Introito
O título dessa postagem diz respeito às agruras que vivemos em 2020, e sugere o destino para este ano, um período ruim para todos. Se muito tem a ver com a covid, muito também tem a ver com seus efeitos colaterais: empresas quebrando, desemprego, falta de perspectiva... pitonisas prevendo o apocalipse... que o futuro não nos seja tão negro. Ainda que tenhamos de rezar...
Não menos importante, o assunto de sempre - vinho - requer que alguns repousem no inferno. Tô nem aí (para a blasfêmia, claro), em bordão de alguém que a história já posicionou em seu devido lugar. Maravilhoso desinfetante, essa tal de história.
Rodam pela internet opiniões abalizadas (muito poucas), mentiras (as que você lê aqui, por exemplo - risos!) - e uma miríade de babaquices. Uma que estava me incomodando teve Don Flavitz como vetor. Leu algures - e endossava - que o Tarapacá branco (Chardonnay), em sua versão mais simples, o Cosecha, seria um bom vinho, até comparável a Borgonhas. Vejamos... mesmo os chilenos (sic) já aprenderam sobre seleção dos vinhedos: os mais novos ou mais ruins fornecendo uvas para os vinhos mais simples; aqueles um pouco melhores provendo matéria prima de melhor qualidade para vinhos superiores, e as parcelas realmente boas sendo usadas para produzir vinhos icônicos. Tarapacá Cosecha é a linha 'chão de fábrica' dessa vinícola que já foi minha preferida. Durante os anos que a idolatrava, bebi todos seus vinhos, de Cosecha aos 'tops'. Felizmente, Cosecha apenas uma vez. Não era vinho, embora 'vinho' viesse escrito no rótulo...
Não achando crível, mas de espírito aberto, paguei pra ver. Passei na Deliza, peguei um Tarapacá Chardonnay Reserva (nota: acima de Cosecha e abaixo do Reserva inda encontramos o León de Tarapaca e o Gran Tarapaca. Possuem varietais tintos e brancos), escondi sob embalagens de pão, presunto, queijo, salsichas e segui para o caixa discretamente. Tão logo a garrafa foi 'passada' pela caixa, já a embrulhei e dirigi-me à saída. Alí, um pé encostado numa coluna, o Will não deixou barato, comentando:
- Eu sei o que você fez... - tenho dito por aí que 'nunca mais' compraria um chileno na vida.
- Já leu O Analista de Bagé, né? - cruzei a mão livre em frente à barriga, como se procurasse um 3oitão no bolso da calça. O Will riu e fez um gesto como dizendo 'Deixa prá lá'. Melhor mesmo... não coloco minha reputação em risco a troco de nada. Não? 😑
O evento
No dia 30, antecipando o final de ano, cometemos um ligeiro desatino. Nos reunimos a turma, os cinco. Cada um tem tomado os cuidados com isolamento, etc., etc., etc., e, sem sintomas, corremos o risco. As meninas, Carol, Rê e Dani, gostam de vinho, mas não se ligam muito no assunto. São bebedoras típicas: descompromissadas, sem preconceitos, bebem o que for servido de boa fé. Gostam ou não gostam, sob uma ótica absolutamente amadora. Não investem em vinho porque suas fontes de escravidão - para onde quer que apontem - apontam para outros lugares. Roupas? Perfumes? Viagens? Carro? Uma combinção não linear disso tudo? Só não é para vinho...
Servi às cegas, primeiro o Tarapaca. Foi quase unânime: gostaram do primeiro. Acho que a Rê gostou mais do segundo na boca, somente. Posso estar errado. Ou mentindo... Recorri ao Akira. Ele não bebe, apenas 'cafunga'. Olhou-me por cima dos óculos - aquele espacinho entre a armação e a sobrancelha - e disparou: - O segundo é bem melhor... Perguntei se o segundo valeria o dobro. - No nariz? Sem dú-vi-da! - sim, ele separou as sílabas. As meninas se recolheram. Não, não se fecharam em copas. Apenas queriam saber melhor o que acontecia.
Tarapacá Reserva 2019 tem um bom 'ataque'. Não que esse bom signifique 'bom'. Não! É muito, muito marcado, presente. Tipo... aquela cena de desenho, quando o personagem entreabre a porta devagar e é atropelado por uma locomotiva. Vinho não é isso. Acidez deixando a desejar - até para um branco -, boca simples, permanência muito rasteira. Vinho de uns R$ 75,00 contos (oscila entre R$ 80,00 a R$ 100,00; paguei 'barato'). O segundo,
Terres Secrètes Pouilly-Fuissé 2016 já comentei. Daí ficou difícil para o concorrente. Muito mais equilíbrio, melhor permanência, combinou bem com os queijos, mostrando as sutilezas típicas de um bom
Borgoinha básico. Paguei um pouco menos de R$ 150,0. É muito mais vinho, no nariz e na boca. Assim é como estamos: vinhos fracos passando por bons, perante alguma ingenuidade dos provadores. Ingenuidade não é crime nem pecado. É onde, no caso do vinho, produtores se aproveitam para cobrar
os tubos por seus produtos. Certo, quem não atenta muito vai preferir pagar R$ 80,00 a R$ 100,00, ainda mais quando a segunda opção requer mais atenção e treino de paladar, 'especialidades' onde muitos não estão dispostos a
investir.

A segunda parte foi melhor - não que o borgoinha não tenha salvado a pátria (rs). Mas a Carol e a Rê se esmeraram na produção de um salmão com risoto... que acompanhados por um Zind-Humbrecht Riesling Turckheim 2018 e um espumante Kompassus Rosé 2011 foram suficientes para a paz voltar aos corações e mentes de todos. Zind-Humbrecht chega a ser considerado o melhor produtor da Alsácia. Seu detratores (rs) dizem que o melhor é o Maison Trimbach. Para este travesti de blogueiro, será que faz diferença provar do melhor ou do segundo melhor Riesling da região mais icônica que cultiva essa cepa? Veio com um frescor muito vivo, notas cítricas no nariz repetindo-se na boca, acidez bem presente, boa persistência. Novo, mas bem 'bebível'. Deve melhorar com mais alguns anos. Fez ótimo par com o salmão.
Kompassus Rosé não ficou atrás: corte de Baga, Touriga Nacional, Pinot Noir e produzido pelo método tradicional, não mostrou a idade. Bom frescor, nariz com abacaxi(?), boca equilibrada, boa acidez, também combinou com o salmão. Kompassus está 'acabado', pronto para consumir. Indicativo de que não precisa (talvez não deva...) ser guardado por mais tempo. O fechamento foi a sobremesa feita pela Dani, bombom de morango na travessa, acompanhado por um Sauternes. Pela extensão da postagem, outra hora falo dele. Mas combinou muito bem... 😋