Introito - conclusão em pedaços; pedaço 2
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
A Pátria, Olavo Bilac, 1919
Estava a refletir sobre a distribuição ideológica entre pessoas mais próximas. Nem todas tomam posição; a estimativa leva em conta quem assume um lado. Os tais envergonhados - eleitores discretos que não partilham sua escolha com outros - não figuram no cálculo. Cerca de 40% são bolsonéscios e 60% são PTlhos. Refiro-me apenas aos apoiadores desta ou daquela quadrilha, sem contabilizar outras possibilidades. À luz das teorias da estupidez de Cipolla e Bonhoeffer, o caso mais grave é, sem sombra de dúvida, o dos PTlhos, e a explicação é direta: eles o são há muito mais tempo. A dissonância cognitiva nesses elementos (sic) encaminha-se para umas nada comoventes bodas de prata com seus cérebros. Continuando assim, é provável que morram na senilidade absoluta.
Vejamos alguns exemplos de como PTlhos reagem quando confrontados com questões morais. A imagem ao lado é do comentário em vídeo onde Renan Santos analisa o final da reunião em que Supremos Sinistros (SS) riem ante um suposto acerto político com o presidente do Senado. Sugiro que ouçam para entender. Perguntei a um grupo: Se alguém me disser que a conclusão não é verdade, eu vou agradecer muito. Claro, não basta dizer, é preciso argumentar... Entre três ouvintes, a única resposta foi um exemplo de candura: Não duvido, a única certeza q tenho é q eu não estava na tal foto e nem reunião... mto difícil nossa situação... Ou seja: utente imerso em dissonância cognitiva só admite não estar na foto, mas despreza todo o seu entorno constrangedor. Em acordos pouco republicanos entre ambos os lados do espectro político, bolsonéscios e PTlhos irmanados não no combate à corrupção - que no papel dizem enfrentar - mas, segundo o vídeo, seguem acasalados justamente para jogar falcatruas para baixo do tapete. Pergunto-me se há alguma (des)conexão entre esse duplipensar, neologismo de Orwell anterior à formulação da teoria de dissonância cognitiva, e a epígrafe. De fato, criança, não verá nenhum país como este...
Uma sequência de discussões engraçadíssimas - não fossem trágicas - deu-se com um jovem defensor da esquerda tosca e pregador, dentre outras coisas, da cultura Uóque. Precisei repetir as perguntas, pois no primeiro momento elas foram ignoradas. As respostas falam por si. O detalhe: para ajudar meu querido utente a responder à pergunta 3, eu enviara uma informação oficial. É uma página do Banco Central na qual está explícito o crescimento do déficit fiscal. Ainda assim o fato é negado, e este argumentador é colocado "na bolha". A conversa continuou, e a certa altura recebo a reflexão baseada em trecho de Belchior Não cante vitória muito cedo, não, não leve flores para a cova do inimigo. As lágrimas do jovem são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal antigo, sobre seu receio da volta de dias mais autoritários. Como se já não os vivêssemos... - já notou como lado que apoia uma ditadura nunca a considera como tal? Respondi de maneira segura: Não Leve Flores é bem sugestiva, mas recomendo a música homônima do álbum onde ela está... O interlocutor conhece muito de música, e suponho que tenha conectado imediatamente a sugestão de Alucinação e esta à sua condição. Tentou sair-se com um trecho dela, Amar e mudar as coisas me interessa mais, apenas se esquecendo que um único verso solto de qualquer música pode defender até Lúcifer. Expresso uma declaração mais direta e abrangente advinda dessa mesma obra:
A minha alucinaçãoÉ suportar o dia-a-diaE meu delírioÉ a experiênciaCom coisas reais...
Sim, é isso: a minha alucinação é calcada no dia-a-dia, no real, sem dissonância cognitiva nem entregando-me à delusional perspectiva de que toda a direita é uma só, a extrema-direita. Trata-se de uma confusão épica, monumental, colapsando direita, extrema-direita e Centrão em uma única categoria. O Centrão de Valdemar Costa Neto, um dia aliado de Nosso Amado Presidente (NAP) e preso no escândalo do Mensalão, hoje parça de primeira hora da família bolsonéscia - ela própria aliada ao Centrão - não pertencem à extrema-direita. Misturando tudo, PTlhos enganam-se ao julgar todas as propostas igualmente fétidas, sujas e abjetas. Aliás, para que ler as propostas dos outros se eles mesmos não as têm?
Creio já ter comentado(?) sobre bolsonéscios: não comemoram possíveis vitórias advindas de argumentos, porque não argumentam; eles no máximo festejam esquivas quando conseguem mudar de assunto ao sentirem-se emparedados. Com PTlhos não é diferente. Na continuação do diálogo acima, o assunto em desenvolvimento era outro, mas então chega, do nada, esta pérola; um pequeno mantra de bolso (risos!) para repúdio instantâneo de inimigos ideológicos que poderia constar em... um livro pequeno, encadernado em couro sintético preto, com letras douradas na capa: Manual do Messias - Lembretes para a Alma Adiantada, de tão iluminado, profundo e edificante. Donald Shimoda ficaria enciumado. Sem entrar no mérito: percebem a diferença de estilo? Enviei para o sujeito perguntas simples, para responder com sim ou não. O propósito é fazer o infeliz refletir. Qual é o contra-ataque? Uma sequência de fatos, acusações e julgamentos morais fundidos em uma única categoria e, pior, voltados contra quem eu mesmo critico. Agora, entrando no mérito: tirando um ou outro fato pontual, as demais implicações serviriam a NAP tão bem quanto a Bolsonéscio (pai). Vejamos: Machismo e misoginia? Por onde andarão as mulheres de grelo duro(!)? E a Clara Ant, que recebeu cinco homens em sua casa e - segundo NAP - acreditou ser um presente de Deus? Estão aqui. Homofobia? Pelotas foi classificada como um polo exportador de viados (sic). Precisa mais? O sujeito pode ser estúpido (segundo Bonhoeffer) a ponto de dizer que novamente estou "na bolha", inventando... bem...
O crème de la crème PTlho para rejeitar Renan Santos em particular está em criticar sua postura de aparelhar o país com a bomba atômica. Pasmem: o argumento foi dado por três pessoas diferentes, que não se conhecem e votam (ou votavam) na esquerda. Um, convenci em dois minutos. Não, não foi bem assim. Falei durante dois minutos. Depois a pessoa fez o dever de casa: foi pesquisar e ela mesma retornou com suas descobertas. Declarou estar reavaliando a opinião anterior. Ela apenas fez o óbvio... PTlhos mais encarniçados insistem em dizer-se contra essa política. Ignoram um ditado ancestral, Si vis pacem, para bellum - Se quer paz, prepare-se para a guerra (atribuído a Flávio Vegécio, publicação incerta, próximo a 450). Trazendo a discussão para mais próximo, em Crônica de Uma Guerra Secreta Sergio Corrêa da Costa nos traz os planos atribuídos a Perón para aliar-se aos nazistas e tornar-se o grande ditador da América do Sul sob o nada sutil vaticínio de que Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso. Essa abordagem dialoga com o pensamento de Lord Palmerston, As nações não têm amigos eternos ou inimigos perpétuos; elas têm apenas interesses permanentes. Tucídides nos brinda com Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem, e George Washington colabora com É uma ilusão esperar favores desinteressados de nação para nação; aquilo que uma recebe como favor, acabará pagando mais tarde com a sua própria independência. Estúpidos insistem em desprezar conceitos históricos em favor de alguma posição não beligerante. Por maior que seja minha boa-vontade com o pacifismo de Gandhi, as opiniões de tantos outros estadistas e pensadores contrapõem-se à solução não-armamentista. Desprezar isso é ser um estúpido aderente à terceira lei de Carlo Cipolla: o estúpido prejudica os outros sem obter benefício para si. Os idiotas tampouco percebem que a lógica da posse de uma bomba atômica está centrada na dissuasão: eu não ataco você, e você não me ataca. Forças convencionais não possuem tal poder de desencorajamento.
Antes de terminar, uma palavrinha sobre os Uóques. Eles acreditam que NAP de fato trabalha em favor dos pobres. Não conseguem entender - ou simplesmente desprezam - os gastos com juros da dívida versus o montante efetivamente destinado aos desfavorecidos. É algo como um quinquagésimo do que se gasta com juros. Esse povo não sabe fazer conta. Sustentam a decadência do Ocidente e, em sua grotesca concepção civilizacional, feita de valores e virtudes não liberais, mas libertinos, apresentam-se em evento oficial do Ministério da Saúde com esta,
Estes exemplos são mais ricos porque bolsonéscios são idiotas demais para debater, e deles só vem o silêncio. Já PTlhos consideram-se uma casta mais nobre, elitizada, tentam argumentar - contando com o refúgio da dissonância cognitiva quando necessário - e assim portam-se como o último bastião de alguma coisa. Do meu ponto de vista, quando alguém/alguma classe considera-se um último bastão de algo, é porque o país está suficientemente idiotizado para tomar a contra-mão da história. Não por acaso o editorial a revista The Economist tem por título Brazil turns its back on the future, elogiando o plano econômico de Renan Santos que promete, dentre outras, acabar com as favelas do país. Em 20 anos de poder, NAP apenas as ampliou. Estúpido é quem não vê.
Está longo, mas este tiro no escuro é necessário. Ninguém flerta tanto com a estupidez quanto bolsonéscio. Alardeou pelos quatro ventos sua ida ao último debate. Não se tocou de quem o promove, franca aliada de NAP. O Presidente já disse que não comparecerá. Adivinhem se na última hora não chamarão Renan Santos? E não estranhem se os outros dois participantes trocarem perguntas entre si e com Renan, deixando para este torpedear o costado bolsonéscio com as perguntas mais constrangedoras de todos os debates da história deste país. Essa perguntas - e as repostas, seguramente idiotas - constituirão a munição preferida para um eventual segundo turno contra o desavisado. A estratégia está armada. O eleitorado pode desarticulá-la completamente, votando em Renan Santos, número 14.