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Friday, January 2, 2026

Paduquices de aniversário e desejos de um feliz ano novo

Introito

Poucas vezes a ignorância é uma dádiva. 
Na maioria delas, é fonte da suprema vergonha.
Oenochato

   Esquerdopatas continuam a ruminar injúrias contra bolsonéscio - houve um breve momento quando pararam a comemorar sua merecida prisão (se legal, trata-se de juízo que não é comigo). Diretopatas queixam-se do STF, das manobras do governo na Câmara e Senado (onde ele não é maioria) e tentam trazer o provo às ruas, com resultados sempre pífios. Menos em seu ideário, funcionando a serviço de devaneios flagrantes: - Apenas mais 72 horas, patriotas! Ao fim e ao cabo são duas turbas ignaras lutando entre si e em um obsceno todos contra todos, onde quem perde são as classes média e abaixo - uns 80% da população. Com seu QI de galinha cada lado limpa-se na sujeira do outro, crendo piamente em memes metodicamente planejados para confundir cada vez mais seus cérebros já injetados por narcose ideológica prolongada e onde o pensamento crítico foi substituído por reflexos pavlovianos de indignação seletiva. Todos têm suas certezas e ninguém se envergonha. Mas deixam passar despercebidos como seus governantes foram os piores da estória desse país.

Outra no aniversário

A Paduca reuniu-se em meu níver enxertada por Don Flavitxo. Para meu desespero só encontrei a garrafa do branco, o Fósil Chardonnay 2017 da Zuccardi, ofertado pelo visitante e servido às cegas. Tive uma clara estranheza ao provar dele: a mineralidade advinda de solos de calcário de San Pablo estava muito óbvia, mas não se encaixava no meu precário rol de brancos conhecidos. Tinha boa acidez e persistência - não lembro-me bem das notas além de algum cítrico óbvio para esse tipo de vinho. Não era aquela mineralidade chablisiesca como dizem alguns, mas era interessante. Aportou boa expressão, enchendo a boca e promovendo experiência singular para a confraria - principalmente para os colegas noviços nessa seara. O problema - como sempre - fica por conta do preço. Tem sítio argentino enfiando (sic) o valor em dóla 😣 - 92,00 - enquanto outros cobram 95.000 Pesos - R$ 560,00. Não procurei com muito afinco - e pouco conheço, também - mas por valor similar (USD 99,00) compra-se um Comtes Lafon Les Duresses da excelente safra de 2020. Um Premier Cru de quem é considerado apenas um dos melhores produtores de brancos do mundo. Provei um Villages dele, que é simples, e achei muito bom. Fósil mal competiria com ele (não no quesito mineralidade, onde ganharia, mas essa é apenas uma das características de um vinho, e ter mais não significa ser melhor), imagine disputar com outro um degrau acima. Certo, a comparação entre um vinho chablisiesco contra um Borgonha da gema (sic) pode parecer desproporcional, mas estamos falando de preço! Porque, preço por preço, por 70 dólas (na média) dá pra pegar um La Chablisienne Grand Cru Les Preuses, e não dá pra Fósil não... Quer dizer (sic): a 90 dólas ele está cercado de um lado por Borgonhas Premier Cru, e por outro de Chablis Grand Cru. Acho ótimo quando tolos preferem o primeiro aos demais; é como bolsonéscios e lulaslelés imersos em sua imbecilidade mais profunda escolhendo tão errado quanto a burrice permite. Vibro, porque sobra um pouco dos últimos para mim... Aqui Fósil está entre milão (sic) e R$ 1.360,00, se não for 'confrade', ou R$ 850,00 e R$ 1.150,00 se for cidadão de primeira categoria, digo, membro de clube (rs). O preço-confrade está próximo a 2x, o que indicaria uma boa compra. Indicaria... se não fosse uma montanha de dinheiro por um vinho que seguramente não se aproxima dos citados.

   Quanto aos tintos, foi tudo planejado. Até o convite a Don Flavitxo foi motivado a uma brincadeira de muito tempo atrás. Vinhos às cegas, paduquentos batendo cabeça, Flavitxo nadando de braçada. Ele identificou bem a procedência (Ribeira del Duero) do Pagos de Capellanes Joven 2019 - já degustado pelos confrades - e vibrou logo ao cafungar a primeira taça do El Nogal 2015: tinha a elegância discreta dos grandes vinhos quando estes não querem ser espalhafatosos. Notem: são ambos vinhos do mesmo produtor. O Joven é o mais simples e El Nogal está na linha ícone, composta, em ordem crescente, pelo próprio, pelo Doroteo e finalmente pelo El Picón. Ambos são Tempranillo, e enquanto o primeiro apresentou-se mais direto na fruta, alegre, boa pegada, acidez bem presente, o segundo expressava notas delicadas em espectro muito mais largo, indo da fruta ao herbáceo, com muitos toques entre um e outro ponto. Tem ótima boca, vibrante, adorável, também com muita fruta, especiaria, chocolate/fumo (qual?) e uma mistura que confundiu a percepção deste enólatra. Ótimo final de boca e persistência, com madeira e álcool integrados à boa acidez, e não precisa de mais (rs). Pagos de Capellanes tem representação repartida entre Grand Cru e Enoeventos. A segunda tem de momento apenas o Joven, de R$ 319,00 por R$ 217,55/R$ 229,00 (Enoclube/Cidadãos de segunda categoria - rs). Na primeira, R$ 280,42/R$ 329,90 (Confrade/Cidadãos de segunda). Encontra-se na Espanha por cerca de 15,00€ (R$ 96,00, sem contar IOF), então está mais de 2x em Enoeventos e 3x em Grand Cru. Quem comprou quando o preço era menor, comprou. Quem não comprou (sugestão), procure outro.

   A última garrafa, também às cegas, causou furor e justificou plenamente meu brinde: Meus caros confrades, conheçam a opulência e regozijem-se com ela! Novamente Flavitxo não teve dificuldade em notar o Riojano, enquanto os Paduquentos perdiam-se em considerações diversas. Já havia provado um Remirez de Ganuza Reserva da excelente safra 1998, e o degustado, da grandiosa safra 2005 também estava rico e em nível superior ao Nogal: avalanche de frutas para atordoar, madeira, pimenta e mais complexidade - fumo, e não só. Demonstra seu comprimento em boca: largo, profundo, aquela persistência que depois de engolir e salivar notamos como ele continua lá. Acidez média a alta, taninos pegados mas já devidamente arredondados, sem saliências: sofisticação aliada à personalidade. Na hora de comentar sobre ele para os confrades Duílio e Paulão, cometi um excesso: classifiquei como um dos 5 melhores da Espanha. Nem conheço tanto os ícones espanhóis para poder sugerir isso, e foi mesmo um ato falho. Remirez de Ganuza pode estar entre os 5% grandes produtores da Espanha, mas colocar seu Reserva entre os 5 vinhos excepcionais da Espanha não é são. De qualquer maneira teve bão, e agradeço aos confrades pela presença.

Passagem de ano

Passei a virada com meu fiel escudeiro, o Lemão. Sempre amedrontado pelos fogos - foram mínimos este ano, graças à chuva - nossos cães sofrem com a atitude pouco inteligente de alguns queimando dinheiro para fazer barulho. Bem... compramos os vinhos que compramos - procedência (sul americanos) e preço -; votamos em quem votamos e seguimos nas redes quem seguimos. Está explicado. E reputo não haver solidão quando se tem um ótimo vinho por parceiro de mesa, pois cada gole preenche o espaço que o momento esvaziou de companhias e conduz o espírito a um diálogo alegre e contemplativo consigo  mesmo. É quando a máxima de o vinho pelo vinho adquire seu significado mais profundo e arrebatador. De qualquer maneira fica meu agradecimento pelos mais de 10 convites para cear, vindos de confrades de todos os cantos da cidade e a Tia Ana chamando-me carinhosamente para sua mesa. Depois de tudo isso só faltava abrir um Concha y Toro Reservado e um espumante nacional para celebrar o momento. Qual! Ferrari Maximum Blanc de Blancs é um espumante italiano da região de Trentino-Alto Adige, produzido com Chardonnay que expressa toques cítricos misturados com frutas brancas e um discreto fermento/pão. O corpo um 'médio+' faz a entrada de boca agradável, enchendo o paladar com bolhas delicadas, discretas, aportando fruta branca e cítrica, boa acidez e final longo. Não sou especialista em espumantes, mas não apostaria um centavo em qualquer exemplar nacional contra ele. O melhor já degustado por mim é o Casa Valduga 130. Se fosse uma disputa de 100 metros rasos, chegaria 130 metros atrás. 

Algumas Malucas apareceram um pouco depois da meia noite, vindas de um jantar - o Mário entre elas. Mas ele e Débora não entraram, apenas a Liu, que flagrou-me na foto ao lado enquanto apreciávamos um  Barolo do Domenico Clerico, o Ciabot Mentin Ginestra 2001. Ginestra é uma  MGA, Menzione Geografica Aggiuntiva, coisa mais ou menos recente no Piemonte - o Consórcio de Barolo classifou 181 áreas como MGA em 2010. E o produtor pertence ao grupo de jovens (nos anos 80) que ficou conhecido como Barolo Boys - veja o filme - modernos produtores que causaram uma reviravolta de costumes na região. A questão é muito polêmica (o filme comenta e explica), e não entrarei nesse mérito. Termino a postagem hoje, dia 2, por falta de internet ontem. Aberto no dia 31, ele continua grandioso, talvez seja seu melhor momento. Esbanja fruta, couro, fumo e um herbáceo agradável. Em boca leva à prisão da alma num daqueles cumes dignos da melhor paisagem de cinema, com taninos já domados, redondos, elegantes... fruta vermelha, sem dúvida, mas talvez não apenas ela; mentol, que me dá a impressão de tridimensionalidade, aquele vinho que enche a boca e dá a sensação de que podemos mastigá-lo; madeira, acidez vibrante, enfim, a estrutura quase perfeita cuja nota 10 não se personifica apenas porque não ouvi música celestial escapando de dentro da taça. Relativamente muito pouco sedimento, uma surpresa para uma garrafa dessa idade. Se meu Natal não foi tão gratificante com o Pavie Decesse, o ano novo extrapolou com Domenico Clerico Ciabot Mentin Ginestra. Por comentário final, é a segunda garrafa degustada. A primeira (não postada) aconteceu quando o blog andava parado, talvez por 2018, algo assim. Mesmo com 17 anos, os taninos estavam verdes, e o conjunto completamente fechado. Barolinhos você talvez possa beber com 10 anos. Já Barolões, abri-los antes de 20 anos é um completo desperdício.

Um feliz 2026 para os leitores que acompanham os altos e baixos do blog, muitos vinhos e muitos momentos felizes! Até a próxima!

Monday, March 18, 2024

Uma semana triste

Introito

No dia 13 passado tivemos mais um encontro no Shot Café/Vinho, com apresentação de uma viagem ao Egito pelo viajor Eduardo, da Caminhos do Turismo. Não bastasse, era aniversário dele. A surpresa para todos chegou quando o Edu começou a tentar nos dizer, com olhos embargados, parando de tanto em tanto para tentar conter a emoção, que preferia nenhuma manifestação mais efusiva pela data; ela estava eclipsada de maneira indelével pelo estado de saúde crítico da mãe de uma de nossas queridas confrades. Ela veio a falecer na sexta-feira, e infelizmente a distância a separou de nós todos. Ficam nossos melhores sentimentos - não apenas os meus, mas de todos os participantes do encontro, que manifestaram sua solidariedade sem mesmo conhecer a confrade.

A degustação das Arábias

Bem, a degustação não foi das Arábias, mas do Egito, embora o Edu tenha passado ali por perto também. Mas tinha camelo, o que por algum motivo dá-me um quê de Arábias... Os vinhos não foram de lá, apenas o assunto rondou esses lugares. Começamos com dois brancos, mas lembro-me de somente um: o Corte del Golfo Coda di Volpe Irpinia 2020. As coisas complicam, aqui. Coda di Volpe - Rabo da Raposa - é o nome da invulgar cepa branca da região da Campania, na 'canela' da bota. Infelizmente foi servido em uma taça desajeitada, e meu nariz estava algo ruim no dia. A mulherada estava afiada: alguém disse ter mel - segundo a ficha técnica, tinha mesmo. Ainda cravou-se outra expressão corretamente, não lembro-me qual. Sem acidez, não chamou-me a atenção. Tivemos um Brumes de Gascogne Merlot e Tannat 2021, localizada no sudoeste da França - mais ou menos fica abaixo de Bordeaux, em direção à Espanha. Pega um pouco mais das terras à direita também - lembre-se: Bordeaux fica próximo ao Atlântico; o sudoeste vitivinícola desce em direção da Espanha espalhando-se para o interior, a leste. Essa região é caracterizada, dentre outros detalhes, por ser o lar da Tannat e da Malbec na França, em comunas distintas. Brumes de Gascogne é um pouco ligeiro, leve, e novamente a mulherada notou (e acertou) cereja. Alguém ainda mencionou a cepa. Os homens ficaram como avestruzes. Achei que casou com pizza, mas aprecio mais vinhos de maior corpo; pode ter seu público e apenas este Enochato não faz parte dele. O Castello Di Querceto Rosso Toscana 2020, com melhor corpo, agradou. Se não me engano o corte Sangiovese, Syrah e Merlot é produzido em Chianti, e Querceto acaba rotulado como IGT pela presença da Syrah - até onde sei a Merlot foi permitida na DOCG, mas não a Syrah. Tinha fruta evidente, e outras notas; boca um pouco mais pegada mas faltou um teco de acidez para dar graça à composição. Tinha outras expressões, mas acabaram passando.

Esticando na adega do Enochato: erros que foram acertos

Apesar do infortúnio anunciado, a data ainda era comemorativa. Convidei os presentes para esticarem a noite. Fui à pizzaria, duas quadras dali, encomendar uma única peça, e quando retornei o número de pessoas dispostas a degustar mais algum vinho tinha dobrado 😣. Uma turma heterogênea, pensei rápido: mais um ótimo grupo para experiências deste Enochato. Servi dois vinhos às cegas enquanto o terceiro respirava um pouco à vista de todos. Como mencionado, o grupo continha desde neófitos até gente mais experiente, que curte viajar para vinícolas e conhece vinho há até mais tempo do que este escriba. Após ouvir algumas opiniões rápidas "gostei/não gostei/gostei mais", pedi ao Waldomiro uma análise mais técnica. Confrade eventual de quase duas décadas, ele tem bastante experiência com vinhos do velho e novo mundo. Achou o primeiro vinho 'até bom' embora ligeiro; podia ser bebido sozinho e agradar; avaliou em uns R$ 80,00. O segundo, bem mais estruturado, mereceria um acompanhamento, e estaria na faixa dos R$ 120,00-R$ 150,00. O primeiro era o Tarapacá Etiqueta Negra Cabernet Sauvignon (preço: R$ 170,00 em 'promo' a até R$ 320,00), e o segundo era nosso valente e valoroso Quinta de Chocapalha 2016, que comprei a cerca de R$ 90,00. Em termos de preço de mercado, as avaliações do Waldomiro soaram um fora excepcional. Mas... como é mesmo a estória repetida ad nauseam por aqui?, vinho sul-americano está caro demais.... Pois é! O Waldomiro avaliou corretamente - comparando pelo preço de mercado - o quanto deveria valer (posto aqui!) um Tarapacá Etiqueta Negra e acertou o preço 'normal' (tubaronesco) do Quinta de Chocapalha. O preço baixo (na verdade, honesto) de Chocapalha (abaixo de R$ 100,00) deve-se possivelmente, à crise não comentada pela qual passam as tubaronas - e talvez todas as importadoras do país. O pessoal está queimando 'lucro excessivo' e desovando com margens mais condizentes. Se prestar atenção tem muita oferta interessante por aí. E voltando ao Waldomiro, sua avaliação correta do 'preço brasio' para o Chocapalha mostra (risos!) quanto ele precisa usar mais o Wine Searcher e preservar suas compras. Fora isso, walew, Waldomiro!

   A segunda parte foi um fora deste pobre-coitado: o Edu falou em beber um Rioja; imerso na soberba, puxei um Ribeira del Duero... 😣. Era o Pago de Los Capellanes Joven 2019, já comentado outras vezes. Pelo menos, após aerar por uma boa hora antes de ir para o balde, ele mostrou ótima fruta e estrutura, deixando para trás os dois primeiros. É mesmo outro padrão de vinho, e esta safra pode ser guardada por mais alguns anos. Tenho comentado isso com a Paduca: eles ficaram entusiasmados após experimentar o Gran Reserva do Bilbao - está aqui - contra um Muga Reserva novo e não pronto para ser degustado, e exultaram-se com o primeiro, sem notar bem o potencial do segundo. Observemos tratar-se de um Reserva versus um Gran Reserva. A estória repete-se: um produtor melhor faz diferença. Não que os vinhos da bodega Ramón Bilbao sejam ruins, mas para mim afigurou-se uma boa fronteira para futuras experiências, principalmente com iniciantes: comparar o quanto um Gran Reserva de certo produtor pode ficar abaixo de um Reserva - ou mesmo Crianza - de outros produtores. Um tema a ser explorado em futuras brincadeiras.

Outro falecimento

Nesta segunda-feira, amiga querida e confrade faleceu, levada pelo câncer, na flor dos 82 anos. A Margarida M.M. Tavares, terceira da esquerda, entre a Márcia (segunda) e Elvira (cabeceira) sempre compareceu às reuniões munida de bom humor, graça e leveza, insistindo que não entendia nada de vinho; ela apenas gostava ou não gostava do que ia provando. Não entendendo, do que gostava mais, ao final repetia uma taça. Convençam-me dessa verdade sob minha afirmação: ela sempre escolhia, para repetir, o melhor vinho da noite... 😏 safadinha, enganava todo mundo e jamais percebemos. Tão logo escureceu nesta noite, busquei meu telescópio e apontei para a saída do nosso sistema solar. Não vi, mas senti: ela já passara por lá, em direção ao Grande Tudo. Fique onde ficar, esse lugar está mais divertido agora.

Monday, January 1, 2024

Comemoração da Paduca e um Borgonha de final de ano

Introito

Final de ano: época de excessivos excessos (rs! sic!), este escriba ladeira abaixo e sem breque - com a breca! - confraternizando em todas as confrarias disponíveis cuja agenda permitiu ao menos uma reunião. Espero poder recuperar oportunamente um ou outro encontro não postado ainda. Com a Paduca, a combinação estava acertada desde o início do mês, para evitarmos conflitos, e o jantar aconteceu no dia 30, na casa do casal Cláudia e Paulo. Na foto, Paulo, o Enochato, Cláudia, Duílio e Eva. Fernandinho precisou ficar de plantão e cuidar de sua mãe, com idade avançada e algum problema inoportuno de labirintite. Esses contratempos acontecem... mas não nos sisquecemos de brindar a ele durante a noite.

Começamos experimentando às cegas dois espumantes, o Freixenet Cordon Negro, já comentado aqui, por exemplo. Frescor habitual, toque cítrico, boa acidez... seu oponente foi o Casa Valduga Extra Brut Premium, corte Chardonnay e Pinot Noir, é elaborado pelo método tradicional e mostrou toques cítricos mais discretos, alguma acidez e boca mais ligeira. Agradou, mas preferência da maioria recaiu sobre Cordon Negro. Valduga é um produto mais caro (R$ 99,00 na loja do produtor, contra uns R$ 75,00 da Cava), e isso absolutamente não pode... Freixenet vem de longe, tem um intermediário no meio do caminho (o importador) enquanto o produtor nacional vende para o lojista diretamente, e ainda assim nosso espumante é mais caro... para uma qualidade ligeiramente inferior. Teria de custar - olha lá, sou generoso e reconheço a quantidade de impostos das terras tupiniquins - R$ 50tão. Com esse exemplar de espumante nacional, e após a degustação da Mercearia 3M de outubro, dou por encerrada minhas compras de tais produtos domésticos. Não deixarei de experimentá-los em degustações, mas até melhorarem - e o preço cair - não preciso mais comprá-los. Verdade, degustei relativamente poucas marcas, mas elas não mostraram aprimoramento com relação a outras experiências passadas, e o resultado final é-me muito claro.

   Nos tintinhos, também às cegas, começamos com um Dame de Boüard 2017, produzido em Montagne-Saint-Émilion, uma apelação satélite de Saint-Émilion onde impera a Merlot, na companhia de Malbec, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Este é o segundo vinho do Château Clos de Boüard, um 100% Merlot com curioso toque de morango na frente de tudo, eclipsando outras notas. O quanto durou, permaneceu um tanto plano no nariz. A boca mostrou acidez discreta, corpo médio, um travo doce não enjoativo e final um tanto ligeiro. De Ribera del Duero veio o Pagos de los Capellanes Joven 2019, 100% Tempranillo e já degustado aqui. Ribera produz vinhos elegantes, e Pagos de los Capellanes não foge à regra, mesmo nesse exemplar mais simples - Joven - com seus 5 meses de madeira muito bem integrados às demais características: o nariz é rico, esbanja fruta, tem mais notas - chocolate? - e a boca peca pela acidez não acompanhar os taninos pegados. Mas para isso, vá no próximo vinho da 'escala', o Crianza; ele entrega mais. Por isso (acidez um pouco baixa), o corpo médio acaba num final algo ligeiro, desapontando um pouco pelo prenúncio do nariz. É um bom vinho, com personalidade, e vale a pena, para seu padrão de custo. Com seu Dame de Boüard a Chez France vem escalando os degraus da tubaronice: em promoção permanente de R$ 329,00 por R$ 246,00, custa lá fora algo como USD 20,00. Dá uns R$ 100,00... Capellanes está um pouco melhor: a cerca de 15 Euros, R$ 80,00, custa R$ 200,00 aqui. Está 2.5x, o limite da compra, e fora da proposta original da Enoventos em oferecer vinhos a preços realmente competitivos; durante muito tempo suas margens estiveram abaixo de 2x, e como já apontado ela tem se rendido um pouco à tubaronice. Cuidado e Wine Searcher sempre. 

A sobremesa ficou por conta do Duílio: banana caramelizada com casca de laranja, Cointreau e Cassis, com sorvete de creme. Para acompanhar, o Paulão ofereceu dois Jerez e um Madeira 3 anos; chamou-me mais atenção esse último - nunca havia provado vinhos da Ilha da Madeira - e suas características marcaram mais. Eles possuem uma vinificação singular, e vale saber um pouco mais. Leia aqui. Nariz de um caramelo e notas de frutas secas, 19% de álcool (é fortificado), boca doce contrabalançado pela boa acidez, deixa boa marca acompanhada de bom final, persistente. Não é um grande Madeira, mas como introdução ao estilo agradou muito. Se procurar, encontra na faixa de R$ 120,00.

Feliz 2024...

Para comemorar a passagem do ano abri um Borgonha de Gevrey-Chambertin. Essa comuna fica no distrito de Côte de Nuits, próximo a Dijon. Achei um mapa da região bem interessante aqui, https://bourgogne-maps.fr/, e na resolução de 300 metros pode-se acompanhar todo o recorte dos vinhedos ao redor das comunas. No mapa inicial, não se esqueça: faça o zoom com o ponteiro do mouse dentro do quadrado da Côte de Nuits, logo abaixo de Dijon. O viho em questão é o Les Cazetiers 2010, do négociant Luis Jadot. Les Cazetiers é um dos vinhedos Premier Cru mais importantes da vila de Gevrey; produz vinhos bem tânicos que, aliados à ótima acidez e bons taninos resultam em ótimo volume de boca. Com 13 anos, está em bom momento para degustação; redondo, com grande maciez a despeito dos taninos e acidez. Depois do último gole o movimento de mastigação mostra como ele permanece em boca. Eu não falei do nariz... é graciosamente complexo, a fruta vermelha vem na frente e é seguida de mais notas misturadas a um toque herbáceo. Um bom olfato pode se divertir muito desnudando suas nuances. O meu, infelizmente, deixa a desejar. Mas a boca muito bem marcada compensa as deficiências olfativas, e posso dizer ter sido uma ótima abertura de ano. Deixei metade da garrafa para o almoço de amanhã. Feliz 2024, e obrigado pelas leituras.

Friday, June 2, 2023

Dois vinhos brasileiros

Introito

Alguns leitores perguntaram-me, sobre a postagem passada, acerca da correção dos dados apresentados ao lerem as loas traçadas para o estadista Maduro. Reclamo meus 12 anos de fidelidade à verdade diligentemente plantadas neste blog e questiono a habilidade em lermos um simples gráfico. Ora, se a curva está subindo, as coisas (sic) estão indo bem. Ao contrário, indo mal. Aproveito a questão de 'leitura de gráficos' para desmistificar mais uma falácia contra o estadista Maduro, acerca da suposta hiperinflação em seu país. Lendo o gráfico abaixo - e é de fonte claramente detratacionista (sic), o FMI, veja informações completas aqui -, observamos uma inflação de praticamente zero se comparada ao ligeiro pico registrado em 2018, perigoso ano pré-pandemia


   A questão de educação é profundamente importante para o cidadão de bem não se deixar enganar por conversas mentirosas ou preparadas para desviar o assunto mais importante da pauta. Nesse ponto a companheira Luciana Genro dá exemplo de firme determinação ao lutar contra propostas vazias e sem a menor importância para o dia a dia da população.


   Afinal, responda: por qual motivo nossas crianças devem ser ensinadas acerca de educação financeira se dinheiro é algo quimérico e inexistente para elas, seus pais e seus avós? Soa ridículo, assim como a outra proposta dos detratores do governo Bolivariano, quando pretendem comparar o tanto de dinheiro necessário para comprar algum produto básico naquele país antes do corte de uns 300 zeros na moeda local.


   Será possível?! Nunca ouviram falar de cartão de crédito? - outra invenção imperialista cuja invocação apenas ajuda a desmentir os detratores de Maduro e seu regime. De seu trono, digo, de sua cadeira presidencial, Nosso Guia faz sinal de positivo-operante e manda um abraço a todos.

Duas ocasiões, dois vinhos nacionais

Encontrei-me com as confrades Renata e Dayane duas vezes, nos últimos dois finais de semana. Como as postagens andam atrasadas! Digo, como as últimas semanas foram.. foram... foram... produtivas! A primeira ocasião aconteceu em minha humilde choupana, quando reunimo-nos para um bifim ao molho gorgo - única especialidade da casa - com vinhos trazidos pelas meninas. O Chianti Podere Primo já provado não apresentou muita novidade - não anotei a safra. Fácil de beber, fruta imediata, acidez presente sem marcar tanto, não fez feio com o bifim. O segundo foi servido às cegas e fui convidado a avaliá-lo. Notas de fruta bem claras, fáceis de pegar. Boca com acidez baixa mas presente, sem dulçor. Final sem comprometer. A falta de dulçor fez-me descartar Portugal. Italiano, não seria. Achei poder ser um espanhol desses mais simples a inundar nossos supermercados e cuja degustação não refugo quando alguém põe na mesa. Ledo engano, era um vinho nacional, o Família Carra Linha Prime Tannat! Não anotei a safra. Ver alguma acidez - mesmo baixa - em um vinho nacional, depois de experimentar os não-Vin(nhos) do Bueno, algum Encruzilhada mundo afora e outros exemplares de não-vinho soou como uma grata surpresa. O preço - comparado ao valor mais comum de muitos nã-vinhos segundo ouvimos por aí, R$ 200,00 ou mais, surpreendeu pelos modestos R$ 50,00. Ainda é muito por um produto nacional, se comparado aos similares em outros países, 3 ou 4 moedas. Agora sim, convertendo, estamos entre 15 e 20 'moedas nacionais'. Esse teria de ser o preço. Certo, o imposto pega. Mas o imposto deve incidir sobre o valor inicial. Reajustando, estaríamos entre 22 e 30 moedas. Nossa população não é rica, e mesmo nesse patamar o montante ainda está alto. Ora, se uma Brahma duplo malte está, digamos, R$ 8,00, dá para comprar 3 garrafas de 600 mL e sobre para o buzanfa. E, para quem conta moedas para chegar ao final do mês, uma garrafa de cerveja já basta... dessa maneira, a conclusão é rápida e imediata: o vinho nunca será popularizado por aqui.

A segunda garrafa foi provada uma semana depois, no salão de degustações onde moram as meninas. Família Carra Linha Prime Merlot não surpreendeu tanto - nem a mim, nem a elas. Tem lá sua fruta no nariz, mas em boca é mais ligeiro, tem acidez muito baixa e final curto. Não notei o álcool - o Tannat tinha 12,5% - mas não sobressaiu e ficou bem abaixo do Tannat. Podem detratar este Enochato dizendo-o gostar de apelar de vez em quando, mas levei um Pago de los Capellanes Joven 2019, de Ribera del Duero, com nariz algo complexo a muita fruta e mais notas - chocolate? Alguém teria sugerido couro, estrebaria? Pois é. Boca onde os 15% de álcool apresentam-se balanceados, madeira muito contida - não percebi mas tem, segundo o sítio da importadora, a Enoeventos -, acidez e final médios, bem saborosos. Não harmonizou mesmo com a pizza de calabresa porque sua estrutura passou por cima da carne e ele reinou sozinho na boca. Parece que bati um pouco forte... Custa USD 20,00 por aí, mundo afora, e está por R$ 200,00 (preço cheio, ou R$ 170,00 no Enoclube); dá 2x. Pechinche, comprando uma caixa de vinhos e negociando desconto. Coloque uma ou duas garrafas dele na sua dúzia e saia para o abraço.

   Então uma reflexão sobre as cepas: elas pouco dizem, se pensarmos em comparar, por exemplo, com o Tannat típico do Uruguai, todo pegado, com o Tannat do Família Carra. Todas as cepas possuem expressões diferentes de acordo com o terroir onde são cultivadas, e o bebedor não pode comparar a 'força' de um Shiraz da África do Sul com aquela apresentada por exemplares da Austrália. Um bom vinho sul africano deve conseguir defender-se contra um australiano, em uma degustação. Mas terá de fazê-lo via qualidades fundamentais do vinho, via... sua estrutura: balanço entre álcool, acidez, açúcar e tanino. Além disso, o sul africano deste caso deve ter a classe dos bons vinhos, dada pela força - ou graça - de seus componentes. E a graça funciona sim; veja como um Borgonha 12,5% de álcool defende-se de Brunelões amparado em sua magnífica acidez, mesmo com seus taninos não indo além de médios. O assunto é complexo, apenas acredite o leitor que é como descrevo. Voltando dessa digressão, temos de aceitar o vinho nacional com suas características expressas por nossas terras e condições climáticas - nosso terroir. Estamos condenados à baixa acidez por causa de acidentes geográficos, e poderemos fazer pouco contra isso. Querer cultivar vinhas em lugares onde a chuva excessiva leva os bagos a apresentarem-se inchados de tanta água na colheita é uma condenação a vinhos de pouco álcool também. Falta álcool, falta acidez... resta-nos competir no preço. É onde estamos afundando.

Thursday, November 4, 2021

O segundo dia com o Renê

Introito

A transformação (da sociedade) só virá pela soma dos nossos esforços... Nós podemos sim transformar o Brasil por meio do exercício da cidadania, do voto consciente e da participação de cada um de nós nos problemas sociais.
Deltan Dallagnol
4/12/2021,


   Com a falha e decepcionante apresentação de armas pelo Renê na postagem passada, decidi que no segundo encontro faria mais um desinteressado serviço à humanidade na tentativa de desentortar outra boca. Porque em nosso encontro ele não cansou-se (mas cansou a mim e ao Akira! 😱) de falar de ótimos argentinos que ele estava provando. Certo, não há dúvida: Felino (Cobos), Numina, Carmelo Patti, os El Enemigo, os DV Catena em geral, Zuccardi e mais alguns, para citar esses, são sim bons vinhos. Apenas, a exemplo dos chilenos, precisam brilhar sozinhos. E andam muito caros por aqui. Caríssimos, para relembrar os superlativos da última postagem. Mas ele comprou alguns com bom desconto, então mereciam mesmo a citação que nos fez. Mas eles continuam sendo vinhos sul-americanos...
   Sobre a citação desta postagem, o sr. Deltan deixou-me gratamente surpreso pela opção que escolheu. Dispôs-se a largar o conforto de seu (ótimo!) cargo de funcionário público para se enlamear até o pescoço em favor de todos nós. E sua mensagem é clara: a transformação virá por meio da cidadania. Assim como este Enochato reclama contra os importadores energúmenos que enfiam a mão em nossos bolsos sem receio nem cerimônia, outras pequenas manifestações diárias de cidadania é que farão deste país uma grande nação. Resumindo, é assim: se é ruim para os importadores energúmenos e políticos em geral, é bom para o brasileiro.

Dois vinhos de melhor porte...

Estou sempre na linha de frente da disposição de analisar vinhos, por algum viés. Acho que o da qualidade e preço é uma abordagem importante, ainda mais nestas plagas. Daí que destaquei dois vinhos simples para combater um chileno, porque eu já sabia que eles dariam conta do recado, como deram. Mas a semana passada foi a semana do meu aniversário, e nada como começar a aquecer os motores, bocas e taças para uma esbórnia programada e aguardada há um ano (😂). E se o leitor acha que já estou planejando a festança do próximo ano, saiba ele que tenho planejada a de 60... sem pressa, e um dia de cada vez, aguardando os vinhos maturarem, espero apenas que o céu não caia sobre nossas cabeças...

Abri com alguma antecedência (1 hora) o Il Drago e le Otto Colombe 2016 e o Pago de los Capellanes Joven 2019, vinhos já degustados há não muito tempo. O Il Drago mostrou boa fruta, boa estrutura, boca equilibrada, bom corpo com a acidez adequada que tanto prezo e teve boa receptividade. O Renê viajou na maionese sem perceber, comentando que poderia ser ibérico, ou italino... Pow, mas aí só deixou a França de fora, Renê! 😂 O Akira foi certeiro: tem algo esquisito, e para mim algo esquisito costuma ser italiano... E matou na lata. Como o corte é 65% Sangiovese, 20% Merlot e 20% Sagrantino, ele considerou que o estranho na jogada era esta última cepa. Mas acertou a nacionalidade só no buquê, porque não bebe. O Capellanes também teve boa presença, com muita fruta no nariz, corpo médio, acidez menor mas presente, e em comparação o final é mais curto. Mas é aquela velha estória, a comparação que só aparece com ambos os vinhos degustados juntos, taça a taça. Ainda assim fez um bom par com Il Drago, e ambos acompanharam bem um bifim mais leve que o Renê encomendou em algum restaurante local. O Akira, claro, matou que era um espanhol, enquanto o Renê ficou entre espanhol e italiano. Se saiu de S. Carlos mais convencido da qualidade dos europeus, é assunto para outra postagem. A próxima brincadeira é colocar algum europeu com alguns dos vinhos que ele citou no começo da postagem, e dos quais ele comprou diversas garrafas. Os próximos encontros prometem ser eletrizantes... (risos!)
   Ah, sim! Ambos foram comprados na Enoeventos, importadora de onde jamais ganhei qualquer vinho - e não aceitaria! - e que sempre faço questão de citar como ótima opção para vinhos a bom preço. Como de hábito, pago pelos vinhos degustados, o que é posição importante para quem deseja manter a seriedade do espaço. Il Drago está esgotado, mas existem outros produtos da Donatella Cinelli Colombini; a linha Capellanes ainda dispõe de muitas opções, inclusive o Joven. 

Thursday, April 22, 2021

Os caminhos de Santiago e as mandracarias do Gustavo

Introito

   Ia rolar outra degustação online da Enoeventos, um encontro muito divertido e com transmissão via Youtube promovido com alguma frequência pela importadora. Com sede no Rio de Janeiro, ela tem parceria com um restaurante que entrega os pratos para um jantar harmonizado na cidade e em Niterói, o que oferece boa oportunidade para os cariocas mas deixa os demais expectadores um tanto a ver navios. Desta vez, embora já próximo à data, mostrei a proposta para o Gustavo, cozinheiro e proprietário do Bistrô Graxaim. Ao olhar o cardápio, ele encarou-me com um olhar especialmente artimanhoso enquanto comentava:
   - Croquetas de queijo em caldas... cogumelos recheados... - só faltou terminar com 'asas de morcego' e 'orelhas de gato preto' para que a invocação de alguma poção mágica fizessem seus olhos brilharem ainda mais...
   Claro, ele comprou o desafio (e seis garrafas de vinho direto do importador) e acionou sua clientela mais próxima; com apenas uma semana para preparar e divulgar tudo, não poderia arriscar um pedido grande.

O evento e os pratos

   O evento foi bem programado: quatro opções de prato principal e sobremesa. Ficamos só com prato... A transmissão durou quase três horas imersas em muita informação e diversão (está aqui). Escolhido um prato um tanto sofisticado que levaria queijo Cabrales, indisponível na região, o Gustavo contatou o chef carioca para trocar algumas ideias de preparo. E a conversa mostrou-se frutífera...

A proposta original era composta de cogumelos recheados com creme de camarões e páprica, e croquetas de queijo “Cabrales” e calda de marmelo. Nos cogumelos, ele usou também shitake e um toque de angostura no preparo dos camarões. Nas croquetas, em vez da calda de marmelo vieram peras laminadas e caramelizadas com maple syrup, e em vez do queijo Cabrales, uma ricota enriquecida com gorgonzola. Não sei se o safado fez algum teste antes do dia fatal - ele jurou que não! - mas os quitutes estavam de-li-ci-o-sos. Preciso comentar que aprecio mesmo é um bifão - cozinheiro de um prato só, faço apenas medalhão com molho gorgo - mas quando um prato mais elaborado contém uma diversidade de sensações como as que foram apresentadas, ele de fato deixa o bifão falando sozinho no lado escuro da Lua. Impossível deixar de comentar ainda a ousadia em se combinar um sabor agridoce como calda de marmelo/peras caramelizadas com um vinho tinto. Fiquei tão surpreendido quanto agradecido pela oportunidade... a harmonização foi surpreendente e ficou clara a ótima qualidade da proposta. Lembro-me de apenas uma combinação tão feliz quanto, que foi a bruschetta do Bart 'Chez Marcel' (vão figo, mel, rúcula, Parma e queijo Brie), acompanhada de Borgonha... do bom, claro, é outra experimentação inesquecível.

Bem, combinei com o Gustavo de chegar às 18:30. Para não ficara apenas na conversa (rs), levei um espumante Bacio della Luna Spumante Blanc de Blancs Millesimato Extra Dry (também comercializado pela Enoeventos). Sem aguardar muito o início online, começamos a beliscar algo às 19:30, horário da introdução - recomendo que o leitor assista-a, usando o endereço acima. O Gustavo caprichou nas porções. Vai que experimentamos com o espumante (comentado anteriormente aqui), que surpreendentemente casou bem com ambos. "Se você tem dúvida sobre uma combinação, use espumante; se não ficar bom, também não dirá muito errado" - comentou o Gustavo, à guisa de piada. Servido o vinho principal, nova surpresa: pronto para beber, Baron de Ley Gran Reserva 2013, Rioja 100% Tempranillo, chegou com bom nariz, fruta bem vermelha, café (chocolate? - rs!), couro... o corpo é médio - e olha lá; o Gustavo achou que seria um vinho leve, não estaria tão errado na interpretação - mas... desde quando isso é crime? (rs!). Não é o que eu esperaria de um Gran Reserva espanhol; esperaria mais madeira - estava muito equilibrada, o próprio Gustavo chamou atenção logo de cara!, e ela, a acidez, tinha presença e era muito elegante. Taninos já bem harmonizados, álcool pouco aparente, um travo levemente doce sugerindo mais frutas. Bom final, boa persistência, é um vinho de USD 25,00 lá fora e está em 'promo' aqui por R$ 275,00. Vejamos... R$ 25 x USD 6,00 = R$ 150,00 x 2 = R$ 300,00. Ou seja, a preço de dóla cheio seu preço 'cá' está menos de 2x o preço 'lá'. Se estivesse o dobro do preço para um dóla de R$ 4,50, então seria um pechincha. Não é; é apenas um ótimo preço ao dóla atual. Diferente do que energúmenos pensam ser razoável praticar, com preços 3x, 4x o preço lá de fora. Traduzindo, em outro importador poderia custar R$ 500,00... então já sabe: avisei! (rs)
   Ruim de conta (😒), achei que a quantidade de bebida daria a conta... toca correr pra casa no meio do evento e pegar uma garrafa do Pago de los Capellanes Joven 2019, também vendido pela Enoeventos. Outro 100% Tempranillo desta vez de Ribera del Duero, apresentou boa fruta vermelha no nariz. É um vinho de consumo fácil, pois os taninos não pegam muito. Tem boa acidez, álcool contido, levemente encorpado, denotando alguma especiaria. Combinou com os pratos, mas não tão bem. O final é bom, persistência razoável, bom conjunto para a faixa de preço. Acho que o erro foi não ousar (rs!) que beberíamos tanto; deveríamos, claro, começar por ele. É um vinho de preço médio USD 15,00 x R$ 6,00 = R$ 90,00 'lá' e R$ 172,00 'cá'. Levemente menor que 2x, portanto. Taí uma importadora que mostra coerência nos preços de seus produtos. O Enochato gostou...