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Introito
Esta postagem mostra - para meu auto-engano (risos!) - quanto a persistência e atenção compensam. Há muito tempo, encontrei no Savegnago de São Carlos um enxurrada de vinhos franceses. Olhei no rótulo traseiro procurando pelo importador. Acho que já disse: desde algum tempo, compro mais pelo importador do que pelo produtor. Irmãos Mufatto. Uma rede de supermercados sediada em Cascavel.Um parênteses: os supermercados de maior porte estão acordando para esse mercado de vinhos. Muffato e Beal no Paraná, Verdemar em Minas (alguém conhece mais algum?)... aqui e ali esses grupos estão trazendo seus próprios vinhos e ofertando-os com margens típicas de supermercados, algo em torno de 30%. Talvez a margem seja um pouco maior para os vinhos, mas ainda assim é muito inferior àquela praticada pela banda podre das importadoras mais especializadas. Para o supermercado, é uma ótima tática: oferece um produto bom a preço convidativo, e com isso tem um diferencial para atrair a clientela. Nosso mercado está começando a mudar... Espero estar vivo para ver essa banda podre fechar. Ou mudar, o que seria sem dúvida muito mais salutar e bem-vindo. Na falta da mudança...
Bem, voltando: essa aquisição foi um tanto engraçada. Demorei para ir conhecer o supermercado, após sua inauguração. Não é que para minha surpresa a parte de vinhos estava recheada de produtos franceses?! Inicialmente achei a importação dos Irmãos Muffato um bom sinal. Mas como sou consumidor, e não consumista, a prudência falou mais alto: fotografei os vinhos e fui para casa verificar tudo no wine-searcher. Foi uma decepção. Os preços estavam a 3x ou mesmo 4x com relação ao valor lá fora.
Voltei ao supermercado um bom tempo depois. Mais de ano. acho. Os vinhos estavam no mesmo lugar. Só os preços é que mudaram de patamar. Tudo pra baixo! Cerca da metade.. aí sim, gostei! 😋
Confesso que fiquei em dúvida. O que teria acontecido para os vinhos chegarem a custo inicial tão alto?
* A importadora não era mais a mesma? Digo, havia abandonado sua política de bons preços?
* A importadora havia aplicado um golpinho no Savegnago , realizando uma venda com boa margem?
* O Savegnago havia feito uma boa compra, mas se acharam espertos e colocaram os produtos com margem de importadoras 'regulares'?
* O responsável pelas compras do Savegnago fez um bem-bolado com o responsável de vendas do Muffato, e ambos embolsaram a diferença? (não estou questionando a idoneidade das partes, mas antes apresentando todas as possibilidades que poderiam deslocar o preço dos produtos em relação às minhas expectativas).
O fato é que os preços altos haviam se transformado em bons preços. A política do "deixe para os tolos" funcionara - e parece que o número de tolos tem diminuído sensivelmente... Só lamentei que alguém menos tolo aparentemente levara as garrafas do Château Cantemerle, o único Grand Cru Classé dentre o lote então disponível. De qualquer maneira, lá foi este Enochato todo faceiro cuidar de suprir sua adega com mais algumas garrafas. Anos depois, é uma delas que resolvo experimentar, sozinho e brejeiro, em meio à quarentena do Corolla vírus. E cuidado, estão dizendo que ele é especialmente agressivo com proprietários de Sentra...
Domaine Delon
A família Delon, proprietária do Domaine de mesmo nome, controla os produtores Léoville Las Cases, Clos du Marquis, Potensac e Nénin, espalhados pela Bordeaux. O sítio é bem organizado, com belos filmes da região e recomendo uma visita. Por ter-me demorado na introdução, deixarei outras informações sobre o Domaine para o internauta mais curioso.Château Potensac
O Château Potensac está localizado no Médoc, região das uvas mais típicas de Bordeaux. Produz dois vinhos, o Chapelle de Potensac é seu vinho de entrada e o Château Potensac é o principal. Na safra 2011, sua composição foi Merlot (52%), Cabernet Sauvignon (34%) e Cabernet Franc (14%), com 13,5% de álcool. Aerei por cerca de uma hora antes de começar a consumir.Este Château Potensac está maduro. Pode ser guardado mais um pouco, mas seu consumo agora vale a pena. Tem bom corpo, enche a boca, tem fruta bem presente, bons taninos e média acidez, tudo muito bem integrado. A Merlot mascara a Cabernet Sauvignon; não senti tanto sua picância, embora ela estivesse lá - precisa prestar atenção. Curiosamente a Cabernet Franc estava mais aparente: parece que a CF pica mais no meio da língua, enquanto a CS pica na entrada dela.
É um daqueles vinhos que podemos classificar como 'felicidade engarrafada'. Se o eventual leitor tiver a oportunidade... recomendo.
Post scriptum
Sabia que tinha os dados comentados no início da postagem. Apenas não lembrava em que pasta estavam... e como eram antigos! Na verdade, constatei a oferta inicial do Savegnago em 2016! O preço era praticamente R$ 300,00, e o 'dóla' naquele mês estava RS 3,53. Naquela época o vinho lá fora custava entre R$ 70,00-R$ 90,00. Mais de 3x, sendo bonzinho. Era uma péssima compra. Lá por 2018, acabei comprando por menos de R$ 150,00. Aí sim...O mais engraçado é que, na mesma época (2016), também via Irmãos Mufatto, o português Brutalis, em sua safra 2011, era ofertado a cerca de R$ 120,00, enquanto custava em Portugal uns R$ 90,00 - aí sim, um bom preço. Tanto que levei uma garrafa em 2016. Mas que não dá para entender, não dá...
