratadas na esfera penal; aumentar a pena pode trazer melhor punição aos tagarelas em tempos de redes sociais de amplo alcance e repercussão. A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir para separar as pessoas boas das ruins. Já passou o tempo de restaurarmos as Quatro Liberdades das quais um dia gozamos. Alguns uma vez no comando invocariam ser necessário montar um cadafalso. Não concordo. Mas não moveria um dedo contra, com medo de ser preso. Poderes arbitrários acabam nos transformando em pessoas cautelosas...

Quatro vinhos

   O tempo passou, a pedra no rim a atacar-me o corpo e o espírito com a força e vigor de um anão da Terra-Média parou na tecnologia de um laser e, dentre outros problemas, o blog anda devagar. Faz parte da vida, cujas vicissitudes vão-nos minando mais ou menos, conforme permitimos. Preciso revoltar-me contra isso...

Há algum tempo queria passar uma lição na Paduca. Digo, aportar-lhes sem prévia dois vinhos para tirar-lhes o chão, balançar-lhes a percepção, apresentando-lhes outra visão, abordagem e direção dentro da trilha que vêm galgando desde nossos primeiros encontros. Servi-lhes o primeiro, e notei os cenhos franzidos. Sua qualidade foi imediatamente celebrada, e suas notas devidamente identificadas: muita fruta na frente, com mais toques de tabaco ou chocolate, e medicinal segundo algum Paduquento; bom corpo (médio), acidez agradável e ótimo 'conjunto'. Adiciono final elegante e permanência, dignos de um vinho admirável no auge. Alguém chutou italiano, mas foi isso, um chute. Não deixou de ter razão. Para minha completa satisfação sobram-me os últimos exemplares de Korem 2015 para compartilhar aqui e ali. Faltarão garrafas... 😔. Da segunda botelha, os elogios vieram logo na prova do buquê: igualmente rico, frutado em primeiro plano com toque herbáceo no fundo. Boca equilibrada, também de corpo médio, acidez presente, equilibrada, boa persistência... os rapazes se entusiasmaram com o Fonterutoli Chianti Classico 2019, mesmo sem perceber o serviço correndo livre três horas antes do início da reunião. Da minha parte percebia Korem tocando o terror pra cima de Fonterutoli enquanto os confrades dividiam-se nas opiniões. Foi divertido observá-los batendo cabeça com o a sugestão de "O Carlão não colocaria dois italianos de uma vez", opinando um ou outro terem tal procedência. Sempre digo, e repito: O vinho pelo vinho! Não pense em quem serve, não mire a garrafa, não procure a rolha, olhe para a bebida! Acidez e açúcar, principalmente; esta última aporta dicas importantes, quase sempre: um melaço, à cana de açúcar? Sul do Rhone, quiçá. O dulçor mais discreto, sutil, marcado? - e o leitor não pode confundir com o açucarado de porcarias sul-americanas fedendo à goiaba -, quem sabe, Alentejo. Um tipo muito específico de cereja (é preciso aprender a reconhecer)? Toscana. Não conheço muito além disso, mas oras, estão aí os pontos para leitores de melhor nariz começarem a se tocar e aprender; sigam em frente, desvendem, divirtam-se! 


   O valor de Korem já foi discutido exaustivamente, e a reflexão mais importante está aqui. Como atualização, a safra 2019 esgotou na Enoeventos a mórbidos R$ 479,00, muito distante do R$ 245,65 pagos anteriormente - confira no vínculo! - mostrando a recente inclinação à tubaronice da importadora. Mas se olhar com atenção tem alguns espanhóis antigos a preço razoável - desconto, encerrado, desde a última vez que olhei. Note: razoável, não mais. Ponto bom: prontos pra beber. Dica: o nome do produtor começa com "B". Voltando: Fonterutoli não apresenta-se em melhor situação. Trazido pela Grand Cru e pela TodoVinho, que se não me engano é o braço internético (sic) da Casa Flora, está na casa de R$ 300,00, para 20 dólas lá fora. Algo como 2.5x, acima do aceitável; existem compras melhores, não direi de Chiantis, mas de vinho. Lembrando o ditado, quem não tem cão, caça com faisão. Esse exemplar foi-me trazido do Paraguai por um amigo que nem bebe, mas passava uma semana no sul e tinha cota de frixópi sobrando. Valeu, Edu Amaral!

Para rebater a uruca considerei um banho de descarrego com sal grosso e ervas aromatizadas, mas desisti; sal grosso, só na picanha. Pensei no uso de um defumador de incenso e mirra - pela ação cicatrizante da última -, mas bem... já tinha sarado e talvez não valesse a pena gastar tiro à toa. Ainda matutei valer-me de cristais de turmalina negra cuja proteção contra mau-olhado, chifre (como se me preocupasse) e vibrações negativas é amplamente reconhecida até pela Ciência, mas ora... estou imune a chifre, portanto descartei também. Só restou uma saída, e com a Liu responsável pela comida, convoquei a Luciana a comparecer com um borgoinha. Para uma autêntica purificação, só um borgonhão dos nervosos... então não hesitei em dar uma aliviada na minha Prateleira Celestial, que agora reclama a devida reposição. Virá (espero...). Rully é uma comuna de Côte Chalonnaise, por sua vez localizada ao sul de  Côte d'Or, nos informa a Wikipedia. Não conta com nenhum vinhedo Grand Cru, mas abriga 23 Premier Cru para alegria e satisfação de muitos e para oposta inveja e humilhação de outros. A Maison Jaffelin é considerada por alguns como a menor das grandes casas da Borgonha, reputação calcada em produção artesanal de ótima relação custo-benefício. Primariamente um négociant, consegue uvas de vinhedos Grand Cru de prestígio e possui alguns vinhedos Premier Cru. É presentada pela Chez France, importador que infelizmente, de um momento para outro, e sem maiores (rs), virou uma tubarona: duplicou os preços de maneira geral, e fica o tempo todo promovendo ofertas com 50% de desconto. Tenho muitas notas fiscais de compras passadas para comprovar isso. E, para completa tristeza, as 'promos' de hoje estão aquém dos descontos de 20% de antigamente. Tecnicamente parece ser Rouge, mas também um AoC. Para mim, Rouge seria um vinho composto por uvas de qualquer lugar da Borgonha, enquanto um AoC seria confeccionado a partir de uvas com localização demarcada: Rully, por exemplo. Preciso consultar as fontes... 😠 Por onde andará Don Flavitxo? Bem, Jaffelin Rully 2020 chegou com fruta elegante e bem marcada na frente e mais notas em segundo plano para bons narizes - não lembro se as meninas apontaram algo. Como se espera de um bom Borgonha, sua acidez firme e elegante - mesmo para um AoC - estava bem presente e conferia-lhe um toque alegre, fácil de desfrutar para um admirador da região. O problema é que para competir com ele levei um Dugat-Py Gevrey-Chambertin Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009. Seria claramente uma competição desonesta - mas nem era uma disputa; lembre-se, era um descarrego! - colocar um produtor considerado de primeira linha representado por um dos melhores vinhedos da Borgonha contra qualquer outro artesão que não igualmente favorecido. Repito: não era uma peleja do diabo com o dono do céu (rs); antes, um momento de descontração em que a evolução em espiral de nossa bebida predileta apenas coroou um encontro de  conversas, risadas e instantes de contemplação quase bacântica diante do mais puro estado da arte enoica. Voltando: havia lido sobre uma combinação notável para esse vinho, um boeuf bourguignon. Nem gastei muito tempo, joguei a sugestão para as meninas sem perceber ser esssa uma receita trabalhosa. Para completa sorte, a Liu abraçou a ideia e começou os primeiros preparos no mesmo dia - é demorada! Não deixei por menos: abri a garrafa às 10:00 daquela noite. O que dizer de um vinho de primeira, devidamente aerado, com uma comida apropriada? É a prescrição perfeita para a felicidade em seu estado mais puro, o bem-viver exponenciado e a alegria da vida expressa nos passos saltitantes do fauno em nossos sonhos mais delirantes. E sim, como ele estava rico! Frutas! Frutas delicadas em meio a um oceano tânico elegante e majestosamente casado com excelente acidez. Pouco de aspectos terciários, indicando bom tempo de guarda à frente, e ainda assim redondo em boca, madeira presente mas discreta e belíssima persistência. Ah, Borgonha, por isso te amo tanto! 😍 Beba dessa safra agora ou nos próximos 10 anos. Esse vinho nem é um Premier Cru - embora digam por aí que está em nível similar aos melhores de Gevrey-Chambertin - e é caro, algo como USD 200,00, atualmente, lá fora. Mas é o preço a se pagar por um bom Borgonha (foi menos, há muito tempo).  O bebedor pode escolher um vinho desses e pensar em faunos, felicidade, sétimo céu, ápice do êxtase ou procurar a fada azul imersa no Absinto de USD 15,00... sem qualquer demérito à bebida. Como ainda estou na fase mais delicada da vida, prefiro abrir a carteira, sobreviver a alguns hot-dogs durante a semana e então provar um desses no sábado... Seu preço por aqui está superior a 2.5x (R$ 3.100,00), na importadora 'oficial', a Mistral. Mas a safra é a 2019. Pela estrutura, principalmente taninos, não acho adequada para degustação imediata; certos vinhos precisam de aging... aquele processo contínuo e natural de progressão que nenhuma taça superpoderosa poderá proporcionar. Mesmo satisfeita, a Luciana saiu feliz mas jurando vingança (risos!). A estas alturas já foi e voltou da África do Sul com diversos generais na mala, à procura de uma desforra. Que venha...

Minha sobrinha Manuele (rs - prima em segundo grau) chega em S. Carlos para um doutorado em computação. Primeira na prova de mestrado, estimulada pelo orientador prestou o exame para "doutorado direto" e... passou em primeiro lugar, para orgulho do tio. Conto isso de pescoço empinado porque ela é outra adoradora de Baco que agrega-se à veneração dessa deidade neste último ponto do trem do velho-oeste da região central do estado povoado por bocas-tortas cultivadas há décadas à custa de sommerdiers locais especializados nas mais profundas, tortuosas e dementes técnicas de empurrar chinelos chilenos, argentinos, uruguaios e nacionais para as gargantas de idiotas abastados crentes na força da produção local. Já escrevi: tenho um dever moral de beneficiar a sociedade cujos impostos financiaram minha educação no terceiro grau, e venho por meio desse pacto não juramentado cumprir minha obrigação de alertar essa mesma sociedade acerca do engodo à qual está submetida: compare europeus básicos com sul-americanos de alta gama (sic), principalmente esses de R$ 200,00 por R$ 99,00, sanfonada que mal traz o produto a seu valor razoável, com boas compras de europeus. Campoalto Chianti Classico Riserva, da Tenuta Casuccio Tarletti, é um exemplo. Paguei R$ 110,00 numa 'promo' - a safra ficou no contrarrótulo - e ele bate sul-americanos de R$ 150,00 já com o devido desconto. A força (rs) do italianinho está calcada nos bons taninos da Sangiovese e na estrutura razoável (na média de USD 15,00), com toques frutados característicos de vinhos mais novos, apresentando relação custo-benefício eficiente. Faltou sim um pouco de acidez, mas nesse valor, para um vinho de dia a dia, é muito satisfatório pelo conjunto. É claro que comparado a outros Riservas de melhores produtores com vinhedos de maior qualidade ele passa vergonha, mas nesses casos o custo também é outro. Encontrando por cento e pouco, compre e beba. Está pronto.

Falei 4 vinhos no título, mas citei cinco. Ora, assim como aos Três Mosqueteiros juntou-se D'Artagnan, por qual motivo o leitor haveria de reclamar? Na Era de Informação, saber nunca é demais.

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