Monday, September 7, 2026

Vinho de primeira, taças grandes!

Introito

   Houve quem não entendesse a menção ao musaranho na postagem passada - passou algum tempo agora, e talvez todos saibam. Esse é o grupo de Uátizáppi usado por alguns bacanas 1, 2 para tratar de negócios pouco republicanos, como já virou clichê. Reportagens levadas a cabo por Veja e o Estadão estão debulhando a estória apesar do sigilo imposto. O filhote de NAP (Nosso Amado Presidente) foi pego com a boca naquilo e aquilo na boca, digo, trocando mensagens constrangedoras com uma conhecida lobista de Brasília. O assunto está bem explicado pelo jornalista Felipe Moura Brasil, aqui (matéria de 24 min). A imagem abaixo resume investigações onde a influenciadora teria recebido quantidade significativa de dinheiro e pago despesas do filhote, que teria atuado, supostamente, em alguns negócios de interesse da intermediadora.


   São mensagens de Lulinha: 
   - A gente tá se arriscando... é só esperar uns poucos meses e poderemos fazer isso sem medo de nada...
   - Eu não tenho nem dim dim nem origem para isso... Não dá preu (sic) gastar tanto agora... Qualquer merda não tem explicação nenhuma.
   - A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc q cuida das minhas finanças.

   Percebe o receio imediato? - bastaria esperar um pouco e fazer sem medo - e uma confissão. Continua: não tenho nem dim dim nem origem para isso. É-me difícil conceber aquele senhor dizer não ter dim dim e - pior - não conseguir justificar algum gasto pela falta de origem. É intrigante como ao Ronaldinho dos negócios não tenha sobrado sequer uma atividade pela qual pudesse, ao menos, ter emitido uma nota fiscal de qualquer serviço de assessoria. E notem: nada há de ilegal se o filho de um presidente, após a administração de Papi, aproveita-se do networking angariado e constrói, até com relativa facilidade, múltiplos negócios bem estruturados. Mas nada restou, e isso simplesmente contraria a proposta da comparação feita por NAP.
Ele próprio, aliás, furtou-se a responder perguntas sobre o filhote. Assim a alma mais honesta deste país põe em descrédito o ditado quem não deve não teme... ou estou enganado? Um passado já comprometedor e um presente ainda pior floreiam o caminho de NAP, em cuja administração se acumulam os maiores déficits da história deste país, descontando a pandemia. É preciso um atestado de idiota para pensar em votar nesse candidato. Sendo de esquerda, envergonha-me apresentar tal constatação. Um momento! Posso ser de esquerda, mas não sou intelectualmente desonesto. Muito menos apoio incompetentes. O que dizer dos recentes suspeitos de corrupção. Nas palavras do próprio NAP, a intermediadora a esse tempo passou a pilantra, e ele nega tê-la conhecido. Apenas um lapso, sabemos todos... Depois seus seguidores não gostam de ser chamados de idiotas, posam de ofendidinhos... um novo estado de espírito inaugurado por tempos de internet para pessoas com profunda dissonância cognitiva.

Amantes de Baco

   A confra Amantes de Baco promoveu outro encontro, já há um bom par de meses. Foram-se as últimas garrafas compradas em grupo e a partir de agora ou a turma se anima a outra compra ou entramos na fase do cada um por si. Se desejasse dar um troco no governo poderia especular alguma compra em modo Jack Sparrow - tenho visto muita oferta desse tipo por aí - mas isso me igualaria àqueles que critico. E nem os confrades aceitariam, conheço-os todos e dou fé. Dar o troco seria uma bela justificativa para que eu mesmo entrasse em dissonância cognitiva; além da questão moral, mantenho-me atendo para não cair nela. Vamos aos embates.

Maquis Gran Reserva Rosé 2023 chegou com um buquê delicado, diferente do cítrico que aprecio mais nos brancos - 😒 afinal, era um rosé... - mais floral. Ainda fresco mas ligeiro, acidez presente sem muita festa nem alarde, agrada quem mantém-se fiel aos vinhos sul-americanos; não tem muita presença em boca e não deixa rastro nem lembrança. Particularmente nunca fui fã de rosés mesmo tendo provado alguns europeus, mas se tivesse que promover uma lambança arriscaria um veredito como falta-lhes. O Akira refletia sobre bons vinhos brancos serem de produção mais complexa se comparados a tintos equivalentes. Fico pensando se produzir bons rosés não esteja um patamar acima. Não conheço, essa reflexão é um long shot. O Barrica 143 2023, alentejano produzido pela Ravasqueira em corte de cepas locais com um Syrah intrometido (rs) apenas não me marcou. Não tenho recordação de suas características e não desgostei para um momento de confraternização e convivência bacântica 😂. O produtor não é ruim - este aparenta ser um exemplar mais básico de sua gama -, e de algum tempo para cá tenho desfrutando - por obra da temperança e sugestão de Baco (mete o saca-rolha!) - de algumas garrafas guardadas por muitos anos ou compradas mais recentemente em ótimas 'promos'. Chegou a hora deles, e o padrão está aumentando. Claro, não recuso vinhos mais simples - apenas não os compro - e assim acompanho opções de mercado que de outra maneira me escapariam. Curiosamente não encontrei esse vinho em Portugal para comparar seu preço. Indicativo de ser um produto destinado especificamente ao público brasileiro? Não procurei muito. O Lopez de Heredia Viña Bosconia 2014, aerado por umas 6 horas, apresentou-se bem melhor do que a garrafa anterior, degustada com a mesma turma - compramos em duplicata. Encheu narizes, mentes e almas com fruta vermelha abundante em primeiro momento e ricas sugestões em segundo plano: especiaria, couro/tabaco (qual? ambos?), e mais. Boca equilibrada, sedosa, fruta repetindo-se, um pouco terroso com taninos vivos e ótima acidez. Permanência longa - querem invocar essa qualidade para cada vinhozinho chinfrim... Seu valor de venda é tubaronesco, embora tenha aparecido em promos aleatórias, com rótulo da importadora e tudo, conforme comentado e comprovado recentemente. Já o Brunello di Montalcino Castello Banfi 2020 levou uma saca-rolhada (sic) logo nas primeiras horas da manhã. Safra nova, precisaria de um serviço longo, com apreensão desde Enochato. Evoluiu bem e mostrou-se bom para ser degustado, embora não escondesse a juventude. A cerejona estava lá, firme, na frente de tudo. Tinha frutas nervosas e toques ricos; os taninos, se não estavam verdes, eram inquietos, apesar de não estressados (risos!). Boa acidez, bom conjunto em boca. Vai melhorar muito e apostaria em 2030 como um início de janela de beberagem para sua versão mais complexa - 10 anos é o piso para bons Brunellos, e esse, para quem não sabe, é o reba dos três produzido pelo Castello. Se você tem, guarde. De um lado vem a reflexão do mete o saca-rolhas, mas por outro recobro a reflexão da postagem passada: Este não é um momento para covardes. Apenas abra outros vinhos igualmente bons.

Vinho de primeira, taças grandes!

Essas moças estão viajadoras demais... Sobramos Liu e eu, e um para o outro nos agradamos, em alguma sexta-feira há algum tempo. Vai tempo de quando citei trecho de um diálogo impagável onde Peter Ustinov, como Batiatus, aborda o vinho. Vou expandi-lo. Batiatus, o proprietário de uma escola de gladiadores, recebe a notícia da visita surpresa de romanos notórios - ninguém menos do que o general Marcus Crassus. Para recepcioná-los, ele recomenda a seus escravos para servirem vinho de segunda, taças grandes... não, não... vinho de primeira... taças pequenas... Mas em uma reunião a dois o dito foi invertido, e ficamos com vinho de primeira, taças grandes! 😂 Quinta da Gaivosa (2015) não me é desconhecido; havia apreciado a safra 2011, em 2021. Já mencionei um bebedor estar se desfazendo de sua adega - felizmente apenas por questões amorosas, a esposa ou as garrafas, quando, até sob auspícios de Baco, ele tomou a decisão correta - e esse exemplar veio no meio de várias arrebatadas a bom preço. Quinta da Gaivosa é um ótimo vinho; nariz com fruta claramente vermelha e toques de chocolate (café?), especiaria e mais complexidade. Entrada em boca mostrando taninos pegados agora arredondados, algo a mentol, deixando aquele aspecto tridimensional de encher a boca, um doce discreto à chocolate, acidez marcante e ótimo final, com persistência longa. Um grande Douro em seu ápice e ainda escalando. Ótimo para beber, excelente para os próximos 5 anos, quiçá mais. Esse sim, se você tem junto do Banfi 2020, não pense duas vezes: mete o saca-rolha! É um vinho de USD 50,00 algumas vezes vendido a R$ 800,00-R$ 900,00, mas aparece em 'promos' por R$ 500,00 ou até menos. Por R$ 500,00, está no limite de 2x.

Uma loja de internet

Havia visitado o Empório Caçador de Vinhos, mas nunca tinha comprado deles. É preciso cuidado, a rede está repleta de golpes. No caso escolhi uma abordagem... agressiva (risos!): contatei o Whats deles e pedi uma ligação de vídeo, explicando ser um comprador que não conhecia a loja física e deseja vê-la. Fui prontamente atendido e a funcionária muito gentil fez um tour, mostrando-me inclusive a garrafa de meu interesse. A motivação aconteceu porque fora-se há pouco meu último Dulcamara, e sabia existir no Caçador, a R$ 199,00, o  Perbruno, do qual degustei duas garrafas. A linha toda era trazida pela Cantu, que nunca primou pelo serviço de seus produtos em degustações - e torna certos vinhos decepcionantes. Talvez por isso os vinhos da I Giusti & Zanza nunca tenham decolado por aqui: eles precisam de areação... mesmo o simples Nemorino, veja no comentário da postagem. Perbruno é vendido diretamente do sítio do produtor a €22,50 (R$ 134,00). O produtor dá um bom desconto ao atacadista, de modo que este não sofra concorrência na venda. Quando o vinho é exportado, ele provavelmente está livre de impostos locais - um governo precisa ser muito idiota para exportar impostos e tornar seus produtos menos competitivos no mercado mundial. De qualquer maneira seu valor estava abaixo de 2x, que é o limite onde este Enochato ativa seu modo comprador. Pesquisei outras opções, várias dentro dessa faixa e outras tantas fora dela - é preciso cuidado! Selecionei o que o leitor vê acima. A entrega foi rápida - menos de uma semana e as garrafas vieram bem embaladas. Empório Caçador de Vinhos é uma loja multimarcas: vende de diversos importadores, a preços algo espremidos. Por exemplo, o Viña Ardanza Reserva da tubaroníssma Zahil está lá a R$ 599,90, o que não deixa de ser atraente para o valor médio dele por aqui - é fácil encontrá-lo entre R$ 700,00 e R$ 900,00. Mas não adianta muito: ele custa 30,00 dólares lá fora (menos de R$ 200,00), e isso dá 3x para o valor do vinho lá fora. Acho que o lojista precisa fazer o dever de casa e recusar vinhos com tamanha variação em desvantagem para o consumidor. Principalmente quando ele aparentemente já está sacrificando parte de sua margem. O risco natural é sofrer encalhe. O consumidor inteligente deixa o produto na prateleira até que a inflação o corroa - ou até um trouxa passar e levá-lo por um valor intermediário, mas ainda assim corrosivo para seu bolso. O mercado está aí. Previna-se.

Ah, claro: como se este articulista ainda precisasse comprovar suas informações como fidedignas: