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Saturday, March 8, 2025

Beberagem de Carnaval - atrasada!

Introito: é assim que o Brasil vai pra frente!

Compre vinhos caros, se puder, porque eles valem a pena.
Mas não pague caro por vinhos, pois isso 
é bem diferente de comprar vinhos caros...
Oenochato

 
Existe uma defensora dos direitos LGBTQIA+ cuja trajetória é marcada pela assistência às pessoas trans e negras, e especialmente ao combate à transfobia e ao racismo estrutural. Ela também enfatiza a importância da aceitação da própria imagem, desafiando padrões normativos e promovendo o orgulho trans. Eleita deputada federal, tornou-se um símbolo da resistência e da representatividade de toda uma classe social na política. Desfilou por alguma escola de samba neste Carnaval de 2025, e comenta-se que ar-ra-sou(!) na Avenida (não sei qual). As fontes das fotos acima estão aqui e aqui. Noto como ela estima a valorização da própria imagem e de sua cor, e lembro-me do Michael Jackson, perguntando-me: a deputada teria vitiligo? É uma questão acadêmica, claro; como bem sabemos a cor de uma pessoa não é importante. Seu caráter o é - sempre. Importante mesmo é registrar a transformação pela qual vem passando a festa mais popular do país, deixando de lado - e definitivamente, espero - marchinhas toscas e idiotas tipo Olha a cabeleira do Zezé... e tantas outras, para assumir sua posição de vanguarda na luta pelos direitos sociais das minorias. A sociedade brasileira em peso seguramente apoia essa mudança de rumo; eu mesmo, sem prestar atenção ao evento nos últimos 20 anos, pelo menos, posso dizer de peito estufado: Agora sim! No próximo ano prestigiarei o acontecimento ao vivo, na Avenida (não sei qual). Ao contrário do bordão dos anos 1970, originado em programas humorísticos de televisão e repercutido desde então por toda a sociedade, podemos afirmar que é assim que o Brasil vai pra frente!

As Malucas durante o Carnaval

Durante o Carnaval as Malucas reuniram-se na humilde choupana deste Enochato para a celebração dessa festa pagã. Sem a Débora adoentada, 😥, ficamos todos extremamente infelizes ao ter de verter para dentro de nossas gargantas sua parte nos vinhos. O Chablis Vielles Vignes 2022 do Domaine de la Motte tem sido consumido a torto e a esquerda (sic!) pelas confrarias. Comprado a bom preço (R$ 179,00, se não me engano), talvez estejamos queimando as garrafas ainda um pouco jovens. Pode sim ser degustado, mas segurarei duas minhas um pouco mais. Essa foi trazida pela Liu, e mostrou um nariz cítrico bastante evidente e alguns toques de frutas brancas também (percepção da Liu?). A mineralidade, igualmente, apresentou-se conforme esperada: bem característica, como já encontrada nas outras garrafas, junto de boa acidez, perfazendo uma boca potente e persistente, com frescor e agradável. Esgotou-se a R$ 399,00 (um assalto!), enquanto lá fora é avaliado em 20,40€/USD 24,00. A menos de R$ 200,00, teve boa (sic)... O anfitrião aportou o Château Chantemerle 2016, Cru Bourgeois cujo significado foi comentado rapidamente aqui. A Luciana tocou o terror - não o terroir! 🤣 - registrando um bodum a bota, chulé, pé mal lavado 😣... suspeito estivesse enfatizando couro, presente, e um pouco de Brettanomyces - Brett - um fungo que de fato contribui com a percepção de algum mal cheiro às vezes até mais desagradável - estábulo mesmo. Não notei, mas deve ser atribuído à minha deficiência antes de qualquer outra coisa. Acidez presente sem marcar tanto, taninos suavizados, final médio, alguma persistência perfazem um vinho razoável, decente, pronto para beber sem muito compromisso. Por sobremesa, um morango com chocolate trazidos pela Liu, e acompanhados com algumas sobras do meu níver (outubro!) ainda remanescente: Tokaj (Oremus), Moscatel de Setúbal (Bacalhoa 2011) e Sauternes (Guiraud). Ninguém reclamou... 
 
   Voltando ao Chantemerle, pelo que custam os vinhos por aqui, adequado e acima da qualidade média, ao preço de R$ 200,00, à época. Está esgotado na importadora (Enoeventos), mas eles possuem outros Cru Bourgeois em estoque - apenas fique esperto e confira no Wine Searcher se não está pagando caro demais, pois ela não tem mantido a política de preços de antigamente. Com a crise dos últimos anos as tubaronas começaram a abrir o bico, algumas mais cedo, outras apenas recentemente. Desde então acumulei estoque significativo de Quinta do Noval, desde Cedros degustados com alguma frequência, Quinta do Noval em diversas cepas (Touriga Nacional, Syrah, Petit Verdot) e mesmo o Reserva (safras '16 e '18), comprados - pasme - às vezes até a R$ 200,00, constituindo-se em compra sem igual naquele momento. E se procurar de repente ainda encontra a R$ 260,00. Não deixa de ser uma boa aquisição, pois é um vinho de seus 45,00€ em Portugal. Em suma: procure, pesquise. Compre vinhos caros quando puder, pois eles são bons e valem a pena. Só não pague caro por vinhos, porque isso é bem diferente de comprar vinhos caros...
 
   Como recordação e registro, as Malucas: Liu na foto, Luciana, Mário e este Enochato.
 
 
   Também para registro, o valor de 'mercado' do Chablis (esgotado) a R$ 400,00, e seu preço segundo o Vivino e o Wine Searcher, em Euros e Dólas, respectivamente.
 

Monday, November 13, 2023

A Paduca e as Paduquetes

Introito

   Aproveitemos a indulgência do leitor e tentemos reerguer este blog quase morto... conversando com alguns deles, seja por uátiz seja pessoalmente, notei a falta de mais reflexões acerca da avaliação de vinhos, deixando margem para dúvidas ou mal entendimento da questão.
   Gostaria de comentar sobre a cepa da uva, tipo do vinho (seco, doce ou espumante) ou detalhes da vinificação na avaliação: pouco importa. Ainda, abordando idade, passagem ou não por madeira, tipo de terreno do parreiral ou mesmo preço: pouco importa, também.
   É-me estranho ver avaliações precoces de vinhos muito jovens e sabidamente feitos para durar décadas. Vinhos de enorme complexidade, cujo desabrochar situa-se pelo menos uma década após seu lançamento - às vezes eles descansam 4 ou 5 anos entre barrica e garrafa -, são avaliados quando seguramente verdes. E não, não existem taças superpoderosas (sic! rs!) fazedoras de milagres aerando o vinho em segundos. Taninos verdes necessitam de anos para madurar, e essa é uma lei da natureza. Dá para beber um Barolo com menos de 10 anos. Sim, dá. Afinal, existem BAROLOS, Barolos, barolos e barolinhos. Estes últimos, mais simples, são bebíveis mais jovens. O resto, é Barolicídio. Além do mais, qualquer um deles vai se aproveitar da aeração de um dia para o outro. Não são apenas Barolos; exemplo recente, com um espanholeto bem decente, está aqui. Nagibin experimentou e não me deixa mentir sozinho. Paulão - da Paduca - sabe do que falo. Mas voltando: como podemos avaliar vinhos tão novos? Acredito ser possível, com treino e conhecimento. O vinho pode não estar desenvolvido, mas suas características estão lá. Possivelmente é mais fácil quanto mais grandioso ele for, mas vinhos onde a elegância sobrepuje a opulência acrescentam novas variáveis ao parecer. Estranho mesmo é a conversa de avaliadores tupiniquins sugerindo o valor do vinho como elemento de sua apreciação. Seria assim: o vinho, com aquelas qualidade, custando R$ 120,00 reais, poderia merecer 90 pontos. Mas se custasse, digamos, R$ 200,00, então seria apenas 88 pontos. 😇 Oh, Senhor, duas grandezas mensuráveis são infinitas:  o espaço e a estupidez das pessoas. E não temos certeza do primeiro... Notem, isso é bem diferente deste Enochato classificar um vinho simples, numa faixa de preço, como felicidade engarrafada. Porque, naquele valor, você bebe e fica satisfeito. Mas não há nota envolvida aí. Seguramente ele seria - levando ao pé da letra a pontuação - um vinho 82, 84 pontos. Diferente dos vinhos 90 pontos a fazer concorrência com o número de estrelas no céu... - uma barreira psicológica que, acredito, precisava ser batida para deslanchar a venda calcada em vinhos pontuados. Volte lá (sic! rs!) e veja as qualidades de um vinho 90-95 pontos. Repito abaixo:

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Excepcional complexidade e carácter. Lembre-se sempre dessa palavra: excepcional... Aplique essa máxima a qualquer vinho sul-americano - e muitos e muitos europeus, também - e veja-os ir pelo ralo. Claro, para tanto o leitor precisa ter ideia do que vem a ser um vinho de excepcional complexidade. Reconheço, o chão afunda. Quinta da Romaneira Syrah Apontador 2016 e Quinta do Noval Syrah 2017, degustados na postagem passada, são bons vinhos, mas estão aquém da premissa.

   Um fato onde a coincidência foi o principal ator está narrado aqui. Degustando um espanholeto Vall Llach 2000, cuja avaliação indicava notonas - 96, 98 pontos - anotei a minha nota no celular do Jacimon e mostrei para ele. 94. Provei Don Flavitxo pela sua avaliação. 94. Claro, uma feliz coincidência. Poderia ter sido 92-93 de um, e 93-34 de outro, e ainda assim o ponto seria o mesmo: como disse no começo dessa estória, se você treinar, dá para chegar lá na avaliação de vinhos. E sou muito mais as notas discordantes de Don Flavitxo e minha (mesmo se fossem 92 e 94) do que os 96-98 pontos dos avaliadores profissionais. Vemos como os amadores são mais confiáveis... O Cellar Tracker está cheio de gente boa avaliando vinhos. Confiar no lojista pode ser uma faca de dois legumes, pois está cheio de lojista picareta por aí. Ele concorda sempre consigo? É picareta. Ele vem com aquela máxima vinho bom é o vinho que você gosta? É picareta. Você comprou meia dúzia de vinhos e ele já chega com aquela tenho um vinho que é a sua cara? É picareta. Em um país com tantos políticos picaretas fazendo moda, qual tipo de influência vai pegar na população? 

As Paduquetes

Por sugestão dos confrades - Paulão já fizera as contas no começo do mês e abordara a data de antemão -, a última reunião de outubro aconteceu com a presença das Paduquetes. Apesar de conhecê-las a mais de década e eventualmente bebermos um vinho em jantares aqui e ali, elas estavam curiosas para conhecer a dinâmica dos nossos encontros. Em U a partir da esquerda, D. Cláudia, esposa do Paulo, D. Eva, esposa do Duílio, o Enochato, Fernando - ameaçou trazer a namorada, mas ao final não teve coragem de atirá-la aos leões - Duílio e Paulo. Para atiçar-lhes a curiosidade, recebi-os com dois espumantes, às cegas, e expliquei tratar-se de dois Bruts. A esperança, portanto, era boca tendendo mais para o seco, sem excessos de um lado ou de outro. 

Surpresas estavam reservadas... para dois exemplares feitos pelo método tradicional, o primeiro apresentou-se com bom frescor, de fato seco, embora um fundinho doce desse o ar da graça. Nariz cítrico e um pouco de fermento, boca equilibrada, acidez presente sem marcar tanto, bolhinhas graciosas, compõem um espumante de padrão razoável e diria agradável dentro do meu consumo mais corriqueiro. Era uma cava Cordon Negro, da Freixenet. O segundo apareceu com uma cor amarela marcante, influenciando positivamente alguns dos presentes. Cítrico no nariz e boca, ainda com notas que não identifiquei bem, apresentou um dulçor extra, mais para enjoativo, menor acidez e mais ligeiro nas papilas. Mesmo Eva e Cláudia, mais acostumadas a esse paladar, preferiram o Cordon Negro. Duílio preferiu o segundo, o Fausto Brut, produzido pela Pizzato a partir de seu vinhedo Doutor Fausto. Opinião não unânime, Cordon Negro sobrou face Dr. Fausto; quase todos prefeririam comprar o primeiro ao segundo. Pelo sítio do produtor, fiquei sabendo que Dr. Fausto tem uma coleção de 90 pontos em diversos guias. Como é, mesmo?

   90 - 95 pontos: vinho de excepcional complexidade e carácter, rico em buquês e sabores.

   Agora entendi... é a definição é que está errada! 🤣😂 Porque Fausto passa a léguas de tudo isso. Não dá, né? Seus preços são mais ou menos compatíveis, na casa dos R$ 75,00, enquanto Cordon Negro custa, na Espanha, algo como 8 moedas (R$ 40,00). É um valor ridículo, e praticamente a metade do que pagamos aqui por algo de qualidade menor. Certo, temos impostos altos, mas Cordon Negro chega aqui pelo mesmo valor pagando as mesmas taxas... Competindo mal com um espumante Espanhol simples, cai por terra o mito do Saci, digo, do nosso espumante competindo de igual para igual com Xampas de verdade. 

   Seguimos com um Hacienda de Arínzano branco 2019, já degustado por aqui em safra 2018. Um Chardonnay espanhol com nariz cítrico, mineral, bastante fresco com toques tostados, em boca com algum amanteigado de Chablis. Mas, claro, não chega a comparar-se aos franceses. Tem boa acidez, final agradável, é um vinho bem arranjado, embora alguém o tenha achado enjoativo. Não reparei... acho que em breve beberei sozinho a outra garrafa que tenho, para tirar a teima... Se encontrar uma promo a R$ 150,00, é boa compra. No preço cheio, R$ 245,00, é um tanto salgado; parto pra tintinhos nojentos. Combinou razoavelmente bem com salsicha de vitela e melhor com uva passa branca: o encontro da boa acidez com o doce é uma combinação infalível... 😜

Na parte dos tintinhos... bem... ano passado havia oferecido para a turma um Quinta do Noval Touriga Nacional 217, e estava um pouco fechado. Como o Syrah 2017, devidamente aerado, havia feito boa figura contra o Gran Enemigo, resolvi brindá-los com esse exemplar na safra 2016 e proporcionar-lhes a experiência de um bom vinho completamente pronto para ser degustado. Servido às cegas, alguém falou 'português', e alguém falou 'Syrah', mas ninguém conseguiu juntar as percepções; ainda assim as garotas gostaram de ver o pessoal atingindo algum sucesso em identificá-lo. Repetiu com pujança as características de seu irmão mais novo: nariz rico, frutas, especiaria e mais complexidade, acidez presente, taninos macios, bom final, combinou bem com meu bifim ao molho gorgo. O segundo tinto foi mal compreendido: O Château Chantemerle 2016, um Cru Borgeois corte Cabernet Sauvignon 60%, Merlot 35%, Petit Verdot 3% e Cabernet Franc 2% não recebeu uma única sugestão de ser Cabernet Sauvignon. Aquela estória: CS's de qualidade um pouco melhor, da França, apresentam expressão muito diferentes daquela à qual estamos acostumados na América do Sul. São elegantes, sutis, nariz bastante rico em frutas - vermelhas? negras? ambas? - fumo, um pouco herbáceo e mais, boca com boa acidez, taninos macios e suaves - não 'pega', aquela picada na ponta da língua da Cabernet sul-americana está presente mas devidamente amaciada - e no final tudo isso não encantou tanto o pessoal; a preferência recaiu sobre o Noval. Observemos aqui tratar-se de gosto; é claro, ele é permitido sim, em um avaliação simplificada. Lembram-se da estória?, o avaliador amador pode estimar a qualidade do que está acostumado a reconhecer; novas experiências devem ser devidamente exploradas, precisam tornar-se mais comuns e assim o bebedor ganha um degrau em sua experiência geral. Pois, é o que temos, para amadores...

Por sobremesa apreciamos uma torta cheesecake de frutas vermelhas acompanhada do Tarapacá Colheita Tardia 2021 e depois do Château Doisy-Védrines DV 2016. Deste último, comprei uma caixa em promoção imperdível (R$ 140,00) há bastante tempo - nunca mais se repetiu -, e ainda defendo-me nos últimos exemplares. Comparados, ninguém teve dúvida da qualidade do Sauternes sobre o Colheita Tardia: seu frescor e acidez superiores, bem como sua persistência colocam o segundo muito à frente do primeiro. É quando a estória do preço faz sentido: atualmente há uma oferta pelo Tarapacá a R$ 55,00 na Adega Curitibana (sabe-se lá por quanto tempo este vínculo será válido), 


No Chile, ele é vendido - pela cotação atual - a exatos R$ 25,00 (USD 5,00). Por R$ 55,00 aqui, mesmo sendo em 'promo' - importa o valor pago - está 2x. Está bem abaixo, em qualidade, de um Château Doisy-Védrines DV mas custa uma fração de seu preço (normalmente, uns USD 20,00). O preço do Colheita Tardia pode esticar até uns R$ 80,00, mas não encontramos Sauternes por menos de R$ 220,00. É o panorama onde os vinhos sul-americanos, mesmo sem tanta qualidade, conseguem competir pelo menos no preço com os europeus. Quero dizer: alguns chilenos conseguem, porque nossos espumantes passam um verdadeiro carão. O que se tem feito com os tintos é bem outra estória; eles custam caro e competem menos que os brancos ou de sobremesa. Mas é ótimo bocas tortas continuarem a se esbaldar neles; se lessem O Enochato e testassem as ideias debatidas aqui, as boas compras do nosso mercado diminuiriam sensivelmente... um claro prejola para este escriba de final de semana.

Saturday, March 4, 2023

A estória do valor do vinho I

Introito

Comprar vinhos caros é opcional.
Pagar caro por eles é tolice.
Dito d'Oenochato

   A aparente contradição do preâmbulo pode confundir os neófitos e é a ponta de lança do blog nos últimos anos; tratamos de conscientizar o comprador de vinho do quanto ele pode ser explorado ao adquirir uma garrafa até modesta de sua bebida preferida. O que faz um vinho ser caro? Obviamente (além de modismos) sua escassez. Vinhedos pequenos ou de baixa produtividade geram quantidades minúsculas de garrafas desejadas por gente dos sete mares (sic) e cinco continentes; não há como atender a todos e seu valor sobe, fazendo dele um produto caro. Sua compra justifica-se (além dos modismos... de novo!) pela curiosidade dos enófilos mais experientes em apreciar vinhos com características únicas. Quando falamos de vinhedos delimitados há 500, 600 anos pelos monges Cistercienses na França (principalmente na Borgonha), delimitações tão precisas que apenas técnicas recentes de espectroscopia poderiam melhorar, e cuja produção portanto não aumentará jamais, a exclusividade de uma garrafa torna-se compreensível pelas nuances que somente aquele vinhedo pode proporcionar, e a justificativa do valor está dada. Pode haver bolhas de consumo como a das tulipas na década de 1630 na Holanda, mas a consistência dos preços através das décadas mostra quem tem qualidade de fato. Fique claro: a compra desses vinhos mais caros faz sentido para o enófilo mais avançado e (conectivo de adição!) curioso. Um bom enófilo pode passar a vida toda bebendo vinhos dentro de certa faixa de preço e focar sua curiosidade em outro passatempo: carrinhos em miniatura, selos, joias, sapatos, livros, música, etc. O desejo e curiosidade de cada um é só seu, é personalíssimo, e não pode ser criticado.

   Por outro lado, e exclusivamente no Brasil, acontece um fenômeno raro: o vinho, mesmo nacional, é muito caro. E aqui reside a diferença entre comprar vinho caro e pagar caro por vinho (pagamos caro mesmo pelo vinho barato). Aos poucos, e construindo o panorama: reportagem recente (cheia de erros e incongruências) conta-nos que

Em relação aos vinhos nacionais, mais de 50% de seu valor final é decorrente de tributos, e no caso dos importados o percentual tributário pode ultrapassar a incrível marca dos 70% sobre o preço final de cada garrafa comercializada.

   Os erros e inconsistências estão mais na propaganda chapa branca do vinho nacional; creio que o dado sobre impostos esteja razoavelmente correto. Mas não nos esqueçamos da taxação sobre bebidas na Europa ser igualmente alto, algo como 20%; está aqui. Portanto tenhamos em mente que a diferença entre os impostos indica ser a nossa apenas 50 pontos percentuais a mais.

   Mais uma reflexão: o imposto sobre celulares e notebooks no Brasil é perto de 40%, veja aqui. Reportagens onde os articulistas colocam como escandaloso o fato de um Eufone (sic) custar por aqui o dobro (menos, na verdade) do que nos EUA abundam (veja aqui). E eles já estão escandalizados com o fato de custar o dobro. A fonte da imagem abaixo está aqui.


    Tomemos agora o caso dos vinhos, onde o imposto é um pouco maior. Um Chateau Gazin 2009, grande vinho francês da região de Pomerol, à venda nos EUA por cerca de USD 250,00 (R$ 1.300,00) é ofertado aqui a R$ 8.500,00 (6.5 vezes!), com 'promo' a R$ 4.650,00 (apenas 3.6 vezes). O mesmo pode ser constatado para vinhos baratos, e fiz um levantamento recente aqui, envolvendo seis importadoras, com resultado estarrecedor. Curiosamente não encontramos reportagens indignadas com a margem praticada na venda dos vinhos por diversas importadoras.

   Certo, o exemplo acima é um pouco extremo, mas o que vemos, vezes sem conta, são as conhecidas promoções da metade do dobro. Não porque dobrem o preço do vinho um mês antes da queima, mas porque o valor normal já é 4x ou 5x e então ele entra em promoção. Em tempo: sendo o imposto sobre vinho cerca de 70%, não é de estranhar que o seu preço final guarde proporção com o dobro em relação aos países onde ele é produzido. O consumidor, quando for comprar um vinho estrangeiro, deve valer-se do Wine Searcher, ferramenta que ajuda-o a comparar o valor da mercadoria aqui e lá fora, salvaguardando-nos de comprar vinhos a preços exorbitantes. Com o tempo perceberá que as importadoras trabalham com uma margem média em todos os seus vinhos. Se um é caro, o que estiver do lado provavelmente o será. E assim sucessivamente (claro, existem discrepâncias). A essas importadoras, chamo-as tubaronas. Veja a 'comprovação' dos preços do Chateau Gazin no final da postagem, onde são mostrados os rótulos à venda aqui e lá fora. Esse comentário, rotulado como 'A estória do valor do vinho', e que terá continuação, junta-se a outra postagem, A estória das moedas, na tentativa de apresentar ao leitor uma abordagem mais concreta sobre a questão do valor do vinho no Brasil. Como de hábito, as fotografias das páginas com valores serão apresentadas, e sugestões de leitura com hiperlinks embasarão a argumentação.

Ainda sobre o encontro com o Nagibin

   Na postagem onde relatei a visita do Nagib mencionei ter aberto o Numanthia à meia noite, para bebê-lo no almoço do dia seguinte. O que vocês acham que estivemos fazendo até aquela hora? Com Magide, Cesar e sua esposa Ana degustamos alguns vinhos, claro!

Champagne é uma predileção da Magide, então não poderia faltar. O Taittinger Brut mostrou nariz cítrico com um pouco de fermento, muito vivo, equilibrado, com acidez e permanência médias e boca também cítrica com muito frescor. Comprada da última vez que estive no Chile, lá por '17, talvez, estava bastante agradável. Lembro de ter pago bem próximo a R$ 200,00, e seria a metade do valor daqui à época. Queria surpreender os convivas com algo alegre e arrisquei duas horas de aeração sobre o Belcore 2019 da I Giusti & Zanza, produtor sediado na Toscana. Este corte  80% Sangiovese e 20% Merlot é um supertoscano vendido no sítio do produtor a € 15,50 (R$ 85,00), pelo qual paguei R$ 130,00 em promo e vale quanto pesa. O Cesar achou um pouco fechado, novo ainda, e ele ou Nagib apontou cereja - é uma das expressões da Sangiovese. Tem mais fruta, e tem algo na linha chocolate/café com acidez média, taninos um pouco pronunciados em meio aos 13,5% de álcool. Estava bem melhor no dia seguinte durante o almoço, e ainda bebi dele com muito prazer à noite. O Numanthia, na noite seguinte, também estava ótimo. Depois tivemos um Château Chantemerle 2016, Cru Bourgeois do Medoc. Os Cru Bourgeois são uma categoria promocional de vinhedos não listados na classificação de 1855 e já comentei aqui. Note ainda que ele não deve ser confundido com o Quinto Vinhedo Château Cantemerle da referida classificação de 1885. Chantemerle está pronto para beber, e com alguma aeração mostrou fruta bem viva e outros detalhes que não registrei. Aporta boca agradável, fácil de beber, acidez presente sem contudo ser tão marcante, final médio e não mais. Está um pouco caro, R$ 200,00, mas é melhor do que muito francês a preço superior e seguramente bate tudo o que produzimos na vizinhança (Chile, Argentina, Uruguai), nessa faixa de preço. Ele e o Taittinger acabaram no dia...


Valores do Château Gazin aqui e lá fora.




Sunday, September 11, 2022

Encontro com beldades do Camarão com Vinho

Introito

Você acredita em santidade nos dias de hoje? Está bem, cada idiota com sua crença. Dizem que Deus é brazileiro... mas nunca senti tanto este paraíso onde vivemos como o clichê cinematográfico do lugar abandonado pelo Criador, basta ver onde fomos parar às portas desta eleição. Dois quadrilheiros e igualmente mentecaptos - cada qual à sua maneira - nas primeiras posições. Você pode citar um único e singular livro comentado por qualquer um desses idiotas? Dizem que lulalelé leu 1313 livros na prisão. Ou seriam 131? - ei, está próximo a 171... - ou mesmo 13? Leu nada! A prova (como se precisasse...) são suas manifestações desde que veio a público por conta das eleições. Ninguém percebe? Ele cozinhou os miolos enquanto preso, olhando para o próprio umbigo!, porque nada sabe fazer além disso! bolsonésio, então, não pode cozinhar o que não tem. E você pensa em votar em um deles?! 😨 Como já escrevi, existem cidadãos que acreditam ser necessário votar em alguém em vez de anular o voto. Como espaço democrático, respeito. Ainda, recomendo para estes o voto em bolsonésio. Será mais fácil retirar um amador idiota do poder via procedimento legal e republicano - alguém duvida que ele logo logo vai meter os pés pelas mãos, como tem feito regularmente ao longo dos últimos 4 anos? - do que tentar remover um salafrário escolado e conhecedor dos meandros do poder.

Encontro com as beldades

Por algum motivo desconhecido a este articulista, o grupo chamou-se inicialmente Camarão com Pão. Depois e misteriosamente como antes passou a Camarão com Vinho. O fato é: esta reunião aconteceu para combinarmos (risos!) um camarão com vinho de verdade, marcado mas não realizado desde meu último níver. Quase às portas do níver seguinte, acho que, se a barca não virar, chegaremos lá... 😃 Em 'u', a Dayane na foto, a Andréia como convidada, a Renata, este Enochato e a Luciana sentamos para uma noite animada e tocada a muito vinhobão e constatações ou comentários surpreendentes. Escrevo embalado em um Ben King e ajudado por um Faustino I Gran Reserva - aguardem. E depois de muitas tentativas frustradas por agendas conflitantes, estávamos todos ansiosos para uma degustação.

Larguem do meu borgonha!

E olha que o borgonha nem era meu... 🤣 foi oferecido de coração 😍 pela Luciana. O Domaine Glantenet Hautes Côtes de Nuits 2019 recebeu meu comentário inicial: Hautes (alto) é uma região no topo das escarpas das montanhas - acredito mesmo que nos platôs - onde as terras não têm as mesmas características das terras mais baixas, e por isso geram vinhos sem a mesma tipicidade das denominações abaixo. Áreas que sequer contam com zonas Premier Cru, efetivamente não vão além da classificação de AoP. Ainda assim são borgonhas, e se o produtor for razoável estarão acima de tudo o que produzimos em um raio de 5.000 km. Em tintos, brancos, rosés e, principalmente, espumantes; não vem que não tem: quinto colocado do mundo, só se pegar a lista de ponta cabeça 🙃 (sic) e começar do final. Voltando ao vinho: nariz bem cítrico - veio na frente e foi o que consegui pegar; sem outras notas distinguíveis para mim, embora tenham comentado (não anotei 😣). Boca com acidez média, mineralidade - se prestar atenção nota-se um salgadinho - alguma fruta branca ácida, persistente e com bom final. Seu preço aqui, em 'promo' está a R$ 190,00; lá fora encontrei sugestão a... UD 10,00. Digo 'sugestão' porque não vi à venda, tendo encontrado uma página onde a safra de 2008 estava esgotada. Impossível saber desde quando. De qualquer maneira, aliado ao preço do Vivino (USD 14,00) - um sítio muito citado mas que não gosto por motivos que alguma hora comento - fazem uma referência para podermos avaliar seu preço aqui. A Chez France parece estar perdendo a mão e entrando para o time das tubaronas... e o espaço permanece aberto à discussão, desde que devidamente argumentada - o que, vendo a retrospectiva dos comentários perpetrados por energúmenos detratores, não se constitui em uma esperança animadora para o enriquecimento do debate.

   Aproveitei a ocasião para um doelo (sic); embate entre dois vinhos; se fossem três seria trielo, e assim por diante. O Château Le Bernet 2015, da região de Graves, foi degustado recentemente; e preciso começar dizendo ter achado esta garrafa melhor do que a anterior. Não surpreende tanto: em vinho, cada garrafa é uma garrafa. Se esperamos que na média as garrafas sejam iguais, também não podemos nos admirar tanto quando duas destoam. Esta apresentou fruta mais viva, toque de chocolate/café (qual?) mais presente mas ainda não distingui com precisão; boca equilibrada, taninos amadurecidos, acidez adequada, só um pouco ligeiro no final. É trazido pela Vinho e Ponto, e seu preço sem 'desconto' fica fora do padrão custo/benefício em que estou acostumado a comprar: acho que cerca de R$ 280,00/R$ 190,00 sem e com 'promo'. É um vinho de €13,00 lá fora, conforme atesta a postagem. Não há mistério: reposicione-se o preço com margens mais honestas e posso ser comprador regular. Château Chantemerle 2016 é um Cru Bourgeois produzido no Médoc - próximo a Graves, portanto - e importado pela Enoeventos. A 'curadoria' dessa casa é competente - muito mais do que a de Vinho e Ponto e de muitas outras. Chantemerle apresentou-se vivo, recheado de frutas, especiaria e algo mais que não distingui, na direção de algum couro/estrebaria ou terroso. Madeira como deve ser, presente com discrição, taninos ainda pegando um pouco, acidez média e álcool adequado; aportou sabor de fruta, especiaria e madeira. Corte 40% Merlot; 50% Cabernet Sauvignon; 5% Cabernet Franc; 5% Petit Verdot com bom final e permanência, achei bem completo, embora alguém tenha gostado mais de Le Bernet; isso apenas reflete a diversidade do grupo. Para constar, a Dayane declarou textualmente que sentia-se surpresa por ter apreciado mais o branco. Ah ah ah... prepare o bolso, e bem-vinda aos borgonhas... Valor: meu último comentário sobre a importadora foi claramente desabonador, no quesito custo/benefício. Vejamos agora o que os dados nos mostram. O preço desse vinho no sítio do produtor é, curiosamente, €13,90; praticamente o mesmo de La Bernet. Não tenhamos ilusões: o produtor vende em seu sítio já com uma margem, que ele dará às lojas e importadoras de outros países que comprarem dele. É um equilíbrio de mercado necessário e bem vindo. Se o Château achar-se o bonitinho da bala Chita e precificar seu vinho a €20,00, terá de encarar a dura concorrência dos vinhos nesse preço. Pode até achar seu nicho, mas nunca será uma boa compra. É assim que o preço se autorregula. Bem, seu preço 'lá' aponta para cerca de R$ 85,00. Aqui está R$ 195,00/230,00 em Enoclube e preço regular. No Enoclube, dá 2.3x, diria que o limite da compra. Sem esse desconto dá 2.7x, um flerte muito perigoso com a tubaronice desavergonhada. E não é ser bonzinho ou malzinho, são apenas os dados. E estão abaixo para reflexão (ou ira profunda 😂) do leitor.

PS: Luciana, cancele a assinatura do clube do vinho da Chez France! Fiquemos somente com as promoções. Vamos para a próxima importadora, que somos (sic) fiéis ao vinho, somente. Ufa...