Introito
A democracia tem custo, e ele está no que precisamos ouvir
para separar as pessoas boas das ruins.
Oenochato
Quatro vinhos
O tempo passou, a pedra no rim a atacar-me o corpo e o espírito com a força e vigor de um anão da Terra-Média parou na tecnologia de um laser e, dentre outros problemas, o blog anda devagar. Faz parte da vida, cujas vicissitudes vão-nos minando mais ou menos, conforme permitimos. Preciso revoltar-me contra isso...
Há algum tempo queria passar uma lição na Paduca. Digo, aportar-lhes sem prévia dois vinhos para tirar-lhes o chão, balançar-lhes a percepção, apresentando-lhes outra visão, abordagem e direção dentro da trilha que vêm galgando desde nossos primeiros encontros. Servi-lhes o primeiro, e notei os cenhos franzidos. Sua qualidade foi imediatamente celebrada, e suas notas devidamente identificadas: muita fruta na frente, com mais toques de tabaco ou chocolate, e medicinal segundo algum Paduquento; bom corpo (médio), acidez agradável e ótimo 'conjunto'. Adiciono final elegante e permanência, dignos de um vinho admirável no auge. Alguém chutou italiano, mas foi isso, um chute. Não deixou de ter razão. Para minha completa satisfação sobram-me os últimos exemplares de Korem 2015 para compartilhar aqui e ali. Faltarão garrafas... 😔. Da segunda botelha, os elogios vieram logo na prova do buquê: igualmente rico, frutado em primeiro plano com toque herbáceo no fundo. Boca equilibrada, também de corpo médio, acidez presente, equilibrada, boa persistência... os rapazes se entusiasmaram com o Fonterutoli Chianti Classico 2019, mesmo sem perceber o serviço correndo livre três horas antes do início da reunião. Da minha parte percebia Korem tocando o terror pra cima de Fonterutoli enquanto os confrades dividiam-se nas opiniões. Foi divertido observá-los batendo cabeça com o a sugestão de "O Carlão não colocaria dois italianos de uma vez", opinando um ou outro terem tal procedência. Sempre digo, e repito: O vinho pelo vinho! Não pense em quem serve, não mire a garrafa, não procure a rolha, olhe para a bebida! Acidez e açúcar, principalmente; esta última aporta dicas importantes, quase sempre: um melaço, à cana de açúcar? Sul do Rhone, quiçá. O dulçor mais discreto, sutil, marcado? - e o leitor não pode confundir com o açucarado de porcarias sul-americanas fedendo à goiaba -, quem sabe, Alentejo. Um tipo muito específico de cereja (é preciso aprender a reconhecer)? Toscana. Não conheço muito além disso, mas oras, estão aí os pontos para leitores de melhor nariz começarem a se tocar e aprender; sigam em frente, desvendem, divirtam-se!
O valor de Korem já foi discutido exaustivamente, e a reflexão mais importante está aqui. Como atualização, a safra 2019 esgotou na Enoeventos a mórbidos R$ 479,00, muito distante do R$ 245,65 pagos anteriormente - confira no vínculo! - mostrando a recente inclinação à tubaronice da importadora. Mas se olhar com atenção tem alguns espanhóis antigos a preço razoável - desconto, encerrado, desde a última vez que olhei. Note: razoável, não mais. Ponto bom: prontos pra beber. Dica: o nome do produtor começa com "B". Voltando: Fonterutoli não apresenta-se em melhor situação. Trazido pela Grand Cru e pela TodoVinho, que se não me engano é o braço internético (sic) da Casa Flora, está na casa de R$ 300,00, para 20 dólas lá fora. Algo como 2.5x, acima do aceitável; existem compras melhores, não direi de Chiantis, mas de vinho. Lembrando o ditado, quem não tem cão, caça com faisão. Esse exemplar foi-me trazido do Paraguai por um amigo que nem bebe, mas passava uma semana no sul e tinha cota de frixópi sobrando. Valeu, Edu Amaral!
Para rebater a uruca considerei um banho de descarrego com sal grosso e ervas aromatizadas, mas desisti; sal grosso, só na picanha. Pensei no uso de um defumador de incenso e mirra - pela ação cicatrizante da última -, mas bem... já tinha sarado e talvez não valesse a pena gastar tiro à toa. Ainda matutei valer-me de cristais de turmalina negra cuja proteção contra mau-olhado, chifre (como se me preocupasse) e vibrações negativas é amplamente reconhecida até pela Ciência, mas ora... estou imune a chifre, portanto descartei também. Só restou uma saída, e com a Liu responsável pela comida, convoquei a Luciana a comparecer com um borgoinha. Para uma autêntica purificação, só um borgonhão dos nervosos... então não hesitei em dar uma aliviada na minha Prateleira Celestial, que agora reclama a devida reposição. Virá (espero...). Rully é uma comuna de Côte Chalonnaise, por sua vez localizada ao sul de Côte d'Or, nos informa a Wikipedia. Não conta com nenhum vinhedo Grand Cru, mas abriga 23 Premier Cru para alegria e satisfação de muitos e para oposta inveja e humilhação de outros. A Maison Jaffelin é considerada por alguns como a menor das grandes casas da Borgonha, reputação calcada em produção artesanal de ótima relação custo-benefício. Primariamente um négociant, consegue uvas de vinhedos Grand Cru de prestígio e possui alguns vinhedos Premier Cru. É presentada pela Chez France, importador que infelizmente, de um momento para outro, e sem maiores (rs), virou uma tubarona: duplicou os preços de maneira geral, e fica o tempo todo promovendo ofertas com 50% de desconto. Tenho muitas notas fiscais de compras passadas para comprovar isso. E, para completa tristeza, as 'promos' de hoje estão aquém dos descontos de 20% de antigamente. Tecnicamente parece ser Rouge, mas também um AoC. Para mim, Rouge seria um vinho composto por uvas de qualquer lugar da Borgonha, enquanto um AoC seria confeccionado a partir de uvas com localização demarcada: Rully, por exemplo. Preciso consultar as fontes... 😠 Por onde andará Don Flavitxo? Bem, Jaffelin Rully 2020 chegou com fruta elegante e bem marcada na frente e mais notas em segundo plano para bons narizes - não lembro se as meninas apontaram algo. Como se espera de um bom Borgonha, sua acidez firme e elegante - mesmo para um AoC - estava bem presente e conferia-lhe um toque alegre, fácil de desfrutar para um admirador da região. O problema é que para competir com ele levei um Dugat-Py Gevrey-Chambertin Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009. Seria claramente uma competição desonesta - mas nem era uma disputa; lembre-se, era um descarrego! - colocar um produtor considerado de primeira linha representado por um dos melhores vinhedos da Borgonha contra qualquer outro artesão que não igualmente favorecido. Repito: não era uma peleja do diabo com o dono do céu (rs); antes, um momento de descontração em que a evolução em espiral de nossa bebida predileta apenas coroou um encontro de conversas, risadas e instantes de contemplação quase bacântica diante do mais puro estado da arte enoica. Voltando: havia lido sobre uma combinação notável para esse vinho, um boeuf bourguignon. Nem gastei muito tempo, joguei a sugestão para as meninas sem perceber ser esssa uma receita trabalhosa. Para completa sorte, a Liu abraçou a ideia e começou os primeiros preparos no mesmo dia - é demorada! Não deixei por menos: abri a garrafa às 10:00 daquela noite. O que dizer de um vinho de primeira, devidamente aerado, com uma comida apropriada? É a prescrição perfeita para a felicidade em seu estado mais puro, o bem-viver exponenciado e a alegria da vida expressa nos passos saltitantes do fauno em nossos sonhos mais delirantes. E sim, como ele estava rico! Frutas! Frutas delicadas em meio a um oceano tânico elegante e majestosamente casado com excelente acidez. Pouco de aspectos terciários, indicando bom tempo de guarda à frente, e ainda assim redondo em boca, madeira presente mas discreta e belíssima persistência. Ah, Borgonha, por isso te amo tanto! 😍 Beba dessa safra agora ou nos próximos 10 anos. Esse vinho nem é um Premier Cru - embora digam por aí que está em nível similar aos melhores de Gevrey-Chambertin - e é caro, algo como USD 200,00, atualmente, lá fora. Mas é o preço a se pagar por um bom Borgonha (foi menos, há muito tempo). O bebedor pode escolher um vinho desses e pensar em faunos, felicidade, sétimo céu, ápice do êxtase ou procurar a fada azul imersa no Absinto de USD 15,00... sem qualquer demérito à bebida. Como ainda estou na fase mais delicada da vida, prefiro abrir a carteira, sobreviver a alguns hot-dogs durante a semana e então provar um desses no sábado... Seu preço por aqui está superior a 2.5x (R$ 3.100,00), na importadora 'oficial', a Mistral. Mas a safra é a 2019. Pela estrutura, principalmente taninos, não acho adequada para degustação imediata; certos vinhos precisam de aging... aquele processo contínuo e natural de progressão que nenhuma taça superpoderosa poderá proporcionar. Mesmo satisfeita, a Luciana saiu feliz mas jurando vingança (risos!). A estas alturas já foi e voltou da África do Sul com diversos generais na mala, à procura de uma desforra. Que venha...
Minha sobrinha Manuele (rs - prima em segundo grau) chega em S. Carlos para um doutorado em computação. Primeira na prova de mestrado, estimulada pelo orientador prestou o exame para "doutorado direto" e... passou em primeiro lugar, para orgulho do tio. Conto isso de pescoço empinado porque ela é outra adoradora de Baco que agrega-se à veneração dessa deidade neste último ponto do trem do velho-oeste da região central do estado povoado por bocas-tortas cultivadas há décadas à custa de sommerdiers locais especializados nas mais profundas, tortuosas e dementes técnicas de empurrar
Falei 4 vinhos no título, mas citei cinco. Ora, assim como aos Três Mosqueteiros juntou-se D'Artagnan, por qual motivo o leitor haveria de reclamar? Na Era de Informação, saber nunca é demais.