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Monday, May 20, 2024

Sobre homens e éguas

Introito

A tragédia do Sul já foi propalada aos 14 ventos - quatro conhecidos e 10 podendo ser imaginários, secundários ou ainda não catalogados. Portanto não é novidade. Novidade talvez - e apenas talvez - seja esta abordagem. Compare-a com o que venderam-lhe até agora. O cidadão continua desinformado, por comodidade ou preguiça, tanto faz. Estamos na Era da Informação - ou achamos que estamos. É tolo quem não se adaptou a ela; 99% das pessoas, a bem da verdade. Eu mesmo não muito, mas tento correr atrás e tapar buracos, cobrir brechas, ser crítico... e o leitor? Continua acompanhando os dois ou três veículos nos quais acredita serem onestos (sic) a ponto de se posicionarem contra ou a favor deste regime ou do último da maneira mais descarada possível? Ah, tá... Preste atenção, então: o jornalismo é isento, ou não é jornalismo. Os mais apressados dirão Se for assim não existe jornalismo! Bingo. Se o quati-leitor só percebeu isso agora ele quem sabe tenha salvação. Voltando à inundação:


   A ministra do ministério mais desimportante da história deste país quer priorizar 1% - isso mesmo, 1%! - da população atingida em vez de apenas organizar auxílio para a região como um todo. Isso não é o mais baixo que o ser humano pode chegar, acredite. Duvidando, olhe o currículo da sujeita. Ministro de Estado que se submete ao crime organizado não tem moral, fibra ou caráter para estar em tão excelso posto. Quanto ao 1%, não pode haver questão sobre o número, a fonte é oficial. Basta saber fazer contas...


   A égua Caramelo (sic) foi resgatada em operação que comoveu o país. É isso mesmo: o enfrentamento às tragédias se faz em todas as frentes. A prioridade são as pessoas, claro. Mas porco, galinha, cachorro, papagaio, gato, égua, etc., toda essa gente (sic), é muito melhor que nossos governantes desde sempre e também merece nossa atenção. É quando cada voluntário dá o seu melhor, exerce sua função com desapego e nos enche de orgulho em estarmos alinhados com eles. Sempre idônea, intelectualmente honesta, desinteressada, sexy, linda e leve, nossa Presidente de Fato Primeira Dama emocionou a todos com seu próprio desempenho:


   Você não deu atenção no caboclo em primeiro plano falando mentiras, deu? A PF - prato feito - deveria apurar a verdade dos fatos e prendê-lo na sequência. Sem recurso nem direito a advogados - o lugar destes é ajudando lá no Sul, não preocupados se uns poucos desordeiros promovem boataria internet afora. Deveria haver uma lei proibindo isso. E um rapá bonitinho e ordinário para conferir tudo isso. Se não for ignorante, estúpido e idiota, melhor; se for, estará igualmente bom.

   Marina Silvia, ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, aquela que julgou-se apta a concorrer à presidência quando tínhamos recursos bem superiores - Dilma, Andrada, o próprio NAP - pretende-se vítima, acusando o último boçal no trono cargo de presidente de inoperância quanto às questões climáticas. Concordo, ele entregou a pátria combalida, sem recursos - mas para gastar 94 bilhões pagando precatórios em operação no mínimo suspeita, teve cascalho, né? - então os ministérios estão à míngua. Ela seguramente encaminhou ao Congresso projetos para recuperar os estragos, e sua execução aguarda a disponibilidade de recursos. Legal, né? Mostrem-me, então, canalhas!

   Assim estamos: animais em perigo, pessoas desabrigadas, vítimas fatais e alguns se portando como autênticas éguas. Vejam por exemplo - mas não só! - o número crescente de roubos à mão armada não de comida - o que já seria insustentável - mas dos poucos bens que sobraram às vítimas. O governo, seguramente, vai dar um jeito nisso. Está no Diário Oficial. Será na próxima gestão do Senhor. Você doou, tenho certeza. Tive o imenso prazer de ver - em relatório eletrônico apresentado pela entidade que ajudei - gente sendo assistida em restaurantes improvisados cuja projeção é prover 4.000 refeições por dia. Um relatório está aqui. Começa no minuto 2:35. Risível e triste no meio de tudo isso é o apelo de oportunistas para comprarmos vinhos do Sul. Ao preço que praticam? Sou extremamente solidário aos sofredores de tamanho infortúnio, mas se depender dessa ação, lamento: os gaúchos ficarão boiando no Guaíba.

Vinhos e mais vinhos

   Estou muito atrasado com as postagens. Nariz não tem funcionado como esperado, e a memória menos ainda. Em alguns momentos reproduzirei a impressão dos confrades - todos eles melhores do que eu, na verdade - ou a postagem fica pela mera divulgação dos vinhos. Claro, usar o Wine Searcher e não dar mole para importadoras tubaronas é uma questão de cidadania. Ainda quando, imersos na tragédia, podemos economizar algum reais e enviá-los para quem está precisando. Não compre nenhum vinho acima de 2x em comparação com o custo lá. Tem muita oferta de bons vinhos por aí e dá pra economizar.


Em um encontro com a confraria - agora batizada #é.muito.vinho (adivinhe por quem...) - assolei os colegas com uma daquelas comparações programadas e às cegas antes de provarmos um Brunellinho. O primeiro foi um Tarapacá Gran Reserva Etiqueta Azul 2021, conseguido no Chile em 'promo' por uns R$ 100,00 (aqui, R$ 250,00-350,00). Foi como carne de vaca, todo mundo reconheceu sua chilenidade (sic! rs!). A Elvira disse estar um pouco novo, o Ghidelli disse ser Cabernet Sauvignon. É um corte, 78% CS, 13% Petit Verdot, 4% Malbec e 1% Cabernet Franc. Estava sim rico em frutas e tinha mais notas. O problema é sempre a boca: acidez baixa não esconde a falta de estrutura e torna o vinho algo decepcionante. Comparado ao Quinta do Noval Syrah 2016, definido por todos como mais pronto para beber, também com muita fruta e melhor acidez, destacou-se sem esforço. Não há dúvida, sua permanência em boca é muito mais larga e ao final é mais completo e complexo. Quem já leu sobre ele ele sabe: anda em ofertas em vários lugares, na faixa de R$ 160,00-180,00, e comparado com o preço mínimo do concorrente, ganha de lavada. O Brunello di Montalcino Pianrosso 2010 - ótima safra - foi comprada em 'promo' quando o Shot Café ainda pertencia à franquia Vinho e Ponto, grande tubarona do Mercado. Com desconto de 50%, entrou na faixa 2x(!) e aí levamos. Tal valor deixou alguma margem para o Jairo, e mais recentemente perguntei-lhe: prefere ganhar 10% em uma semana ou 50% em cinco anos? Ele está revendo seus conceitos... Pianrosso, mesmo aberto uma hora antes da chegada dos convivas e servido depois dos primeiros exemplares secarem, ainda estava fechado(!), um erro de serviço deste Enochato, mas condizente com alguns comentário no Cellartracker. Encheu a boca, com ótima estrutura, grande acidez, mas o nariz permaneceu fechado para começar a revelar-se na última rodada, conforme observou D. Neusa: ficou realmente rico, esbanjando fruta e aqueles toques na direção de couro/estábulo, chocolate/café e mais. Uma pena não tê-lo aberto uma horinha mais cedo, que fosse...

Uns dias depois abri para beber no final de semana um La Cave des Hautes Côtes Beaune 2014. É um borgoinha Villages que não faz feio, do qual já degustei algumas garrafas. A Enoeventos importou bem antes da sua fase tubaronesca atual, e os vendia a R$ 220,00, talvez um pouco menos em alguma queima. Eram ótimas compras, mas esgotaram-se há tempos, sem reposição. Apesar de simples - para a Borgonha - manteve acidez acima da média, ótima, agradável, com nariz acompanhando e ambos se complementando bem. Tá vendo a diferença quando o vinho tem a 'boca' mais fraca, como o Tarapacá? Ainda tenho uma garrafa do Nuits-Saint-Georges 2016... será que alguém vai me acompanhar nessa? Deixei metade para o dia seguinte, quando de estalo perguntei se D. Neusa viria para apreciar algo de surpresa. Ela não se fez de rogada, e repetimos o bifim ao molho gorgo do dia anterior. Se não harmonizou tão bem - Borgonha pede outro pato prato - não estava ruim. Aconteceu de D. Neusa trazer uma farta variedade de entradinhas, e quase acabamos com o vinho ali mesmo. Por precaução abri um Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, da Argiolas, comprado junto à Enoeventos. O produtor já diz tudo - nunca bebi um vinho ruim da Argiolas - mas da cepa principal - Monica - jamais ouvira falar. A bem da verdade é um corte com pequenas quantidades de Carignano e Bovale Sardo, segundo o importador. A informação ajudou? (risos!) Nariz bastante complexo, muita fruta e outras notas - D. Neusa comentou, não guardei. A boca é ótima, rica, taninos maduros, boa acidez e álcool contido, fazendo excelente conjunto. Gostei muito dele, e o melhor foi notar o quanto está pronto. Pode ser guardado por uns três anos, sem susto, e vai continuar com a persistência larga e com o ótimo final. Um excelente vinho para seus 16,00 €, mas nos seus atuais R$ 265,00 (40,00 €) crava exatos 2.5x, e está fora da minha meta. Posso estar enganado, mas peguei em 'promo' a uns R$ 170,00. Aí estaria bom. Acima disso, lamento.

Ótimos preços, hoje!

Comentei sobre a oportunidade do consumidor comprar melhor e direcionar alguma diferença da sua economia para ajudar nossos compatriotas no Sul. Veja aqui duas dicas para comprar bem e ainda fazer sobrar algum.

A Família Scopel oferece o ótimo Chocapalha a modestíssimos R$ 78,00.
https://loja.familiascopel.com.br/vinho-tinto-seco-quinta-de-chocapalha-750ml
   Já resenhei o vinho diversas vezes, e regozijava-me se o comprava a R$ 100-, que fossem 90 e tantos reais. Por R$ 78,00, ficou matador. É um vinho de 11 €. Dessa loja, comprei há algum tempo algumas garrafas do também ótimo Herdade dos Grous. Cuidado com outras ofertas. Wine Searcher sempre!

A Los Vinos oferece o igualmente lusitano Mob Lote 3 a R$ 119,00, e escrevi sobre ele diversas vezes. Fiz compras melhores dele - próximo a R$ 100,00 - mas continua sendo boa ocasião para adquirir um vinho de 10,00-11,00 € por menos de 2x. 
https://losvinos.com.br/produto/m-o-b-lote-3-tinto/
Nunca comprei dessa loja, então o consumidor deve fazer o dever de casa e procurar a avaliação dela em sítios como Reclame Aqui ou similares.

   Ambos são vendidos a preços próximos a R$ 170,00(!), o que dá o sempre tubaronesco 3x. Obviamente a oferta do Chocapalha está bem melhor, mas para quem gosta da força do Dão proveniente de maceração mais prolongada de seus vinhos, tem em MOB Lote 3 uma ótima oportunidade para reencontrar - ou conhecer - essa expressão.  Poupou um pouco? Já sabe...

Saturday, February 26, 2022

O segundo dia de La Cave des Hautes-Côtes Beaune 2014

Introito

   Recebi interessante realimentação via uatizápi e volto à carga, recordando outros fatos recentes.
   * Amigo bolsonésio de carteirinha envia-me vídeo de vergonhosa patriotada: o primeiro avião com a marca do nosso valoroso Correio, adquirido pela empresa. Ocupado e sem tempo para esticar a conversa, respondi com apenas um link, pesquisa de Google, sobre o tamanho da frota da Fedex. Por volta de 680 aeronaves, desde sempre (sic). Não, apenas desde 2011. Talvez você encontre um número um pouco diferente mas não inferior a 460. Um contra 680, ou um contra 460, faz diferença? Ainda mais quando trata-se de uma empresa que - promessa de campanha - deveria ter sido privatizada? O Congresso não deixou? Apresentem o projeto de privatização antes! Imagino de onde vão tirá-lo...
   * Amigo PTlho (estou bem de amigos, não? 🙈) vem com comentários do tipo Lula nem deveria ter sido processado; ou Você acha que o juiz (sic) foi político ao condenar o Lula? ou então Lula é um Estadista (o "E" fica por minha conta). Vamos repetir o pronunciamento do mentecapto postado ontem:
É importante que essas pessoas aprendam que a guerra não leva a nada, a não ser destruição, desemprego, desespero, fome. O ser humano tem que tomar juízo resolver suas divergências em uma mesa de negociação, nunca em um campo de batalha.  
algo digno de um estadista, não é mesmo? Comparemos com o pronunciamento de José Mujica, ex-presidente do Uruguai. Detalhe: ele tem 86 anos. Veja aqui. É importante que o leitor siga o vínculo e acompanhe até o final as palavras de Mujica e depois reflita qual discurso é digno de um Estadista (sim, com "E"), e qual é o de um retardado. Para completar, pergunto quando na História deste pais Lula fez pronunciamento que se aproxime ao de Mujica. Na História, porque na estória que pretendem nos contar, ele os faz desde pequenininho. Ah, sim: agradeço ao Romeu o envio da declaração do Mujica.

   Finalmente, em postagem de 13 de fevereiro comentei que ...é a Otan quem força a Rússia a uma posição ofensiva, e a mídia ocidental ou está promovendo um engodo global (fazendo-nos crer que o malvado da estória é o Putin), ou é estúpida mesmo. A escolher. Vejamos notícias recentes sobre o tema:
   * Por que a Rússia não quer a expansão da Otan para o leste (IstoÉ Dinheiro/Deutsche Welle, 25/2/2022).
   Agora todo mundo quer explicar. Só não pretendam-me crédulo de que o fato já não era conhecido. Estava era bem camuflado. Cabe ressaltar - como se houvesse a menor dúvida - que este Enochato não apoia a invasão ou mesmo Putin, um ser vil que disputará com Lula a presidência do inferno, quando forem para o destino que merecem. Ainda que ele esteja certo na invasão. Repito: não é um apoio, é o reconhecimento do óbvio posicionamento necessário para a defesa estratégica do território russo. Em minha opinião... 
É importante que essas pessoas aprendam que a guerra não leva a nada, a não ser destruição, desemprego, desespero, fome. O ser humano tem que tomar juízo resolver suas divergências em uma mesa de negociação, nunca em um campo de batalha.  
Mas afinal sou apenas um Enochato; jamais pretendi ser um Estadista. E sequer tenho sobre os ombros a responsabilidade de ter sido ex-presidente de nação alguma.

La Cave des Hautes-Côtes Beaune 2014

Visitei o sítio do produtor para conferir esse vinho em particular. O rótulo mudou, mas é esse vinho mesmo. Se não indica a safra atual, a nota importante é relativa à guarda: 5 a 10 anos. À guisa de comentário, a safra de 2014 é tida como muito boa, com média de 91 pontos entre Wine Spectator, Wine Enthusiast e Parker, embora safras mais recentes sejam significativamente melhores. Com 8 anos, a vantagem desta safra 2014 é que ela está pronta para beber - como já comentado. A fruta desceu um pouco, todavia ainda permanece. Tem mais alguma coisa, porém pouco adiantou tentar prestar mais atenção; falta nariz para sua identificação. Queria chutar algo terroso, sem muita certeza. Só que a boca... ah, a acidez está lá, ótima - para um vinho dessa qualidade e preço, bem entendidos - méritos para ser dita felicidade engarrafa, que na escala deste Enochato é um balanço entre valor e excelência principalmente para vinhos baratos que entregam mais do que esperamos deles. Até porque o vinho caro tem obrigação de entregar. Sua permanência também manteve-se boa; para um Borgonha de corpo médio o tanino está bem integrado. Despejei a garrafa sem dó na taça, para aproveitar até a última gota. Está com um pouquinho de sedimento, muito discreto. Não sei quanto ainda dura; mais de dois anos, seguramente.

Provocações e o encontro da confraria

Introito

Sem pretender dar uma designação acabada, poderia definir selvageria como o não uso das áreas mais nobres do cérebro. Uma vez deixada a razoabilidade de lado, Putin partiu para a ignorância. Não porque ele seja o único selvagem dessa estória; a OTAN, encabeçada pela América, foi a responsável por um cerco geográfico a Moscou à medida em que aceitou como membros países da antiga União Soviética, literalmente cercando a atual Rússia de potenciais bases de mísseis "inimigos". Amplie o mapa aí ao lado (fonte: https://www.infoescola.com/geografia/otan/) e veja vários países da esfacelada União Soviética agora membros do Tratado: Estônia, Letônia e Lituânia representam um flanco aberto na defesa soviética. Sem Bielorrússia e Ucrânia, o flanco vira simplesmente uma frente de tamanho colossal. Dá para entender porque ele marchou para cima dos pobres ucranianos? Enquanto isso nosso Grande Guia, leitor de zero livros em toda sua vida, presenteia-nos com uma pérola de sua mais profunda reflexão:

É importante que essas pessoas aprendam que a guerra não leva a nada, a não ser destruição, desemprego, desespero, fome. O ser humano tem que tomar juízo resolver suas divergências em uma mesa de negociação, nunca em um campo de batalha.  

   Nada mais colegial. Ele ganha de bolsonésio, é verdade, mas isso não é algo a se usar como triunfo, concorda? bolsonésio foi, nas palavras de Marco Villa, um analista fraco mas lúcido, o grande palhaço dos acontecimentos e não merece maiores considerações. Então chegamos à provocação. Na reunião da confraria de ontem, fui convidado a pronunciar-me sobre o juiz. Seria a condenação de lulalelé uma atitude política do magistrado? Na ânsia de responder deixei escapar o ponto mais importante, do que arrependo-me, mas recobro aqui: Calma lá, estúpida gente! Onde vos leva tal idiotia? O juiz é a vovozinha! Referir-se a Moro dessa maneira é uma tentativa espúria de rebaixá-lo ao nível do preso. Um ladrão cuja última alternativa ao encarceramento, posto não conseguir provar sua propalada inocência, foi alterar a lei e, por meio de seus aliados no congresso, com a esquerdalha de Freixo juntando-se a bolsonésios, derrubar a prisão em segunda instância. À questão: disse que não, a prisão não seria política, mas arrependi-me e defendi que sim, foi uma condenação política. Pedi ao interlocutor que comentasse qual o motivo para tal, na visão dele. Desconcertado, ele não respondeu e caiu no mais profundo torpor. Não sabia o que dizer! Ora, seu discurso estava preparado para a resposta contrária! Antecipando um desenlace possivelmente mais pesado do que a da simples defesa direta de Moro, ele subitamente desistiu de debater. Vejam o exemplo acabado do mais puro gadismo, como se tem dito nas redes. Eu gosto da argumentação para rebater a uma provocação; compro a discussão com o maior prazer, e pela afeição à polêmica. Apenas não tolero a contenda tola, sem boas alegações. Assim nominei meu oponente, como tolo. Tolo, definição de dicionário, é 1. que ou aquele que não tem inteligência ou juízo. 2. que ou o que é tonto, simplório, ingênuo, diz ou pratica tolices. Da mesma maneira, estúpido é 1. que provoca emburrecimento e/ou tédio; que não é inteligente. Denunciado como tal, ele tentou demonstrar indignação; eu estaria a desrespeitá-lo. Alto lá! A culpa de ser desmascarado é de quem se coloca nessa posição ao apresentar argumentos fracos. Ou sequer apresentá-los. Essa é a tropa esquerdalha que anda por aí, com suas gadices. Sou de esquerda, mas não me recordo de ter-me unido a esquerdalhas sequer em meus tempos de universidade. Sempre nutri a mais profunda desconsideração por argumentos fracos, ponto forte (sic!) dessa rapaziada desde sempre. Como era um encontro de confraria, tudo acabou em brindes.

A reunião

A confraria realizou mais um encontro onde ninguém apresentou-se vestido a caráter: nem os homens de noivas, nem as mulheres de vestais. Menos ainda deste Prelado como pároco. O Gustavo, do Bistrô Graxaim, propôs a degustação com um queijo, do qual ainda seria feita uma lasanha. Tratava-se de um Queijo Minas da Catauá Artesanal, o Catauá Meia Cura. O pessoal discutiu no uatizápi quais vinhos poderiam harmonizar, mas não acompanhei. Na hora, cheguei com meu candidato e pronto. Tentamos várias combinações entre brancos, tintos e um colheita tardia. Alguns colegas gostaram da harmonização. Toca este Enochato subir no burrico com o arreio na mão e tocar a marcha para cima dos confrades 🙄... Não, não harmonizou no estrito senso. Deu uma combinadinha? Deu. Mas acho que estamos tratando harmonização de maneira muito superficial. Não conheço nada disso, mas sei apreciar. E aquelas promovidas pelo Graxaim em parceria com a Enoventos foram de longe as melhores que provei nos últimos anos. Já escrevi que o assunto é complexo, e exige conhecimentos que somente boas parcerias poderão prover. 

A lasanha feita com o mesmo queijo estava realmente deliciosa; o Gustavo pensa em colocá-la no cardápio com o singelo nome de Lasanha às Noivas de Baco. Parece que qualquer Noiva ou Vestal que aparecer devidamente paramentada poderá pedir a iguaria às expensas da casa. A ver. A Luciana compareceu com um Albariño, o Pionero Mundi 2018 da D.O. Rías Baixas. Gostei; nariz cítrico, boa acidez e persistência. Em paralelo, servi uma magnum do espumante Bacio Della Luna Blanc de Blancs que agradou a todos. Causou furor quando disse quanto havia pago, em 'promo'; todos quiseram saber de onde viera (Enoeventos). Já comentei sobre ela, está aqui. Uma tentativa de harmonização do queijo aconteceu com o Montes Late Harvest Gewürztraminer 2019, da 'conceituada' Vinha Montes. Já bebi muitos tintos dela, até achava bons. Não mais. Este tinha nariz à mel(?) e mais, que não consegui destacar. Achei a acidez um pouco baixa para esses vinhos que são 'naturalmente' mais ácidos, o que decepcionou um pouco. Ando bebendo muito Sauternes, acho melhor dar um tempo... 😁.


A turma levou muito vinho. Meu Jaffelin Chardonnay 2019, já comentado, tomou uns cascudos muito bem dados do Pionero, e foi se esconder em algum canto. Teve quem bebeu 😂. Chamou atenção o Hacienda de Arínzano Tempranillo - não peguei a safra, acho que 2018 - levado pelo Ricardo. Comprei algumas garrafas com ele, mas acho que nunca postei. Estava agradável: boa fruta, boa estrutura, taninos domados e corpo médio, com acidez adequada; boa permanência e final. Não anotei as características e portanto não comentarei os outros vinhos. Não havia nenhum que merecesse uma crítica do tipo não compre/não beba, tarefa que este Enochato ver-se-ia obrigado a levar a cabo pelo bem da humanidade.




La Cave des Hautes-Côtes Beaune 2014

Já escrevi sobre esse vinho, com um texto de introdução aos vinhos da Borgonha. La Cave des Hautes-Côtes Beaune 2014, que alimentou esta postagem, é produzido pela cooperativa Nuiton-Beaunoy, e também foi comprado junto à Enoeventos com colegas de outra confraria. Bebi a primeira garrafa dele em setembro de 2020 e agora vai-se a última. Paguei ótimo preço à época - claro, choramos pela venda a preço de Enoclube, e pela quantidade de garrafas na compra, conseguimos. Ainda tem algumas garrafas lá, a preço original. Tornou-se ótima compra, com o atual valor do dóla. Está ótimo, e pronto para ser degustado. Nariz com ótima fruta vermelha, boca com acidez muito boa, que proporciona boa permanência e final. Dá para salivar, engolir uma, duas vezes, e notar que o vinho ainda está na boca. E olha que é um Borgonha simples... Apesar da boa acidez os taninos são leves, assim como o corpo de maneira geral. É uma característica dos Borgonhas... complicado dizer para os que desconhecem o estilo. Para quem não está disposto a arriscar-se neste Carnaval, e preferiu um momento mais contemplativo em casa, foi uma bela escolha. Deixarei meia garrafa para amanhã. Vejamos como vai se comportar...

Por último, mas não menos importante, a patota reunida...







Sunday, September 13, 2020

La Cave des Hautes-Côtes Beaune 2014

Introito

   Dizem por aí que Borgonhas são vinhos para "iniciados", jamais para iniciantes. O primeiro contato mais sério que tive com eles está descrito na postagem Meu primeiro Valisére. Não que o tenha usado, não, não... não é isso. Foi só uma comparação. Quem leu, sabe; quem ler, saberá. Os detratores que às vezes invadem o espaço, podem chamar-me de traveco. É o mais próximo de um argumento que conseguirão arguir: - Se usou sutiã, é traveco (refiro-me à pobre discussão levada a cabo por um detrator. Primor do discurso vazio). Voltando... a Borgonha é onde produz-se o melhor vinho do mundo. Não, o melhor vinho do mundo não é o Sassicaia , como pretendem alguns - tipo aqueles que comentam que o seu Sassicaia está estragado se você não fala absolutamente bem dele na postagem. Pow deve ter uns 300 Borgonhas melhores na frente dele. Brancos, claro. Imagine tintos. Voltando novamente... A Borgonha é a região onde nota-se a expressão máxima da Pinot Noir. Dá para aprender muito sobre a região - sua história, desde a definição de terrenos uniformes para o plantio pelos monges Cisterciences até os dias atuais - no livro A História do Romanée-Conti, do Maximillian Potter. Na verdade, nunca vi um livro tão laudatório como esse, verdadeiro exemplo do pior pseudo-jornalismo possível. Mas os dados históricos devem ser precisos - o NY Times pode não ser lá grande coisa, mas não erraria tanto ao dar a visibilidade que deu ao livro. - Precisava (sic) fazer uma resenha dele, qualquer hora. A ideia de lê-lo novamente é um grande motivador para que isso não aconteça... neeeeext!

Hautes-Côtes de Beaunes

Hautes Côtes de Beaunes é uma denominação genérica na Borgonha. Criada recentemente (década de 60), abarca as terras altas, depois das escarpas da Côte d'Or. O problema dessa AoC, que não possui qualquer vinhedo Premier Cru, está ligado à posição geográfica, que impede o completo amadurecimento das uvas e, portanto, seus vinhos não possuem todo o caráter e estrutura de borgonhas melhores. Nem por isso trata-se de uma região relegada. Produtores consagrados como Thibault Liger-Belair e A.F. Gros produzem vinho com uvas dessa região. 

Nuiton-Beaunoy

Nuiton-Beaunoy é uma cooperativa que conta com aproximadamente 80 membros (aqui). Deixemos claro que os cooperados em si possuem vinhedos Premier Cru, mas Hautes-Côtes de Beaunes não é uma delas. Dentre sua grande produção, encontra-se La Cave des Hautes-Côtes Beaune, um vinho com nariz à chocolate e fruta vermelha. Na boca, tem - para a média de um vinho europeu - boa estrutura, com acidez presente, álcool contido (13% que não aparece), tanino já 'domado', significando que está pronto para beber. É um grande vinho? Não. É felicidade engarrafada? Não. É um bom Borgonha? Não vou responder. "Bons" Borgonhas começam a aparecer a custo de USD 100,00 (lá fora), dizem. O leitor precisa compreender que Borgonhas são vinhos um pouco fora do padrão. Fechando os olhos: dá para reconhecer que Hautes-Côtes de Beaunes é um Borgonha (tem algo da tipicidade). Dá para reconhecer que Hautes-Côtes de Beaunes é um bom vinho. Não arrisco dizer que seja um 'bom Borgonha' em seu sentido mais amplo. Mas tenho certeza - certeza! - de que mata no peito e baixa pro gramado 105% dos vinhos sul-americanos que atualmente são vendidos por até o dobro de seu preço. Recobrando o início: Borgonhas são vinhos para iniciados, não para iniciantes. Nesse contexto, Hautes-Côtes de Beaunes é um bom vinho de introdução aos Borgonhas, para quem nunca bebeu um. 
Esse é um assunto complexo, o internauta interessado deve ter paciência e disposição para entender o que eu - cheio de dedos - estou tendo dizer. O mais dramático é um comentário na postagem Meu Primeiro Valisére, feito por quem entende muito mais do que eu. A postagem é de 2013. O dóla estava cerca de R$ 2,50: Dá para encontrar bons borgonhas abaixo de 200, mesmo que de entrada. Percebe? Atualmente - passados 7 anos, dóla nas alturas - Hautes-Côtes de Beaunes custa R$ 230,00 (e abaixo de R$ 200,00, para sócios do enoclube da importadora). É vendido pela Enoeventos. Tenho falado muito dessa importadora de uns tempos para cá. Comentei o Terres Secrètes Pouilly-Fuissé e os bons Equinócio e Solstício. Apenas enfatizo: tenho comprado vinhos por importadora - as que praticam bons preços. E tenho dados as dicas: a Clarets (do Côte de Léchet) os tem, se você pega na 'promo'. A Cellar tem sempre bons preços (jamais deixe de comparar com o preço 'lá', mas raramente decepciona). A Casa do Vinho de BH também. Idem a Lovino. Sempre, sempre, cuidado. Seja cidadão. Policie. Se estiver alto, deixe na prateleira. 

Ah, sim:  Nuiton-Beaunoy Bourgogne Hautes Cotes de Beaune tem preço médio de USD 26,00 lá fora. Fazendo as contas, USD 26,00 x R$ 4,50 = R$117,00. Note que na minha cabeça, o dóla vale R$ 4,00 + diferença turismo + 6,38% (e agradeça a boa e velha Dilma por isso) = R$ 4,50. Tenho 'estoques reguladores' de vinho, não preciso comprar a bebida se o preço aqui não estiver muito, mas muito bom, bom a ponto de satisfazer essa minha 'exigência' de cotar o dóla a R$ 4,50 e comparar o preço aqui. Portanto, com o dóla a R$ 4,50, esse vinho tem preço 'lá' de R$ 117,00, com preço 'cá' de R$ 230,00/190,00. Boa compra. Se o 'seu' dóla está R$ 6,00, ela fica melhor ainda. E sendo um borgoinha, então...