Friday, January 26, 2024

Uma comparação bem na medida

Introito

O preço para tirar os PTlhos foi bolsonésio.
O preço para tirar bolsonésio foram os PTelhos.
Oenochato

   A programação foi para um encontro corriqueiro - recomendei à Liu um branquinho nojento - e ela propôs-se obedecer à risca. Até enviou as fotos de alguns possíveis candidatos ao abate. Sugeri uma determinada garrafa - há tempos não experimentava daquela cepa... E de repente tudo foi pelos ares. Culpa da Elvira, mas vamos por partes. Em postagem recente, escrevi assim:

Vinhos bons são vinhos bons, e quando eles são realmente bons, uns defendem-se bem contra outros. O bebedor pode tocar um Brunellão, alcoólico e taninoso (sic! rs!) pra cima de um Borgonhão; este vai defender-se com sua acidez excepcional, e não cairá nesse bom combate. Quero dizer: vinhos diferentes podem ser comparados e grandes vinhos não se atropelam. Se um Brunellão atropelar outro, então o segundo não era um Brunellão, era apenas um Brunello - ou um Brunellinho. Um vinho só atropela outro se for melhor. 

   A frase surgiu no contexto do confronto entre os argentinos Catena Alta Cabernet Sauvignon e Gran Enemigo Cabernet Franc de um lado, e Château Magence e Château Meylet do outro. O atropelamento de Gran Enemigo já havia sido notado anteriormente quando um Syrah português bateu-o sem dificuldade e outro, um teco melhor, superou-o de maneira quase humilhante e não apenas na opinião deste Enochato. Sim, podemos confrontar vinhos de uvas diferentes porque a cepa em si não é o objeto em análise, mas o resultado final de sua vinificação. Tentando ser ainda mais justo, em segunda aproximação (digo, segundo evento provando do mesmo vinho, Gran Enemigo) procurei um exemplar com maior aderência à cepa da garrafa sob comparação - Cabernet Franc. Novamente Gran Enemigo caiu sem ter qualquer chance contra um oponente claramente superior. Então, invocando minha reflexão destacada acima, a questão que resta em aberto é: bons vinhos, mesmo sendo bem diferentes, podem travar um bom combate?

   Aconteceu da Elvira chegar em nosso encontro com um Barolo na bolsa. E não era pouca coisa, um Fontanafredda Vigna La Rosa, proveniente da vinha mais histórica e representativa de Fontanafredda, situada no coração de Fontanafredda MGA. Um parêntese: o sistema MGA (Menzione Geografica Aggiuntiva) foi introduzido em 2010 e refere-se a uma área específica oficialmente demarcada dentro da zona de produção de Barolo DOCG. Podemos dizer que uma MGA é o equivalente ao Cru ou Climat franceses. Estão reconhecidas 170 MGAs, com superposições, gerando as ditas áreas comunais, para bagunçar nosso entendimento. Mais informações aqui, de onde, aliás retirei a figura abaixo. Esse mapa mostra as MGA's distribuídas pela região de Barolo, com destaque para a localização do produtor Fontanafredda, à direita.


   Voltando do parêntese: seria uma ótima oportunidade para por minha teoria à prova; fomos para a adega à procura de algum bom oponente. Eu havia sugerido um embate entre Brunello e Borgonha, não? Barolo também começa com 'B' 😂🤣... é conhecido como um vinho tânico, de alta acidez e sempre envelhecido em carvalho. Os Borgonhas tendem a ser mais delicados, igualmente com alta acidez e eventualmente passando por barrica, embora por menos tempo. Contudo, a delicadeza fica de lado ao desfrutarmos de exemplares de Pommard ou Corton... é quando este Enochato gosta mais... 😏 então, para ir pra cima dele (sic!) com tudo, até tentar atropelar o oponente, pensei. E fui pegar um Borgonha legal...

Enquanto os tintos respiravam iniciamos com o branquinho nojento da Liu, o Temático Joven Torrontés, monovarietal da Bodega Foster Lorca. Não entendi esse 'Joven' como parte do nome... estariam tentando copiar a legislação espanhola? O vinho Joven normalmente não passa por barrica - pode estagiar até seis meses - e tem por característica alguma simplicidade e riqueza da fruta. Temático vai nessa vertente, com notas cítricas e um tanto mais complexo no nariz, pecando por alguma falta de acidez na boca. Note, a acidez é mais típica das cepas brancas, e Temático não a alcança bem. É fácil de beber, mas não acredito combinar com comida japonesa ou asiática, como sugere sua ficha técnica. Olha lá, com um bolinho de arroz - isso é comida asiática? Minha mãe, filha de italianos, fazia... Lá pela metade dele, pusemos os tintos n'água gelada. 

O Enochato gosta de Borgonhas mais pegados, certo? Venha um Pommard para o campo de batalha. Auxey Duresses é uma comuna de Côte de Beaune; tem nove Climats classificados como Premier Cru e os demais vinhedos recebem a denominação genérica AoC. Como em toda a região, o nome do produtor conta muito; Domaine Comte Armand está sob controle da família desde os idos de 1800, e neste caso antiguidade e qualidade andam de mãos dadas. Postos à prova, Fontanafredda chegou com nariz até redondo - temia precisar de mais ar... - oferecendo notas de frutas escuras, chocolate e mais; boca especiada, taninos quentes, ótima acidez, álcool discreto, pouco dulçor e corpo médio. Boa persistência e final. Um belíssimo conjunto para definir a chamada estrutura em um vinho: estava tudo lá, sem sobrar nem faltar. Mas tinha um Borgonha no meio do caminho... Auxey Duresses aportou nariz com boa fruta, toques terrosos e outras notas; boca com mais fruta, mineral, excelente acidez contrapondo um pouco de açúcar, taninos pegados, corpo médio a encorpado, ótimos final e persistência. O espetáculo ficou por conta da Elvira, tentando entendê-los a ponto de definir quem poderia ser melhor. Ela elogiava o tanino de um e rendia-se à acidez do outro; avaliava a complexidade de ambos, para conferir-lhes um empate... comparava o final e a persistência para não saber exatamente qual deles eleger como predileto. Lembro ao leitor desatento: a Elvira foi quem completamente às cegas tomou o Gran Enemigo por similar ao Meylet, ressaltando a inferioridade do primeiro, enquanto o safado do Parque (sic) precisou compará-lo ao Château Lafleur. Fontanafredda custa por volta de USD 115,00 lá fora, enquanto Auxey Duresses fica encostado nos USD 75,00; a diferença dele para o Premier Cru do mesmo produtor é de apenas USD 15,00, atestando sua ótima qualidade para um AoC. Parece que acertei na proposta e foi delicioso tirar a prova...
   Os vinhos do Comte Armand são representados aqui pela De la Crox, normalmente com ótimo preço. Infelizmente no momento só está disponível o ícone Clos des Epeneaux, um Monopólio da família vendido aqui a cerca de R$ 1.800,00. Sendo um vinho de USD 200,00 lá fora, vemos que dá menos de 2x, apesar da montanha de dinheiro necessária para sua aquisição.

   Esta postagem foi tocada a um final de Korem 2015, da Argiolas, produtor da Sardenha, acompanhado dos queijos Diadorim e Iracema, de um produtor da região, a Vivedouro, de Ribeirão Bonito. Diadorim, com corpo mais mole envolto em casca mofada, casou um pouco melhor, mas queijos não são adequados para um Korem. A Liu gentilmente trouxe-me uma amostra de ambos depois de ter visitado o produtor.


Os valores dos vinhos lá fora





Tuesday, January 16, 2024

O segundo dia do Chambertin e mais

Introito

Feliz com o início do ano, banho tomado - de ontem, último de '23 - vamos a algumas experiências atrasadas cuja descrição será movida ao segundo dia do Chambertin. Manteve muito bem a força no nariz, mas da fruta antes disparada na frente aconteceu um de dois: ou ela caiu um pouco ou algo que possivelmente já estava lá antes subiu e passou a competir com ela. O chato foi não conseguir distinguir, mas estava lá, diferente, algo como couro, mas não era... a acidez, maravilhosa, persistiu: passeando com ele na boca, nota-se a provocação nas laterais da língua, ao fundo, e a salivação aumenta incontrolavelmente. É bem seco; o açúcar quase não é percebido, sobrepujado pela acidez. O tanino continua pegado, e os 13,5% de álcool pouco aparecem, bem integrados. A permanência é realmente boa, agradável, longa, longa de verdade, não aquelas mentiras contadas para descrever sul americanos ou europeus de 5,00€ e usá-los na definição de milissegundos. Ter a oportunidade com comprar esse vinho nos tempos do dóla a 2,X foi gratificante, e contar com a paciência em mantê-lo mostrou a devida recompensa.

Outras degustações

Nunca sisqueça (sic! rs!), estamos no brasio. Terra onde tubarões caminham (sic) pelo serrado, pela caatinga e pela Mata Atlântica, acompanhados de seu parceiro e mentor, o capiroto em pessoa, ladeados por um séquito de lacaios soprando flautas amaldiçoadas de onde saem sofríveis notas em tenebrosas melodias. Contra eles, clamemos pela força do Senhor, pelo símbolo da Cruz, para a crueza do Verbo a exorcizar e para a potência da oração, dadas pela Santa Internet em geral e pelo Wine Searcher em particular. Invoque-os sempre, sem medo e com fé; sua alma pode não notar a diferença, mas seu bolso... Assim, acompanhemos em três pinceladas certeiras o esboço do quadro do comprador desarmado de informação em terras canarinhas (preço cá sem 'promo', preço cá em 'promo' e preço lá). Aconteceu de Mário estar fora, da Débora estar ocupada e quem se reuniu, bebeu; a Liu veio conhecer a adega deste Enochato, e maravilhar-se... 😂
   Ela talvez tenha se enganado no valor pago pelo seu vinho (servido às cegas) em loja da cidade. Não deve ter sido próximo a R$ 200,00, como ela disse. Apenas não duvido; só acho que ela se enganou ao pegar essa garrafa junto de outras. Vamos lá.


   Para proporcionar à Liu uma boa experiência, escalei um velho chapa, o Cedro do Noval 2016, enquanto ela chegou com seu Château C?. Sim, a foto não ajudou tanto, e deu (algum) trabalho encontrar o vinho, pois já havia dispensando a garrafa. Château Calet 2019 provém de Blaye, uma apelação de Bordeaux situada em torno da cidade homônima, com cepas predominantemente Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, com notas de frutas, boca com acidez baixa a (talvez) média, taninos leves, final um pouco rápido. Caro, para R$ 200,00. Passei na loja uns dias depois, para conferir... estava algo como "de R$ 115,00 por R$ 99,00". Pela 'promo' abaixo, R$ 200,00 no interiorzão não é difícil, pois seu preço inicial seria R$ 149,00:

   Mas de repente encontramos 'promos' melhores: praticamente R$ 80,00, com R$ 70,00 na caixa de meia dúzia:

   Então procuremos seu valor 'lá': 6,90€...

... ou nem tanto...


...e se está à venda lá por 4,50€, com algum lucro para o lojista, vem a pergunta de sempre: saiu de lá (preço FOB) por quanto? Bem, 4,50€ perfazem R$ 25,00. R$ 200tão dá 8x. O R$ 150,00 do preço aferido sem 'promo' dá 6x. E R$ 70,00 na caixa de meia dúzia dá perigosos (quase) 3x. E ainda precisa repetir um vinho simples outras 5 vezes. Haja confrade pra desovar, heim? Não faria isso nem com a Paduca... 😣 Por sua vez o Cedrinho mostrou as qualidades já conhecidas pelo leitor, da fruta inicial ao bom final; garrafas compradas por cerca de R$ 115,00 dão prova do quanto a boa compra preserva nossos suados Reais e nos provê vinhos melhores e bem mais complexos. O paladar agradece. Não quer gastar tempo pesquisando vinhos? Acompanhe os blogs de sua confiança 🤣... embora creia mesmo ser melhor você beber cerveja... 🙄 Ao fim e ao cabo, Cedrinho levou Château Calet no peito, sem muita chance para o francês. Claro, a diferença de preço entre eles (2x) manda Cedrinho bater o segundo com franca margem. Ele apenas faz isso... Saúde, Liu!

A volta das sumidas...

Estes dias recebo uma ligação da Isabela, amiga de outras taças. Ela tinha um vinho cujo primeiro exemplar fora comprado por indicação do Akira. Gostara tanto que não tivera dúvida em voltar na loja e arrematar a segunda garrafa - a despeito do preço. Queria beber aquela com a Bete e D. Neusa, pessoas com as quais nos reunimos no passado, para celebrar a memória do Akira. Os comentários sobre o primeiro exemplar não foram postados - época de quando o blog andava meio finado... de qualquer maneira, foi legal sentar-me novamente com com todas elas e recordar dos momentos com nosso amigo. Na foto, Elizabeth, o Enochato, D. Neusa e Isabela.

Escultor é produzido pela Monte do Pintor/Sociedade Agrícola da Sossega, baseada no Alentejo. Produz quatro vinhos: Pequeno Pintor, Monte do Pintor, Monte do Pintor Reserva e Escultor, seu ícone e corte Trincadeira, Aragonês e Petit Verdot. O encontro aconteceu no final do ano passado, e não anotei as notas dos vinhos. Escultor 2012 está em ótimo momento para ser degustado: os taninos estão amaciados, tem boa acidez, do nariz saltam frutas e outras notas. Apresenta boa permanência e final, todas as características de um bom vinho. Se puder, experimente. Cuidado com a safra: atualmente disponível na 2017, talvez mereça alguma guarda. Está caro lá fora - não creio que valha 70,00€. Valendo - mas não vale... - seu preço aqui está barato: encontramos até por R$ 400,00. Muga Reserva 2018, devidamente aerado por cerca de 4 horas, veio com muita fruta e mais notas no nariz, boas acidez e persistência, e ótimo final: um conjunto adequado para desafiar Escultor, e digo apenas que o páreo foi bom. Tivemos ainda um argentino, o Trivento Malbec Reserva 2020. É um vinho mais ligeiro, deixando a desejar principalmente pela falta de acidez. Nariz com fruta bem viva - é novo - não fez feio, mas ficou bem aquém dos demais: final curto e sem muito diferencial, embora não esteja desalinhado quando comparado a similares sul-americanos. Certo, custa mesmo uma fração dos demais, mas reputo não dar no couro contra europeus na faixa de preço. Só não conte comigo para fazer essa comparação...

Monday, January 1, 2024

Comemoração da Paduca e um Borgonha de final de ano

Introito

Final de ano: época de excessivos excessos (rs! sic!), este escriba ladeira abaixo e sem breque - com a breca! - confraternizando em todas as confrarias disponíveis cuja agenda permitiu ao menos uma reunião. Espero poder recuperar oportunamente um ou outro encontro não postado ainda. Com a Paduca, a combinação estava acertada desde o início do mês, para evitarmos conflitos, e o jantar aconteceu no dia 30, na casa do casal Cláudia e Paulo. Na foto, Paulo, o Enochato, Cláudia, Duílio e Eva. Fernandinho precisou ficar de plantão e cuidar de sua mãe, com idade avançada e algum problema inoportuno de labirintite. Esses contratempos acontecem... mas não nos sisquecemos de brindar a ele durante a noite.

Começamos experimentando às cegas dois espumantes, o Freixenet Cordon Negro, já comentado aqui, por exemplo. Frescor habitual, toque cítrico, boa acidez... seu oponente foi o Casa Valduga Extra Brut Premium, corte Chardonnay e Pinot Noir, é elaborado pelo método tradicional e mostrou toques cítricos mais discretos, alguma acidez e boca mais ligeira. Agradou, mas preferência da maioria recaiu sobre Cordon Negro. Valduga é um produto mais caro (R$ 99,00 na loja do produtor, contra uns R$ 75,00 da Cava), e isso absolutamente não pode... Freixenet vem de longe, tem um intermediário no meio do caminho (o importador) enquanto o produtor nacional vende para o lojista diretamente, e ainda assim nosso espumante é mais caro... para uma qualidade ligeiramente inferior. Teria de custar - olha lá, sou generoso e reconheço a quantidade de impostos das terras tupiniquins - R$ 50tão. Com esse exemplar de espumante nacional, e após a degustação da Mercearia 3M de outubro, dou por encerrada minhas compras de tais produtos domésticos. Não deixarei de experimentá-los em degustações, mas até melhorarem - e o preço cair - não preciso mais comprá-los. Verdade, degustei relativamente poucas marcas, mas elas não mostraram aprimoramento com relação a outras experiências passadas, e o resultado final é-me muito claro.

   Nos tintinhos, também às cegas, começamos com um Dame de Boüard 2017, produzido em Montagne-Saint-Émilion, uma apelação satélite de Saint-Émilion onde impera a Merlot, na companhia de Malbec, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Este é o segundo vinho do Château Clos de Boüard, um 100% Merlot com curioso toque de morango na frente de tudo, eclipsando outras notas. O quanto durou, permaneceu um tanto plano no nariz. A boca mostrou acidez discreta, corpo médio, um travo doce não enjoativo e final um tanto ligeiro. De Ribera del Duero veio o Pagos de los Capellanes Joven 2019, 100% Tempranillo e já degustado aqui. Ribera produz vinhos elegantes, e Pagos de los Capellanes não foge à regra, mesmo nesse exemplar mais simples - Joven - com seus 5 meses de madeira muito bem integrados às demais características: o nariz é rico, esbanja fruta, tem mais notas - chocolate? - e a boca peca pela acidez não acompanhar os taninos pegados. Mas para isso, vá no próximo vinho da 'escala', o Crianza; ele entrega mais. Por isso (acidez um pouco baixa), o corpo médio acaba num final algo ligeiro, desapontando um pouco pelo prenúncio do nariz. É um bom vinho, com personalidade, e vale a pena, para seu padrão de custo. Com seu Dame de Boüard a Chez France vem escalando os degraus da tubaronice: em promoção permanente de R$ 329,00 por R$ 246,00, custa lá fora algo como USD 20,00. Dá uns R$ 100,00... Capellanes está um pouco melhor: a cerca de 15 Euros, R$ 80,00, custa R$ 200,00 aqui. Está 2.5x, o limite da compra, e fora da proposta original da Enoventos em oferecer vinhos a preços realmente competitivos; durante muito tempo suas margens estiveram abaixo de 2x, e como já apontado ela tem se rendido um pouco à tubaronice. Cuidado e Wine Searcher sempre. 

A sobremesa ficou por conta do Duílio: banana caramelizada com casca de laranja, Cointreau e Cassis, com sorvete de creme. Para acompanhar, o Paulão ofereceu dois Jerez e um Madeira 3 anos; chamou-me mais atenção esse último - nunca havia provado vinhos da Ilha da Madeira - e suas características marcaram mais. Eles possuem uma vinificação singular, e vale saber um pouco mais. Leia aqui. Nariz de um caramelo e notas de frutas secas, 19% de álcool (é fortificado), boca doce contrabalançado pela boa acidez, deixa boa marca acompanhada de bom final, persistente. Não é um grande Madeira, mas como introdução ao estilo agradou muito. Se procurar, encontra na faixa de R$ 120,00.

Feliz 2024...

Para comemorar a passagem do ano abri um Borgonha de Gevrey-Chambertin. Essa comuna fica no distrito de Côte de Nuits, próximo a Dijon. Achei um mapa da região bem interessante aqui, https://bourgogne-maps.fr/, e na resolução de 300 metros pode-se acompanhar todo o recorte dos vinhedos ao redor das comunas. No mapa inicial, não se esqueça: faça o zoom com o ponteiro do mouse dentro do quadrado da Côte de Nuits, logo abaixo de Dijon. O viho em questão é o Les Cazetiers 2010, do négociant Luis Jadot. Les Cazetiers é um dos vinhedos Premier Cru mais importantes da vila de Gevrey; produz vinhos bem tânicos que, aliados à ótima acidez e bons taninos resultam em ótimo volume de boca. Com 13 anos, está em bom momento para degustação; redondo, com grande maciez a despeito dos taninos e acidez. Depois do último gole o movimento de mastigação mostra como ele permanece em boca. Eu não falei do nariz... é graciosamente complexo, a fruta vermelha vem na frente e é seguida de mais notas misturadas a um toque herbáceo. Um bom olfato pode se divertir muito desnudando suas nuances. O meu, infelizmente, deixa a desejar. Mas a boca muito bem marcada compensa as deficiências olfativas, e posso dizer ter sido uma ótima abertura de ano. Deixei metade da garrafa para o almoço de amanhã. Feliz 2024, e obrigado pelas leituras.

Monday, December 25, 2023

Paduca com sede e um Xatenefinho de Natal

Introito


   Preciso recobrar a postagem passada, e comentar mais um pouquinho do Château Meylet 2012. Já falei sobre a borra, aqui. No segundo dia, notei como Meylet a tinha, generosa. E sem a menor dúvida, no último tantinho da garrafa balancei e girei alguma vezes, emborcando o conteúdo na taça. Após um tempo para ela concentrar-se devidamente, o resultado foi esse:

   Então fui bebendo com cuidado, para não agitar mais a taça, embora ela sempre descesse para o lado conforme a inclinasse. O resultado está nas fotos seguintes:
   

   E então, sem a menor dúvida, passei um pão no que pude. Infelizmente a taça era um pouco estreita...


...mas deu para aproveitar um bom tanto. Estava ótima, azedinha (rs!) e lembro novamente: uma pequena porcentagem dos vinhos dura o bastante para produzir a borra. Dessa pequena quantidade de bebida, a borra formada é uma minúscula porcentagem da garrafa. Não passe a vida sem experimentar pelo menos uma vez, se puder.

Paduca com sede

Na semana passada a reunião da Paduca aconteceu como de hábito. Entusiasmado com um vinho que comprara, o Duílio chegou com o final dele. Abrira um ou dois dias antes, e queria compartilhar conosco. Era um Adega Mãe, em sua versão Touriga Nacional. Safra 2021, 13% de álcool, não perdeu muito - aparentemente - depois de aberto. Não que tivesse muita coisa (risos), mas estava agradável. Já bebi do produtor, e seus vinhos podem ter uma boa relação custo benefício. Mas precisa ficar atento. Às cegas, o Duílio ainda trouxe outro, e Paulão também. O Fernando deixara o dele de algum outro encontro. O segundo vinho da direita, do Duílio, foi degustado e imaginei ser português. Necas: um Faustino Crianza 2017. É um vinho alegre, como costumava dizer o Akira: fácil de beber, com bastante fruta e um travo doce. Foi esse travo que levou-me a achar ser um português. Seu corpo médio, acidez presente - embora sem tanto destaque - e final em consonância com o conjunto da obra colocam-no claramente acima do que a Paduca vem bebendo - embora seu preço, cerca de R$ 110,00 quando bem comprado - também o coloque em uma faixa mais sofisticada para aquisições individuais. O Paulão chegou com seu Assobio 2020, corte Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca e produzido pela Esporão. É um vinho básico, também fácil de beber, nariz com fruta evidente (e não muito mais, para mim), fruta que se repete na boca, menor acidez, mais ligeiro, está um degrau abaixo do Faustino. Seu preço cheio por aqui anda na faixa dos R$ 90,00, tornando-o uma compra não tão boa. Segura-se por ter seus fãs e um nome estabelecido, mas o bebedor um pouco mais experiente não o compra por esse preço. Sei que o Paulão o comprou em ótima promo (R$ 40,00), e aí não há dúvida, valeu a pena. Mas é simples... O vinho do Fernando foi o Luccarelli de Puglia Rosso 2022, um meio seco corte Sangiovese, Malvasia Nera e Aglianico. Não estava tão enjoativo como costumam ser os Primitivos da região, mas sua composição de meio seco deixou sua marca adocicada. Bem novo, esbanjando fruta no nariz, travo doce na boca comprometendo tudo - para mim... - um pouco rápido e fora do que prefiro julgar. Custou uns R$ 80,00 ou R$ 90,00, e não é lá meu estilo. Apesar disso secou quase inteiramente, e nessa altura a turma olhou para mim. Lembrei das cenas daqueles filmes dos anos 60, com as crianças condenadas olhando fixamente para os adultos (risos). Há o Children of the Damned (1964) e o Village of the Damned (1960); para mim o segundo é melhor. Mas bem, lá estavam eles, e pensei comigo: algo que pudesse ser aberto e servido rapidamente, após uma rápida passagem pelo balde com algum gelo. Escolhi e servi-lhes às cegas. Marius by Michel Chapoutier 2020 causou alvoroço pelo fato de recém aberto e pouco resfriado - foi na cara de todo mundo - chegou com muita fruta vermelha, uma picada de especiaria e baunilha no nariz, fruta madura na boca, com acidez baixa a média, taninos pouco pegados mas presentes e álcool escapando um pouco na primeira rodada. Na segunda, com a temperatura mais baixa, acertou a combinação e soou ainda melhor. Não tem bom final, é um pouco ligeiro, mas o impacto inicial compensou, mesmo não estando bem resfriado. Para quem não conhece, Chapoutier é um importante produtor do Rhône, e enveredou pelo Languedoc-Roussillon onde produz este corte de Grenache e Syrah. O Duílio disse que meus vinhos sempre surpreendem, e perguntou o preço - uns R$ 75,00 em promo. Recebendo a informação, concluiu comentando a diferença entre conhecer e saber comprar no momento certo e não saber ou não conhecer. É isso: conhecer vinho - já avisava o Manoel Beato quando veio ministrar uma degustação assistida em S. Carlos no início dos anos 2000 - é estudar mapas, legislação, cepas, produtores, características das uvas em cada região... Do seu lado, o leitor precisa ir se escolando (sic) descolando (rs) e aprendendo a avaliar a compra usando o Wine Searcher, não pagando mais de 2x em qualquer vinho e aproveitando a oportunidade conforme ela apareça. 

Xatenefinho de Natal

Paulão jurou passar para um abraço, e não deixei barato: nada como testar as habilidades do discípulo. Compareceu com a sempre bela e delicada Dona Claudia (rs), amiga desde antes o casal se conhecer e entrar em bodas. Ser padrinho de casamento deles foi a celebração de uma amizade que vem se mantendo há décadas, e enche-me de orgulho e satisfação. Mas voltando, servi uma taça às cegas, e a Cláudia, sem saber, notou fruta e chocolate. Boa menina. O Paulão surpreendeu: colocou o vinho no nariz e nem precisou degustá-lo para disparar um Eu já bebi deste vinho meio desconfiado. Falou português, e acertou em cheio! O rapá tá pegando o jeito.

Cedro do Noval (2016) já foi degustado muitas vezes por aqui, em várias safras. Comprado em ótimas promos por R$ 100,00 - a importadora conseguiu desovar as safras mais antigas e ele voltou à casa dos R$ 180,00 - ainda restam-me umas poucas garrafas. O segundo vinho foi muito mais difícil do Paulão acertar, e explica-se: é aquela estória da pessoa beber algo muito acima do padrão pelas primeiras vezes. Ele jamais poderia identificar um bom Châteauneuf-du-Pape. No caso, um do Guigal, em safra 2007: devidamente envelhecido, no auge, estava em outro comprimento de onda. Mas tanto a Cláudia quanto ele notaram e divertiram-se com sua complexidade e graça: nariz com fruta madura e chocolate (Cláudia), fruta e algo terroso (Paulão), é mesmo muito rico. Boca com um doce ligeiro de chocolate ao leite marca o retrogosto, tem um toque doce muito elegante, harmonizado pela boa acidez - não é alta, mas se faz notar com muita elegância. Os taninos estão maduros, álcool integrado, madeira muito discreta, álcool a 14,5%, resultam em um vinho de ótima persistência e final... ele não sai da boca. Está em ótimo momento, não guarde mais. Engolimos, mastigamos de boca vazia e ele continua lá, marcando presença, trazendo-nos felicidade me doses homeopáticas e certeiras, e se me faria feliz sozinho, foi melhor dividindo uma taça com pessoas tão queridas, vendo o brilho nos seus olhos misturando-se à satisfação de uma descoberta diferente. Teve bão... mais uma vez, feliz Natal.

Sunday, December 24, 2023

Nem novo nem maduro: o indigno não brilha, jamais

Introito


   Antigamente dizíamos 'uma definição de dicionário' para algum termo cujo significado pretendêssemos tornar claro. Hoje dizemos 'uma definição do Google'. Por exemplo:

   Como primeira aproximação, é uma boa contextualização. Faltou mencionar pelo menos dois pilares básicos do jornalismo, a saber: 1. Isenção do jornalista para com a matéria, e 2. Tratamento igualitário para todas as partes de alguma maneira envolvidas na notícia.

   Dito isso, pergunto: você viu a patuscada recentemente perpetrada pelo ministro dos direitos humanos Sílvio Almeida? Qualquer pessoa com inteligência e articulação maiores do que a de uma ostra - e começo a considerar quão inteligente pode ser uma ostra... 😨.. mais do que muito ministro - sentiu-se envergonhada. Foi assim: a certo momento tomou lambada e tentou revidar atacando o argumentador em vez do argumento. A tática fanfarrona foi denunciada e veio mais lambada. Almeida ripostou, e levou nova invertida. É o que dá tentar contrapor alguém muito mais inteligente e capaz: passa vergonha, e envergonha quem está em volta. Papel corriqueiro dessa gentalha de esquerda nos últimos 20 anos - veja quanto tempo passou desde o primeiro escândalo dos governos de Ali Lulá, e as denúncias não param... 
   O interessante foi a reação da esquerdalha, glorificando quem apresentou argumentos pífios e tortos:

      

    Não bastasse, houve clara manipulação de declarações do deputado oposicionista: pretendendo o ministro estar no controle da situação, a Rede TVT (um veículo de comunicação educativo que tem compromisso com a democracia , com  o fortalecimento da cidadania e com a justiça social - sic), edita trecho onde Almeida acusa um deputado de fazer cortezinhos para dizer que venceu o debate, quando... sua claque usa exatamente esse expediente para tentar deixar mal o debatedor que estava com a razão!... (vídeo com 50 segundos).


...mas a verdade é muito outra! Veja o vídeo do deputado e avalie quem estava na defensiva e quem estava no ataque (vídeo de 50 segundos).


   Mas este espaço não é uma claque qualquer como as existentes por aí. Prefiro - exijo! - meu leitor sendo crítico, e recomendo: não aceite gratuitamente meu relato, confira o perrengue na íntegra aqui (são 15 minutos). Veja sem cortes os ataques ao argumentador e a reafirmação da máxima dos medíocres, acuse-os do que você faz, chame-os do que você é... 

   A antítese da conduta do deputado encontra sua melhor tradução no comentário da jornalista (sic) Cynara Menezes em sua postagem onde notamos claramente a falta dos dois preceitos comentados no início desta postagem para se produzir uma matéria jornalística decente: não há isenção e muito menos tratamento igualitário para as partes. Começa no minuto 39. Prepare-se: cenas de envergonhar qualquer devoto sério de São Francisco de Sales. Ainda: não sou contra blogs propagandísticos de tendências - mesmo sendo propaganda de vis bandidos, ladrões ou corruptos. Tomando um lado, já sabemos acerca do comunicador e escolhemos segui-lo ou relegá-lo ao esquecimento. Mas daí a usar o termo jornalista/jornalismo em tal situação é flertar com a mais absoluta falta de respeito para com o próximo, a profissão e o santo padroeiro...

   Assim, vemos PTlhos idiotizados pela propaganda querendo acreditar no que lhes convém (a tal da dissonância cognitiva, comentada aqui com link explicativo logo no preâmbulo). Chamam o MBL de extrema-direita (enquanto bolsonésios acusam-nos de extremo-esquerdalhas!), disso e daquilo. Na hora dos debates - sem edição! - vê-se claramente de onde vêm os melhores argumentos. O leitor com o mínimo de inteligência pode ver por si - e não concordando, espumar quieto; os demais podem espumar sem ter noção dos fatos e atacar este Enochato em vez dos argumentos do Enochato. Se houver um debate - sem edição! - onde algum tonto de esquerda consiga argumentar contra o deputado Kim Kataguiri sem tomar uma invertida imediata, gostarei de ver. Não publicarei, é claro, mas olharei. Honestidade intelectual no envio - embora duvide disso da parte de PTlhos e bolsonéios. Colham o que plantaram: hoje não há crédito para qualquer dos lados.

Novamente o Gran Enemigo Gualtallary, agora 2013

Olha... nunca provei tanto vinho ruim no compromisso de levar a melhor informação ao leitor (😂🤣). Desta vez tive um cuidado suplementar para certificar-me da procedência do Gran Enemigo. Está descartada a hipótese da garrafa do Renê ser falsificada (safra 2017). A dúvida originou-se a partir de um comentário naquela postagem acerca de falsificações, e confesso ter-me deixado em dúvida até provar da safra 2019, recentemente. Aconteceu da D. Neusa ter a safra 2013 - agora algo envelhecida - e oferecê-la para um embate. Essa garrafa foi comprada no frixópi de saída da Argentina. Vão dizer que de lá também é farseta? Uma falsificação não apresentaria cápsula tão grossa (à esquerda). Vejam à direita a de um bom vinho, bem mais fina. Quase precisei de uma motosserra para removê-la...

Combinamos um comitezinho (rs) com a Liu e a Elvira. Conversando com a primeira, perguntei se ela teria um Catena comprado em sua recente passagem pela bodega, e ela prontificou-se a trazê-lo. E, generosamente, contentou-se em ouvir sobre a proposta de degustação às cegas. À Elvira coube a tarefa de trazer um espumante, e ela ficou da total ignorância dos atores. D. Neusa sabia apenas de seu vinho. Assim começamos. Para surpresa geral, Elvira trouxe um Antonieta 2022, corte Pinot-Chardonnay produzido pela argentina Falasco Wines. O cítrico advindo da Chardonnay estava lá; não peguei mais notas. Fresco mas bastante ligeiro, acidez baixa, pode competir bem com os nacionais de algum padrão, como os descritos recentemente na degustação da Mercearia 3M; mais uma prova - como se fosse necessário - do quanto nosso espumante está embolado no meio de campo desse estilo mundo afora.

Comentarei a percepção das confrades no encontro. Como sobrou de todos os vinhos, e por sugestão delas levei tudo para a segunda prova no dia seguinte, a minha avaliação será apresentada na sequência. E foi bom, pois pude deixar-me levar pela conversa animada das meninas, além de ocupar-me mais em observar suas avaliações em vez das minhas próprias; queria ser honesto a ponto de afastar qualquer má estima inconsciente e outras opiniões poderiam reforçar - ou contrapor com argumentos - minhas percepções anteriores. Para desafiar o Catena Alta Cabernet Sauvignon 2018 da Liu, não tive muita dúvida: acreditei no meu Château Magence 2010, um Graves já degustado em safras 2001 e na própria 2010. Essencialmente um corte Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, espera-se forte benefício da Merlot para aportar um teco de elegância à potência da Cabernet. Não houve muita dúvida quanto à diferença de qualidade entre Magence e Catena; a preferência pelo francês foi unânime. Às cegas, na segunda bateria, a Elvira foi categórica: o terceiro vinho (tinto) lembra o quarto, mas o quarto é muito melhor. Não recordo-me bem se D. Neusa acompanhou exatamente esse ponto - de um vinho lembrar o outro. A Liu, se não teve tal percepção, não teve dúvida quando escolheu o quarto vinho como o melhor da noite.

   Um parêntese: Parker comparou - e tudo quanto é lugar (sic) repete isso à exaustão - o 50 dólas Gran Enemigo (um corte Cabernet Franc e Malbec) ao Château Lafleur, de Pomerol; corte Cabernet Franc e Merlot, ele custa 500 dólas em safras medíocres e 1000+ dólas em boas safras. O crítico conferiu duas notas 100 ao Gran Enemigo entre 2010 e 2022, e, da mesma maneira, galardoou duas notas 100 para Lafleur... nem o Patricio Tapia do Guia Descorchados  teve a ousadia de agraciar Gran Enemigo com 100 pontos (em tempo: Descorchados é o manual de avaliações extremamente generosas compilado inicialmente para vinhos chilenos e depois estendido para os sul-americanos de maneira geral, corajoso em pontuar com 95 ou 96 brancos chilenos que não chegam aos pés de Borgonhas AoC de produtores de segundo time. Como pontuaria ele borgonhões De Verdade (rs)? A escala só vai até 100, correto?). A pesquisa está um tanto incompleta: a fonte é o Wine Searcher, e não contém avaliações de Parker ou Tapia para todos os anos entre 2010 e 2022, para ambos os vinhos.

   Para mim a contenda resume-se ao seguinte: vinhos bons são vinhos bons, e quando eles são realmente bons, uns defendem-se bem contra outros. O bebedor pode tocar um Brunellão, alcoólico e taninoso (sic! rs!) pra cima de um Borgonhão; este vai defender-se com sua acidez excepcional, e não cairá nesse bom combate. Quero dizer: vinhos diferentes podem ser comparados e grandes vinhos não se atropelam. Se um Brunellão atropelar outro, então o segundo não era um Brunellão, era apenas um Brunello - ou um Brunellinho. Um vinho só atropela outro se for melhor. Normalmente (cuidado aqui!) o preço tem a ver com isso, diretamente. Essa afirmação não é tão verdadeira na comparação dos sul-americanos (caros demais, qualidade de menos) com os europeus. Também é tão verdadeira entre norte-americanos (muito caros, característica do mercado deles, mas bons) e europeus. Mas entre europeus a aproximação tem validade bem maior.

Desta vez queria colocar um Cabernet Franc para enfrentar Gran Enemigo - jogar em seu próprio campo. Encontrei em um Saint-Émilion - região francesa onde a CF tem grande presença, junto da Merlot - o combatente mais que digno, e fui à prova.

Agora, comentando os quatro tintos, no almoço do dia seguinte. Catena Alta 2018 (Cabernet Sauvignon) tinha bom nariz, rico em frutas, com couro ou café; boca com frutas vermelhas, taninos arredondados, a picada mais potente da Cabernet sul-americana, madeira bem integrada com baixa acidez - querendo ir a média, mas faltando... -, deixando seu final ligeiro. A importadora diz ser produzido somente em anos especiais mas... Wine Searcher mostra uma produção contínua desde o início do século; dados completos no final da postagem. Para um vinho de abertura de trabalhos (risos), agradou. Mas tinha um Magence no meio do caminho... Château Magence 2010 já foi degustado outras vezes e não decepciona: corte 50% Cabernet Sauvignon, 40% Merlot e 10% Cabernet-Franc, nariz recheado de frutas, especiaria, café, boca com a picada da Cabernet mais discreta, taninos ajustados (certo, é mais velho), e a acidez fazendo toda a diferença, deixando a boca mais marcada, permanecendo nela por mais tempo e com ótimo final, em comparação. Passamos para o segundo conjunto, e após degustar ambos, relembro como Elvira apontou Gran Enemigo de parecer-se com o Château Meylet 2012. Ponto para o primeiro. Mas é assim: o Lázaro Ramos e o Sidney Poitier se parecem, também. No branco do olho, e nada além. Gran Enemigo 2013, devidamente envelecido, não brilhou além do já anotado anteriormente: nariz com fruta - pelo menos não declinou com a idade - e traços de chocolate/café esses sim mais ricos: desenvolveram-se bem. Não lembro da baunilha presente das outras vezes, nem se alguém apontou. Boca dentro do esperado, com fruta e algo mais, e as demais características - tanino, acidez, final - sem melhora significativa. Ao fim e ao cabo, três safras degustadas, a percepção é a mesma: pode encantar os bocas tortas ou chapas brancas, mas não vai além disso. Já o Château Meylet repetiu a performance de minha primeira garrafa: nariz ótimo, rico, diversificado, e para fechar a boca acompanhando na nariz em tudo! Um grande vinho, fez Gran Enemigo rolar na lama - e não porque eu torça contra, foi apenas uma constatação geral. Espere um pouco, vamos lá: Gran Enemigo custa seus USD 40,00 ou R$ 50,00 na Argentina. Meylet custa os seus USD 80,00 ou USD 90,00 por aí (aqui, eles custam R$ 890,00 e R$ 750,00, respectivamente). Com uma diferença de 2x, Meylet tem a obrigação de entubar bem entubado vinhos da metade de seu valor. No caso de Gran Enemigo, fez com a competência esperada de quem pode. E aqui, Parque (sic! rs!), é o seguinte: precisava comprar o argentino logo com o Lafleur? Ô Parque, não consegue indicar algo mais singelo por comparação? Ah, claro, ele lembrou o Lafleur... para a Elvira ele lembrou - digo pela terceira vez! - o Meylet. E ela sequer pensa em ser profissional de avaliação, basta-lhe ser a médica competente que é. Mas se ela quiser ser avaliadora, está começando melhor do que muita gente no ápice da carreira, não é mesmo?

   Em tempo: Château Meylet é classificado com 92 pontos pela Cellartracker, em sua safra 1998. Lembrando,
90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.
   Maylet entrega. Gran Enemigo pode estar em elegantes 89 pontos, e não é demérito. Por R$ 200,00 aqui, não faria feio face a um Noval; a R$ 890,00, é um despropósito e talvez torne os Noval melhores só pela diferença de preço. Você é fã da Catena? - rindo: a melhor vinícola do mundo? - Desentorte a boca... mas pensando bem, não... continue pagando USD 40,00 ou USD 50,00 por um Gran Enemigo na Argentina, e deixe-me tentar comprar Meylet em alguma futura promo-dos-rótulos-manchados da de la Croix, sua importadora. Se os bocas-tortas endinheirados comprarem Meylet em seu preço cheio, não sobrará nem para promo... E chegamos à conclusão, antecipada no título da postagem: nem novo, nem maduro: o indigno não brilha, jamais.

   Os valores de quase todos os vinhos já foram discutidos nas postagens anteriores. Abaixo apenas os do Catena Alta.

   Vejamos o que mais poderemos ter para hoje. Se nada (risos!), ficam o agradecimento pela leitura desse extenso artigo e os votos de um Feliz Natal! Obrigado!

*  *   *

Preço do Catena Alta CS aqui: R$ 417,00. Em destaque, a notícia desmentida pelo Wine Searcher de ser produzido somente em anos excepcionais. Ou vai dizer que todos os anos (safras) na Argentina foram excepcionais?


Preço do Catena Alta EUA: uns USD 40,0 (R$ 200,00). Aparentemente não está tão fora, dá 2x... só não acredito que ele valha USD 40,00...

   Produção do Catena Alta: pode não estar disponível em todas as safras, mas é produzido anualmente...

Preço Catena Alta no Mercado Livre da Argentina: R$ 82,00, uns USD 16,00. Não fica ruim, nem um pouco...



Monday, December 11, 2023

QI de ostra

Introito

É dito ter QI de ostra quem se apresenta com QI de ostra.
Oenochato

- Carlão... o MLB está derretendo! - assim provocava-me, à beira de um orgasmo e de supetão, bolsonésio de alta estirpe. Corria o ano de 2019; imerso na mais profunda dissonância cognitiva possível, ele chegava a rir de si mesmo quando tentava explicar o inexplicável para justificar as atitudes de seu mito. Ao final do primeiro turno da eleição passada ('22), Kim Kataguiri  e Guto-Negão-Capitalista eleitos - nenhum deles com meu voto (Beraldo e Amanda...) -, e sendo chamado de isentão pelas hostes do atraso, continuei inflexível em anular meu voto para presidente e governador. Também não adiantou argumento de PTlho sugerindo a (suposta) vinda de dinheiro federal para meu ramo de atividade - junto da ciência brasileira - caso Ali Lulá ganhasse, o que justificaria meu voto nele. Bem... além de negar aliar-me a transeuntes escoltados nos corredores da justiça, de onde saíram condenados - sentença cuja confirmação seguiu-se por todas as instâncias conhecidas e desconhecidas do Judiciário - antes de votar em um candidato dito amigo da universidade (não da Ciência! Não da erudição!) eu voto em um projeto de país. Pouco importa se minha atividade profissional possa ser beneficiada por este ou aquele postulante. E, para constar, este ano o ensino superior sofreu dois cortes drásticos em suas verbas. Outro amigo, ainda, queria porque queria sugerir-me a Simone Palíndromo. Caiu na vergonha quando ela aderiu a quem aderiu, e ainda levou ovo na cara e tinta na nuca até depois da eleição. Já escrevi à exaustão: sou de esquerda, embora envergonhe-me a esquerda de hoje (desde 2004). Desencanta-me quase toda ela - posto apoiarem quem apoiam - mas a esquerda é muito mais do que essa turma com QI de ostra. No campo diametralmente oposto (QI de ostra com sinal trocado), bolsonésios ainda não caíram na real. O mais curioso é os esquerdalhas chamando o MLB de extrema direita, enquanto os direitolhos chamam-no de extrema esquerda (sabia disso?). Leitor, pense um pouco e diga-me: como isso pode ser possível, senão por uma alucinação coletiva?
   Pelo que vi das atuações de Kataguiri (agora em segundo mandato), Arthur (impedido covardemente durante um final de semana e na calada da noite, literalmente) e Guto (comandou na Alesp a importante privatização da Sabesp), além de diversas lives assistidas ao longo do ano, vejo o MBL como direita sim, extrema direita jamais, e o único grupo capaz de não causar outra profunda desilusão à população. Não, não assisto lives da esquerda. Tiveram 14 anos para fazer algo pelo país. Caímos no Pisa. A tão sonhada reforma agrária não foi realizada - ou não haveria motivo para o grupo que a defende estar ativo. Dilma foi impetxada (sic) a favor da economia e pelas razões políticas - o impitxe é um ato político - sobejamente conhecidas, e já dentro de uma recessão cujos efeitos se fazem sentir até hoje. Percebe? Essa turma teve sua oportunidade, a mais longa sequência de governo na história deste país (sic), e acabamos n'água. Não perco mais meu tempo com eles; suas ideias esgotaram-se, perderam-se na própria imbecilidade de onde foram geradas. Às vezes penso se o proposto QI de ostra não está superestimado.

Paduca outra vez

Prezando pelas reuniões quinzenais - e algumas extemporâneas - a Paduca vem sendo protagonista constante no blog, e encontrou-se dia desses para outra celebração da amizade (em primeiro lugar), do vinho (também em primeiro lugar! 🤣) e da boa vivança (sic! rs! e idem, novamente!). Desta vez a recepção correu na casa dos bon vivants Duílio (sentado) e Eva, ela ao lado do Enochato, com o  Paulão e o Fernando à esquerda. Pensamos na difícil harmonização de vinhos e xuxi e mandamos ver. Levei, por entrada e curiosidade, a cava brut Freixenet Cordon Negro, e assim iniciamos os trabalhos. Comentei há pouco dela, é um espumante simples mas bem adequado para meu padrão, acima de muitas opções nacionais no mesmo valor, com preço razoável por aqui; tem seu buquezinho cítrico, gostoso, bolhinhas mais ricas dentre os espumantes apreciados recentemente em degustação, alguma acidez e nenhuma, absolutamente nenhuma harmonização com xuxi. Aqui um parênteses: o pessoal pediu um mix bem sortido de xuxis; eu aprecio somente o corte de peixe cru e aquela variação do peixe sobre arroz - sejam quais forem os nomes... 🙄 A questão é quanto outros ingredientes das diversas misturas - cream cheese, por exemplo - podem alterar a harmonização... não sei, porque não consumo...

Aportei ainda um Montemajor Passerì 2019. Corte entre a desconhecida Petit Manseng e a onipresente Chardonnay, esse exemplar de IGP da Lázio não estava tão fresco quanto da primeira vez que o experimentei, nas degustações online promovidas pela Enoeventos durante a pandemia, veja aqui. Seu buquê antes rico pareceu menos consistente, embora a boca mantivesse acidez - talvez não tão boa - e toques cítricos, combinando um pouco com o pescado. Na trilha de boa experiência passada, o Paulão trouxe um Calcu Gran Reserva branco 2021, corte Sauvignon Blanc-Semillion, vinho de ótima acidez e já comentado aqui. Tem um toque cítrico bem marcado no nariz que repete-se na boca, com acidez e boa permanência. Em alguma temperatura - foi fugidio - teve melhor combinação com o salmão, e não consegui reproduzi-la mais, mesmo voltando a garrafa na água gelada, servindo e degustando aos poucos, com fatias do peixe. A menos desse momento, que pareceu realçado, não combinou tanto, mas não descombinou, na opinião dos confrades. Ele defendeu-se bem com um pexim de hamoniazação sabidamente complicada. Teve bão...

Degustação do Shot Café

Jairo apresentou sua nova linha de vinhos portugueses importados pela Wine Concept Brasil. Essa turma não faz muito lançou uma linha de vinhos do Alceu Valença, ótimo cantor, de quem gosto muito, homenageando sua famosa canção La Belle de Jour. Não experimentei, mas pergunto: que fim deu o vinho do Brédi-bonitinho-da-bala-Chita-Pitt e da Angelina-maravilhosa-Jolie? E os vinhos do Sting, chegaram por aqui? Como está o do Danilo Gentili, o alentejano Putos? (puto significa garoto ou menino em português portugaico - rs!) Quem se lembra do vinho em homenagem à seleção canarinho na copa de '14, Faces? Seus detratores reclamaram da letra trocada no nome, o correto seria Feces; não provei. E o... já percebeu, né? Nada contra homenagens, mas essa não parece ser uma estratégia vencedora em vinhos. Eu pretendia mesmo era recobrar um pouco da história do vinho nacional para os leitores mais jovens ou aqueles sem muito interesse direto em fatos pitorescos, a ponto de procurar por eles. Há uma postagem engraçada sobre o Faces aqui. Agora, com seriedade.


O Jairo/Shot Café andava à procura de uma linha básica de vinhos para começar a repor seu estoque para 2024, e contatou seu conhecido Johnson Rogenski, da Wine Concept Brasil. Organizou uma degustação com seis exemplares do portfólio da WC, e compromissos de fim de ano não permitiram muitos dos confrades regulares das atividades do Shot participarem. Foi uma pena - para eles! 🤤 Sobrou vinho para nós! Para esta postagem, uso a foto do fotógrafo Essio Pallone e recobro meus comentários da postagem de outubro acerca de fotografia. Vejam que bela foto. Nem precisei recortá-la, o enquadramento estava pronto! A transparência das garrafas foi capturada com perfeição, a claridade do entardecer ficou onde precisava - do lado de fora - e no final eu gostaria de saber de vinho o que o Essio sabe de fotografia...

Animado com as conversas - faltei à degustação anterior -, confesso não ter anotado as características dos vinhos. São simples, custam na faixa de R$ 60,00. Experimentei o Moço Fidalgo tinto antes dos brancos e rosés, pois já estava resfriado e achei-o algo ligeiro e com um dulçor a mais. Tinha sim alguma fruta - qual? - mas acidez baixa, com final pouco marcado. Pelo valor, é melhor se comparado a joias (sic) ofertadas por lojas de venda maciça a valor similar. Eu o colocaria às cegas na Paduca, por exemplo, pois é uma turma que começa a galgar os primeiros degraus na degustação séria do vinho, embora os confrades venham provando vinhos há uma década ou mais, sem tanto compromisso. Com a confraria e minhas preleções Enocháticas (rs) nas reuniões, estão desentortando a boca (😂), e esse alentejano, mistura de Trincadeira, Aragonez e Castelão, talvez possa ser identificado por eles. Mas não será agora... Fui procurar o preço no Wine Searcher, e encontrei apenas uma citação dele em Portugal, a cerca de 5,00 €, o que dá quase R$ 30,00. Portanto o valor de venda - inferior ao próprio sítio do importador - está no limite de 2x. Aí gostei... O estranho de uma única citação de um vinho em sua terra natal sugere um produto desenvolvido para  o gosto brasileiro. Tinha achado um doce a mais no paladar, não é mesmo? Então... Mas esse doce não compromete. O Mar Salgado - toda a linha - achei um pouco abaixo do Moço Fidalgo. A grata surpresa - e ponto alto - veio do Moço Fidalgo branco, corte Antão Vaz, Síria e Arinto. Pelo encontro recente da Paduca, perguntei-me sobre sua harmonização com xuxi, e acho que a tentarei mesmo, dada sua boa acidez, aliado ao nariz que também chamou atenção. Os aperitivos vieram da Bahja Culinária Árabe, e proporcionaram boa harmonização com os brancos. O quibe também não jogou contra o Moço Fidalgo. Ainda não aprendi a apreciar rosés; ouvi bons comentários de ambos, embora - e novamente - as preferências recaíssem sobre Moço Fidalgo. O leitor apreciador de rosés deve evitar preconceitos, e experimentar dos dois. Como diria, teve bão. Aguardemos uma degustação com vinhos melhores para 2024.

Sunday, December 10, 2023

Beberagens atrasadas

Introito

De engodo em engodo, vamos sendo engodados aos poucos. Quem lembra-se da foto ao lado? A subida da rampa do Palácio do Alvorada na posse de Ali Lulá e seu séquito simbolizando a igualdade, o respeito e união do povo brasileiro, ou seja qual for o embuste do momento. O leitor acredita mesmo nessa conversa mole? Sim, alguns acreditam, e temos apenas mais um exemplo acabado da tal dissonância cognitiva, tendência do ser humano em procurar algum tipo de coerência em suas crenças e ideologias, embora a realidade o desminta com a crueza dos fatos.

Senão veja esta foto da reunião ministerial dos primeiros 100 dias de governo. Tem gente de costas, mas pelo estilo do cabelito não arrisco serem mulheres; mas contei 8 ao todo. E são 31 ministérios... O leitor atento lembrar-se-á: fiz a propositura de Jean Wyllys para o Ministério da Cultura!, sob o singelo argumento de que, comparado a vários outros ministros, ele seria um quadro até mais digno. Ele não está lá, mas não tem problema. Aponte-se um ministro homoafetivo na imagem. Um índio, apontem um índio. Quantos homens brancos e hétero tem lá? Aliás, parece que metade das mulheres já foram rifadas de seus postos, confere. Mal duraram seis meses, em algum caso, oito em outro. Volte na primeira foto e observe-a bem. Agora responda-me se tem cachorro na segunda. Olhe direito! 😠

Dentre os ministros, o da Justiça ainda tenta explicar como receberam na pasta a esposa de um grande chefão do tráfico, e como ela viajou com passagens custeadas pelo nosso dinheiro. Logo no início deste governo, o mesmo ministro teve presença registrada em favela carioca sem proteção policial. Para os peritos em segurança do Rio, textualmente, a visita de Dino à Maré sem aval do tráfico seria impossível. Veja abaixo. Enquanto isso, ministra - a que ofendeu os paulistas e deixamos barato - após ser flagrada andando de motocicleta sem capacete dentro de outra favela justificou-se com a determinação dos traficantes locais de proibirem o uso do equipamento. Essa ministra desobedece às leis do estado soberano do Brasil e curva-se às leitos do tráfico? É isso mesmo? Só por comentário, ela ainda está no cargo. Sintam-se orgulhosos, os tolos.


Beberagens atrasadas

Dois não comparecem, dois bebem. Sob essa máxima reunimo-nos em nome da Paduca apenas Duílio e eu, dias atrás. M.O.B. Lote 3, safra 2017, é um Dão produzido pela trinca de enólogos portugueses Moreira, Olazabal e Borges (M.O.B.!). Já falei deles em '21 e '22, veja aqui e aqui. Desta vez, com uma hora de aeração, expressou boa fruta, elegante, misturada a algo como café ou chocolate e aquele toque vulcânico típico da região amainou. Na boca o dulçor característico do português, com alguma mineralidade e acidez média; corpo também médio, taninos agora suavizados e boa persistência mostram o vinho em seu apogeu. Para quem comprou meia dúzia de garrafas, ainda mais quando vendido em 'promo' por R$ 100,00 ou menos, chegou o momento. À festa, nos próximos meses.  Poggio alla Badiola 2008 é produto da família Mazzei, produtora de Chianti Classico e proprietária do Castello di Fonterutoli. Esse pessoal já vinificava quando Da Vinci usava calças curtas. Segundo o sítio do produtor, é corte 70% Sangiovese e 30% Merlot, embora a Cabernet Sauvignon possa aparecer em alguns anos, fazendo dele um típico supertoscano. Ganhei há algum tempo, estranhei a safra um pouco antiga para vinho relativamente simples, mas gostei quando a vi. O Duílio disse 'fruta bem vermelha', mas não identificou a cereja, que poderia dar-lhe a pista da Sangiovese. Tinha também algo à terra, herbáceo talvez, com taninos leves, corpo médio, acidez discreta mas presente, final algo curto, e mesmo assim agradável. Surpreendente para um vinho simples dessa idade, que agradou bastante o Duílio. Às vezes a garrafa mia, ainda que jovem... esta, deu certo.


Dois não comparecem, dois bebem (sic! não resisti à repetição, e vem mais...). Sob essa máxima reunimo-nos a Liu e este Enochato, deixando Mário e Débora a ver taças voadoras. Levei um Crozes-Ermitage Le Grand Courtil 2009, do Ferraton, já comentado outras vezes, inclusive sob as marvadezas do Renê, cuja leitura recomendo e vinculo à recente postagem vinho nota-sem. Le Grand Courtil respirou cerca de uma hora antes de chegar à mesa, mostrou fruta agradável e toques à chocolate ou fumo - qual? Herbáceo, também. Boca perdendo um pouco da potência de outrora, taninos médios, acidez nem tão vibrante quanto antes, mas com fruta e chocolate, apesar de decaindo também. Passou um pouco do limite; ainda bom, mas cuidado; beba!. A Liu compareceu, sem abrir antes, com o Papa Figos 2021, duriense da Casa Ferreirinha. Mesmo entre os vinhos de entrada do produtor, é muito bem feito a ponto de precisar de tempo em garrafa para desabrochar. Como o Papa Figos 2019 degustado em 2021, este exemplar estava fechado no nariz e na boca. Expressava sim um pouquinho de fruta e o dulçor lusitano estava lá, com acidez beirando a média, taninos muito duros e final condizente com o conjunto da obra - nem tão rápido, nem tão marcado. Vai evoluir muito bem, não há dúvida. Conversando com a Liu depois do encontro, ela, aos prantos, comentou que o vinho não melhorou nada, nadica de nada (rs), mesmo no dia seguinte.

   Comprado há muito tempo e da Enoeventos, quando esta praticamente só tinha ótimos preços, não faz sentido falar de seu valor hoje - a conta em alguma postagem mostra quão boa ela foi. Encontrei vários Ferratons na Vivavinho, todos esgotados. Parece ser uma franquia antes de importador, mas não está muito claro. Há no sítio a opção onde pode-se montar uma loja a partir do catálogo deles, e divulgar sua adega para seus seguidores, amigos e clientes, sugerindo - não sei de onde - a possibilidade de serem importados por ela. Não fui saber mais (rs - tem um botão saiba mais lá). De qualquer maneira há diversos Ferratons espalhados por lojas eletrônicas brasileiras. Uma conferida no Wine Searcher é altamente aconselhável, porque de tubaronice o mercado está cheio. Não encontrei o Le Grand Courtil, mas há opções para diferentes bolsos. Papa Figos também é encontrado em muitas lojas, e seu preço é escorchante. Um vinho de 8,00 € em Portugal aqui atinge facilmente 40,00 €. Não há o que argumentar: a detratoria (rs), para quem falta potência e massa cinzenta, pretende defender 3x como margens para vinhos, ou 4x. O que dizer de 5x cravados? Agora é tubaronice? Ou continuarão na ladainha de sempre?

Papa Figos no Brasil, via Wine Searcher. Preços em Euros.

Papa Figos em Portugal, preço em Euros.