Showing posts with label Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020. Show all posts
Showing posts with label Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020. Show all posts

Tuesday, September 8, 2026

Itália: a ilha e a colina

Introito - algumas reflexões soltas, parte 1

Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão envolvido em causas diversas como pacifismo e injustiça racial. De quebra, como opositor ao Adolfo e seu regime, esteve ligado à resistência que desembocou na Operação Valquíria. Foi executado às portas do final da Segunda Grande Guerra. Suas reflexões sobre a estupidez começaram em 1943, já no cárcere. Para ele, a estupidez não é uma condição congênita nem uma deficiência intelectual: uma pessoa muito inteligente pode ser estúpida, e uma pessoa de inteligência modesta pode não sê-lo. O estúpido é uma pessoa que perde sua independência intelectual e passa a pensar e agir de acordo com o grupo ou ideologia que o domina. Portanto, não é propriamente um problema de inteligência, mas de autonomia intelectual e, em última instância, de responsabilidade moral. É aí que a estupidez pode cruzar-se com a dissonância cognitiva: para preservar suas convicções, a pessoa passa a negar ou relativizar fatos que a contrariam.

Carlo Cipolla foi um historiador e economista cuja carreira teve seu ápice em Berkeley, como professor da Universidade da Califórnia. Um de seus ensaios mais famosos, As leis fundamentais da estupidez humana, versa sobre cinco leis que resumo:
1. Subestimamos sempre a quantidade de estúpidos existentes.
2. A probabilidade de alguém ser estúpido independe de sua inteligência, profissão, educação, classe social etc.
3. A definição propriamente dita: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si.
4. Pessoas não estúpidas subestimam enormemente o poder destrutivo dos estúpidos.
5. O estúpido é o tipo mais perigoso de pessoa - mais perigoso, inclusive, que o bandido.

   Observamos que o estúpido segundo Cipolla não precisa acreditar em nenhuma ideia absurda nem é um deficiente intelectual, e nesse último ponto sua concepção concorda com a de Bonhoeffer. Podemos resumir em uma aproximação - note bem: não é um definição completa ou perfeita - que Cipolla identifica o estúpido pelo que ele faz; Bonhoeffer, pelo que ele deixa de fazer. Um observa a ação; o outro, a abdicação da capacidade de pensar. Simplificando novamente, a estupidez é um estado da alma (sic!) passageiro, embora possa durar anos. E, para terminar, se uma pessoa é estúpida para alguma coisa, não significar ser é um estúpido completo - mas casos extremos flertem com isso também. É consequência direta de alguém que permanece na escuridão por tempo demais mesmo desprezando um caminhão de provas que lhe apresentem sobre um ou vários assuntos. Deixo para o leitor uma pausa para refletir sobre essas duas abordagens de estupidez com um último pensamento: se gente importante debruçou-se sobre o conceito de estupidez - ou idiotice - e de fato transformou nossa percepção sobre o tema, então não estamos falando de aplicar essas palavras como meros xingamentos gratuitos. Quem se esmera em certas ações e ideias pode, portanto, ser taxado assim com razão. Não que eu goste, apenas não me furto a fazê-lo quando necessário. A vida não é um concurso de bom mocismo.

Um Gran Selezione algo novo

Luciana deu uma italianada (rs!) e do frixópi de lá me liga aflita, pedindo ajuda. Para minha tristeza, Barolos e Brunellos novos conviviam com Amarones ainda mais jovens. Sugeri um Chianti; apesar de durarem, ficam prontos para beber mais cedo. E não bastava: ela desejava algo para provarmos já em sua volta. Chegou com um Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020, produzido pela Tenuta della Famiglia Cecchi, localizada em Castellina. Sugeri sua abertura ali pela hora do almoço e entregamos nossas esperanças para Baco. No início da reunião com a Liu presente, representando a ilha, servi um  Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019, da Argiolas. Sugeri esse vinho há pouco, e até semana passada estava em 'promo' na Enoeventos. O produtor dispensa apresentações; sou fã do Korem, um bom degrau acima de Iselis, mas seu preço também anda em outro patamar. Está no auge, e ando mostrando aqui e ali. O Jairo do Shot Café representa a Enoeventos em S. Carlos, e pode trazê-lo ao mesmo custo da importadora - comprei dele, assoprando-lhe a impertinência de procurar outro fornecedor - as boas ofertas rareiam rapidamente. Ótimo buquê, com fruta vermelha e especiaria, a boca acompanhando a experiência com café (chocolate? - rs), taninos maduros, pegados mas redondos, produzindo boa persistência e final. Não muito mais a colocar sobre o que já foi dito e recomendar sua compra se estiver na promo. Pela colina, O Villa Rosa Chianti Classico Gran Selezione 2020 encheu taças de vinho e corações de alegria, mesmo estando novo. Estruturado, tânico, encorpado, e claramente fechado. A cereja da Sanviogese mostrava sua assinatura clara, a despeito da madeira competindo ao fundo. Suas qualidades estavam um tanto encobertas pela juventude desse exemplar; ficará bom com mais cinco ou sete anos, e bebê-lo nos dias de hoje configurou-se um leve infanticídio (rs). Tenho visto em nosso mercado alguns outros Chianti e até o Brunello desse produtor. Talvez não seja exatamente o mesmo - parece que o negócio está dividido na família e quem produz uns não produz outros - mas algumas comparações de preço não haviam sido muito animadoras. Valeu a pena ter provado dele, é um bom vinho; que venham melhores oportunidades para comprá-los.