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Friday, November 28, 2025

'61 é agora

Introito: é fogo!

Para aumentar a desgraça que nos rodeia, atormenta e grassa, para esvaziar nossa esperança (e nossa taça), desocupando o coreto e a praça, a COP virou fogo, fuligem e fumaça. Poucos dias antes o chanceler alemão Friedrich Merz comentou sobre sua comitiva: Todos ficamos contentes por regressar à Alemanha, sobretudo daquele local onde estávamos, na noite de sexta-feira. Não se dignou a pronunciar o nome do lugar, e fez bem: lembranças ruins, melhor esquecer. Anunciada antecipadamente como fracasso dada a absoluta falta de estrutura, o evento em Belém naufragou na tentativa de alçar a combalida imagem do país a um degrau mínimo de respeitabilidade. O governo federal naufragou junto, claro. Mas não escapa ileso o governo estadual e, por tabela, a população que o elegeu. Bando de idiotas com título de eleitor e QI de ostra, à semelhança de gaúchos, paulistas e cariocas dentre os demais sufragistas. Bem, no contexto citado esses últimos são um pleonasmo... Ainda tivemos outros desvios, por assim dizer: Ali Lulá defendendo os traficantes de drogas como vítimas dos usuários(!), além de confundir urubu com meu louro, Jesus com Genésio, o Pará com o Amazonas e tendo de aturar uma recepção às autoridades estrangeiras, promovido pela primeira drama (sic), onde o comparecimento foi absolutamente zero. Um zero tão profundo e silencioso que lembrou o próprio zero absoluto, aquele onde até as partículas, resignadas, frustradas, desarticuladas, desistem de dançar e se recolhem goradas, como os convidados que jamais vieram. O crédito da foto é este, e apresenta-nos pessoas sem qualquer equipamento de segurança tentando conter as chamas de um incêndio inesperado em seu voluntarismo estoico e com bravura quase incômoda. Se a COP apresentou algo de bom, ficou registrado nesse gesto de heroísmo. Alguém ficou sabendo o nome deles? O presidente foi cumprimentá-los? A primeira drama deu-lhes algum destaque como deu a Caramelo? Assim passou-se a trigésima reunião da COP, sem qualquer acordo efetivo e sem deixar saudades. Alguém minimamente inteligente e dotado da máxima mansidão teria acabado com ela na décima edição. Perdurar até hoje é mais um registro da nossa imbecilidade.

Postagens mais que atrasadas para eventos bem comemorados

Não gosto de Carnaval, mas adoro quatro dias de festas... 31 de outubro passado caiu numa sexta-feira, e, além do Dia de Todos os Santos, comemoramos em 4 de novembro o dia de São Carlos Borromeu, padroeiro municipal, daí que na terça-feira tivemos outro feriado, com direito ao Dia do Funcionário Público na segunda-feira... Então, entre sábado e terça, permiti-me um retiro espiritual dedicado ao deus pagão de minha predileção - desnecessário perguntar qual, certo? Ah, Caravaggio... vale a pena conferir o verbete, principalmente a parte da interpretação; agradáveis surpresas e inesperadas revelações aguardam o curioso leitor. De algum tempo para cá imagens de obras de arte em altíssima resolução estão aparecendo principalmente na Wiki; sempre vale a pena usar a ampliação e gastar um tempo analisando obras clássicas ao som de boa música e acompanhado por um vinho inspirador; leitura prévia de um dicionário de símbolos ajuda, e o comentário de estudiosos torna a experiência ainda mais gratificante. Experimente, e depois me diga...

Depois da reforma na adega - não ousei pintar as paredes mais antigas por medo de respingar tinta nas prateleiras e, pior, em seu conteúdo - as confrarias estavam ansiosas pela inauguração. Os detratores continuam chamando-a de caverna. Respondo, dando o troco: Adorável caverna, é isso? Alguns ainda olham para as garrafas Matusalém em primeiro plano e provocam: Ainda é uma caverna. Bem... é uma caverna de onde tirei uma Philipponnat das mais rebas, a Royale Brut Reserve. Corriqueiramente muito fresca, elegante, nariz com toques cítricos ricos seguidos de fermento e mais ou fundo florais. Demorei para pegar tudo isso, mas depois fica mais fácil identificar. Se tiver oportunidade preste atenção, pois está tudo lá. A boca tem ótimas mineralidade e acidez, e com cinco anos desde a degola está pronta, equilibrada. Não tenho experiência para dizer quanto tempo mais pode durar nessa condição. Seguramente vários anos, mas não é novidade para Xampas de qualidade. Faz tempo desde a última 'pomo', mas estou de olho: foi minha última, e não seria desagradável provar dela mais uma ou outra vez.



Depois tentei - juro que tentei - fazer boa figura. Mas falhei miseravelmente 😥... Servi o Grand Cru Classé Domaine de Chevalier Blanc 2009, tido como um dos grandes ícones de Pessac-Léognan. Essa é  uma das poucas sub-regiões de Bordeaux com brancos renomados a ponto de ultrapassarem em qualidade seus equivalentes tintos. Essa garrafa oxidou um pouco antes, do tempo, e não estava como esperado. Não estragou, não passou, apenas parecer ter miado... sem saber exatamente o que era - servi às cegas - os confrades gostaram. Mas, pensando comigo, tendo a lembrança de um Pape Clement apreciado há alguns anos e comparando o quanto Chevalier branco estava distante dele, eu curtia solitário minha decepção. Não registrei muito as notas, passou. O serviço da versão tinta foi perfeito, e a turma se agitou junto de suas taças. Ainda um degrau abaixo do citado Pape Clement, com 24 horas de aeração estava vibrante, rico, elegantemente encorpado. Não guardei as notas, mas é daqueles vinhos onde sugestões de frutas diversas misturaram-se às de chocolate/café/couro (quais, exatamente?), com taninos já maduros, madeira presente mas bem harmonizada e boa acidez. É daqueles vinhos que, conversando, sentimos como ele permanece em boca. Potente, equilibrado e gracioso. Todos dizem que Chevalier branco supera o tinto. Se estivesse igual, teria sido espetacular. Para acompanhá-lo, a Liu preparou - não sei como - um bifim numa crosta de sal cuja receita deve ter sido tirada de algum manual de bruxaria. Estava ótimo!


   Por sobremesa tivemos um Ice Wine de Cabernet Franc com um cheesecake de frutas vermelhas. Ninguém lembrou-se de fotografar - e servi a conta-gotas, como costumo fazer com esses vinhos canadenses. Justifica-se: são difíceis de encontrar, e sempre tento fazer uma garrafa (500 mL) ser repartida entre 15 a 20 confrades nos diversos encontros. E olha que uma turma teve de contentar-se com apenas com o Doisy-Védrines... Para um primeiro dia, há quase um mês, só não esteve melhor pelo defeito do branco. Aliás, ele chegou à adega bem depois do irmão tinto, evidenciando não ter sido problema de armazenamento. Baco escreve certo por linhas tortas; da próxima vez que tiver oportunidade, farei uma compra carcada (sic) em brancos. Com uma nova garrafa de Chevalier...

Saturday, August 2, 2025

Don Flavitxo e as Malucas

 Introito. São Luiz do Anauá, RO. População: 7.300.

   Dizem que a imprensa é corrupta, vendida, pelega, fala mal do governo de plantão quando não recebe (generosas) verbas de propaganda, portando-se de maneira oposta caso contrário. Posso falar por mim, e apresentar a trajetória do blog: denuncio a tubaronice de importadores de vinhos há anos, mesmo sob ataque (risos!) de puxadores de samba saco cujos comentários até tempos atrás apareciam na moderação. Sempre foram combatidos com argumentos, menos quando tentaram falar de política, já que por princípio esse assunto não está em debate. Um, mais criativo, perguntou se determinado vinho 'ia bem com lula'. A resposta despertou seu senso de honestidade intelectual, e ambos rimos com a situação. Trégua passada, voltamos a nos digladiar. Recobrando a primeira frase deste parágrafo, ofereço a reflexão: já ouviu falar de São Luiz do Anauá, em Roraima? Se ouviu, então está óbvio: a imprensa está cumprindo seu papel... porque o menor município desse estado, com apenas 7.300 habitantes, recebeu, entre 2021 e 2024, a bagatela de R$ 109.000.000,00 em emendas parlamentares, tornando-se a cidade que recebeu o maior valor de verbas por habitante em todo o país. Ainda assim, e em um imbróglio mal explicado, a posição atual da cidade é falimentar, devedora de débitos acumulados em R$ 52.000.000,00. O assunto é antigo (março de 25), e a própria Assembleia Estadual abriu uma CPI para apurar o caso. O ex-prefeito e pivô da ação é do Partido Solidariedade - até ontem na base do Governo Federal -, e atualmente capitaneado pelo Paulinho da Força, impoluto cidadão de conhecida trajetória política: candidato a vice-presidente e diversas vezes candidato à Prefeitura da cidade de São Paulo, além de vitoriosas campanhas ao Legislativo Federal. Não tenho TV, mas repito: se a imprensa mostrou o Presidente do Solidariedade manifestando sua preocupação quanto aos fatos - a falência municipal é incontestável; a apuração dos culpados é outra estória - então ela novamente cumpriu seu papel. Paulinho não se pronunciando voluntariamente, a obrigação dos jornalistas seria apurar os fatos - onde está a tal imprensa investigativa? Agora... 🙄 se você não está sabendo do que falo... pelo menos recorde-se comigo: já ouvimos muito mais barulho por muito menor escândalo. E nesse caso possivelmente a imprensa não está fazendo seu trabalho. Nosso Amado Presidente (NAP), que prometeu, dentre tantas coisas, acabar com sigilos de gastos presidenciais herdadas da administração anterior não o fez. Mas foi pródigo em juntar-se a pessoas de currículo duvidoso, e os escândalos - como o dos velhinhos, para citar outro e poder usar o plural - avolumam-se. Onde está NAP agora, para bater no peito e dizer aos brados: Mea culpa, mea maxima culpa? Bem... sabemos que português não é com ele - nem com o Xandão! -, o que dizer de latim? Enquanto isso, enfraquecida em um leito hospitalar possivelmente digno de Anauá, a Pátria definha. Foi nesse projeto de país em que você, que fez o 'L', votou?

Outros vinhos

Há não muito tempo provei um Terra di Lavoro 2010, e sabia da existência de outro exemplar na safra 2009 - a estória do colecionador desfazendo-se de sua adega. Não foi difícil convencer as Malucas a entrar na brincadeira, e a aceitar Don Flavitxo como convidado especial deste Enochato: leitoras assíduas do espaço, estavam verdadeiramente curiosas para conferir a existência do mítico bebedor que volta e meia menciono como meu principal mentor nas sendas a Baco. E no dia marcado estava lá o lépido Flavitxo com seu sorriso generoso, cativando a todos com suas estórias. Para agradar a tão ilustre companhia, a Maluca ofereceu uma xampa do Philipponnat, a Royale Brut Reserve. Sempre uma ótima escolha, facilmente eclipsa os concorrentes mais simples como Veuve Clicquot, Piper-Heidsieck e  Taittinger, embora custe sim um tanto a mais. Mas em uma boa 'promo' a diferença pode cair a níveis onde vale investir pela pequena diferença, então fique atento. Philipponnat é muito elegante, combina toques bem cítricos com notas florais e fermento; tem belo equilíbrio e nesta safra 2015, com dégorgement em agosto de 2019, está ótimo e apto para ser degustado. Não conheço tanto sobre xampas, e por isso não arriscarei quanto tempo mais pode envelhecer. Mas está em ótimo momento para consumir...

Como pode ser conferido, nessa safra foi um corte Pinot Noir (65%), Chardonnay (30%) e Pinot Meunier (5%) - a composição varia de safra a safra - e por alguns momentos as Malucas refletiram se não valeria a pena Philipponnat sobre as opções mais simples, como já comentado. É isso mesmo, foram de encontro à minha reflexão de que, em 'promo', a diferença pode não ser significativa. Está este Enochato incumbido de ficar atento à próxima oportunidade. Missão que será levada a cabo com o maior denodo e respeito pelas preferências das confrades. Sem esquecer do Mário como parte das Malucas, além deste escriba, quando uso o nome genérico Malucas para o grupo...

   O Terra di Lavoro 2009 estava como 2010: explosivo, pegado, muita fruta e outras notas, encorpado e estruturado. Recupero sua prova aqui, pois os resultados são similares. Don Flavitxo nos encantou com um Viña Arana Gran Reserva 2015 da La Rioja Alta, grande produtor espanhol. Também tinha bom corpo, acidez viva mas estava visível como a pegada era mais leve e graciosa. Frutas em camadas, especiaria, aquele toque chocolate/café (qual?), madeira discreta e integrada, tudo muito elegante, com maravilhosa persistência a alegrar os bebedores, e recordei-me de como o Il Bosco do evento anterior mostrara-se um vinho superior. Sim, Arana - junto da experiência prévia - raiou como um ponto de virada em minha percepção de vinhos mais elegantes sobre aqueles potentes. E tenho mais uma abordagem a validar: já escrevi em algum momento sobre como bons vinhos defenderem-se bem quando encontram outro igualmente significativo pela frente. Repete-se o mesmo entre Arana e Lavoro: o segundo tacou sobre o primeiro toda sua esplêndida potência mas não o sobrepujou; em uma cinesia discreta Arana alojou-se em um ponto mais alto e brilhou sozinho. Vivo e aprendo. Explico melhor: conscientemente, trocarei os vinhos pegados pelos elegantes, de agora em diante. Eles podem ser bons, ter seu apego, mas quando o bebedor percebe essa sutileza como algo mais palpável, a lembrança do maior requinte de fato sempre permanecerá na lembrança. Tento explicar melhor ainda: simplesmente caiu a ficha.

   Por sobremesa levei um passito que há tempos aguardava a oportunidade de molhar gargantas dignas... e encontrou nas Malucas a hora perfeita. Scacco Matto 2007, produzido com a variedade Albana pela Fattoria Zerbina, na região de Emília-Romagna, mostrou toques cítricos, damasco e mais notas. Alguém teria dito mel? Acidez adequada contrabalançando o dulçor e boa persistência completaram bem a noite. Como disseram os confrades, teve bão. 

   Esta postagem foi tocada a um Passadouro Reserva 2016. Havia provado uma garrafa há algum tempo, e estava bem fechado. Seus exemplares mais simples, Tourigas Franca e Nacional 2018 estavam bem prontos no ano passado, mas não ele. Passadouro Reserva está chegando a seu ponto, embora tenha evolução pela frente. Aerou por mais de duas horas e agora, entrando na quinta, mostra fruta contida e especiaria, com acidez e corpo médios. Ficará um tanto para amanhã. Vejamos a conclusão.

Friday, October 4, 2024

Aberta a temporada de caça a vinhos razoáveis

Introito


   Houve - dia primeiro? - um debate entre o deputado federal Kim Katakokinho, ou algo assim, e um esquerdopata parece que conhecido como Janjo, ou igualmente algo assim. Topei inicialmente com um resumo do encontro editado pelo deputado Katakokinho, e fiquei espantado 😨. Não era possível tamanha má-fé; as falas de seu oponente (Janjo) só podiam ter sido editadas e coladas em ordem inversa, pois não faziam sentido nem mantinham coerência. Ademais, a insistência de Janjo em colar em Kim a pecha de tolo, ignorante, besta até - é preciso mantermos a lucidez e a honestidade intelectual, e tratar nossos adversários da direita com o respeito que merecem - se repetia ad nauseam como um mantra cujo propósito, a depender da qualidade de sua argumentação, jamais poderia ser atingido.

   Em nome dessa mesma honestidade intelectual procurei a versão completa do intercurso (sic! rs!), fornecida pela página do produtor do embate (é longo, três horas), aqui, e fui conferir. Estava tudo lá, na exata ordem como foi apresentado no resumo...(😱) Logo de início, Janjo perpetra um conjunto de ataques (sic), todos rebatido com enorme precisão pelo antagonista. A cada resposta de Kim, restava-lhe um aparte calcado em duas de três estratégias risíveis, 1. Dizendo que o outro fugia do assunto (não fugia!), 2. Alertando que naquele momento sua página em rede social subia tal documento que nada ou pouco tinha a ver com pauta, pois ele esquivava-se das perguntas obrigando Katakokinho repetir a mesma questão várias vezes, e 3. Fugindo ele próprio das querelas. Não acredita? Está lá, basta olhar. O desconhecimento de Janjo sobre os assuntos levantados por ele mesmo soava flagrante: sequer conhecia bem os projetos de lei que pretendia discutir. Um ponto vergonhoso (😣) da estória acontece já aos 10min45s quando Janjo sai-se com "Está muito claro que o capitalismo não  tem soluções para esses problemas, são mais de 120 anos de capitalismo e todos os problemas da classe trabalhadora estão aí...". Ei, sua anta de quatro costados, o capitalismo não data de meros 120 anos, mas tem 1.000.000 de anos! Sabe aquela cena do 2001, quando quando dois grupos distintos de macacos lutam por um laguinho barrento, a única fonte de água na região?


   O que significa esse combate, senão a luta pela terra? O que representa tal desejo de posse que não o princípio mais básico do capitalismo? O capitalismo está entranhado em nossos genes à custa de um milhão de anos de competição!, e só um sentimento maior, mais nobre e mais elevado há de vencê-lo. Esse sentimento só poderá ser bem compreendido quando as pessoas tiverem a ideia correta do que significa o Estado atuando em benefício da população, por exemplo coibindo excessos de quaisquer montas. Entendeu?

   Em 1h50min15s, Janjo sai-se com "Quem concorda com o programa econômico do PT é o Kim, que defende teto de gastos, que defende austeridade, que defende PPP,... nós do PCBR somos oposição ao governo de Ali Lulá porque..."(!). Bom, esses esquerdopatas - contrários a Ali Lulá aqui não é mérito, percebem? - são contra as premissas básicas para se tocar um Estado com a devida responsabilidade e sensatez. Acham que basta imprimir dinheiro e tudo se resolverá? Jura, Janjo? Em 2h05min40s, "refuto falácias que o Kim vai falar:" (sobre o comunismo) "totalitarismo, matou mais que o nazismo, não sei o quê, por aí vai..."... "...se você já ouviu essa estória, o comunismo já matou 100 milhões, o comunismo é autoritário... pegue meu livro... dê uma lida e você vai ver que isso é totalmente refutável...". Ô mané das trevas!  O comunismo é respeitado - e temido pelos molambentos dos infernos! - justamente por ter cojones de fazer o que é necessário quando é preciso, le duela a quien le duela! E me vem um moleque travestido de ixtoriador (sic) negando essas máximas sobejamente conhecidas?! É isso mesmo?! Vemos então como Janjo, um tigre de papel, fez um papelão baseado em argumentos toscos e acovardados. Uma nova vergonha para a esquerda, só superada pelo meteorito (ou algo assim... sic!) cujas travessuras foram comentadas aqui anteriormente - tenho vergonha de resgatar a postagem, lamento. Enfim, quando meus amigos de direita - não os direitopatas - abordam-me perguntando o motivo pelo qual eu, de esquerda, voto em alguns sujeitos da direita, está explicado: é pela completa falta de opção por ideias boas e honestas por parte da esquerda. O debate acima apenas confirma essa percepção. 

   Em tempo: este final de semana é dia de escolha. Já fiz minha opção, há tempos: sem candidatos decentes em minha cidade, estou na oposição. A todos.

Aberta a temporada de caça a vinhos razoáveis

Essa já faz um tempo, mas vale (rs). A Débora, esbaforida, avisa de uma 'promo' na Grand Cru. Fui olhar e encontro um Mazzei, produtor dentre outros do Castello Fonterutoli Gran Selezione 2018. A classificação grifada foi adotada em 2014, e tenta refletir o melhor produzido pela região. Um Chianti Classico Gran Selezione tecnicamente está acima de um Riserva; as uvas devem ser cultivadas pelo produtor - sem a estória de comprá-las de outros - e o envelhecimento em barrica é de 30 meses, contra os 24 obrigatórios do Riserva. A família Mazzei trabalha na região desde... 1435!... estabelecida lá há... 24 gerações! A brincadeira aconteceu há algum tempo, e não guardei as notas de degustação. É um vinho de encher a boca e manter-se nela depois de engolirmos. Rico, complexo, foi prazeroso degustá-lo. O problema é que seu preço regular aqui é R$ 900,00 e atualmente em 'promo' a R$ 575,00 para assinantes. Pagamos um tanto a menos, não lembro quanto. Lá fora custa - sítio do produtor - 45,00€. Bem, temos portugueses de valor similar em Portugal por R$ 250,00 (como o Quinta do Noval Reserva), então representam compras melhores. Sendo honesto, Fonterutoli Gran Selezione parece-me mais vinho do que Noval Reserva. Mas a diferen$$a (sic) entre eles é gritante. Se pegar uma promo, experimente Fonterutoli Gran Selezione. Mas não pague 900tão por ele. O Domaine la Bonnelière Saumur Champigny Tradition 2019 foi levado por este Enochato a título de boi de piranha, para início dos trabalhos. É um Cabernet Franc do Loire com muita fruta e fácil de beber, comprado antes da fase tubaronesca da Chez France. Não lembro quanto paguei, então é necessário ter o WineSearcher à mão e comparar o preço lá versus o preço cá. Para o veredito de compra, é fácil: se estiver mais de 2x, recuse e aguarde a oferta. Uma hora ele entra em 'promo'. Philipponnat é um produtor top de Champagne, e seu Brut Reserve (NV, non vintage) é o produto mais reba de sua linha. É o que dá pra comprar... numa 'promo' a R$ 490,00, ele passa o vareio em tudo que é Veuve Clicquot igualmente simples vendido regularmente a valor próximo ou até maior. Tem muito frescor e acidez ótima, e talvez seja ofuscado pelos nossos espumantes mais tops assim como Katakokinho foi ofuscado por Janjo (risos!), então vá lá e compre Janjo pelo valor de um Cave Geisse, ou de um Miolo Iride. Olha, quase não dá pra notar a diferença...

Teve um dia no apê da Débora com quórum mínimo - dois - da confra Malucadeliu. Por entrada, ela apresentou um Casa Perini Rosé de Noir 2022. Já faz um tempo, também, e lembro de ter anotado as notas... só não as encontro agora... Mas não tem por onde, o espumante estava rápido e rasteiro, serelepe (no sentido de agitado, ligeiro) que só ele. Baixa acidez, característica dos vinhos de nossas terras, fez o gosto da Débora quandl ela visitou a propriedade há algum tempo. É um espumante de 100 moedas, e se comparamos com similares italianos simples (lá!), de 5 moedas, notamos como os estrangeiros dão-lhe um vareio. Aí fazemos a conversão e resulta R$ 30,00. Nosso espumante de R$ 100,00 perde para um de 5,00€ que vem de longe e custa um terço na origem... Não tem conversa: os impostos são os mesmos e ainda tem o frete transmarítimo. Vergonhoso. Levei um borgoinha, La Cave des Hautes Nuits Saint Georges 2016. Tinha alguma acidez, um pouco de fruta, mas estava meio derrubado. Não estragado nem passado, mas não convenceu tanto quanto esperava. Isso até precipitou a abertura do Cave des Hautes-Côtes Morey-Saint-Denis 2015 na Paduca, dias depois, para ver seu estado. Um ano mais velho, aquele estava bem melhor, veja aqui. Bem, cada garrafa é uma garrafa... Foram-se assim todos os meus La Cave des Hautes. A bom preço compraria mais; pena ter-se esgotado.

   Há não muito tempo teve um barolinho, mas fica para outra postagem. Afinal a temporada de caça a vinhos razoáveis está apenas aberta...

Tuesday, November 9, 2021

O núcleo duro

Introito

   Já mencionei anteriormente o núcleo duro. Atualmente está composto pelo Akira, D. Neusa, Jacimon e este que vos fala. Jacimon mudou-se, o rebento chegou, veio a pandemia. Estamos tentando voltar às confraternizações. Enquanto isso o Ghidelli corre por fora como convidado de honra especial (sic). Eis que ele foi gentilmente oferecido (sic! rs!) para cozinhar para o grupo no dia 31. Na verdade, colocou a pobre - mas competentíssima - esposa para o trabalho mais refinado e tudo certo, positivo operante. A Márcia respondeu ao chamado e nos reunimos na casa deles para um encontro a caráter. Não, bem descontraído, na verdade. A caráter estavam os vinhos...

Xampa de verdade

Havia comprado, no ano passado, duas garrafas de uma xampa de produtor bem conceituado, o Philipponnat. Seu Royale Brut Reserve é um corte de 65% Pinot Noir, 30% Chardonnay e 5% Pinot Meunier. Servi a todos, inclusive uma taça vazia em homenagem ao Jaci. Aproximei minha taça do nariz, fechei os olhos e deixei seu buquê me embriagar. Tive a impressão de ser bem melhor do que o Piper-Heidsieck, com nariz muito bem marcado a frutas cítricas, toques de fermento/miolo de pão e outras notas mais - não identifiquei. Quando abri os olhos, o conteúdo da taça do Jacimon havia desaparecido! Evaporado! Sumira! Surpreso, corri os olhos pelos confrades. Um olhava para o relógio cuco, outro para o teto e alguém mirava o infinito, como em transe. Só o Akira abafava a muito custo um sorriso maroto, mas sua taça estava na medida que eu havia servido, e nunca é demais repetir, ele não bebe. Atônito - mas claro, sem considerar a possibilidade de que o espírito do Jaci estivesse nos visitando sorrateiro -  pensei comigo que eles ainda seriam vítimas do meu prestígio quando chegasse o momento apropriado. Philipponnat foi acompanhado por camarões ao molho de mascarpone com alho poró e acabamento com casca de limão sicilaino ralado na hora. Creio ouvir o Akira comentar que lembrava um... Taittinger(?) de bom nível - O Roayle é o mais reba básico de Philipponnat. Boca com mineralidade presente, ótima acidez, fruta verde e boa permanência. Casou muito bem com o camarão. De maneira geral, esse prato casa combina com espumantes, mas não só; um exemplo está aqui. Depois disso passamos a uma degustação sem comida de três tintos. A proposta inicial era fazer um painel, situação onde os vinhos possuem algum ponto em comum, qualquer que seja. Escolhi que fosse a uva tinta vinífera mais conhecida de todas e a mais plantada no mundo.

Cabernet Sauvignon: a rainha das uvas tintas

   A Cabernet Sauvignon, tida como a Rainha das Uvas Tintas, é originária de Bordeaux. Então precisamos combinar de antemão: suas características são as dos vinhos daquela região. Se estamos acostumados com outras expressões - chilenas, principalmente, em nosso caso - devemos estar atentos que a diferença entre os vinhos mostra o quanto o chileno afasta-se ou aproxima-se do padrão. Isso posto, servi os vinhos às cegas, para alegria de uns e desespero de outros. O primeiro causou furor, e pensei comigo:
   - Putz, errei a mão... deveria tê-lo servido por último...
   O fato é que um Uôôôô reverberou pela sala; o humor, se já estava bom depois da xampa, melhorou. O segundo teve impacto neutro. Razoável: o nível estava alto e a nova prova talvez tenha deixado um pouco a desejar. No terceiro, o entusiasmo voltou, sem tanta efervescência. Em resumo, quem melhor se aproximou nas avaliações foi novamente o Akira. Seu melhor acerto foi quanto ao último; disse que poderia ser americano ou australiano. Os outros, não conseguiu desvendar. Vamos lá...

O primeiro vinho foi o Pape Clement 2008, um Grand Cru Classé de Graves. A classificação de Graves de 1959 (na verdade em 1959 aconteceu uma revisão, mas ela é conhecida por essa data) lista os melhores produtores de  Pessac-Léognan, classificando todos eles com a distinção Grand Cru Classé. É um corte  50% Cabernet Sauvignon e 45% Merlot completado com Cabernet Franc e Petit Verdot. O buquê é nervoso, tridimensional, com madeira e terroso, frutas e algo mineral, generoso, animal... pela sequência o leitor percebe que é um vinho fora da curva. É a Cabernet beirando o estado da arte. Ano passado bebi um Château Montrose (segundo vinhedo de 1855) que mostrou o lado mais delicado e sutil da CS. Pape Clement mostra-nos a face Shrek (sic) da região: forte e pegado, pero sin perder la ternura jamás (risos!). No paladar, também rico, a fruta repete-se misturada a taninos potentes e ótima acidez. Tostado, couro, especiaria. Aqui é o ponto: difícil perceber a pimenta típica de outras expressões. Está lá, mas precisa prestar muita atenção. Dá até para confundir com a pimenta da madeira. A permanência e o final são longos; depois de engolir e salivar, continuamos com ele na boca. Está bom para ser consumido, mas pode ser guardado por muito tempo - mais 20 anos, segundo especialistas. Felicidade engarrafada, mas por 100 dóla é obrigação. Não à toa causou furor quando servido. 


O segundo mostrou fruta, bom corpo mas não foi muito além. Noon Cabernet Reserve 2003, de Langhorne Creek, estava miado, para tristeza geral. Pela avaliação do Akira, foi da garrafa, não do armazenamento. Bebível, mas seu potencial parecia preso, com o freio de mão puxado. Não deslanchou, mas se estivesse sozinho com vinhos menores ainda assim teria feito bom papel. Depois veio o Etude 2005, um Napa seguramente notas abaixo de Pape Clement mas ainda assim muito bom. Rico, nariz à fruta madura, madeira, café (chocolate?), e mais; boca com bons taninos, madeira integrada, boa acidez. Se levarmos em conta que custa na ordem de um Pape Clement (USD 90,00), é bom, mas não é tão boa compra. Vinhos comprados em outros tempos, outros dóla (sic). Após a degustação inicial, repetimos todos eles acompanhados por um filé mignon selado com sal de parrilla e mel, acompanhado de champignon Paris. Ah, tinha um creminho também, mas o Ghidelli não mandou e especificação, e não sou tão bom para guardar tantos detalhes... purê alguma coisa com mandioquinha (rs), acho. Dos tintos, apenas Pape Clement é vendido aqui, a preço de até R$ 3.000,00. No... no se puede... 😔. Como disse, paguei cerca de USD 100,00, e hoje seriam R$ 600,00. Isso dá 5x. No... 😕 Consumidor, siga atento. A plataforma wine-searcher ainda é sua melhor amiga.


Não tirei foto da sobremesa (😱), mas foi uma boa torta com damasco acompanhada por um Tokaji Aszú 2003, 5 putônios, da Oremus. Esse produtor foi comprado pela Vega Sicília, gigante espanhol que produz o icônico vinho de Ribera del Duero. Bons Tokaji's, Sauternes e similares são praticamente eternos - no sentido de que duram muito mais que o feliz proprietário, mesmo oxidados - de maneira que esse 2003 estava pungente: boa estrutura, frutas secas - damasco? - e mais, mas não guardei exatamente. Doce (5 putônios...), mas equilibrado pela acidez. Boca larga, combinou muito bem com a sobremesa. Sobrou (fiz que sobrasse - rs!) para outras ocasiões, outras confrarias. Spice must flow... outras pessoas precisam ter essa oportunidade...