Friday, January 2, 2026

Paduquices de aniversário e desejos de um feliz ano novo

Introito

Poucas vezes a ignorância é uma dádiva. 
Na maioria delas, é fonte da suprema vergonha.
Oenochato

   Esquerdopatas continuam a ruminar injúrias contra bolsonéscio - houve um breve momento quando pararam a comemorar sua merecida prisão (se legal, trata-se de juízo que não é comigo). Diretopatas queixam-se do STF, das manobras do governo na Câmara e Senado (onde ele não é maioria) e tentam trazer o provo às ruas, com resultados sempre pífios. Menos em seu ideário, funcionando a serviço de devaneios flagrantes: - Apenas mais 72 horas, patriotas! Ao fim e ao cabo são duas turbas ignaras lutando entre si e em um obsceno todos contra todos, onde quem perde são as classes média e abaixo - uns 80% da população. Com seu QI de galinha cada lado limpa-se na sujeira do outro, crendo piamente em memes metodicamente planejados para confundir cada vez mais seus cérebros já injetados por narcose ideológica prolongada e onde o pensamento crítico foi substituído por reflexos pavlovianos de indignação seletiva. Todos têm suas certezas e ninguém se envergonha. Mas deixam passar despercebidos como seus governantes foram os piores da estória desse país.

Outra no aniversário

A Paduca reuniu-se em meu níver enxertada por Don Flavitxo. Para meu desespero só encontrei a garrafa do branco, o Fósil Chardonnay 2017 da Zuccardi, ofertado pelo visitante e servido às cegas. Tive uma clara estranheza ao provar dele: a mineralidade advinda de solos de calcário de San Pablo estava muito óbvia, mas não se encaixava no meu precário rol de brancos conhecidos. Tinha boa acidez e persistência - não lembro-me bem das notas além de algum cítrico óbvio para esse tipo de vinho. Não era aquela mineralidade chablisiesca como dizem alguns, mas era interessante. Aportou boa expressão, enchendo a boca e promovendo experiência singular para a confraria - principalmente para os colegas noviços nessa seara. O problema - como sempre - fica por conta do preço. Tem sítio argentino enfiando (sic) o valor em dóla 😣 - 92,00 - enquanto outros cobram 95.000 Pesos - R$ 560,00. Não procurei com muito afinco - e pouco conheço, também - mas por valor similar (USD 99,00) compra-se um Comtes Lafon Les Duresses da excelente safra de 2020. Um Premier Cru de quem é considerado apenas um dos melhores produtores de brancos do mundo. Provei um Villages dele, que é simples, e achei muito bom. Fósil mal competiria com ele (não no quesito mineralidade, onde ganharia, mas essa é apenas uma das características de um vinho, e ter mais não significa ser melhor), imagine disputar com outro um degrau acima. Certo, a comparação entre um vinho chablisiesco contra um Borgonha da gema (sic) pode parecer desproporcional, mas estamos falando de preço! Porque, preço por preço, por 70 dólas (na média) dá pra pegar um La Chablisienne Grand Cru Les Preuses, e não dá pra Fósil não... Quer dizer (sic): a 90 dólas ele está cercado de um lado por Borgonhas Premier Cru, e por outro de Chablis Grand Cru. Acho ótimo quando tolos preferem o primeiro aos demais; é como bolsonéscios e lulaslelés imersos em sua imbecilidade mais profunda escolhendo tão errado quanto a burrice permite. Vibro, porque sobra um pouco dos últimos para mim... Aqui Fósil está entre milão (sic) e R$ 1.360,00, se não for 'confrade', ou R$ 850,00 e R$ 1.150,00 se for cidadão de primeira categoria, digo, membro de clube (rs). O preço-confrade está próximo a 2x, o que indicaria uma boa compra. Indicaria... se não fosse uma montanha de dinheiro por um vinho que seguramente não se aproxima dos citados.

   Quanto aos tintos, foi tudo planejado. Até o convite a Don Flavitxo foi motivado a uma brincadeira de muito tempo atrás. Vinhos às cegas, paduquentos batendo cabeça, Flavitxo nadando de braçada. Ele identificou bem a procedência (Ribeira del Duero) do Pagos de Capellanes Joven 2019 - já degustado pelos confrades - e vibrou logo ao cafungar a primeira taça do El Nogal 2015: tinha a elegância discreta dos grandes vinhos quando estes não querem ser espalhafatosos. Notem: são ambos vinhos do mesmo produtor. O Joven é o mais simples e El Nogal está na linha ícone, composta, em ordem crescente, pelo próprio, pelo Doroteo e finalmente pelo El Picón. Ambos são Tempranillo, e enquanto o primeiro apresentou-se mais direto na fruta, alegre, boa pegada, acidez bem presente, o segundo expressava notas delicadas em espectro muito mais largo, indo da fruta ao herbáceo, com muitos toques entre um e outro ponto. Tem ótima boca, vibrante, adorável, também com muita fruta, especiaria, chocolate/fumo (qual?) e uma mistura que confundiu a percepção deste enólatra. Ótimo final de boca e persistência, com madeira e álcool integrados à boa acidez, e não precisa de mais (rs). Pagos de Capellanes tem representação repartida entre Grand Cru e Enoeventos. A segunda tem de momento apenas o Joven, de R$ 319,00 por R$ 217,55/R$ 229,00 (Enoclube/Cidadãos de segunda categoria - rs). Na primeira, R$ 280,42/R$ 329,90 (Confrade/Cidadãos de segunda). Encontra-se na Espanha por cerca de 15,00€ (R$ 96,00, sem contar IOF), então está mais de 2x em Enoeventos e 3x em Grand Cru. Quem comprou quando o preço era menor, comprou. Quem não comprou (sugestão), procure outro.

   A última garrafa, também às cegas, causou furor e justificou plenamente meu brinde: Meus caros confrades, conheçam a opulência e regozijem-se com ela! Novamente Flavitxo não teve dificuldade em notar o Riojano, enquanto os Paduquentos perdiam-se em considerações diversas. Já havia provado um Remirez de Ganuza Reserva da excelente safra 1998, e o degustado, da grandiosa safra 2005 também estava rico e em nível superior ao Nogal: avalanche de frutas para atordoar, madeira, pimenta e mais complexidade - fumo, e não só. Demonstra seu comprimento em boca: largo, profundo, aquela persistência que depois de engolir e salivar notamos como ele continua lá. Acidez média a alta, taninos pegados mas já devidamente arredondados, sem saliências: sofisticação aliada à personalidade. Na hora de comentar sobre ele para os confrades Duílio e Paulão, cometi um excesso: classifiquei como um dos 5 melhores da Espanha. Nem conheço tanto os ícones espanhóis para poder sugerir isso, e foi mesmo um ato falho. Remirez de Ganuza pode estar entre os 5% grandes produtores da Espanha, mas colocar seu Reserva entre os 5 vinhos excepcionais da Espanha não é são. De qualquer maneira teve bão, e agradeço aos confrades pela presença.

Passagem de ano

Passei a virada com meu fiel escudeiro, o Lemão. Sempre amedrontado pelos fogos - foram mínimos este ano, graças à chuva - nossos cães sofrem com a atitude pouco inteligente de alguns queimando dinheiro para fazer barulho. Bem... compramos os vinhos que compramos - procedência (sul americanos) e preço -; votamos em quem votamos e seguimos nas redes quem seguimos. Está explicado. E reputo não haver solidão quando se tem um ótimo vinho por parceiro de mesa, pois cada gole preenche o espaço que o momento esvaziou de companhias e conduz o espírito a um diálogo alegre e contemplativo consigo  mesmo. É quando a máxima de o vinho pelo vinho adquire seu significado mais profundo e arrebatador. De qualquer maneira fica meu agradecimento pelos mais de 10 convites para cear, vindos de confrades de todos os cantos da cidade e a Tia Ana chamando-me carinhosamente para sua mesa. Depois de tudo isso só faltava abrir um Concha y Toro Reservado e um espumante nacional para celebrar o momento. Qual! Ferrari Maximum Blanc de Blancs é um espumante italiano da região de Trentino-Alto Adige, produzido com Chardonnay que expressa toques cítricos misturados com frutas brancas e um discreto fermento/pão. O corpo um 'médio+' faz a entrada de boca agradável, enchendo o paladar com bolhas delicadas, discretas, aportando fruta branca e cítrica, boa acidez e final longo. Não sou especialista em espumantes, mas não apostaria um centavo em qualquer exemplar nacional contra ele. O melhor já degustado por mim é o Casa Valduga 130. Se fosse uma disputa de 100 metros rasos, chegaria 130 metros atrás. 

Algumas Malucas apareceram um pouco depois da meia noite, vindas de um jantar - o Mário entre elas. Mas ele e Débora não entraram, apenas a Liu, que flagrou-me na foto ao lado enquanto apreciávamos um  Barolo do Domenico Clerico, o Ciabot Mentin Ginestra 2001. Ginestra é uma  MGA, Menzione Geografica Aggiuntiva, coisa mais ou menos recente no Piemonte - o Consórcio de Barolo classifou 181 áreas como MGA em 2010. E o produtor pertence ao grupo de jovens (nos anos 80) que ficou conhecido como Barolo Boys - veja o filme - modernos produtores que causaram uma reviravolta de costumes na região. A questão é muito polêmica (o filme comenta e explica), e não entrarei nesse mérito. Termino a postagem hoje, dia 2, por falta de internet ontem. Aberto no dia 31, ele continua grandioso, talvez seja seu melhor momento. Esbanja fruta, couro, fumo e um herbáceo agradável. Em boca leva à prisão da alma num daqueles cumes dignos da melhor paisagem de cinema, com taninos já domados, redondos, elegantes... fruta vermelha, sem dúvida, mas talvez não apenas ela; mentol, que me dá a impressão de tridimensionalidade, aquele vinho que enche a boca e dá a sensação de que podemos mastigá-lo; madeira, acidez vibrante, enfim, a estrutura quase perfeita cuja nota 10 não se personifica apenas porque não ouvi música celestial escapando de dentro da taça. Relativamente muito pouco sedimento, uma surpresa para uma garrafa dessa idade. Se meu Natal não foi tão gratificante com o Pavie Decesse, o ano novo extrapolou com Domenico Clerico Ciabot Mentin Ginestra. Por comentário final, é a segunda garrafa degustada. A primeira (não postada) aconteceu quando o blog andava parado, talvez por 2018, algo assim. Mesmo com 17 anos, os taninos estavam verdes, e o conjunto completamente fechado. Barolinhos você talvez possa beber com 10 anos. Já Barolões, abri-los antes de 20 anos é um completo desperdício.

Um feliz 2026 para os leitores que acompanham os altos e baixos do blog, muitos vinhos e muitos momentos feliz! Até a próxima!