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Sunday, February 16, 2025

Pelas Moquecas da Elvira!

Introito: Bolsonéscio vem aí, e eu sei muito bem para onde gostaria de mandá-lo

Néscio: 
1. estúpido, ignorante. 2. que não tem 
aptidão ou competência; incapaz, inepto.
Qualquer dicionário

   Mais uma lei casuística vem aí, fabricada sob medida para Bolsonéscio disputar as próximas eleições presidenciais. Em seu ideário agora vai, aposta alto na estupidez de seus eleitores. Eles o são, de fato - tenho convivência quase diária com isso -, mas sabe quando começam a aparecer as primeiras rachaduras na represa? Assim mesmo... Seu grande erro destes dias - estúpidos costumam deixar um rastro de idiotices por onde passam - é acreditar conseguir manter-se hegemônico até Outubro de 2026. Esqueceu-se, em São Paulo, - convenhamos, gerenciamento não é com ele - dos apoios ao garoto que subiu no morro e precisou dos bombeiros para descer, à socapa no início e descarado depois, enquanto apoiava outro candidato à prefeitura mais importante do país. Para ficar apenas nesse exemplo. 

   Por outro lado Ali Lulá não treinou qualquer capanga correligionário para assumir sua posição quando o corvo vier (e ele está rondando), acreditando-se hábil articulador - não é -, bem de saúde - não está -, e sapiente - longe disso! Ali Lulá vai encarar um sério dilema: partir para uma eleição perdida e fechar a biografria (sic) com uma derrota retumbante ou simplesmente ter de largar o osso. Não sei se o sitocômetro (sic) bateu, mas ele claramente tem dificuldade em negociar com o Congresso, anda caindo de maduro (maduro?) e já falou tanta besteira que é impossível não ter-se arrependido. Pode sim autoenganar-se crendo-se sábio, mas deve estar-se perguntando o motivo pelo as coisas não vão tão bem quanto antes. Torço pela candidatura da Janja, e isso não é uma ironia; sua candidatura será ótima para desopilarmos o fígado.

   No meio desses dois corós, o grande perigo está no aparecimento do tão sonhado Salvador da Pátria. Eu não acredito em sujeito assim. Acredito em proposta, planejamento e determinação para tocar um projeto de país. O candidato até pode trair-me, mas fará isso apenas uma vez. Por esse motivo - dentre outros - voto em bons candidatos ou não voto em candidato algum, anulando sem pestanejar, porque o voto branco sinaliza anuência. Como é mesmo o dito d'Oenochato? O cidadão de bem que vota em bandido torna-se ele próprio um bandido. Nossa sociedade não tem mais direito à desculpa da inocência. Os crápulas de plantão - rodeados por uma corja degenerada de todos os Poderes - já sodomizaram qualquer vestígio de virgindade antes aceitável na discussão política. 


Pelas moquecas da Elvira!

Para suspiro dos apreciadores da boa mesa, a Elvira ofereceu-nos uma moqueca 😋... bem no momento em que a confra estava algo baixa de branquinhos nojentos 😣. O Ghidelli trouxera um espanholeto nervoso de viagem recente; fora isso só uma Xampa à guisa de última das Moicanas mantinha-se à espera. Eis que este Enochato salvou a situação com uma aquisição recente... ou seja, comprou e queimou na mesma semana, para ganho dos outros felizes compradores do mesmo vinho que receberão assim uma avaliação do estado de suas compras. A reunião aconteceu no dia 31 de Janeiro, e como vem-se tornando hábito é postada com excessivo atraso. Com a perda de parte das impressões, claro... 😥

Os trabalhos começaram com uma Xampa Taittinger Brut, na qual as confras se engolfaram com afinco e entusiasmo em 'promo' n'algum momento do ano passado. Pagamos R$ 400,00"-", não lembro exatamente quanto. Ela voltou em 'promo' a R$400,00"-" estes dias na Casa da Bebida, mas já subiu um pouco (R$ 430,00). Ainda assim é um bom preço. A menos, claro, para quem suspeita estar muito caro, aí não deve comprar. Pague R$ 600,00 depois. Sem muito a acrescentar depois de tantas provas: toques cítricos, pão/fermento, boa acidez. Compre e desfrute, está ótima. Levei um Chablis Premier Cru 2017 do William Fevre; não fotografei o contrarrótulo onde talvez houvesse alguma informação do vinhedo. Achei estranho, mas no rótulo da frente ela não aparece... bem, lembro de, além do cítrico habitual, esse exemplar expressava um toque de mel... nunca notara isso em um Chablis - e pretendo-me um crítico 😅. A mineralidade estava presente e, como esperado, bem equilibrada com acidez presente e encontra-se absolutamente pronto para ser degustado. Quem comprou pode colocar em demanda, está no ponto. A grata surpresa ficou por conta do Nelin 2021, da bodega Clos Mogador. Situada no Priorato e tocada pelo enólogo René Barbier que, dizem, colocou a região no mapa vitivinícola mundial com seu Clos Mogador tinto degustado aqui, esse branquinho corte não linear (rs) de Garnacha Blanca, Macabeo e mais cepas em pequena proporção assombrou a todos pelos toques singulares de frutas, especiaria e um 'Fator X' que nem desconfio o que seja, mas deixou o conjunto maravilhoso. Boca intensa, mineral, bem acabado, mas... muito dependente da temperatura! Foi bastante nítido; se resfriar um tanto ele diminui a potência, e se esquentar ela evanesce. Para piorar, a faixa de serviço é algo estreita. Nós a atingirmos em algum momento, em temperatura algo baixa (16 °C?, 17 °C?), e a partir daí fomos servindo em doses pequenas para não esquentar muito na taça. Nelin realmente fleta - e forte - com a opulência em seu sentido mais completo e impressiona. Sendo um exemplar novo, maravilhou-nos além do esperado. Fico imaginando-o envelhecido cinco, seis ou sete anos... Por seu preço 'lá' (52,00€) é grande aquisição. Aqui anda por tubaronescos R$ 800,00+, ou 2.7x. Servidos com a Moqueca, os dois brancos convergiram bem. Ela estava deliciosa, acompanhada por um ótimo pirão. Obviamente Nelin ofuscou o pobre Chablis, mas este é um vinho de menos de 30,00€; cada um no seu quadrado e felicidade engarrafada distribuída em toda as taças. Teve bão...

Monday, February 3, 2025

Ainda na virada de ano

Introito: uma lei supérflua(?)


Vereadora da cidade de S. Paulo protocolou lei proibindo a contratação, pela prefeitura, de artistas cujas músicas façam apologia ao crime ou às drogas. Pergunto: precisa? Alguém dotado de um mínimo de honestidade intelectual acredita no Estado, em qualquer nível, imiscuindo-se com o crime organizado? Não seria de esperar que no mínimo Estado rejeite veementemente qualquer sugestão de apoio a atividades ilegais? De saída o Estado tem o dever moral de repudiar o que segue na direção oposta de seus ditames, pois ele representa a Lei - e a reboque, a Moral. Então tal proposta parece peça de ficção, pois sabemos muito bem da lisura de nossos mandatários municipais, estaduais e federais. Tem dúvida? Ora, confira os atos do prefeito de sua própria cidade!


Qualquer administração pode cometer erros, e ninguém em posição de fala é imune a alguma gafe. Assim, confiamos cegamente nas Instituições e em sua capacidade de apartar-se do mau exemplo - sempre cabe a elas, por um óbvio mecanismo de dupla conferência, manterem-se afastadas do assédio de oportunistas e, pior, de criminosos. De modo que volto à premissa: essa proposta de lei seria mesmo necessária? Ela passaria desapercebida, nem seria votada e cairia no esquecimento rapidamente, não fosse a resposta desproporcional de um rapá (sic) que tomou para si as dores de tamanha ofensa:


   Mesmo discordando em grande parte das ações do Estado quanto ao treinamento e comando de seus efetivos militares, como cidadão de bem permaneço ao lado dos que repudiam quem recorre à ameaça ou violência como solução de problemas. O companheiro Oruam seguramente meteu os pés pelas mãos em suas declarações e saiu - só desta vez - com a pose de bandido ao ameaçar uma moça. Ei, cadê as cadelas to Mee Too nessas horas? Bom rapaz, ele teve o pai afastado de si desde a mais tenra infância (e até hoje) por um Estado claramente opressor; ele somente clama pela presença paterna no aconchego do Lar e, imerso em delírios oníricos, inocentemente canta querer vingar-se da sociedade que o tiraniza, dizimando por quaisquer meios aqueles cuja função é precisamente protegê-la. Como podemos condená-lo? Reconheço ser Oruam um menestrel algo heterodóxico (sic!), cujo canto é paramar ou parodiar, mas nunca ignorar. Deveríamos sim repudiar essa proposta de lei por desnecessária, não é mesmo?

Sobre o Pix

É assunto menor, sem importância, coisa pouca... Analistas de todos os lados, de todo o espectro político, perguntaram-se qual a razão pelo recuo do Governo na estória do Pix. Se é legal, por que retiraram a iniciativa?, atacavam. Os mesmos noticiários, em outros momentos, tentavam explicar a falta de motivação para o impixe (rs) de Ali Lulá e seu bando. Segundo eles, não há mais clima político para manter o titular no comando. A estória da pedalada fiscal com o Programa Pé de Meia foi apontada pelo TCU. Falta apenas a presença nas ruas de Sua Majestade, O Povo; sem essa componente, não há impixe que decole, dizem. Ora, inocente leitor, tente convencer-me de que o potencial explosivo dessa estória do Pix não poderia culminar com a plebe lotando a Avenida Paulista, a Cinelândia carioca, a Esquina Democrática gaúcha ou a Praça do Ferreira cearense, não para assistir a uma eventual projeção gratuita de Ainda Estou Aqui. Algum estrategista de verdade (Zé? - Saí daí rápido!, veja abaixo) percebeu, e os opositores deixaram passar. Sorte do molusco. E durmam com essa, esquerda pela sorte, direita pela oportunidade perdida.


Virada de ano com a Maluca

Aconteceu quase sem querer: alguns compromissos foram falhando em favor de outros arranjos, e de repente a Maluca quase completa reuniu-se no dia 31 de Dezembro. Fiquei feliz ao receber confrades em data tão especial, e a responsabilidade levou-me a escolher algumas garrafas com mais atenção. A Débora chegou com uma Xampa Taittinger Brut Reserve, com a qual brindamos para a foto. Aconteceram duas 'promos' durante 2024 e as turmas não perdoaram, de maneira que literalmente nadamos em xampa até literalmente este final de semana - a confra #émuitovinho aguarda a postagem. Não há muita novidade a dizer sobre ela: para meu padrão (rebaixado) é bastante redonda e elegante, nariz com toques de pão, cítrico, bastante rico; a boca fica cremosa, a acidez é vibrante e é sempre um delírio beber dela. Ainda tenho duas garrafas, e quando elas se forem parece que terei de apelar para as poucas Philipponnat ainda em estoque... 😔

Como estão lembrados, salvei a Liu (🤣) de perder um convite (caro!) no Road Xou da Qualimpor, ano passado. Lá, degustei um Principal Grande Reserva 2011 com a Débora; ela havia gostado muito, mas desmaiou com preço (prá lá de milão). Bem, tinha um Grande Reserva da grandiosa safra 2007, e mandei ver. Produzido na Bairrada, nessa vindima é um corte Merlot, Syrah, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, mas não estou certo se nessa ordem. O sítio do produtor está fora do ar e não consegui informação mais confiável. Não lembro-me exatamente das notas, mas a recepção foi a de um ótimo vinho: equilibrado, nariz rico, bom corpo, taninos já arredondados e boa persistência; álcool (13,5%) bem integrado no primeiro serviço, mas tinha respirado pelo menos uma hora. Lembro de ter pago nele (idos de 2011, 2012...) algo como R$ 260,00, daria uns USD 100.00. Agora está quase USD 200.00... Ele ficou caro lá fora (o preço da colheita de 2011 atualmente está em 140 € ou R$ 850,00, e a safra mais nova disponível, 2015, está no mesmo valor). É sim um bom vinho, mas pergunto-me se vale tanto. Uma pesquisa rápida na  Lay & Wheeler indica um Barolo Cannubi do Paolo Scavino 2009 a 71.00 £  (in bond; com a nova taxação deve aumentar uns 25%, o que daria 89.00 €). Bebi um Paolo Scavino há bastante tempo, e digo que é ótimo! Um grandioso Châteauneuf-du-Pape do Château de Beaucastel está a 56 € (in bond; vai a 70.00 €). Mesmo por aqui, em tratando-se de um Merlot, preferiria desembolsar R$ 753,00 no Château Meylet, disponível na de la Croix; é pelo menos tão bom quanto. O leitor de S. Carlos pode tropeçar com o Principal, e talvez devesse pensar duas vezes se a aquisição compensa. Competindo com ele tivemos um Chateauneuf-du-Pape Domaine des Senechaux 2009 em ótimo momento para se beber: bem redondo, frutado, é um corte 60% Grenache, 20% Syrah, 18% Mourvèdre e 2% uma mistura de Vaccarèse-Cinsault. É um vinho de menor corpo mas mais elegante do que o Principal, mesmo potenciado a 14,5% de álcool. Como bem notado pela Débora, conforme a temperatura diminuía pela permanência da garrafa em água gelada, sua cor mudava de um atijolado (quando mais  frio) a um tom mais escuro quando esquentava um pouco, alterando a percepção de sua idade de mais velho para mais novo. Nunca havia notado isso em um vinho! Domaine des Senechaux foi comprado há tempos no nosso Frixópi, e lembro-me de ter pago USD 50.00. Atualmente está mórbidos USD 71.00 (o tinto). A Wine (com.br) está vendendo o branco a USD 74.00, e pergunto: esse nosso Frixópi é livre de taxa onde? Já faz muito tempo que passo por essa loja de nariz empinado e deixo o estoque para os desinformados. 

Nota final

   A safadinha da Débora tem-se mostrado ótima aluna: no dia 25 de Dezembro ela passou para uma bebericada e provou do Xisto Cru Branco. Disse tê-lo notado bem mineral, e eu não havia percebido. Dias depois, por acaso conferindo seu preço lá fora, encontrei a avalição: "Vinho austero e mineral com aromas de flores brancas e notas cítricas...". Não é que ela estava certa? E já havia bebido dele e observado sua mineralidade (aqui). Preocupado, fico pensando se em alguns momentos meu nariz e boca não estão com baixa funcionalidade. Nos tempos de desvio de septo, era nítido. A fase atual seria manifestação tardia e crônica do Covid? 😣

Sobre os vinhos...

Domaine des Senechaux lá fora e aqui, retirados do Wine Searcher. Nota-se o valor do branco alterando-se de USD 38.00 a USD 44.00, e um valor do tinto a USD 44.00. 


Domaine des Senechaux aqui: tinto disponível no Frixópi e branco disponível na Wine. 


Contrarrótulo dos vinhos degustados.


Friday, December 27, 2024

Atenção, Brunello pronto para beber!

Introito: recuperando um passado sisquecido

   Corriam os silenciosos anos de '69. Depois de muito marcar passo - a esquerda nunca deixou passar um dia a mais -, e coincidentemente ou não no mês do cachorro louco, o governo Costa e Silva implementa a lei 5.692/71 instituindo no segundo grau a disciplina Organização Social e Política Brasileira - a famigerada OSPB. Na sequência veio a Educação Moral e Cívica, fechando o ciclo iniciado com a implantação dos Estudos de Problemas Brasileiros (EPB) no ciclo universitário um ano antes. Todas elas focavam no patriotismo, no respeito à autoridade, na disciplina e na obediência às normas sociais, tendo um claro viés de doutrinação da juventude a favor da administração de plantão. Esse período foi um dos mais negros e vergonhosos de nossa história, e não se sustenta nomeá-la ditabranda porque em comparação com os regimes da Argentina e Chile o número de desaparecidos foi muitíssimo menor. A execução ou tortura de um único cidadão sem o devido processo já é suficiente para dizer sanguinário a qualquer regime autoritário. Infelizmente mistura-se o termo autoritário com significado absolutista, despótico, discricionário, mas um Estado tem todo o direito de ser autoritário quando faz-se necessário manter a ordem pública. Usar a autoridade da força em prol da democracia é legal e tem amparo jurídico; não pode haver dúvida. Progredindo com o argumento inicial, os milicos apenas sisqueceram, ao implantar a EPB, que a universidade pública estava na barricada da resistência! 😂 Os professores universitários, especialmente na área de humanas, representavam a fina flor do pensamento de esquerda nacional - ao contrário de barbudos sindicalistas carreiristas e informantes do DOPS - e alí seu domínio era completo. O problema maior reside no fato desses mesmos humanistas falharem miseravelmente em formar uma geração talhada na firmeza de caráter e intransigente para com a corrupção e o desmando. O resultado é visto hoje em um país polarizado onde ambos os lados apoiam corruptos com tendências autoritárias e procuram, no fundo de suas crenças, motivos para continuar a suportar tais crápulas como se líderes! A sensação de ser o seu bandido preferido menos danoso do que o opositor basta para confortar espiritualmente o eleitor de cada tendência. Nossos cidadãos não aprenderam o óbvio: é desnecessário defender até o final do mandato o safado que o enganou com seu discurso cheio de contos de fadas. Nem é preciso ficar envergonhado do voto errado e se fazer de desentendido. Vergonha é persistir em um engano tão bisonho! Se o mesmo erro de interpretação acontece em outros países, pouco me importa e eles que se danem; devemos copiar os acertos dos outros, e rejeitar seus equívocos. Mas aqui acontece exatamente o contrário: copiamos os vícios e desprezamos as principais virtudes, como o tão em falta senso crítico.

Um encontro da confra #émuitovinho

Aconteceu em outubro, ainda, e ficou sem postagem. É claro, as notas ficaram para trás, mas alguns comentários podem ser úteis para o bebedor-leitor. Meu aniversário transcorreu com tantas reuniões, tanta animação e momentos agradáveis que o registro mais preciso perdeu importância. Sinto mesmo não ter-me encontrado com diversas pessoas cuja ausência não passou desapercebida; em alguns momentos provava de uma taça de lembrava-me de alguém cuja presença esteve em falta naqueles dias. Espero revê-las em breve, e algumas festas de final de ano suprirão isso.

A entrada ficou por conta de uma xampa Taittinger - quase certeza de ser essa, rs. A turma aprovou, e valeu. O primeiro tinto foi o Quinta do Vallado Touriga Nacional 2008, nariz ainda com muita, muita fruta, couro e aquele toque que costumo dizer tridimensional. Os taninos estavam bem redondos, boa acidez, corpo médio, tudo bem integrado: álcool e madeira como deveriam, sem arestas. No seu auge, está ótimo para ser degustado. A Grand Cru vem importando o Vallado desde algum tempo - estava na Cantu, se não me engano, e seus preços então eram razoáveis, pois comprei essa garrafa e algumas do Field Blend, e não costumava gastar tanto em vinhos no Brasil lá por 2010, 2011... Hoje está custando R$ 460,00 (R$ 390,00 para 'sócios'), o que é muito para um vinho com valor médio de USD 33,00 segundo o Wine Searcher. Lembremos: considero esse dóla a R$ 6,00 um soluço; ele recuará, em breve ou na próxima gestão do Senhor, tanto faz: eu vou esperar. Para acompanhar um bifim, veio o Brunello di Montalcino 2015 da Donatella Cinelli, à venda nessa mesma safra pela Enoeventos. Lembro de aerá-lo por algumas horas - até ser servido talvez umas quatro - e ter-me surpreendido um pouco pela cor, algo derrubada: está atijolando, embora continue bom; a cereja típica estava lá, conforme conversamos entre os confrades, e tinha mais frutas. A boca mostrou-se equilibrada, taninos e acidez médios chamaram atenção e não impactaram tanto quanto em degustação relativamente recente, de '22. Será que a garrafa estava um tanto miada? Comento no sentido dela ter envelhecido um pouco mais rapidamente, pois o contraste foi claro para quem havia bebido dele na esperança de avaliar suas garrafas em estoque. Enfatizo: o conjunto estava harmonioso e agradável; sua cor é que deixou um tantinho a desejar. Quem comprou mais de uma garrafa poderia fazer um tira-teima; farei isso proximamente. Comprei em '20 a R$ 411,00 com algum desconto - provavelmente a preço de Enoclube por fechar uma caixa - então ficou um pouco abaixo de R$ 400,00. Atualmente está R$ 549,00 com R$ 466,00 (normal/Enoclube), que na média não é ruim para um vinho de USD 60,00 nessa safra. Mas para quem pagou R$ 400,00... Definitivamente é necessário conferir outra garrafa. Qual estava fora do padrão? Aquela degustada em '22 ou esta provada agora? Aquela tinha bastante mais potencial, e esta mostrou-se inferior; como provei não é um Brunello de USD 60,00 lá fora - note, o preço 'lá' é que não está condizente pelo vinho; seu preço aqui, pelo preço lá, até está. Prova à vista, procurando pelo mordomo. Alguém será vítima ou felizardo acompanhando a degustação?

Adendo

O confrade Ghidelli 'liga' logo pela manhã reclamando seus méritos de ter matado a procedência e o ano do Brunello - ambos foram servidos às cegas. Grande verdade, e misqueci de registrar isso! Ele inclusive esteve comigo na degustação acontecida no evento I Love Italian Wine, vide vínculo acima, quando provamos dele pela primeira vez. Comprova como o toscano mantinha suas características claramente reconhecíveis. A questão agora é por quanto mais tempo ele se manterá assim.

As Malucas

O fechamento do ano com as Malucas - MaLuCaDeLiu é o nome correto, e escrito aqui pela última vez 😂 - aconteceu no Nanmi. A entrada foi a Xampa Taittinger. Garimpei uma oferta dela há algum tempo, e espalhei garrafas entre as confrarias e os membros também adquiriram para consumo particular. Como foi a principal Xampa servida no meu níver, preciso dizer-me devidamente catequizado com seus toques. Não conheço muito de Xampas, mas pagar abaixo de R$ 400,00 foi uma boa compra. É equilibrada, elegante, bem superior às cavas mais comuns degustadas por aqui, principalmente o Cordon Negro. Fazendo contas, esse exemplar da Freixenet custa lá fora uns 10 dólas, contra uns 40 dólas da Xampa. Aqui fica por uns R$ 80,00 x R$ 400,000- (400 menos), e a proporção mais ou menos se mantém, com algum favor para a Cava. Se você pode, para um níver ou final de ano, deleite-se. Se não pode, bem, volte no introito e escolha seu culpado em vez de perder tempo defendendo bandidos; é indecente um trabalhador labutar durante um doze meses e não poder, ao final do ano, experimentar uma garrafa, pelo menos uma vez na vida, de uma Xampa que nem precisa ser boa, bastaria ser razoável. Algo vai muito mal e errado com uma sociedade dessas. 

A turma não perdoou meu duramente garimpado 😓 Chablis Premier Cru 2022 do Domaine de la Motte. Além do cítrico evidente, tipo limão, não lembro exatamente das notas. Claro, as Malucas divertiram-se desvendando-o - acho que a sugestão de limão veio mesmo de alguém. O nariz estava rico, tinha ótima acidez e boa persistência, e encheu a boca. Por R$ 200,00- (pouco menos de R$ 200,00), é ótima compra. Por aí é encontrado a R$ 380,00+, e mostra o quão boa foi a aquisição... A Grand Cru fez uma oferta há tempos, com algumas armadilhas e boas opções. As Maluquetes recorreram aos préstimos deste Enochato e evitaram as primeiras. Entre as boas escolhas estava o Mazzei Tenuta Belguardo 2016, incursão do conhecido produtor de Chianti Classico em Maremma, próxima ao litoral da Toscana. É um corte Cabernet Sauvignon levemente temperado com Cabernet Franc, e a picância das Cabernet não pareceu evidente para mim - só procurei a composição depois. Poderia tê-la notado se soubesse da composição de antemão? Talvez, mas àquela hora o motivo da confraternização particularmente afastou-me de prestar tanta atenção ao vinho. Foi fácil perceber que estava ótimo, fácil de beber, equilibrado: nariz frutado e mais toques - era chocolate? - boca redonda, com taninos quase domados - pegavam um pouco - boa acidez e corpo médio+. Um bom vinho, que agora, fora da 'promo' (R$ 850,00/R$ 720,00 cliente comum/assinante), e custando lá fora uns USD 40,00, fica inviável. Pelos R$ 420,00 pagos, estava no limite dos 2x, boa compra. Foi um bom fechamento de ano, por mais que eu tenha tentado avinagrar (risos!) não os vinhos, mas o próprio encontro, procurando desovar nas Malucas algumas garrafas de minha adega. Se não quiseram, azar delas... 😅. Má foi bom mesmo assim. A companhia como sempre estava muito agradável, destarte minhas impertinências de sempre. Ótimo prenúncio de um bom Natal.

Como se precisasse... o Chablis onde paguei R$ 199,00 e a tubaronice correndo solta por aí.




Saturday, March 4, 2023

A estória do valor do vinho I

Introito

Comprar vinhos caros é opcional.
Pagar caro por eles é tolice.
Dito d'Oenochato

   A aparente contradição do preâmbulo pode confundir os neófitos e é a ponta de lança do blog nos últimos anos; tratamos de conscientizar o comprador de vinho do quanto ele pode ser explorado ao adquirir uma garrafa até modesta de sua bebida preferida. O que faz um vinho ser caro? Obviamente (além de modismos) sua escassez. Vinhedos pequenos ou de baixa produtividade geram quantidades minúsculas de garrafas desejadas por gente dos sete mares (sic) e cinco continentes; não há como atender a todos e seu valor sobe, fazendo dele um produto caro. Sua compra justifica-se (além dos modismos... de novo!) pela curiosidade dos enófilos mais experientes em apreciar vinhos com características únicas. Quando falamos de vinhedos delimitados há 500, 600 anos pelos monges Cistercienses na França (principalmente na Borgonha), delimitações tão precisas que apenas técnicas recentes de espectroscopia poderiam melhorar, e cuja produção portanto não aumentará jamais, a exclusividade de uma garrafa torna-se compreensível pelas nuances que somente aquele vinhedo pode proporcionar, e a justificativa do valor está dada. Pode haver bolhas de consumo como a das tulipas na década de 1630 na Holanda, mas a consistência dos preços através das décadas mostra quem tem qualidade de fato. Fique claro: a compra desses vinhos mais caros faz sentido para o enófilo mais avançado e (conectivo de adição!) curioso. Um bom enófilo pode passar a vida toda bebendo vinhos dentro de certa faixa de preço e focar sua curiosidade em outro passatempo: carrinhos em miniatura, selos, joias, sapatos, livros, música, etc. O desejo e curiosidade de cada um é só seu, é personalíssimo, e não pode ser criticado.

   Por outro lado, e exclusivamente no Brasil, acontece um fenômeno raro: o vinho, mesmo nacional, é muito caro. E aqui reside a diferença entre comprar vinho caro e pagar caro por vinho (pagamos caro mesmo pelo vinho barato). Aos poucos, e construindo o panorama: reportagem recente (cheia de erros e incongruências) conta-nos que

Em relação aos vinhos nacionais, mais de 50% de seu valor final é decorrente de tributos, e no caso dos importados o percentual tributário pode ultrapassar a incrível marca dos 70% sobre o preço final de cada garrafa comercializada.

   Os erros e inconsistências estão mais na propaganda chapa branca do vinho nacional; creio que o dado sobre impostos esteja razoavelmente correto. Mas não nos esqueçamos da taxação sobre bebidas na Europa ser igualmente alto, algo como 20%; está aqui. Portanto tenhamos em mente que a diferença entre os impostos indica ser a nossa apenas 50 pontos percentuais a mais.

   Mais uma reflexão: o imposto sobre celulares e notebooks no Brasil é perto de 40%, veja aqui. Reportagens onde os articulistas colocam como escandaloso o fato de um Eufone (sic) custar por aqui o dobro (menos, na verdade) do que nos EUA abundam (veja aqui). E eles já estão escandalizados com o fato de custar o dobro. A fonte da imagem abaixo está aqui.


    Tomemos agora o caso dos vinhos, onde o imposto é um pouco maior. Um Chateau Gazin 2009, grande vinho francês da região de Pomerol, à venda nos EUA por cerca de USD 250,00 (R$ 1.300,00) é ofertado aqui a R$ 8.500,00 (6.5 vezes!), com 'promo' a R$ 4.650,00 (apenas 3.6 vezes). O mesmo pode ser constatado para vinhos baratos, e fiz um levantamento recente aqui, envolvendo seis importadoras, com resultado estarrecedor. Curiosamente não encontramos reportagens indignadas com a margem praticada na venda dos vinhos por diversas importadoras.

   Certo, o exemplo acima é um pouco extremo, mas o que vemos, vezes sem conta, são as conhecidas promoções da metade do dobro. Não porque dobrem o preço do vinho um mês antes da queima, mas porque o valor normal já é 4x ou 5x e então ele entra em promoção. Em tempo: sendo o imposto sobre vinho cerca de 70%, não é de estranhar que o seu preço final guarde proporção com o dobro em relação aos países onde ele é produzido. O consumidor, quando for comprar um vinho estrangeiro, deve valer-se do Wine Searcher, ferramenta que ajuda-o a comparar o valor da mercadoria aqui e lá fora, salvaguardando-nos de comprar vinhos a preços exorbitantes. Com o tempo perceberá que as importadoras trabalham com uma margem média em todos os seus vinhos. Se um é caro, o que estiver do lado provavelmente o será. E assim sucessivamente (claro, existem discrepâncias). A essas importadoras, chamo-as tubaronas. Veja a 'comprovação' dos preços do Chateau Gazin no final da postagem, onde são mostrados os rótulos à venda aqui e lá fora. Esse comentário, rotulado como 'A estória do valor do vinho', e que terá continuação, junta-se a outra postagem, A estória das moedas, na tentativa de apresentar ao leitor uma abordagem mais concreta sobre a questão do valor do vinho no Brasil. Como de hábito, as fotografias das páginas com valores serão apresentadas, e sugestões de leitura com hiperlinks embasarão a argumentação.

Ainda sobre o encontro com o Nagibin

   Na postagem onde relatei a visita do Nagib mencionei ter aberto o Numanthia à meia noite, para bebê-lo no almoço do dia seguinte. O que vocês acham que estivemos fazendo até aquela hora? Com Magide, Cesar e sua esposa Ana degustamos alguns vinhos, claro!

Champagne é uma predileção da Magide, então não poderia faltar. O Taittinger Brut mostrou nariz cítrico com um pouco de fermento, muito vivo, equilibrado, com acidez e permanência médias e boca também cítrica com muito frescor. Comprada da última vez que estive no Chile, lá por '17, talvez, estava bastante agradável. Lembro de ter pago bem próximo a R$ 200,00, e seria a metade do valor daqui à época. Queria surpreender os convivas com algo alegre e arrisquei duas horas de aeração sobre o Belcore 2019 da I Giusti & Zanza, produtor sediado na Toscana. Este corte  80% Sangiovese e 20% Merlot é um supertoscano vendido no sítio do produtor a € 15,50 (R$ 85,00), pelo qual paguei R$ 130,00 em promo e vale quanto pesa. O Cesar achou um pouco fechado, novo ainda, e ele ou Nagib apontou cereja - é uma das expressões da Sangiovese. Tem mais fruta, e tem algo na linha chocolate/café com acidez média, taninos um pouco pronunciados em meio aos 13,5% de álcool. Estava bem melhor no dia seguinte durante o almoço, e ainda bebi dele com muito prazer à noite. O Numanthia, na noite seguinte, também estava ótimo. Depois tivemos um Château Chantemerle 2016, Cru Bourgeois do Medoc. Os Cru Bourgeois são uma categoria promocional de vinhedos não listados na classificação de 1855 e já comentei aqui. Note ainda que ele não deve ser confundido com o Quinto Vinhedo Château Cantemerle da referida classificação de 1885. Chantemerle está pronto para beber, e com alguma aeração mostrou fruta bem viva e outros detalhes que não registrei. Aporta boca agradável, fácil de beber, acidez presente sem contudo ser tão marcante, final médio e não mais. Está um pouco caro, R$ 200,00, mas é melhor do que muito francês a preço superior e seguramente bate tudo o que produzimos na vizinhança (Chile, Argentina, Uruguai), nessa faixa de preço. Ele e o Taittinger acabaram no dia...


Valores do Château Gazin aqui e lá fora.