Wednesday, July 27, 2016

Mais uma tunga para cima do consumidor desavisado? Estudo de caso

Está difícil voltar a escrever, apesar de ter experimentado algumas joias nesse tempo todo. Mas algumas notícias não podem passar tão a seco. No nosso pujante mercado de vinhos, algum grau de picaretagem é aceitável (é? se acreditou nessa introdução, em que mundo você vive, cara-pálida? E acredita em tudo o que lê?), porque a concorrência é grande. Cada um defende-se e contra-ataca como pode. Vamos analisar um caso.

 A oferta


The Wine offer Premium
Vinhos de alta qualidade com preços imbatíveis

Château Marjosse Rouge 2010
Na compra de 6 garrafas: De R$ 199,00 por R$ 99,50
Na compra de 3 garrafas: De R$ 199,00 por R$ 119,90
Na compra de 1 garrafa:  De R$ 199,00 por R$ 139,00



A safra de 2010 foi uma das melhores do século em Bordeaux, superou todas as expectativas.

No selo ao lado da garrafa, nota-se a pontuação dada por um experiente pontuador do mercado: 90 pontos. Na verdade, parece que o correto é 91 pontos (http://www.wine-searcher.com/wine-47739-2010-chateau-marjosse-bordeaux-france), mas essas informações nunca são precisas.

Quanto custa a oferta "por aí"?


R$ 31,00 na Inglaterra?
R$ 42,00 na Alemanha?
R$ 60,00 nos EUA?
E você nem é obrigado a comprar 6 garrafas de uma vez, podendo diversificar sua adega, se preferir?

Vamos lá, a velha pergunta? Se está a R$ 60,00 nos EUA, quanto custava antes de atravessar o Atlântico? Porque saindo da Europa, a diferença entre a América e o Brasil são alguns pares de milhas náuticas, ou nem isso (gargalhadas!).

Sei de um comerciante que está vendendo na loja dele, lá na França, por R$ 29,45. Ele não deve ter pago tudo isso no vinho, para não vender com prejola... certo?

O preço no país de origem



2010: uma das melhores do século em Bordeaux?

Bem, eu não pesquisei muito. É preciso dar uma change para a caterva, não é mesmo? (rs) Para mim, é necessária e suficiente a tabela de safras da Mistral, disponível aqui, de onde reproduzo pequena parte para alimentar a discussão:


A safra 2010 foi de fato boa (nota 9), mas... inferior à de 2009. Na verdade, olhando para a tabela, apenas as safras 2012, 2007 e 2002 parecem ter ficado abaixo de um padrão médio, apesar de também serem muito boas! O que diferiu a maior parte das safras parecem ter sido meros detalhes!

Um vinho realmente bom para merecer alarde?

Vejamos:

A pontuação - por mais controverso que seja o sistema - ficou muito próxima para diversos avaliadores. Safras premiadas desse vinho foram as de 2012 e 2011, e não a 2010 (vide Awards, logo abaixo do rótolo da garrafa). Além disso, pelas próprias notas de degustação (tasting notes), nota-se que é um vinho bom, o que também é condizente com as pontuações atingidas. Mas... merece tanto alarde? Porque, como é vendido, uma oferta premium de uma das melhores safras do século, deveria ser pelo menos muito boa. Senão, es-pe-ta-cu-lar!

Perguntas que não se calam:

É mesmo um vinho de alta qualidade?
É digno de constar como uma oferta premium?
Seu preço pode ser considerado imbatível?

Bem, falando apenas do preço: no preço regular, para uma garrafa, parece-me tão próximo de imbatível quanto a Voyager encontra-se próxima de Alfa Centauri (uns 10.000 anos de viagem...). Na oferta premium, custa o dobro que pagaríamos nos EUA. E quatro vezes mais caro do que pagaríamos na França.

Next!

Tuesday, August 25, 2015

Clemente é um bom camarada

A região de Chianti Classico

   Genericamente falando, Chianti está situada na Toscana, que por sua vez faz parte da Itália Central. Chiani Classico (assim, sem acento) é o cerne dessa DOCG, produzindo 1/3 dos vinhos da denominação. Originalmente, era um corte de Sangiovese, Canaiolo, Mammolo e Colorino (o que quer que seja isso - rs), e remonta ao Século XIX. Uma revisão de 1990 permitiu tanto a produção de Chiantis com 100% de Sangiovese como ainda aceitou a introdução de cepas internacionais na região (Cabernet Sauvignon e Merlot). Era o começo da produção dos Supertoscanos. Isso aconteceu pela dificuldade em produzir-se vinhos mais redondos com a Sangiovese, o que foi conseguido mais facilmente pela adição de pequenas quantidades dessas uvas como corte. É claro que bons produtores não precisam desse recurso... mas eu arriscaria dizer que ele é útil quando as condições de uma dada safra não ajudam tanto. De qualquer maneira, desde então existem aqueles que reclamam da perda da regionalidade do vinho, e há aqueles que aprovam essa certa internacionalização.

Uma curiosidade sobre Chianti

   Como o leitor deve saber, a unificação italiana aconteceu já tarde, no meio do Século XIX. Pequenos reinos consideravam-se estados independentes, e escaramuças políticas eram frequentes. Uma delas aconteceu entre Florença e Siena, que disputavam terras e a primazia sobre o nome Chianti. Acordou-se que uma corrida de cavalos resolveria a delimitação das fronteiras e a primazia sobre a denominação. Ao cantar do galo, em cada cidade, um cavaleiro sairia em disparada por cada ponta de uma estrada que ligava as cidades, e o encontro de ambos demarcaria o limite entre as regiões. Imagino que emissários de cada cidade foi recebida na outra, para conferir a saída do cavaleiro.
   Assim, os líderes de Siena escolheram um galo vistoso, novo e bem alimentado, enquanto os florentinos - gosto de pensar que inspirados por Leonardo da Vinci (rs) - escolheram um galo preto, raquítico e mal alimentado. Com fome, o galo de Florença acordou mais cedo e, a seu primeiro canto, o cavaleiro florentino disparou, encontrando-se com o outro cavaleiro praticamente às portas de Siena. Assim, Florença conquistou um território muito maior e tambem o direito sobre o uso do nome Chianti. Como uma espécie de agradecimento, o galo negro estampa todas as garrafas da região.

Castelli del Greve Pesa

A Cooperativa de Castelli del Greve Pesa reune 18 vinicultores espalhados pelas colinas da zona Chianti Classico com a missão de preservar a antiga tradição da viticultura toscana produzindo vinhos de boa qualidade por meio da seleção cuidadosa das uvas e sob estrita obediência às regras do Consórcio Gallo Nero - aquele mesmo da estória pouco acima. Portanto, produzem uma extensa gama de vinhos, indo do branco ao tinto, passando pela Grappa e pelo Vin Santo. Infelizmente o sítio do produtor não traz informação do porque da escolha dos nomes de seus produtos. Foram degustados em dias diferentes, mas a postagem comentará ambos.

Clemente VII Chianti Classico Riserva 2007: 95% Sangiovese, 5% Merlot,
envelhecido por 36 meses em barricas.
Clemente VII Chianti Classico 2008: 100% Sangiovese, envelhecido por 24 meses em barricas.
Note, em ambos, o selo do galo negro.


   O Clemente VII Chianti Classico Riserva 2007 apresentou-se "reticente" no início, bem herbáceo, e a evolução depois de aberto foi melhor notada somente após a segunda hora. Boa fruta, acidez adequada, taninos presentes e harmonizados. Até o final - mais umas duas horas - continuou a evoluir. Bom final, boa persistência, mas sem assombrar. A impressão é que pode aguentar mais alguns anos, embora esteja pronto para consumo, com aeração adequada.

   O Clemente VII Chianti Classico 2008 foi aberto e decantado por duas horas antes de ser servido. Esteve reticente durante todo o tempo - mais umas três horas! - e só melhorou mais para o final. Fiquei surpreso, pois havia experimentado o Riserva antes, e julguei que este deveria estar mais pronto. Sobraram uns 4 ou 5 dedos, que eu experimentei no dia seguinte tendo conservado em geladeira sem vácuo. Explosão de fruta. Boa acidez, bons taninos, equilíbrio excelente. Surpreendente. Final e persistência igualmente bons, e igualmente sem assombrar. Mas... acho que tivéssemos de somar isso às características de ambos, eles não custariam o que custam...

   Preços: paguei por volta de R$ 115,00 (o Riserva) e R$ 90,00. Os preços em comparação com o exterior estão bastante bons. São vinhos de pontuações consistentes entre alguns avaliadores (89-91 pontos para o Riserva, em diversas safras consecutivas). O leitor pode perguntar: mas "apenas 90 pontos?". Bem, eu já devo ter comentado em outras postagens que algumas avaliações - principalmente espanhóis e argentinos - com certas pontuações 92+ não me pareceram adequadas; o correto seria "reposicioná-las" uns 3 ou 4 degraus abaixo. Ou subir estes Chiantes para 94-95 pontos. Seria o efeito Jay Miller? Esse escândalo arranhou a credibilidade do site erobertparker.com e, em cascata, jogou uma sinistra nuvem de desconfiança sobre os demais avaliadores. Claro que o leitor pode tentar outras alternativas. Por exemplo, confiar em algum produtor de procedência, mas vai precisar da indicação de algum suposto Iniciado Supremo (e pagar pelo serviço de consultoria dele, é lógico).

Diante dos fatos, podemos aclamar:
    Clemente é um bom camarada,
      Clemente é um bom camarada,
          Clemente é um bom camarada...
              Ninguém pode negar!


PS: Leitura posterior apontou que a lenda do Gallo Nero pode remontar, na verdade, ao Século XIII. Veja aqui, na caixa de texto The Black Rooster. No meu texto perdeu-se a inspiração de Leonardo, mas a imagem continua bela.

Friday, August 21, 2015

Traquinagens de um leitor anônimo acerca da postagem "Fattoria di Travalda 2010: Contraponto"

   Vou afrontar o raro leitor com a discussão em que entrei com um leitor anônimo acerca da postagem supracitada, onde comento o preço do produto ofertado, o marketing envolvido e o custo do mesmo lá fora. Em resumo, é um vinho de 10 Euros vendido, na promotion (sic) a R$ 149,00. Vejamos o que ele escreveu primeiramente:
Você deveria abrir uma loja ou importadora para sentir na pele o que é ter uma. As coisas não são tão simples como você imagina. Quer comprar meu estoque encalhado, que paguei à vista?
   Ponderei que ele havia aberto uma importadora, que é um negócio de risco - como aliás qualquer outro negócio - por conta própria. Ninguém o havia obrigado a isso. Ele disse que eu fazia suposições erradas acerca de sua identidade. Minha presunção acerca da identidade (ser importador) tinha certa base lógica, afinal, dizer da necessidade de ter-se uma importadora para sentir na pele os problemas, e afirmar ter estoque encalhado, sugeriam fortemente tratar-se de alguém do ramo. Afinal, quem mais teria estoque encalhado? Bem, a ficha caiu logo: não um importador, mas um lojista. Trocamos  alguns insultos (rs) que o leitor pode acompanhar na área de comentários da postagem, e sua última postagem está abaixo, que eu vou responder por precisar "provar" alguns pontos através de imagens, o que não consigo fazer nos comentários. Ele disse:
Xabec? Que vinho é este? O Sr. acredita mesmo no Parker e sua equipe, não? Compra e bebe pontos, não vinhos. O Sr. conhece mesmo pessoalmente as importadoras que cita desta tabela e site que eu desconheço? Já visitou o depósito de alguma? Duvido. E por que acha que eu tenho uma importadora? Eu estou sim defendendo aqueles que sofrem com as dificuldades empresariais em nosso país.
Sugiro que o Sr. beba mais vinho de procedência, conheça os produtores pessoalmente, visite as vinícolas, em vez de beber pontos. Tente se divertir. Sou capaz de apostar que nunca colocou vossos pés em um vinhedo, ou entrou em uma área de produção de vinhos.
Saudações

   Vamos por partes.

  •    Xabec? Que vinho é este? O Sr. acredita mesmo no Parker e sua equipe, não?

O infeliz pergunta que vinho é este? como se o desconhecesse, mas cita que tem uma pontuação do Parker. Bem, parece que para esse pessoal que não dorme à noite porque o Parker simplesmente existe, um dublê de colunista como este sequer pode comentar a pontuação Parkeriana para alguns vinhos. E olha que na postagem (está aqui) eu sequer concordo com ela! Ou seja, o leitor anônimo nega-me o direito de concordar ou discortar (no caso, discordar) do Parker e critica-me por "acreditar no Parker"... sem ter lido o que eu escrevi! Beleza, heim?


  • Compra e bebe pontos, não vinhos

Essa é a máxima de todos os otários que criticam os avaliadores de maneira geral e aqueles que compram qualquer vinho avaliado. Se esquecem que os vinhos são avaliados, em sua maioria, à relevia dos produtores! Mas, para eles, avaliar é proibido. Um vinho é uma obra de arte em si; você compra e aprecia. Apenas aprecia! Criticar (no sentido de avaliar) não pode. Cadê a liberdade? Caro leitor anônimo: compro e bebo pontos sim senhor, compro e bebo vinhos sim senhor, e compro e bebo "não-pontos". Significa que compro (ou bebo, com os confrades) vinhos que não necessariamente tenham boas avaliações. Veja esse Brunelinho aí, cuja postagem está aqui:
Recebeu 87 (oitenta e sete) pontos do Parker. Eu não mencionei isso na postagem, mas pelos comentários fica claro que gostei muito.


  •  Por que acha que eu tenho uma importadora? Eu estou sim defendendo aqueles que sofrem com as dificuldades empresariais em nosso país. 

O porque de achar que o sujeito tem uma importadora (primeira opção que aventei) foi pela própria menção ao encalhe. Se tem um encalhe, ou é importador ou é lojista - que aventei no início da postagem, como segunda opção. Agora vamos lá: o leitor anônimo defende aqueles que sofrem com as dificuldades empresariais em nosso país. Ah, vá?! Então defende todo mundo, porque ninguém está livre dos encargos excessivos, dos novos impostos que afloram a cada crise ou da bagunça fiscal que é nossa legislação. Ademais, aqueles que operam em margens razoáveis sofrem as mesmas dificuldades daqueles que operam em margens pornográficas! Para mim, então, a diferença de margem tão díspar entre importadoras explica-se por pelo menos um dos motivos (pode ser uma conjugação): inefável apetite por dinheiro ou espetacular exemplo de baixa eficiência ou mesmo incompetência na gestão empresarial. No Brasil a má gestão ainda é possível, enquanto no "mundo civilizado", já teria falido; a concorrência é grande e má gestão enterra qualquer empresa. Aqui, os importadores aproveitam-se de consumidores desavisados para (tentar) cobrar o quanto querem por seus produtos.


  • Sugiro que o Sr. beba mais vinho de procedência, conheça os produtores pessoalmente, visite as vinícolas, em vez de beber pontos.
Vinho de procedência... não é, este mesmo, apenas outro sistema de avaliação? Com o grave inconveniente de ter absolutamente nenhuma transparência. Parece ser assim: o Iniciado Supremo diz qual é o vinho de procedência e o consumidor compra, quieto, às cegas. Qual a diferença de comprar às cegas, somente, sem a recomendação do Iniciado Supremo? Claro a diferença é o próprio Iniciado Supremo (risos!), que no final parece servir apenas para nos cobrar os tubos pela sua sapiência.. Como alternativa, prefiro o sistema de pontuação, sem dúvida nenhuma.
O duro é que nosso leitor anônimo menciona nas suas postagens iniciais sobre mim que "objetividade não é o seu forte". É aí que fica patético. Mas olha, a sugestão em si não é tão ruim. Só falta dizer onde eu arrumo uma "entrada de dólares", preferencialmente em notas de 100, para manter minha taça cheia de... "vinhos de procedência". E afinal, se os vinhos dali de cima não são de procedência (ele deveria ter lido minhas postagens antes de sugerir isso, né?), fica a pergunta: quais seriam, então? Os vinhos caros que ele vende? Permita-me dizer: eu posso beber vinhos de procedência, conforme sugerido. Mas não aqueles comercializados com margens abusivas. Envie-me sugestões de boas compras de verdade, que eu terei prazer em experimentar.

Conhecer os produtores? Isso é tarefa do importador, e do lojista, não do consumidor final. O argumento é fraco por definição. Mas vamos lá, apesar de não ser fácil manter contato com produtores quando se mora no interior:

Com Tomás Roquete, da Qualimpor. Não costumo usar fotos de outros lugares em minhas postagens; a foto acima foi publicada aqui.

Com Giuseppe Albertino, enólogo da Podere Roche Dei Manzoni. Postagem original aqui. Ou seja: o interlocutor não lê as postagens, mas quer opinar e sugerir... o óbvio, nada mais que o óbvio...

Com Pia Ravanal (à minha direita), da Vinã Ravanal.



Como já disse, eu bebo vinhos, eu bebo pontos, e eu bebo "não-pontos". Não preciso seguir sugestões limitantes, por óbvio. Ademais, como pretenso "jornalista" do mundo do vinho, tenho por obrigação opinar sobre; a alternativa é cair no jornalismo marrom ao engolir sugestões daqueles que só bebem... vinhos de procedência.


  • O Sr. conhece mesmo pessoalmente as importadoras que cita desta tabela e site que eu desconheço?

Olhaí a barbaridade  (rs). O "site que eu desconheço" é o Enoeventos, citado na matéria em questão. O infeliz desconhece as fontes que cito, mas quer me criticar assim mesmo. E não estamos falando de um livro raro, de difícil acesso, mas de... um sítio de internet! Ô, cara-pálida, vai se informar antes de entrar na discussão, para não passar por tolo. Enoeventos faz um ótimo trabalho de divulgação de vinhos, abriu uma importadora que trabalha com preços honestos, e os dados acerca da avaliação das margens das importadoras por eles publicados estão à disposição do internauta. Então informe-se. Pare de lutar pelas tralhas, e junte-se aos bons. O pior: cobra-me que conheça todas as importadoras. Algumas parecem-lhe são ser o suficiente. Conheço, por exemplo, a Delacroix. Ligue lá, converse com o senhor Daniel. Diga-lhe meu nome e fale da cidade onde moro (todos esses dados estão disponíveis no meu perfil). O telefone deles é 11 3097 8917. Ele vai confirmar que conheço a loja e o estoque.


  • Sou capaz de apostar que nunca colocou vossos pés em um vinhedo, ou entrou em uma área de produção de vinhos.

Bem, vamos lá:
Na vinícola Aurora. Sim, a data da foto está correta, foi em 2.000. Espero que o senhor saiba reconhecer um tonel de 6.000 litros.


Em um dos vinhedos da Concha y Toro, e na cave onde matura o Casillero del Diablo.

Na Viña Ravanal, onde ocorre a fermentação em tonéis de inox.

Tenho ainda fotos na Cousino Macul, na Santa Rita, na Santa Carolina e na própria Ravanal, em meio aos vinhedos e na área de produção dessas vinículas e outras na Argentina. Questão de procurar. E haja paciência para tirar fotos de fotos, conforme mostra a seleção abaixo, com intuito de certificá-lo de que são fotos mesmo. Pensando bem, não é questão de procurar; não farei isso. Acho que vosso ledo engano está mais do que demonstrado.




  • Tente se divertir.

   Do meu jeito, pode ser? Ou tem que ser do seu, sem a liberdade de escolher meus vinhos, pontuados ou não?
   Ah, em tempo:
Chile: país lindo, de mulheres maravilhosas. Acho que eu sei me divertir. De fato não preciso dessa sugestão, por mais cheia de boas intenções.

Como é que se diz, mesmo?

Enoabraços, do
Enochato sem galochas

Thursday, August 20, 2015

Maipo vs. Ribera: um confronto desigual

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Introito

   O Vale do Maipo está localizado na região central do Chile, próximo a Santiago. Tem uma longa tradição na produção de vinhos de reconhecida qualidade para o padrão chileno, especialmente quando falamos em Cabernet Sauvignon. Dentre os produtores, destacam-se De Martino, Haras de Pirque, Cousino Macul, Chadwick, Undurraga, Aquitania, Concha y Toro e outros tantos. A prevalência da CS é tamanha que alguns chamam a região de "Bordaux Sul Americana".
   Ribera del Duero é uma Denominação de Origem (ou DO, o equivalente a uma DOC francesa) de Castilla y León, no Reino de España. Fica no noroeste do país, mais ou menos equidistante das fronteiras de Portugal e da França, é cortada pelo rio Duero e tem na cepa Tinta del País seu carro chefe. Essa cepa também é conhecida por outros nomes: Tinta de Toro, Tinto Fino, Aragones, Cencibel e... Tempranillo!
   E mandou o destino que o Roger, adorador de Carmenères e Riojas, viesse me visitar. Só não pergunte o eventual leitor o que Carmenère tem a ver com Maipo, nem Rioja com Ribeira. É claro, ao rever um amigo de tanto tempo, minha intenção foi a melhor possível...

Os contendedores

Viña El Principal - Memórias 2009. 74% Cabernet Sauvignon, 13% Carmènere, 8% Petit Verdot e 5% Cabernet Franc, com envelhecimento de 15 meses em carvalho francês. Seu buquê revela pimenta em demasia quando aberto, e ela não amansa com o passar das horas. Na boca, a pimenta também está presente (em quantidade menor) e sobra um pouco de álcool, e isso não colabora para termos um vinho redondo. Ainda assim, bons taninos e bom final, com retrogosto algo doce. No dia seguinte a pimenta foi devidamente domada; havia aparecido um buquê mais floral, e algo como chocolate (café? - rs!). Foi guardado em vácuo, e mesmo alguns dias depois continuou agradável e arredondou mais. Mas para beber "na hora" a pimenta torna o menino um pouco descalibrado.

Bodegas Aalto - Aalto 2008. 100% Tinto Fino (ou Tempranillo...), envelhecido por 23 meses em barricas de carvalho francês. No nariz, ótima fruta e algo torrado no fundo, que não pude discernir. Na boca, integração excelente entre tanino e madeira, álcool não aparecendo, e boa acidez. Uma boa combinação de potência e maciez deixam seu final e persistência realmente longos. Se AAlto tivesse um nome do meio (rs), ele seria Elegante. Eu já havia experimentado o Aalto PS, que é superlativo (veja aqui). Este irmão menor não pode ser comparado com aquele, mas justifica a fama de seu criador, Mariano García, enólogo chefe da Vega Sicilia por 30 anos (1968-1998), que deixou o emprego para fundar a Bodegas Aalto em 1999.

Os preços

   Lembro-me de ter pago meros USD 45,00 pelo Aalto, há alguns anos. Hoje custa por volta de USD 60,00. Memórias custou-me 21 "Luca" no Chile, o que dá cerca de USD 42,00. Aí não dá. Se você só tem 42,00 no bolso, e quer beber um vinho, e quer gastar tudo e tem poucas opções (está no Chile, por exemplo), então pode ficar com Memórias. Por outro lado, se você tem opções e está disposto a comprar um vinho legal, e pensa em gastar 40 dólares, então vale a velha máxima: quem tem 40,00 pode gastar 60,00. A diferença em moeda pode ser de 50%, mas em qualidade ela é des-pro-por-cio-nal. Assim mesmo, soletranto sílaba a sílaba. Infelizmente, é mais uma constatação de que os vinhos chilenos estão sobreprecificados, tanto lá (no Chile) quanto cá.
   No Brasil, o Aalto custa na faixa de R$ 390,00, e o Memórias cerca de R$ 190,00. Aí não dá de novo! Bem, a importadora do Aalto não está nas melhores posições naquela tabelinha clássica do Enoeventos (ocupa o décimo quinto lugar). Por outro lado, Memórias está com a Decanter, e esta sim ocupa bom lugar na referida tabela (quarto lugar!). Como está, comprar Aalto é difícil, e para gastar R$ 190,00 em um chileno... temos opções bem melhores, inclusive na própria Decanter, como o Kilikanoon Medley. E ainda tem tolo por aí pensando que a importadora não faz diferença.

Saturday, August 1, 2015

Fattoria di Travalda 2010: Contraponto

"Custaria facilmente mais de 200 reais se fosse importado por outra empresa",
diz o departamento de marketing... mas...

Poderia custar até R$ 100,00, 
se fosse importado por alguma outra, diz o Enochato



Vejamos: pela tabela abaixo (fonte: Evnoeventos),


  • Na margem média da Cellar, o custo seria algo como 9,50 x 1,62 (margem da Cellar) x 3,76 (cotação do Euro) = R$ 57,87! 
  • Tomando a margem da Delacroix, 9,50 x 1,71 x 3,76 = R$ 61,10.
  • Tomando a margem da Casa Flora, 9,50 x 2.1 x 3,76 = R$ 75,01.

Tá, precisarei fazer contas atá amanhã ou o amigo leitor já entendeu? Aposto que entendeu...

Sunday, May 24, 2015

Biodinamismo

Estava lendo o BaccoeBocca, e encontrei a postagem a respeito de vinhos biodinâmicos do dia 7 de maio. Vale a pena ler. Curioso, fui procurar o trabalho citado, e não demorei muito a encontrá-lo. De fato, o abstract diz:

Wines produced from biodynamically grown grapes have received increasing attention. Similar to organic agriculture, biodynamics eliminates synthetic chemical fertilizers and pesticides. The primary difference between the two farming systems is that biodynamics uses a series of soil and plant amendments, called preparations, said to stimulate the soil and enhance plant health and quality of produce. Whether these preparations actually augment soil or winegrape quality is unclear and controversial. A long-term, replicated, 4.9-ha study was initiated in 1996 on a commercial Merlot vineyard near Ukiah, California, to investigate the effects of these biodynamic preparations on soil and winegrape quality. The study consisted of two treatments, biodynamic and organic (the control), each replicated four times in a randomized, complete block design. All management practices were the same in all plots, except for the addition of the preparations to the biodynamic treatment. No differences were found in soil quality in the first six years
   O abstract continua por mais algumas linhas, e pode ser encontrado na íntegra aqui.

Nada como a ciência para desmistificar trapaças e enganações. O mundo do vinho (quase já não) esconde muitas outras. O preço final cobrado por algumas importadoras é ponto do qual sempre reclamo. Infelizmente, aqui a ciência não pode ajudar. Mas a tecnologia, sim. O leitor interessado pode valer-se de ferramentas como a wine-searcher, e procurar saber o preço do produto "lá fora" (procure nos EUA) e quanto pedem por ele aqui. Se estiver acima de duas vezes, está claro o abuso. Diversas importadoras trabalham nessa margem (inferior ao dobro). Eu dou preferência a elas. E não vou conseguir beber todos os vinhos delas, ainda que não repetisse nenhum... Principalmente em tempo de crise econômica como a que vivemos, boas compras podem dar ainda mais prazer à degustação.

Tuesday, February 17, 2015

Folias de Carnaval 1: Sophenia branco 2012 e Crasto Douro 2009

   Por ocasião do convite de um casal de amigos - o Paulão e a Claudinha -, acabei indo conhecer um restaurante de comida japonesa. Todos dizem que harmonizar essa iguaria em particular é muito difícil, então... nada como uma experimetação sem compromisso. Como havia comprado algo da queima da World Wine - sim, tem algumas coisas lá que valem a pena nem que seja para experimentar - resolvi escolher um branco. E tinha na adega um Crasto me olhando com cara amarrada desde que comecei a falar que os vinhos da Qualimpor estão muito caros no nosso mercado. A, é? Pau nele, então. Assim, marcharam impávidos para o sacrifício:
Sophenia 2 Torrontés - Sauvignon Blanc 2012,
• Crasto Douro 2009.


O primeiro é produzido pela Finca Sophenia, em Mendoza. O corte leva uma relação 60%-40% (a primeira cepa sempre é a que está em maior quantidade em um corte). Estava na promoção por algo como "de R$ 50,00+" por "R$ 29,00". Pelo preço da promoção, é apenas um vinho razoável. Bastante floral e boa acidez, o que não lhe permite um final muito melhor do que "ligeiro". Note-se: é um pouco melhor do que isso, apenas. Não é um vinho que encha a boca, e o retrogosto também é um predicativo. Justifica o preço de R$ 29,00; por "R$ 50,00+", não. Já ouvi comentários de que os tintos desse produtor são bons, mas pelo preço pedido pela importadora, vou tentar outros rótulos.

O segundo é-me bastante conhecido, e já perdi a conta das garrafas de Flor de Crasto e Crasto que degustei ao longo dos últimos anos. Eram vinhos de preços bem razoáveis até as últimas altas - não foi apenas uma, os preços desses vinhos enfrentaram uma escalada relativamente recente.  Eu já comentei que a Qualimpor era - era - uma importadora que praticava margens relativamente baixas em seus produtos, mas isso tem mudado, infelizmente. Bem, o Crasto 2009 foi produzido com as tradicionais Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Franca e Touriga Nacional, em corte não especificado, mas bem explicado: com o tempo, perdeu-se a informação das cepas que estão misturadas no vinhedo e não é possível saber qual é sua proporção. Não passa em carvalho, e a fruta fica bem evidente. Ainda estava lá, depois de todo esse tempo. Com a aeração apareceu um pouco de chocolate (café?), o que deu um toque de agradável surpresa. A acidez estava presente, mas o conjunto denuncia que sua hora foi apropriada. Mais um pouco e estaria descendo a ladeira.

A harmonização? Não  funcionou em nenhum momento. O Sophenia 2 pode ser um vinho de piscina, no dizer de alguns. Para mim, é conversa mole para justificar a existência de produto de terceira. Vinho bom é vinho bom; o resto, tá, podem chamar de vinho de piscina. E Sophenia 2 é um desses. O Crasto, por ser um vinho de corpo médio, eu sabia que não iria comprometer a comida japonesa. Mas também não ajudou. Conclusão: havia comida, havia bebida, mas elas não se completaram, não encheram a boca da forma 2 + 2 = 6, se o leitor me entende. Resolvi que não precisaria gastar mais fôlego falando de outras características dos vinhos (graduação, estória dos produtores, etc).