Thursday, December 25, 2025

Uma postagem de Natal

Introito

Até a rolha cheira a chocolate...
Oenochato, sobre o Pavie Decesse '09

Papai Noel existe! E tenho a prova: chego na adega e encontro um pacote em cima da mesa:


fiquei imaginando o que seria... um par de havaianas? Não importa! Abrirei no horário apropriado... agora! (sim, começo a postagem às 23:5X). Ara, um vinho... até com identificação do importador no pacote... já não se fazem mais Papais Noéis como antigamente...


...aliás, o assunto vem bem a contento... descobri que esse safado do Noel anda economizando... e bem! Filhodaputinha... encontra ofertas melhor do que eu... não sabia dessas, veja,


   É isso mesmo? Milão por um Pintia, um Tondônia Reserva e uma Xampa? Vejam, um Pintia - só ele! - custa R$ 1.561,94 na Mistral, importadora 'oficial' da marca. Querem eu eu mostre o selo do contrarrótulo ou só a logomarca na caixa está bom? E chamei o Papai Noel de filhadaputinha? Bom, cadê agora os filhadaputões que defendem essas importadoras tentando justificar os preços praticados por elas como 'custo de transporte do vinho para restaurantes associados'(!), dentre outras conversas-moles? Falei 'essas importadoras'? Você acha que é uma atividade solitária? (sic!)



Veja esta, 


Vinha Ardanza Reserva por uns R$ 350,00, acho - não lembro exatamente. Por aí está de R$ 900,00 por R$ 800,00, embora alguns lojistas que se acreditam espertos vendam de R$ 700,00 por R$ 530,00. Mal sabem que a importadora os passa para trás, vendendo na internet a um valor que eles talvez não consigam sequer pagar! (os cerca de R$ 350,00) Leitor, nunca na história deste blog (risos!) eu pedi um like, que nem existe nesta plataforma, mas é imperioso: faça essa informação circular, envie a postagem para quem você conhece e gosta de apreciar um bom vinho. As pessoas precisam ser alertadas desse estupro perpetrado por dinheiristas de araque suportados por vigaristas pseudo-avaliadores que induzem o consumidor a compras de valores superestimados vendendo-se - olhe lá - por umas poucas garrafas de brinde em troco de suas teclas indulgentes, alugadas a preço vil e mais afeitas à conveniência do que à verdade. Veja aqui os preços do Ardanza na praça:



Divaguei... apresento o valor do Pintia no sítio da Mistral:


   Não para por aí. O Tondônia Reserva, só ele, custa na mesma Mistral a bagatela de R$ 850,00. 


   Ambos, conta de padeiro - com o lápis atrás da orelha - somam R$ 2.400,00. Traduzindo: por menos da metade do preço da vitrine ainda leva-se grátis uma Xampa para enfiar no meio da ideia quando nada tiver o que fazer... não é bacana? Não trata-se apenas de um acinte contra o consumidor. O é também contra o lojista: ele seguramente não paga valores tão baixos pelos produtos se pretender tê-los em sua loja! O lojista é constantemente apunhalado pelo importador, quando a relação na verdade deveria ser uma comunhão, uma união de forças para fazer chegar ao consumidor um produto de qualidade a um valor honesto. Como vemos, não é o que acontece. 

   Quanto custa um Ardanza lá fora? Como vemos, na média, uns 40 dólas. Dá uns R$ 240,00.

   É média. Procurando melhor, encontramos por até 32 dólas nos EUA, com transporte transoceânico e o escambau.


   Os 40 dólas, R$ 240,00 lá fora, contra os cerca de 350,00 pagos pelo vinho aqui, são apenas um valor inferior a 2x - o qual concordo em pagar - adequado para uma mercadoria no Brasil tendo em vista a carga tributária. Valores como R$ 900,00 são apenas o 4x da face mais tubaronesca de algumas importadoras, como este espaço constantemente tem apontado. Consumidor, não apoie iniciativas corrosivas de seu próprio bolso. O cidadão não se entrega a tais achaques. Ele procura um preço honesto ou, no limite, escolhe outro produto. Quem sai no prejuízo? O lojista, que muitas vezes entra no negócio de boa fé sem fazer o dever de casa e acaba sendo parça na patifaria, sobrando com o mico nas mãos enquanto os consumidores mais ligados evitarão comprar dele. Não consigo ver um ciclo virtuoso nisso; é um circuito corroído pelo vício e pela insensatez.

   Sobretudo, não se enfie na internet procurando somente por preço. Já observei sites com ofertas maravilhosas mas andam pendurados em denúncias no Reclame Aqui e outros. Cautela! Principalmente - acabei percebendo - esses sites têm todos o mesmo design! Ou seja: é possível que alguma quadrilha esteja montando sites com ótimas 'ofertas' sem a pretensão de entregar a mercadoria de fato. Cuidado, muito cuidado. Espero conseguir fazer uma matéria sobre isso.

   Notícia complementar vem do Jairo, proprietário do ShotCafé: 


   A matéria cita "um cenário macroeconômico pouco convidativo" em 2024 - como se fosse novidade - obrigando a empresa Wine a uma reestruturação. As importadoras desovando vinhos na internet encontraram outra maneira de reestruturar o caixa, nada mais. E se reparar, são vinhos que não entram em promoções tido Black Friday e outras. Quando presto atenção em tais promoções destinadas ao grande público fico com a impressão de - não sempre, mas muitas vezes - tratarem-se de opções já a perigo, no limite da data para consumo. Quem vai domesticar esse mercado predatório não é outro senão o consumidor. Invoco um ditado chinês já citado nestas páginas:
Paciência é sentar-se à beira do rio
e aguardar o corpo do seu inimigo passar boiando.

   Sítios onde o leitor pode procurar no Reclame Aqui e encontrar poucas reclamações sem solução definitiva são Vingardevalise, VinhoBR e Casa da Bebida. Compro deles com alguma  regularidade. Às vezes acontecem atrasos, mas nunca tomei uma tunga. Na Vingarde, certa vez, a título de desculpas por um atraso excessivo, o sr. Bruno até enviou-me um ótimo azeite do Noval - para mim significa o cliente levado a sério. Dica: veja se tem lá o Quinta no Noval Syrah. Compare o preço lá com o de Portugal. Claro, previna-se: consulte as iniciativas de defesa ao consumidor sempre que for comprar em qualquer lugar.

Uma postagem de Natal

Comecei a noite de 24 com um Mâcon Villages 2022 do Drouhin. Vem de bom produtor, prevalecendo notas de frutas cítricas na entrada e outras brancas, como pera, depois. Mesmo no segundo dia, quando finalizo a postagem, tem boa entrada de boca com leve amargor, acidez quase chegando a média - faltou um pouquinho - e o mesmo toque cítrico do nariz. É fácil de beber, direto, equilibrado, com alguma complexidade para agradar melhores provadores. A dureza é seu preço cheio, R$ 375,00, contra USD 20,00 nos EUA. Dá 3x, como sempre... Paguei pouco mais de R$ 200,00, estava no 2x. Não fosse assim, não compraria. Depois veio uma das joias da coroa (rs): um Château Pavie Decesse 2009, safra lendária de Saint-Emilion. Essa região tem seu sistema próprio de classificação - parece que com revisão a cada 10 anos - e segundo o Stephen Brook na edição revisada da Enciclopédia do Vinho do Hugh Johnson, é onde adota-se a concentração do mosto com mais entusiasmo em toda Bordeaux. De fato, comparando com o Château Montrose e o Château Gloria, com boa presença de Cabernet Sauvignon e uma expressão muito discreta dessa cepa, Pavie Decesse tem uma pequena porcentagem de Cabernet Franc que passa por uma CS bem marcada. Refiro-me àquela picância da Cabernet, mais na ponta da língua para a Sauvignon e no meio dela para a Franc. Em Decesse é claramente meio de boca, e é bem presente, sem tanta sutileza como em outros Bordeaux. Depois vem um desfile de sensações, com menos fruta e mais chocolate/café/fumo, toques herbáceos e especiaria. Quando abri, notei como a própria rolha cheirava à chocolate... A fruta aparece mais em boca, onde repetem-se chocolate meio amargo, principalmente, e especiaria. É um vinho pegado, realmente de boa extração, acidez acima da média e boa permanência. Não tem traço de envelhecimento... vai longe... Estava assim ontem, após aerar umas quatro horas e permanece bom no dia seguinte. Tem ótimo conjunto e é um grande vinho, mas pergunto se é tão melhor do que um Remirez de Ganuza Reserva, do qual provei recentemente - não postei ainda. Certo, aquele era da ótima safra de 2005 e estava efetivamente no ápice, mas mesmo nesse safra pode ser encontrado pela metade do valor do Pavie Decesse. Não, eu não compraria outra garrafa desse, mas repetiria um Remirez de Ganuza Reserva - aquela foi minha segunda garrafa, havia provado uma apaixonante 1998 há algum tempo, ganho de presente da Dona Neusa em uma viagem que ela fez aos EUA e ajudei na seleção dos vinhos que ela trouxe. Poderia citar outros vinhos que preferiria, mas talvez caiba uma reflexão: provavelmente falte bebedor - cheirador, na verdade - para desfrutar de um vinho como Pavie Decesse. Quiçá a experiência de desvendar mais notas em um vinho assim sobrepujasse a opulência do Remirez e fizesse pender a balança. Não sei. Este Enochato, com suas deficiências, fica com o espanholeto. Em safra recente ('18), Pavie Decesse está em 'promo', de R$ 3.200,00 por R$ 1.995,00 - olha a crise aí. É um vinho de USD 120,00 lá fora (safra '18) e USD 240,00 na safra '09. Comprei por um tanto menos, mas então era jovem. Sempre vale provar um bom vinho, conhecer sua expressão e ampliar os limites do conhecido. Vamos à próxima garrafa.

O Mâcon Villages,



O Château Pavie Decesse por aqui...

Wednesday, December 24, 2025

Mais 61.

Introito

   Não tenho certeza do motivo, mas talvez essa postagem vá bem ao som do Falcão. Bolsonéscio foi preso, condenado a 27 anos e três meses. Sem comentários desbotados do tipo "É demais; 27 anos e 27 dias bastariam", porque saiu barato. A falta de prisão perpétua na legislação é (mais) uma prova de como nossa constituição precisa ser reformulada. Dizem 'jogada no lixo'; não sei. Mas se o esforço for o mesmo... Sei sim que escrever uma minuta de golpe em três vias justificaria três condenações à perpétua; se tal cumprimento é impossível, fica como agravo à vileza da atitude. E por aqui sequer temos tipificação para parte de seus crimes. Certas coisas deveriam estar escritas na pedra (aquela que funda uma nação), junto de algumas reflexões, como a do Capistrano: "Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Revogam-se as disposições em contrário". Quem a tem não vota em candidato incompetente. O que dizer de doar-se a ladrão, corrupto condenado ou cujo passado demonstra per se a falta de compromisso para com o país. É clichê, mas vamos lá: a frase centenária nunca esteve tão atual. Para piorar tudo, o recente PL da Dosimetria decreta (se entendi bem): 1. golpe de Estado e 2. abolição violenta do Estado democrático de Direito são crimes cujas penas não devem mais ser somadas. Para mim são questões bem distintas: a patuleia do 8 de janeiro definitivamente não estava lá para abolição violenta. Já escrevi aqui: não portavam armas nem se embarricaram para oferecer resistência; saíram como cordeirinhos - embora acreditando que seu apenas desejado golpe de Estado estivesse dado. Já Bolsonéscio tinha um plano de matar figuras da República - por mais execráveis - e tomar o poder. Não fosse isso (sic), poderia ser condenado penas por golpe de estado. Vê-se sem dificuldade que os atos são muito diferentes e independentes; portando não há motivo para não somar as penas. Em qualquer lugar decente elas seriam multiplicadas, e seria pouco! De onde tiramos a certeza de mais pizza no prato de cada brasileiro de bem. Estou farto dela, no cardápio político, há 30 anos. Precisamos mudar. Pescoço, só na ponta da corda - é o 'castigo' para traição - porque picanha, nenhuma também... então não deixemos o tranqueira desacompanhado...

Outras reuniões


Teve uma onde reuni a confraria #émuitovinho, e programei uma inesperada. Poucas vezes presenciei - além de outro, promovido por mim mesmo - um confronto com tais atores, até óbvios, como proposta de comparação. Nem foto sobrou, o que dizer da lembrança exata de tantas notas, sobrepujadas com força e intensidade pela presença de pessoas tão queridas e luminosas para mim... Mas vá lá (rs), teve lá uma xampa da Veuve Clicquot Brut, com o que se espera de uma xampa: equilíbrio, notas sempre bem-vindas de fermento, pão e cítricas; boca com fruta bem viva, ótima acidez, bolhinhas generosas e delicadas, não aquelas coisas grosseiras que fazem as bochechas se expandirem involuntariamente em um gole descuidado, como acontece com os segundos melhores espumantes do mundo, produzidos por aqui. Ninguém acertou um Brunello di Montalcino 2015 da Donatella Cinelli, que aos 10 anos está pronto para ser degustado. Verdade seja dita, a cereja tão típica não marcava o buquê, mas tinha fruta vermelha abundante e estava aveludado na boca. Lembro da acidez não ter marcado tanto - esperava mais - e os taninos estavam maduros, com corpo médio e permanência não tão longa. Sinceramente, me pergunto se ele vai longe, e acho que não. Alguns anos, sim, sem dúvida, mas não guarde além disso. Ainda, um Rivetto Barolo Serralunga 2011 que causou furor nas taças, principalmente pelo nariz rico - tabaco, couro, frutas maduras - e com boca mais refinada do que o Brunello: acidez mais presente, taninos mais pegados, boa permanência, final mais longo e melhor equilíbrio no geral, apontando para uma longevidade bem maior desse exemplar. As safras '15 na Toscana e '11 no Piemonte foram boas, com alguma vantagem para a primeira; o fato das garrafas degustas evidenciarem a prevalência da segunda deve ser creditado, acredito, um pouco à melhor qualidade do produtor, e em parte do fato de o exemplar proceder de um dos melhores vinhedos de Barolo, Serralunga D'Alba. Quem bebeu, gostou... 😄

   O Brunello está disponível na Enoeventos, em safra 2019, a R$ 899,00. Para os enoamigos (sic), R$ 764,15. Nunca fui muito da política de tratar cidadãos em categorias, tipo primeira e segunda, porque um é amigo do Rei e outro não. Um lojista minimamente inteligente trata melhor - no sentido de oferecer melhores descontos - seus melhores clientes. O que ele deveria preferir, alguém que compra, digamos, R$ 12.000,00 por ano em três ou quatro compras, ou seu fiel aliado do enoclubinho gastando tipo R$ 120,00 por mês? Ora, o lojista realmente inteligente prefere os dois!, e agrada tanto um quanto outro. Deixar de vender uma caixa de vinhos a preço de enoclube para um não-enocluber (sic) é uma tática desastrada compartilhada por diversas importadoras - e deixei de comprar em todas elas. Outra mancada da Enoeventos foi aderir à tubaronice: enquanto o Brunello da Donatella é vendido aqui ao equivalente a 160 dólas, nos EUA chega a custar um terço, sinal evidente de prática predatória. Já o Barolo tem preço variando bastante, por aqui: encontrei entre quase R$ 789,00, na safra '17 (mesmo valor do Barollo, portanto) e até por R$ 549,00 na safra '19 (bem melhor, dizem). Seu valor lá fora começa nos 40,00 dólas, ou algo como R$ 240,00, grosso modo. Seu melhor preço aqui dá um pouco mais de 2x; um pouco mais (de 2x) já não me serve, pois 2x é o máximo que pago por um vinho, mas indica uma margem pelo menos mais humana (sic) para um vinho que, no embate direto, mostrou-se melhor. Em tempos de seres humanos votando em Ali Lulá e Bolsonéscio, isso pode não significar muita coisa para a grande maioria das pessoas. Mas este blog está a serviço dos outros 30% dos seres pensantes, e não tem nenhum compromisso com erro, com a ignorância ou com a dissonância cognitiva.

   Esta postagem foi tocada a boas doses do branquinho nojento do Drouhin Mâcon Villages e tecos de um Pavie Decesse 2009, que vai entrar no gelo enquanto preparo um bifim. Quem estiver ligado e quiser passar para uma taça mais tarde, será bem vindo. Oh... enquanto publico esta postagem e chego ao pé da escada da adega, a campainha toca... tem leitor prá lá de atento ao blog já chegou para uma tacinha!

Feliz Natal!
Oeno





Ah, claro...
Os valores do Brunello




e do Barolo





Finalmente, seu preço lá