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Wednesday, February 28, 2024

Xisto Cru, entre idiotas e espertalhões

Introito. De idiotas e espertalhões.

Bolsonésio promoveu um encontro de idiotas e espertalhões na Paulista, estes dias. O roteiro era simples: idiotas aplaudiriam espertalhões, igualzinho ao que aconteceu pelo Nordeste inteiro nas últimas eleições presidenciais. Entre acompanhar os discursos ao vivo, via internet, e dedicar-me a alguma atividade produtiva, escolhi reassistir a alguns episódios de Vila Sésamo (anos '70!) disponíveis no Youtube - como era bela, a Sonia Braga. Mulheres tão belas normalmente envelhecem bem - como bons vinhos... Não sei como ela está agora, mas não de demovem: deve continuar bela. Voltando: as fotos abaixo mostram a movimentação em algum momento, não sei qual - a fonte está aqui, logo no minuto um, e a divulgação do vídeo é do Capitão Derrite, Secretário de Segurança Pública de São Paulo, bolsonésio assumido. Assumo que imagens não mintam. A polícia, sob controle do governador, presente ao evento, estimou os apoiadores em 750.000. Especialistas da USP - universidade onde estudei - valendo-se de um software para contar cabeças, em 185.000. Quem sabe fazer conta de vezes, e estimou a largura e comprimento da avenida, e a concentração das pessoas, riu de todas as estimativas. Em defesa da minha instituição - toca passar pano! - digo que o software contou apenas as cabeças, e devia mesmo ter muita mula sem cabeça presente, não sendo, portanto, contabilizadas. Quinhentos mil descabeçados concentrados em tão pouco espaço? Às vezes acontece... veja os jogos de futebol... nada, nada, dá uns 50 mil...
   Vemos abaixo um dos lados da Avenida bem congestionada por vários quarteirões, enquanto outro lado não estava tão movimentado, e tire suas conclusões. A minha é simples e direta: as mulas sem cabeça não se limitaram àquelas presentes na reunião.

   

Segundona da alegria e o Xisto Cru

A Liu - e outros compadres - estavam de malas prontas para ir conhecer algumas vinícolas da Serra Gaúcha e cercanias - saíram nesta noite de terça-feira. Ela comentou quais seriam visitadas, só não transcrevo para evitar ferir susceptibilidades mais aguçadas... Foi que ontem nos encontramos para um jantar de despedida. Recebi-a com um branquinho nojento, o Petit Chablis Pas Si Petit 2020, que, se encanta quem não está acostumado com a elegância de Chablis melhores, causa boa impressão a quem desconhece melhor a região. Não é ruim, em absoluto, principalmente se comprado a bom preço. Tem nariz com frutas brancas, tem a mineralidade tão característica da região, é equilibrado, a acidez está presente mas é um tanto ligeiro. Novamente: não pode ser comparado aos irmãos maiores, Premiers Crus, mas defende-se bem, na faixa de preço (uns R$ 130,00, mas já faz algum tempo). Meu indefectível filé ao molho gorgo foi acompanhado por um Xisto Cru 2014, o último dos moicanos.

Numa 'promo' espetacular comprei meia dúzia de Xisto Crus, e postei alguns. Não o tenho encontrado em 'promo' desde então, mas... tem Quinta do Noval rolando por aí. Tente os Syrah e Touriga Nacional, sem sisquecer do Petit Verdot. Não experimentei desse, mas Don Flavitxo falou muito bem - e é impossível desprezar uma sugestão dessa qualidade. Voltemos... a Liu cafungou e maravilhou-se: encontrou compota de ameixa, cereja, madeira e mais notas logo de cara. Safadinha... comentei algo como chocolate e/ou café, ela fez que não... 😣 Indócil (risos), procurou no Vivino e achou mesmo tais notas - o que significa pouco para este Enochato, posto Vivino estar cheio de bocas tortas. Acidez muito marcante, combinou com o bifim; tem boa permanência e final, e - não me lembrava - suportado por modestos 12% de álcool. Escrevo estas linhas junto da última taça de Xisto Cru: continua perfumado, ótima boca, bom final. Vai deixar saudades.

A Liu levou a garrafa do Chablis. Ela de saída, não resisti à provocação. Disse-lhe: Leve a garrafa amanhã, para comemorar a saída do passeio. Nem precisa de copo, chegue lá bebendo no bico. Ofereça aos confrades, e conte-lhes minha advertência: será o último gole de vinho bom durante toda se semana... Espero que depois me contem... 😂🤣

Sunday, April 24, 2022

O STU (Supremo Tribunal da União) somos nós

Introito

Estupidez infinita não é aceitável e muito menos é desculpa para algo.
Máxima do Enochato

Já notou como os pulhas que se autointitulam jornalistas nos soterram com informações no mínimo dúbias? E não refiro-me apenas aos locutores dos telejornais - que, por algum acordo estranho precisam ser jornalistas. Um telejornal é obra de dezenas de jornalistas que se reúnem para pauta, pesquisa, discussão e apresentação. Depois mandam para o dono, que aprova ou não. Não aprovando ele passa um corretivo na turma, que refaz o trabalho. Perguntaria o inexistente leitor, quais informações são dúbias? Vejamos este exemplo: uma hora dizem que mais de 50% dos eleitores não querem nem lulalelé nem bolsonésio. Noutra, dizem que lualalé tem 36% dos votos e bolsonésio tem 27%, ou algo assim. Cabe ao público pensante (1%, quando muito) entender que lulalelé tem na verdade 36% os menos de 50%, assim como bolsonésio tem 27% dos mesmos-menos-de (sic) 50%. Fora que cada instituto apresenta dados diferentes, agora por culpa ou graça da tal metodologia. Você já tinha ouvido falar nisso antes? Pois é... Metodologia que muitas vezes nem é divulgada. Ao fim e ao cabo, submetem-nos aos números que querem, e fica por isso mesmo. Assim, PTelhos regozijam-se de pesquisas que lhes dão vantagem e escarnecem as contrárias, com os fascistas em exata oposição de fase. Só estão se esquecendo de combinar com os russos, ou, de outra maneira, com o ilustro eleitor. Este, aliás, anda pê da vida não apenas com essas tranqueiras, como também não têm em boa conta o Supremo Tribunal Federal. Por isso muita gente boa não se meche quando pit bulls travestidos de deputados pedem a cabeça - literalmente - de algum ministro. bolsonésio, dentre outras, brecou a lava-toga, lembram-se? Em conluio com os PTelhos, não sisqueçam. Cabe ao Superior Tribunal da União, composto por todos nós cidadãos, dar o troco (no estrito sentido da lei) nessa malta que nos assola. Outubro está chegando.

Reunião da confraria

A confraria sem nome (precisamos dar um jeito nisso...) reuniu-se na quinta-feira para acertarmos os vinhos vindos do Canadá. Sentamo-nos Ghidelli e eu com a sra. N e ficamos coçando a cabeça de onde tiraríamos 300 dólas por cabeça para o rateio. Ao fim cada um abriu a carteira e pagou; era mais medo do escorpião dentro do bolso do que falta das verdinhas... Até que selecionei umas tralhas legais, e a própria sra. N aprontou das dela por lá, conseguindo um Faustino I Gran Reserva da excelente safra riojana de 2001. Capaiz (sic) que juntemos minha igualmente ótima safra 2005 e a muito boa 2009 para promover uma vertical desse vinho que em sua safra 2001 foi apontado pela revista Decanter como o primeiro em sua lista de 2013, se não me engano. Não entenda essas listas - por mais suspeitas - como a dos melhores vinho do mundo. Não. São sim boas compras, mas nem de longe os melhores em qualidade absoluta. Veio também um Muga Selección Especial 2005 (disse que era ótima safra, né? Pois...). Enfim, com alguma economia teremos vinho para algumas celebrações especiais pelos próximos dois anos. Parcimônia é preciso. E também temos cada um algumas garrafitxas a mais para alegrar a vida, claro 😃.

   


Enquanto rolava a conversa íamos nos divertindo com algo mais simples. Saquei primeiro um Villa Blanche Syrah 2019, produção da empresa Languedoqueza (sic!)  Calmel & Josephcujo Pinot foi comentado aqui. Fiquei surpreso como o buquê agradável batendo forte no nariz. Não que esteja 100% bom, porque senti uma massa de frutas sem conseguir distingui-las. Mas estava lá,  bem perceptível. Alguém comentou que as frutas seriam vermelhas. A boca ainda está congestionada, mas senti melhor do que das outras vezes uma acidez de leve. Deve ser mais alta; o pessoal gostou, apontando taninos amaciados e chocolate na boca. Depois servi um Xisto Cru 2014, que deu o ar da graça em várias postagens. Não estou certo se o Ghidelli conhecia, mas ele gostou muito. Apontou buquê à seiva de eucalipto, que para a Dona Neusa traduziu-se em mentol. Para mim a fruta vermelha predominou. A boca mostrou melhor acidez, mas um tanto ligeiro. Para os convivas, a persistência foi considerada boa. Folguei em felicidade percebendo alguma recuperação. Confesso ao inexistente leitor que estava um tanto preocupado, mas depois dessa posso pensar em ameaçar algum vinho de verdade no futuro próximo. Salve Baco!

Tuesday, March 1, 2022

A Lei de Murphy e o mal planejamento

Introito

Comunica-nos a Deutsche Welle que a Alemanha desligou três de suas últimas seis usinas nucleares em 31/12/2021. Acho que já existiram 17 por lá. O Greenpeace foi logo projetar em uma delas a frase "Por uma Europa sem energia nuclear", enquanto festejava a reafirmação de que até 2030 as fontes renováveis (eólica e solar) responderão por 80% da demanda energética alemã. Então eles fizeram assim: penduraram-se em um aumento momentâneo do consumo de carvão e gás natural enquanto prosseguem na renovação de sua matriz energética. Lembra daqueles filmes do Tarzan, quando ele se apinchava (rs) de um cipó para o outro? Sempre havia o próximo cipó parado à sua espera. Com a guerra na Ucrânia, a Alemanha apinchou-se do cipó anterior sem saber onde estava o próximo... cadê essa turma do Greenpeace agora, que não comparece para passar frio pela população? Cadê meu fio desencapado, mesmo? A Alemanha corre o risco de ficar na pindaíba por causa de seu erro grosseiro de planejamento, e aí o culpado é o Putin... Ah, tá... Curioso mesmo é que ninguém chamou essa turma para assumir o erro. Tá, ela não ficará na pindaíba. Mas o Putin será o culpado da mesma maneira.

Xisto Cru 2014

Havia experimentado o Xisto Cru pela primeira vez em abril de 2020, pouco antes da pandemia ficar séria, portanto. Daquela vez teve Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas, Quinta do Noval, Xisto Roquette e Cazes, dentre outros... uma esbórnia onde o principal da postagem foi comparar preço e a qualidade segundo os degustadores. Experimentei dele novamente no final do ano passado, quando havia pego Covid; a análise ficou comprometida. Agora vai... 😆. Apresentou nariz bem marcado à frutas vermelhas e algo mais, terroso, talvez, ou carne, quem sabe. Tem mais camadas, mas falta melhor provador para apreciar devidamente. Boca com alguma especiaria, aquele travo doce português bem leve, bons taninos, ótima acidez; tem intensidade, e ouso dizer que advém mais da acidez do que do tanino. Veja a diferença que pode fazer esse detalhe que sempre enfatizo quando existe e reclamo quando falta... Está ótimo para beber, mas pode ser guardado. Surpreende pelos 12% de álcool... tem boa persistência e final, e não notei madeira - mas parece que tem... Segundo o Wine-Searcher, é um corte Rufete, Touriga Franca, Malvasia Preta, Alicante Bouschet e Donzelinho Tinto. Custa suas 35 Libras 'lá' (35 x 7 = R$ 245,00), e R$ 566,00 'cá'. Para ser o dobro, custaria R$ 490,00. Diria que é o limite da compra. Mas se esperar uma 'promo', aí deve ficar bastante bom...



Saturday, January 1, 2022

Esbórnias de fim de ano II e a doce Ph.D.

Introito

   Conheci a Angelina por questões profissionais: ela encontrou-me em uma lista de prestadores de serviços e entrou em contato. Apenas não sabia - ainda - que precisa tanto de mim. Mas isso é trabalho, e este espaço é dedicado ao hedonismo - quando possível - e à Pátria sempre que necessário. Acontece que às vezes o multiverso colapsa em um ponto; provo comentando que a filha da Angelina mora em S. Carlos, e, ainda, é quase vizinha. Podemos nos ver pela janela, acreditem. Vai que, em alguns momentos, visitando a filha, ela escolheu realizar algumas reuniões presenciais durante o ano que passou, quando acertamos detalhes monótonos demais para comunicar por e-mail. Sempre reguei as reuniões com um queijo e vinho ou quetais. Ao final de ano, por simpática e doce retribuição, convidou-me para um prato especial em Campinas, onde reside atualmente. Prometeu uma experiência inesquecível avisando que seria comida de restaurante - eu traria o vinho. Falou o nome, fui procurar e assustei com a responsabilidade. Nããããããooo... Sabe de nada, inocente! Pra que existe o Google? 😂

Vinho e massa

A iguaria proposta é especialidade da Cantina Fellini, o Gnocchi a Carolina: molho napolitano, branco e ao sugo, manjericão, calabresa, Catupiry, muçarela e gratinado com parmesão. Tenho quase certeza de que fui a esse restaurante há tempos, sob recomendação e imposição (😆) do Jacimon, tão entusiasmado que estava por mostrar-nos sua descoberta. Bebemos um portuga '65 lá, dentre outros (não postei). Foi bão... mas voltando, para harmonizar um vinho com massa, devemos olhar para os acompanhamentos, uma vez que a massa em si é neutra. No caso o item mais marcado seria a calabresa, e ela pode muito bem ser acompanhada por um Chianti. Tinha um especial... infelizmente, conversando, beliscando entradas e bebericando desde antes de partirmos para o principal, não terei a foto com prato montado, mas remexido... 😖 Conto com a indulgência do querido leitor. A Angelina ficou afirmando - com toda razão - que a culpa seria só minha...

Capraia Chianti Classico Gran Selecione Effe 55 2013 é produzido em Gaiole, um das três cidades que inicialmente deram origem à denominação. É um Sangiovese 100% envelhecido por 18 meses em barricas de 3.200 litros e outros 12 meses em garrafa. Respirou por cerca de uma hora e meia antes iniciarmos o almoço. A cereja, típica da Sangiovese, estava lá. Ligeiramente herbáceo, algo na direção de couro ou chocolate. Boca equilibrada, taninos mordendo um pouco atestavam que poderia envelhecer mais. Ou deveria respirar um tanto a mais, quem sabe... Ah, quem sabe é a Angelina, porque o vinho ficou com ela! Depois vou perguntar! Ainda com fruta e especiaria, ótima acidez e final longo. Boa permanência. A safra 2013 foi muito boa em Chianti, e vinhos bem feitos dessa região possuem bom potencial de envelhecimento, veja o Berardenga 1999 que bebi em janeiro de 2021. Mas quis o destino que a jornada desse Capraia fose abreviada, talvez pela metade. Não ouvi soluços ou reclamações...
   Por sobremesa, tivemos uma adaptação da torta Banoffee, sobremesa inglesa de banana e toffee, que fotografei mas inadvertidamente acabei apagando sem perceber... não conhecia, e convenhamos que a culinária inglesa não é exatamente famosa... mas essa torta é espetacular. Quem puder, prove...


Esta postagem foi tocada com a metade que sobrou de ontem do Xisto Cru 204, um Douro já degustado aqui. Por descuido, no dia 30 fui ao centro da cidade e tomei alguma chuva. O banho quente ao voltar para casa não impediu um mal estar com febre e dor no corpo. Medicado, na noite do dia 31 não tinha mais nenhum sintoma, mas desconfiei que nariz e boca estariam afetados. Escolhi um vinho mais simples para a virada de ano, e não deu outra: ele estava diferente mesmo. Insosso, 'pouco de tudo'. Hoje - comigo bem melhor - já demonstrou mais fruta vermelha e boca com especiaria. O travo doce português está lá, também. Boa permanência e final, mas claramente ainda não estou recuperado dos efeitos secundários do mal estar. Uma pena não poder falar mais desse vinho, que é muito bom e merece atenção por parte do leitor. Preferencialmente comprado em 'promo', porque seu preço cheio é salgado.

Tuesday, April 28, 2020

Um "pega pá capá" à portuguesa

Introito

   Gosto de vinhos portugueses. Sempre gostei, aliás. Nos anos 80, já eram comuns em supermercados de rede os exemplares da Bairrada. Não deviam ser grande coisa, mas este experimentador também não o era. Não naquela época. E não que o seja hoje, mas pelo menos atualmente ele tem alguma noção da própria ignorância e um pouco de senso crítico, o que, convenhamos, é um avanço e tanto. Havia também o Casal Garcia e o Calamares, que faziam muito sucesso entre o público, e o Lancers, menos famoso, tinha seu séquito apoiado no 'charme' da apresentação em garrafa que imitava terracota. Quem procurava tintos, encostava-se naqueles exemplares de Bairrada e Dão, estes representados pelo Catedral e Grão Vasco. Tinha, ainda, o indefectível Periquita - quem não conheceu, naquela época? Ainda vejo por aí, só me pergunto se tem a mesma aceitação no mercado atual. A quantidade de opções cresceu bastante...
   Sim, as opções apareceram. Seu crescimento foi desordenado, infelizmente. Esse "desordenado, infelizmente" vem do fato que as opções cresceram, mas o consumidor não foi tão beneficiado assim. Importadoras com margens pornográficas estabeleceram-na mais ou menos naquele momento, e o consumidor não tinha noção do quanto precisaria estar atento. Descobrir marcas de menor markup, ou de um markup minimamente 'honesto' deve ser exercício diário do bom consumidor neste país, mas isso só ficou mais claro com o advento da internet, quando pudemos começar a notar o preço dos produtos lá fora. As coisas aqui (no Brasil) são muito distorcidas. De longe, as mais (distorcidas), dentre os países que poderíamos chamar de 'potências'. Infelizmente. Aliás, pelos acontecimentos recentes - recentíssimos - estamos nos afastando cada vez mais do patamar que nos permitiria aspirar a tal designação.
   Um detalhe chato é que em S. Carlos - e região - os rótulos quase não mudam. Às vezes aparecem algumas novidades, em alguma degustação. E então essas 'novidades' acabam por tornar-se as novas 'carnes de vaca'. Ou seja: a disponibilidade de rótulos parece seguir-se a um certo crescimento do número de consumidores, mas também parece ficar limitada a eles! O resultado essa inércia dos lojistas, a médio/longo prazo (digo, desde 2010 para cá, mais ou menos), acabou sendo devastador para os próprios lojistas: muitos consumidores começaram a enveredar-se pela internet, foram apreciando outras opções - boas compras ou não - e percebendo que, em essência, dependiam muito pouco - ou nada - dos lojistas daqui.
   Desde sempre sou a favor do lojista. É ele quem promove - quando as promove - degustações para estarmos em contato com produtos e produtores. Não há melhor experiência do que vivenciar in loco um momento onde podemos 'emergir' em nossa bebida preferida, trocar ideias com 'amigos-bebedores' e conhecer outros. Mas o lojista também precisa perceber que ele é quem está ao nosso serviço, e não nós ao dele. A inversão dessa regra extremamente simples permitiu que o gado escapasse para o campo. E, rebelde, parece prometer cada vez mais que não voltará...
   Também é preciso comentar que o preço da 'imersão' proporcionado por uma degustação não pode ser a eterna submissão aos mesmos produtores, trocando-se apenas a safra. Já há muito tempo não quero mais a safra nova do velho vinho. Quero a safra velha do vinho novo. Para quem faz sentido, ótimo; não estou a fim de desenhar hoje.
   Como argumentos derradeiros, dois depoimentos:
   O do Flávio 'Vinhobão' (o Don Flavitxo de tantas postagens): um dos primeiros compradores do sítio da Wine tão logo ela apareceu no mercado, Flávio, que mora em condomínio, passou pelas fases de ser parado na portaria para receber sua caixa de vinhos, e notar que lá só estava a dele, para uma situação, já de anos atrás (quando ele contou-me a história), onde chegava a receber por engano a caixa de outro, dadas tantas outras que aguardavam seu feliz proprietário na 'casinha' do porteiro. E, pela conversa dele com os porteiros, 'é todo dia assim'!
   O meu próprio depoimento: comecei a 'acessar' chilenos um pouco melhores lá por 2004, quando passei a visitar o país regularmente por conta de velhas amizades enfim recobradas. Trazia, por USD 20,00 (ou menos), naquela época menos de R$ 40,00, vinhos que aqui custavam R$ 100,00-R$ 130,00. Eram vinhos que eu chamava várias pessoas a degustar e dividia com elas pelo custo 'de lá'. Aliado a isso, comecei a ler sobre vinhos e produtores, o que ninguém fazia. Citando de cabeça algumas regiões e uvas dentro delas, os confrades começaram a acreditar (risos!) que eu sabia mesmo sobre vinho. Sem maldade. O foco deles apenas era diferente: gostavam de vinho, mas não liam sobre. Mais do que justo, não queriam ser especialistas. Mas chamou-me a atenção quando muitas dessas pessoas, ao começarem a se 'desgarrar' do mercado local, vinham partilhar comigo - no encontro casual em algum restaurante, ou até nas próprias degustações locais(!) - a boa nova de terem encontrado um lugar 'assim e assado' em S. Paulo, na maior parte das vezes, com vinhos diferentes e preços melhores... sacou?

Embate de 'gigantes'

   Essa degustação aconteceu há algum tempo. Não avisei ao Flavitxo que levasse um portuga; disse apenas que levasse algo 'bom'. Flavitxo, como de hábito a tais chamados, não se fez de rogado: compareceu em alto estilo e fomos todos beneficiados pelo acaso. Mas voltemos ao começo.
  Um belo dia acordei com a pá virada (rs!) e resolvi que alguém pagaria o pato. Andava de marcação com 'ele', de modo que nem posso negar ter sido um 'caso pensado'. Combinei com a turma uma degustação às cegas; todos toparam. O convite ao Flávio veio depois. Estava era com desejo de experimentar mais um Xisto Roquette... e assim que preparei a 'brincadeira':
   Claro, levei todas as garrafas devidamente embaladas em papel alumínio. Don Flavitxo faria o mesmo. Vamos lá:
   Xisto Ilimitado (2016) e Xisto Cru (2014): lavras durienses de Luis Seabra, que deixou seu posto na respeitabilíssima Niepoort para tornar-se dono da sua própria marca, emprega principalmente - mas não apenas - as consagradas Touriga Franca e Alicante Bouchet. Preços na importadora: R$ 165,00 e R$ 383,00, respectivamente. A confirmação, como de hábito:

   Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas (2008) e Xisto Roquette e Cazes (2005): mais durienses, desta vez produzidos pela famosa Quinta do Crasto. É um grande produtor da região, mas nem por isso seus vinhos deixam de ser bem acabados. Vinhas Velhas tem uma produção realmente grande, 80.000-90.000 garrafas. Já Xisto Roquette e Cazes é produzido apenas em safras específicas - foram apenas oito desde 2003, sendo 2015 a última safra disponível. O sítio da Qualimpor - importadora dos proprietários da própria Quinta do Crasto, que são os mesmos da Herdade do Esporão, também por ela representados - não traz mais os preços dos vinhos. Assim, precisamos apelar para o wine-searcher. Vinhas Velhas: entre R$ 332,00 e R$ 583,00. Xisto Roquette e Cases: entre R$ 779,90 e R$ 1.398,90. Pow, chega a quase 100% de variação. Para efeito de idoneidade e registro,


   O Xisto Roquette e o Vinhas Velhas passaram por aerador. Ambos do Luis Seabra respiraram em garrafa. Duas horas e pouco para todos. Em seis pessoas, as cinco garrafas serviram a todos e sobrou um pouco de cada. O Flávio comparecera com um Quinta do Noval, vinho de excelente produtor.

   Digno de nota, a certa altura puxei o Flávio de lado e perguntei o que ele achava dos vinhos. Dos dois primeiros (Xisto Ilimitado e Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas), comentou que o primeiro parecia-se muito com o... Xisto Ilimitado(!), que ele experimentara há alguns meses e achara muito 'justo'. O segundo, identificou como duriense (!), e disse que estava muito bom. Melhor do que o primeiro. O terceiro, achou que poderia ser espanhol. O quarto (Roquette e Cazes), cravou duriense também(!). O quinto era o vinho dele.
   Na opinião dos bebedores - e isso foi quase unânime - o primeiro vinho ficou abaixo do segundo. Havia clara superioridade, mas era de 'um degrau'. Já o terceiro (Xisto Cru), foi considerado bem superior ao segundo, e próximo do quarto (Roquette e Cazes). O quinto foi considerado por todos o melhor, sem margem para discussão. O quinto era, portanto, o Quinta do Noval.
   Isso não se reflete nos preços dos vinhos, nem 'cá' e nem 'lá':
   Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas, 25,00 €/R$ 332,00 e R$ 583,00
   Xisto Roquette e Cazes, 71,00 /R$ 779,90 e R$ 1.398,90
   Xisto Ilimitado, 12,50 €/R$ 165,00
   Xisto Cru, 33,00 /R$ 383,00
   Quinta do Noval, 54,00  / não encontrei estimativa para essa versão do Noval; recentemente aportou por aqui um Quinta do Noval Reserva, mas não tenho certeza de ser o mesmo.

   Outro fato digno de nota: logo que abri o primeiro vinho, o Flávio, com um sorriso maroto - ele chutara para o grupo que aquele poderia ser um Xisto Ilimitado - levanta o dedo e avisa:
   - Então vou reformar minha opinião que dei ao Carlão em reservado. O terceiro é o Xisto Cru.
   E era mesmo...
   Preciso falar de qualidade dos vinhos, de terroir? O Flavio cravou a origem todos... São vinhos de bom equilíbrio, boa boca, bom nariz, prontos para beber (também... um Roquette 2005...).

Conclusão

  Este 'mega embate' (risos!) comprova, mais uma vez e para náusea dos seguidores, aquilo que venho 'batendo' desde... sempre?: belos vinhos, em regime de péssimas compras, não proporcionam um prazer proporcional ao preço. O problema é que isso só fica mais evidente quando se faz uma comparação de 'alto nível', quer dizer, quando se tem a oportunidade de apreciar vinhos de padrão semelhante - neste caso, Xisto Cru, Roquette e Cazes e Quinta do Noval. Percebemos que, 'preço lá', a diferença entre  Xisto Cru e Quinta do Noval simplesmente... 'faz sentido': Noval é superior, portanto 'vale' mais.  E o preço de Xisto Roquette e Cazes parece mais uma piada - infelizmente. E olha, estou dizendo 'lá'! Ainda 'preço lá', Xisto Ilimitado é uma ótima compra, já que custa a metade (aqui também!), por apenas 'um degrau' abaixo, quando comparado com Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas. Onde se tem uma concorrência 'porta a porta' - você sai da porta de um produtor e entra na porta de outro -, os preços tendem a ser mais equilibrados.
   Desnecessário declarar, mas vamos lá: nada tenho de pessoal contra ou a favor de qualquer um dos produtores. Aliás, conheço pessoalmente o pessoal do Crasto/Esporão, e desconheço completamente o senhor Luis Seabra. Aqui está expressa apenas a opinião. E não somente a minha! Depois, paguei por todas as garrafas (não sei o Flávio - risos). E não é porque paguei mais por um vinho que mostrou-se inferior que vou falar mal dele. Reafirmando, a percepção dos vinhos foi praticamente unânime. Por conclusão, os vinhos do Crasto são bons, mas a esse preço são péssimas compras. Diminua-se o preço a ponto de torná-los competitivos, e reformo minha opinião no dia seguinte. Não, não. No mesmo dia.
   Não tenho nada contra o produtor querer valorar seu produto. Afinal, se ele tem belos olhos, o produto dele deve valer mais, não é mesmo? Se a última declaração está certa ou errada (risos), é apenas plenamente discutível (gargalhadas!). Mas nada como uma avaliação corajosa e independente para posicionar as coisas nos devidos lugares. É mais ou menos como o caso do Sassicaia: é bom? É. Vale USD 215,00? Never... mas tem quem pague. A isso, chamamos 'mercado'.