Saturday, November 15, 2014

Mais uma tunga para cima do consumidor - e desta vez sobra para o lojista

A título de introito

   Foi-se um ano e meio (pouco mais) desde a última e pouco convincente postagem. Muita água rolou... muito vinho rolou goela abaixo, e na maioria das vezes o Flavitxo Vinhobão deu conta de postar as bem-aventuranças por novos vinhos junto às velhas amizades que sempre saem fortalecidas (fortificadas?!) após esses encontros. As dificuldades em manter um blog apenas são conhecidas por aqueles que os escrevem, e assim não vou esticar-me em desculpas. E possivelmente continuaria no silêncio se fatos de extrema gravidade não tivessem acontecido diante destes olhos que vos escrevem(!) e mais um favor desinteressado para o bem da humanidade se fizesse premente contra os desatinos e desmandos dos filisteus. Portanto, leitor de coração fraco, pare a leitura ou mude de página imediatamente. Ainda por aqui? OK, continue por conta e risco. Avisei.

Apresentando os fatos

   Quase todo bom amante de vinho envolve-se em conversas animadas com seus lojistas preferidos, frequenta degustações, e, não raro, acaba mantendo contato com representantes de importadoras. Em qualquer dessas situações, é comum ouvir estórias que se repetem:
  • O imposto sobre os vinhos é de 180%. Já escrevi aqui uma vez: é apenas 50%. Tá, subiu um pouco desde então, mas na média é apenas 65% (walew, Dilma!).
  • O importador "daquele" vinho sempre prima em valorizar o produto. Eufemismo para cobrar além do razoável. E ninguém reclama na cara do sujeito. Passarei a fazer isso rotineiramene, agora.
  • O produtor vende o vinho dele mais caro para o exterior do que em seu país (a mentira predileta de 11 entre 10 importadores picaretas quando perguntados sobre diferenças de preço flagrantes nos preços daqui).
  • O importador sempre atua como moderador do mercado, batalhando estoica e desinteressadamente por um preço sugerido junto a todos os seus distribuidores e revendedores (lojistas em geral).
   O perigo mora nesse último ponto. Muitas pessoas talvez nunca tenham ouvido esse tipo de diálogo, que fica um pouco mais restrito às negociações entre importador/representante e lojista. Como mantenho contato com alguns lojistas, já presenciei situações como essa mais de uma vez. Faz parte da conversa mole de valorizar o produto.

Acrescentando fatos aos fatos

Estava procurando algum vinho que poderia dar-me de aniversário, e pensei que o Quinta da Leda seria uma boa escolha: só havia bebido uma vez, com boas lembranças, e o sr. Idinir, da Merceria 3M, tinha o produto a pronta entrega. O chato é que tal rótulo pertence à Zahil, importadora que não está lá muito bem colocada no ranking de margem de lucro de importadoras que o valoroso Oscar Daudt promove em seu sítio Enoventos. Veja aqui. Fui no Wine-Searcher na esperança de que pudesse encontrar alguma surpresa. O leitor decide.
Peço na Zahil/Mercearia 3M: R$ 398,00.
Preço médio encontrado na Wine-Searcher: R$ 118,00 (veja abaixo).
Com o "dóla" oficial a R$ 2,61 do dia em que escrevi estas linhas. Por aproximação dá até para falar que está 4 vezes mais caro do que lá fora. Bem, eu já estava no Wine-Searcher mesmo... e o preço no resto do Brasil?
Ei, tirem a mão do meu bolso! Puliça! Puliça! (sic! risos!)

   Mas todo vinho-maníaco (não que eu seja um...) tem suas cartas escondidas na manga. Wine-Searcher é bom, mas não é tudo. Se você já estava indignado, tolinho leitor, veja mais esta:
O mesmo vinho por R$ 249,99!

   Não  tenho como provar (a menos dos meus e-mails trocados com essa loja...), mas estava R$ 199,00 em outubro. É claro, as lojas brasileiras citadas pelo Wine-Searcher poderiam ter subido seus preços recentemente, por causa da alta do "dóla". Sem divagar mais, fiquemos com os dados que temos em mãos.

O diálogo devastador

   Armado desses dados, fui até a Mercearia 3M. O sr. Idinir, proprietário, é um entusiasta do vinho. Costuma praticar margens razoáveis; concede descontos a clientes assíduos de sua loja; repassa qualquer condição melhor que consiga sem pestanejar. Um exemplo: quando comentou em certo evento estar vendendo um vinho a preço de custo para seus clientes preferenciais, sugeriu olharmos o custo lá fora. No site Garrafeira Nacional (português), R$ 180,00 (sem IVA); em sua loja, R$ 300,00. Todas a garrafas do evento sumiram (venda imediata!). Onde ele ganhou?  Imagino que na divulgação da marca, e no lote seguinte, porque também não sobrou nenhuma garrafa e o vinho estava sendo vendido com margem de modestos 25%(!). Ao diálogo:
   - Idinir, eu estava de olho nesse Quinta da Leda... o que você pode fazer nele? Capricha, que penso em me dar de aniversário.
   - Ôpa... então deixa ver... R$ 330,00. Preço cam-pe-ão.
   Abreviando, mostrei os preços do Wine-Searcher. Ele ficou amarelo.
   - Não é possível. Venha - puxou-me a seu escritório, tirou o funcionário do computador e digitou. Mostrou-me a tela: - Preço de custo, R$ X (xis). Era praticamente igual ao preço de venda praticado pelo Rei dos Whiskys. E atalhou: - Eu sou distribuidor da importadora. Ninguém poderia fazer um preço melhor que o meu...
   - E o que você me diz deste aqui? - mostrei o preço da Kanguru, R$ 249,99.
   - Minha Nossa Senhora... - ele combaliu de vez.

Novamente, juntando mais fatos aos fatos

   O sr. Idinir comentou que às vezes o lojista pode ter desconto geral na compra e jogar essa "gordura" no desconto de determinado produto. Tá. Fui para casa e coloquei minha roupa de travesti de araponga: boné com tapa-orelhas virado na testa, sobretudo xadrez, lente de aumento e cachimbo (apagado). Chamei minha Pit Bull para fazer as vezes de sabujo e voltei para a Mega Adega. Fiz uma compra simulada lá e na Zahil. Tenho os arquivos completos, mas vou destacar apenas as principais diferenças:

Callia Alta Shiraz/Cabernet Sauvignon
Zahil: R$ 31,00
Mega Adega Kanguru: R$ 19,00

Salentein Reserve Chardonnay
Zahil: R$ 78,00
Mega Adega Kanguru: R$ 59,99

3 Fincas Crianza - Empordà
Zahil: R$ 83,00
Mega Adega Kanguru: R$ 53,99

Quinta dos Carvalhais Colheita
Zahil: R$ 123,00
Mega Adega Kanguru: R$ 89,99

Salamandra Tempranillo
Zahil: R$ 59,00
Mega Adega Kanguru: R$ 38,99

   Desnecessário dizer, mas vamos lá: os descontos excelentes apresentam-se sobre diversos produtos. Não dá mais para justificar que a Mega Adega Kanguru esteja usando desconto acumulado para promover um produto. Ainda que estivesse, alguém me explique: qual a lógica em vender um produto por algo como 20% abaixo do preço de custo? Não é um produto de R$ 10,00 (onde a perda de 10%, ou R$ 1,00, pode ser suportada), mas algo como R$ 300,00. É tolo achar que um comprador de vinho levará metade da loja porque um dos produtos está a preço muito bom. Compradores de vinho costumam não ser tão tolos, no máximo somos apenas tolos. Eles compram somente a oferta. Bem, eu compraria apenas ela, se os demais preços não estivessem razoáveis...

Após tantos e tantos fatos, uma interpretação singela e simplória

   A princípio seria difícil imaginar outra situação que não a existência de duas listas de preços. Qual seria o critério? Não sei. Então vamos cavocar nossas mentes um pouco mais e procurar alguma explicação.

   O sr. Idinir comentou-me que tem sua lista como "distribuidor", e não existe desconto maior, sequer por quantidade. Então algum arranjo existe. Será que tem gente "rachando" uma importação, com a "dona da marca" (a importadora), e na hora todos pegam o produto pelo mesmo preço? Justifica a existência de preços menores e também a insistência, por parte das imporadoras, de preços uniformes na Internet: lojistas que não participam da transação pagam o preço da importadora, que ao "forçar" preços uniformes não deixa a diferença aparecer para os lojistas que compram dela. Os compradores do lote ficam com lucros absurdos, se praticarem os mesmos preços. Quando os participantes da transação não cumprem o acordo e vendem a preços "honestos", divulgando seus preços na Internet, a importadora, que opta por margens muito maiores, fica em clara desvantagem.

   Em física diz-se que a explicação mais simples e elegante para um fenômeno geralmente está correta. No romance policial tem qualquer coisa assim: "quando eliminadas todas as explicações, a que fica, por mais improvável, é a solução do caso".

   Segundo o sr. Idinir, o que as importadoras oferecem aos distribuidores e parceiros é uma "sugestão" de prática de preços que não fiquem abaixo do preço do site da própria importadora. Ele é "livre" para praticar os preços que desejar em sua loja, mas não no site. Ah, bom! Que ótimo saber que estamos em um país livre e democrático! E é por isso que várias vezes encontro lá na Mercearia 3M vinhos a preços menores que nos sites.

   Mas ei... essa estória de preços uniformes na Internet também não configura crime de cartel? E é cometido assim, na cara dura? É isso o que nos oferecem (vai sem provas: a prática é disseminada entre as importadoras) pelos nossos suados tostões? Alguma alma cristã pode fazer com que eu veja esse expediente como algo benéfico para o consumidor?

  Como consumidor consciente, anuncio minha decisão: não compro mais de importadoras que praticam altas margens de preços. Acabou. Fine. Fin. No more. Não deixo de beber seus vinhos - quando convidado ou participando de eventos. Minha política é contra os preços, e não contra os vinhos. Quem tomar vergonha na cara ter-me-á como cliente.

Chega por hora.
Hei de oferecer mais algumas reflexões sobre o tema para o leitor que ousar voltar por aqui.

Thursday, March 21, 2013

O Château Guiraud 2006

   Ontem experimentamos dois vinhos antes de chegarmos a este. Mas como a estrela era, desde o início, a sobremesa (e seu acompanhamento), vou comentar apenas este, por enquanto.

A região de Sauternais

   Segundo a Wikipedia, Sauternais é uma região de Graves, que por sua vez é uma seção de Bordeaux. Château Guiraud é um corte de Sémillon (65%)-Sauvignon Blanc (35%). A safra de 2006 não foi tão boa quanto as de 2005 e 2007; isso talvez tenha incidido diretamente no preço da garrafa de 750 mL (U$ 50,00). Sua fermentação é feita em barricas novas e pode durar até dois meses; depois disso o envelhecimento acontece também em barricas, por 24 meses.

O vinho

Château Guiraud 2006 tem corpo médio, assim como seu retrogosto, mas a persistência surpreende por ser longa, o que confere-lhe um bom final. Pera evidente (para mim...), bem frutado, deverá melhorar com mais alguns dias (e meses) na geladeira - até o Tarapacá Colheita Tardia consumido antes dele estava interessante em seu final após um ano de espera, também na geladeira.

Château Guiraud 2006: Sémillon (65%)-Sauvignon Blanc (35%), 13,5% de álcool: um tanto acima do Tarapacá Colheita Tardia (13%) e do Tokaji Aszý 5 Puttonyos (12,5%). Pode parecer aquém deste último, na primeira impressão. Contudo, sua elegância, persistência e bom final atestam ampla superioridade.

Sunday, March 10, 2013

Dona Maria Tequila Tremendo de Graça 2000-2013

   Todos sabemos que a vida não nos poupa infortúnios, enquanto a bem-aventurança costuma resumir-se a momentos fugidios que nos iluminam aqui e ali. Durante os últimos treze anos - treze! Quanta sorte! - fui agraciado com a companhia de um bichinho que nunca conheceu tempo ruim; boa de garfo, recusou somente quatro refeições em toda sua vida. Em duas ocasiões, acabou operada no mesmo dia; a terceira foi apenas por muito doente, e a última, ontem, sábado. Dona Tequila tinha várias alcunhas: Tête, Tetê, Terrorzinho... mas nada disso importa muito. Importa a mensagem que ela nos deixou antes de partir:
Não chorem por mim; eu não chorarei por vocês. Se chorarem, que não sejam lágrimas de tristeza, mas de saudades antecipadas. E ainda assim, não sintam-se saudosos; eu estou levando comigo todas as boas lembranças que partilhamos juntos, e, de quebra, um pedacinho do coração de cada um que me amou. Tudo isso eu mandarei de volta em pequenas porções, quando vocês sonharem comigo. E estejam certos de que eu também sonharei com vocês, até o momento em que nos juntaremos em novas brincadeiras. Só não tenham pressa, porque, apesar de todos sabermos que agora o meu mundo é melhor que o de vocês, cada coisa acontece a seu tempo. Assim como o bom vinho tem que ser maturado, vocês ainda têm suas jornadas. Meus queridos amigos, foi bom ter passado estes treze anos na companhia de pessoas tão nobres e carinhosas como vocês. Haverão outros encontros, em algum lugar deste universo. Boa sorte a todos.


Wednesday, March 6, 2013

Física, cozinha e vinho

O detestável copiar-colar

   Nunca fui fã (sequer usuário) da técnica (rs) de copiar-colar na produção de texto. Tá, certa vez a tarefa muito fraca de uma disciplina pediu esse recurso, mas é outra estória. Dito isso, vai um copiar-colar, do qual preservo a fonte. Preparem-se para arrepiar os cabelos.

O melhor conselho de todos, porém, foi o método de Myhrvold para decantar vinho (em linguaguem não enochata: oxigenar a bebida para melhorar seu sabor). Em restaurantes finos, normalmente, os garçons usam um decânter, uma garrafa larga feita especialmente para circular o vinho, num ritual que costuma ser cheio de pompa. O cientista, porém, aplicou seus conhecimentos de físico-química para criar um método muito mais eficiente (e menos elegante) de decantar a bebida: bater o vinho no liquidificador, não importa quão caro seja.“Isso faz melhorar drasticamente o sabor de vinhos tintos jovens”, disse o cientista, recomendando o método à plateia. “Mas minha parte preferida é olhar para a cara de horror das pessoas quando eu ponho um Bordeaux no liquidificador.”

   Saiu em uma matéria do jornalista Rafael Garcia em um blog do UOL. O final trata de vinho, como o leitor já leu, mas recomendo a leitura do texto completo. A pergunta que não quer calar é: quem será o primeiro a testar esse método de aeração? (risos!)


Tuesday, February 26, 2013

Dá-lhe, Borgonha!

   Dona Lilian, minha amada esposa, tem lá sua quedinha por brancos. Daí que, por ocasião de seu aniversário, resolvemos tentar uma combinação bem usual: peixe e vinho branco. O peixe foi o da cozinha japonesa do restaurante Zettai, e o vinho - por coincidência, na onda das últimas postagens deste blog - mais um Borgonha. O Akira compareceu com outro branco que eu já conhecia - e compareceu bem. Aos fatos:
R. López de Heredia Viña Tondonia, Vinha Gravonia 2007, 100% Viura, 12% de álcool.
Domaine Bernard Moreau & Fils, Chassagne-Montrachet 2007, 100% Chardonnay, 13,5% de álcool. Seu nome do meio é exuberante.

   O Chassagne-Montrachet havia sido muito bem recomendado pelo Flávio Vinhobão. Ficou por mais de um ano descansando na adega antes de ir para o abate. Resfriado a uns 12-14 °C, mostrou-se balanceado, mineral e boa acidez, mas pouco mais além disso. O Akira sugeriu deixar esquentar um pouco mais, e enquanto isso apreciamos o Gravonia, que, por já conhecermos, não resfriamos tanto. Então vamos ao Gravonia antes. É um Crianza, envelhecido 4 anos em barricas de carvalho americano e recomendado servir entre 14-16 °C. Nossa experiência mostra que a faixa 16-18 °C é mais adequada; no limite inferior proposto (14 °C), o vinho perde suas principais características. É um vinho que impressiona, em primeiro, pela longevidade. Esse 2000, assim como outra garrafa já experimentada, estava inteiro. E o pior (melhor?), continuou inteiro no dia seguinte, porque sobrou meia garrafa, por maior que tenham sido os esforços. No nariz, o Akira apontou amêndoas - e prestando atenção, estavam lá, mesmo. Para mim, o cítrico estava muito mais evidente (infelizmente sou um degustador de "primeira camada", apenas; as demais, só com ajuda- rs). Bem mineral, boa acidez, corpo médio, bom final. Seu preço é um tanto proibitivo, mas foi comprado com um desconto próximo a 50%. Na faixa de R$ 100,00, é imbatível. Voltando ao Chassagne-Montrachet a uma temperatura mais adequada, mostrou ótima mineralidade, boa acidez e muito integrada a notas cítricas, com bom corpo e final longo. Final longo em vinho branco eu nunca havia encontrado... e este, além de longo, muito, muito rico. A mineralidade foi o que mais chamou atenção; para quem não conhece muito os brancos, foi uma experiência singular. Em uma palavra: exuberante. O duro é que, custando 50 euros "lá", vai saber o custo por aqui. Como última análise, a frase do Akira diz tudo: "eu não gostava de vinho branco". Percebeu o tempo do verbo, né?

Saturday, February 23, 2013

O Château Latour que não latiu

Grandes vinhos e grandes enganos

   A atual fase francesa do nosso amigo Akira acabará por nos levar à bancarrota. Por enquanto, felizmente - e para êxtase dos leitores - apenas a pequenos e deliciosos enganos. Estava o Akira conversando com um lojista de onde ele tem garimpado boas oportunidades em S. Paulo. Entre uma queima e outra, apareceu o Borgonha-Valisére da postagem recente. Da vez seguinte ele estava conversando sobre vinhos de Bordeaux. O lojista disse ter a magnum de um "bastante bom" em promoção, e apontou para prateleira:
   - Te faço 250... não vou trabalhar mais com a marca e estou queimando esta última garrafa.
   O Akira deixou escorrer uma lágrima do olho enquanto murmurava:
   - Você vai me vender um Château Latour por 250?
Grandes vinhos e grandes enganos...

   O lojista aproximou-se da garrafa e virou-a, posicionando-a de frente, e antes que pudesse falar qualquer coisa o Akira enxugou a lágrima e, curto (apenas curto): - Vou levar... (terminou abaixando a cabeça, talvez para esconder a vergonha...).

   Eu não deixo passar a chance de perder um bom amigo. Desfeito o engano, marcamos a degustação. A parte boa de uma magnum, dividida em quatro - outros vinhos acompanharam o momento, mas falarei apenas deste - é que podemos ir devagar, começar a degustação sem decantação prévia e deixar o tempo fazer seu trabalho enquanto a conversa flui. Demos sorte, também: a safra 2001 indicava que provavelmente estávamos em um bom momento para degustar o danado. Por outro lado a graduação alcoólica (13%) provocou-me um ligeiro calafrio. Costumo vincular longevidade diretamente (dentre outras coisas, claro) à graduação alcoólica. Como veremos, apenas mais um engano a somar-se ao folclórico evento. Com  um ano em barrica e outros 11 de garrafa, este corte 60% Cabernet Sauvignon, Merlot 35% e 5% Petit Verdot pareceu não ter envelhecido. Sequer a sugestão de estar atijolado, pelo contrário. Na boca, inicialmente bem fechado, muito diferente dos chilenos e argentinos aos quais sou mais acostumado. Contudo, já de cara, uma característica chamou atenção: acidez presente. Com a devida evolução, a acidez foi integrando-se aos bons taninos e à madeira. Apareceram couro e chocolate à medida que as taças oscilaram entre vazias e cheias, além de ótima fruta. É um vinho de corpo médio, e surpreendeu pelo final entre médio e longo e retrogosto bem presente.
   O que precisa ficar registrado para bebedores de sul-americanos (como eu) e ex-bebedores de sul-americanos e iniciantes em vinhos europeus (como eu), é que não trata-se se um vinho "fácil". Seu conjunto acidez-taninos-madeira tem boa pegada mas a "caída", se me entendem, é muito diferente dos vinhos deste continente. A boca menos acostumada tenderá a não apreciar devidamente esse tipo de vinho; ele pode passar por ruim. Não é. O tempo fez diferença e, embora ao final ele continuasse diferente do vinho mais fácil, sua estrutura atestou a qualidade. Este parágrafo pode ter fica um tanto confuso. Não faz mal; eu também, quando o degustei. Como último argumento, devo dizer que experimentarei outros vinhos do Médoc, com a devida atenção; não adianta abri-lo em uma festa e dar atenção a 30 colegas, largando o vinho na taça. Se servir de consolo, o Flávio Vinhobão seguramente fará uma apreciação mais precisa deste vinhos. Não é, Flávio?...
Château La Tour de By 2001, 13° de álcool, 60% Cabernet Sauvignon, Merlot 35% e 5% Petit Verdot.
Bom vinho, mas não para todas as bocas.

PS: após o comentário do Vitor, fui checar com o Akira o quanto ele havia pago na garrafona. Na verdade pagou R$ 200,00, e não R$ 250,00 como eu pensei inicialmente (blefe do amigo-bebedor, para valorizar o vinho dele? - rs!). Parece que esse assunto de vinho tem mais variáveis do que podemos sonhar conhecer algum dia.

Wednesday, February 20, 2013

Mais um "teste" Folha

   O jornal A Folha de São Paulo brinda-nos com mais um "teste" Folha. Poucos se lembrarão da "avaliação" produzida pelo jornal nos anos 90, analisando o desempenho acadêmico dos professores da Universidade de São Paulo e taxando alguns de improdutivos. Começou assim: acreditando ser suficiente para que todos os interessados tomassem conhecimento do evento, ela... publicou em suas páginas que faria o levantamento...
   Note o leitor que estou puxando fatos de vinte anos pela memória, dispensando qualquer outra consulta. Algo aqui pode estar impreciso. O que eu tenho certeza é que entrou nessa lista um professor meu que... no período acadêmico analisado - quando verificou-se o número de publicações de cada docente - fazia seu doutorado na Inglaterra... (ele não poderia publicar dados de sua tese naquele momento). É por situações como essa que o indivíduo começa a perder a fé na humanidade.
   Agora a Folha traveste-se de "analista" de Rosés e produz uma série de matérias em sua coluna "comida" de hoje, quarta-feira, 20 de fevereiro. Está bem, a Folha contratou uma banca para fazer o teste às cegas, e ela foi composta por Jorge Lucki (dispensa apresentações), Gabriela Monteleone (sommelière do restaurante paulistano D.O.M.), Gianni Tartari, sommelier do restaurante Emiliano, Mário Telles Jr., presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, e Suzana Barelli, diretora de Redação da revista Menu. O que decepciona, e motivou esta postagem, são os pontos que descrevo a seguir:

   * Uma das chamadas da matéria diz "Testamos os vinhos rosés mais consumidos em São Paulo, e o resultado decepciona: só 2 das 8 marcas foram bem avaliadas pelos especialistas". Lendo todo o texto, encontramos as sugestões de Alexandra Corvo (colunista da Folha e coordenadora do teste):

  • Janeil Rosé De Syrah 2011
  • Clos La Neuve Cuvée Passion 2011
  • Modello Venezie Rosé 2010
  • Quinta Do Vallado Touriga Nacional Rosé 2010
   Os textos citam o rosé da Villa Francioni, "o único vinho que não sofreu nenhuma crítica no teste promovido pela Folha, com média de 4,2 pontos, num total de 5" e, ainda, os seguintes:
  • Lancers
  • Quinta da Romaneira 2011
  • Club des Sommeliers
  • Los Vascos 2012
Ei, isso dá nove vinhos! A menos que algum dos oito tenha sido veiculado na matéria como o produto do Club des Sommeliers, marca do Pão de Açúcar. Mas não fica claro no texto qual deles é o vinho do Club des Sommeliers (aliás, a variação da escrita, sommelier/sommelière consta na série de reportagens).

Outros pontos surpreendem (negativamente) na "reportagem"

   Uma das matérias traz como título "O melhor vem de Santa Catarina". Fala sobre o Villa Francioni, produto que não está entre os escolhidos da Colunista da Folha. Então tem algo errado, ou com os jurados ou com a colunista. Como o melhor vinho segundo os jurados não merece figurar entre as sugestões da colunista - sugestões que, afinal, possuem o valor de "chancela" aos produtos?

   Ademais, do Villa Francioni, com média 4,2 de 5,0 (lembrem-se, "O melhor vem de Santa Catarina"), 
"Não chega a empolgar", sugerem os jurados durante o teste. "É um vinho que eu tomaria em uma festa", diz Jorge Lucki."
   Mas os próprios jurados deram 4,2 de média... E para piorar lemos, nessa matéria, sobre o Villa Francioni, que ele é "o único vinho que não sofreu nenhuma crítica no teste" - a despeito dos comentários acima...
   Eu entenderia se o vinho tivesse por média algo como 3,0: ficaria acima da média, mas não empolgaria. Estaria justificada a nota. Mas obter 4,2 e ainda assim ser um fiasco (afinal, não empolga)... alguém faz um desenho para me explicar? Depois sobra a pecha de que "de cabeça de sommelière e de bundinha de bebê pode sair qualquer coisa" - não exatamente "qualquer coisa" - e aí os sommelières vão querer o direito de ficar "bravos". Algum dia eu entendo tudo isso.