Sunday, April 26, 2026

Os 60 anos do Paulão e outras estórias

Introito: as faces da mesma moeda

Pior que se deixar enganar alegremente é, mesmo alertado, 
sucumbir à mentira, à desonra e à perfídia, por singela ignorância.
Oenochato

   Estava em um café com amigas, todos devotos de São Drogo, quando um PTlho, advindo de algures mas algo íntimo dos fiéis, senta-se e comenta uma piada acerca de crença dos bolsonéscios em alguma idiotice. Ri largo, aberto, companheiro (literalmente) e confiado de todos partilharem sua convicção. Pelo menos eles têm uma desculpa razoável, provoquei, e continuei após a resposta esperada (Qual?): Eles são idiotas há menos tempo. O caboclo calou-se, e é fácil saber do que se trata...


   Em uma sociedade polarizada idiotizada como a nossa, argumento contrário congela indivíduo com um mínimo de honestidade intelectual pego na infâmia; por outro lado, apetece o ânimo do idiota útil acorrentado à própria fé, e ele adentra a arena para enfrentar Golias sem ao menos portar uma funda, confiando na força exclusiva das mãos. Ora pois (rs!), na semana seguinte ouvi comentário equivalente, uma piada exatamente igual com sinal invertido, na boca de um bolsonéscio e retruquei da mesma maneira: A única diferença entre vocês é que os PTlhos são idiotas há mais tempo, vocês não perceberam que acreditam na mesma conversa mole pela boca de outro... e foi a deixa para o confrade sacar a espada e vir para o combate com a certeza dos ímpios quando defendem Satã acreditando pelejar pela mais sagrada ortodoxia. Essa é a percepção da população que se considera informada hoje: cada uma professa um mantra igual mas com sentido contrário ao de seus oponentes intelectuais (sic), vendo-se portadores da Palavra, senhores da boa-fé, arautos do bom, do sincero e do honesto. Assumem-se como o exército da verdade, não passam de uma turba de obtusos. Bolsonéscios e PTlhos são assim: as faces da mesma moeda, tostões de R$ 3,00; e não podendo ser mais falsos, acedem com estardalhaço sem vender uma única e singela ideia decente, digna ou honrada. A pergunta é se essa caterva deixa-se enganar alegremente ou submete-se pela ignorância.

O níver do Paulão

Numa extraordinária de quinta-feira o Paulão chegou aos 60 anos. Pensei em abrir um vinho de 1966, mas só tenho um de '67; apenas um ano, mas não vale... Procurei algo com "60" no rótulo: 60 medalhas, por exemplo, mas o exemplar disponível tinha apenas três... Considerei comprar um vinho de 60 cruzeiros, mas ponderei ser demasiada desfaçatez. Fui aos múltiplos: 15 é quociente de 60, e um vinho nessa idade viria a calhar. Pronto! Nem precisei procurar muito, 2010 foi uma ótima safra em praticamente toda a Europa, e por mera coincidência tenho alguns exemplares desse ano. Para acertar as contas, a colheita europeia acontece no segundo semestre, portanto um vinho de 2010 está chegando agora no meio dos 15 anos. Do começo... o recente interesse dos Paduquentos por brancos fez-me correr atrás de algumas ofertas, e escolhi algumas opções mais simples para introduzi-los a esse hábito. Enquanto servia a primeira taça, comentei sobre Saint Verán: uma região mais modesta da Borgonha dentro de Mâconnais, sem vinhedos Premier ou Grand Cru, com vinhos frescos para consumo jovem, embora - dizem - alguns sirvam para guarda. Alegremente frutado - o Paulão foi direto no abacaxi - e depois de deixar os confrades analisarem, emiti uma sugestão de lima em boca. O rosto do Duílio, que havia sugerido limão sem muita certeza, iluminou-se, e ele concordou. Seu buquê não resume-se a a abacaxi nem a boca a lima; tem mais complexidade a ser desvendada por narizes melhores. Château des Correaux Saint Veran 2023 mostra boca com o frescor esperado, acidez presente, um salgadinho da mineralidade e um conjunto ao agrado de todos. Wine Searcher aponta para 20 dólas, embora tenha encontrado a 14 Euros por fora. Pagamos R$ 190,00, uma boa compra pelo WS mas não tão boa em termos gerais. Não se pode ganhar todas... Com um lombo saindo do forno, servi o tinto às cegas. Paulão levou ao nariz e foi rápido: Já bebi algo parecido com isso... De fato, não foi postado mas havíamos provado um Nebbiolo da Fontanafredda há não muito tempo, uma ou duas reuniões antes. Daí ele deu mais uma cafungada na taça, aproveitou do buquê e disparou: Italiano... O Duílio não comprou a proposta e preferiu mais um de seus engraçadíssimos vacilos, além de suas opiniões políticas. O Barolo Broglio Serralunga 2010, da Azienda Agricola Schiavenza, aerado por 24 horas, chegou arrombando os narizes com notas pegadas de frutas vermelhas, couro/fumo (qual? ambos?) e um toquinho herbáceo. Boca gorda, taninos pegados, acidez média-mais, madeira discreta, integrada, álcool  adequado, comportado, e um ligeiro dulçor: uma ótima combinação para grudar nas bochechas e não soltar até o próximo gole! Para mim, vem-se tornando quase uma prática usual: ótimos vinhos, mesmo envelhecidos, abra um dia antes. 🤨 não arriscaria com Don Mechor e similares sul-americanos, o leitor prossiga nessa seara por sua conta e com discrição... (sic! rs!). É um vinho vigoroso, potente, ao estilo que gosto! Serralunga é uma comuna muito prestigiada em Barolo, e Broglio é um de seus vinhedos mais notáveis; vinhos novos do produtor (2021) podem ser encontrados por 30 Euros, e então a paciência fica por conta do comprador. Safras notáveis - como a 2010 - e devidamente envelhecidas alcançam USD 90,00, segundo o WS. Comprei há muito tempo, por algo como 3XX,00 cruzeiros (sic) na Casa do Vinho Famiglia Martini. Eles tinham ótimos preços à época, bem como uma boa variedade de opções. Atualmente parecem estar um pouco derrubados - não é de estranhar, com a crise não comentada em que vivemos - mas ainda assim encontram-se ótimos Brunellos das excelentes safras de 2006 e 2010 a preços razoáveis. Até há pouco tempo tinha alguns de 2001, algum sabichão passou por lá - não, não fui eu. E nunca é demais recomendar: confira os preços pelos do Wine Searcher. Por exemplo, o Langoa Barton 2005, ótima safra, está a quase R$ 1.700,00, o que dá 3x... não vale a pena.

   Encerro por aqui. A quem ficou esperando por outras estórias, conforme o título, lembro a postagem dos quatro vinhos onde entraram cinco: assim como aos Três Mosqueteiros juntou-se D'Artagnan, a este escriba acabou o fôlego nesta noite de domingo. Para quem chegou até aqui, meu muito obrigado! 😆

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