Friday, December 19, 2014

As marvadezas do Renê

- Estou indo armaaado. - Assim anunciou o Renê que me faria uma visita. Esticou um pouco a sílaba do meio, como ele gosta de fazer, e atalhou: - E ele é marvaaado.
Claro, "ele" era uma referência ao vinho que traria. O Renê foi uma das primeiras pessoas do círculo que detectou a chegada de vinhos espanhóis a preço e qualidade competitivos com os sul-americanos, importados pela Grand Cru. Sua apresentação do Casajus Splendore e do Embocadero chamaram-me atenção para o Xabec, o Señorío del Tallar  e o Sabor Real Viñas Centenárias, dentre outros. Sem imaginar o quanto de má intenção ele traria debaixo do braço, desci na adega e fiquei olhando. De repente, encontrei uma opção que poderia contrapor a algo "marvaaado" que o Renê pudesse trazer. Estava avisado de que o Marcelo também viria; o gosto dele cai para os chilenos, ele havia dito explicitamente no último encontro, então eu pensei que com minha escolha eu estaria bem. Acabei depenado. Sem mais rodeios, vamos a eles:

Os fatos

   Fato 1: não duvide do Renê quando ele diz que está armaaado.
   Fato 2: não confie em alguém que diz gostar de chilenos e apresenta um espanhol; dizer que gosta de chilenos, estou aprendendo, é uma boa desculpa para que se cometam hechos traicioneros. Foi o que o Marcelo perpetrou.

Os vinhos per se

   Lá chegaram o Renê e seu Catena Zapata Estiba Reservada 2003, o Marcelo e seu Mencía LB (Luna Beberide) 2009, enquanto eu apresentei um Errazuriz Max Reserva CS 2008.
   Olhei para o vinho do Renê e só pude comentar um "não vale..." meio sufocado. É claro, desse produtor são-me bem conhecidos as já boas linhas D.V. Catena e Angélica Zapata (preços de R$ 90,00 a R$ 200,00), então eu sabia estar em frente a algo de maior quilate.
   - Trouxe de Dubai - comentou o Renê, passando por cima do meu protesto. - Não deve ter saído mais do que 60 Dólares; é o máximo que pago por um vinho sul-americano.

Falando dos vinhos

  • A Catena tem um sítio muito bem organizado, e sobre a safra 2003 a opinião dos enologos da bodega é:
A safra 2003 é a primeira em que outros varietais alternativos têm alcançado uma magnífica qualidade. O Cabernet Franc e o Petit Verdot do vinhedo Uxmal serão interessantes componentes em nossos vinhos finais. O Malbec também se colheu com níveis ideais de madurez.Sem duvida, a estrela da colheita 2003 foi o Cabernet Sauvignon.
  • O sítio da Errazuriz também é bem organizado, e a ficha técnica do Max Reserva pode ser encontrada aqui.
  • A Luna Beberide é uma bodega estabelecida em Bierzo, no noroeste espanhol, e tem na Mencía sua uva autóctone. O sítio é simpático, e a ficha técnica está aqui.

Como resumo da ópera, temos, para comparação de vinhos e preços:
  • Catena Zapata Estiba Reservada: 14% de álcool, estagia em barris de carvalho francês novas por 24 meses, tem sugestão de guarda de 10 anos. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot e Malbec. Preço: R$ 533,00 - R$ 715,00 - USD 60,00 (maisonbertin.com.br/Mistral/Freeshop Dubai).
  • Errazuriz Max Reserva: 14.5% de álcool, estagia em barris de carvalho por 12 meses, 88% de CS + 12% de Cabernet Franc. Preço: R$ 105,00 (Vinci).
  • Mencía LB: 13,5% de álcool, fermentado em tanques de aço inóx, 100% Mencía. Preço: R$ 65,00 (Via Vini).
Já em qualidade...

  • Mencía LB: vivo, pronto para beber. Boa fruta, sem excessos. É um vinho de corpo médio onde a acidez não se sobressai; pelo contrário, combina bem com os taninos e produz um efeito de boa persistência e retrogosto agradável. Apareceu algo como couro, ou chocolate, depois de aberto. Por comparação, a R$ 65,00, é um bom concorrente de mercado. Lá fora custa a bagatela de 4 euros(!), o que o coloca como caríssimo mesmo dentro do padrão médio dos vinhos vendidos ao nosso desavisado consumidor.
  • Errazuriz Max Reserva: Errazuriz é um dos produtores que mais gosto do Chile. Não provei safras mais novas, mas este 2008 ainda é bem "das antigas": fruta viva, boa acidez e intenso na boca, cujo equilíbrio proporcionou-me as sensações agradáveis de sempre. Com a evolução, apareceu café (chocolate? - rs!), garantindo mais alguns goles de puro prazer. O final é bom, persistente e o conjunto faz juz à fama do produtor. Na faixa de R$ 100,00, é comparativamente uma melhor escolha do que Mencía LB.
  • Catena Zapata Estiba Reservada: depois de falar bem dos outros dois vinhos, fica difícil adjetivar este. Combine e multiplique aquelas qualidades para ter uma ligeira ideia desta. Boa complexidade no nariz, taninos muito redondos, boa acidez, excelente integração álcool-acidez-madeira-fruta. O que mais posso dizer? Claro, final verdadeiramente looooooongo. E se não bastasse, excelente persistência. Eu tenho dito (não é nenhuma grande descoberta, apenas uma constatação) que a Argentina faz o melhor vinho da América do Sul. Alguns ainda dizem que faz o único. Sem polemizar, Catena Zapata Estiba Reservada faz jus à tradição do produtor. O preço é alto aqui e lá fora. Por USD 60,00, ele bate de chinelo em vários espanhóis de classe. Por esse preço, em sua eventual viagem, é compra certa e dificilmente poderá ser batido. Momentos de puro êxtase para os bacantes presentes, e perdeu quem não compareceu. Um Vinhaço, com "V", vê de vitória. Vê de valeu, Renê!

Tuesday, December 16, 2014

Machado de Assis e o apê da Carol

Por ocasião da inauguração do apê da Carol, resolvemos fazer uma noite de pizza e vinho. O Akira sugeriu lançar mão de nossas reservas estratégicas, algumas garrafas que compramos em conjunto e mantemos justamente para essas ocasiões. Deixou a escolha por minha conta. Separei três:
Cartuxa Reserva 2006;
Xabec 2008;
Finis Terrae 2008.

O Cartuxa Reserva, segundo o sítio, é produzido com cepas comuns do Alentejo: Trincadeira, Aragonez, Alfrocheiro, Periquita, Moreto e Tinta Caiada. É lavra da Fundação Eugênio de Almeida, que tem por ícone o Pera Manca. Dizem os conhecedores, este último já teve seus dias de glória e preços compatíveis. Atualmente mantém o preço compatíviel com o passado, sem manter os méritos de antanho. O Cartuxa Reserva 2006 apresentou boa coloração, praticamente novo. Boa fruta e pouca madeira: a receita simples e sem mistérios para um vinho agradar o grande público. Algo como café (chocolate? - rs!) dá um toque elegante. Retrogosto agradável, boa persistência. É um bom vinho, mas não para a faixa de R$ 200,00. Não custa muito menos lá fora (encontrei a safra 2011 por 26,00 euros no Garrafeira Nacional), o que só faz aumentar (estender?) o receio de que o produtor já tenha deixado para trás seus melhores dias, e embarcado no famoso conto do "faz a fama e deita na cama".

Já o Xabec 2008 foi extensamente comentado antes; veja aqui. Para um vinho simples, estes seis anos não lhe fizeram mal. Duraria mais tempo; se não outros seis, mais três ou quatro com certeza. O tempo massacrou diversos vinhos brasileiros, sinal de que, se no marketing já estamos craques (os produtores estão craques...); na competência técnica ainda tempos muito a aprender. O Xabec 2008 ainda pode ser encontrado na Grand Cru e o preço atual (R$ 62,00) não alterou muito com relação ao de 2012.

O Finis Terrae custa por volta de R$ 58,00 nos EUA, R$ 67,00 (!) no Chile e R$ 115,00 no Brasil. No Chile, o preço varia entre 15.000 e 16.000 pesos, e minhas garrafas não peguei mais de 10.000 pesos, o que reflete um aumento de 50% a 60% do produto no mercado chileno. Cada vez mais tenho certeza de que nossos vizinhos estão perdendo a noção. Começo a gostar de termos a Bolívia e a Argentina entre nós e eles... vai que a "sem noçãozice" pega...

Bem, o Finis Terrae é um vinho premium da Cousino Macul, que tem por ícone o Lota. Já bebi diversas garrafas e em sua versão 2010 é um corte de Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah. Infelizmente a garrafa ficou no apê da Carol, e o sítio do produtor menciona apenas essa safra em sua ficha técnica. Mas sempre é majoritariamente Cabernet. A safra 2008 ainda mantinha boa fruta bem balanceada com madeira, diferente de alguns vinhos premium chilenos que tornaram-se depósito de goiaba. Não sei das safras mais novas. Eu tinha boa recordações do Finis Terrae: sedoso, redondo, um veludo mesmo. Bebi a primeira taça e estranhei um tanto. Nem tão redondo, nem tão aveludado. Experimentei novamente, e olhei para o Akira. Ele retribuiu o olhar e foi direto ao ponto:
- Não parece mais aquele vinho que estávamos acostumados, não é mesmo?
- Então... mudou o vinho ou mudamos nós? - comentei, sorrindo. A clara menção ao Soneto de Natal, de Machado de Assis, arrastou-nos por assuntos mais agradáveis do que ver um antigo ícone solapado por um concorrente da metade do preço.

Conclusão

Independente do meu gosto, a atuação dos bacantes em qualquer evento sempre diz tudo: o  vinho melhor acaba primeiro. O Cartuxa e o Xabec foram abertos quase ao mesmo tempo, e o segundo acabou em primeiro (sic).

Para o meu gosto (e bolso), ficou assim:  em primeiro, o Xabec. Seguindo de perto, o Cartuxa. Por R$ 115,00, o Finis de longe fica em terceiro. Se  for gastar R$ 200,00 e só puder escolher entre esses três, não hesite: leve 3 Xabec pelo preço de um Cartuxa. Ou leve um Cartuxa, e tente ser feliz pensando em 3 Xabec (rs). Com o Finis, não dá...
Desta vez não temos um redentor cercado pelos vendilhões. O vendilhão ficou de fora, já que a garrafa do Finis Terrae foi deixada na casa da Carol, com um tantinho no fundo.


Thursday, December 4, 2014

Reflexão sobre as Análises Comparativas de Preços do Sítio Enoeventos

Enoeventos

   Enoeventos (como se todos já não soubessem) é um sítio organizado pelo sr. Oscar Daudt que conta com uma gama de colaboradores opinando e discutindo diversas questões e aspectos ligados ao vinho. A que mais agitou a comunidade, na minha opinão, foram as comparações, ao longo dos anos, dos preços de venda de diversas importadoras com relação ao mercado norte-americano. A proposta foi simples, embora o trabalho tenha sido insano: comparar o custo de diversos vinhos de uma importadora brasileira com o custo desses produtos no mercado norte-americano. Com um número mínimo de cotações do catálogo de uma determinada importadora, pode-se estabelecer uma média de quanto os preços praticados por ela estão acima dos preços do mesmo vinho vendido lá fora. É insano porque, imaginando 12 vinhos pesquisas por importadora, a 12 importadoras, chegamos a uma grosa de pesquisas, e o trabalho não acaba aí. Depois são necessárias todas as "contas" para estabelecer as médias e fazer a comparação final. Só por tal iniciativa o sr. Oscar já merece nossos parabéns; quanto ao restante das informações, o leitor novato poderá avaliar por si mesmo.

A última análise do Enoeventos

   Em sua sétima edição, a versão de setembro de 2014 traz a seguinte comparação:
Isso quer dizer que, teoricamente, se um vinho custasse US$100 nos Estados Unidos, seria vendido pelo equivalente a US$161,90 na Cellar, enquanto que custaria, provavelmente, o equivalente a assustadores US$373,80 na Ravin!

Comentando a margem dos americanos

Preços mundo afora

   Quem costuma comparar preços - como eu - já deve ter notado uma coisa "engraçada": é comum encontrar nos Estados Unidos, por "x" Dólares, um vinho que custe "x" Euros em seu país de origem (França, Itália, Espanha, Portugal). Ou seja: o vinho custa 10 Euros na Europa e é vendido por 10 Dólares nos EUA.
   Como pode?
   Os impostos - sempre eles! - explicam uma parte. Enquanto sua média é de 20% (vinte!) na Europa, não chegam a 10% nos EUA. O mercado americano é disputado por todos, dado seu tamanho. Finalmente, é um mercado competitivo; as lojas brigam forte para apresentar preços razoáveis.

A rota do vinho

   O vinho sai do produtor e vai até o porto (frete 1). Do porto, vai até a costa americana (frete 2). Depois, vai do porto americano ao importador (frete 3). Finalmente, do importador aos lojistas (frete 4). Não é de estranhar que seja assim na maioria das vezes, quando falamos da importação do produto de fora das Américas até sua entrada no continente, seja América do Sul ou do América do Norte.
   Com todo esse movimento, o vinho chega aos EUA pelo preço "x". Bem, claramente esse não é o preço pago pelo importador norte-americano. Temos os custos de frete, e custo de venda do produtor e o "lucro" do vendedor. Precisamos de um parâmetro para estimar o preço original de uma garrafa que entra na cadeia descrita acima. Esse custo eu vou tirar da cartola. Nem tanto da cartola, porque conversei com pessoas que precificam esse tipo de negócio. O que podemos dizer é que, aproximadamente,
O preço pago pelo produto é a metade do preço pelo qual ele é vendido no mercado norte-americano, pelo menos para esse segmento.

Uma atroz conclusão

   Pensemos no custo apenas em Dólar, para facilitar as contas. Um vinho de 10 Dólares no mercado americano deve ter custado, no máximo, 5 Dólares quando comprado junto ao produtor. Sobre esses 5 Dólares incide o custo da "cadeia" (fretes, lucro repartido entre importador e distribuidores) e o vinho chega ao consumidor por 10 Dólares. Pergunta: isso é "apertado" ou é apenas o "mercado"? A pergunta é acadêmica. O pior está por vir.
   Se o comprador americano paga 5 Dólares por um vinho "x", responda-me o leitor incauto: quanto paga o comprador (importador) brasileiro? À resposta de que de repente paga mais porque compra menos, posso retrucar que, quase invariavelmente, as melhores safras (ou as mais pontuadas) são encontradas no mercado americano, e não no brasileiro. Então os compradores brasileiros passam por autênticas bestas, porque pagam mais por safras piores. Não acho que nossos importadores sejam bestas, muito pelo contrário (embora isso não seja lá um elogio). Sem melhor argumento, estou dizendo que o importador brasileiro paga a metade do preço que vemos nas lojas eletrônicas americanas. Vai daí que que devemos multiplicar o Índice de Divergência de cada importadora por dois para saber quanto ela tem de "lucro bruto", se podemos chamar assim. Multiplicando o índice da Cellar, aprox. 62 x 2 = 134%. Não está fora, visto que, desse valor, pouco menos da metade são impostos (e os preços que vemos na Internet são apresentados sem impostos). Dá para perceber que, mesmo com a margem praticada pela Cellar, ser importador de vinho no Brasil é melhor negócio do que nos Estado Unidos.  O que dizer da posição dos últimos colocados dessa lista?!

A tabela ilustra por quanto, em média, a importadora vende o vinho mais caro do que no mercado norte-americano. Fonte: sítio Enoeventos.

   É necessário enfatizar que o trabalho do senhor Oscar não está errado. Ele está corretíssimo, dentro da premissa proposta: comparar o preço do produto no mercado americano com o mercado brasileiro. O olhar que ofereço aqui é dentro do bolso do importador brasileiro. É claro que eles são livres para praticar as margens que acham razoáveis. Da mesma maneira que eu sou livre para escolher qual vinho comprar, e de quem.

Peroba neles!

   Para mostrar como se faz (rs), o sr. Oscar ainda cometeu (sic) a abertura de uma importadora no próprio sítio do Enoeventos. Para quem ainda não passou por lá, a loja está aqui. Fui analisar o preço de dois dos vinhos dele (querem um  trabalho melhor? o link lá de cima!). Pasmem.

Ferraton Cornas Les Grands Mûriers 2009
Preço Enoeventos: R$ 212,10
Preço nos EUA   : R$ 145,10

Ferraton Crozes-Ermitage Le Grand Courtil 2009
Preço Enoeventos: R$ 197,10
Preço nos EUA   : R$ 107,01

Está certo, encontrei o vinho em poucas lojas nos EUA para fazer uma média (na verdade, encontrei cada vinho em uma só, e lojas diferentes). Quem conseguir resultado melhor, por favor, comente.

Ah, como se diz por aí, mato a cobra o mostro o pau:





   Aí eu me lembro de que quem escolhe meus vinhos sou eu - e não quem os importa. Ainda não passei na loja do sr. Oscar, e vejo nisso uma certa sensação de urgência. Bem, o Natal está chegando.

Saturday, November 15, 2014

Mais uma tunga para cima do consumidor - e desta vez sobra para o lojista

A título de introito

   Foi-se um ano e meio (pouco mais) desde a última e pouco convincente postagem. Muita água rolou... muito vinho rolou goela abaixo, e na maioria das vezes o Flavitxo Vinhobão deu conta de postar as bem-aventuranças por novos vinhos junto às velhas amizades que sempre saem fortalecidas (fortificadas?!) após esses encontros. As dificuldades em manter um blog apenas são conhecidas por aqueles que os escrevem, e assim não vou esticar-me em desculpas. E possivelmente continuaria no silêncio se fatos de extrema gravidade não tivessem acontecido diante destes olhos que vos escrevem(!) e mais um favor desinteressado para o bem da humanidade se fizesse premente contra os desatinos e desmandos dos filisteus. Portanto, leitor de coração fraco, pare a leitura ou mude de página imediatamente. Ainda por aqui? OK, continue por conta e risco. Avisei.

Apresentando os fatos

   Quase todo bom amante de vinho envolve-se em conversas animadas com seus lojistas preferidos, frequenta degustações, e, não raro, acaba mantendo contato com representantes de importadoras. Em qualquer dessas situações, é comum ouvir estórias que se repetem:
  • O imposto sobre os vinhos é de 180%. Já escrevi aqui uma vez: é apenas 50%. Tá, subiu um pouco desde então, mas na média é apenas 65% (walew, Dilma!).
  • O importador "daquele" vinho sempre prima em valorizar o produto. Eufemismo para cobrar além do razoável. E ninguém reclama na cara do sujeito. Passarei a fazer isso rotineiramene, agora.
  • O produtor vende o vinho dele mais caro para o exterior do que em seu país (a mentira predileta de 11 entre 10 importadores picaretas quando perguntados sobre diferenças de preço flagrantes nos preços daqui).
  • O importador sempre atua como moderador do mercado, batalhando estoica e desinteressadamente por um preço sugerido junto a todos os seus distribuidores e revendedores (lojistas em geral).
   O perigo mora nesse último ponto. Muitas pessoas talvez nunca tenham ouvido esse tipo de diálogo, que fica um pouco mais restrito às negociações entre importador/representante e lojista. Como mantenho contato com alguns lojistas, já presenciei situações como essa mais de uma vez. Faz parte da conversa mole de valorizar o produto.

Acrescentando fatos aos fatos

Estava procurando algum vinho que poderia dar-me de aniversário, e pensei que o Quinta da Leda seria uma boa escolha: só havia bebido uma vez, com boas lembranças, e o sr. Idinir, da Merceria 3M, tinha o produto a pronta entrega. O chato é que tal rótulo pertence à Zahil, importadora que não está lá muito bem colocada no ranking de margem de lucro de importadoras que o valoroso Oscar Daudt promove em seu sítio Enoventos. Veja aqui. Fui no Wine-Searcher na esperança de que pudesse encontrar alguma surpresa. O leitor decide.
Peço na Zahil/Mercearia 3M: R$ 398,00.
Preço médio encontrado na Wine-Searcher: R$ 118,00 (veja abaixo).
Com o "dóla" oficial a R$ 2,61 do dia em que escrevi estas linhas. Por aproximação dá até para falar que está 4 vezes mais caro do que lá fora. Bem, eu já estava no Wine-Searcher mesmo... e o preço no resto do Brasil?
Ei, tirem a mão do meu bolso! Puliça! Puliça! (sic! risos!)

   Mas todo vinho-maníaco (não que eu seja um...) tem suas cartas escondidas na manga. Wine-Searcher é bom, mas não é tudo. Se você já estava indignado, tolinho leitor, veja mais esta:
O mesmo vinho por R$ 249,99!

   Não  tenho como provar (a menos dos meus e-mails trocados com essa loja...), mas estava R$ 199,00 em outubro. É claro, as lojas brasileiras citadas pelo Wine-Searcher poderiam ter subido seus preços recentemente, por causa da alta do "dóla". Sem divagar mais, fiquemos com os dados que temos em mãos.

O diálogo devastador

   Armado desses dados, fui até a Mercearia 3M. O sr. Idinir, proprietário, é um entusiasta do vinho. Costuma praticar margens razoáveis; concede descontos a clientes assíduos de sua loja; repassa qualquer condição melhor que consiga sem pestanejar. Um exemplo: quando comentou em certo evento estar vendendo um vinho a preço de custo para seus clientes preferenciais, sugeriu olharmos o custo lá fora. No site Garrafeira Nacional (português), R$ 180,00 (sem IVA); em sua loja, R$ 300,00. Todas a garrafas do evento sumiram (venda imediata!). Onde ele ganhou?  Imagino que na divulgação da marca, e no lote seguinte, porque também não sobrou nenhuma garrafa e o vinho estava sendo vendido com margem de modestos 25%(!). Ao diálogo:
   - Idinir, eu estava de olho nesse Quinta da Leda... o que você pode fazer nele? Capricha, que penso em me dar de aniversário.
   - Ôpa... então deixa ver... R$ 330,00. Preço cam-pe-ão.
   Abreviando, mostrei os preços do Wine-Searcher. Ele ficou amarelo.
   - Não é possível. Venha - puxou-me a seu escritório, tirou o funcionário do computador e digitou. Mostrou-me a tela: - Preço de custo, R$ X (xis). Era praticamente igual ao preço de venda praticado pelo Rei dos Whiskys. E atalhou: - Eu sou distribuidor da importadora. Ninguém poderia fazer um preço melhor que o meu...
   - E o que você me diz deste aqui? - mostrei o preço da Kanguru, R$ 249,99.
   - Minha Nossa Senhora... - ele combaliu de vez.

Novamente, juntando mais fatos aos fatos

   O sr. Idinir comentou que às vezes o lojista pode ter desconto geral na compra e jogar essa "gordura" no desconto de determinado produto. Tá. Fui para casa e coloquei minha roupa de travesti de araponga: boné com tapa-orelhas virado na testa, sobretudo xadrez, lente de aumento e cachimbo (apagado). Chamei minha Pit Bull para fazer as vezes de sabujo e voltei para a Mega Adega. Fiz uma compra simulada lá e na Zahil. Tenho os arquivos completos, mas vou destacar apenas as principais diferenças:

Callia Alta Shiraz/Cabernet Sauvignon
Zahil: R$ 31,00
Mega Adega Kanguru: R$ 19,00

Salentein Reserve Chardonnay
Zahil: R$ 78,00
Mega Adega Kanguru: R$ 59,99

3 Fincas Crianza - Empordà
Zahil: R$ 83,00
Mega Adega Kanguru: R$ 53,99

Quinta dos Carvalhais Colheita
Zahil: R$ 123,00
Mega Adega Kanguru: R$ 89,99

Salamandra Tempranillo
Zahil: R$ 59,00
Mega Adega Kanguru: R$ 38,99

   Desnecessário dizer, mas vamos lá: os descontos excelentes apresentam-se sobre diversos produtos. Não dá mais para justificar que a Mega Adega Kanguru esteja usando desconto acumulado para promover um produto. Ainda que estivesse, alguém me explique: qual a lógica em vender um produto por algo como 20% abaixo do preço de custo? Não é um produto de R$ 10,00 (onde a perda de 10%, ou R$ 1,00, pode ser suportada), mas algo como R$ 300,00. É tolo achar que um comprador de vinho levará metade da loja porque um dos produtos está a preço muito bom. Compradores de vinho costumam não ser tão tolos, no máximo somos apenas tolos. Eles compram somente a oferta. Bem, eu compraria apenas ela, se os demais preços não estivessem razoáveis...

Após tantos e tantos fatos, uma interpretação singela e simplória

   A princípio seria difícil imaginar outra situação que não a existência de duas listas de preços. Qual seria o critério? Não sei. Então vamos cavocar nossas mentes um pouco mais e procurar alguma explicação.

   O sr. Idinir comentou-me que tem sua lista como "distribuidor", e não existe desconto maior, sequer por quantidade. Então algum arranjo existe. Será que tem gente "rachando" uma importação, com a "dona da marca" (a importadora), e na hora todos pegam o produto pelo mesmo preço? Justifica a existência de preços menores e também a insistência, por parte das imporadoras, de preços uniformes na Internet: lojistas que não participam da transação pagam o preço da importadora, que ao "forçar" preços uniformes não deixa a diferença aparecer para os lojistas que compram dela. Os compradores do lote ficam com lucros absurdos, se praticarem os mesmos preços. Quando os participantes da transação não cumprem o acordo e vendem a preços "honestos", divulgando seus preços na Internet, a importadora, que opta por margens muito maiores, fica em clara desvantagem.

   Em física diz-se que a explicação mais simples e elegante para um fenômeno geralmente está correta. No romance policial tem qualquer coisa assim: "quando eliminadas todas as explicações, a que fica, por mais improvável, é a solução do caso".

   Segundo o sr. Idinir, o que as importadoras oferecem aos distribuidores e parceiros é uma "sugestão" de prática de preços que não fiquem abaixo do preço do site da própria importadora. Ele é "livre" para praticar os preços que desejar em sua loja, mas não no site. Ah, bom! Que ótimo saber que estamos em um país livre e democrático! E é por isso que várias vezes encontro lá na Mercearia 3M vinhos a preços menores que nos sites.

   Mas ei... essa estória de preços uniformes na Internet também não configura crime de cartel? E é cometido assim, na cara dura? É isso o que nos oferecem (vai sem provas: a prática é disseminada entre as importadoras) pelos nossos suados tostões? Alguma alma cristã pode fazer com que eu veja esse expediente como algo benéfico para o consumidor?

  Como consumidor consciente, anuncio minha decisão: não compro mais de importadoras que praticam altas margens de preços. Acabou. Fine. Fin. No more. Não deixo de beber seus vinhos - quando convidado ou participando de eventos. Minha política é contra os preços, e não contra os vinhos. Quem tomar vergonha na cara ter-me-á como cliente.

Chega por hora.
Hei de oferecer mais algumas reflexões sobre o tema para o leitor que ousar voltar por aqui.

Thursday, March 21, 2013

O Château Guiraud 2006

   Ontem experimentamos dois vinhos antes de chegarmos a este. Mas como a estrela era, desde o início, a sobremesa (e seu acompanhamento), vou comentar apenas este, por enquanto.

A região de Sauternais

   Segundo a Wikipedia, Sauternais é uma região de Graves, que por sua vez é uma seção de Bordeaux. Château Guiraud é um corte de Sémillon (65%)-Sauvignon Blanc (35%). A safra de 2006 não foi tão boa quanto as de 2005 e 2007; isso talvez tenha incidido diretamente no preço da garrafa de 750 mL (U$ 50,00). Sua fermentação é feita em barricas novas e pode durar até dois meses; depois disso o envelhecimento acontece também em barricas, por 24 meses.

O vinho

Château Guiraud 2006 tem corpo médio, assim como seu retrogosto, mas a persistência surpreende por ser longa, o que confere-lhe um bom final. Pera evidente (para mim...), bem frutado, deverá melhorar com mais alguns dias (e meses) na geladeira - até o Tarapacá Colheita Tardia consumido antes dele estava interessante em seu final após um ano de espera, também na geladeira.

Château Guiraud 2006: Sémillon (65%)-Sauvignon Blanc (35%), 13,5% de álcool: um tanto acima do Tarapacá Colheita Tardia (13%) e do Tokaji Aszý 5 Puttonyos (12,5%). Pode parecer aquém deste último, na primeira impressão. Contudo, sua elegância, persistência e bom final atestam ampla superioridade.

Sunday, March 10, 2013

Dona Maria Tequila Tremendo de Graça 2000-2013

   Todos sabemos que a vida não nos poupa infortúnios, enquanto a bem-aventurança costuma resumir-se a momentos fugidios que nos iluminam aqui e ali. Durante os últimos treze anos - treze! Quanta sorte! - fui agraciado com a companhia de um bichinho que nunca conheceu tempo ruim; boa de garfo, recusou somente quatro refeições em toda sua vida. Em duas ocasiões, acabou operada no mesmo dia; a terceira foi apenas por muito doente, e a última, ontem, sábado. Dona Tequila tinha várias alcunhas: Tête, Tetê, Terrorzinho... mas nada disso importa muito. Importa a mensagem que ela nos deixou antes de partir:
Não chorem por mim; eu não chorarei por vocês. Se chorarem, que não sejam lágrimas de tristeza, mas de saudades antecipadas. E ainda assim, não sintam-se saudosos; eu estou levando comigo todas as boas lembranças que partilhamos juntos, e, de quebra, um pedacinho do coração de cada um que me amou. Tudo isso eu mandarei de volta em pequenas porções, quando vocês sonharem comigo. E estejam certos de que eu também sonharei com vocês, até o momento em que nos juntaremos em novas brincadeiras. Só não tenham pressa, porque, apesar de todos sabermos que agora o meu mundo é melhor que o de vocês, cada coisa acontece a seu tempo. Assim como o bom vinho tem que ser maturado, vocês ainda têm suas jornadas. Meus queridos amigos, foi bom ter passado estes treze anos na companhia de pessoas tão nobres e carinhosas como vocês. Haverão outros encontros, em algum lugar deste universo. Boa sorte a todos.


Wednesday, March 6, 2013

Física, cozinha e vinho

O detestável copiar-colar

   Nunca fui fã (sequer usuário) da técnica (rs) de copiar-colar na produção de texto. Tá, certa vez a tarefa muito fraca de uma disciplina pediu esse recurso, mas é outra estória. Dito isso, vai um copiar-colar, do qual preservo a fonte. Preparem-se para arrepiar os cabelos.

O melhor conselho de todos, porém, foi o método de Myhrvold para decantar vinho (em linguaguem não enochata: oxigenar a bebida para melhorar seu sabor). Em restaurantes finos, normalmente, os garçons usam um decânter, uma garrafa larga feita especialmente para circular o vinho, num ritual que costuma ser cheio de pompa. O cientista, porém, aplicou seus conhecimentos de físico-química para criar um método muito mais eficiente (e menos elegante) de decantar a bebida: bater o vinho no liquidificador, não importa quão caro seja.“Isso faz melhorar drasticamente o sabor de vinhos tintos jovens”, disse o cientista, recomendando o método à plateia. “Mas minha parte preferida é olhar para a cara de horror das pessoas quando eu ponho um Bordeaux no liquidificador.”

   Saiu em uma matéria do jornalista Rafael Garcia em um blog do UOL. O final trata de vinho, como o leitor já leu, mas recomendo a leitura do texto completo. A pergunta que não quer calar é: quem será o primeiro a testar esse método de aeração? (risos!)