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Sunday, October 17, 2021

Era-se uma vez meu vinho piada pronta... 😨

Introito

Comentei há algum tempo sobre rótulos de vinho engraçados, quando mostrei alguns exemplos. Existem muitos outros, claro; do inusitado ao divertido, passando pelo mal gosto, tem de tudo. Um muito simpático é esse aí ao lado, Slow Lane Cab... Táxi da Pista Lenta? No sítio do produtor encontramos um comentário justificando rótulo e nome, conectando-o à proposta da produção do vinho. Só o caminhãozinho do rótulo não está carregado com uvas... de resto, tudo casa. Conheci-o em 2008; foi interessante. Estava na loja (uma Liquor Store) e pedi por uma garrafa de 25 ou 30 dóla. O Duílio ia cozinhar uma gororoba qualquer, e a ideia era um vinho para acompanhar. Era uma época de 1 dóla = 1,76 real... O atendente mostrou-me um bem no preço que pedi, mas sugeriu: "Se você está pagando 30 por um vinho, leve este por 36". Ara, que dúvida... levei os dois! Gostei tanto que voltei no dia seguinte e comprei mais uma garrafa de cada; queria porque queria (sic) compartilhar com os amigos do Brasil... Ah, o outro era nada mais nada menos que um Orin Swifit (produtor) Prisoner, que entraria no top 100 da Wine Spectator do mesmo ano. O Slow Lane foi posteriormente avaliado com 96 pontos pelo Parker. Menos... 94 estaria muito bom... 😝

Austrália

  A Austrália é um grande produtor de vinhos. Em termos de volume, anda sempre embolado com Chile, Argentina e África do Sul. A China está vindo aí com produção semelhante, mas não tenho qualquer notícia sobre a qualidade. Ela está geograficamente bem localizada; o problema é que são uns novatos na arte. Os vinhos podem ser ruins agora, mas chineses não fazem as coisas pensando em 50 anos... é um período de tempo muito curto. Ciência e cientistas para aprimorar suas leveduras eles têm, e se pensarmos em concorrência, devemos esperar o pior, ou o melhor, sei lá... sei mesmo que naquelas bandas os orçamentos de ciência e tecnologia não sofrem cortes de 90%... Voltando dessa digressão, a Austrália tem sua produção fortemente calcada na cepa Shiraz, embora Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Chardonnay também tenham forte presença. Australianos tentam de tudo sem medo nem vergonha, plantando Nebiolo e Barbera (nativas do Piemonte), Sangiovese (Toscana), Viognier (Rhône) e outras mais. Seus GSM, corte de  Grenache, Shiraz e Mourvèdre, inspirados no Rhône, são respeitados. Alguns Chardonnays - Cullen e Giaconda - atingem valores de 100 dóla, o que os coloca lado a lado com borgonhas Premier Cru de bom nível. Nunca provei esses brancos, mas os comentários são instigantes. As regiões mais famosas são os vales de Barossa, Clare e McLaren, sem prejuízo de outros também importantes. Seus principais ícones atingem valores superiores a 500 dóla (Granges, Hill of Grace), pelo menos o dobro dos exemplares sul-americanos. O melhor de tudo é que aqueles são bons...

Um início despretensioso

A reunião desta sexta-feira teve na abertura o Castello di Ama Al Poggio branco 2012, Chardonnay IGT produzido por conceituada casa da Toscana, a Castello di Ama, famosa por seus Chianti e pelo IGT L'Apparita, 100% Merlot. Al Poggio estava oxidado, o que não o tornou menos atraente. Nariz cítrico evidente para todos e sugestão de amêndoa apontada por este Enochato encontrou concordância nos convivas. Boca um tanto ligeira e acidez um pouco em declínio não tiraram algum encanto pelo conjunto. É um vinho do 20 dóla lá, à venda aqui (atualmente na safra '16, segundo estimativas no limite do frescor) pela bagatela de 500tão. Vejamos: 20 x R$6,00 = R$ 120, o que dá mais de 4x. A safra '12 foi comprada em 'promo' e infelizmente ficou guardada um pouco a mais de tempo. Custou em 2018 R$ 138,00. Pode? Pode... brasileiro adora conceder graças muito além das merecidas a vinhos e a importadores. É isso o que pedimos, é isso o que recebemos.

Servi a primeira rodada do Xisto Roquette e Cazes 2005 um pouco cedo, e a falta de refrigeração gerou olhares recriminadores por parte os convivas. Foi um fora... 🙄. Mas a segunda rodada algum tempo depois restaurou a bonança à mesa e os olhares tornaram-se mais alegres. Opiniões indicaram que poderia ser 2015, ou algo assim. Muita fruta, álcool menos evidente pela temperatura adequada, acho que a Dona Neusa falou de algo terroso. Tinha boa acidez, bons taninos, tudo bem balanceado. Havia experimentado outra garrafa dessa safra em Abril de 2020, e não estava tão boa. Desta vez foi muito diferente; estava bem mais próximo do que de espera para um vinho em seu preço. O chão afunda quando nos tocamos que, apesar de ter aberto bem, o vinho não evoluiu com o tempo. É aquilo, abre e fica; característica de muitos sul-amerianos tidos como bons. Analisar vinhos é difícil, né? Tenho dito... Anda na faixa de USD 80,00 (lá), e aqui está entre R$ 1.150,00-1.500,00. No... no se puede... Novamente preço entre 3x-4x, claramente superestimado já para seu preço 'lá'. Veja os comentários sobre esse vinho no vínculo e compare a percepção daquela garrafa. O último ponto é que a 80,00 moedas, dá para lembrar de uns 30 concorrentes de relação custo-benefício bem melhores. É possível enfileirar Chiantis, Barolos, Brunelos, Xatenêfis, Barbarescos e Rhônes, sem falar em muitos espanhóis e até diversos portugueses - por que não? Pior de tudo: pelo preço muito alto aqui, podemos comprar borgonhas de ótimos produtores por preço similar. Isso apenas desnuda mais ainda o quanto o preço está desbalanceado. Cadê os energúmenos para tentar dar um contra?!

Meu vinho piada pronta

- Olhalá (sic!), comprei esse vinho pensando em você!
Quantos e quantos não recebi em minha adega com essa piada pronta na manga. Bastava a pessoa se interessar um pouco e pedir para mostrar alguns vinhos que, lá na terceira tirada chegava a esse australiano. Muitas vezes o conviva ria; se ensaiava algum desgosto, logo ouvia:
- Pow... falei do vinho... O Parker pontuou com 96, disse que é elegante, potente e com personalidade... e você olhou o nome o rótulo...  Era a deixa para acabar tudo em risos. Old Bastard 2002 é produzido pela Kaesler, no Barrosa. Tem 15% de álcool que não se percebem; pela cor os convivas chutaram algo como 2015 (novamente!), porque não tinha nenhum halo que pudesse indicar ser envelhecido. Frutas vermelhas e negras e especiaria também indicavam sua jovialidade e complexidade. Boca pegada, com taninos muito maduros trasmitiram que era um grande vinho. Boa acidez, persistência e final longo... com o tempo ainda mudou no nariz, conforme muito bem notado pelo Akira, que se não bebe continua cafungando com maestria. Já experimentei alguns bons australianos: Torbrecks (mais de um, não postados; um registro de Don Flavitxo aqui), vários Kilikanoon (um na mesma postagem!), alguns Vasse Felix, outros (sic) Penfolds, etc. Nunca fiquei triste com um australiano na taça. O maior problema é o custo deles nas mãos de alguns importadores. 

O trio foi degustado com algum queijo e embutidos de entrada e um maravilhoso filé mignon de lombo suíno com alho poró e ervas de Provença, magistralmente preparados pela Márcia e trazido pelo Ghidelli. A tristeza ficou por conta da ausência da cozinheira. Ela tinha outro compromisso. Espero que esteja presente em alguma das próximas... faltaram mesmo fotos dos petiscos e prato principal. Ainda tivemos um bolo - ei, o que era, mesmo? 😕- gentilmente trazido pela Dona Neusa e que acompanhou bem um Sauternes do Château Doisy-Védrines 2016, que o leitor pode encontrar em outras postagens. Como diria Baco... teve bão... 🤤

Tuesday, April 28, 2020

Um "pega pá capá" à portuguesa

Introito

   Gosto de vinhos portugueses. Sempre gostei, aliás. Nos anos 80, já eram comuns em supermercados de rede os exemplares da Bairrada. Não deviam ser grande coisa, mas este experimentador também não o era. Não naquela época. E não que o seja hoje, mas pelo menos atualmente ele tem alguma noção da própria ignorância e um pouco de senso crítico, o que, convenhamos, é um avanço e tanto. Havia também o Casal Garcia e o Calamares, que faziam muito sucesso entre o público, e o Lancers, menos famoso, tinha seu séquito apoiado no 'charme' da apresentação em garrafa que imitava terracota. Quem procurava tintos, encostava-se naqueles exemplares de Bairrada e Dão, estes representados pelo Catedral e Grão Vasco. Tinha, ainda, o indefectível Periquita - quem não conheceu, naquela época? Ainda vejo por aí, só me pergunto se tem a mesma aceitação no mercado atual. A quantidade de opções cresceu bastante...
   Sim, as opções apareceram. Seu crescimento foi desordenado, infelizmente. Esse "desordenado, infelizmente" vem do fato que as opções cresceram, mas o consumidor não foi tão beneficiado assim. Importadoras com margens pornográficas estabeleceram-na mais ou menos naquele momento, e o consumidor não tinha noção do quanto precisaria estar atento. Descobrir marcas de menor markup, ou de um markup minimamente 'honesto' deve ser exercício diário do bom consumidor neste país, mas isso só ficou mais claro com o advento da internet, quando pudemos começar a notar o preço dos produtos lá fora. As coisas aqui (no Brasil) são muito distorcidas. De longe, as mais (distorcidas), dentre os países que poderíamos chamar de 'potências'. Infelizmente. Aliás, pelos acontecimentos recentes - recentíssimos - estamos nos afastando cada vez mais do patamar que nos permitiria aspirar a tal designação.
   Um detalhe chato é que em S. Carlos - e região - os rótulos quase não mudam. Às vezes aparecem algumas novidades, em alguma degustação. E então essas 'novidades' acabam por tornar-se as novas 'carnes de vaca'. Ou seja: a disponibilidade de rótulos parece seguir-se a um certo crescimento do número de consumidores, mas também parece ficar limitada a eles! O resultado essa inércia dos lojistas, a médio/longo prazo (digo, desde 2010 para cá, mais ou menos), acabou sendo devastador para os próprios lojistas: muitos consumidores começaram a enveredar-se pela internet, foram apreciando outras opções - boas compras ou não - e percebendo que, em essência, dependiam muito pouco - ou nada - dos lojistas daqui.
   Desde sempre sou a favor do lojista. É ele quem promove - quando as promove - degustações para estarmos em contato com produtos e produtores. Não há melhor experiência do que vivenciar in loco um momento onde podemos 'emergir' em nossa bebida preferida, trocar ideias com 'amigos-bebedores' e conhecer outros. Mas o lojista também precisa perceber que ele é quem está ao nosso serviço, e não nós ao dele. A inversão dessa regra extremamente simples permitiu que o gado escapasse para o campo. E, rebelde, parece prometer cada vez mais que não voltará...
   Também é preciso comentar que o preço da 'imersão' proporcionado por uma degustação não pode ser a eterna submissão aos mesmos produtores, trocando-se apenas a safra. Já há muito tempo não quero mais a safra nova do velho vinho. Quero a safra velha do vinho novo. Para quem faz sentido, ótimo; não estou a fim de desenhar hoje.
   Como argumentos derradeiros, dois depoimentos:
   O do Flávio 'Vinhobão' (o Don Flavitxo de tantas postagens): um dos primeiros compradores do sítio da Wine tão logo ela apareceu no mercado, Flávio, que mora em condomínio, passou pelas fases de ser parado na portaria para receber sua caixa de vinhos, e notar que lá só estava a dele, para uma situação, já de anos atrás (quando ele contou-me a história), onde chegava a receber por engano a caixa de outro, dadas tantas outras que aguardavam seu feliz proprietário na 'casinha' do porteiro. E, pela conversa dele com os porteiros, 'é todo dia assim'!
   O meu próprio depoimento: comecei a 'acessar' chilenos um pouco melhores lá por 2004, quando passei a visitar o país regularmente por conta de velhas amizades enfim recobradas. Trazia, por USD 20,00 (ou menos), naquela época menos de R$ 40,00, vinhos que aqui custavam R$ 100,00-R$ 130,00. Eram vinhos que eu chamava várias pessoas a degustar e dividia com elas pelo custo 'de lá'. Aliado a isso, comecei a ler sobre vinhos e produtores, o que ninguém fazia. Citando de cabeça algumas regiões e uvas dentro delas, os confrades começaram a acreditar (risos!) que eu sabia mesmo sobre vinho. Sem maldade. O foco deles apenas era diferente: gostavam de vinho, mas não liam sobre. Mais do que justo, não queriam ser especialistas. Mas chamou-me a atenção quando muitas dessas pessoas, ao começarem a se 'desgarrar' do mercado local, vinham partilhar comigo - no encontro casual em algum restaurante, ou até nas próprias degustações locais(!) - a boa nova de terem encontrado um lugar 'assim e assado' em S. Paulo, na maior parte das vezes, com vinhos diferentes e preços melhores... sacou?

Embate de 'gigantes'

   Essa degustação aconteceu há algum tempo. Não avisei ao Flavitxo que levasse um portuga; disse apenas que levasse algo 'bom'. Flavitxo, como de hábito a tais chamados, não se fez de rogado: compareceu em alto estilo e fomos todos beneficiados pelo acaso. Mas voltemos ao começo.
  Um belo dia acordei com a pá virada (rs!) e resolvi que alguém pagaria o pato. Andava de marcação com 'ele', de modo que nem posso negar ter sido um 'caso pensado'. Combinei com a turma uma degustação às cegas; todos toparam. O convite ao Flávio veio depois. Estava era com desejo de experimentar mais um Xisto Roquette... e assim que preparei a 'brincadeira':
   Claro, levei todas as garrafas devidamente embaladas em papel alumínio. Don Flavitxo faria o mesmo. Vamos lá:
   Xisto Ilimitado (2016) e Xisto Cru (2014): lavras durienses de Luis Seabra, que deixou seu posto na respeitabilíssima Niepoort para tornar-se dono da sua própria marca, emprega principalmente - mas não apenas - as consagradas Touriga Franca e Alicante Bouchet. Preços na importadora: R$ 165,00 e R$ 383,00, respectivamente. A confirmação, como de hábito:

   Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas (2008) e Xisto Roquette e Cazes (2005): mais durienses, desta vez produzidos pela famosa Quinta do Crasto. É um grande produtor da região, mas nem por isso seus vinhos deixam de ser bem acabados. Vinhas Velhas tem uma produção realmente grande, 80.000-90.000 garrafas. Já Xisto Roquette e Cazes é produzido apenas em safras específicas - foram apenas oito desde 2003, sendo 2015 a última safra disponível. O sítio da Qualimpor - importadora dos proprietários da própria Quinta do Crasto, que são os mesmos da Herdade do Esporão, também por ela representados - não traz mais os preços dos vinhos. Assim, precisamos apelar para o wine-searcher. Vinhas Velhas: entre R$ 332,00 e R$ 583,00. Xisto Roquette e Cases: entre R$ 779,90 e R$ 1.398,90. Pow, chega a quase 100% de variação. Para efeito de idoneidade e registro,


   O Xisto Roquette e o Vinhas Velhas passaram por aerador. Ambos do Luis Seabra respiraram em garrafa. Duas horas e pouco para todos. Em seis pessoas, as cinco garrafas serviram a todos e sobrou um pouco de cada. O Flávio comparecera com um Quinta do Noval, vinho de excelente produtor.

   Digno de nota, a certa altura puxei o Flávio de lado e perguntei o que ele achava dos vinhos. Dos dois primeiros (Xisto Ilimitado e Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas), comentou que o primeiro parecia-se muito com o... Xisto Ilimitado(!), que ele experimentara há alguns meses e achara muito 'justo'. O segundo, identificou como duriense (!), e disse que estava muito bom. Melhor do que o primeiro. O terceiro, achou que poderia ser espanhol. O quarto (Roquette e Cazes), cravou duriense também(!). O quinto era o vinho dele.
   Na opinião dos bebedores - e isso foi quase unânime - o primeiro vinho ficou abaixo do segundo. Havia clara superioridade, mas era de 'um degrau'. Já o terceiro (Xisto Cru), foi considerado bem superior ao segundo, e próximo do quarto (Roquette e Cazes). O quinto foi considerado por todos o melhor, sem margem para discussão. O quinto era, portanto, o Quinta do Noval.
   Isso não se reflete nos preços dos vinhos, nem 'cá' e nem 'lá':
   Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas, 25,00 €/R$ 332,00 e R$ 583,00
   Xisto Roquette e Cazes, 71,00 /R$ 779,90 e R$ 1.398,90
   Xisto Ilimitado, 12,50 €/R$ 165,00
   Xisto Cru, 33,00 /R$ 383,00
   Quinta do Noval, 54,00  / não encontrei estimativa para essa versão do Noval; recentemente aportou por aqui um Quinta do Noval Reserva, mas não tenho certeza de ser o mesmo.

   Outro fato digno de nota: logo que abri o primeiro vinho, o Flávio, com um sorriso maroto - ele chutara para o grupo que aquele poderia ser um Xisto Ilimitado - levanta o dedo e avisa:
   - Então vou reformar minha opinião que dei ao Carlão em reservado. O terceiro é o Xisto Cru.
   E era mesmo...
   Preciso falar de qualidade dos vinhos, de terroir? O Flavio cravou a origem todos... São vinhos de bom equilíbrio, boa boca, bom nariz, prontos para beber (também... um Roquette 2005...).

Conclusão

  Este 'mega embate' (risos!) comprova, mais uma vez e para náusea dos seguidores, aquilo que venho 'batendo' desde... sempre?: belos vinhos, em regime de péssimas compras, não proporcionam um prazer proporcional ao preço. O problema é que isso só fica mais evidente quando se faz uma comparação de 'alto nível', quer dizer, quando se tem a oportunidade de apreciar vinhos de padrão semelhante - neste caso, Xisto Cru, Roquette e Cazes e Quinta do Noval. Percebemos que, 'preço lá', a diferença entre  Xisto Cru e Quinta do Noval simplesmente... 'faz sentido': Noval é superior, portanto 'vale' mais.  E o preço de Xisto Roquette e Cazes parece mais uma piada - infelizmente. E olha, estou dizendo 'lá'! Ainda 'preço lá', Xisto Ilimitado é uma ótima compra, já que custa a metade (aqui também!), por apenas 'um degrau' abaixo, quando comparado com Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas. Onde se tem uma concorrência 'porta a porta' - você sai da porta de um produtor e entra na porta de outro -, os preços tendem a ser mais equilibrados.
   Desnecessário declarar, mas vamos lá: nada tenho de pessoal contra ou a favor de qualquer um dos produtores. Aliás, conheço pessoalmente o pessoal do Crasto/Esporão, e desconheço completamente o senhor Luis Seabra. Aqui está expressa apenas a opinião. E não somente a minha! Depois, paguei por todas as garrafas (não sei o Flávio - risos). E não é porque paguei mais por um vinho que mostrou-se inferior que vou falar mal dele. Reafirmando, a percepção dos vinhos foi praticamente unânime. Por conclusão, os vinhos do Crasto são bons, mas a esse preço são péssimas compras. Diminua-se o preço a ponto de torná-los competitivos, e reformo minha opinião no dia seguinte. Não, não. No mesmo dia.
   Não tenho nada contra o produtor querer valorar seu produto. Afinal, se ele tem belos olhos, o produto dele deve valer mais, não é mesmo? Se a última declaração está certa ou errada (risos), é apenas plenamente discutível (gargalhadas!). Mas nada como uma avaliação corajosa e independente para posicionar as coisas nos devidos lugares. É mais ou menos como o caso do Sassicaia: é bom? É. Vale USD 215,00? Never... mas tem quem pague. A isso, chamamos 'mercado'.

Thursday, November 8, 2012

Quando os vinhos não são vinhos

   O título desta postagem tem um duplo sentido: o primeiro, e mais óbvio, é quando os vinhos não são vinhos, são vinhões; vinhobão, como diria o Flávio, ou vinhosbãos, como emendaria o Akira. O segundo sentido é quando vinhos cujas cepas o provador conhece não se comportam como o esperado para aquelas mesmas uvas. E foi um pouco o caso, desta vez. Vejamos o conjunto degustado:

   O rega-bofe aconteceu por causa da efeméride do dia último dia 31 - outros eventos precederam este, o que garantiu-me farto material para escrever; só falta desembuchar... O evento descrito abaixo deu-se no dia 3, sábado.

Um início modesto...

   Recebi a galera com o Cabernet Sauvignon Medalla Real 2007, um Gran Reserva da ótima Santa Rita. Um Cabernet chileno típico: potente (as "leves notas de madeira" do contra-rótulo são pura mentira - rs! - a madeirona está lá, não passa despercebida sequer pelos não iniciados), frutos negros evidentes, taninos bem presentes e - agora sim concordo com as informações da garrafa - final persistente. E sim, largo: depois de passar pela garganta, o vinho continua lá, na salivação. Só que essa característica persistiu nos demais vinhos da noite, o que então deixarei de citar nos próximos comentários. Seus 14% de álcool  quase não aparecem. Quase. Considerando os 12 a 14 meses que o vinho passa em madeira, podemos dizer que seu potencial de guarda deve estender-se por bons anos, ainda. Deixaria mais uns três, e os taninos deverão estar mais amaciados.

Graves ofensas

   Como o Akira ameaçara um ataque com graves ofensas, digo, grande poder ofensivo, e o Flávio avisou que não deixaria por meno, resolvi-me por uma atuação na defensiva. Abri, com cerca de 4 horas de antecedência, um Torre Muga 2005 e um Xisto Roquette e Cazes 2005. O Dom Maximiano de Errazuriz  Founder's Reserve 2005 ficou como tropa reserva, sendo aberto a uma hora do início das hostilidades. Talvez o erro tenha sido abrir os dois primeiros e não retirar um pouco de vinho de cada garrafa para aumentar a área de respiro do vinho na própria garrafa. Segundo meus detratores, o erro foi mesmo não passar o vinhos para o decantador, imediatamente. Respondo-lhes que tenho mais uma garrafa de cada, para novas tentativas (e erros - gargalhadas!). Como cada um apresentou suas tropas devidamente envoltas em papel laminado, a briga de foices no escuro estava bem estabelecida. E neste ponto gostaria de esclarecer o título da postagem: a maior parte dos vinhos, apesar de feitos com cepas bem características (ou quase), não foram reconhecidos pelos valentes combatentes que cruzaram suas taças por sobre o campo de batalha, digo, por sobre a mesa que nos amparou. Comentemos.
   Torre Muga 2005: diferente do que eu acreditava, não é 100% Tempranillo, mas um corte de Tempranillo 75%, Mazuelo 15%, Graciano 10%, 14% de álcool. Ninguém reconheceu a cepa principal, embora o Flávio e o Akira identificassem como ibérico. Muito macio - no sentido de aveludado - resultado de 24 meses em barrica, tem a potência dos chilenos casada com a graça e leveza (por contraditório que pareça) que se espera de um Rioja.
   Xisto Roquette e Cazes 2005: corte de 60% Touriga Nacional, 25% Tinta Roriz e 15% Touriga Franca (14% de álcool), também foi classificado como "ibérico" sem que a Touriga, Nacional principalmente, fosse reconhecida. Melhorou muito lá para o final; ficou muito elegante, mostrando frutas vermelhas e, pareceu-me, um pouco de chocolate. Envelhece 18 meses em barrica, e a impressão foi que ainda dura mais um bom tempo.
   Dom Maximiano de Errazuriz Founder's Reserve 2005: outro vinho a envelhecer 18 meses em barrica, esta combinação de 85% Cabernet Sauvignon, 7% Cabernet Franc, 5% Petit Verdot e 3% Shiraz (14,5% de álcool) é um clássico. Foi o único reconhecido pelos bebedores, e classificado como "um chileno, sem dúvida". Mais para o meio do encontro e o Akira acertou quem era, para gáudio de uns e desespero de outros. Redondo e macio como sempre, frutos vermelhos evidentes no nariz e especiarias na boca, agradou principalmente as madames presentes.
   Colomé 180 Años 2010: desenvolvido para comemorar em 2011 o centésimo octogésimo aniversário da tradicional vinícola argentina que possui os vinhedos de maior altitude da América do Sul, chegando a 3.111 metros. A bodega fica na região de Salta, bem ao norte do país, e muito distante de Mendoza. O 180 Años é um 100% Malbec (14,5% de álcool) que também não pareceu um Malbec. Eu chutei que fosse um vinho francês - nunca a cor de um vinho despertou-me tanta atenção - e o paladar estava muito leve. Muito redondo, frutado, especiarias evidentes, mas não aquela picada da Malbec, tão característica. Segundo o próprio Flávio, que o levou, um infanticídio. Os infanticidas agradeceram...
   Da terra dos marsupiais, chegou (via NY), o Covenant Shiraz 2004, da Kilikanoon, vinícola estabelecida em Clare Valley. Este vinho de entrada (o mais simples) da Kilikanoon obteve nada menos que 94 pontos RP, e custa (nos EUA), a bagatela de US 35,00, com impostos. Estagiou 22 meses em madeira e após decantação mostrou o porquê na nota: seus 15% de álcool não dão mostra da presença, integrados à fruta vermelha e com notável persistência na boca. Mas não, não pareceu em nada um Shiraz, e ninguém acertou que fosse australiano. A menos do Akira, é claro, mas ele era o dono da criança...

Conclusão: o "duelo escondido"

   Entre minhas escolhas, uma motivação (claro, preciso manter a posição de chato): um pequeno duelo entre o Dom Maximiano e o Torre Muga. Justificativa: minha antiga reclamação do aumento exorbitante nos preços dos vinhos chilenos. Eu pagava entre 50 e 60 dólares por um Dom Maximiano, e de repente eles saltaram para 130 dólares (no Chile), 80 ou 90 dólares nos EUA e 103 dólares no nosso free shop. Eu esperava um roundhouse kick do Muga sobre o Maximiano, o que, sejamos sinceros, não aconteceu. Foi mais um "empate técnico", já que as mulheres apreciaram o segundo, e os cavalheiros, o primeiro, embora com pouca vantagem para o Muga. Contudo, o Muga custa lá fora 70 dólares... Eu já repensei sobre minhas futuras compras de vinhos de melhor qualidade. Apesar da pouca vantagem do Muga, a diferença de preço em favor deste recomenda sua compra sem qualquer vacilo. No Brasil, o preço de ambos é similar (e pornográfico). Preço por preço...

A seguir...

   Quer um vinho para expulsar de vez a sogra da sua vida? Quer um vinho para você levar no encontro da confraria, todo mundo falar mal e o vinho sobrar, para depois você bebê-lo sozinho, em pleno deleite? Abra e sirva este:

É uma agressão aos sentidos. Irrita o nariz. Não tem gosto de vinho. Sequer de água de rio. Abri ontem às 16:00 sem tirar nada da garrafa e, às 20:30, retirei um dedinho. Na safra 2007, é o pesadelo dos vinhos. Completamente fechado; daria para trocar por um Toro Loco. Tanto que, do primeiro dedinho, restou um fundinho de taça. Levantei-me às 5:00 do dia seguinte, peguei o fundinho de taça e... apesar de ficar aberto todo esse tempo, mudou sem estragar. Às 6:00 coloquei mais um dedinho na taça, a taça na geladeira, tampada com um desses plásticos de guardar comida, para que o vinho não pegasse outros odores. Hum... começando a transformar-se em vinho. Apenas senti o buquê. Termino esta postagem às 9:26 (fiz pausas enquanto escrevia), e a taça entrou e saiu da geladeira duas vezes, para recobrar a temperatura perdida. No nariz, está se transformando em vinho. Na boca (experimentei somente agora), ainda amarra demais - ok, o Numanthia é naturalmente muito seco, mas agora ainda causa estranheza. O abate será hoje à noite. Preciso decidir se ele entra no decantador a partir das 16:00... que Baco de ilumine...