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Sunday, September 14, 2025

Reunião no 7 de Setembro, e mais

Introito

Nosso Amado Presidente - NAP - é tido por seus detratores como o maior bandido deste país, e o maior corrupto do mundo em todos os tempos. Em alguma realidade paralela eu não sei se eles estão errados na primeira parte, e quanto a quem foi o maior gatuno da história, se pegar os desfalques do Círculo Interno de Hitler (Himmler, Goebbels e Göring) e atualizar o montante para hoje, há uma ligeira chance de fazerem sombra a qualquer um. Note: uma ligeira change. Seja por desvios para fins pessoais ou suborno de altos oficiais  nazistas (olhalá as raízes da compra de votos de partidários), rolou muita grana por fora. O documentário da imagem ao lado não aborda a malversação do dinheiro do contribuinte alemão, mas dá uma ideia de quem foram os atores das malandragens. Hoje e aqui, o 7 de Setembro, data quando eu menino aprendia sobre cidadania como a promoção de valores cívicos, vem-se tornando mais e mais uma manifestação política. O civismo nos foi roubado por pulhas em camisetas de diversas cores, acusando-se mutuamente de traidores da Pátria. Se encontramos alguma diferença entre eles, consiste no fato de Bolsonéscio sê-lo há menos tempo, mas convenhamos: inexiste qualquer mérito nisso. O ex-Presidente tirou-nos de uma fase de regozijo - corruptos presos, julgamentos em curso e investigações tirando o sono da raposas do sistema - para uma sequência de patifarias institucionais incluindo o desmonte da Lava-Jato e aprovação de leis para tornar mais complexas quaisquer operações contra fraudes e estripulias para com o erário. O que começou com júbilo terminou em sua melancólica condenação no dia 11 de Setembro último. Por mais mambembe que tenha sido o teatro de sua condenação segundo seus defensores, o resultado líquido é positivo: Bolsonéscio atrás das grades estará onde merece, pagando agora pelos crimes até ser julgado novamente por um tribunal algo isento (como se isso fosse uma solução possível; claramente falamos de um delírio criativo). Não é o melhor exemplo de democracia, mas é a democracia possível tem tempos tão conturbados. O fato de na reunião termos abordado um pouco de política e nada sobre a Pátria reflete o quanto estamos contaminados pelo entorno polarizado de parte da sociedade. Uma pena.

As Malucas no 7 de Setembro

Alijados da companhia da Luciana, as Mulacas reuniram-se em minha humilde choupana e a Liu chegou com seu branquinho da Alsácia, o Wolfberger Riesling 2022, delicado, agradavelmente floral, alguém falou em mineralidade, e tinha. Por conhecer a assinatura da Riesling na Alsácia, fui procurar, e estava lá: para mim vem à óleo Singer. Não qualquer óleo, mas aquele de máquina de costura que nossas mães usavam nos anos sessenta, setenta: Singer. As meninas refletiram e saiu um Agora que você falou... e um Mas não é óleo Singer, é aquele de isqueiro... 🤨 para mim era o Singer, e pronto... a boca também refletia um pouco de fruta branca, a acidez estava elegante, pronunciada, marcando as papilas por um bom tempo. Um vinho bastante honesto, e uma pesquisa rápida indica estar disponível ao custo de R$ 150,00. Importado pela Domazzi, que muitas vezes tem grupos supermercadistas como vendedores finais, possivelmente tenha margens um pouco mais apertadas. Na faixa proposta, é bastante digno. 

O tinto para acompanhar a pizza foi o Donna Maria Cabernet Sauvignon 2016, servido inicialmente às cegas. Foi divertido, o pessoal ficou inicialmente perdido, refugiando-se no perigoso argumento de O Carlos não serviria isso... Foi apreciado por todos os confrades, e não fez feio na harmonização com pizza. Buquê com fruta misturada a toques de especiaria, e na boca repetia o olfato do pimentão típico de vários chilenos, mas sem desarmonizar. Alguém comentou compota também; a madeira estava lá, discreta, e tinha mais detalhes, mas a dificuldade geral foi fazer a conexão. Agradou e as meninas perguntaram onde tinha, desejosas de eventualmente adquirir alguma garrafa. Antes fácil de encontrar no Chile, não vi outras garrafas nos últimos anos. Também não é encontrado em nosso mercado com facilidade, mas aparece em alguma busca do Google, embora sem mostrar o preço. Se mudou de importador, há chance de estar a preço mais razoável; anteriormente estava em uma grande tubarona e Don Flavitxo reclamava de ser muito caro. Acima de R$ 150,00 o bebedor pode encontrar algum Noval Syrah sobrando por aí por alguns reais a mais, e a competição fica desproporcional a ponto de não valer o investimento. Volta e meia existem opções de espanhóis, como o Ramón Bilbao Edicíon Limitada a R$ 170,00, ou o australiano Peter Lehmann The Barossan Syraz 2021 a R$ 180,00, e a competição fica difícil para o que se pedi por chilenos na maior parte das vezes. Se encontrar por R$ 90,00, vá com fé (só não acredito se será o caso).

Novamente a Maluca

Mesmo com baixo quórum a Maluca reuniu-se novamente no dia 12. Com a Liu e o Mário, e o restaurante Barone como fundo, resolvi realinhar meu quociente de vinhobão no sangue então perigosamente baixo. Enquanto o Ramón Bilbao Edición Limitada 2020 do Mário era servido em quantidade mínima para início dos trabalhos, o meu vinho resfriava um pouco mais. Com a temperatura mais equilibrada, pudemos aproveitar melhor deles. A segunda rodada do Ramón Bilbao chegou pleno de frutas - achei que vermelhas - e uma picada de especiaria. 100% Tempranillo, acho que esse detalhe é proveniente da madeira, presente mas não agressiva. Boca com taninos pegados: talvez amaciem em 3-5 anos, sugerindo potencial de guarda maior. Acidez média com boca redonda, bom equilíbrio entre álcool, madeira, tanino e açúcar revelam um bom vinho. O valor mais baixo na Espanha, via Wine Searcher, é USD 13,00, e nos EUA a USD 21,00. Pagar R$ 170,00 por ele aqui é uma boa aquisição, não resta dúvida. É um produtor 'médio' de Rioja, embora seu Mirto destaque-se; bebi dele uma vez, por obra e graça de Don Flavitxo, em evento não postado. O Fontodi Chianti Classico 2010 chegou fechadão - malditos italianos - mesmo sendo 2010. Denorou para abrir, e inicialmente estava tímido. A cereja eu já esperava em um Toscano, e a certo momento apareceu chocolate ao leite. Ao leite: identificável assim mesmo, como cabe a um bom vinho. Durante boa parte do tempo ficou equilibrado por baixo, sem nenhuma exuberância. Ela começou a chegar no final da noite - acho que os confrades já não estavam bebendo dele, eu fui quem insistiu em uma taça, e explodiu no dia seguinte, ontem. O olfato encontrou o paladar, ambos ricos, boa acidez, taninos domados, madeira discreta, enchendo a boca e com ótimo final, marcando bem as papilas. É vendido aqui por importadora tubarona a mórbidos R$ 624,15 - é um bom vinho, mas existem ótimas compras nesse valor, como o Brise Cailloux, Cornas do Domaine du Coulet postado recentemente.

   Com duas postagens em uma, não admira o texto estar grande. Vinhos começando a R$ 150,00 e estendendo-se a R$ 624,00, com predominância na faixa de R$ 200,00 mostram algumas opções para leitores dispostos a investir um pouco mais. Um Fontodi, a USD 40,00 lá fora, ainda vale ser trazido na mala. E viva a tubaronice.

PS: para quem me acha um mentiroso quando recobro fatos passados, fica um tira-teima: estão aí este Enochato e o Mirto.


Saturday, August 12, 2023

A Paduca novamente

Introito: They Don't Care About Us e lives matter

Agora nós estamos em guerra com a Eurásia.
O inimigo sempre foi a Eurásia.
A Lestásia é uma nação aliada.
1984, de George Orwell

A introdução ficou um tanto longa, é verdade. Pule. Ou leia, caso não se importe de ficar indignado. Se puder, confira com seu rol de informações. Seu canal de televisão favorito tratou do assunto? Compare com este ângulo.

   Há algum tempo ('95) Michael Jackson deu uma passada no Rio para gravar um clip. Com a desenvoltura peculiar, deambulou pelo Morro Dona Marta sem a menor importunação por parte do tráfico. Outro Rio, outro Brasil... acredite o leitor que também põe fé no Saci, na Mula Sem Cabeça, em bolsonésio e outros tantos. Salvem-se os crentes do NAP. A maior polêmica da época - eu estava lá! - foi a negociação, à revelia da polícia, do staff da produção com os Senhores locais. They Don't Care About Us saiu muito bonito, embora em minha opinião o verdadeiro tour de force foi da galera dos tambores. Mas voltando: em '95 alguém - mesmo um astro pop - deambularia em uma comunidade rebolando para quem quisesse ver. Deambularia? Tá... Saci!, Mula!, apresentem-se!
   Às vezes bandidos infiltram-se junto às forças policiais. O resultado é estarrecedor; veja por si e diga-me se não. 

O direito autoral pertence ao UOL mas está em área livre do Youtube; é importante demais para o assunto em pauta caso a fonte original se perca, por isso reproduzo acima. 

   É comum nesse caso o trigo livrar-se do joio; os mal profissionais muitas vezes acabam expulsos da Corporação. Em vários casos, isso aconteceu graças à pressão da imprensa, aquela turma da qual já recomendei cautela, veja aqui. E convenhamos: esses pelegos nada fazem além da obrigação, assim como os políticos, com a diferença significativa de não terem sido eleitos nem terem mandato definido. Cuidado com eles.

   Estes dias um herói anônimo ganhou as manchetes pelo lamentável fato de sua execução por um franco-atirador a mando do crime organizado. Patrick Bastos Reis, policial militar de 30 anos, foi alvejado no cumprimento do dever. Seguiu-se operação policial na região, resultando na morte de 16 pessoas. Tudo indica tratar-se de criminosos cuja resistência às forças da lei - legalmente constituídas, portanto - foi combatida com resposta firme da PM. Dias depois, o que acontece? Uma reporter (sic) é flagrada sozinha à espera da entrada de um contingente policial em alguma comunidade. Como é? Uma mocinha, nos dias de hoje - não são mais nos já perigosos anos '90 - rebolando para quem quiser ver, em lugar onde estranhos são invariavelmente recebidos à bala? Se em '95 a entrada de estranhos em uma favela já precisava ser negociada, o que dizer de hoje? E ela estaria lá por qual motivo? Supostamente flagrar violência de agentes da lei? Num momento de imensa tensão entre criminosos e Estado? É isso mesmo?

   Só estou tentando entender. Não tenho televisão, e minhas... minhas... minhas fontes dizem ser assim. Se alguém tiver outra versão, olharei. E, sendo o caso, até posso refazer meu ponto de vista - isso sempre acontece aqui, e leitor bem sabe. Inegociável é o fato de, no confronto do bandido com a polícia, sempre torcerei pelo último. Mesmo sendo necessário jogo sujo por parte dos agentes legais, e até haver lei proibindo-me disso. Abandonei de vez o black lives matter. Em vez disso, lives matter. E apenas as do bem. Ah, só mais uma pergunta: quando um agente da lei foi morto na primeira operação, e foi a única baixa do dia, não houve consternação - a menos, claro, da família, da Corporação e das pessoas de bem, uma minoria, parece. Por qual motivo a comoção quando 16 discípulos do Capiroto são desencarnados e mandados para suas valas no inferno? Sete policiais foram mortos em 2023, apenas na Baixa Santista, veja aqui. Isso tem nome: chacina. Estamos perdendo para o crime. Faz tempo, aliás... certo, NAP?

A Paduca novamente

   O pessoal parece ter se entusiasmado... 😃 vejamos quanto dura... 😕 (risos). Desta vez reuniu-se apenas o núcleo duro, Paulão, Duílio e Carlos, este Enochato, e ofereci duas garrafas às cegas. É-me divertido ver as divagações dos bebedores, e notar como elas repetem-se pelas confrarias. "O Carlos não serve vinho Chileno/Sul-americano"... "O Carlos sempre serve um francês"... "O Carlos gosta de vinho com acidez alta"... Enfim, ideário que eventualmente não me descreve bem. Acidez discreta é parte de muitos vinhos, e não há mal nisso. Ela não pode mesmo é faltar... e tal gosto descreve-me bem. Ao fim e ao cabo, o bebedor deve analisar o vinho ao bebê-lo, sem levar em conta quem o serve. O vinho pelo vinho...

Servi um, e deixei a turma solta. Duílio foi o primeiro a invocar um ditado, e recusou-se a aceitar sua própria sua intuição. No final, ainda saiu-se com esta: "Se não fosse servido pelo Carlos, diria ser um Cabernet chileno". 😂 Era... Ainda, é possível o Paulão ter dito do segundo ser francês, depois reformou para português. No Chile, cansei de beber vinho à temperatura ambiente em restaurantes e mesmo nas festas do Nagib. Como não faço isso há quase uns 20 anos - quando já passara dos primeiros passos do Aprendizado - de fato não me tocara como a temperatura pode influenciar na acidez. Ria, mas não considerei o assunto a sério em passado recente, e isso caiu-me quase como uma revelação. Donna Maria Cabernet Sauvignon 2016 é produzido pela Viña Falernia, com uvas do Vale de Elqui. Seu CS é monovarietal, e passa 6 meses em barrica; a ficha técnica traz a recomendação de servir a 18 °C - aí gostei. Desde o início chamei atenção dos convivas para a presença bem pegada de Tabasco, e uma indelével picada na ponta da língua. Como apreciadores convencionais, eles ainda não pegaram esse traquejo, e deixaram passar, mas a percepção do Duílio mostrou como eles estão no caminho certo. Nariz com fruta vermelha além da especiaria, e na boca os taninos estavam redondos. Envelheceu bem. A madeira apresentou-se integrada, e os 14,5° de álcool não agrediram. A acidez baixa deixou alguma marca, e final estava discreto. Don Flavitxo apresentou-me o vinho há muito tempo (5 anos+). Queixou-se de custar caro aqui, R$ 200tão+ à época. Trouxe de lá esta safra 2016 (acho que em '17, ou '18). Paguei 10 Luca, o que então daria uns R$ 60tão. Custava o mesmo que um Tarapacá Etiqueta Negra; não é mais vendido aqui, e também não encontrei à venda no Chile. Cedro do Noval 2016 é um Duriense já referido no blog algumas vezes. Chegou ao nariz com muita fruta, alegre e uma picadinha de especiaria; boca com taninos redondos, álcool discreto, corpo médio, acidez presente, e isso o diferenciou crucialmente de D. Maria. Tem retrogosto e é mais persistente. Ganhou por meio corpo (risos), embora os convivas tenham preferido a presença marcante da Cabernet e deixando de lado a melhor acidez do Cedrinho. O problema é que Cedro custa cerca de USD 10,00 em Portugal, contra USD 20,00 de D. Maria no Chile. Voltando aos confrades, o ponto de vista deles é compreensível; estão trilhando os primeiros passos em direção a europeus de maneira geral, podem apreciar o que lhes agrada mas falta-lhes maturidade para uma análise mais técnica. Lembra da postagem passada, quando comentei um pouco sobre as perspectivas da turma com relação ao vinho? É isso: cada qual na sua, sem cobranças nem julgamentos por parte deste Enochato. Sempre repetindo, bebo de tudo, e com todos. Saúde!