Wednesday, February 6, 2013

Meu primeiro Valisére

   Quando meus detratores julgavam o blog morto, acabado e enterrado, ele ressurge das cinzas! (risos). Esta é para os que vão adentrados nos 40 relembrarem a adolescência: http://www.youtube.com/watch?v=gvk6LeLYEz4. Acho que é a propaganda mais criativa do Washington Olivetto, que tratou do tema ainda nos anos 80. Uma demonstração de como um assunto que poderia ser constrangedor foi tratado com engenho e arte, colocando a delicadeza acima de tudo. Assim, o título desta postagem bem que poderia ser O primeiro Borgonha, a gente nunca esquece.

   Do começo: domingo (3 de fevereiro), por conta do pré-aniversário do Akira abrimos um Evodia 2010, vinho eu eu comprei no dia da inauguração da Casa Deliza em S. Carlos, ainda em 2012. Vinho espanhol, 100% Garnacha, de vinhedos centenários da região de Calatayud, uma DO na província de Zaragoza, na comunidade autônoma de Aragón. Lá perto da França, portanto. É produzido pela Bodega San Alejandro, uma cooperativa fundada em 1962 e que conta atualmente com cerca de 350 membros, o que torna praticamente impossível encontrar o produtor original se quisermos enviá-lo ao cadafalso. Evodia tem sido bem recebido pela crítica: um vinho de US$ 8,99 que, em sua safra 2011 recebeu notas como 90ST, 89WA e 89RAS. Para este apreciador, muita fruta (negra), o que descaracteriza o vinho. Conforme comentou o Akira, tem-se a impressão de algo que eu mesmo costumo dizer que é "posto com a mão", não sendo característica típica do vinho ou da produção. Ainda na opinião dele, muito doce, daquele tipo "melaço de cana". Eu não percebi, e para meu (no momento) desespero, ele levantou-se e disse que iria à sua casa (mora próximo) pegar um vinho. Voltou em 5 mim, com um  Borgonha, o Cuvée Numero 1 safra 2008, produzido por Dominique Laurent.
Evodia (2010): Garnacha (Grenache), 15% de álcool, bom para iniciantes.
Cuvée Número 1 (2008): Pinot Noir, 13% de álcool, para quem sabe o que quer (eu não sabia que queria!).

   Pelo que me contou o Akira, Dominique é um dos mais conceituados produtores da França, e seus vinhedos ficam na região da Borgonha. Mas parece que quando Dominique Laurent quer, Dominique Laurent faz, de modo que ele compra uvas em Borgonha na condição de négociant (quando não se tem o vinhedos) e produz seus Pinot Noirs em Côte d'Or. Acontece que Dominique compra as uvas em Gevrey-Chambertin, uma pequena comuna que tem o status de Grand Cru. Vale dizer que comuna é o mais baixo nível administrativo da França; deve ser o equivalente a um distrito aqui no Brasil. E, ali perto (Côte d'Or é o department à qual percente Gevrey-Chambertin), Dominique Laurent opera sua magia para produzir um vinho de entrada, o mais básico dos seus Borgonhas, o Cuvée Número 1. Em outras palavras, parece que estamos falando do lixo do luxo...
   Ainda segundo o Akira, a instrução do vendedor foi clara: não decantar (!). Esse tipo de vinho (não sei se todos os Borgonhas) deve ser aberto e consumido ao longo de algumas horas, para que seu potencial de evolução possa ser devidamente apreciado. E, convenhamos, isso não pode ser levado a cabo com meia dúzia de ávidos consumidores ao redor de uma única garrafa. Assim, por volta das 20:30, e até à 1:30, levamos a cabo a tarefa de provar até a última gota desse maravilho exemplar.
   Vou recobrar o parágrafo em que falava do Evodia: o Akira considerou de buquê adocicado, o que não consegui perceber. Essa tarefa é-me difícil sem um vinho "de apoio", que permita a comparação. E o vinho de apoio chegou logo depois. O Evodia expressou toda sua melíflua característica, transmutando-se mesmo em algo enjoativo. Maldita pedra filosofal, esse Borgonha (risos). Após o desmascaramento, comecei a reparar melhor no danado: um rubi translúcido, mesmo com a taça adequadamente preenchida. Apenas 13 graus, o que sugere ótimo potencial para "suquinho". No primeiro momento da abertura, muito fechado no nariz. Com um ou dois minutos, as primeiras notas: fruta agradável, que vai-se pronunciando com o tempo. Aliás, em algum momento pareceu-me ter notas de caramelo. Também apareceu baunilha, mas de leve. Acidez presente, fazendo bom par com taninos leves. Não sou bom nem conheço tanto para fazer um leitor salivar com minha impressão de um vinho, então vai no português livre e tosco: um supra-sumo. Elegante, ótima complexidade de nariz e boca, com final médio e bom retrogosto.
   A minha avaliação dos Pinots sul-americanos sempre foi a de que essa uva não em "cara" na nossa região. Cada vinho que já experimentei não guarda qualquer similaridade com seus irmãos, primos, sobrinhos, etc. O que já ouvira dizer é que isso não se aplica aos Pinots da Borgonha. Como primeira experiência, fico evidentemente prejudicado para opinar. A certeza é de querer mais. São vinhos caros no Brasil. Diz-se que um bom Borgonha começa (co-me-ça) a custar R$ 200,00, como é caso desde 90 Parker Cuvée Número 1. É muito caro, mas encontrei exemplares 95 pontos na faixa de US$ 100,00 no estrangeiro. Levando-se em conta que um "top" chileno custa mais caro em seu país de origem, está bem definida quais serão minhas compras na primeira oportunidade de bem-gastar (sic) meus suados cruzeiros (rs). Você, bebedor de Don Maximiano (já foi meu vinho preferido), Don Melchor, Dons Isso, Dons Aquilo e Dons Docas, preste mais atenção ao redor. Conheço muitos bebedores de vinhos chilenos e argentinos, e mais nada. Não sabem o que estão perdendo. Eu não sabia, também. Mas comecei a descobrir...

Wednesday, January 16, 2013

Três Leonzinhos e um Leão da Montanha

   Ano novo, sacanagens novas. Não foi com outro intuito que tentei reunir a caterva, com êxito apenas parcial: dois faltaram. E assim, perdendo um pouco o timing, comecei a acrescentar mais uma boa intenção ao inferno: queria ter feito esse encontro há mais tempo, para não deixar uma das garrafas envelhecer tanto. Queria...

Merlots

   A Merlot é uma cepa francesa cultivada em quase todo o restante da galáxia, e gera vinhos encorpados, com boa fruta, macio quando devidamente decantado (até onde conheço), e foi coadjuvante no engraçadinho filme Sideways - Entre Umas e Outras (quem não se lembra do final, quando o sujeito retira um Château Petrus de dentro da mochila? Se não me engano, ainda bebe no gargalo...). A Merlot é a estrela na região de Bordeaux, França, de onde saem alguns dos vinhos mais conhecidos (e caros) do mundo, como o próprio Petrus.
   No Chile, durante muito tempo a Merlot foi confundida com a Carmenère, até que esta última foi redescoberta nos vinhedos andinos. Mas a Merlot em si continua sendo bem cultivada, embora não tenha gerado ícones - até onde eu saiba. Alguns exemplares são muito bem avaliados, como o Cuvée Alexandre, da Lapostolle, e o Max Reserva, da Errazuriz, que eu particularmente gosto muito.
   Nos Estados Unidos, a Merlot começou a chamar a atenção na década de 1980, através dos vinhos produzidos em Washington (o estado, não a capital). Na Califórnia, as regiões de Napa e Sonoma geram bons cortes e varietais.
   Passado este intróito, e de olho no título, o leitor já percebeu o que vem por aí. Foram para seus respectivos decantadores três exemplares do Leon de Tarapacá Merlot safras 2004, 2008 e 2010, acompanhados de um Pride Merlot 2006, da Pride Mountain Vineyards. É claro que a ideia nunca passou por comparar uns e outro; antes, foi comparar os uns (sic) entre si, com um tempero do outro.
   Infelizmente o Leon 2004 estava passado. Não estragado, mas já na descendente da curva (e quase lá embaixo - rs). Tão "bebível" quando o Tributo 2005 que comentei aqui. E chegamos ao meu interesse oculto na brincadeira toda: comparar a longevidade desses vinhos, o brasileiro de um lado e o chileno de outro. O Leon 2004, um ano mais antigo, foi aberto seis meses depois que o Tributo 2005. Este um ano e meio faria diferença? Acredito que alguma, mas não o suficiente para trazer o Leon para o lado esquerdo da curva. Ele poderia estar ligeiramente mais bebível, e isso não afetaria o meu julgamento: um empate técnico.
   Não pense o leitor que intento, novamente (e como se não bastasse), falar mal do vinho nacional. Como consumidor, quero apenas abalizar qualidades que, em última instância, nortearão minhas compras. E nesse quesito (falar mal) entra a questão preço. Um Tributo custa entre R$ 25,00 e R$ 40,00, dependendo do estado, mas fiquemos com o preço do sítio do produtor, esquecendo-nos do custo do frete: R$ 21,00. Custo de um Leon de Tarapacá no Chile: R$ 7,00. É nesse momento que preciso invocar o meu bordão:

Pessoal, o imposto é só (sic!) 50%!
Pesquisa de preço de um Leon de Tarapacá no Chile, usando o Wine-Searcher.

   Falando dos outros Tarapacás: estavam bons para consumir, e não enganaram ninguém. Um pouco de pimenta no 2010, o 2008 mostrando alguma fruta e querendo passar por vinho português na abertura, mas também foi desmascarado com alguma evolução. Final curto, bom vinho para dia-a-dia, embora perdendo no preço para portugueses melhores e só um pouco mais caros, como o Cicônia, e talvez até para o famigerado Toro Loco, ou Doido, já não me lembro bem. Taracapás foram os vinhos que mais consumi na vida, mas isso é passado. E, passados os Leonzinhos, que venha o verdadeiro Leão da Montanha.

   Pride Merlot 2006, segundo o sítio do produtor, possui 11% de Cabernet Sauvignon. Complexo, final longo - loooon-gooooo - retrogosto marcante. Eu disse que tinha algo como café - ou chocolate (rs!) - e fui desmentido (gargalhadas), mas segundo as notas do produtor, "Cereja vermelha, framboesa, cacau e notas de alcatrão". Muito redondo, elegante, 14,8% de álcool que não aparecem - mas estavam muitíssimo presentes no momento da abertura. Aliás, o que se notava na abertura era álcool puro; poderia assustar bebedores mais afoitos. Três horas de decantação em temperatura ambiente seguido de 40 minutos na geladeira (tampa do decantador coberta, é claro) fizeram-lhe bem. Para todos ficou evidente que a comparação com os três primeiros não seria possível. E no final ninguém reclamou de ter de passar pelos Taracapás antes...
O Redentor ladeado pelos vendilhões. Ficou assim porque o Endrigo levou uma das garrafas antes da foto.


Thursday, January 3, 2013

Flaherty e Quinta Geração: dois chilenos para começar o ano

De volta aos chilenos

   É, fazia algum tempo que não bebia alguns chilenos "médios" (preço e qualidade). Estava nos extremos, defendendo-me no dia-a-dia com algum básico Leonzinho ou com um Milenium por conta do Natal, e de um Taracapá a outro ia... como é o nome daquele blog mesmo?... decantando a vida.  De repente o Flávio volta da viagem de final de ano e fizemos um bate-copo rápido, juntando também o Akira. Entrei com um Quinta Generación 2007, comprado no Chile por uns módicos R$ 50,00, mais ou menos - daí a liberdade de dizer "médio" no quesito preço - e o Flávio trouxe um Flaherty 2008, que em minhas caminhadas andinas passara despercebido. O sr. Vinhobão já comentou sobre os vinhos e quase esgotou o assunto; a postagem dele está aqui. O que faltou dizer é o que comentarei a seguir.

Quinta Generación 2007, 14% de álcool, e Flaherty 2008, 15% de álcool. Veja comentários no Vinhobão.

   Em primeiro, decantei o Quinta Generación por cerca de duas horas, quando ele deu entrada (sic) no refrigerador para só então começar a resfriar. O Flávio chegou e ele ainda não atingira uma boa temperatura; pegamos apenas uns dedinhos cada. Mesmo com a decantação, a pimenta apresentava sua face mais característica: cheirava a tabasco. Amaciou bem com o tempo - mais uma hora após sair da geladeira. O que os amigos não puderam presenciar foi a degustação do dia seguinte, quando ainda pude experimentar uma taça generosa. O vinho ficou na garrafa, tampado, mas sem vácuo. A pimenta amaciou sobremaneira, e o chocolate apareceu mais. Isso sugere mais decantação para quem não curte a pimenta típica da Carmenère (sob o risco de descaracterizar um pouco o vinho). O interessante é que, mesmo passando mais 16 horas na garrafa, o Quinta Generación sobreviveu, ressaltando bem suas características secundárias.

   Teve bão (sic).

Monday, December 31, 2012

Vistalba: uma bodega argentina

   O Dr. Marcão estava preocupado. Andava de um lado para o outro na aconchegante sala de sua casa; sentava-se e, sem encontrar posição, levanta-se e começava a andar novamente. A um dado momento parou, olhou fixo, suspirou fundo e tomou a decisão. Tomou o telefone, discou com dedos trêmulos e aguardou ansiosamente os toques da chamada. O outro lado atendeu com um "Alô?!".
   - Carlão, é o Marcão. Estou aqui com um Vistalba Corte A 2007 double magnum, e precisamos dar um fim nele logo. Só que a garrafa é grande, precisamos de bastante gente.
   - Marcão, uma double magnum? Isso dá três litros... é, vamos precisar de reforços... devo acionar a caterva?
   - O mais rapidamente possível, conto com você. Só me avise o lugar e o horário.
   Foi assim que, em mais alguns dias, estava reunido o comitê para dar cabo de um vinho que, eu sabia de antemão, prometia ótimos goles. Para tanto, juntaram-se a nós o Ghidelli e o casal-20 (quase casal-30) Endrigo e Vânia, e o 30 ficar por conta do rebento que vem por aí. Sinal de que o casal-20 passará momentaneamente a casal-10, uma vez que apenas o Endrigo poderá manguaçar pelos próximos meses. De qualquer maneira, gente mais do que suficiente para a tarefa. O palco da degola foi a área de eventos da casa do nosso querido casal. Sobre o cordeiro (o vinho, não o prato):

carlospulentawines.com

   Este é o endereço eletrônico da Bodega Vistalba, um projeto iniciado em 2002 por Carlos Pulenta em sua finca situada em Lujan de Cuyo e cuja proposta é dedicar-se, majoritariamente, a vinhos de corte. Ainda são produzidos na bodega bons varietais, um espumante e azeite de oliva. Mas antes, vamos dirimir uma pendência.
   Lujan de Cuyo é um Departamento que fica na porção leste da Província de Mendoza. Portanto, um departamento é uma seção administrativa de segundo nível em uma província. Assim, penso que Lujan de Cuyo possa ser entendida algo como uma appellation d'origine de Mendoza, com vinhedos a uma altitude de 1000 metros e onde a Malbec expressa suas características de maneira quase inigualável, embora outras variedades também produzam bons exemplares de vinhos. Corte A é o vinho premium em uma hierarquia que começa com o Corte C, mais básico, seguido do Corte B. A vinícola produz ainda o Tomero, com suas linhas Clássico, Reserva e Gran Reserva, cada qual com seus mono-varietais (ou seja, vinhos 100% de uma cepa; um varietal simples ainda pode conter uma certa porção de outra cepa - até 15% - sem mencionar esse dado). O Tomero Reserva Pinot Noir 2007 é o melhor Pinot sul-americano que já bebi (embora não tenha bebido Pinots de outros lugares - rs!).
   Vistalba Corte A, safra 2007: 64% de Malbec, 29% de Bonarda e 7% de Cabernet Sauvignon, envelhecido por 18 meses em barricas francesas e outros 12 meses em garrafa, 14,8% de álcool, impõem respeito pela qualidade: boa fruta, cedro e um pouco de chocolate aparecendo com a evolução após a abertura da garrafa; boa acidez, muito redondo, apontando para ótima estrutura. Acompanhado de boa carne, ficou ainda melhor. Seu potencial de guarda é estimado pelo produtor em 20 anos, o que indica termos cometido um infanticídio. Mas ninguém reclamou... valeu pela oportunidade, Marcão!

 Vistalba Corte A, safra 2007: olha o tamanho da "ninina".

PS: o Ghidelli a toda hora reclamava: "É muito vinho" - seu bordão obrigatório em degustações e eventos do tipo. Mas bebeu como todo mundo, e com gosto.

Feliz 2013 a todos.

Sunday, December 30, 2012

Postagem de uma nota só

   Para gáudio dos seguidores, tentarei que esta não seja a última postagem do ano. Da mesma maneira, espero que a nota dada a ela não aproxime-se do título, ficando na marca unitária. Há algum tempo (agosto...), postei sobre um vinho romeno. Agora vai outro. Tanto este exemplar como aquele foi comprado pelo marido da Raquel, um adorador de chás e completo abstêmio, o que salva nosso brilhante companheiro da culpa por comprar um vinho chamado... La Cetate...(!) Lembra O Acetato, não? Ahn... bem, reconheço, este não é um bom começo; dirão que estou de má vontade para com o vinho. Vejamos o rótulo - e vamos dar um desconto, ele está detonado por minha culpa; tratei mal a garrafa, como o leitor poderá acompanhar mais abaixo.

   Como meu romeno não anda muito em dia, deu um trabalho enorme decifrar o rótulo. É claro, não precisamos ser experts para decifrar o tipo da uva. O resto é que são elas... Bem, Crama Oprisor significa Adega Oprisor, e é o produtor deste Pinot. La Cetate (A Cidade) Miracol (Milagre) sugere A Cidade Milagrosa, ou ainda A Fortaleza Milagrosa, e é a "família" destes vinhos, que existem também nas variedades Merlot, Cabernet Sauvignon e Chardonnay, além da Shiraz, embora com rótulo diferente.  A região, Dealurile Olteniei, fica ao sul do país, fronteira com a Sérvia e a Bulgária, e distante do Mar Negro, o que sugere um terroir mais continental.
   Bem, como podemos observar do rótulo, os dois cidadãos (rei e rainha?) nada sugerem de Fortaleza Milagrosa. Assim, fechamos com La Cetate Miracol, Pinot Noir 2009, produzido pela Vinícola Oprisor, 14% de álcool. No nariz, boa fruta, mas curta (sic). Na boca, muito ácido - e não era acetato, o vinho não estava estragado. Desbalanceado, sim. Copo médio, final curto como o nariz. Muito simples, levando-se em conta o preço (cerca de 40 euros).


Miracol La Cetate Pinot Noir 2009: 14% de álcool, e mais nada.
 
   A curiosidade pode ficar por conta do sítio do produtor: outros vinhos com rótulos realmente sui generis (cuidado para não se assustar ou enrubescer com alguns deles).

Tuesday, December 25, 2012

Um post de Natal

   Depois da boa receptividade a algumas resenhas por parte deste dublê de escritor, abro a postagem já mencionando um trabalho literário. Não vou resenhá-lo, apenas recordar o leitor. Um pouco por causa da data, escolhi como título da postagem um que guarda similaridade com o título da obra. Muitos referem-se a Um Conto de Natal querendo dizer A Árvore de Natal na Casa de Cristo, de Dostoiévski. Assim como o Natal acontece todo ano, a humanidade deveria ter esta obra como leitura anual obrigatória; deveria ser lei em todos os países, ou pelo menos nos países sérios. Você, leitor ocasional, que chegou a esta página provavelmente por engano, siga o vínculo acima se estiver com pouco tempo, e deixe a leitura desta postagem para outra hora.

   Para quem voltou da leitura do curto conto de Dostoiévski, começo a rememorar uma conversa ocorrida há muitos anos, e que apenas há pouco começou a fazer sentido. Aproveitava-me da indulgência do Homero, proprietário da Adega Paratodos, em Botucatu, discorrendo sobre quão virtuosos eram os vinhos chilenos que eu costumava a beber: tarapacás (Leons!), reservados (sic) e outros, ao que o bom Homero atalhou com educação: - É verdade, mas se você pegar vinhos em uma faixa de preços mais elevada, verá que os vinhos sul-americanos não competem com os europeus. Minha pequena adega era então quase que só constituída por argentinos e chilenos, mais estes do que daqueles, onde só um eventual Periquita representava o Velho Continente. Confesso que demorei a prestar atenção aos vinhos europeus, primeiro pela impressão de que aquilo que nos chegava no preço dos chilenos citados não agradava, e quando era possível viajar para o Chile, trazia vinhos mais icônicos por preços razoáveis. Com o aumento dos preços no próprio Chile (vários ícones literalmente dobraram de preço em dólar), a atenção começou a recair sobre nosso freeshop, onde o cidadão precisa ficar muito atento para não acabar comprando um produto que custe o mesmo preço que em nossas ruas, e não precisa ir até a Santa Ifigênia para tanto. Foi assim que, mais ou menos na mesma época, acabei trazendo um Tarapacá Milenium 2005 e um Roquette e Cazes 2006. E na noite de Natal, sem ainda ter-me lembrando do Dostoiévski, mandei ambos para o abate.

Tarapacá Milenium: 14° de álcool, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot, 13 meses em barricas francesas.
Roquette e Cazes: 15° de álcool, Touriga Naciona, Tinta Roriz e Touriga Franca, 18 meses em barricas francesas.


   Após decantar ambos por três horas, o Milenium mostrou taninos bem presentes - e não muito domados - bastante madeira, frutas e fumo. Mas a madeira estava por cima de tudo, querendo toda a atenção do degustador. Já provei Etiqueta Negras e Last Editions mais redondos. Final longo, mas sem encantar. Já o Roquette não: pouca madeira, no sentido de melhor integrada ao conjunto, frutas leves e algo lembrando chocolate. Apesar de mais alcoólico, mostrou-se muito mais redondo que o Milenium. Final igualmente longo com muito mais prazer e mais delicadeza. A grande questão, para mim, foi: como, apesar de tanta madeira, o Milenium não "matou" o Roquette? Darei um chute como possível explicação: As vinícolas chilenas têm em média 150 anos, enquanto a Quinta do Crasto está estabelecida desde 1615... tanta experiência deve fazer alguma diferença...

Ótimo descanso neste dia 25 de dezembro, preferencialmente acompanhados de bons goles!

Thursday, December 6, 2012

O Vinho: uma paixão para todos

   Desde o início do blog fiquei me perguntando quando eu começaria a misturar as coisas. Até que resisti bem, mas chegou a hora de juntar minhas duas maiores paixões mundanas: vinhos e livros. Antes, preciso mencionar: para minha surpresa(!), a lista de seguidores vem aumentando. Havia notado anteriormente, mas principalmente a última postagem não era aquela onde gostaria de ter tocado no assunto. Assim, bem-vindos Vitor, Hernani, Ariane e Paulo. Olhem, o blog é feito para minha diversão (risos!), mas para a de vocês também. O Vitor já deixou comentários, e estão todos convidados a tentar (gargalhadas), já que esta ferramenta às vezes complica a vida do internauta. E olhem que deixo tudo "aberto", qualquer comentário é publicado na hora. Se não quiserem escrever, divirtam-se da mesma maneira.

   Assim, esta postagem será dedicada à mais importante fonte de informação de que dispomos, principalmente pela sua confiabilidade. Aliás, muita "gente boa" da internet deveria ler um pouco antes de postar bobagens - em todos os assuntos, não apenas sobre vinhos. Ler recicla. E reciclar é preciso (continuamente!). E é nessa toada (reciclar é preciso) que acabei por consultar outros livros além do que comentarei aqui, para... poder escrever com conhecimento de causa! Tudo a seu tempo.

O Vinho: Uma Paixão Para Todos, de Paulo Augusto Almeida Seemann, com tradução e adaptação de Alfredo Terzano e Mariana Gil Juncal. Editora Senac, 266 páginas, 2010.



Foi assim que presentou-me o Flávio Vinhobão Henrique Silva, com um livro sobre o qual já havia lido boas referências. E pude confirmar outras resenhas: divertido, bem humorado e ricamente ilustrado, O Vinho, pela leveza e forma interessante de abordar cada assunto, é uma obra dirigida mais aos iniciantes do que aos iniciados. E, pelo bom humor, a diversão pode ser saboreada também pelos mais conhecedores, sem perda de paciência (rs). Vai então que sua indicação para um público de maior espectro tem sua razão de ser.
   Com a leitura desse livro e minha própria experiência em conversar com pessoas em degustações, acabei com a seguinte reflexão: mesmo quem bebe muito - mais no sentido de "sempre" do que de "litragem" - por si só não torna-se um conhecedor de vinho. Mesmo que seja uma turma. Fechada em si mesma, sem troca de ideias com pessoas mais "experientes" (no final, mais lidas!), é sempre difícil progredir. O leitor - ou a turma - poderá frequentar degustações assistidas (realizadas por um sommelier que realmente conheça, não esses que fazem cursos de 20 horas e recebem um diploma) e progredir de algum tanto. Mas, considerando que esse tipo de situação é bem eventual, a progressão acabará sendo lenta. Contra a ignorância, ler ainda é o melhor remédio.
   A leitura de O Vinho fez-me lembrar de situações que nós bebedores vivemos no dia-a-dia. Por exemplo, volta e meia em nossas degustações reaparece a questão: qual vinho beber primeiro, o "melhor" ou o "pior"? Como esse debate já foi levantado por mais de uma pessoa, inclusive, parti para uma leitura à vista armada sobre diversos detalhes do serviço do vinho. Cá para nós: como minha escola é a chilena, onde os melhores vinhos dos principais produtores são cada vez mais "pegados", sempre esteve claro que começar pelo "melhor" vinho teria o efeito de inibir a presença dos mais simples. Algumas pessoas também comentam, com alguma propriedade (assim eles pensam! - risos!) que após degustar alguma quantidade (e que pode variar de 200 mL a 350 mL - e então eu pergunto: por que não 1 L?), perde-se o paladar para degustar um vinho muito melhor do que os demais, daí ser melhor começar pelo melhor e depois os não tão melhores. Ok, esse é um argumento, embora eu sempre acredite que o pessoal é fraco de copo e queira ir logo para o melhor. Então vamos chamar os livros (e seus respectivos especialistas).
   Em O Vinho, p. 244, lemos: "A ordem do serviço dos vinhos: uma regra de ouro do serviço é que os vinhos sempre devem ser servidos por ordem crescente de importância". E continua: "Um grande vinho nunca é servido sozinho em uma refeição... ele precisa de coprotagonistas, ou seja, outros vinhos".
   Manuel Beato, no Guia de Vinhos Larousse (ei, lembram a estória de se reciclar? Pois, vamos às outras fontes), é claro: "A sequência do serviço: Em geral, vinho seco antes do vinho doce. Vinhos fracos, antes dos fortes. Na maioria das vezes, brancos antes dos tintos" (p. 32).
   Já em Vinhos do Mundo Todo - Guia Ilustrado Zahar,  encontramos: "Ordem do serviço: tintos leves antes de encorpados - os mais leves parecem ralos após um mais encorpado; vinhos de menor qualidade antes dos mais nobres", (p. 646).
   É assim que, amparado por boas referências, até um mané como eu pode pegar o boné e enunciar sua própria lei, para combater certos vícios dos colegas ao lado:
Vinho não é para fracos! (rs)
   Eu tenho certeza de que cada amante de vinho tem suas dúvidas, e encontrará nos livros alguma resposta que se aproxime das questões. Dentro desse contexto, O Vinho: Uma Paixão Para Todos, pode ser um bom ponto de partida. A conversa sobre vinho acaba aqui, mas se quiser uma dica, continue lendo.

Uma obra-prima em 130 páginas


O Ladrão e os Cães, de Naguib Mahfuz, L&PM. Abreviarei todos os elogios que a obra merece neste: o autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1988. Ok, você pode dizer que às vezes o pessoal do Nobel pisa na bola, e eu sequer posso retrucar. Mas não é o caso, creia-me. Embora seja considerada um livro de ruptura dentro da produção de Mahfuz (não li as demais), o estilo é de uma simplicidade e ao mesmo tempo de uma riqueza que assustam o leitor mais atento (aquele que sabe apreciar tais detalhes). Não há comparação possível com um vinho, infelizmente, já que um vinho não pode ser simples e complexo ao mesmo tempo. Mas é um livro que merece o acompanhamento de goles esporádicos de um bom Barolo, ou de um Napa Valley bem típico enquanto acompanhamos a descida do protagonista, Said, ao seu inferno particular. Um romance psicológico de primeira linha associado a um thriller onde Said (o ladrão) procura vingança junto àqueles que o traíram (os cães). Como contei o enredo que é apresentado nas primeiras cinco páginas, o leitor ainda terá outras 125 para degustar. Boa leitura.