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Saturday, November 7, 2020

Bacio Della Luna 2019

Introito

   Essa vai rápida. Seu contexto esta entre divulgação e crítica. Divulgação pela iniciativa, que vale a pena; crítica porque... ora, é a alma do blog...

Bacio Della Luna

   Bacio Della Luna é um Prosecco (italiano, portanto) Extra Dry. Recebido em outubro pela Enoeventos na promoção 'compre uma caixa (6) e ganhe uma magnum', chamou atenção deste enochato pelo preço e condições. É exatamente a mesma oferta encontrei em algum lugar na Europa - não registrei onde: 6 garrafas + 1 magnum de brinde, por 32 euros (seriam 27, mas acrescente 20% de impostos. Tá pensando o quê?).

É produzido no Veneto. Esta versão, um Extra Dry 'Blanc de Blancs' indica ser produzido com apenas cepas brancas (no caso, Chardonnay e Pinot Bianco). Tem 11% de álcool, o que torna-o muito bom para 'entradinha', com um queijo tipo Gruyère. Cítrico. Achei que no nariz tivesse abacaxi, o Akira disse maçã. A ficha técnica aponta ambos... Tem acidez agradável, adstringência que dá uma boa 'limpada' na boca. Para um Extra Dry é engraçadamente docinho... As amigas Carol, Regiane e Dani que passaram 'para um bolinho' da aniversário piraram na batatinha com ele 😂. Seu preço na 'promo' é R$ 360,00, pela caixa de 6 garrafas + 1 magnum. Contas: aproximadamente 30 x R$ 6,00 = R$ 180,00. A margem de Enoeventos é 100% - 2x 'preço lá'. Uma das menores do mercado. Um parênteses: leitores perguntaram-me em off sobre minha conta usando dóla a 4,50. É assim: se você faz a conta com o dóla nesse valor e ainda assim o vinho está 2x 'preço lá', podemos afirmar tratar-se de uma verdadeira pechincha. É o vinho que você precisa levar. O valor usado agora, R$ 6,00, reflete apenas o dóla atual, e 2x é uma boa compra nessa nova realidade que estamos vivendo após empobrecermos 40% com a última desvalorização. De qualquer maneira, o preço 'por garrafa' (contando a magnum como duas garrafas) fica em... R$ 360/8 = R$ 45,00! Peguei aleatoriamente duas telas de loja online com espumantes nacionais:





   Não compro espumantes nacionais nem - já comentei aqui - vinhos chilenos ou argentinos. Não mais. Não há motivo, seja por qualidade, seja por preço. Não deixo de bebê-los com gosto, quando servidos. Mas não compro. E não os compro porque não me canso de experimentá-los em degustações justamente para notar que não melhoraram! Experimento todos (espumantes e vinhos), à exaustão. Alguns colegas chegam a perguntar por que estou bebendo 'tanta porcaria', e 'com tanta fúria' 😜. O Deonísio da Silva, meu professor de literatura na faculdade, dizia que o cardápio literário do estudante de Letras deve incluir os clássicos, mas também 'Sabrina' - uns romancezinhos água com açúcar que rolavam por aí, então. Estes serviam para realçar a excelência da obra-prima, explicava ele. É mais ou menos o mesmo caso. Experimento nacionais e sul americanos em geral para acompanhar como estão. Estão ruins. Não, incorreto. Quando melhorarem, estarão ruins. E, mais ou menos, vários espumantes nacionais estão no mesmo preço de Bacio Della Luna. Vou além. Timidamente, pergunto 'se ele não bate' o 130 da Valduga - achei que 130 fosse pelo preço, R$ 130,00, 'má quê'... Está R$ 200,00 por aí... Certo, no sítio do produtor, está R$ 120,00.


   Eu acho que não perde, ou no mínimo não perde tão feio - estou generoso hoje; acredito que perca... Mas Bacio veio 'lá de longe', e custa a metade (R$ 60,00 é o preço de uma garrafa, fora da 'promo', portanto). Seu preço na Itália deve ser 'marginal'. Basta faze a a conta da 'promo' por lá, 32 euros por 6 garrafas + 1 magnum, dá 4 euros por garrafa... É um preço marginal ou não?

   A tragédia não acaba aqui. Estes dias mesmo estava em uma degustação 'pós-pandêmica-controlada' - eram 11 pessoas. Serviu-se um espumante nacional (preço: R$ 45,00). A certo momento alguém comenta: - Acabaram as bolhinhas... Servi um final de Bacio Della Luna após dois dias, tendo usado uma tampa para espumantes apropriada. No segundo dia, estava carregado de bolhas. Pequenas, discretas. Claro, a qualidade havia decaído. Ei, quer o quê, por 4 euros? Nesse mesmo dia ainda abri outra garrafa de Bacio, para comparar com aquela aberta. Esta sim muito mais fresca. Mas sobreviveu, e bem. Tente com um espumante nacional...

   Então, é assim que ficamos: comparando 'corpo a corpo', nosso espumante é caro e ruim. Claro, vai continuar vendendo bem, enquanto nosso consumidor continuar ignorante e despreparado. Está vendo no que dá a lacuna na educação? Produto caro e sem qualidade, 'admirado' pelo bebedor sem noção. Há de mudar. Nem que na próxima gestão do Senhor.

Rata! 🐭

   Escrevi que este Bacio Della Luna seria um Prosecco. Um erro grosseiro, conforme o leitor pode conferir nos comentários. De qualquer maneira, o propósito da postagem é comentar o preço de espumantes simples 'cá' e 'lá'. A conclusão não muda: o que se cobra por um espumante nacional é um absurdo de caro.

Wednesday, March 9, 2022

Vinho e burgue de Carnaval 2

Introito

   Putin vem metendo os pés pelas mãos. Não torço por ele. Torço por uma situação de equilíbrio na região. Com uma invasão atrapalhada, perdendo 'moral', não conseguirá formar o escudo de proteção entre os mísseis da Otan e sua capital. O tempo de resposta russo face a um ataque ficará curto. Essa é a situação que poderá levar, até por causa de algum mal-entendido, a uma guerra nuclear de fato. Não agora, nem na semana que vem, mas depois que tudo se acalmar, com a poeira baixa e a Rússia devidamente enquadrada pelos 'mocinhos'. Será como em The Day After (O Dia Seguinte, 1983): ninguém jamais soube quem tinha disparado primeiro. 

Burgue e vinho II - A continuação

Quando do primeiro encontro para degustação de burgue (sic) dos membros do grupo Vinho e Turismo, várias pessoas não puderam participar, por agenda cheia. Mas algumas ainda combinaram um encontro para o final de semana no pós-Carnaval. Eis que para não perder a oportunidade este Enochato imiscuiu-se em mais este evento, para não perder o hábito de louvar a Baco, prática levada a cabo com fervor e dedicação sempre que possível. Assim reuniram-se as vestais Luciana, Dayane e Renata, a Sofia filha da Renata e este que vos escreve. Tínhamos comprado um vinho juntos há certo tempo, e eu ainda pensava em conferir uma opinião que ouvira certa vez. Na foto, eu com a mão na massa e as meninas felizes pelo encontro, fomos todos noite adentro sob recepção da Luciana (esq.) e selfie da Dayane (dir).

Um espumante e dois tintinhos

Como do encontro passado, levei meu já popular Bacio Della Luna Cuvée Brut. A exemplo das degustadoras da postagem anterior, elas acharam-no mais atraente do que nosso conhecido Blanc de Blancs Bacio Della Luna, degustado outras vezes por aqui. Opinaram ainda que seria melhor do que vários espumantes nacionais e, conforme apuramos depois, pelo preço consideraram-no muito interessante. Infelizmente está esgotado... Não repetirei as impressões, que estão aqui. Na sequência nos alegramos com o Château Haut Queyran 2016, um Cru Bourgeois (Médoc, portanto), comprado em uma 'promo' da Vinho e Ponto. Já comentei sobre os Cru Bourgeois aqui. Queyran mostrou nariz com fruta vermelha e especiaria. Discutimos ainda sobre algum café ou couro, se não me engano. Boca com fruta, taninos mais salientes do que a acidez - esta, achei faltar um pouco. Álcool e madeira sem comprometerem, equilibrados. É um corte 60% Cabernet Sauvignon e 40% Merlot com a especiaria da primeira presente. Pede acompanhamento com mais corpo, então não combinou tão bem com o burgue. Foi quando apresentei meu candidato. Ouvira falar que Beaujolais casariam bem com hambúrguer, então lá fui com o meu debaixo do braço. Domaine de Colette Fleurie 2014, 100% Gamay, também com fruta vermelha e para diferenciar-se um travo herbácio, se lembro-me bem. Corpo médio, 13% de álcool, boa acidez, creio ter mostrado fruta e alguém comentou... chocolate? Fumo? Algo nessa direção. Não passa por madeira, e, combinou muito bem com o burgue, para surpresa e felicidade geral. Esse e um dos problemas da harmonização: às vezes um vinho mais simples pode casar melhor do que um mais potente ou mesmo mais complexo. Não que Colette perca na complexidade - achei até mais elegante, pela acidez - mas no preço a diferença é grande. De qualquer maneira, não devemos usar um canhão para matar um passarinho. Sem copiar os preços, Queyran é um vinho de uns USD 20,00, pelo qual pagamos R$ 230,00. Colette vale uns USD 14,00, pelo qual paguei cerca de R$ 100,00. A relação é francamente favorável ao Beaujolais, mas são vinhos diferentes para situações diferentes. Queyran está no limite de 2x, boa compra para um vinho em nosso mercado.

Resenha

A Deliciosa História da França: As Origens, Fatos e Lendas por trás das Receitas, Vinhos e Pratos Franceses mais Populares de Todos os Tempos. Esse é o inusitado título de um livro que nos apresenta a história francesa conectada à evolução dos hábitos alimentares daquela que desde há muito é conhecida como a mais sofisticada cozinha do Velho Mundo. Fico pensando: qual seria o resultado dessa avaliação se tivéssemos à disposição o equivalente estudo realizado na Itália. É uma questão acadêmica, claro. A leitura de seus 52 capítulos é divertida, fluida, bem humorada a informativa. Fica mais instrutiva se o leitor tiver boa memória para guardar tantas datas e árvores genealógicas, o que não é meu caso, mas não torna o livro menos interessante. Sua pesquisa é ótima: as notas de cada capítulo apresentam-se ricas e os autores recuperam detalhes às vezes dramáticos sobre ingredientes tão banais: Tantas lágrimas foram derramadas pelo açúcar que, por direito, ele deveria ter perdido sua doçura (a respeito da conexão entre escravidão e produção açucareira). Partindo da Gália do século I a.C. até o pós-Segunda Guerra, vamos acompanhando como diversos ingredientes foram gradualmente sendo absorvidos pela culinária francesa sem o menor pudor ou preocupação. E, como os autores enfatizam diversas vezes sem a menor vergonha, a grande culinária francesa é uma mistura de influências distintas com os quais a nação teve contato durante toda sua história de 2000 anos. Os vinhos, claro, estão lá, em diversos capítulos. O vin du diable (vinho do diabo), acerca do Champagne, talvez seja o mais engraçado no tocante à nossa bebida predileta, embora outras estórias (Cognac, Absinto) apresentem-se igualmente envolventes. Uma leitura recomendada. Ganhei de presente da vestal Luciana, e foi um uma leitura prazerosa. Se o leitor dá-me licença, chegou o momento da minha hora verde... 

Esta postagem foi tocada (rs) aos restos de um Arínzano Chardonnay e um Pecchenino Dolcetto. Sinta-se ameaçado por eles, para uma próxima postagem...

Saturday, January 1, 2022

Esbórnias de fim de ano I e a estupidez dos Ph.D.

Introito

Final de ano chama esbórnia... e quem não gosta? 😉 A galera reuniu-se aqui em casa para renovar os votos de felicidade e próspero ano novo, além, claro, de honrar a Baco uma vez mais. Rê na cozinha (risoto), Carol no salomão (salmão 😂) e Dani no bombom de morango; o escriba na foto e o Akira em algum canto, tentando abrir o espumante com sua técnica zero noise. Ele consegue... não se ouve o menor shhhh... e de repente a rolha está na mão dele. O pessoal passou o ano um tanto recolhido, e não sem motivo: todos a menos de mim possuem pais em idade avançada. Como o grupo acredita na ciência, e ninguém é estúpido - é necessária essa ressalva, porque o que temos visto de Ph.D. estúpido por aí não é brincadeira - vai daí que nossos encontros resumiram-se a algumas poucas ocasiões, como o aniversário de alguém, e pouco mais. Não há problema; haveremos de tirar o atraso em algum momento.

Espumantes como prenúncio de ano novo

É tradição usarmos espumantes para momentos de comemoração. O hábito vem da nobreza europeia do século XVIII, e recentemente (50 anos para cá) é a forma como o pilotos de Fórmula 1 comemoram a vitória após uma corrida. Nas vitórias é merecido, nas derrotas é necessário, teria dito Napoleão acerca do Champagne. Prefiro esta: O Borgonha faz você pensar besteiras, o Bordeaux faz você falar besteiras e o Champagne faz as pessoas cometerem besteiras (Jean Anthelme Brillat-Savarin, político e cozinheiro francês). Esse hábito para mim é recente. Comprar Champagnes é algo proibitivo, no Brasil. Franciacortas estão nas mãos das importadoras tubaronas, o que as tornam mais caras que as Xampas, proporcionalmente falando. Cavas são boa opção, apenas as que experimentei são sim legais... mas não me seduziram. Há relativamente pouco tempo encontrei alguns espumantes italianos com qualidade e preços razoáveis e que não senti-me envergonhado ao apresentar para as pessoas. Pelo contrário, em todas as ocasiões elas gostaram muito... 

Vinho e comida...

Encontrei em uma 'promo' - a bléqui da Enoeventos - o Bacio della Luna Spumante Cuvée Brut, da Schenk, produtor do Vêneto. Já havia provado o Blanc de Blancs, que achei legal - o travo um tanto doce para um Extra Dry chocou-me um pouco - mas todo mundo gostou. Eu é que devo estar errado... bem, achei que poderia apostar algumas garrafas desta outra opção, dado o preço convidativo: R$ 60,00. Faz bom par com queijos - Maasdam e Gruyère mais, Bree menos. Notas bem cítricas - o Akira desvendou bem, mas não recordo - acidez média, boca mais ou menos simples - se você compara com Xampas - boa perlage, sempre no sentido de que, ao contrário de muitos espumantes brasileiros, sua boca não estufa de tanto gás ao menor gole. Sei que existem espumantes brasileiros melhor equilibrados, mas não, para mim não valem R$ 100,00+. É um produto nacional. Deveria custar, e olhe lá, o que custa um Bacio della Luna mais simples "lá": 5 moedas. Custar 100zão é uma razão de 20x. No... (sic) Bem, concluindo: é um bom aperitivo, e o leitor não vai se arrepender ao experimentá-lo.

Brancos e salomão

O salomão da Carol estava no ponto. Nem para mais, nem para menos: como deve ser. Um pouco antes, havia servido o QP Chardonnay 2014, comprado também em 'promo' de bléqui na Vinho e Ponto. Experimentei há pouco tempo, está aqui, e esta repetiu a dose: nariz com toques cítricos e fruta branca; boca com algum frescor; acidez pegando um pouco. O Akira considerou que esta garrafa estava um tanto mais oxidada - essas variações vão de garrafa a garrafa, mas é bom ficar atento - mas no geral causou boa impressão. Pedi para as meninas chutarem a uva, e a Rê disse Chardonnay. Na mosca... Na sequência veio o Jaffelin Chardonnay 2019. Nariz delicado, floral, cítrico, boca com acidez muito equilibrada, boa permanência, final agradável. Não é longo; mas o conjunto faz boa presença. As meninas gostaram mais do QP. Discutimos isso. A presença da madeira neste chamou-lhes mais atenção, marcando mais a boca no primeiro contato. Como é mesmo, a primeira impressão? Isso conta, e, embora não por isso, Borgonhas são ditos vinhos para quem já trilhou um pouco mais do caminho desse aprendizado. Aliás, a Rê acertou a uva de novo... 

   Esta postagem foi tocada a um filé ao molho gorgo com Xisto Cru 2014. Mais sobre ele, depois.

Resenha de filme

Watch Don't Look Up (Não Olhe Para Cima), produzido pela Netflix, começa com uma aluna de Ph.D. descobrindo um cometa dentro de nosso sistema solar. Alerta seu orientador, um obscuro professor que ainda assim calcula manualmente sua trajetória e descobre que a rota é de colisão com nosso planeta. A partir daí eles iniciam um périplo passando pela Casa Branca, jornais e mídias sociais na tentativa de alertar as pessoas para a catástrofe. Aparecem então influenciadores digitais que nada sabem sobre o assunto tentando angariar público, Ph.D.'s estúpidos com propostas esdrúxulas, discursos obscurantistas e tudo mais que se possa imaginar, menos objetividade. A crítica à administração anterior (dos EUA, claro) é bem caracterizada, e o que mais choca à audiência brasileira é o grau de similaridade para conosco, quando trocamos 'cometa' por 'covid' de maneira particular e mesmo por 'administração' de maneira geral. Para ficar igual, só faltou mesmo mencionar as milícias digitais, presentes em toda parte do espectro político e que, por óbvio, nada acrescenta à discussão, uma vez que não querem ouvir o contraditório; só interessa-lhes espalhar agressões gratuitas em doses cavalares. Ainda se argumentassem... É um bom filme se você assiste atento à denúncia de até onde pode chegar a idiotice humana. Para tanto, esteja preparado a uma miríade de situações absurdas e quase sem sentido para seres pensantes.

Sunday, January 17, 2021

As Noivas de Baco

Introito

   Formou-se uma confraria em S. Carlos, auto-denominada Noivas de Baco. Este Enochato, conhecido e reconhecido pelas suas conexões diretas com a entidade divina, foi convocado para assumir o posto de Prelato da irmandade - o que muito nos envaidece. As Noivas de Baco (😂) são Eduardo, Evaldo, Gustavo e Ricardo, e o templo tem por vestais Dayane, Isa, Renata e Riana. Outros adoradores parecem estar professando seus votos justamente enquanto escrevo. A conferir...

Mentiras, blefes, falácias

Este Enochato é volta e meia acusado de mentir em suas postagens. Isso é obviamente a tentativa vil dos detratores deste espaço em desacreditar o articulista. Vamos lá: em praticamente todas as postagens onde denuncio o preço abusivo cobrado por algumas importadoras ou comento o bom preço ofertado por outras, as telas do sítio do vendedor nacional são apresentadas, bem como a comparação com ofertas do produto fora do país, notadamente nos EUA. A honestidade intelectual do blog não pode ser contestada. Os detratores podem gralhar, mas - já notaram? - nunca apresentam um único argumento para desqualificar os meus. Para confirmar que a confraria existe e este que vos escreve narra nada além da mais pura verdade, sendo efetivamente o fiel representante dos confrades junto à Entidade, segue a foto do primeiro culto onde todos erguem suas taças à representação de Baco imortalizado por Caravaggio. Calem-se os infiéis e os detratores que dizem-me mentiroso. Tudo o que se fala aqui é verdade, a mais pura verdade, com seu devido suporte.

Os trabalhos

Seguindo minhas recomendações enquanto ainda mundano - antes da Anunciação da posição deste que escreve como Prelato da Confraria - de promover uma iluminadora comparação de estilos, compramos, já na bléqui fraidi do ano passado, 4 garrafas. Muita covid rolou, contratempos, desencontros, e a degustação ficou para 2021. Como sinal de boas vindas, servi o já comentado Bacio della Luna Spumante Blanc de Blancs. O Ricardo apareceu com o Prosecco Valdorella, espumante com aroma de abacaxi, boa acidez, bom frescor e que, junto de Bacio, foi apreciado por todos. Walew, Ricaaaardo... prova de que a confraria vem se fortalecendo e os bacantes não vacilam em ofertar aos irmãos e irmãs provas de entrega e compartilhamento daquilo que vão amelhando em suas andanças por outras plagas.


Os astros principais do encontro foram dois tintos, comprados à guiza de comparação entre o estilo sul-americano e europeu. Caliterra Tributo Cabernet Sauvignon Single Vineyard 2016 é um produto da chinela Caliterra. Mostrou fruta (pareceu goiaba) e uma pimentinha sem-vergonha que a ficha técnica tentava dizer não advir da Carmenère. Sem sucesso; é aquela pimenta que lembra tabasco e denuncia essa malfadada uva em qualquer proporção acima de 0,2% (risos). Não, nem tanto. Até uns 2% seria suportável. Tem mais. Pode escrever (rs). Corpo médio, a falta de acidez deixa a boca ligeira. Não é ruim. Apenas não é bom... Pelo preço (qual seria?) é só mais um exemplo (o n-ésimo aqui comentado...) de que os vinhos chilenos estão demasiadamente caros, e continuar a consumi-los é perpetuar um erro que só a falta de informação - ou o obscurantismo absoluto - explicam. O segundo rótulo foi o Château Peyrabon 2015, bordôzinho (sic) do Huat-Médoc composto por 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 6,5% Cabernet Franc, 3,5% Petit Verdot. Peyrabon é um Cru Bourgeois Supérieur. Nariz com boa fruta, algo como chocolate (café?) ou couro, taninos presentes e álcool aparecendo um pouco. Corpo médio, acidez presente, final não muito longo mas muito melhor do que Tributo, foi melhor na opinião unânime dos presentes. Pensei que teria de explicar um pouco o que seria a acidez e levar o grupo a refletir sobre ela, comparando ambos os vinhos, mas qual! Estão maduros o suficiente para, nesse nível de comparação, conseguir perceber com clareza a diferença qualitativa entre um vinho e outro. Baco gostou... 😊
 

Cru Bourgeois

   Nem cheguei a comentar com os discípulos o fato de Peyrabon ser um Cru Bourgeois. Essa classificação foi criada em 1932. Alguma brasilidade infestou os primeiros passos da iniciativa. O que deveria ser um júri independente que ordenaria os Châteaux que não foram incluídos na famosa classificação de 1855 logo estava contaminada por filhos, pais ou irmãos de produtores, quando não outras pessoas com interesses diretos neste ou naquele produtor. Assim, a tentativa de classificar cerca de 440 produtores foi por água abaixo, em meio a processos judiciais e outras brigas. Nova tentativa foi feita em 2003, listando 247 châteaux, e também acabou em pancadaria (risos), sendo anulada em 2007. Ela dividiu as propriedades em Crus Bourgeois Exceptionnels, Crus Bourgeois Supérieur e Crus Bourgeois. Em 2020, em ritmo de agora vai (rs), nova lista foi lançada. Peyrabon continua lá como Cru Bourgeois Supérieur. Sim, continua lá porque, ao contrário da classifiação de 1855, que é praticamente estática, a classificação dos Cru Bourgeois é dinâmica: sendo reavaliada periodicamente, os produtores não podem deixar o caximbo cair, sob pena de perderem importância ou mesmo deixarem a lista. Talvez haja momento que os Cru Bourgeois possam ameaçar a posição de alguns produtores da classificação de 1855. Se sim ou não pode motivar discussões apaixonadas, mas quem ganhará será o consumidor.

Tuesday, October 24, 2023

A degustação da Mercearia 3M

Introito

   Aristóteles escreveu a Poética há 2.300 anos; seu pensamento continua atual e influenciou significativamente a análise literária, mostrando como podemos identificar qualidades ou defeitos em textos poéticos ou teatrais. Uma abordagem mais significativa do tema aconteceu apenas no início do século XX, com os formalistas russos. Hoje a crítica está estabelecida e é reconhecida como importante nas artes de maneira geral. 
 
Uma foto não precisa retratar um animalzinho fofo para ser artística. O fotógrafo deve ter sensibilidade para encontrar o ângulo, a luminosidade e o instante oportunos para seu clique perfeito, não importa qual seja o alvo de sua lente. E nem o observador está obrigado a apreciar o que é clicado, mas ele deve conhecer os conceitos de fotografia para poder avaliar se está mirando uma obra de valor ou um simples retrato. Da mesma maneira, um filme ou uma poesia não necessitam abordar temas belos para serem considerados arte; pode-se expressar até o macabro com toques de sofisticação e produzir-se uma obra-prima. Pensando assim, Robert Parker - até onde sei o primeiro a debruçar-se com olhar crítico sobre nossa bebida preferida - lançou as bases da avaliação para os vinhos em um momento onde as  análises praticamente só vinham de pessoas ligadas diretamente ao produto - um claro conflito de interesses. A proposta é relativamente simples, levando em conta a base na cor e aparência do vinho, aroma e bouquet, sabor e final, e nível geral de qualidade ou potencial. A escala começa com 50 pontos 'dados', e o avaliador pontua os aspectos do vinho segundo a regra onde cor e aparência recebem o máximo de 5 pontos; aroma e buquê, até 15 pontos (cuja análise se limita à intensidade e alcance da bebida); o sabor recebe até 20 pontos (estendendo-se ao equilíbrio, profundidade e persistência) e a qualidade global e potencial de evolução vale até 10 pontos. Essa regra está aqui, embora aqui esteja melhor comentada. Portanto falamos de um pouco de atenção, boa memória olfativa e gustativa, critério e perseverança para poder começar a avaliar vinhos - e é onde o chão afunda... pois... qual é o critério a ser usado? Como um bebedor iniciante, conhecedor, vamos escolher, apenas de vinhos chilenos, ou mesmo nacionais, pode considerar-se apto a avaliar vinhos? Ele claramente não o é. Da mesma maneira, um bebedor de vinhos do mundo todo, mas na faixa de 5,00 a 25,00 'moedas' também não é. Então o avaliador precisa beber dos grandes vinhos do mundo? Bem, pretende que seja diferente? Esses avaliadores terão tudo para serem os melhores, se deixarem de lado os conflitos de interesses. Quem já bebeu somente alguns grandes vinhos (quantos?...) pode ser um bom avaliador também. Quem bebeu muitos vinhos de certa qualidade pode avaliar bem vinhos daquele patamar para baixo - e pode até funcionar se ele souber calibrar sua avaliação a partir de outras notas conhecidas por ele. Complexo? Seguramente. Mas funciona, e é fácil comprovar: este Enochato - sem qualquer vaidade - está longe de ser qualquer sumidade mas oferece em várias confrarias das quais participa vinhos melhores do que a média dos demais membros, na faixa de preço em questão. Tá, aqui tem também o ponto de saber fugir das tubaronas, mas o assunto é outro. Como isso acontece? Simples: o Enochato aprendeu a calibração proposta acima com gente que sabia muito mais do que ele, notadamente Don Flavitxo e Akira. Nessa confraria, conversávamos de tudo: futebol, política, samba, suor, ouriço - principalmente ouriço - mas tínhamos nossos momentos de avaliar e estudar os vinhos. Vai por mim, funciona; basta prestar atenção, ponderar e ter vontade de aprender.
   Volto ao assunto na próxima postagem. Por enquanto, sugiro uma leitura sobre o Parker aqui, e outra sobre uma abordagem pragmática da pontuação de vinhos, aqui.

Impressões da Segunda Degustação Mercearia 3M-Damha Golf

 No sábado, dia 7, a Mercearia 3M realizou no restaurante do clube de Golfe no residencial Damha a segunda edição da parceria. O lugar é espaçoso e acomodou bem os 400 participantes ávidos por degustar parte dos 200 rótulos disponíveis. Meu propósito foi o de sempre, nas degustações regionais: experimentar sul-americanos em geral e nacionais em particular, para constatar como andam. Afinal, é necessário acompanhar o mercado para poder falar mal dele com alguma propriedade (risos!). Sejamos francos: das degustações passadas, aqui e ali, não sinto-me confortável para pagar R$ 70,00 em um tinto nacional. Por R$ 80,00, bem comprado - na 'promo' - pego um 5 Forais. Não tem para nacionais, podem perfilá-los prontos para o abate. Bom, dos nacionais de até R$ 150,00 nenhum ganha, por que vou arriscar pagar, digamos, R$ 250,00 numa tranqueira em potencial? OK, aos vinhos...

Amitié é um produtor tão novo quanto objetivo: procurei seu sítio de internet, mas só encontrei mesmo a loja eletrônica da empresa... na conversa com o sr. Ednar, fiquei sabendo da sede - Vale dos Vinhedos - e da fundação da vinícola em 2018. Seus espumantes têm sim alguma graça, são vivos, acidez discreta, leves, ótimos para beber na piscina: esquentou, você deixa cair dentro dela e tudo se resolve. Eles quase conseguem competir com um espumante italiano como o Bacio Della Luna, já degustado aqui inúmeras vezes. Falta apenas competir no preço: seu espumante mais barato custa R$ 65,00, muito caro em comparação com o italiano a módicos 5 moedas em seu país de origem. Fazendo o câmbio, dá R$ 25,00. Reclame-se dos impostos aqui. São os mesmos que incidem sobre o Bacio, e eu o comprava na 'promo' a R$ 45,00. Não reclamem, produtores nacionais... O Amitié Colheita de Verão Cabernet Franc tem uma picância muito leve e um ultra-especialista poderia conectá-lo a uma Cabernet. Sendo apenas um super-especialista, passei longe da sugestão. Tem sim alguma fruta no nariz, mas a boca é ligeira, baixa acidez - discreta, mas tem. É um ponto favorável sim, mas seu preço sugerido, R$ 100,00, não convence. O Pinot Noir saiu-se algo melhor, pois mostrou nariz mais rico e a boca surpreendeu, em comparação com o CF. Por R$ 85,00, é melhor compra. Até poderia pegar uma garrafa para brincar com amigos, mas pergunto: para que repetir, depois? Dois brancos, e foi assim: ou anotei errado os preços, ou o sr. Ednar se confundiu. O Viognier, anoitei como R$ 160,00, mas no sítio da empresa consta R$ 100,00. Tem buquê melhor do que a boca, onde a acidez é discreta e o final é ligeiro. Pelo preço anotado, e comparando com o sítio, por R$ 160,00 vem o Chardonnay, que é o 'Oak Barrel'. Mas aí pergunto: para que carvalho em um vinho com acidez praticamente zero? Tem lá um cítrico muito básico, mas na boca nem a madeira faz volume. R$ 160,00? Fala sério...

Na Casa Perini, famosa pelo aclamado quinto melhor espumante do mundo - experimentei, quando ganhou o galardão; achei que deveria ser o quinto pior do mundo, dentre os que já provei na vida - conheci a coleção Fração Única nas versões Cabernet Franc 2021, Tannat 2021 e Merlot 2020.  Sobre o Merlot, a página do sítio do produtor diz que... Este Merlot representa estrutura equilibrada entre taninos e acidez. A passagem por barrica de carvalho oferece a este vinho notas complexas. Lembra do começo da conversa? Quando citei a exasperação do Parker ao constatar que as críticas de vinho estavam ligadas a profundos conflitos de interesses da parte dos produtores? Por aqui, nada mudou. O equilíbrio aqui é entre taninos muito discretos e acidez pouco notável - o tanino ganha pela simples existência! São vinhos ligeiros, sem muito diferencial. Não são ruins nem mal feitos, apenas falta-lhes complexidade - complexidade de verdade. Complexidade é isso, ou isso. O resto é conversa mole. E o detalhe: ambos os vinhos referenciados valem - porque valem! - por volta de 100 moedas nas Európias. Aqui, Fração Única custa... custa... 100 moedas! E olha, com desconto!


   Tentei argumentar com o sommelier da empresa: o próximo passo seria tentar derrubar o preço. Ele reclamou dos impostos - mas todos os vinhos pagam... - e do preço da garrafa. Segundo ele, há apenas uma empresa a fornecer garrafas para todo o mercado. E, se entendi bem, o valor da garrafa seria algo como R$ 9,00 a unidade. Perguntei por qual motivo não produziam o vinho em caixinha. Não há demérito. Eu compraria Fração Única por R$ 20,00, para mostrar para as pessoas. Em casa, fui procurar. R$ 9,00, né?

  Vinte garrafas, sem rolha, R$ 60,00. Dá R$ 3,00 por garrafa. 🙄 já sei... a rolha custa R$ 6,00.

  Tentemos novamente. Doze garrafas, com rolha, R$ 25,00. Dá R$ 2,09 por unidade. 🙄 já sei... o rótulo custa R$ 6,91.

   Se servir de consolação, pelo menos a elite dos vinhos nacionais parece ter passado aquela fase onde as uvas eram esmagadas com prensa hidráulica a ponto de arrebentar as sementes e passar para o vinho seus taninos mais amargos. Não, isso não acontece - não com os vinhos de elite. Esse cuidado óbvio deve ser a explicação real para os preços altos do produto - além, claro, do Roberto Carlos ser chamado para cantar para o parreiral nas podas de inverno.

   Com o grande número de rótulos, não é de estranhar a repetição de alguns já presentes em eventos passados. Apenas evitei-os, ou experimentei um pouco dos melhores exemplares, para dar uma acompanhada. Dentre chilenos e argentinos, principalmente, nada de surpreendente. Continuo falando mal com propriedade. O uruguaio Garzán estava representado por um rótulo básico, creio. Assim como a qualidade: básica. Não lembro o preço, mas refleti na hora preferir os portugueses do Crasto e Esporão, parceiros da Mercearia em praticamente todos os eventos de maior envergadura da loja, não comparecendo apenas em degustações específicas. Não há muito o que falar deles, a qualidade é sempre boa. O preço parece-me andar um pouco fora, mas não fiz as contas direito. Já bebi muito deles em outros tempos, até mantenho alguma derradeira garrafa e sinto que já deu. Não me recuso a beber deles caso sejam servidos, apenas tento outros rótulos. É a tal da escolha do consumidor.

Mas nem tudo foi sofrimento e desgraça pelos stands do evento. Encontrei os alentejanos Rapariga da Quinta Colheita Seleccionada 2021 e seu irmão maior, o Rapariga da Quinta Reserva 2020. O primeiro, corte Aragonez, Trincadeira e Cabernet Sauvignon, mostrou fruta básica, boca ligeira, acidez baixa a média, meio ligeirinho mas bastante bom para seus cerca de R$ 90,00, principalmente se comparado aos nacionais. Dá uma surra em tudo o que experimentei e nos comentados em particular. O Reserva é um corte lusitano mais típico, Alicante Bouschet, Aragonez e Touriga Nacional, madeira presente, fruta marcada, acidez tendendo a média, melhor permanência. Claro, por R$ 170,00, precisa entregar mais. Seus preços aqui não estão tão fora, e o Reserva compete bem, por exemplo, com o Herdade dos Grous, pelo mesmo preço 'cheio' aqui - prefiro o Herdade, e este já comprei a R$ 110,00, recentemente; aí fica difícil para os Rapariga... Lá em Portugal seus preços não discrepam tanto... bendita concorrência... 

Sunday, January 22, 2023

Um evento enoetílico

 Introito

Problema no notebook fez-me postergar algumas postagens e muitos comentários políticos. Nesse meio tempo, entrou e saiu do noticiário (Você viu? Se não viu, talvez nem tenha sido noticiado em certos meios 🙄) a ligação de ministra de Ali Lulá com o crime organizado carioca, também conhecido como milicianos. Qual a diferença com bolsonésio? PTlhos acreditam com toda fé que sua agremiação criminosa fez real oposição a bolsonésio. Tá. Veja o tuíte; a postagem original está aqui. E note de quebra o comentário da 'Gabi do PT', confirmando crítica já realizada neste espaço ao Grande Guia. E olha que da tuiteira, do PCdoB, pode ser dita muita coisa, menos não ser uma infiltrada. 
   Recente lei pretende regular as piadas no país. Como se já não fôssemos o país da piada pronta. Foi votada em peso por PTlhos e bolsonésios, inclusive dudu bananhinha, aquele do pen drive durante a última copa, lembra? PTlhos e bolsonésios se parecem cada vez mais...
   Termino com as seguintes reflexões: documento chamado 'Minuta do Golpe'(!) encontrado na casa de conspirador foi rebatido assim pela defesa de bolsonésio: (o plano) '...nunca deixou a residência privada de terceiros; não foi publicado ou publicizado, a não ser pelos órgãos de investigação e; não se tem notícia de qualquer providência de transposição do mundo do rascunho de papel para o da realidade fenomênica, ou seja, nunca extravasou o plano da cogitação'. Quer dizer, gente que deveria guardar a constituição chegou a cogitar um golpe? É isso mesmo? Ah, e querem me fazer crer que O Beneficiado nada sabia nem apoiava, a despeito de todas suas declarações - e também de seus filhos - sobre um golpe?! A questão não é se, mas quando... Sisqueceu? Relembre, é grátis (sic), e passe vergonha, bolsonésio de plantão.


  Longe de defender o crime de pensamento de Orwell - até porque ele aplicava-se ao cidadão comum, não à classe dominante - constato que a mera cogitação de um golpe por tais pessoas soa tão estarrecedor quanto o próprio conceito de crime de pensamento. Ao fim, onde está bolsonésio após esse tempo todo? Escondido (sic) na Flórida, para onde foi com visto de presidente e agora permanece como turista. Menos do que isso; turistas podem ter vistos de até seis meses; a condição peculiar de bolsonésio concede-lhe no máximo 30 dias de permanência em situação regular. A fonte de recursos (cartão corporativo) está secando e já se fala em bolsonésio ministrar palestras ao módico valor de USD 10.000,00. Ninguém adianta a desmoralização: Ali Lulá palestrava por USD 200.000,00! Cheiro de michê no ar... está certo, bolsonésio é uma meretriz mesmo. Finalmente, aquela ministra idiota, ser desprezível que no passado votou contra a o uso células tronco embrionárias em pesquisas (o resultado final da votação favoreceu a ciência) por suas meras convicções religiosas - como ficou a convicção de seus eleitores?! - aparece em Davos afirmando que temos 120 milhões de pessoas passando fome. Chorume da humanidade, tranqueira da pior qualidade, rainha da desfaçatez e da iniquidade, mente sem escrúpulo nem vergonha. Aprendeu com Ali Lulá, antes seu detrator e agora seu mestre - deixei sem rima em respeito ao leitor.

Bueno Wines e algumas maldades

   O Edu, da Caminhos do Turismo, empresa turística com vários pacotes dedicados à apreciação de vinhos, volta lentamente às atividades e tem realizado visitas a vinícolas da região, além de promover degustações em restaurantes diversos. Desta vez associou-se ao Sommelier Conectado Eustáquio Fragalle, emérito e reconhecido estudioso de vinhos, conhecedor de primeira linha, ABêSsista (sic) de primeiro momento e atual vice-presidente da ABS de São Carlos, para uma degustação de três produtos da Bueno Wines. O restaurante escolhido foi o Personal Sushi.
   A Bueno Wines é uma empresa brasileira (nota-se, pelo Wines...) propriedade de Galvão Bueno, célebre ex-locutor global recentemente aposentado para tristeza de alguns e alegria incontida da imensa maioria, dizem (se a voz do povo é a voz de Deus, confira aqui). Tem um sítio simples mas objetivo, de onde tirei algumas informações: 
...a Bellavista Estate (sic), propriedade situada no ponto de encontro do perfeito terroir do Novo Mundo, uma região estratégica apelidada por Galvão Bueno como a Califórnia Brasileira.

   Interessante, mas pergunto: por que o terroir é perfeito? Como acontece? Quais condições garantem isso? O que a região tem em comum com a Califórnia? A Campanha Gaúcha está entre as latitudes 29 e 31 Sul, com altitudes entre 100 e 360 metros; parece que a média é 180 metros. Já o Vale do Napa - reconhecidamente o centro vitivinicultor da Califórnia - está entre as latitudes 32 e 38 Norte (portanto está mais distante do Equador do que a Campanha), e a altitude da maior parte dos vinhedos está na casa dos 425 metros... Creio que tais impertinências vindas de um Enochato cuja grand trip seja estimular o debate e questionar sem receio passem desapercebidas do grande público. Mas as comparações acima, que parecem não encontrar justificativa, são o quê? Maldade ou ignorância? O leitor pode achar que estou pegando muito no pé da Bueno Wines. Em minha defesa, tenho que muitos (não todos, observe!) dos produtores nacionais conspiram - tudo a ver com a introdução! - contra o brasileiro no varejo e no atacado. Pedidos de adoção do selo para circulação de vinhos (2005) e cotas de importação (2012, que gerou a famosa Carta Aberta do Ciro Lilla) para forçar o aumento do preço do vinho importado são apenas dois exemplos. Depois, a baixa qualidade e alto preço dos produtos torna mais do que merecido um escrutínio rigoroso sobre a conversa mole dessa turma. E tal postura não é novidade nestas páginas; em 2012 isso já era feito. Então continuo: sobre a parceria da Bueno Wines com o consultor italiano Roberto Cipresso, li que

Cipresso foi eleito o “Melhor Enólogo Italiano”, durante o “Wines Oscar 2006”, e o “Homem do Ano” pela revista Men’s Health, em 2008. Além disso, o italiano produziu o Cuvée feito especialmente para o Papa João Paulo II, 2000.
   Encontrei essa citação em uns 50 lugares diferentes; coisa de papagaio de pirata. Mas sobre 'Wines Oscar', e suas variações, parece inexistir menção mais significativa. Apenas outra pseudo-informação que tenta prover uma aura de importância aos vinhos mas de pouca ou nenhuma ligação factual. Ou, se alguém encontrar algo sobre 'Wines Oscar', avise. Sem mais maldades (acredite se puder), aos vinhos, então.

Vinhos e comida japonesa

   É sabido que a cozinha oriental - com a japonesa em particular - combina muito pouco com vinhos. Para mim uma harmonização razoável dá-se com os brancos doces do Loire. Durante a fase de publicar pouco - ou nem publicar -, estava abarrotado de exemplares do Domaine du Clos Naudin, de Vouvray, principalmente os Moelleux. Ainda tenho um Moelleux reserva e um espumante '09 guardados e provocando o tempo... mas voltemos... a proposta do espumante da Bueno é harmonizar com sushi. Assim o Espumante VIC, um Brut feito com Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon,  acompanhou carpaccio de salmão. (Abrindo os braços para o leitor): E foi isso. Digo, acompanhou. A dado momento o Gustavo do Bistrô Graxaim, reconhecidamente meu oponente político no campo intelectual, comentou-me que balançar uma taça de espumante fazia as bolhas se dispersarem mais rapidamente. Mas eu não sentia buquê algum! Perguntei se ele sentia, e a resposta foi... pouco. Minha taça não tinha perlage quando comecei a balançá-la. A da sra. Ângela, sentada à minha frente, as tinha, quase do tamanho de grãos de feijão 😂... tá um pouco menores. Perguntei para outros confrades próximos, a Débora e o Mário, se notavam alguma acidez no espumante. Não, responderam... Pow, vamos lá, uvas brancas têm certa acidez natural, como um espumante pode ser produzido com tão pouca (nenhuma!) acidez? Passava direto pela língua a garganta, sem deixar traço ou lembrança... que lambança! E fui servido de duas garrafas diferentes. Não pode haver dúvida. Comento que o Valduga 130 (que custa R$ 199,00) é 130 vezes melhor. Quiçá, 199 vezes, e olhe que soa ridículo considerá-lo como padrão de qualidade. Perguntei para o Gustavo entre Vic Brut e o modesto (5 Euros) do Bacio della Luna; ele não vacilou: Bacio.

Na sequência, o Chardonnay VIN (não notei a safra) chegou com um combo de peixe branco tendo por carro chefe o niguiri flambado com azeite trufado. Um branco sem acidez, insosso, onde a estrutura do vinho só estava representada pelo álcool, 12%. Não é que seja pouco; grandes Borgonhas do final do século passado ainda tinham seus 11,5%-12,0% de álcool e eram esplêndidos, graças à elegantérrima acidez. Confira aqui, nos comentários de Don Flavitxo Vinhobão e voltemos ao assunto: outro vinho sem qualquer diferencial que só encontrou par no Rosé Vin, acompanhado pelo combo de salmão. Vinificado com Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot, Pinot Noir e Sauvignon Blanc separadamente e posteriormente cortado, também não apresentou buquê significativo, acidez ou permanência, apenas colaborando com minha já conhecida má estima para com os rosés. O problema maior é que tais impressões não são somente minhas; foram amparadas pela maioria dos confrades à mesa. Valeu para conhecer? Claro que valeu. Um mané de boné como eu, que se arroga 'crítico' do vinho, deve experimentar de tudo, sem paixão; analisar pelo que sabe da teoria aliado com sua experiência prática, e contextualizar segundo sua experiência. Para quem já bebeu alguns Borgonhas, alguns Lopes de Heredia (espanhol) e uns poucos Loires, a simples existência dessa linha de vinhos desmerece a existência da ciência vitivinícola, dos céus e até do Criador. Não merecemos isso.

Conclusão (precisa?)

   Vinhos de praticamente três dígitos que não merecem ultrapassar o segundo (em reais!), é o que nos brinda a Bueno Wines. Pode ter seus amantes, mas Ali Lulá e bolsonésio também os têm. Como Putin e Hitler, apenas para citar mais dois. Assim caminha a humanidade.
   Galvão ameaça buscar o melhor vinho do Brasil, segundo entrevista que não li à revista Adega, veja aqui. Talvez por não ter lido, não entendi. Acho que vai buscá-lo onde quer seja produzido, e trazê-lo para beber em casa. Nada contra. Porque a julgar pela qualidade de seus vinhos então degustados, propor-se a produzi-los é um objetivo tão inglório quanto inalcançável. Recomendo sua prova, baseado no ensinamento de meu professor de Literatura Brasileira Deonísio da Silva: (em literatura) Temos que experimentar de tudo, do bom e do ruim. Senão, como formaremos nosso padrão de qualidade? Ou algo assim.

Saturday, November 6, 2021

Mais e mais bons vinhos e boas companhias

Introito

   Está certo que aconteceu há uma semana e apenas agora estou postando. Mas é-me desagradável, estando a rememorar tão alegres momentos, abordar o cotidiano torto onde vivemos. Como tenho mencionado, o cidadão de bem não pode mais pronunciar-se sobre qualquer assunto sem mencionar estes tempos de desmandos por parte de todos os poderes, corrupção, aparelhamento do estado e desinformação. Os novos quatro cavaleiros do apocalipse para os brasileiros? Serve de consolo saber que nossos acadêmicos recusaram a Ordem do Mérito Científico, mas a atuação da ciência brasileira tem deixado a desejar - como, aliás, a de outras instituições também. Isso claramente não ameniza a falta de ação da Academia. Na falta dela, vou eu mesmo:
   - Marcão (Pontes), há coisa de um ano, pouco mais, eu estava defendendo você em algumas conversas. Não que você estivesse sendo brilhante no comando do MCT, apenas não estava fazendo coisa errada no meio de um governo tão bagunçado, corrupto e canalha. Você é um sujeito com mestrado e piloto de caças. É um currículo e tanto, que o coloca entre os 5% melhores da nossa sociedade. Recentemente a ciência brasileira sofreu um corte de uns 90% em seu orçamento. Você - ao contrário de seu antecessor (quem lembra do baitola?!) - deveria saber o significado disso. Se fosse homem, teria pedido o chapéu. Não sem antes chamar à responsabilidade o presidente e os demais velhacos que perpetraram essa ignomínia. Permanecendo em seu posto, você iguala-se a eles em cretinice e vileza. Deveria preservar seu currículo. Custou muito chegar onde você chegou. E nem falarei sobre a comenda e o fato de ter sido chamado de burro por incompetente intelectualmente muito abaixo de si próprio. Urge cuidado para não justificar o xingamento, por mais baixo que tenha sido.

Carol, Regiane, Silvinha e Akira

Foi a turma que esteve comigo no sábado à noite, dia 30. A Rê ofececeu-se (foi oferecida pelos demais? Não sei, a combinação foi deles...) para preparar um risoto de gorgonzola e damasco, enquanto eu faria as vezes com meu indefectível bifim. Sabedor do gosto das meninas - Akira não conta! 😱 - separei um Bacio Della Luna 2019, já comentado diversas vezes. Esse espumante é o básico que agrada: perlage discreta, longe de fazer as bochechas estufarem quando colocamos um pouco da bebida na boca, equilibrado, um dulçor a mais do que o esperado para um 'extra dry', mas sem comprometer. Não há muito o que acrescentar ao que já foi dito muitas e muitas vezes anteriormente, uma vez que bebi vários no último ano. Preciso comentar que o risoto estava delicioso, e que casou bem tanto com o espumante como com os tintinhos nojentos que preparei para a noite. 

Velhos conhecidos

O Chianti Classico Coli 2016 aerou por umas duas horas e tanto - esse não perco mais o serviço 😁 - e rancou (sic) um Uau de alguém quando servido. Claro, é muito superior a sul-americanos na faixa de preço, e ainda casa bem com um bifim. Basta acompanhar as demais postagens - até recentes - no vínculo acima para conferir. Ante a surpresa delas com um vinho europeu - na média bebem mais sul americanos - puxei da geladeira um Cedro do Noval 2015, que havia aberto no almoço. Foi minha terceira garrafa nessa safra, todas muito boas, todas compradas a bom preço no início da pandemia e ficaram guardadas um tempo. É sempre uma aposta certa; rico em frutas, especiaria, chocolate/café, boa boca - acidez, corpo e permanência, para sua faixa de preço, claro. 

Sobremesa

A sobremesa ficou por conta da Carol, que em sua primeira tentativa de finalizá-la no maçarico quase pôs fogo na casa de seus pais 😲. Nem tudo é perfeito... mas na hora ela performou (sic) magistralmente, e tudo funcionou muito bem. O creme brulée estava muito apetitoso, e combinou bem com um Sauternes do Château Doisy-Védrines 2016, que também virou um pouco carne de vaca por aqui. Sua acidez compensou bem o dulçor da sobremesa, e formaram um bom par. Preciso comentar ainda que o almoço contou com a presença do Armando e da Orlinda. Italiano da gema (rs), o Armando não vê hora de retornar ao seu amado Piemonte natal. Se ficarei um pouco triste quando ele partir, por outro lado adorarei visitá-lo lá na terra do Barolo, aproveitando de algum espaço debaixo da escada que ele possa me oferecer. Assim poderei tentar trazer algumas garrafinhas a mais na mala, economizando na hospedagem... 😝

Saturday, November 5, 2022

Escarnecendo bolsonésio

Introito


Volta e meia róllywood brinda-nos com filmes cujos títulos trazem um verbo e o personagem. Finding Forrester (2000) aborda o improvável relacionamento intelectual entre um jovem estudante do equivalente ao nosso segundo grau e um escritor ganhador do Pulitzer em sua primeira obra após este isolar-se no ostracismo por mais de 20 anos em plena cidade grande, mantendo contato somente com seu agente literário. Copying Beethoven (2006) narra de maneira fictícia a semana que precede a primeira execução da Nona Sinfonia conduzida pelo Ludwig em pessoa, às voltas com a surdez adiantada e seu pouco respeito pela assistente designada para auxiliá-lo na tarefa. Assim, de saída explico o título da postagem e pago respeito ao atropelamento acidental do minto pelo seu oponente. Sim, acidental. Podemos dizer que bolsonésio perdeu para a própria incompetência - sequer conseguiu o empate... 😣 - o que torna a situação mais feia que um Goytacaz e Madureira em dia de chuva com neblina. Possuidor da máquina pública - assim como o Andrada na prefeitura de São Paulo, espirrado em primeiro turno do cargo - e da impressora de cédulas, não conseguiu compensar a avalanche de asneiras com as quais soterrou os brasileiros nos últimos três anos e meio. A estas alturas muito já se falou sobre sua derrota, mas minha reflexão parece ter passado despercebida nos meios que acompanho. Aliás, o crédito da figura de abertura está aqui.

Vamos ao meu ponto. Nossos pseudo-líderes - ou pior, nossos pretensos pseudo-estadistas - parecem cometer um erro a cada passo na hora de governar. Os PSDBelhos poderiam ter-nos livrado dos PTlhos quando estourou o mensalão. Acharam que poderiam vencer nas urnas, distantes dois anos. Nabo. Lulalelé acreditou ter ascendência sobre a anta de asas (sic) que escolheu para sucedê-lo; ela esquentaria a cadeira para sua volta, após quatro anos. Nabo. A idiotia da Suprema Comandanta (sic) não permitiu-lha (sic) ver o buraco que cavou, nem perceber ter-se enfiado lá dentro e estar lá de baixo trazendo a terra sobre si mesma com uma enxada. Nabo. Do mesmo modo e imerso na mais pura ilusão da realidade, Bolsonésio acreditou-se o Gênio da Nação ao reviver lulalelé, quando centraria sobre si mesmo as esperanças e aspirações dos brasileiros de bem em ver-se livres da quadrilha a muita custa expulsa do governo em situação política ímpar na nossa história. Ganhou o quê? Nabo! Aliás, percebeu, ó leitor, que o nabo rolou para toda essa gente mas no final o que sobrou para nós, o populacho, foi a melancia? Ao final, bolsonésio desinformou, mentiu, trapaceou ao renegar promessas de campanha e conspirou contra as instituições. Foi hábil em manipular uma parcela da população, crente em suas habilidades inexistentes. Bem, a vocação de iludir seu gado ao melhor estilo do flautista de Hamelin não pode ser contestada... Lulalelé seguramente não cometerá esse erro grotesco; talvez não seja honesto, mas seguramente é esperto. Fonte da imagem aqui.

Ao fim, de todos os cenários de sua derrota, concedeu-nos o destino o que fosse mais benéfico: perdeu lá por 1% - bem feito! - o que coloca lulalelé numa posição de alerta vermelho desde já. As mesmas cobras que ele está reunindo em seu covil de comparsas não hesitarão em atirá-lo às águias se o governo começar a fazer água. Quem (sobre)viver, verá...

Comemoração de aniversário I

Por ocasião de meu aniversário (31), reuni alguns grupos antes e depois da data. Este evento aconteceu com a confraria Paduca e respectivas: Pa(ulão) na foto, Eva, Dona Cláudia, este Enochato e Du(ílio). Recebi-os com o Bacio Della Luna Cuvée Brut. Com seu jeitinho cítrico (rs!) encantou a todos. É fácil de beber, apesar de 'brut' não é nervosão, tem um toque quase doce com acidez média e um pouco de persistência, conjunto que agrada sem fazer força. Infelizmente está esgotado na importadora - Enoeventos - mas é um produto que vale a pena manter na memória para futuras compras. Claro que o senso crítico - e o Wine Searcher - são ferramentas obrigatórias quando o assunto é comprar vinhos. 

Depois servi duas garrafas às cegas. Foi divertido ver o Duílio fazendo as contas (rs), descartando o serviço de um vinho melhor em primeiro lugar e dessa maneira concluindo que o segundo era melhor. Já o Paulão foi categórico e disse preferir o segundo, por mais complexo. Cedro do Noval (2016) é um vinho que comprei a rodo em várias safras, e venho bebendo uma ou outra garrafa para deleite próprio ou para mostrar para as pessoas. Em 'promo' (próximo a R$ 100,00) constitui-se em ótima opção; no preço regular (R$ 160,00) é apenas mais uma tubaronice dessas que inundam o mercado. Recuse. O Cedrinho é sempre aquilo: fruta generosa, especiaria e algum outro toque constituindo bom nariz; boa acidez, taninos presentes e já arredondados, uma persistência e final até legais, para um vinho de entrada na faixa de USD 10,00. Quer algo melhor? Precisa dobrar a faixa de preço (lá), aí encontra fácil. Depois chegou um Quinta do Noval Touriga Nacional 2017. É assim: no princípio... no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... não! 😲, isso é João (1:1); estamos no vinho... no princípio os Noval começavam com o valente Cedro e pulava para o Quinta do Noval, que não trazia no rótulo 'Reserva' mas era considerado como tal. Depois é que o 'Reserva' apareceu no rótulo. Suspeito - não sou especialista - que quando apareceu o Reserva chegou também a linha intermediária Quinta do Noval (não reserva), mas só vim a conhecer depois. Estagia 10 meses em carvalho, assim como o Cedro, contra 12 meses dos Reserva. Mas voltando, o Touriga Nacional tem muito mais corpo e nariz mais marcante e poderoso, com uma massa de frutas um tanto misturada e 'dura'. Está fechado, e precisa de mais algum tempo em garrafa, embora apresente suas qualidades. Boca com tanino um tanto amarrado, ótima acidez, traço da madeira mais marcado, álcool nem tão saliente, constitui um conjunto com várias arestas, indicativo final de não estar pronto. O Wine Searcher (consultei antes!) indica como janela de beberagem (sic! rs!) 2021-2036. O '36 não sei, mas esse '21 está claramente errado... Tá, bocas-tortas podem bebê-lo e sair dizendo que é um vinho potente. Engana bem. Mas se você tem algum Noval dessa linha, nessa safra (que aliás é excelente!), fie-se neste Enochato e segure mais alguns anos. Se desafiar minha opinião, bem... deixe a sua aqui; agradeço antecipadamente. É um vinho de USD 40,00 nos EUA, embora esteja a cerca de USD 22 em alguns países europeus (não encontrei essa safra em Portugal). Dá uma boa diferença ao cruzar o Atlântico... Mas considerando o preço em Portugal, é aquilo: dobrou o valor (compare com o Cedro), melhorou em muito a qualidade. Aqui, se encontrar em 'promo' a R$ 160,00, considerando USD 22,00 x R$ 5,00 = R$ 110,00 o preço 'lá', percebemos que vale a pena.





Thursday, April 22, 2021

Os caminhos de Santiago e as mandracarias do Gustavo

Introito

   Ia rolar outra degustação online da Enoeventos, um encontro muito divertido e com transmissão via Youtube promovido com alguma frequência pela importadora. Com sede no Rio de Janeiro, ela tem parceria com um restaurante que entrega os pratos para um jantar harmonizado na cidade e em Niterói, o que oferece boa oportunidade para os cariocas mas deixa os demais expectadores um tanto a ver navios. Desta vez, embora já próximo à data, mostrei a proposta para o Gustavo, cozinheiro e proprietário do Bistrô Graxaim. Ao olhar o cardápio, ele encarou-me com um olhar especialmente artimanhoso enquanto comentava:
   - Croquetas de queijo em caldas... cogumelos recheados... - só faltou terminar com 'asas de morcego' e 'orelhas de gato preto' para que a invocação de alguma poção mágica fizessem seus olhos brilharem ainda mais...
   Claro, ele comprou o desafio (e seis garrafas de vinho direto do importador) e acionou sua clientela mais próxima; com apenas uma semana para preparar e divulgar tudo, não poderia arriscar um pedido grande.

O evento e os pratos

   O evento foi bem programado: quatro opções de prato principal e sobremesa. Ficamos só com prato... A transmissão durou quase três horas imersas em muita informação e diversão (está aqui). Escolhido um prato um tanto sofisticado que levaria queijo Cabrales, indisponível na região, o Gustavo contatou o chef carioca para trocar algumas ideias de preparo. E a conversa mostrou-se frutífera...

A proposta original era composta de cogumelos recheados com creme de camarões e páprica, e croquetas de queijo “Cabrales” e calda de marmelo. Nos cogumelos, ele usou também shitake e um toque de angostura no preparo dos camarões. Nas croquetas, em vez da calda de marmelo vieram peras laminadas e caramelizadas com maple syrup, e em vez do queijo Cabrales, uma ricota enriquecida com gorgonzola. Não sei se o safado fez algum teste antes do dia fatal - ele jurou que não! - mas os quitutes estavam de-li-ci-o-sos. Preciso comentar que aprecio mesmo é um bifão - cozinheiro de um prato só, faço apenas medalhão com molho gorgo - mas quando um prato mais elaborado contém uma diversidade de sensações como as que foram apresentadas, ele de fato deixa o bifão falando sozinho no lado escuro da Lua. Impossível deixar de comentar ainda a ousadia em se combinar um sabor agridoce como calda de marmelo/peras caramelizadas com um vinho tinto. Fiquei tão surpreendido quanto agradecido pela oportunidade... a harmonização foi surpreendente e ficou clara a ótima qualidade da proposta. Lembro-me de apenas uma combinação tão feliz quanto, que foi a bruschetta do Bart 'Chez Marcel' (vão figo, mel, rúcula, Parma e queijo Brie), acompanhada de Borgonha... do bom, claro, é outra experimentação inesquecível.

Bem, combinei com o Gustavo de chegar às 18:30. Para não ficara apenas na conversa (rs), levei um espumante Bacio della Luna Spumante Blanc de Blancs Millesimato Extra Dry (também comercializado pela Enoeventos). Sem aguardar muito o início online, começamos a beliscar algo às 19:30, horário da introdução - recomendo que o leitor assista-a, usando o endereço acima. O Gustavo caprichou nas porções. Vai que experimentamos com o espumante (comentado anteriormente aqui), que surpreendentemente casou bem com ambos. "Se você tem dúvida sobre uma combinação, use espumante; se não ficar bom, também não dirá muito errado" - comentou o Gustavo, à guisa de piada. Servido o vinho principal, nova surpresa: pronto para beber, Baron de Ley Gran Reserva 2013, Rioja 100% Tempranillo, chegou com bom nariz, fruta bem vermelha, café (chocolate? - rs!), couro... o corpo é médio - e olha lá; o Gustavo achou que seria um vinho leve, não estaria tão errado na interpretação - mas... desde quando isso é crime? (rs!). Não é o que eu esperaria de um Gran Reserva espanhol; esperaria mais madeira - estava muito equilibrada, o próprio Gustavo chamou atenção logo de cara!, e ela, a acidez, tinha presença e era muito elegante. Taninos já bem harmonizados, álcool pouco aparente, um travo levemente doce sugerindo mais frutas. Bom final, boa persistência, é um vinho de USD 25,00 lá fora e está em 'promo' aqui por R$ 275,00. Vejamos... R$ 25 x USD 6,00 = R$ 150,00 x 2 = R$ 300,00. Ou seja, a preço de dóla cheio seu preço 'cá' está menos de 2x o preço 'lá'. Se estivesse o dobro do preço para um dóla de R$ 4,50, então seria um pechincha. Não é; é apenas um ótimo preço ao dóla atual. Diferente do que energúmenos pensam ser razoável praticar, com preços 3x, 4x o preço lá de fora. Traduzindo, em outro importador poderia custar R$ 500,00... então já sabe: avisei! (rs)
   Ruim de conta (😒), achei que a quantidade de bebida daria a conta... toca correr pra casa no meio do evento e pegar uma garrafa do Pago de los Capellanes Joven 2019, também vendido pela Enoeventos. Outro 100% Tempranillo desta vez de Ribera del Duero, apresentou boa fruta vermelha no nariz. É um vinho de consumo fácil, pois os taninos não pegam muito. Tem boa acidez, álcool contido, levemente encorpado, denotando alguma especiaria. Combinou com os pratos, mas não tão bem. O final é bom, persistência razoável, bom conjunto para a faixa de preço. Acho que o erro foi não ousar (rs!) que beberíamos tanto; deveríamos, claro, começar por ele. É um vinho de preço médio USD 15,00 x R$ 6,00 = R$ 90,00 'lá' e R$ 172,00 'cá'. Levemente menor que 2x, portanto. Taí uma importadora que mostra coerência nos preços de seus produtos. O Enochato gostou...

Sunday, July 18, 2021

Noivas de Baco em movimento

Introito: uma sociedade tentando voltar ao normal

- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda,
como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição
humana.
Machado de Assis
A Igreja do Diabo

   Mais de um ano isolados - não em confinamento absoluto, porque, como relata Machado em A Igreja de Diabo, sempre tendemos a algum deslize não importa qual seja nossa crença. Aos poucos vamos emergindo do solo como marmotas acordando de um inverno mais longo do que o usual. Mãos espalmadas esfregando os olhos, começamos a nos (re)acostumar à luz do sol (às antigas e novas amizades) e seguimos (re)desfrutando velhos hábitos. O leitor desavisado não tome nossa atitude como desobediência à prática do distanciamento social ou como incentivo à aglomeração. Promovemos um encontro em ambiente quase completamente aberto (não foi em uma sala fechada), com distanciamento (na maior parte do tempo) e os devidos cuidados nos cumprimentos e aproximação pessoal. Todo mundo prendeu a respiração pelos três minutos em que ficamos mais próximos para um congraçamento e pose para fotos. Os presentes atestam essa verdade. Ah, como se fosse necessário! Ora, este Enochato sempre provou, comprovou e re-provou (sic! rs!) todas as suas afirmações no blog; portanto tem moral absoluta - absolutíssima! - para assegurar a veracidade completa de seu relato sem o devido registro fotográfico ou fílmico. Essa tem sido uma máxima bolonésia de uns tempos para cá, 'provar' algo. O pior é que estão surgindo gravações aqui e ali, provando justamente o que se tenta esconder, e essa turma tem ficado cada vez mais acuada... 😓. Falemos de vinho...

Degustação de burgue (sic! rs!)

Tinha ficado para trás a proposta de uma harmonização de burgue (sic) e vinho, e resolvemos retomá-la. A ideia partira do Gustavo, chef do Bistrô Graxaim, em algum momento do ano passado. Com o recrudescimento da pandemia ela adormeceu, para ganhar asas na semana passada. Fiquei entusiasmado - como tenho relatado - com a proposta de harmonização. Algumas das quais participei, promovidas por Enoeventos, mostraram como belas combinações podem ser realizadas com vinhos de preços relativamente acessíveis (cerca de R$ 100,00), com pratos relativamente sofisticados (camarão) e alcançar resultados tão surpreendentes quanto sofisticados. Claro que uma degustação não tem o mesmo propósito de uma orgia baconiana como aquelas que promovemos em nossos encontros... daí que sugeri - ideia prontamente aceita pelo Gustavo - que ele conclamasse os devotos a comparecerem com outras garrafas na mão, para o segundo tempo. Ideia imediatamente aceita por todos, desnecessário dizer...

O evento

Terno, sapatos pretos, gravata (eu), ou fraques e cartolas para os homens, e longos, plumas e paetês para as madames, lá fomos em trajes de gala para o evento (agora tenho provas! Vejam a foto ao lado! Em sentido horário, começando pela esquerda, Renata - de aniversariante -, Dayane, Rita, Luciana, Eduardo, Enochato, Dirlene e Isabela). Brindamos o reencontro com um espumante Blanc de Blancs Bacio Della Luna 2019, já comentado aqui, e portanto pouparei o leitor de mais lenga-lenga. Enquanto colocávamos a conversa em dia, resolvemos abrir nossos vinhos e deixamos o Gustavo aguardando a ordem de hamburgar (sic) todo mundo. Talvez tenha sido um grande equívoco... 

Vinhos 'auxiliares'

Havia bebido um exemplar dele na semana anterior... Do qual gostei, apontados e respeitados os defeitos. Achei que outras pessoas também curtiriam conhecê-lo, e eis que a oportunidade apareceu em seguida: o burgue! Harmonização ainda é um mistério para mim. De um lado, temos tanino, acidez, álcool e açúcar (espinha dorsal do vinho) combatendo contra (ou a favor...) gordura, sal, acidez e açúcar (ei, eles aí de novo!) pelo lado da comida. Tecnicamente não sei quais outras características básicas a comida pode ter, que (sic) não sou cozinheiro, mas quatro a quatro parece bom. Bem, burgue não tem fama de ser uma carne com muita gordura (como uma picanha... tá, tem burgue de picanha, mas o Gustavo adiantara que o blend exclusivo dele não segue por aí); é uma carne de gordura média. Então levei um vinho de copo e acidez médias, o já comentado Juan Gil Etiqueta Plata 2018. 

A Dirlene levou um Primitivo de Manduria '1932' (ou algo assim - rs!), da cooperativa Produttori di Manduria. É uma turma que parece ter começa nessa data, veja melhor o sítio deles, vinho que recebeu minha imediata torcida de nariz e reprimenda enfática, em tom professoral (🧐). Não gosto(ava) de Primitivos. São vinhos doces (meio secos, na verdade) demais para meu gosto. Endosso a renormalização feita por alguém sobre o nome de outro produtor da região para Luccaralho Primitivo di Manduria, porque esse é enjoativo de fato. Bem, já ouvira dizer sobre a existência de Primitivos secos. Tanto quanto ouvi as estórias do ET de Varginha, do Saci-Pererê, da Mula Sem Cabeça e outras; uma lenda a mais não me ocuparia espaço por entre os neurônios - não é fato importante o suficiente para estar neles, fica entre mesmo. Mas eis que... encontro um Primitivo seco! Ora, foi experimentar e voltar-me para a Dirlene, que ainda compadecia-se de minhas críticas, refazendo minha posição. Não tenho problema em assumir meus erros e reduzir meus preconceitos a pós-conceitos. Um Primitivo seco, de corpo médio, boa fruta, acidez média, algo ligeiro no final mas ainda assim certa elegância. PENITENZIAGITE! Esta é e sempre será a posição do blog, sem medo de reconhecer os erros nem relutância em refazer posições. Tenha-se o registro. E aprendendo sempre. Não estou lembrado (🥴) de haver outro vinho na estória. Se houve, por favor, corrijam-me. O Eduardo ficou nas fotos, mas engoliu (rs! sic!) pelo menos uma delas, pois recebi apenas uma dentre os vinhos da degustação e não estou lembrado se mais alguém levou vinho. Quer dizer, quase certo de que a Isabela levou... mas não lembro-me qual...
 (batendo palmas): - Alô alô, Edu, tem que beber menos! 😂🤣

Vinhos principais

Que realizar a força que tem uma paixão
Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade pra dizer mais sim que não
Lulu Santos

Os vinhos principais foram fornecidos pela Vinho & Ponto de São Carlos. Foram (supostamente) sugeridos como harmonização para os burgue (sic) idealizados pelo chef Gustavo. A proposta foi divulgada com antecedência. Primeiro burguer: Blend exclusivo Graxaim, no pão de brioche, com maçãs caramelizadas, bacon e creme de queijo brie. Guarnição: onion rings (cebolas empanadas) Vinho para harmonizar: Korta Selección Especial Grosse Mérille 2019. Segundo burguer: Blend exclusivo Graxaim, no pão de brioche, queijo reino, bacon artesanal feito na casa, cebola caramelizada, alface e tomate. Guarnição: batatas rústicas artesanais Vinho para harmonizar: Irurtia Tannat Reserva 2015. Bem, pretendia fazer uma postagem baseada na média entre as opiniões dos presentes. Mas considerei que este espaço sempre teve personalidade e senso crítico mais do que suficientes para prescindir disso. Não é que evitarei comentar as manifestações de outros. É que não hesitarei um instante em exercer o senso crítico deixando de lado a menor possibilidade de dizerem que escondi-me na opinião dos outros. Então é assim: Vinho & Ponto entrou em uma parceria de degustação e não enviou um representante ao evento. Uma falha (falha, para deixar barato). Sobre Korta Selección Especial Grosse Mérille 2019, vejamos o que diz o sítio da V&P: Em boca é leve, delicado e seus taninos são muito suave (sic!) no paladar, tem excelente acidez e doçura equilibrada, seu final de boca é ligeiro e fresco. fantástico vinho para o verão, e servir a uma temperatura mais baixa (mais um sic pelo conjunto do parágrafo). Tá. 'excelente acidez' com 'final de boca ligeiro'. É uma contradição. A boa acidez é quem garante quase que sozinha um bom final. Portanto apenas uma das declarações é verdadeira. E olha não é aquela sobre a acidez... é excessivamente ligeiro, desbalanceado no açúcar e a declaração mais verdadeira (sobre a acidez) está bem errada! Na verdade não apresenta acidez digna do nome,  e bota ligeiro para falar do final.
 (batendo palmas): - Alô alô, V&P (franquia 'central'), tem sommelier por aí? Sommerdiers (sic) tem um monte no mercado! Estão aceitando currículo? Um pelo outro, posso mandar o meu! Para trabalhar 20 minutos por dia. Nessa média ainda sou melhor do que o que vocês têm ai (se é que têm)! E olha que nem sou lá grande coisa...
   Ainda segundo o sítio do importador, a harmonização se faz com "Massas, Carne de Porco e Queijos". Não parece indicado para carne bovina mais magra, embora não consiga traçar uma correlação entre 'carne bovina mais magra' (do burgue) e 'carne de porco'. O fato é que não casou. E não é que passou perto; sequer tirou fina.
   O Irurtia Tannat Reserva 2015 não está mais disponível no sítio do importador, então não peguei suas notas de degustação. Gostaria de vê-las... seria outra piada engarrafa? (sic) Também não casou com o burgue. De forma alguma é um vinho ruim (o Korta é!) - para o padrão sul-americano. Mas a tal da acidez também é baixa, principalmente após já termos provado dos europeus. 
   Dando o braço a torcer: a degustação de vinhos auxiliares com acidez mais presente (embora apenas 'média') poderia comprometer os vinhos principais? Talvez. Mas o que classifico de acidez média (europeus) bate de frente com a declaração do sítio do importador, excelente acidez(!) para um dos vinhos principais (o Korta). Algo está evidentemente muito errado. E parece que não é a opinião deste Enochato! Se o sítio do importador estivesse correto (e vinho fosse aquilo mesmo que se descreve), algo de 'excelente acidez' deveria bater o que eu sabia (no caso do meu Juan Gil) ser de média acidez.

Conclusão

   Harmonização não é um assunto fácil. É fascinante, mas exige atenção e seriedade. Pode não dar muito certo, o que é um risco inerente às possíveis interpretações do prato e do vinho. Mas é uma mácula quando dá tão errado. A crítica não fica apenas à V&P São Carlos. O chef Gustavo deveria ter maior... maior... maior feeling. E, tendo-o, deveria rechaçar a(s) indicação(ções) oferecidas. Não o fazendo, entra na fogueira também. Onde está o fósforo? A gasolina, eu já trouxe. 😈
   Melhor sorte a todos da próxima vez.