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Monday, November 13, 2023

A Paduca e as Paduquetes

Introito

   Aproveitemos a indulgência do leitor e tentemos reerguer este blog quase morto... conversando com alguns deles, seja por uátiz seja pessoalmente, notei a falta de mais reflexões acerca da avaliação de vinhos, deixando margem para dúvidas ou mal entendimento da questão.
   Gostaria de comentar sobre a cepa da uva, tipo do vinho (seco, doce ou espumante) ou detalhes da vinificação na avaliação: pouco importa. Ainda, abordando idade, passagem ou não por madeira, tipo de terreno do parreiral ou mesmo preço: pouco importa, também.
   É-me estranho ver avaliações precoces de vinhos muito jovens e sabidamente feitos para durar décadas. Vinhos de enorme complexidade, cujo desabrochar situa-se pelo menos uma década após seu lançamento - às vezes eles descansam 4 ou 5 anos entre barrica e garrafa -, são avaliados quando seguramente verdes. E não, não existem taças superpoderosas (sic! rs!) fazedoras de milagres aerando o vinho em segundos. Taninos verdes necessitam de anos para madurar, e essa é uma lei da natureza. Dá para beber um Barolo com menos de 10 anos. Sim, dá. Afinal, existem BAROLOS, Barolos, barolos e barolinhos. Estes últimos, mais simples, são bebíveis mais jovens. O resto, é Barolicídio. Além do mais, qualquer um deles vai se aproveitar da aeração de um dia para o outro. Não são apenas Barolos; exemplo recente, com um espanholeto bem decente, está aqui. Nagibin experimentou e não me deixa mentir sozinho. Paulão - da Paduca - sabe do que falo. Mas voltando: como podemos avaliar vinhos tão novos? Acredito ser possível, com treino e conhecimento. O vinho pode não estar desenvolvido, mas suas características estão lá. Possivelmente é mais fácil quanto mais grandioso ele for, mas vinhos onde a elegância sobrepuje a opulência acrescentam novas variáveis ao parecer. Estranho mesmo é a conversa de avaliadores tupiniquins sugerindo o valor do vinho como elemento de sua apreciação. Seria assim: o vinho, com aquelas qualidade, custando R$ 120,00 reais, poderia merecer 90 pontos. Mas se custasse, digamos, R$ 200,00, então seria apenas 88 pontos. 😇 Oh, Senhor, duas grandezas mensuráveis são infinitas:  o espaço e a estupidez das pessoas. E não temos certeza do primeiro... Notem, isso é bem diferente deste Enochato classificar um vinho simples, numa faixa de preço, como felicidade engarrafada. Porque, naquele valor, você bebe e fica satisfeito. Mas não há nota envolvida aí. Seguramente ele seria - levando ao pé da letra a pontuação - um vinho 82, 84 pontos. Diferente dos vinhos 90 pontos a fazer concorrência com o número de estrelas no céu... - uma barreira psicológica que, acredito, precisava ser batida para deslanchar a venda calcada em vinhos pontuados. Volte lá (sic! rs!) e veja as qualidades de um vinho 90-95 pontos. Repito abaixo:

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Excepcional complexidade e carácter. Lembre-se sempre dessa palavra: excepcional... Aplique essa máxima a qualquer vinho sul-americano - e muitos e muitos europeus, também - e veja-os ir pelo ralo. Claro, para tanto o leitor precisa ter ideia do que vem a ser um vinho de excepcional complexidade. Reconheço, o chão afunda. Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016 e Quinta do Noval Syrah 2017, degustados na postagem passada, são bons vinhos, mas estão aquém da premissa.

   Um fato onde a coincidência foi o principal ator está narrado aqui. Degustando um espanholeto Vall Llach 2000, cuja avaliação indicava notonas - 96, 98 pontos - anotei a minha nota no celular do Jacimon e mostrei para ele. 94. Provei Don Flavitxo pela sua avaliação. 94. Claro, uma feliz coincidência. Poderia ter sido 92-93 de um, e 93-34 de outro, e ainda assim o ponto seria o mesmo: como disse no começo dessa estória, se você treinar, dá para chegar lá na avaliação de vinhos. E sou muito mais as notas discordantes de Don Flavitxo e minha (mesmo se fossem 92 e 94) do que os 96-98 pontos dos avaliadores profissionais. Vemos como os amadores são mais confiáveis... O Cellar Tracker está cheio de gente boa avaliando vinhos. Confiar no lojista pode ser uma faca de dois legumes, pois está cheio de lojista picareta por aí. Ele concorda sempre consigo? É picareta. Ele vem com aquela máxima vinho bom é o vinho que você gosta? É picareta. Você comprou meia dúzia de vinhos e ele já chega com aquela tenho um vinho que é a sua cara? É picareta. Em um país com tantos políticos picaretas fazendo moda, qual tipo de influência vai pegar na população? 

As Paduquetes

Por sugestão dos confrades - Paulão já fizera as contas no começo do mês e abordara a data de antemão -, a última reunião de outubro aconteceu com a presença das Paduquetes. Apesar de conhecê-las a mais de década e eventualmente bebermos um vinho em jantares aqui e ali, elas estavam curiosas para conhecer a dinâmica dos nossos encontros. Em U a partir da esquerda, D. Cláudia, esposa do Paulo, D. Eva, esposa do Duílio, o Enochato, Fernando - ameaçou trazer a namorada, mas ao final não teve coragem de atirá-la aos leões - Duílio e Paulo. Para atiçar-lhes a curiosidade, recebi-os com dois espumantes, às cegas, e expliquei tratar-se de dois Bruts. A esperança, portanto, era boca tendendo mais para o seco, sem excessos de um lado ou de outro. 

Surpresas estavam reservadas... para dois exemplares feitos pelo método tradicional, o primeiro apresentou-se com bom frescor, de fato seco, embora um fundinho doce desse o ar da graça. Nariz cítrico e um pouco de fermento, boca equilibrada, acidez presente sem marcar tanto, bolhinhas graciosas, compõem um espumante de padrão razoável e diria agradável dentro do meu consumo mais corriqueiro. Era uma cava Cordon Negro, da Freixenet. O segundo apareceu com uma cor amarela marcante, influenciando positivamente alguns dos presentes. Cítrico no nariz e boca, ainda com notas que não identifiquei bem, apresentou um dulçor extra, mais para enjoativo, menor acidez e mais ligeiro nas papilas. Mesmo Eva e Cláudia, mais acostumadas a esse paladar, preferiram o Cordon Negro. Duílio preferiu o segundo, o Fausto Brut, produzido pela Pizzato a partir de seu vinhedo Doutor Fausto. Opinião não unânime, Cordon Negro sobrou face Dr. Fausto; quase todos prefeririam comprar o primeiro ao segundo. Pelo sítio do produtor, fiquei sabendo que Dr. Fausto tem uma coleção de 90 pontos em diversos guias. Como é, mesmo?

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Agora entendi... é a definição é que está errada! 🤣😂 Porque Fausto passa a léguas de tudo isso. Não dá, né? Seus preços são mais ou menos compatíveis, na casa dos R$ 75,00, enquanto Cordon Negro custa, na Espanha, algo como 8 moedas (R$ 40,00). É um valor ridículo, e praticamente a metade do que pagamos aqui por algo de qualidade menor. Certo, temos impostos altos, mas Cordon Negro chega aqui pelo mesmo valor pagando as mesmas taxas... Competindo mal com um espumante Espanhol simples, cai por terra o mito do Saci, digo, do nosso espumante competindo de igual para igual com Xampas de verdade. 

   Seguimos com um Hacienda de Arínzano branco 2019, já degustado por aqui em safra 2018. Um Chardonnay espanhol com nariz cítrico, mineral, bastante fresco com toques tostados, em boca com algum amanteigado de Chablis. Mas, claro, não chega a comparar-se aos franceses. Tem boa acidez, final agradável, é um vinho bem arranjado, embora alguém o tenha achado enjoativo. Não reparei... acho que em breve beberei sozinho a outra garrafa que tenho, para tirar a teima... Se encontrar uma promo a R$ 150,00, é boa compra. No preço cheio, R$ 245,00, é um tanto salgado; parto pra tintinhos nojentos. Combinou razoavelmente bem com salsicha de vitela e melhor com uva passa branca: o encontro da boa acidez com o doce é uma combinação infalível... 😜

Na parte dos tintinhos... bem... ano passado havia oferecido para a turma um Quinta do Noval Touriga Nacional 217, e estava um pouco fechado. Como o Syrah 2017, devidamente aerado, havia feito boa figura contra o Gran Enemigo, resolvi brindá-los com esse exemplar na safra 2016 e proporcionar-lhes a experiência de um bom vinho completamente pronto para ser degustado. Servido às cegas, alguém falou 'português', e alguém falou 'Syrah', mas ninguém conseguiu juntar as percepções; ainda assim as garotas gostaram de ver o pessoal atingindo algum sucesso em identificá-lo. Repetiu com pujança as características de seu irmão mais novo: nariz rico, frutas, especiaria e mais complexidade, acidez presente, taninos macios, bom final, combinou bem com meu bifim ao molho gorgo. O segundo tinto foi mal compreendido: O Château Chantemerle 2016, um Cru Borgeois corte Cabernet Sauvignon 60%, Merlot 35%, Petit Verdot 3% e Cabernet Franc 2% não recebeu uma única sugestão de ser Cabernet Sauvignon. Aquela estória: CS's de qualidade um pouco melhor, da França, apresentam expressão muito diferentes daquela à qual estamos acostumados na América do Sul. São elegantes, sutis, nariz bastante rico em frutas - vermelhas? negras? ambas? - fumo, um pouco herbáceo e mais, boca com boa acidez, taninos macios e suaves - não 'pega', aquela picada na ponta da língua da Cabernet sul-americana está presente mas devidamente amaciada - e no final tudo isso não encantou tanto o pessoal; a preferência recaiu sobre o Noval. Observemos aqui tratar-se de gosto; é claro, ele é permitido sim, em um avaliação simplificada. Lembram-se da estória?, o avaliador amador pode estimar a qualidade do que está acostumado a reconhecer; novas experiências devem ser devidamente exploradas, precisam tornar-se mais comuns e assim o bebedor ganha um degrau em sua experiência geral. Pois, é o que temos, para amadores...

Por sobremesa apreciamos uma torta cheesecake de frutas vermelhas acompanhada do Tarapacá Colheita Tardia 2021 e depois do Château Doisy-Védrines DV 2016. Deste último, comprei uma caixa em promoção imperdível (R$ 140,00) há bastante tempo - nunca mais se repetiu -, e ainda defendo-me nos últimos exemplares. Comparados, ninguém teve dúvida da qualidade do Sauternes sobre o Colheita Tardia: seu frescor e acidez superiores, bem como sua persistência colocam o segundo muito à frente do primeiro. É quando a estória do preço faz sentido: atualmente há uma oferta pelo Tarapacá a R$ 55,00 na Adega Curitibana (sabe-se lá por quanto tempo este vínculo será válido), 


No Chile, ele é vendido - pela cotação atual - a exatos R$ 25,00 (USD 5,00). Por R$ 55,00 aqui, mesmo sendo em 'promo' - importa o valor pago - está 2x. Está bem abaixo, em qualidade, de um Château Doisy-Védrines DV mas custa uma fração de seu preço (normalmente, uns USD 20,00). O preço do Colheita Tardia pode esticar até uns R$ 80,00, mas não encontramos Sauternes por menos de R$ 220,00. É o panorama onde os vinhos sul-americanos, mesmo sem tanta qualidade, conseguem competir pelo menos no preço com os europeus. Quero dizer: alguns chilenos conseguem, porque nossos espumantes passam um verdadeiro carão. O que se tem feito com os tintos é bem outra estória; eles custam caro e competem menos que os brancos ou de sobremesa. Mas é ótimo bocas tortas continuarem a se esbaldar neles; se lessem O Enochato e testassem as ideias debatidas aqui, as boas compras do nosso mercado diminuiriam sensivelmente... um claro prejola para este escriba de final de semana.

Tuesday, October 31, 2023

Vinho sem nota ou nota-sem?

Introito

   Na postagem passada abordei um pouco do sistema de avaliação de vinhos. Resumindo antes de retomar: é possível valer-nos de uma maneira sistemática, honesta e independente para estimar a qualidade de vinhos. Se em algum momento o juízo dos avaliadores deixou de guiar-se pela métrica inicial, isso é apenas e tão somente a comprovação de como o dedo podre da humanidade pode estragar o que toca - estragamos o Paraíso, confere? Não vimos ao longo de uma década certo cinéfilo dourar a pílula para filmes de quinta categoria em canais menores, após deixar a emissora de maior audiência do país? Sua linguagem era tão refinada quanto a de sommerdiers (sic! rs!) conhecidos no meio como defensores dos frascos e comprimidos, bem como das importadoras tubaronas; palhacinhos da justiça, como digo. Voltando: o bebedor precisa estar com a boca e o nariz armados para julgar por si e concordar ou discordar das avaliações. Deve beber bons vinhos, de vez em quando (risos) e avaliar vinhos mais simples, segundo as regras e tendo por base o que conhece e concorda, como aqueles que mais aprecia, ou mais o marcaram. Lembre-se: se atribuímos notas a filmes e livros - na escola ninguém estranha o professor classificar redações dos alunos - qual o problema em aquilatar um vinho?
   De acordo com Parker, os vinhos são classificados, pela pontuação já comentada, assim:
   50 - 59 pontos: inaceitável.
   60 - 69 pontos: abaixo da média com deficiências visíveis, como acidez e/ou tanino excessivos, ausência de sabor ou possivelmente aromas ou sabores desbalanceados.
   70 - 79 pontos: médio com pouca distinção, exceto que é bem feito. Em essência, um vinho simples.
   80 - 89 pontos: ligeiramente acima da média a muito bom, apresentando vários graus de delicadeza e sabor, bem como caráter, sem falhas perceptíveis.
   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.
   96 - 100 pontos: extraordinário, de carácter profundo e complexo, apresentando todos os atributos esperados de um vinho clássico.

   Tente fazer suas comparações - inicialmente sem falar em notas. Tente lembrar-se das características de vinhos similares ao degustar sua próxima garrafa. Vá recordando-se das experiências vividas - como nos recordamos dos grandes momentos das férias, das boas poesias, dos nossos amores. Quando já bebia de vez em quando um Crasto Vinhas Velhas, um Esporão Reserva, depois de ter bebido alguns italianos melhores, discutido e treinado com Akira e Don Flavitxo, comecei a atrever-me no julgamento de vinhos mais simples, e um depoimento de 2012 está aqui. Você também consegue, basta começar. O benefício direto e imediato será desconfiar daqueles sábios de óculos dizendo que devemos beber Vinhos de Procedência (assim mesmo, com V e P, perceptíveis pela solenidade na pronúncia das palavras) que os espertalhões sommerdiers e defensores das importadoras tubaronas tentarão empurrar-lhe em troca de seus suados cruzeiros. 

   É bem possível que nos primeiros momentos os avaliadores - em sua maioria - fossem absolutamente honestos na proposta inicial: um posicionamento pró-consumidor, não pró-indústria. Mas é inegável que as avaliações geraram uma corrida pelos vinhos melhor avaliados e o aumento de preço desses vinhos aconteceu tão rápido quanto espalhou-se a notícia de suas notas. Logicamente esse efeito - talvez inesperado - despertou olhares de cobiça tanto do lado de produtores quanto de avaliadores de vida fácil. O resultado, hoje, é vermos avaliadores portando-se como autênticas metralhadoras de notas 100, disparando para todos os lados suas benevolências a ponto de muitas e muitas notas não guardarem qualquer similaridade com o cânone da crítica. Segundo os comentários mundo afora, o primeiro a entregar-se nos braços de Belial foi um certo James Suckling, a quem refiro-me normalmente como James Sucks. Outros - Parker inclusive - não demoraram a juntar-se a essa procissão macabra. Por outro lado, na internet, there were some who resisted 1:15 (risos!), as forças do bem juntaram-se aqui e ali. O mais célebre espaço é o Cellar Tracker, onde os amadores podem escrever resenhas sobre os vinhos, atribuir notas, criticar as avaliações profissionais e, sobretudo, passar muitas dicas sobre o serviço do vinho, como sua necessária aeração, em muitos casos. As notas de lá divergem em muito daquelas dos profissionais - invariavelmente, para baixo. Em minha opinião, são quase sempre melhor abalizadas. Essas ideias não esgotam o assunto, mas espero ajudar o leitor a ter uma abordagem mais realista acerca de nota e pontuação de vinhos.

Início

P
ulando muitos vinhos degustados ultimamente, ofereço o relatório sobre um nota-sem (sic! rs!) degustado neste final de semana. O Edu Turismo levou a turma (eu não...) para um passeio na Argentina. Visitariam a Catena e a Enemigo, dentre outras, então sugeri para a Liu trazer um Gran Enemigo Gualtallary Cabernet Franc para fazermos uma brincadeira. O leitor atento lembra-se do quanto fiquei desconcertado com a experiência advinda desse mesmo vinho por mãos do Renê e queria tirar a prova - recomendo a releitura da postagem acima até antes de continuar desta, inclusive dos extensos comentários na discussão. Renê trouxera seu exemplar da Argentina - não da bodega -, e sentamos-lhe a pua. Um leitor suspeitou tratar-se de falsificação, e a estória foi longe. Nosso encontro - em U, da esquerda para a direita, Débora, Mário, Edu, Liu e o Enochato - aconteceu no Restaurante Barone e reuniu confrades do grupo Vinho e Turismo, patrocinado pelo Shot Café. Espero ver outras pessoas animarem-se e saírem em grupos para encontros similares. Hulk smash... vinho une... Enochato desune... Eduardo usa cola e reúne tudo novamente... assim vamos.

Vinho nota-sem

Tivemos uma cava de entrada, um tintinho nojento de abertura - não comentarei - e os três atores principais. Artimanhosamente (sic! rs!), fiz para mim a seguinte proposta: levar um tintinho para pegar o Gran Enemigo Gualtallary por baixo, no sentido de ter qualidade mínima para arrancar-lhe um empate honroso em degustação às cegas, e depois chegar com um tintão para passar-lhe um pneu. Quem joga tênis sabe: pneu é vencer o set por 6 x 0. Atingido o intento, teria como argumentar em bases mais sólidas além da simples apreciação de um único vinho. Inicialmente apreciamos o Gran Enemigo, depois meu tinto mais simples, e então o mais complexo. Débora, Liu e Mário gostaram mais do meu tinto simples do que do Gran Enemigo. Meu segundo vinho não atingiu o pretendido 6 x 0. Na opinião geral ficou em meros 6 x 2. Para o Edu, Gran Enemigo fez 6 x 4 no meu melhor vinho. Sempre digo: o Edu é um ótimo agente de viagens... 🤣😅

El Gran Enemigo 2019 mostrou bastante fruta e alguma baunilha, mas pouco além. Algum traço de chocolate/fumo estava sufocado, eclipsado pela fruta. A boca também, muita fruta, madeira discreta, acidez baixa, rápido e rasteiro. Escrevo no segundo dia, e degustando a última taça. Não melhorou muito: tem final um pouco melhor um pouco mais de persistência, e é isso. Seu ataque - a entrada na boca - como disse o Eduardo, é sim bem macio, aveludado, e talvez seja sua melhor qualidade. Equilibrado, sem dúvida, sem arestas no sentido de nada exaltado, mas sem grandes surpresas. Era sim o mais aveludado dos três - não sei de onde vem essa característica, mas está bem trabalhada. Apenas é muito pouco para um vinho pretender chegar a 100 pontos. De onde tiraram isso? Pode ter aí uma legião de defensores ávidos por poderem dizer terem bebido um vinho 100 pontos de dois avaliadores distintos. Bem, não brigarei com essa turma de dissonantes cognitivos. Apenas ficarei com os 97 pontos de um Emílio Moro Malleolus de Sanchomartin 2004 (Flavitxo postou), com os 95 pontos de um Torbreck Descendant 2005, ou mesmo do Oracle 2005 (mesma degustação, também pelo Flavitxo), com o La Janasse Chaupin 2009 qualquer que seja sua pontuação (98 - risos), com o Domaine du Pégau Châteauneuf-du-Pape Cuvée Réservée 2001, ou qualquer outro de dezenas de vinhos melhores do que El Gran Enemigo degustados ao longo da vida. E olhem, estou claramente pegando muito por cima: tais vinhos estão anos-luz à frente de Gran Enemigo...

   O segundo vinho degustado foi o Quinta do Noval Syrah 2017, duriense do conceituado produtor Quinta do Noval. Nariz rico, com frutas, especiaria e mais notas; boca com acidez algo melhor, concentrado à base de bons taninos e melhor persistência. Débora, Liu e Mário apreciaram-no mais. Depois fizemos uma prova repetindo Gran Enemigo em uma taça e na outra ofereci um Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016. Claramente um degrau acima do Noval, nariz mais complexo à frutas, chocolate/café, especiaria e mais. Boca abundante de notas entre frutas, chocolate ao leite, com o dulçor típico dos portugueses - Noval também tem, menos intenso -, ótimos taninos, final longo, permanece na língua quando o engolimos e salivamos depois. Para a maioria, se não foi um 6 x 0, ficou num ótimo 6 x 2: sobrou. Apenas o Eduardo considerou Gran Enemigo melhor.

   Então vem a pergunta: como um vinho 90 pontos, e outro 91 pontos, tratam um double cem (sic) na ponta da bota, sem respeitá-lo nem dar-lhe moral? Repetindo: na melhor das hipóteses, El Gran Enemigo precisou suar muito para suplantar um ótimo Novalzinho de 30 Euros em seu país de origem - Enemigo custa USD 40,00, na bodega. Ele tomou vareio forte de outro de 45 Euros...

   Enemigo nada acrescentou ao exemplar anterior degustado com o Renê, a menos da certeza: aquele vinho dele não era falsificado; El Gran Enemigo é mesmo um vinho fraco em comparação com europeus de valor similar e está muito aquém desses cem pontos conferidos por avaliadores que aparentemente encontraram seus narizes no lixo. 
  

Sherlockianas

   Voltando ao ponto: como um vinho assim consegue pontuação tão expressiva? Para tentar salvar a honra dos avaliadores - veja lá o aparentemente... - convido o leitor a ativarmos nossos sentidos Sherlockianos e especularmos sem medo. Claro, desentortando de um lado, entortamos do outro, na mesma proporção. As possibilidades para explicar o sucedido são:
    * Os exemplares enviados para avaliação não continham Gran Enemigo, mas outro vinho - continham um Vinho, com 'V". Pode-se argumentar: os avaliadores compram os vinhos no mercado formal. Antigamente sim; não sei se continua dessa maneira. Mas é certo: em concursos e degustações mundo afora, o produtor leva o vinho.
   * Aventou-se nos comentários da postagem passada o fato dos vinhos da Catena sofrerem falsificações. Bem, descobrimos a fonte dela. Os consumidores - mesmo visitando a bodega - estão levando gato por lebre; El Gran Enemigo pode ser muito bom, mas não é o que estamos bebendo.
   * Este Enochato (e todos seus confrades) não souberam avaliar o que tinham em mãos. Admito, admirei-me com certa simplicidade do Château Montrose 2003 e do Quilceda Creek 2004 quando fiz minha comparação particular do Julgamento de Paris. Está aqui. Mesmo Don Flavitxo ou Akira deixaram passar tratar-se de cortes bordaleses - sequer identificaram a Cabernet Sauvignon, que nesse nível de vinho é de fato muito diferente das expressões às quais estamos acostumados. Mas péra lá (sic), tinham ótima acidez e eram marcantes em boca. Você engole vinhos como esses e não os esquece tão fácil...eles permanecem consigo por um bom tempo, e olha, é um bom tempo mesmo... Não há como: um grande vinho o bebedor conhece por um lado ou por outro.  Portanto a hipótese precisa ser descartada.

   Bem, é isso. Arrepiem-se detratores, mas quem é independente pode dar sua opinião sem medo. Dado o longo histórico de alta pontuação dos Gran Enemigo, parece-me clara a desconfiança sobre os avaliadores ou sobre o produtor - e acho difícil haver apenas um culpado na estória. Reputo a contribuição do sistema de avaliação por notas. O problema é o que está sendo feito dele.

Preço Apontador 'lá'.





Preço Quinta do Noval lá.


Tuesday, October 24, 2023

A degustação da Mercearia 3M

Introito

   Aristóteles escreveu a Poética há 2.300 anos; seu pensamento continua atual e influenciou significativamente a análise literária, mostrando como podemos identificar qualidades ou defeitos em textos poéticos ou teatrais. Uma abordagem mais significativa do tema aconteceu apenas no início do século XX, com os formalistas russos. Hoje a crítica está estabelecida e é reconhecida como importante nas artes de maneira geral. 
 
Uma foto não precisa retratar um animalzinho fofo para ser artística. O fotógrafo deve ter sensibilidade para encontrar o ângulo, a luminosidade e o instante oportunos para seu clique perfeito, não importa qual seja o alvo de sua lente. E nem o observador está obrigado a apreciar o que é clicado, mas ele deve conhecer os conceitos de fotografia para poder avaliar se está mirando uma obra de valor ou um simples retrato. Da mesma maneira, um filme ou uma poesia não necessitam abordar temas belos para serem considerados arte; pode-se expressar até o macabro com toques de sofisticação e produzir-se uma obra-prima. Pensando assim, Robert Parker - até onde sei o primeiro a debruçar-se com olhar crítico sobre nossa bebida preferida - lançou as bases da avaliação para os vinhos em um momento onde as  análises praticamente só vinham de pessoas ligadas diretamente ao produto - um claro conflito de interesses. A proposta é relativamente simples, levando em conta a base na cor e aparência do vinho, aroma e bouquet, sabor e final, e nível geral de qualidade ou potencial. A escala começa com 50 pontos 'dados', e o avaliador pontua os aspectos do vinho segundo a regra onde cor e aparência recebem o máximo de 5 pontos; aroma e buquê, até 15 pontos (cuja análise se limita à intensidade e alcance da bebida); o sabor recebe até 20 pontos (estendendo-se ao equilíbrio, profundidade e persistência) e a qualidade global e potencial de evolução vale até 10 pontos. Essa regra está aqui, embora aqui esteja melhor comentada. Portanto falamos de um pouco de atenção, boa memória olfativa e gustativa, critério e perseverança para poder começar a avaliar vinhos - e é onde o chão afunda... pois... qual é o critério a ser usado? Como um bebedor iniciante, conhecedor, vamos escolher, apenas de vinhos chilenos, ou mesmo nacionais, pode considerar-se apto a avaliar vinhos? Ele claramente não o é. Da mesma maneira, um bebedor de vinhos do mundo todo, mas na faixa de 5,00 a 25,00 'moedas' também não é. Então o avaliador precisa beber dos grandes vinhos do mundo? Bem, pretende que seja diferente? Esses avaliadores terão tudo para serem os melhores, se deixarem de lado os conflitos de interesses. Quem já bebeu somente alguns grandes vinhos (quantos?...) pode ser um bom avaliador também. Quem bebeu muitos vinhos de certa qualidade pode avaliar bem vinhos daquele patamar para baixo - e pode até funcionar se ele souber calibrar sua avaliação a partir de outras notas conhecidas por ele. Complexo? Seguramente. Mas funciona, e é fácil comprovar: este Enochato - sem qualquer vaidade - está longe de ser qualquer sumidade mas oferece em várias confrarias das quais participa vinhos melhores do que a média dos demais membros, na faixa de preço em questão. Tá, aqui tem também o ponto de saber fugir das tubaronas, mas o assunto é outro. Como isso acontece? Simples: o Enochato aprendeu a calibração proposta acima com gente que sabia muito mais do que ele, notadamente Don Flavitxo e Akira. Nessa confraria, conversávamos de tudo: futebol, política, samba, suor, ouriço - principalmente ouriço - mas tínhamos nossos momentos de avaliar e estudar os vinhos. Vai por mim, funciona; basta prestar atenção, ponderar e ter vontade de aprender.
   Volto ao assunto na próxima postagem. Por enquanto, sugiro uma leitura sobre o Parker aqui, e outra sobre uma abordagem pragmática da pontuação de vinhos, aqui.

Impressões da Segunda Degustação Mercearia 3M-Damha Golf

 No sábado, dia 7, a Mercearia 3M realizou no restaurante do clube de Golfe no residencial Damha a segunda edição da parceria. O lugar é espaçoso e acomodou bem os 400 participantes ávidos por degustar parte dos 200 rótulos disponíveis. Meu propósito foi o de sempre, nas degustações regionais: experimentar sul-americanos em geral e nacionais em particular, para constatar como andam. Afinal, é necessário acompanhar o mercado para poder falar mal dele com alguma propriedade (risos!). Sejamos francos: das degustações passadas, aqui e ali, não sinto-me confortável para pagar R$ 70,00 em um tinto nacional. Por R$ 80,00, bem comprado - na 'promo' - pego um 5 Forais. Não tem para nacionais, podem perfilá-los prontos para o abate. Bom, dos nacionais de até R$ 150,00 nenhum ganha, por que vou arriscar pagar, digamos, R$ 250,00 numa tranqueira em potencial? OK, aos vinhos...

Amitié é um produtor tão novo quanto objetivo: procurei seu sítio de internet, mas só encontrei mesmo a loja eletrônica da empresa... na conversa com o sr. Ednar, fiquei sabendo da sede - Vale dos Vinhedos - e da fundação da vinícola em 2018. Seus espumantes têm sim alguma graça, são vivos, acidez discreta, leves, ótimos para beber na piscina: esquentou, você deixa cair dentro dela e tudo se resolve. Eles quase conseguem competir com um espumante italiano como o Bacio Della Luna, já degustado aqui inúmeras vezes. Falta apenas competir no preço: seu espumante mais barato custa R$ 65,00, muito caro em comparação com o italiano a módicos 5 moedas em seu país de origem. Fazendo o câmbio, dá R$ 25,00. Reclame-se dos impostos aqui. São os mesmos que incidem sobre o Bacio, e eu o comprava na 'promo' a R$ 45,00. Não reclamem, produtores nacionais... O Amitié Colheita de Verão Cabernet Franc tem uma picância muito leve e um ultra-especialista poderia conectá-lo a uma Cabernet. Sendo apenas um super-especialista, passei longe da sugestão. Tem sim alguma fruta no nariz, mas a boca é ligeira, baixa acidez - discreta, mas tem. É um ponto favorável sim, mas seu preço sugerido, R$ 100,00, não convence. O Pinot Noir saiu-se algo melhor, pois mostrou nariz mais rico e a boca surpreendeu, em comparação com o CF. Por R$ 85,00, é melhor compra. Até poderia pegar uma garrafa para brincar com amigos, mas pergunto: para que repetir, depois? Dois brancos, e foi assim: ou anotei errado os preços, ou o sr. Ednar se confundiu. O Viognier, anoitei como R$ 160,00, mas no sítio da empresa consta R$ 100,00. Tem buquê melhor do que a boca, onde a acidez é discreta e o final é ligeiro. Pelo preço anotado, e comparando com o sítio, por R$ 160,00 vem o Chardonnay, que é o 'Oak Barrel'. Mas aí pergunto: para que carvalho em um vinho com acidez praticamente zero? Tem lá um cítrico muito básico, mas na boca nem a madeira faz volume. R$ 160,00? Fala sério...

Na Casa Perini, famosa pelo aclamado quinto melhor espumante do mundo - experimentei, quando ganhou o galardão; achei que deveria ser o quinto pior do mundo, dentre os que já provei na vida - conheci a coleção Fração Única nas versões Cabernet Franc 2021, Tannat 2021 e Merlot 2020.  Sobre o Merlot, a página do sítio do produtor diz que... Este Merlot representa estrutura equilibrada entre taninos e acidez. A passagem por barrica de carvalho oferece a este vinho notas complexas. Lembra do começo da conversa? Quando citei a exasperação do Parker ao constatar que as críticas de vinho estavam ligadas a profundos conflitos de interesses da parte dos produtores? Por aqui, nada mudou. O equilíbrio aqui é entre taninos muito discretos e acidez pouco notável - o tanino ganha pela simples existência! São vinhos ligeiros, sem muito diferencial. Não são ruins nem mal feitos, apenas falta-lhes complexidade - complexidade de verdade. Complexidade é isso, ou isso. O resto é conversa mole. E o detalhe: ambos os vinhos referenciados valem - porque valem! - por volta de 100 moedas nas Európias. Aqui, Fração Única custa... custa... 100 moedas! E olha, com desconto!


   Tentei argumentar com o sommelier da empresa: o próximo passo seria tentar derrubar o preço. Ele reclamou dos impostos - mas todos os vinhos pagam... - e do preço da garrafa. Segundo ele, há apenas uma empresa a fornecer garrafas para todo o mercado. E, se entendi bem, o valor da garrafa seria algo como R$ 9,00 a unidade. Perguntei por qual motivo não produziam o vinho em caixinha. Não há demérito. Eu compraria Fração Única por R$ 20,00, para mostrar para as pessoas. Em casa, fui procurar. R$ 9,00, né?

  Vinte garrafas, sem rolha, R$ 60,00. Dá R$ 3,00 por garrafa. 🙄 já sei... a rolha custa R$ 6,00.

  Tentemos novamente. Doze garrafas, com rolha, R$ 25,00. Dá R$ 2,09 por unidade. 🙄 já sei... o rótulo custa R$ 6,91.

   Se servir de consolação, pelo menos a elite dos vinhos nacionais parece ter passado aquela fase onde as uvas eram esmagadas com prensa hidráulica a ponto de arrebentar as sementes e passar para o vinho seus taninos mais amargos. Não, isso não acontece - não com os vinhos de elite. Esse cuidado óbvio deve ser a explicação real para os preços altos do produto - além, claro, do Roberto Carlos ser chamado para cantar para o parreiral nas podas de inverno.

   Com o grande número de rótulos, não é de estranhar a repetição de alguns já presentes em eventos passados. Apenas evitei-os, ou experimentei um pouco dos melhores exemplares, para dar uma acompanhada. Dentre chilenos e argentinos, principalmente, nada de surpreendente. Continuo falando mal com propriedade. O uruguaio Garzán estava representado por um rótulo básico, creio. Assim como a qualidade: básica. Não lembro o preço, mas refleti na hora preferir os portugueses do Crasto e Esporão, parceiros da Mercearia em praticamente todos os eventos de maior envergadura da loja, não comparecendo apenas em degustações específicas. Não há muito o que falar deles, a qualidade é sempre boa. O preço parece-me andar um pouco fora, mas não fiz as contas direito. Já bebi muito deles em outros tempos, até mantenho alguma derradeira garrafa e sinto que já deu. Não me recuso a beber deles caso sejam servidos, apenas tento outros rótulos. É a tal da escolha do consumidor.

Mas nem tudo foi sofrimento e desgraça pelos stands do evento. Encontrei os alentejanos Rapariga da Quinta Colheita Seleccionada 2021 e seu irmão maior, o Rapariga da Quinta Reserva 2020. O primeiro, corte Aragonez, Trincadeira e Cabernet Sauvignon, mostrou fruta básica, boca ligeira, acidez baixa a média, meio ligeirinho mas bastante bom para seus cerca de R$ 90,00, principalmente se comparado aos nacionais. Dá uma surra em tudo o que experimentei e nos comentados em particular. O Reserva é um corte lusitano mais típico, Alicante Bouschet, Aragonez e Touriga Nacional, madeira presente, fruta marcada, acidez tendendo a média, melhor permanência. Claro, por R$ 170,00, precisa entregar mais. Seus preços aqui não estão tão fora, e o Reserva compete bem, por exemplo, com o Herdade dos Grous, pelo mesmo preço 'cheio' aqui - prefiro o Herdade, e este já comprei a R$ 110,00, recentemente; aí fica difícil para os Rapariga... Lá em Portugal seus preços não discrepam tanto... bendita concorrência... 

Wednesday, March 29, 2023

A estória do valor do vinho III

Introito

   Aquela senhora delicada no trato, até simpática embora muito indesejada, fez outra de suas visitas há uma quinzena. Carregou consigo seu Luiz Manechini, pai da Carol, homem de sorriso fácil com quem tive pouca oportunidade de conviver. Operava com gosto e maestria a churrasqueira, contudo foi pego no contrapé por um câncer algo invasivo contra o qual lutou bravamente durante um ano e tanto. Mais uma batalha vencida pela morte com efeito profundo em nossos corações, e cujo efeito secundário é levar consigo parte de meu ímpeto em escrever. A certo momento colocamos a mão na cabeça e refletimos acerca a necessidade de continuar vivendo.

   Comentamos anteriormente sobre o poder de compra do Real - em outras palavras, do quão pobres somos/ficamos -, sobre o aumento no preço dos vinhos sul-americanos e o preço do vinho importado aqui no Brasil, observando como vinhos de qualidades bem diferentes podem chegar ao mercado com preços similares, tornando a escolha de bons vinhos um exercício de paciência e comparação. Finalmente, abordamos o preço e o valor do vinho nacional e sua paridade teórica (sic) com o importado, apontando ser o mais honesto comparar taça a taça uns e outros. O ponto é: como já mencionado, nos últimos anos e mesmo pré-pandemia, participava de degustações aqui em S. Carlos e caia direto nos nacionais e sul-americanos. Não os compro, mas, como sempre digo, não me recuso a bebê-los. Quando tiverem uma relação preço-qualidade adequada, talvez compre, mas não ao preço e qualidade encontrados nos eventos. Olhando para 350 garrafas atrás de mim, 90% de europeus, alguns norte-americanos e australianos: não os compraria em absoluto, na verdade...

As mentiras que contam

   O mercado está cheio de mentiras. No interno, querem fazê-lo acreditar na estória de termos clima adequado para produzir vinhos: terroir californiano já temos; a Borgonha que se cuide... Antes referiam-se apenas aos espumantes nacionais como produtos de alta qualidade, mas perderam completamente os escrúpulos e agora até os tintos brasileiros são premiados, celebrados e disputados lá fora. Em breve, os brancos também, escreva e guarde. Comprovei (está aqui!): enquanto nossas premiações em dado concurso chegam historicamente a 322 medalhas, menções ou diplomas por bom comportamento (risos!), o Chile, país cujo vinho é fraco, vivo dizendo, acumula 6.733 comendas! Leitor, um número 23.7 vezes superior não pode ser encarado como um engano, erro ou má fé do articulista. 23.7 vezes a mais é uma lavada! Sisqueceram do 7 a 1? Se pensam naquilo como uma lavada, caiam na real: foram apenas 7! Imaginem a Pátria em fúria se tivéssemos levado de 23! E de quem? Daquele que reputo ser o mais desimportante dentre os produtores importantes de vinho do mundo.
   Salete, cadê seu vinho nacional comprado na visita àquela vinícola da região? Estou louco para botar três garrafinhas na frente dele! Ponho três, mas não compro o vinho nacional. Reputo: saberei reconhecer qualquer resultado, mas precisaremos ter uma ou duas pessoas presentes na brincadeira que conheçam de fato sobre vinho. Dizer eu gostei é pessoal e nada tem a ver com os aspectos técnicos da avaliação de vinhos!
   Não acusarei os enólogos brasileiros; não os conheço. Apenas não me façam crer no impossível; eles são apenas enólogos. Não estudaram Milagres I (nem II, nem III) no Vaticano. Estudei Cálculo (I, II, III), depois Física Matemática (I, II) e na sequência Física Estatística (I, II), e sei um pouco como se faz contas. Então não, nossos enólogos não fazem milagres ante as limitações geográficas - e em última análise climáticas - da América do Sul. E da minha parte arrogo-me na aceitação de saber fazer um pouco de contas... mesmo sendo apenas multiplicação, adição e seus contrários...

  Os importadores estão cheios de conversas mentirosas. Loucos para trazer os melhores vinhos para você, aquela estória toda de andar à caça das grandes oportunidades (para eles) trazendo-nos safras apenas medíocres das mais famosas regiões do planeta. Claro, existem muitos pontos fora curva, mas quem olhar a curva em si notará que é de dar medo o quanto os pontos dispersam-se pouco em torno da mediana. E para que? Para pagar USD 10,00 a menos em uma garrafa de USD 100,00, e aumentar mais um tantinho seu ganho? Vagabundos. Nos enganam com mentiras na cara dura, sem o menor constrangimento. Já ouvi várias, quando conhecia menos, e elas pareciam fazer sentido. Queria ver um filho de demônio desses chegar na minha frente nos dias de hoje, com conversinha mole. Peguei um outro dia (importador e produtor nacional), numa degustação online. Chapas brancas saíram da sala rapidinho; o franqueado riu para disfarçar a vergonha; a enóloga da casa não teve coragem de defender a falta de acidez do produto - aliás, abalizou a opinião deste Enochato. Minha avó, se presente, não hesitaria em soltar um Ferro na boneca! com sua voz zombeteira. Cochichou-me, lá do Céu.

   O marketing bombardeia o consumidor com expressivo mau gosto. E não é de hoje! Em 2015 este escriba registrava excessos da concorrência empobrecendo a discussão, com a chamada (adaptada para os dias de hoje) Poderia custar até 30% a mais se fosse importado por outra empresa - está aqui! Aí este dublê de blogueiro faz as contas e conclui ser possível comprar por menos da metade do valor ofertado, caso a importação fosse realizada por importadoras mais honestas. Depois eu é quem sou um Enochato!

   O desejo do consumidor em ser feito de otário também não pode deixar de ser comentado. O importante para esse idiota de plantão é o tamanho do desconto. Sem perceber que o céu não é o limite, sisquece do quanto uma margem pode ser aumentada para então ofertar-se um desconto. Calcule uma margem de 6x, e ofereça 50% de desconto. Pronto, é o suficiente para colocar no bolso o triplo do valor do produto no mundo civilizado. Prefiro 10% de desconto em um importador honesto; invariavelmente compro mais vinho pelo mesmo dinheiro. Adquiro meus vinhos pelo importador, não pela qualidade do produtor. Se necessário, trago o vinho 'famoso' de fora, pois vale a pena. Postagens passadas já atestaram isso. Veja uma aqui!

A subversão das vinícolas boutique (ou de garagem)

   O termo remonta a 1991, quando o J.L. Thunevin, do Château de Valandraud produziu sua primeira safra literalmente na garagem de casa. O movimento levado a cabo por diversos produtores de ponta de Bordeaux foi um resposta ao engessamento hierárquico da classificação de 1855. Muitos produtores que abraçaram o movimento hoje vendem seus vinhos a preço similar ao dos bons Terceiros Vinhedos. Por aqui as vinícolas boutique viraram moda e pouco importa se os vinhedos têm três ou quatro anos de idade, muito novos para oferecer vinhos de qualidade ainda se estivessem em um terroir perfeito. Os carcarás sequer encaram o trabalho duro, pretendem produzir meia dúzia de garrafas e vendê-las a preços exorbitantes simplesmente por seguirem uma moda distorcida por eles próprios em favor de projetos turísticos com nenhum apelo à qualidade.
   Nada contra o turismo vitivinícola. O problema é o uso descarado da máxima explorar o turista, não o turismo, situação onde o produtor inclui seu vinho a preços absurdos no custo de refeição oferecida nos Châteux (rs) país afora aos consumidores de boa fé - mas completamente desinformados. Esses consumidores, sem a menor noção de custo e valor, portam-se como autênticos perdulários acreditando estar consumindo algo similar ao ofertado em outros mercados.

Conclusão

   Maior senso crítico por parte da população - na hora de comprar qualquer idem de consumo, na hora de votar, na hora de ser cidadão - é um imperativo para fazermos deste pasto chamado brasio um lugar digno de se viver. PTlhos e PSDBelhos tiveram tempo suficiente para colocar o país em rota de crescimento sustentável. Nenhum deles o fez. Como toda revolução, a nossa - quando vier - deverá começar por baixo e subir. A conseguirmos mostrar aos maus importadores - de roupas, tênis, vinhos - o devido lugar de seus produtos - no meio de suas ideias do que seja plano de negócios - estaremos melhorando enquanto país. Ela terá de ser uma revolução de costumes: precisamos nos desacostumar (sic! rs!) de ser idiotas e nos portar como cidadãos. Se preferirmos passar por chiques bebendo Catenas e Casilleros como se fossem o fino do fino, e valorizarmos vinhos tranqueiras ao nível de bebidas verdadeiramente distintas, teremos de enfrentar a maldição da ignorância até a próxima gestão do Senhor. Aviso: ela vai demorar para chegar...

Wednesday, March 8, 2023

A estória do valor do vinho II

Introito

The best business in the world is a well run oil company. 
The second best business in the world is a badly run oil company.
John D. Rockefeller


   Venho atualizando algumas etiquetas de marcação das matérias para que o leitor possa encontrá-las mais facilmente. No computador, elas aparecem na lateral direita, mas podem não aparecer na leitura via celular. Nos aparelhos móveis é necessário procurar, no final da postagem, logo acima de minha mini-biografia, a opção "Ver versão de Internet". O botão para voltar à apresentação regular também está no final da página (mais longa) na versão de internet, "Ver versão móvel". Esta série de postagens deve ser lida da mais antiga para a mais nova, para que faça sentido. O mesmo aplica-se às postagens "A estória do vinho Brasileiro" e enfatizo não tratar-se da história do setor, e sim das estórias - contos da carochinha - perpetradas sem o menor pudor por safados de muito pouco escrúpulo. Cada coisa a seu tempo.

Reflexão 1: O poder de compra do nosso dinheiro

   Como vimos na postagem anterior, as importadoras tubaronas especializaram-se em esfolar seus clientes cobrando entre 3 ou 4 vezes o valor do vinho disponível ao consumidor 'lá fora', e ofertando 'promos' que trazem o vinho ao dobro do preço também lá fora. Como a diferença de impostos está em 50 pontos percentuais, faz algum sentido que o preço 'cá' guarde essa proporção com o preço 'lá'. Mas eu quero sugerir que o vinho aqui custe cerca de 50% a mais, e apenas isso. Alguns fatores - custo Brasil - claramente inflam o valor final. Assim trabalhamos com um vinho aqui bem pago custando o dobro do valor do produto disponível ao bebedor dos outros países. É imediata a conclusão que as 'promos' apenas trazem os vinhos a seus valores mais ou menos honestos.
   O saudoso compadre Wilson, graduado em Administração de Empresas pela USP, doutor em Ciências e ex-docente do Departamento de Produção também da USP - portanto alguém com gabarito para falar -, expandiu essa visão: para ele, o cidadão sai às compras (no Brasil) e gasta muito mas volta para casa quase de mãos vazias. Em suas palavras, ele sentia que nosso dinheiro não tem poder de compra em nosso comércio. Neste ponto, o leitor deve ler "A estória das moedas" para entender melhor o próximo ponto. Uma camiseta Tommy Hilfiger custa na loja oficial R$ 350,00, ou 350 moedas para nos. Um tênis Nike Air Max, 500 moedas. Um perfume Fahrenheit (50 mL) sai por 500 moedas, também na loja oficial da marca. Então o cidadão vai para o comércio, compra um par de tênis, uma camiseta e um perfume, desembolsando facilmente R$ 1300,00, ou 1300 moedas. Em 2008 fui 'para lá' com o amigo Duílio, e em Noviorke frequentamos (coisa suspeita) um dos Woodbury Outlets. Passamos o dia fazendo compras. Os perfumes eram de 100 mL, e não de 50 mL. Junto de tênis e óculos, tudo custava 50 moedas. Camisetas, 15 a 20 moedas. No final do dia estávamos no metrô voltando para o hotel. Um parava na catraca e o outro seguia; o que ficara passava as 4 sacolas de uns 300 litros para o outro lado de lá e íamos em frente. No hotel, fiz as contas da bagunça: cerca de 1200 moedas. Não por 3 itens, mas por duas sacolas de 300 litros de camisetas, camisas, calças, shorts, perfumes, óculos, tênis, meias, cuecas, etc. Importante dizer que fomos para lá 'pelados', e toda a compra transformou-se em objetos uso pessoal, sem obrigação de declaração na volta.

   A pergunta então é: por qual motivo você acha que no vinho seria diferente? 🙄 A detratoria - sempre rápida a juntar-se aos bandidos - dirá que 'outros tempos, outros dóla'. Voltei lá em '16 (ou '17), quando o dóla bateu R$ 4,00 pela primeira vez. Nos outlets de Orlando uma camiseta da Tommy custava 20 moedas; comprei jeans da Levi's por até 16 moedas, e uma camisa do Michael Kors por 25 moedas. Os Nike, continuavam 50tinha. Os vinhos, lá? A mesma festa...

  
  


Reflexão 2: A elevação de preço dos vinhos chilenos e argentinos

Chile e Argentina são nossos maiores fornecedores em volume - estamos falando de vinho seco, branco ou tinto, não de vinho suave. Acontece que os vinhos desses países eram mais baratos até ali por 2008, em seus países de origem. Costumava pagar por um Don Melchor, um Dom Maximiano Founders Collection e similares, algo como USD 50,00 no free shop de saída, ou USD 60,00 nos supermercados. Com a declaração do crítico Robert Parker de que os vinhos chilenos estariam subestimados, seu valor subiu para algo como USD 120,00 de um ano para o outro (pouco tempo depois chegou a USD 150,00). Enojado, passei a comprar vinhos europeus na faixa entre USD 45,00 USD 70,00. Alguns bebi relativamente rápido, e as orelhas eriçaram-se: eram bem melhores. Acontecia que então eles eram bastante caros por aqui, ao contrário de chilenos e argentinos, e como eu visitava o Chile com frequência, sempre tinha um estoque desses vinhos para beber - sentindo-me satisfeito. Faltava-me, claro, um padrão de comparação cujo gatilho foi a tal majoração. 

   Por curiosidade, passei a fazer aferições diretas entre os vinhos, e uma delas está aqui, registrada pelo Flávio: confronto às cegas envolvendo um espanhol, um italiano e um chileno. Aconteceu em 2014, e só em 2019 (aqui!) fiz a comparação do valor do Don Melchor (o chileno) em três países, notando que ele custava nos EUA a metade de seu preço no país de origem. E no Brasil, com nossa carga tributária elevada, custava o mesmo valor do Chile! As brincadeiras de avaliação foram tantas que em determinado momento decretei ser melhor deixar chilenos brilharem sozinhos, entre si. Com outros, eles não competem, e por isso não compro vinhos sul-americanos: são caros pela qualidade entregue na taça. Volto a comprar se tiverem preços compatíveis. Eu os bebo com o maior gosto, caso sirvam-me. Mas não os compro, definitivamente.

   Note ainda que em 2008 apenas os vinhos chilenos icônicos tiveram preços majorados. Com o tempo, os segundos vinhos também subiram. E depois os terceiros. Hoje, qualquer lixo engarrafado custa aqui uma exorbitância (no Chile os vinhos básicos subiram apenas pela inflação que assolou o país no último quinquênio). Eles não concorrem com vinhos europeus (bem comprados) na mesma faixa de preço. O que antes era a regra, os europeus custarem mais caro, foi invertido - e o consumidor não se deu conta porque tem a boca entortada por anos e anos consumindo porcaria e acostumada a ela. Nunca provei do Chadwick, mas pela experiência com os demais vinhos de lá, é-me impossível acreditar em uma única vinícola chilena produzindo um vinho de qualidade compatível aos europeus. Chadwick custa no Chile algo como USD 400,00! Esteja claro, não pagarei para ver uma aposta cujo resultado sei de antemão com 100% de certeza... Os vinhos argentinos sempre foram um pouco mais caros - mas são melhores, comparados aos chilenos. O problema é que eles mais ou menos seguiram a mesma curva de preços.

Reflexão 3: O preço do vinho importado no Brasil

   É preciso dizer de saída que a tributação do vinho importado no Brasil mudou ao longo da última década, década e meia. Em 2008 o então sítio Enoeventos (que virou importadora em 2015) apresentou a seus leitores uma comparação da margem média praticada pelo mercado.


   Creio que naquela época o imposto sobre bebidas estava em apenas 25% (os jornais alertavam sobre a cobrança do Quinto - imposto de 20% exercitado pela metrópole portuguesa sobre a colônia - já causar revolta entre a população!). A baliza realizada então estava ligada a outra realidade tributária. Hoje é mais do dobro. De qualquer maneira, a tabela acima ilustra a quanto chegava a margem das principais importadoras. Note como os preços variavam entre 50% e 437%!
   Leitor, estando em Portugal, imagine ver na prateleira da loja um vinho de 10 Euros e outro de 20 Euros. Qual esperamos ser o melhor? O do 20 Euros, supomos. É um mercado sério e competitivo, neguinho não consegue fazer graça. Contudo, o vinho de 10 Euros, trazido por uma importadora tubarona, chega à prateleira pelo equivalente a 40 Euros, enquanto o vinho de 20 Euros, trazido por importadora séria, chega-nos aos mesmos 40 Euros! E aí, como ficamos? Recapitulo a ideia da postagem passada, as importadoras trabalham com uma margem média em todos os seus vinhos. Portanto, a compra inteligente no Brasil é escolher o vinho pela importadora antes de escolher pelo produtor! Infelizmente escolha e inteligência raramente conciliam-se na mesma frase... veja-se os resultados dos últimos pleitos...

O preço e o valor do vinho nacional

   Antes de falar do preço do vinho nacional, levantemos alguns exemplos da concorrência em seus respectivos países de origem. Um Quinta de Chocapalha custa em Portugal 9 moedas. Um Evodia custa na Espanha 6 moedas. Um Gran Taracapá (não é o Reserva!) custa no Chile 5,5 moedas (no Chile são 4.300 Pesos). Um Nieto Senetiner Malbec custa na Argentina 6 moedas (são 1.270 Pesos). Aqui um Country Wine (suave) custa 16 moedas, um Sangue de Boi custa 15 moedas e se chegar em um Miolo básico pagaremos 49 moedas. Um vinho premiado como o Syrah Vista do Chá 2017 (a safra 2016 desse vinho da Guaspari ganhou medalha de prata na França) sai por mórbidas 378 moedas. 

   Não serei tolo a ponto de propor que os vinhos estrangeiros de 6 a 9 moedas possam ser comparados com o Miolo Seleção cujo custo é pelo menos 5 vezes maior, em moedas locais! Duvido mesmo que um Quinta de Chocapalha possa ser comparado ao Vista do Chá com seu custo 38 vezes maior quando pensamos em moeda contra moeda. Olha, se alguém quiser colocar esse na mesa, eu coloco três outros - não precisa ser Syrah, mas também posso prover dessa cepa. E aposto: não vai dar pro cheiro. Recentemente experimentei os produtos engarrafados pela Bueno (não são vinhos!). Custam 90 moedas. Escrevi com todas as letras: Vinhos de praticamente três dígitos que não merecem ultrapassar o segundo (em reais!). É fácil, compre um Bueno (o tinto custa 100 moedas) e compare com qualquer um dos vinhos internacionais mencionados nesta seção. Nesse trecho, onde analisamos o preço do vinho nacional,  ficou um pouco etéreo, afinal depende de uma comparação desapaixonada. 

    Mas estudando o valor, tudo piora... 
   O Clos de Tart é um Grand Cru da Borgonha plantado em... 1141(!), e tem 7.5 hectares. O preço do hectare na Borgonha, para um vinho Grand Cru de qualidade, é cerca de 30 milhões de Euros/moedas. Um hectare tem potencial de produzir cerca de 5.000 garrafas em boa safra (não falamos de baixo rendimento, mas há descarte de uvas nesses vinhedos). Uma garrafa custa (nos EUA) 1000 moedas. Esse é o preço de venda na loja, após o importador comprar junto ao produtor, trazer para seu país e distribuir. Uma safra arrecada então 5.000.000 de moedas. Se o produtor do vinho tiver custo zero de produção e distribuição (Como? Por mágica, ora bolas...), e ficar com todo o dinheiro envolvido no processo, serão necessários 6 anos de produção para gerar 30 milhões de moedas - o custo do hectare.

   Na Serra Gaúcha, um hectare de terreno custa 410.000 moedas, e vem com meia casa (sic) de 3 quartos e 2 banheiros. 
   Tomemos 1 hectare de vinhedos a 500.000 moedas. Um Miolo Lote 43 - vinho excepcional segundo seu produtor - custa 250 moedas (confira lá embaixo que são na verdade 273 moedas). Tomando a mesma produção de 5.000 garrafas por hectare e as mesmas condições de contorno anteriores, 1 hectare na Serra Gaúcha gera 1.250.000 moedas em uma safra, com retorno de 150% sobre o investimento!

   Conclusão: produzir vinho no Brasil - sem levar em conta a qualidade! - é 10 vezes mais rendoso do que na... Borgonha! Desprezando ainda o que possa significar 900 anos de tradição e o reconhecimento de ser um dos melhores vinhos do mundo. Maldito Rockefeller dos infernos, onde estava com a cabeça?! Se fosse minimamente inteligente, produziria vinho no Brasil! A comparação do valor dos vinhos aqui e na Borgonha foi refeita a partir desta matériaRecomendo com muita ênfase uma leitura atenta.

   Esta postagem está comprida, e ainda há muito para falar. Não comentarei vinhos, a despeito de ter participado de várias degustações nas últimas semanas, inclusive mais de uma em homenagem ao Akira - aquela com Nagibin foi apenas uma. Preciso voltar a esse assunto, é verdade, mas as questões estão alongando-se um pouco. Creio que uma pausa possa ser útil. Na próxima postagem, vinho!


















Saturday, March 4, 2023

A estória do valor do vinho I

Introito

Comprar vinhos caros é opcional.
Pagar caro por eles é tolice.
Dito d'Oenochato

   A aparente contradição do preâmbulo pode confundir os neófitos e é a ponta de lança do blog nos últimos anos; tratamos de conscientizar o comprador de vinho do quanto ele pode ser explorado ao adquirir uma garrafa até modesta de sua bebida preferida. O que faz um vinho ser caro? Obviamente (além de modismos) sua escassez. Vinhedos pequenos ou de baixa produtividade geram quantidades minúsculas de garrafas desejadas por gente dos sete mares (sic) e cinco continentes; não há como atender a todos e seu valor sobe, fazendo dele um produto caro. Sua compra justifica-se (além dos modismos... de novo!) pela curiosidade dos enófilos mais experientes em apreciar vinhos com características únicas. Quando falamos de vinhedos delimitados há 500, 600 anos pelos monges Cistercienses na França (principalmente na Borgonha), delimitações tão precisas que apenas técnicas recentes de espectroscopia poderiam melhorar, e cuja produção portanto não aumentará jamais, a exclusividade de uma garrafa torna-se compreensível pelas nuances que somente aquele vinhedo pode proporcionar, e a justificativa do valor está dada. Pode haver bolhas de consumo como a das tulipas na década de 1630 na Holanda, mas a consistência dos preços através das décadas mostra quem tem qualidade de fato. Fique claro: a compra desses vinhos mais caros faz sentido para o enófilo mais avançado e (conectivo de adição!) curioso. Um bom enófilo pode passar a vida toda bebendo vinhos dentro de certa faixa de preço e focar sua curiosidade em outro passatempo: carrinhos em miniatura, selos, joias, sapatos, livros, música, etc. O desejo e curiosidade de cada um é só seu, é personalíssimo, e não pode ser criticado.

   Por outro lado, e exclusivamente no Brasil, acontece um fenômeno raro: o vinho, mesmo nacional, é muito caro. E aqui reside a diferença entre comprar vinho caro e pagar caro por vinho (pagamos caro mesmo pelo vinho barato). Aos poucos, e construindo o panorama: reportagem recente (cheia de erros e incongruências) conta-nos que

Em relação aos vinhos nacionais, mais de 50% de seu valor final é decorrente de tributos, e no caso dos importados o percentual tributário pode ultrapassar a incrível marca dos 70% sobre o preço final de cada garrafa comercializada.

   Os erros e inconsistências estão mais na propaganda chapa branca do vinho nacional; creio que o dado sobre impostos esteja razoavelmente correto. Mas não nos esqueçamos da taxação sobre bebidas na Europa ser igualmente alto, algo como 20%; está aqui. Portanto tenhamos em mente que a diferença entre os impostos indica ser a nossa apenas 50 pontos percentuais a mais.

   Mais uma reflexão: o imposto sobre celulares e notebooks no Brasil é perto de 40%, veja aqui. Reportagens onde os articulistas colocam como escandaloso o fato de um Eufone (sic) custar por aqui o dobro (menos, na verdade) do que nos EUA abundam (veja aqui). E eles já estão escandalizados com o fato de custar o dobro. A fonte da imagem abaixo está aqui.


    Tomemos agora o caso dos vinhos, onde o imposto é um pouco maior. Um Chateau Gazin 2009, grande vinho francês da região de Pomerol, à venda nos EUA por cerca de USD 250,00 (R$ 1.300,00) é ofertado aqui a R$ 8.500,00 (6.5 vezes!), com 'promo' a R$ 4.650,00 (apenas 3.6 vezes). O mesmo pode ser constatado para vinhos baratos, e fiz um levantamento recente aqui, envolvendo seis importadoras, com resultado estarrecedor. Curiosamente não encontramos reportagens indignadas com a margem praticada na venda dos vinhos por diversas importadoras.

   Certo, o exemplo acima é um pouco extremo, mas o que vemos, vezes sem conta, são as conhecidas promoções da metade do dobro. Não porque dobrem o preço do vinho um mês antes da queima, mas porque o valor normal já é 4x ou 5x e então ele entra em promoção. Em tempo: sendo o imposto sobre vinho cerca de 70%, não é de estranhar que o seu preço final guarde proporção com o dobro em relação aos países onde ele é produzido. O consumidor, quando for comprar um vinho estrangeiro, deve valer-se do Wine Searcher, ferramenta que ajuda-o a comparar o valor da mercadoria aqui e lá fora, salvaguardando-nos de comprar vinhos a preços exorbitantes. Com o tempo perceberá que as importadoras trabalham com uma margem média em todos os seus vinhos. Se um é caro, o que estiver do lado provavelmente o será. E assim sucessivamente (claro, existem discrepâncias). A essas importadoras, chamo-as tubaronas. Veja a 'comprovação' dos preços do Chateau Gazin no final da postagem, onde são mostrados os rótulos à venda aqui e lá fora. Esse comentário, rotulado como 'A estória do valor do vinho', e que terá continuação, junta-se a outra postagem, A estória das moedas, na tentativa de apresentar ao leitor uma abordagem mais concreta sobre a questão do valor do vinho no Brasil. Como de hábito, as fotografias das páginas com valores serão apresentadas, e sugestões de leitura com hiperlinks embasarão a argumentação.

Ainda sobre o encontro com o Nagibin

   Na postagem onde relatei a visita do Nagib mencionei ter aberto o Numanthia à meia noite, para bebê-lo no almoço do dia seguinte. O que vocês acham que estivemos fazendo até aquela hora? Com Magide, Cesar e sua esposa Ana degustamos alguns vinhos, claro!

Champagne é uma predileção da Magide, então não poderia faltar. O Taittinger Brut mostrou nariz cítrico com um pouco de fermento, muito vivo, equilibrado, com acidez e permanência médias e boca também cítrica com muito frescor. Comprada da última vez que estive no Chile, lá por '17, talvez, estava bastante agradável. Lembro de ter pago bem próximo a R$ 200,00, e seria a metade do valor daqui à época. Queria surpreender os convivas com algo alegre e arrisquei duas horas de aeração sobre o Belcore 2019 da I Giusti & Zanza, produtor sediado na Toscana. Este corte  80% Sangiovese e 20% Merlot é um supertoscano vendido no sítio do produtor a € 15,50 (R$ 85,00), pelo qual paguei R$ 130,00 em promo e vale quanto pesa. O Cesar achou um pouco fechado, novo ainda, e ele ou Nagib apontou cereja - é uma das expressões da Sangiovese. Tem mais fruta, e tem algo na linha chocolate/café com acidez média, taninos um pouco pronunciados em meio aos 13,5% de álcool. Estava bem melhor no dia seguinte durante o almoço, e ainda bebi dele com muito prazer à noite. O Numanthia, na noite seguinte, também estava ótimo. Depois tivemos um Château Chantemerle 2016, Cru Bourgeois do Medoc. Os Cru Bourgeois são uma categoria promocional de vinhedos não listados na classificação de 1855 e já comentei aqui. Note ainda que ele não deve ser confundido com o Quinto Vinhedo Château Cantemerle da referida classificação de 1885. Chantemerle está pronto para beber, e com alguma aeração mostrou fruta bem viva e outros detalhes que não registrei. Aporta boca agradável, fácil de beber, acidez presente sem contudo ser tão marcante, final médio e não mais. Está um pouco caro, R$ 200,00, mas é melhor do que muito francês a preço superior e seguramente bate tudo o que produzimos na vizinhança (Chile, Argentina, Uruguai), nessa faixa de preço. Ele e o Taittinger acabaram no dia...


Valores do Château Gazin aqui e lá fora.