Monday, November 27, 2023

Vinhos atrasados

Introito

   Curiosamente o período no qual mais tenho lido na última década coincide com o de menor ânimo para escrever; bons romances, contos diversos e algumas poesias de Rubén Darío no original não parecem suficientes para motivar-me a levantar a pena. Assunto não falta: ministros do Supremo Tribunal Federal aparentemente imiscuídos com 'jornalistas' - cuidado com eles! - de quinta, pelegos de quatro costados assanhados por serem pautados por Vossas Majestades, digo, Vossas Excelências, para felizes prestarem-lhes completa subserviência. Desse mesmo Supremo - corrijam-me se a informação recebida por este Enochato estiver errada - Paladinos da Justiça dizem-se de mal com o Executivo, declaração que poderia ser tomada por pueril não fosse a gravidade da independência dos Poderes estar indo para o vinagre. Discursos merecedores da mais veemente condenação por parte da sociedade foram proferidos sem o menor pudor, e ficou elas por elas. Fora o suposto envolvimento dos mais altos escalões da Administração com gente oriunda da bandidagem organizada - o leitor ouviu essa última notícia ou pelo menos seus desmentidos nos seus meios de comunicação prediletos? Porque o assunto reverberou em parte significativa da sociedade - a turma de direita. O desavisado pode perguntar: o que eu, de esquerda, estaria fazendo recebendo notícias deles? Um general de quatro estrelas pode ser idiota e desprezar os movimentos das forças opostas. Eu não. E o Estado mancomunado com o crime organizado é por si só uma acusação grave o suficiente para não poder passar sem investigação minuciosa. Você está sabendo disso - ainda que seja mentira - não é mesmo? Se não ouviu falar, está muito por fora...

Reunião de fim de ano antecipada

Ghidelli viajando - já está lá, cafungando exemplares de Nebbiolo... - e outras comemorações atrasadas inspiraram a reunião de despedida da confraria sem nome. Chamemo-la de A Confraria, então... Tendo a Celinha de convidada especial, D. Neusa recebeu ainda Elvira, Márcia, Ghidelli e este escriba com a recomendação de baixar algo das nossas reservas estratégicas. Cheguei com um exemplar de Champagne do Barbier-Louvet, um Brut Premier Cru já degustado por aqui. O toque de fermento foi pego por todo mundo, bem como as notas cítricas. A dado momento achei ter encontrado damasco 😕, talvez por tê-lo na boca... mas acho que expressou sim... É uma boa Xampa, e embora seu preço tenha subido um pouco ainda tem boa relação custo-benefício. O maior problema reside no fato do mercado consumidor - geral, não de vinhos apenas - estar em baixa, e promoções relâmpago podem propiciar compras bem melhores por apenas algumas dezenas de reais a mais. Levei também um Chassagne-Montrachet Les Chenevottes 2007, premier cru do Marc Morey cuja rolha, infelizmente, estava algo infiltrada. Não estava estragado, mas a infiltração comprometeu um pouco a oxidação. A esta altura, para ser franco, não lembro-me muito bem das características, mas a acidez estava presente e segurou as pontas. Ninguém reclamou, e o fato da garrafa acabar rapidamente atestou como ainda estava palatável. O Ghidelli sacou o seu La Cueva del Contador 2017, produzido pela Bodega Contador sob a batuta de Benjamín Romeo. Majoritariamente ou mesmo 100% Tempranillo (pode variar de acordo com a safra), é um vinho para pessoas de coração forte (risos). 

La Cueva precisaria de uns 10 anos para chegar a seu melhor momento; experimentamos um vinho nervosão, taninos pegados e madeira sobrando um pouco. Como aerou algum tempo, o álcool não estava tão evidente; notava-se, mas sem excesso. A boca, igualmente travada, não colaborou muito; a acidez estava bem viva e a estrutura em geral denotava ser a de um grande vinho. Custa cerca de 80 Euros lá, e aqui é difícil de encontrar - e mais ainda de comprar. A R$ 1.400,00 (3x...), é para bem poucos... Das nossas reservas especiais veio o Giramonte 2013, produzido pela Marchesi Frescobaldi Società Agricola, na Toscana. Frescobaldi tem ampla gama de vinhos, brancos e tintos, passando por espumantes, em Chianti Classico, Montalcino e arredores. É da Tenuta Castiglioni, onde a família produz vinhos desde... 1.300..., que sai o Supertoscano composto de... Merlot e uma pequena parte de Sangiovese.

Pelo adiantado do hora precipitamo-nos para a sobremesa, e por sorte fiquei com um final de garrafa para experimentar no dia seguinte. Tendo aerado por quatro horas no dia anterior, ele estava excelente. Poderia ter dado um bom pega com o Contador, se a safra deste fosse mais antiga. Então Giramonte brilhou sozinho. E no dia seguinte estava ainda melhor... escrevo sob essas impressões. Potente na essência - não na madeira (risos!) - com nariz muito rico: frutas em camadas, muitas, misturadas com café - que é café - e chocolate - que é chocolate - e mais notas. Já escrevi de outras maneiras, e é assim: grandes vinhos são grandes vinhos (sic); várias notas estão muito marcadas a ponto de serem facilmente reconhecíveis, até para um deficiente nasal. Imagine o quanto um bom nariz não poderia pegar ali... Os taninos não são potentes, mas o casamento com a acidez produz um vinho de encher a boca, e durar nela depois de engolirmos... salivando percebe-se como ele permanece lá. O problema que noto em muitos bebedores reside na ânsia em voltar a falar (risos) tão logo dá-se o gole. Não é assim... apreciar um vinho é deixá-lo na boca um tempo. Quanto? Depende de cada um, pois a salivação varia de pessoa para pessoa. Deixe-o lá, passeando no palato, embaixo da língua, nas bochechas. Notou a saliva incomodando? Certo, passou do ponto! Deixe menos da próxima vez. Depois de umas 500 tentativas - para os mais tontos - o bebedor começa a acertar o instante apropriado para engolir. Mas colocar o vinho na boca e engolir na sequência é desperdiçar seu melhor momento, aquele onde podemos experimentar suas impressões e de fato desfrutarmos dele. E foi com essa perspectiva que sorvi cada pequeno gole da taça acima, que sobrou-me no dia seguinte ao encontro. Posso afirmar, teve bão... Giramonte é um vinho de menos de 100 dólas lá fora, vendido aqui a escorchantes R$ 1.800,00, e já denunciado com todas as 'provas' aqui. Estava achando o La Cueva caro? Ainda bem que trouxemos ambos de fora...

Por sobremesa, tivemos o acompanhamento de um Domaine Lafage Ambré Hors d'Age, produzido em Rivesaltes, AOC dentro do Languedoc-Roussillon. É um VDN, Vins doux naturels, vinho fortificado onde a fermentação é interrompida pela adição de aguardente vínica. Esse exemplar é produzido com Grenache branca e tinta; floral, delicado, alegre, bastante doce mas equilibrado com boa acidez, seus 12% de álcool tornam-no um pouco ligeiro para quem está acostumado a vinhos de sobremesa com maior presença, como os Sauternes. Tendo sido minha primeira incursão nesse estilo, fiquei curioso para experimentar outros produtores; nada como o prazer da descoberta, quando o assunto é vinho.

Monday, November 13, 2023

A Paduca e as Paduquetes

Introito

   Aproveitemos a indulgência do leitor e tentemos reerguer este blog quase morto... conversando com alguns deles, seja por uátiz seja pessoalmente, notei a falta de mais reflexões acerca da avaliação de vinhos, deixando margem para dúvidas ou mal entendimento da questão.
   Gostaria de comentar sobre a cepa da uva, tipo do vinho (seco, doce ou espumante) ou detalhes da vinificação na avaliação: pouco importa. Ainda, abordando idade, passagem ou não por madeira, tipo de terreno do parreiral ou mesmo preço: pouco importa, também.
   É-me estranho ver avaliações precoces de vinhos muito jovens e sabidamente feitos para durar décadas. Vinhos de enorme complexidade, cujo desabrochar situa-se pelo menos uma década após seu lançamento - às vezes eles descansam 4 ou 5 anos entre barrica e garrafa -, são avaliados quando seguramente verdes. E não, não existem taças superpoderosas (sic! rs!) fazedoras de milagres aerando o vinho em segundos. Taninos verdes necessitam de anos para madurar, e essa é uma lei da natureza. Dá para beber um Barolo com menos de 10 anos. Sim, dá. Afinal, existem BAROLOS, Barolos, barolos e barolinhos. Estes últimos, mais simples, são bebíveis mais jovens. O resto, é Barolicídio. Além do mais, qualquer um deles vai se aproveitar da aeração de um dia para o outro. Não são apenas Barolos; exemplo recente, com um espanholeto bem decente, está aqui. Nagibin experimentou e não me deixa mentir sozinho. Paulão - da Paduca - sabe do que falo. Mas voltando: como podemos avaliar vinhos tão novos? Acredito ser possível, com treino e conhecimento. O vinho pode não estar desenvolvido, mas suas características estão lá. Possivelmente é mais fácil quanto mais grandioso ele for, mas vinhos onde a elegância sobrepuje a opulência acrescentam novas variáveis ao parecer. Estranho mesmo é a conversa de avaliadores tupiniquins sugerindo o valor do vinho como elemento de sua apreciação. Seria assim: o vinho, com aquelas qualidade, custando R$ 120,00 reais, poderia merecer 90 pontos. Mas se custasse, digamos, R$ 200,00, então seria apenas 88 pontos. 😇 Oh, Senhor, duas grandezas mensuráveis são infinitas:  o espaço e a estupidez das pessoas. E não temos certeza do primeiro... Notem, isso é bem diferente deste Enochato classificar um vinho simples, numa faixa de preço, como felicidade engarrafada. Porque, naquele valor, você bebe e fica satisfeito. Mas não há nota envolvida aí. Seguramente ele seria - levando ao pé da letra a pontuação - um vinho 82, 84 pontos. Diferente dos vinhos 90 pontos a fazer concorrência com o número de estrelas no céu... - uma barreira psicológica que, acredito, precisava ser batida para deslanchar a venda calcada em vinhos pontuados. Volte lá (sic! rs!) e veja as qualidades de um vinho 90-95 pontos. Repito abaixo:

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Excepcional complexidade e carácter. Lembre-se sempre dessa palavra: excepcional... Aplique essa máxima a qualquer vinho sul-americano - e muitos e muitos europeus, também - e veja-os ir pelo ralo. Claro, para tanto o leitor precisa ter ideia do que vem a ser um vinho de excepcional complexidade. Reconheço, o chão afunda. Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016 e Quinta do Noval Syrah 2017, degustados na postagem passada, são bons vinhos, mas estão aquém da premissa.

   Um fato onde a coincidência foi o principal ator está narrado aqui. Degustando um espanholeto Vall Llach 2000, cuja avaliação indicava notonas - 96, 98 pontos - anotei a minha nota no celular do Jacimon e mostrei para ele. 94. Provei Don Flavitxo pela sua avaliação. 94. Claro, uma feliz coincidência. Poderia ter sido 92-93 de um, e 93-34 de outro, e ainda assim o ponto seria o mesmo: como disse no começo dessa estória, se você treinar, dá para chegar lá na avaliação de vinhos. E sou muito mais as notas discordantes de Don Flavitxo e minha (mesmo se fossem 92 e 94) do que os 96-98 pontos dos avaliadores profissionais. Vemos como os amadores são mais confiáveis... O Cellar Tracker está cheio de gente boa avaliando vinhos. Confiar no lojista pode ser uma faca de dois legumes, pois está cheio de lojista picareta por aí. Ele concorda sempre consigo? É picareta. Ele vem com aquela máxima vinho bom é o vinho que você gosta? É picareta. Você comprou meia dúzia de vinhos e ele já chega com aquela tenho um vinho que é a sua cara? É picareta. Em um país com tantos políticos picaretas fazendo moda, qual tipo de influência vai pegar na população? 

As Paduquetes

Por sugestão dos confrades - Paulão já fizera as contas no começo do mês e abordara a data de antemão -, a última reunião de outubro aconteceu com a presença das Paduquetes. Apesar de conhecê-las a mais de década e eventualmente bebermos um vinho em jantares aqui e ali, elas estavam curiosas para conhecer a dinâmica dos nossos encontros. Em U a partir da esquerda, D. Cláudia, esposa do Paulo, D. Eva, esposa do Duílio, o Enochato, Fernando - ameaçou trazer a namorada, mas ao final não teve coragem de atirá-la aos leões - Duílio e Paulo. Para atiçar-lhes a curiosidade, recebi-os com dois espumantes, às cegas, e expliquei tratar-se de dois Bruts. A esperança, portanto, era boca tendendo mais para o seco, sem excessos de um lado ou de outro. 

Surpresas estavam reservadas... para dois exemplares feitos pelo método tradicional, o primeiro apresentou-se com bom frescor, de fato seco, embora um fundinho doce desse o ar da graça. Nariz cítrico e um pouco de fermento, boca equilibrada, acidez presente sem marcar tanto, bolhinhas graciosas, compõem um espumante de padrão razoável e diria agradável dentro do meu consumo mais corriqueiro. Era uma cava Cordon Negro, da Freixenet. O segundo apareceu com uma cor amarela marcante, influenciando positivamente alguns dos presentes. Cítrico no nariz e boca, ainda com notas que não identifiquei bem, apresentou um dulçor extra, mais para enjoativo, menor acidez e mais ligeiro nas papilas. Mesmo Eva e Cláudia, mais acostumadas a esse paladar, preferiram o Cordon Negro. Duílio preferiu o segundo, o Fausto Brut, produzido pela Pizzato a partir de seu vinhedo Doutor Fausto. Opinião não unânime, Cordon Negro sobrou face Dr. Fausto; quase todos prefeririam comprar o primeiro ao segundo. Pelo sítio do produtor, fiquei sabendo que Dr. Fausto tem uma coleção de 90 pontos em diversos guias. Como é, mesmo?

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Agora entendi... é a definição é que está errada! 🤣😂 Porque Fausto passa a léguas de tudo isso. Não dá, né? Seus preços são mais ou menos compatíveis, na casa dos R$ 75,00, enquanto Cordon Negro custa, na Espanha, algo como 8 moedas (R$ 40,00). É um valor ridículo, e praticamente a metade do que pagamos aqui por algo de qualidade menor. Certo, temos impostos altos, mas Cordon Negro chega aqui pelo mesmo valor pagando as mesmas taxas... Competindo mal com um espumante Espanhol simples, cai por terra o mito do Saci, digo, do nosso espumante competindo de igual para igual com Xampas de verdade. 

   Seguimos com um Hacienda de Arínzano branco 2019, já degustado por aqui em safra 2018. Um Chardonnay espanhol com nariz cítrico, mineral, bastante fresco com toques tostados, em boca com algum amanteigado de Chablis. Mas, claro, não chega a comparar-se aos franceses. Tem boa acidez, final agradável, é um vinho bem arranjado, embora alguém o tenha achado enjoativo. Não reparei... acho que em breve beberei sozinho a outra garrafa que tenho, para tirar a teima... Se encontrar uma promo a R$ 150,00, é boa compra. No preço cheio, R$ 245,00, é um tanto salgado; parto pra tintinhos nojentos. Combinou razoavelmente bem com salsicha de vitela e melhor com uva passa branca: o encontro da boa acidez com o doce é uma combinação infalível... 😜

Na parte dos tintinhos... bem... ano passado havia oferecido para a turma um Quinta do Noval Touriga Nacional 217, e estava um pouco fechado. Como o Syrah 2017, devidamente aerado, havia feito boa figura contra o Gran Enemigo, resolvi brindá-los com esse exemplar na safra 2016 e proporcionar-lhes a experiência de um bom vinho completamente pronto para ser degustado. Servido às cegas, alguém falou 'português', e alguém falou 'Syrah', mas ninguém conseguiu juntar as percepções; ainda assim as garotas gostaram de ver o pessoal atingindo algum sucesso em identificá-lo. Repetiu com pujança as características de seu irmão mais novo: nariz rico, frutas, especiaria e mais complexidade, acidez presente, taninos macios, bom final, combinou bem com meu bifim ao molho gorgo. O segundo tinto foi mal compreendido: O Château Chantemerle 2016, um Cru Borgeois corte Cabernet Sauvignon 60%, Merlot 35%, Petit Verdot 3% e Cabernet Franc 2% não recebeu uma única sugestão de ser Cabernet Sauvignon. Aquela estória: CS's de qualidade um pouco melhor, da França, apresentam expressão muito diferentes daquela à qual estamos acostumados na América do Sul. São elegantes, sutis, nariz bastante rico em frutas - vermelhas? negras? ambas? - fumo, um pouco herbáceo e mais, boca com boa acidez, taninos macios e suaves - não 'pega', aquela picada na ponta da língua da Cabernet sul-americana está presente mas devidamente amaciada - e no final tudo isso não encantou tanto o pessoal; a preferência recaiu sobre o Noval. Observemos aqui tratar-se de gosto; é claro, ele é permitido sim, em um avaliação simplificada. Lembram-se da estória?, o avaliador amador pode estimar a qualidade do que está acostumado a reconhecer; novas experiências devem ser devidamente exploradas, precisam tornar-se mais comuns e assim o bebedor ganha um degrau em sua experiência geral. Pois, é o que temos, para amadores...

Por sobremesa apreciamos uma torta cheesecake de frutas vermelhas acompanhada do Tarapacá Colheita Tardia 2021 e depois do Château Doisy-Védrines DV 2016. Deste último, comprei uma caixa em promoção imperdível (R$ 140,00) há bastante tempo - nunca mais se repetiu -, e ainda defendo-me nos últimos exemplares. Comparados, ninguém teve dúvida da qualidade do Sauternes sobre o Colheita Tardia: seu frescor e acidez superiores, bem como sua persistência colocam o segundo muito à frente do primeiro. É quando a estória do preço faz sentido: atualmente há uma oferta pelo Tarapacá a R$ 55,00 na Adega Curitibana (sabe-se lá por quanto tempo este vínculo será válido), 


No Chile, ele é vendido - pela cotação atual - a exatos R$ 25,00 (USD 5,00). Por R$ 55,00 aqui, mesmo sendo em 'promo' - importa o valor pago - está 2x. Está bem abaixo, em qualidade, de um Château Doisy-Védrines DV mas custa uma fração de seu preço (normalmente, uns USD 20,00). O preço do Colheita Tardia pode esticar até uns R$ 80,00, mas não encontramos Sauternes por menos de R$ 220,00. É o panorama onde os vinhos sul-americanos, mesmo sem tanta qualidade, conseguem competir pelo menos no preço com os europeus. Quero dizer: alguns chilenos conseguem, porque nossos espumantes passam um verdadeiro carão. O que se tem feito com os tintos é bem outra estória; eles custam caro e competem menos que os brancos ou de sobremesa. Mas é ótimo bocas tortas continuarem a se esbaldar neles; se lessem O Enochato e testassem as ideias debatidas aqui, as boas compras do nosso mercado diminuiriam sensivelmente... um claro prejola para este escriba de final de semana.

Tuesday, October 31, 2023

Vinho sem nota ou nota-sem?

Introito

   Na postagem passada abordei um pouco do sistema de avaliação de vinhos. Resumindo antes de retomar: é possível valer-nos de uma maneira sistemática, honesta e independente para estimar a qualidade de vinhos. Se em algum momento o juízo dos avaliadores deixou de guiar-se pela métrica inicial, isso é apenas e tão somente a comprovação de como o dedo podre da humanidade pode estragar o que toca - estragamos o Paraíso, confere? Não vimos ao longo de uma década certo cinéfilo dourar a pílula para filmes de quinta categoria em canais menores, após deixar a emissora de maior audiência do país? Sua linguagem era tão refinada quanto a de sommerdiers (sic! rs!) conhecidos no meio como defensores dos frascos e comprimidos, bem como das importadoras tubaronas; palhacinhos da justiça, como digo. Voltando: o bebedor precisa estar com a boca e o nariz armados para julgar por si e concordar ou discordar das avaliações. Deve beber bons vinhos, de vez em quando (risos) e avaliar vinhos mais simples, segundo as regras e tendo por base o que conhece e concorda, como aqueles que mais aprecia, ou mais o marcaram. Lembre-se: se atribuímos notas a filmes e livros - na escola ninguém estranha o professor classificar redações dos alunos - qual o problema em aquilatar um vinho?
   De acordo com Parker, os vinhos são classificados, pela pontuação já comentada, assim:
   50 - 59 pontos: inaceitável.
   60 - 69 pontos: abaixo da média com deficiências visíveis, como acidez e/ou tanino excessivos, ausência de sabor ou possivelmente aromas ou sabores desbalanceados.
   70 - 79 pontos: médio com pouca distinção, exceto que é bem feito. Em essência, um vinho simples.
   80 - 89 pontos: ligeiramente acima da média a muito bom, apresentando vários graus de delicadeza e sabor, bem como caráter, sem falhas perceptíveis.
   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.
   96 - 100 pontos: extraordinário, de carácter profundo e complexo, apresentando todos os atributos esperados de um vinho clássico.

   Tente fazer suas comparações - inicialmente sem falar em notas. Tente lembrar-se das características de vinhos similares ao degustar sua próxima garrafa. Vá recordando-se das experiências vividas - como nos recordamos dos grandes momentos das férias, das boas poesias, dos nossos amores. Quando já bebia de vez em quando um Crasto Vinhas Velhas, um Esporão Reserva, depois de ter bebido alguns italianos melhores, discutido e treinado com Akira e Don Flavitxo, comecei a atrever-me no julgamento de vinhos mais simples, e um depoimento de 2012 está aqui. Você também consegue, basta começar. O benefício direto e imediato será desconfiar daqueles sábios de óculos dizendo que devemos beber Vinhos de Procedência (assim mesmo, com V e P, perceptíveis pela solenidade na pronúncia das palavras) que os espertalhões sommerdiers e defensores das importadoras tubaronas tentarão empurrar-lhe em troca de seus suados cruzeiros. 

   É bem possível que nos primeiros momentos os avaliadores - em sua maioria - fossem absolutamente honestos na proposta inicial: um posicionamento pró-consumidor, não pró-indústria. Mas é inegável que as avaliações geraram uma corrida pelos vinhos melhor avaliados e o aumento de preço desses vinhos aconteceu tão rápido quanto espalhou-se a notícia de suas notas. Logicamente esse efeito - talvez inesperado - despertou olhares de cobiça tanto do lado de produtores quanto de avaliadores de vida fácil. O resultado, hoje, é vermos avaliadores portando-se como autênticas metralhadoras de notas 100, disparando para todos os lados suas benevolências a ponto de muitas e muitas notas não guardarem qualquer similaridade com o cânone da crítica. Segundo os comentários mundo afora, o primeiro a entregar-se nos braços de Belial foi um certo James Suckling, a quem refiro-me normalmente como James Sucks. Outros - Parker inclusive - não demoraram a juntar-se a essa procissão macabra. Por outro lado, na internet, there were some who resisted 1:15 (risos!), as forças do bem juntaram-se aqui e ali. O mais célebre espaço é o Cellar Tracker, onde os amadores podem escrever resenhas sobre os vinhos, atribuir notas, criticar as avaliações profissionais e, sobretudo, passar muitas dicas sobre o serviço do vinho, como sua necessária aeração, em muitos casos. As notas de lá divergem em muito daquelas dos profissionais - invariavelmente, para baixo. Em minha opinião, são quase sempre melhor abalizadas. Essas ideias não esgotam o assunto, mas espero ajudar o leitor a ter uma abordagem mais realista acerca de nota e pontuação de vinhos.

Início

P
ulando muitos vinhos degustados ultimamente, ofereço o relatório sobre um nota-sem (sic! rs!) degustado neste final de semana. O Edu Turismo levou a turma (eu não...) para um passeio na Argentina. Visitariam a Catena e a Enemigo, dentre outras, então sugeri para a Liu trazer um Gran Enemigo Gualtallary Cabernet Franc para fazermos uma brincadeira. O leitor atento lembra-se do quanto fiquei desconcertado com a experiência advinda desse mesmo vinho por mãos do Renê e queria tirar a prova - recomendo a releitura da postagem acima até antes de continuar desta, inclusive dos extensos comentários na discussão. Renê trouxera seu exemplar da Argentina - não da bodega -, e sentamos-lhe a pua. Um leitor suspeitou tratar-se de falsificação, e a estória foi longe. Nosso encontro - em U, da esquerda para a direita, Débora, Mário, Edu, Liu e o Enochato - aconteceu no Restaurante Barone e reuniu confrades do grupo Vinho e Turismo, patrocinado pelo Shot Café. Espero ver outras pessoas animarem-se e saírem em grupos para encontros similares. Hulk smash... vinho une... Enochato desune... Eduardo usa cola e reúne tudo novamente... assim vamos.

Vinho nota-sem

Tivemos uma cava de entrada, um tintinho nojento de abertura - não comentarei - e os três atores principais. Artimanhosamente (sic! rs!), fiz para mim a seguinte proposta: levar um tintinho para pegar o Gran Enemigo Gualtallary por baixo, no sentido de ter qualidade mínima para arrancar-lhe um empate honroso em degustação às cegas, e depois chegar com um tintão para passar-lhe um pneu. Quem joga tênis sabe: pneu é vencer o set por 6 x 0. Atingido o intento, teria como argumentar em bases mais sólidas além da simples apreciação de um único vinho. Inicialmente apreciamos o Gran Enemigo, depois meu tinto mais simples, e então o mais complexo. Débora, Liu e Mário gostaram mais do meu tinto simples do que do Gran Enemigo. Meu segundo vinho não atingiu o pretendido 6 x 0. Na opinião geral ficou em meros 6 x 2. Para o Edu, Gran Enemigo fez 6 x 4 no meu melhor vinho. Sempre digo: o Edu é um ótimo agente de viagens... 🤣😅

El Gran Enemigo 2019 mostrou bastante fruta e alguma baunilha, mas pouco além. Algum traço de chocolate/fumo estava sufocado, eclipsado pela fruta. A boca também, muita fruta, madeira discreta, acidez baixa, rápido e rasteiro. Escrevo no segundo dia, e degustando a última taça. Não melhorou muito: tem final um pouco melhor um pouco mais de persistência, e é isso. Seu ataque - a entrada na boca - como disse o Eduardo, é sim bem macio, aveludado, e talvez seja sua melhor qualidade. Equilibrado, sem dúvida, sem arestas no sentido de nada exaltado, mas sem grandes surpresas. Era sim o mais aveludado dos três - não sei de onde vem essa característica, mas está bem trabalhada. Apenas é muito pouco para um vinho pretender chegar a 100 pontos. De onde tiraram isso? Pode ter aí uma legião de defensores ávidos por poderem dizer terem bebido um vinho 100 pontos de dois avaliadores distintos. Bem, não brigarei com essa turma de dissonantes cognitivos. Apenas ficarei com os 97 pontos de um Emílio Moro Malleolus de Sanchomartin 2004 (Flavitxo postou), com os 95 pontos de um Torbreck Descendant 2005, ou mesmo do Oracle 2005 (mesma degustação, também pelo Flavitxo), com o La Janasse Chaupin 2009 qualquer que seja sua pontuação (98 - risos), com o Domaine du Pégau Châteauneuf-du-Pape Cuvée Réservée 2001, ou qualquer outro de dezenas de vinhos melhores do que El Gran Enemigo degustados ao longo da vida. E olhem, estou claramente pegando muito por cima: tais vinhos estão anos-luz à frente de Gran Enemigo...

   O segundo vinho degustado foi o Quinta do Noval Syrah 2017, duriense do conceituado produtor Quinta do Noval. Nariz rico, com frutas, especiaria e mais notas; boca com acidez algo melhor, concentrado à base de bons taninos e melhor persistência. Débora, Liu e Mário apreciaram-no mais. Depois fizemos uma prova repetindo Gran Enemigo em uma taça e na outra ofereci um Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016. Claramente um degrau acima do Noval, nariz mais complexo à frutas, chocolate/café, especiaria e mais. Boca abundante de notas entre frutas, chocolate ao leite, com o dulçor típico dos portugueses - Noval também tem, menos intenso -, ótimos taninos, final longo, permanece na língua quando o engolimos e salivamos depois. Para a maioria, se não foi um 6 x 0, ficou num ótimo 6 x 2: sobrou. Apenas o Eduardo considerou Gran Enemigo melhor.

   Então vem a pergunta: como um vinho 90 pontos, e outro 91 pontos, tratam um double cem (sic) na ponta da bota, sem respeitá-lo nem dar-lhe moral? Repetindo: na melhor das hipóteses, El Gran Enemigo precisou suar muito para suplantar um ótimo Novalzinho de 30 Euros em seu país de origem - Enemigo custa USD 40,00, na bodega. Ele tomou vareio forte de outro de 45 Euros...

   Enemigo nada acrescentou ao exemplar anterior degustado com o Renê, a menos da certeza: aquele vinho dele não era falsificado; El Gran Enemigo é mesmo um vinho fraco em comparação com europeus de valor similar e está muito aquém desses cem pontos conferidos por avaliadores que aparentemente encontraram seus narizes no lixo. 
  

Sherlockianas

   Voltando ao ponto: como um vinho assim consegue pontuação tão expressiva? Para tentar salvar a honra dos avaliadores - veja lá o aparentemente... - convido o leitor a ativarmos nossos sentidos Sherlockianos e especularmos sem medo. Claro, desentortando de um lado, entortamos do outro, na mesma proporção. As possibilidades para explicar o sucedido são:
    * Os exemplares enviados para avaliação não continham Gran Enemigo, mas outro vinho - continham um Vinho, com 'V". Pode-se argumentar: os avaliadores compram os vinhos no mercado formal. Antigamente sim; não sei se continua dessa maneira. Mas é certo: em concursos e degustações mundo afora, o produtor leva o vinho.
   * Aventou-se nos comentários da postagem passada o fato dos vinhos da Catena sofrerem falsificações. Bem, descobrimos a fonte dela. Os consumidores - mesmo visitando a bodega - estão levando gato por lebre; El Gran Enemigo pode ser muito bom, mas não é o que estamos bebendo.
   * Este Enochato (e todos seus confrades) não souberam avaliar o que tinham em mãos. Admito, admirei-me com certa simplicidade do Château Montrose 2003 e do Quilceda Creek 2004 quando fiz minha comparação particular do Julgamento de Paris. Está aqui. Mesmo Don Flavitxo ou Akira deixaram passar tratar-se de cortes bordaleses - sequer identificaram a Cabernet Sauvignon, que nesse nível de vinho é de fato muito diferente das expressões às quais estamos acostumados. Mas péra lá (sic), tinham ótima acidez e eram marcantes em boca. Você engole vinhos como esses e não os esquece tão fácil...eles permanecem consigo por um bom tempo, e olha, é um bom tempo mesmo... Não há como: um grande vinho o bebedor conhece por um lado ou por outro.  Portanto a hipótese precisa ser descartada.

   Bem, é isso. Arrepiem-se detratores, mas quem é independente pode dar sua opinião sem medo. Dado o longo histórico de alta pontuação dos Gran Enemigo, parece-me clara a desconfiança sobre os avaliadores ou sobre o produtor - e acho difícil haver apenas um culpado na estória. Reputo a contribuição do sistema de avaliação por notas. O problema é o que está sendo feito dele.

Preço Apontador 'lá'.





Preço Quinta do Noval lá.


Tuesday, October 24, 2023

A degustação da Mercearia 3M

Introito

   Aristóteles escreveu a Poética há 2.300 anos; seu pensamento continua atual e influenciou significativamente a análise literária, mostrando como podemos identificar qualidades ou defeitos em textos poéticos ou teatrais. Uma abordagem mais significativa do tema aconteceu apenas no início do século XX, com os formalistas russos. Hoje a crítica está estabelecida e é reconhecida como importante nas artes de maneira geral. 
 
Uma foto não precisa retratar um animalzinho fofo para ser artística. O fotógrafo deve ter sensibilidade para encontrar o ângulo, a luminosidade e o instante oportunos para seu clique perfeito, não importa qual seja o alvo de sua lente. E nem o observador está obrigado a apreciar o que é clicado, mas ele deve conhecer os conceitos de fotografia para poder avaliar se está mirando uma obra de valor ou um simples retrato. Da mesma maneira, um filme ou uma poesia não necessitam abordar temas belos para serem considerados arte; pode-se expressar até o macabro com toques de sofisticação e produzir-se uma obra-prima. Pensando assim, Robert Parker - até onde sei o primeiro a debruçar-se com olhar crítico sobre nossa bebida preferida - lançou as bases da avaliação para os vinhos em um momento onde as  análises praticamente só vinham de pessoas ligadas diretamente ao produto - um claro conflito de interesses. A proposta é relativamente simples, levando em conta a base na cor e aparência do vinho, aroma e bouquet, sabor e final, e nível geral de qualidade ou potencial. A escala começa com 50 pontos 'dados', e o avaliador pontua os aspectos do vinho segundo a regra onde cor e aparência recebem o máximo de 5 pontos; aroma e buquê, até 15 pontos (cuja análise se limita à intensidade e alcance da bebida); o sabor recebe até 20 pontos (estendendo-se ao equilíbrio, profundidade e persistência) e a qualidade global e potencial de evolução vale até 10 pontos. Essa regra está aqui, embora aqui esteja melhor comentada. Portanto falamos de um pouco de atenção, boa memória olfativa e gustativa, critério e perseverança para poder começar a avaliar vinhos - e é onde o chão afunda... pois... qual é o critério a ser usado? Como um bebedor iniciante, conhecedor, vamos escolher, apenas de vinhos chilenos, ou mesmo nacionais, pode considerar-se apto a avaliar vinhos? Ele claramente não o é. Da mesma maneira, um bebedor de vinhos do mundo todo, mas na faixa de 5,00 a 25,00 'moedas' também não é. Então o avaliador precisa beber dos grandes vinhos do mundo? Bem, pretende que seja diferente? Esses avaliadores terão tudo para serem os melhores, se deixarem de lado os conflitos de interesses. Quem já bebeu somente alguns grandes vinhos (quantos?...) pode ser um bom avaliador também. Quem bebeu muitos vinhos de certa qualidade pode avaliar bem vinhos daquele patamar para baixo - e pode até funcionar se ele souber calibrar sua avaliação a partir de outras notas conhecidas por ele. Complexo? Seguramente. Mas funciona, e é fácil comprovar: este Enochato - sem qualquer vaidade - está longe de ser qualquer sumidade mas oferece em várias confrarias das quais participa vinhos melhores do que a média dos demais membros, na faixa de preço em questão. Tá, aqui tem também o ponto de saber fugir das tubaronas, mas o assunto é outro. Como isso acontece? Simples: o Enochato aprendeu a calibração proposta acima com gente que sabia muito mais do que ele, notadamente Don Flavitxo e Akira. Nessa confraria, conversávamos de tudo: futebol, política, samba, suor, ouriço - principalmente ouriço - mas tínhamos nossos momentos de avaliar e estudar os vinhos. Vai por mim, funciona; basta prestar atenção, ponderar e ter vontade de aprender.
   Volto ao assunto na próxima postagem. Por enquanto, sugiro uma leitura sobre o Parker aqui, e outra sobre uma abordagem pragmática da pontuação de vinhos, aqui.

Impressões da Segunda Degustação Mercearia 3M-Damha Golf

 No sábado, dia 7, a Mercearia 3M realizou no restaurante do clube de Golfe no residencial Damha a segunda edição da parceria. O lugar é espaçoso e acomodou bem os 400 participantes ávidos por degustar parte dos 200 rótulos disponíveis. Meu propósito foi o de sempre, nas degustações regionais: experimentar sul-americanos em geral e nacionais em particular, para constatar como andam. Afinal, é necessário acompanhar o mercado para poder falar mal dele com alguma propriedade (risos!). Sejamos francos: das degustações passadas, aqui e ali, não sinto-me confortável para pagar R$ 70,00 em um tinto nacional. Por R$ 80,00, bem comprado - na 'promo' - pego um 5 Forais. Não tem para nacionais, podem perfilá-los prontos para o abate. Bom, dos nacionais de até R$ 150,00 nenhum ganha, por que vou arriscar pagar, digamos, R$ 250,00 numa tranqueira em potencial? OK, aos vinhos...

Amitié é um produtor tão novo quanto objetivo: procurei seu sítio de internet, mas só encontrei mesmo a loja eletrônica da empresa... na conversa com o sr. Ednar, fiquei sabendo da sede - Vale dos Vinhedos - e da fundação da vinícola em 2018. Seus espumantes têm sim alguma graça, são vivos, acidez discreta, leves, ótimos para beber na piscina: esquentou, você deixa cair dentro dela e tudo se resolve. Eles quase conseguem competir com um espumante italiano como o Bacio Della Luna, já degustado aqui inúmeras vezes. Falta apenas competir no preço: seu espumante mais barato custa R$ 65,00, muito caro em comparação com o italiano a módicos 5 moedas em seu país de origem. Fazendo o câmbio, dá R$ 25,00. Reclame-se dos impostos aqui. São os mesmos que incidem sobre o Bacio, e eu o comprava na 'promo' a R$ 45,00. Não reclamem, produtores nacionais... O Amitié Colheita de Verão Cabernet Franc tem uma picância muito leve e um ultra-especialista poderia conectá-lo a uma Cabernet. Sendo apenas um super-especialista, passei longe da sugestão. Tem sim alguma fruta no nariz, mas a boca é ligeira, baixa acidez - discreta, mas tem. É um ponto favorável sim, mas seu preço sugerido, R$ 100,00, não convence. O Pinot Noir saiu-se algo melhor, pois mostrou nariz mais rico e a boca surpreendeu, em comparação com o CF. Por R$ 85,00, é melhor compra. Até poderia pegar uma garrafa para brincar com amigos, mas pergunto: para que repetir, depois? Dois brancos, e foi assim: ou anotei errado os preços, ou o sr. Ednar se confundiu. O Viognier, anoitei como R$ 160,00, mas no sítio da empresa consta R$ 100,00. Tem buquê melhor do que a boca, onde a acidez é discreta e o final é ligeiro. Pelo preço anotado, e comparando com o sítio, por R$ 160,00 vem o Chardonnay, que é o 'Oak Barrel'. Mas aí pergunto: para que carvalho em um vinho com acidez praticamente zero? Tem lá um cítrico muito básico, mas na boca nem a madeira faz volume. R$ 160,00? Fala sério...

Na Casa Perini, famosa pelo aclamado quinto melhor espumante do mundo - experimentei, quando ganhou o galardão; achei que deveria ser o quinto pior do mundo, dentre os que já provei na vida - conheci a coleção Fração Única nas versões Cabernet Franc 2021, Tannat 2021 e Merlot 2020.  Sobre o Merlot, a página do sítio do produtor diz que... Este Merlot representa estrutura equilibrada entre taninos e acidez. A passagem por barrica de carvalho oferece a este vinho notas complexas. Lembra do começo da conversa? Quando citei a exasperação do Parker ao constatar que as críticas de vinho estavam ligadas a profundos conflitos de interesses da parte dos produtores? Por aqui, nada mudou. O equilíbrio aqui é entre taninos muito discretos e acidez pouco notável - o tanino ganha pela simples existência! São vinhos ligeiros, sem muito diferencial. Não são ruins nem mal feitos, apenas falta-lhes complexidade - complexidade de verdade. Complexidade é isso, ou isso. O resto é conversa mole. E o detalhe: ambos os vinhos referenciados valem - porque valem! - por volta de 100 moedas nas Európias. Aqui, Fração Única custa... custa... 100 moedas! E olha, com desconto!


   Tentei argumentar com o sommelier da empresa: o próximo passo seria tentar derrubar o preço. Ele reclamou dos impostos - mas todos os vinhos pagam... - e do preço da garrafa. Segundo ele, há apenas uma empresa a fornecer garrafas para todo o mercado. E, se entendi bem, o valor da garrafa seria algo como R$ 9,00 a unidade. Perguntei por qual motivo não produziam o vinho em caixinha. Não há demérito. Eu compraria Fração Única por R$ 20,00, para mostrar para as pessoas. Em casa, fui procurar. R$ 9,00, né?

  Vinte garrafas, sem rolha, R$ 60,00. Dá R$ 3,00 por garrafa. 🙄 já sei... a rolha custa R$ 6,00.

  Tentemos novamente. Doze garrafas, com rolha, R$ 25,00. Dá R$ 2,09 por unidade. 🙄 já sei... o rótulo custa R$ 6,91.

   Se servir de consolação, pelo menos a elite dos vinhos nacionais parece ter passado aquela fase onde as uvas eram esmagadas com prensa hidráulica a ponto de arrebentar as sementes e passar para o vinho seus taninos mais amargos. Não, isso não acontece - não com os vinhos de elite. Esse cuidado óbvio deve ser a explicação real para os preços altos do produto - além, claro, do Roberto Carlos ser chamado para cantar para o parreiral nas podas de inverno.

   Com o grande número de rótulos, não é de estranhar a repetição de alguns já presentes em eventos passados. Apenas evitei-os, ou experimentei um pouco dos melhores exemplares, para dar uma acompanhada. Dentre chilenos e argentinos, principalmente, nada de surpreendente. Continuo falando mal com propriedade. O uruguaio Garzán estava representado por um rótulo básico, creio. Assim como a qualidade: básica. Não lembro o preço, mas refleti na hora preferir os portugueses do Crasto e Esporão, parceiros da Mercearia em praticamente todos os eventos de maior envergadura da loja, não comparecendo apenas em degustações específicas. Não há muito o que falar deles, a qualidade é sempre boa. O preço parece-me andar um pouco fora, mas não fiz as contas direito. Já bebi muito deles em outros tempos, até mantenho alguma derradeira garrafa e sinto que já deu. Não me recuso a beber deles caso sejam servidos, apenas tento outros rótulos. É a tal da escolha do consumidor.

Mas nem tudo foi sofrimento e desgraça pelos stands do evento. Encontrei os alentejanos Rapariga da Quinta Colheita Seleccionada 2021 e seu irmão maior, o Rapariga da Quinta Reserva 2020. O primeiro, corte Aragonez, Trincadeira e Cabernet Sauvignon, mostrou fruta básica, boca ligeira, acidez baixa a média, meio ligeirinho mas bastante bom para seus cerca de R$ 90,00, principalmente se comparado aos nacionais. Dá uma surra em tudo o que experimentei e nos comentados em particular. O Reserva é um corte lusitano mais típico, Alicante Bouschet, Aragonez e Touriga Nacional, madeira presente, fruta marcada, acidez tendendo a média, melhor permanência. Claro, por R$ 170,00, precisa entregar mais. Seus preços aqui não estão tão fora, e o Reserva compete bem, por exemplo, com o Herdade dos Grous, pelo mesmo preço 'cheio' aqui - prefiro o Herdade, e este já comprei a R$ 110,00, recentemente; aí fica difícil para os Rapariga... Lá em Portugal seus preços não discrepam tanto... bendita concorrência... 

Sunday, October 8, 2023

Jantar com as meninas

Introito

Sempre prefira o vinho reba de um produtor top
ao vinho top de um produtor reba.
Dito d'Oenochato


Teria o inexistente leitor acompanhado - se foi noticiado pela grande mídia - a estória da agressão racial perpetrada por uma assessora de ministra contra os paulistas? Claro, os PTlhos terão alguma explicação satisfatória para isso - pelo menos para conversar entre si, bebendo sua cervejinha. É a pessoas assim às quais refiro-me quando digo sintir vergonha dessa gente (sic). Vejam aí ao lado: Torcida branca... descendente de europeu safade (sic! - analfabetismo grassa). Pior de tudo pauliste (sic again de novo). Não bastasse, a fulana trabalhava no... Ministério da Igualdade Racial!? É isso mesmo? A falta de ação do governador Tarcizo (sic) é ato menor, mas confirma a certeza: ele não merecia meu voto antes, e muito menos agora - não só por isso, mas pelo conjunto da obra. Bem, a pergunta agora é: onde está a lei para ato tão explícito de racismo? Apontando o dedo: Legalistas, apresentem-se! Agora cai a máscara, não é? Legalistas de araque! Se o leitor não está entendendo direito, recomendo a postagem curta do sr. Renan Santos do MBL, aqui. Uma explicação mais longa (8 min) esta aqui. Outro comentário igualmente estarrecedor está aqui (9 min), onde ele demonstra - apoiado por matérias jornalísticas - a destinação de metade das verbas do Ministérios da Igualdade Racial sendo gastas em viagens para a Europa - o lugar onde vivem os europeus safades (sic). Algumas fotos abaixo são de perfil das redes sociais das distintas funcionárias públicas; não podem ser negades, portante... (sic).

      

   Lembra-se de Que país é esse? Nunca este tão atual... 

Jantar com as meninas

Por conta de comemorar um simples reencontro após certo tempo, a compra de um pacote de viagens para o Nordeste com o Edu Viagens (rs), a singela alegria da vida e ainda desfrutar de um espumante deixado pelo Akira, pagando-lhe mais uma vez a imortalidade através da lembrança, as meninas - confraria antiga - reuniu-se há alguns dias em jantar. Convidado: o próprio Eduardo; participações especiais da Silvinha e da Faby. O local foi o apê da Carol - o novo. Em 2014 registrei nosso primeiro encontro no antigo, quando assinalei minha mudança de percepção acerca de vinhos chilenos na degustação de um  Finis Terrae, da Cousino Macul, bem como sua escalada de preços. Portanto, para os novatos, as reclamações não são recentes...

Sei mesmo que tivemos um Freixenet Cordon Negro, Cava Brut, corte Macabeo, Xarel-lo e Parellada, produto sempre bom para meu padrão de espumante do dia a dia. Ela fornece o básico: bom buquê calcado em notas cítricas e fermento, boca com muito frescor, acidez e corpo médios, boa permanência e bem balanceado: tem algum dulçor sem exagero - é para ser um Brut, certo? Mas a pontinha doce está lá - o que às vezes me decepciona em outros exemplares do estilo exibindo dulçor mais exagerado. Tal adocicado torna-o agradável para iniciantes sem decepcionar quem tem um pouco mais de experiência. Na faixa de R$ 66,00-R$ 80,00, é boa compra; acima disso começamos a flertar com a tubaronice pura e simples. Por ter produção muito grande, acaba sendo facilmente encontrada no Brasil, gerando competição e preços razoavelmente honestos. No final, e em comparação, uma aula de como se faz espumante; deveria ser assimilada pelos produtores nacionais. Pensar em Valduga 130 a R$ 145,00 - parece ter caído assustadoramente, mas posso estar confundindo o preço com o Blanc de Blanc ou o Blanc de Noirs - e outros acima de 100zão é um acinte. Aliás, interessante a postagem sair agora; estes dias saiu reportagem de vinhos brazucas recebendo medalhas Grande Ouro e Ouro Destaque(!) mundo afora. Nossos espumantes, dizem, competem com os melhores do mundo. Tá. Já experimentou os do Vale do Loire? Tente guardar um espumante nacional por 10 anos. Veja um Loire 2007 degustado neste ano aqui. Conhece da região portuguesa Trás-os-Montes? Esta tem coisa boa por 10,00 Euros (exemplares simples a partir de 5,00 Euros...). Seria interessante os produtores abaixarem a cabeça e começarem a trabalhar a questão do preço.

Cometi (sic! rs!) um Mirabeau Pure 2020, rosé provençal corte Grenache, Syrah e Cinsault com nariz discreto mas rico em frutas vermelhas, acidez baixa, bem leve, ligeirinho que só ele (risos!), mas ainda assim equilibrado e agradável; acompanhou bem as entradas; as meninas deliraram com ele, e evaporou rapidamente. Chegou o salomão por prato principal e para acompanhamento levei um Zind-Humbrecht Riesling Turckheim 2020; arrancou alguns suspiros e acompanhou bem o pescado - estava uma delícia! A Riesling da Alsácia tem uma pegada à óleo Singer, como muito observou o Akira certa vez. Advertidas após experimentarem, houve alguma concordância. É mais complexo, com notas cítricas e outras - não lembro-me dos palpites - boca com ótima acidez, mineralidade e frutas brancas cítricas, com ótimo final. Não muito acostumadas ao estilo, achando-o diferente, ouviram a frase que cunhei meio sem querer ao tentar contextualizar o vinho e o produtor: melhor o vinho reba de um produtor top ao vinho top de um produtor reba. Para fechar a noite, o Eduardo cometeu um D.V. Catena Cabernet-Malbec 2022, comprovando o quanto estou certo em abominar esses vinhos: doce desequilibrado (para mim, somente), com goiaba pesada na frente de tudo. Tem mais notas na direção de outras frutas e chocolate/fumo ou algo assim, madeira e mais, mas a goiaba soa enjoativa. O doce repete-se na boca, com mais fruta, acidez baixa e média, bom tanino - seu ponto alto - e final médio, porque o doce (ele de novo!) fica na boca. As pessoas enganam-se facilmente, pois esse doce o torna muito - mas muito mesmo! - palatável para bocas bem adaptadas a esse paladar que o Akira creditava infantil - dos primeiros anos, quando o doce torna-se uma sensação facilmente marcada em nossos paladares. É um vinho bem feito - apesar do desequilíbrio - no estilo para agradar as multidões. Ainda bem; se estas gostassem de Borgonhas, não sobraria para mim...
  

Sunday, September 24, 2023

A Paduca, a Paduca...

Introito

Frases. Frases, no sentido de citação, dizem muito sobre quem as invoca. Ou não. 🤣😂 Esse ʻou nãoʼ parece ser tão profundo quanto popular em alguns instâncias. Estes dias tropecei em duas frases:

Tem uma lógica no assalto: eu não tenho uma coisa que eu preciso, eu fui contaminado pelo capitalismo (…). Se você vai olhar a lógica interna do processo, sabe que isso seria justo, dentro de um contexto tão injusto. (aqui)
 Marcia Tiburi 'filósofa' de esquerda
Estudo formal: PhD

Ninguém rouba para comer, e vou mais longe: ninguém é ladrão por interesse. O roubo, de todas as atividades humanas, é a mais desinteressada, a mais esportiva, a menos utilitária. Só os bobos, os parvos, atribuem a gatunos motivos econômicos.
Nelson Rodrigues, contista e dramaturgo
Estudo formal: Ginasial (sic) incompleto

   Bom, quer parecer-me assim: alguém está profundamente errado em sua visão de mundo e sobre o ser humano, pois os pensamentos são completamente antagônicos. E, para não dizerem que as palavras da Marcia estão fora de contexto, há uma defesa da lógica do assalto, em texto completo, está aqui. Também há uma entrevista dela sobre o tema, aqui. Não é necessário reproduzir o vídeo neste espaço, embora tenha feito uma cópia para registro. Ainda sobre ela: sua obra mais importante parece ser Como Conversar Com Um Fascista. Vejamos como ela conversa com um (fonte aqui):


Sei... 
   Palavras. Palavras... palavras servem para definirmos significados. Esquerda e direita, além de lados com relação ao observador, significam espectros políticos. Tem a direita, e tem os direitóides. Ainda, existe a esquerda, da qual faço parte, e tem os ysquerdistas/yesquerdopatas, composta por - mas não apenas - quadrilhas organizadas cujos principais representantes estão presos. Ou estiveram, pois tem gente do CV, ou do PCC ou P alguma coisa já presa e agora andando solta pelo país. Mas o óbvio ululante advém de pessoas boas serem eclipsadas por tranqueiras, em ambos os lados. Não me arrogo bom, mas sinto-me francamente obscurecido por uma malta sem a menor condição de discutir problemas nacionais - o que dizer de problemas humanos ou da humanidade - e disposta em cargos de comando ou influência, com título real ou honorífico de Doutor ou simplesmente com a maior cara de pau. Apesar de tudo, continuo em minha posição com força e fé, e nenhum bando de salafrários e interesseiros me fará recuar. Ainda na esteira de palavras são palavras, às vezes elas são parecidas umas com as outras. Tiburi lembra tílburi, aquela carroça puxada por um único animal. Apenas um. Um basta, quando o intento é espalhar o bodum. O que tem a ver? Nada, apenas sou obrigado por contrato a escrever um número mínimo de palavras para o blog, e aqui estão elas. 😅

A Paduca, a Paduca

A Paduca, Paulo Duílio e Carlos, turbinada com o prefeiturável Fernando, vem cumprindo o ritual quinzenal com fúria e disposição. O Dú, sem vinho, compareceu com a pizza. Fernando chegou com De Martino Reserva Ruta G-450 2020, um Sauvignon Blanc com toques bem cítricos à maracujá, boa acidez, corpo médio e alguma persistência. É acertadinho dentro de sua faixa de preço - algo como R$ 80,00 - embora não consiga competir com outras opções bem compradas. Como exemplo cito o Falcoria branco, por cerca de R$ 95,00; ele está alguns degraus acima. Claro, Falcoaria é um extremo de boa compra nessa faixa, mas vem de muito longe, não faz parte do Mercosul... como sempre, a constatação vale: os vinhos chilenos estão caros no Brasil - e em muitos casos no Chile. O Paulão compareceu com a nova versão do Carmim Reguengos, agora um 2021. Para comparação, a safra 2018 está aqui. Esta safra, também comprada em supermercado, ficou muito abaixo: doce demais, já no nariz... doce a pegar como sarna!, alguma fruta devidamente eclipsada, acidez baixa, rápido em boca. Recebeu meu comentário ponderando se o produtor não rendeu-se ao gosto brasileiro, representado por uma grande maioria de bocas-tortas. Seu vinho anterior era mais bem acabado, pelos mesmos R$ 50,00, e este não faz jus àquele. Apresentei meu já degustado Bota Velha Vinhas Antigas 2018, e sem qualquer dificuldade ele passou por cima de Reguengos. Servido por último, teve mais tempo para aerar e apresentou-se melhor quando comparado à primeira experiência dele e ao primeiro tinto da noite... ou Reguengos de fato entortou a toca de todo mundo, e minha impressão dele estar mais redondo desta vez foi um ledo engano... mas a sensação geral foi dele ser melhor, de qualquer maneira... O álcool estava mais integrado, a fruta agradável e os taninos mais redondos. Realmente atingiu sua boa expressão; o problema é seu preço: por cerca de R$ 102,00 (na promo!), em primeiro tem obrigação de superar Reguengos, pois custa o dobro. Mas não conseguiria competir com Chocapalha, Cedro (Noval) e Herdade dos Grous bem comprados - acham-se por cerca de R$ 120,00, o Cedro inclusive em S. Carlos. O preço desses três por aí é R$ 180,00 conforme sítio de tubaronas. Depois arrivistas tentam explicar custos, impostos e toda aquela conversa modorrenta... serão rebatidos, sempre.

Friday, September 22, 2023

Dois franceses, dois italianos. Nojentos.

Introito: nossa democracia, uma falácia


The next day was hangin' day, the sky was overcast and black
Big Jim lay covered up, killed by a penknife in the back
And Rosemary on the gallows, she didn't even blink
The hangin' judge was sober, he hadn't had a drink
The only person on the scene missin' was the Jack of Hearts
Música Lily, Rosemary and the Jack of Hearts
in: Blood on the Tracks, Bob Dylan, 1975


Há muito tempo apoiei Ali Lulá contra a pasmaceira e a idiotia. Quanto tempo o leitor poderia supor que eu gastaria considerando votar em um misógino truculento para ejetar da presidência um ladrão? Respondo: um microssegundo; basta termos essas duas condições na mesa, o misógino truculento e o ladrão... Mas o assunto é democracia. Lembram-se de notícia vinda da Espanha, onde o articulista considerava não mais vivermos nela? Está aqui. Recentemente (janeiro/23), o Noviorque Times ponderava - sobre o Xandão (o de Brasília, não o de Ribeirão) - Ele é o defensor da democracia no Brasil. Ele é realmente bom para a democracia? O juiz do Supremo Tribunal brasileiro foi crucial para a transferência de poder do Brasil. Mas as suas tácticas agressivas estão a suscitar debate: pode-se ir tão longe para combater a extrema direita? Agora vemos o ministro presidindo um tribunal onde ele próprio é acusador e juiz. Pode haver alguma tecnicalidade a permitir isso, mas não soa... democrático. Onde vi situação similar a essa acontecer, mesmo? Teria sido em Operação Valkíquira? É aquele filme onde a turma do bem (sic) tenta ass@ss#n@r o Adolfo e se dá mal... Depois caem no colo do Rolando (sic) Freisler, cuja maior aspiração na vida talvez fosse ser ator; não conseguindo, tornou-se apenas o responsável pela nazificação do sistema jurídico alemão. Então, vejamos... uma tentativa de tomada de poder via golpe pode envolver, principalmente mas não apenas:
   * A destituição do dirigente de governo com desmantelamento dos demais poderes constituídos.
   * Tomada de posições estratégias e consequente embarricamento defensivo.
   * A força das armas para apoiar a sublevação e posições conquistadas.
   * E, sobretudo, a presença física dos alvos da covardia, sejam o presidente, os deputados e senadores ou mesmo os membros da justiça, para serem feitos reféns ou ração para cachorro, tanto faz - sob a ótica dos golpistas, claro! 
   Então pretender os atos de vandalismo do dia 8 de janeiro - um domingo! - terem sido uma tentativa de golpe, levados a cabo por meia dúzia de tontos e grande parte de idosos e crianças - todos desarmados! - , soa como argumento aceito apenas por trepanados vítimas de rituais da Idade Média. Outro detalhe surpreende: as penas para os primeiros baguás condenados. Dúvida: está clara sem a menor dúvida a hierarquia dos golpistas? E se os buchas de canhão estão recebendo penas de 17 anos, qual ajuizamento receberão os intermediários? E os financiadores? E os cabeças? Minha percepção é que as buchas de canhão não são imputáveis como golpistas, ao contrário dos demais. Eles são vândalos, apenas. De maneira alternativa, o que um apoiador do bolsonésio publicando algo como 
 - aliás em postagem apagada pelo próprio autor, embora seu registro esteja amplamente espalhado pela internet - estaria sugerindo? Seria invocar a artigo 142 da Constituição, grosso modo a Garantia da Lei e da Ordem, que supostamente permitiria os militares promoverem um golpe de estado? Todos sabem a resposta, e ignorá-la é exemplo acabado de patetice. Os julgadores são patetas? 

   Dizendo de outra maneira: o início do julgamento sem a exata hierarquia dos atores devidamente compreendida e registrada soa ao leigo como o exemplo acabado de uma Corte Canguru. O evento do dia 8 é grave - gravíssimo - e deve ser punido da maneira mais severa. Não tenho certeza quais acusações podem ser somadas à de vandalismo, se danos ao patrimônio público e danos ao patrimônio histórico representam o mesmo dano ou se podem ser tipificados diferentemente, e portanto somados. Dado o lugar onde o fato aconteceu - as sedes dos três poderes - não se espera um único segundo a menos na aplicação da pena máxima. Mas a sugestão de golpe por tais pessoas é piada. Esse é um exemplo de falácia. Confrontados com alegação da defesa, para quem os Ministros... São as pessoas mais odiadas do País (sic), Xandão retrucou: Esses extremistas que não gostam do STF são a minoria. Ora, aí ficou fácil: para mostrar para a sociedade que sua declaração é apenas e tão somente a expressão acabada da verdade, basta ao Xandão e aos excelentíssimos ministros fazerem uma aparição relâmpago na Avenida Paulista e ouvirem a população. Eu gostaria de estar presente.

Reunião da confraria ʻXʼ

   Pow, uma das confrarias não tem nome...  e é a mais antiga... depois do falecimento do Wilson e o convite feito para a Margarida e Elvira juntarem-se a nós, Akira começou a referir-se ao grupo como as meninas. Certo, usávamos o mesmo chamativo para outra turma, Dani, Carol e Regiane, mas o contexto da conversa identificava univocamente de quem falávamos; as primeiras não frequentariam o Black Bird (risos), nem as segundas tinham janela para reuniões aos domingos. Precisamos dar um jeito nessa estória de nome...

O Ghidelli chegou com uma (boa) surpresa: uma xampa Premier Cru Brut do Barbier-Louvet. Já bebemos dela quando provamos também um Gravner, vinho produzido em ânforas (aqui), e como o assunto veio à baila recentemente e mais de um grupo, aproveito e indico a postagem. Xampa com seu já comentado toque de pão/fermento, boca equilibrada, acidez vibrante, pouco álcool (12%), marca pelo frescor. Vinhos assim, bebemos e contemplamos a vida... tem boa permanência e bom final... fica mesmo na boca... Enquanto isso um Ricasoli aerava e passou para o balde. O Chianti Classico Riverva Rocca Giucciarda 2018 aportou fruta vermelha discreta, especiaria e mais notas, mas um tanto presas. Conforme verificamos tardiamente, quando melhorou muito, falhei no serviço. Do que procurei dele (CellarTracker), não apareceram sugestões de maior aeração. Ele merecia... A boca, antes discreta, transformou-se em boa riqueza de fruta e mais complexidade, embora com acidez baixa a média, corpo médio, taninos um pouco pegados - guarde mais alguns anos - e final médio. Bom, para um vinho de USD 22,00. O Laurent Ponsot Premier Cru 'Cuvee du Noyer' 2017 vem da lavra de um dos grandes produtores da Borgonha. Para quem não está ligado ele aparece no filme Sour Grapes, onde o indonésio Rudy Kurniawan vive aprontando das suas falsificações até oferecer em leilão garrafas do Domaine Ponsot Clos St. Denis em várias safras, entre 1945 e 1971... enquanto Ponsot só começou a produzir naquele Cru em 1982... foi quando o caldo começou a entornar para o rapá. Ainda, eu não sabia sobre Ponsot ter deixado o Domaine da família em 2017, conforme foi noticiado pela Wine Spectator, iniciando nova empreitada com seu filho Clément. O sítio do novo empreendimento está aqui. 

Voltando ao Cuvee du Noyer, ele é produzido em Baune; Ponsot combina 8 Premiers Crus para produzi-lo, e confesso nunca ter ouvido falar em corte de Borgonhas. Para mim, um Premier Cru vinha de um determinado vinhedo categorizado como tal, e pronto. Vivendo a aprendendo... Dizem que Borgonhas são apreciáveis em qualquer idade - jovens, maduros e envelhecidos -, e suas expressões são bem diferentes. Claro, é uma generalização; exemplares muito tânicos como bons Pommards ou Cortons podem precisar de uma década, e até duas não lhes fazem mal. Mas o Wine Searcher dava indicação deste Cuvee poder ser degustado mais cedo. Então ficamos entre a dúvida e a decepção: se ele precisava de mais tempo ou se ficou abaixo da expectativa. Não, não pareceu-me fechado, mas faltava-lhe; tinha fruta no nariz, boca com a boa acidez característica, mas um tanto rápido e sem marcar; borgonhesco, sem dúvida, mas não como esperava, em se tratando do mítico produtor. Estaria miada essa garrafa, ou essa é sua legítima expressão? Em sendo, há emprego melhor para cerca de USD 100,00, mesmo na Borgonha. O terceiro vinho felizmente redimiu-me. As dicas foram certeiras; abri antes de sair e ele ainda respirou todo o tempo na D. Neusa. Produzido pelo Castello di Volpaia, o Prelius Morello di Prile 2015 vem da costa Toscana, de Maremma. É um corte 40% Cabernet Sauvignon, 40% Sangiovese e 20% Merlot. A região foi elevada de IGT a DOC em 2011, e portanto as cepas bordalesas são permitidas por ali; fato é que Prelius chegou para salvar a honra deste Enochato frente aos confrades: nariz muito rico, intenso, com a cereja da Sangiovese, especiaria, madeira distinta e mais complexidade. Cada um pegou algum detalhe - é muito rico! A boca não deixou por menos: é grande, suculenta, combinou bem com a carne - picanha -, ótimos taninos, muito redondos agora, bela acidez e longa permanência, com retrogosto bem marcado. Um vinho excepcional por cerca de USD 45,00. Esses tintos atualmente não são comercializados por aqui, até onde procurei, então não faz sentido falar em comparação de preços. O Chianti, gostaria de tentar outra garrafa, se tiver oportunidade. Mas se precisar escolher entre ele e o Prelius, não teria muita dúvida não...