Monday, September 15, 2025

Uma postagem de emergência

Introito: uma grave distensão social

Charlie Kirk, ativista de direita, foi assassinado nos EUA no último dia 11. Inicialmente supôs-se alguém de esquerda, e a direita brasileira foi rápida - até demais - em declarar encerrado o diálogo com ela. As suspeitas recaem agora sobre um rapaz de direta, que acusava Charlie de extrema direita (sic!). Charlie Kirk era um jovem de 31 anos, conservador e cristão. Portanto, sem nenhuma combinação comigo, nessa primeira visada. Já o vira debatendo muitos anos atrás. Vivaz, eloquente, duro e direto mas nunca desrespeitoso: o adversário que valoriza qualquer evento onde valham a troca de ideias e a honestidade intelectual. Acompanhei pouco sua trajetória, porque provavelmente alguém trazia esquerdopatas retardados para debater com ele, tornando o massacre previsível. Não é possível que a esquerda norte-americana seja tão descerebrada. Bem, a nossa não é tão melhor. Mas lá tem Ha-Ha-Harvard, e outras... voltemos ao Charlie. Seus defensores diziam-no absolutamente contrário a qualquer forma de violência - eu também, até quando sentir-me sob ameaça. É fácil tirar essa dúvida sobre ele: se alguém me enviar um vídeo do canal dele promovendo ódio, eu vou assistir e manifestar aqui. Outras fontes - possíveis edições - não serão aceitas. Charlie Kirk foi assassinado enquanto buscava o diálogo - é impossível contrariar isso, ele estava 'lá' justamento para promovê-lo! Foi um ato baixo, e é-me difícil imaginar como alguém possa descer tanto vibrando com esse fato. #soquenao. Tranqueiras humans fizeram exatamente isso. O vídeo é um pouco longo (2 minutos) mas deve ser assistido; tem por bônus, além de uma declaração nojenta, uma resposta a altura. Creio que a fonte dispense os créditos. Quem não o conhece - é um estúpido, mas não vem ao caso - , saberá dele em breve.


   Como é isso? Alguém rindo e comemorando o assassinato de quem, até o momento, nada desabona senão ter ideias dissonantes das de outros, minhas inclusive? Não é o que meus valores morais ditam. Repito: não tinha qualquer combinação com Charlie Kirk; na primeira visada tínhamos ideias opostas. Mas alguém comemorar sua morte só seria justificável - embora nunca aceitável - se o caboclo pertencesse à facção cuja missão fosse sua execução. Fora isso, trata-se de vileza em seu estado mais puro e acabado, intolerável, ato digno de mais definitiva reprovação. Registre-se: eu seguia o cidadão no Youtube há muito tempo. Seus comentários sobre Santos Dumont soaram como uma afronta à historiografia mais básica, mesmo para um alienígena na área como eu, e tive certeza de que ele mudara sua alimentação para bosta, com os devidos efeitos deletérios em sua percepção. Decididamente, não estava errado em abandoná-lo. Por comentário final, vai uma para os bolsonéscios-raízes. Os mais próximos a mim nada disseram a respeito da monstruosidade. Não surpreende: estúpidos defensores de personalidades teriam de ficar alheios a esse fato, pois eles não discutem ideias. É clichê, mas é o que tenho por encerramento: vamos de mal a pior.

PS: perdi o crédito da imagem de abertura. Sei que o autor me perdoará.

A Paduca correndo por fora

Nesse meio tempo a Paduca realizou várias reuniões. Venho iniciando meus discípulos em branquinhos nojentos, e eles estão apreciando as experiências. Essa não foi a primeira, preciso até recuperar a anterior. E dá uma ideia de como as postagens estão atrasadas: Deux Roches Saint-Véran 2023 foi degustado inclusive com as Malucas, e volto nesse ponto ao longo do texto. Saint-Verán é uma região simples na Borgonha: sequer tem algum vinhedo Premier Cru. Seus vinhos são frescos, frutados e invariavelmente chegam prontos para serem desfrutados. E este 2023 não é exceção: pense em um vinho simples mas sem arestas. Por branco, cítrico esperado - estava lá! -, em boca mineralidade discreta como um bônus, gracioso com a ausência da madeira (ela não comprometa a graça, efetivamente), com notas de frutas brancas, acidez combinando com a estrutura até algo modesta, complementando-a bem. Esse é o retrato de Deux Roches, um vinho descompromissado mas alegre como diria o Akira, bom para uma entrada com queijos leves. Não tem grande final ou permanência - mas queria o quê, para um borgoinha que deve valer uns USD 12,00, algo assim? Comprei a R$ 130,00; o leitor tem alternativa de Borgonha para me indicar, nesse valor? Vi outro dia uma 'promo' de Saint-Véran a R$ 180,00, na safra 2018. Para mim está passada - são vinhos de consumo rápido! Enviei a oferta de Deux Roches para as Malucas, explicando o que se podia esperar de um Saint-Véran. Acostumadas com Chablis, elas passaram, de nariz empinado. Experimentamos em algum momento e perguntaram-me se eu tinha alguma garrafa sobrando. Como é? Nuts!


   Carcarás! Depois que me f#d! pra pagar? Agora é meu! 😆 Já não estou seguro se na segunda compra ofereci novamente a oportunidade para as  Malucas... mas suspeito não deixaram passar não senhor. Ah, bom... Aprenderam? 😒

   O tinto foi uma armadilha artimanhosamente (rs) preparada para os Paduquentos. Fez parte de uns vinhos menos ruins (Meandro do Vale Meão e Braccale) ofertados em kit especial a R$ 499,00, e os convenci a comprar. Na primeira taça, ergueram as sobrancelhas em espanto e regozijo. Na segunda, olharam em direção ao firmamento - mesmo com dois pisos de concreto sobre suas cabeças. Na terceira, miraram ostensivamente este Enochato a vos escrever, e visivelmente seguraram imprecações. Essa foi a trajetória do blend Alma Negra 2022 em suas bocas: para mim enjoativo em primeiro momento, a eles agradou na primeira abordagem mas não foi muito longe; eles logo enjoaram e se enojaram com a sua composição: dulçor excessivo sem a devida acidez para compensar, baunilha escorrendo pelas bordas da taça e sobrepujando outras notas. Boca num doce desequilibrado comprometendo toda a estrutura, facilmente perceptível para quem está um pouco acostumado com vinho, mas possivelmente na crista da onda para tudo quanto é boca torta, tudo o que é nego torto, errantes, cegos, retirantes... se me entendem... Essa porcaria de produto é como descrevo, jornalisticamente, Alma Negra. Algum picareta deu-lhe 93 pontos quando não deveria ter ido além de 39, e os Paduquentos perceberam isso rapidinho; não se fizeram de rogados em socar-lhe as devidas críticas sob a recomendação de eu nunca mais pegar qualquer oferta onde ele entrasse. Com desconto, saiu a uns R$ 166,00 - o Capiroto quase vibrou (faltaram outros 500 - risos!), batendo nervoso na mesa ao notar o fracasso em captar para seus domínios almas honestas de bom coração como os Paduquentos. Mesmo com preço majorado, encontra-se o bom Chocapalha a uns R$ 125,00 e para quem está jogando fora R$ 150,00, o Ferraton Cotês Du Rhone Villages Plan de Dieu está aí por R$ 180,00, basta Googar. Detalhe: o preço cheio dessa ofensa engarrafada chega aos escorchantes R$ 215,19 - se levar uma versão impressa desta resenha na loja garanto que deixam por R$ 215,00. Azazel - o do Asimov - em meu ombro sugere que sairia de graça. Quem leu alguns dos contos do Grande Mestre sabe que a estória pode acabar bem mal...


   Se for para comprar no preço cheio, Googa "Ferraton Crozes Hermitage", e encontre o La Matinière por R$ 260,00, mas se prestar atenção em algum Empório tem a R$ 199,00. Não dá! Alma Negra é ótimo produto para bolsonéscios e PTlhos mais abonados, pois se soubessem escolher alguma coisa - vinho, no caso - acabariam em ofertas melhores e deixariam-me na berlinda sem muitas opções. Também vai uma provocação aos detratores do blog - por onde andarão? Não que façam falta... mas ficam aí a defender o preço cheio das importadoras tubaronas com argumentos obtusos, enquanto, na porta dos fundos, a mercadoria é desovada com 30% de desconto. Fazendo a conta, significa que vem de 3x para 2x... Não podem sugerir contrabando - como tiveram o desplante de fazê-lo um dia. Mais cuidadoso, agora registro a procedência e provoco: como é mesmo que tentam justificar tanta diferença entre o preço 'lá' e o preço 'cá'? Uma parte está em seus bolsos(néscios) de alguma maneira, diretamente como grana em caixa ou indiretamente com descontos mais generosos ainda. Espero que seja como desconto, e em vinhos como este.


Sunday, September 14, 2025

Reunião no 7 de Setembro, e mais

Introito

Nosso Amado Presidente - NAP - é tido por seus detratores como o maior bandido deste país, e o maior corrupto do mundo em todos os tempos. Em alguma realidade paralela eu não sei se eles estão errados na primeira parte, e quanto a quem foi o maior gatuno da história, se pegar os desfalques do Círculo Interno de Hitler (Himmler, Goebbels e Göring) e atualizar o montante para hoje, há uma ligeira chance de fazerem sombra a qualquer um. Note: uma ligeira change. Seja por desvios para fins pessoais ou suborno de altos oficiais  nazistas (olhalá as raízes da compra de votos de partidários), rolou muita grana por fora. O documentário da imagem ao lado não aborda a malversação do dinheiro do contribuinte alemão, mas dá uma ideia de quem foram os atores das malandragens. Hoje e aqui, o 7 de Setembro, data quando eu menino aprendia sobre cidadania como a promoção de valores cívicos, vem-se tornando mais e mais uma manifestação política. O civismo nos foi roubado por pulhas em camisetas de diversas cores, acusando-se mutuamente de traidores da Pátria. Se encontramos alguma diferença entre eles, consiste no fato de Bolsonéscio sê-lo há menos tempo, mas convenhamos: inexiste qualquer mérito nisso. O ex-Presidente tirou-nos de uma fase de regozijo - corruptos presos, julgamentos em curso e investigações tirando o sono da raposas do sistema - para uma sequência de patifarias institucionais incluindo o desmonte da Lava-Jato e aprovação de leis para tornar mais complexas quaisquer operações contra fraudes e estripulias para com o erário. O que começou com júbilo terminou em sua melancólica condenação no dia 11 de Setembro último. Por mais mambembe que tenha sido o teatro de sua condenação segundo seus defensores, o resultado líquido é positivo: Bolsonéscio atrás das grades estará onde merece, pagando agora pelos crimes até ser julgado novamente por um tribunal algo isento (como se isso fosse uma solução possível; claramente falamos de um delírio criativo). Não é o melhor exemplo de democracia, mas é a democracia possível tem tempos tão conturbados. O fato de na reunião termos abordado um pouco de política e nada sobre a Pátria reflete o quanto estamos contaminados pelo entorno polarizado de parte da sociedade. Uma pena.

As Malucas no 7 de Setembro

Alijados da companhia da Luciana, as Mulacas reuniram-se em minha humilde choupana e a Liu chegou com seu branquinho da Alsácia, o Wolfberger Riesling 2022, delicado, agradavelmente floral, alguém falou em mineralidade, e tinha. Por conhecer a assinatura da Riesling na Alsácia, fui procurar, e estava lá: para mim vem à óleo Singer. Não qualquer óleo, mas aquele de máquina de costura que nossas mães usavam nos anos sessenta, setenta: Singer. As meninas refletiram e saiu um Agora que você falou... e um Mas não é óleo Singer, é aquele de isqueiro... 🤨 para mim era o Singer, e pronto... a boca também refletia um pouco de fruta branca, a acidez estava elegante, pronunciada, marcando as papilas por um bom tempo. Um vinho bastante honesto, e uma pesquisa rápida indica estar disponível ao custo de R$ 150,00. Importado pela Domazzi, que muitas vezes tem grupos supermercadistas como vendedores finais, possivelmente tenha margens um pouco mais apertadas. Na faixa proposta, é bastante digno. 

O tinto para acompanhar a pizza foi o Donna Maria Cabernet Sauvignon 2016, servido inicialmente às cegas. Foi divertido, o pessoal ficou inicialmente perdido, refugiando-se no perigoso argumento de O Carlos não serviria isso... Foi apreciado por todos os confrades, e não fez feio na harmonização com pizza. Buquê com fruta misturada a toques de especiaria, e na boca repetia o olfato do pimentão típico de vários chilenos, mas sem desarmonizar. Alguém comentou compota também; a madeira estava lá, discreta, e tinha mais detalhes, mas a dificuldade geral foi fazer a conexão. Agradou e as meninas perguntaram onde tinha, desejosas de eventualmente adquirir alguma garrafa. Antes fácil de encontrar no Chile, não vi outras garrafas nos últimos anos. Também não é encontrado em nosso mercado com facilidade, mas aparece em alguma busca do Google, embora sem mostrar o preço. Se mudou de importador, há chance de estar a preço mais razoável; anteriormente estava em uma grande tubarona e Don Flavitxo reclamava de ser muito caro. Acima de R$ 150,00 o bebedor pode encontrar algum Noval Syrah sobrando por aí por alguns reais a mais, e a competição fica desproporcional a ponto de não valer o investimento. Volta e meia existem opções de espanhóis, como o Ramón Bilbao Edicíon Limitada a R$ 170,00, ou o australiano Peter Lehmann The Barossan Syraz 2021 a R$ 180,00, e a competição fica difícil para o que se pedi por chilenos na maior parte das vezes. Se encontrar por R$ 90,00, vá com fé (só não acredito se será o caso).

Novamente a Maluca

Mesmo com baixo quórum a Maluca reuniu-se novamente no dia 12. Com a Liu e o Mário, e o restaurante Barone como fundo, resolvi realinhar meu quociente de vinhobão no sangue então perigosamente baixo. Enquanto o Ramón Bilbao Edición Limitada 2020 do Mário era servido em quantidade mínima para início dos trabalhos, o meu vinho resfriava um pouco mais. Com a temperatura mais equilibrada, pudemos aproveitar melhor deles. A segunda rodada do Ramón Bilbao chegou pleno de frutas - achei que vermelhas - e uma picada de especiaria. 100% Tempranillo, acho que esse detalhe é proveniente da madeira, presente mas não agressiva. Boca com taninos pegados: talvez amaciem em 3-5 anos, sugerindo potencial de guarda maior. Acidez média com boca redonda, bom equilíbrio entre álcool, madeira, tanino e açúcar revelam um bom vinho. O valor mais baixo na Espanha, via Wine Searcher, é USD 13,00, e nos EUA a USD 21,00. Pagar R$ 170,00 por ele aqui é uma boa aquisição, não resta dúvida. É um produtor 'médio' de Rioja, embora seu Mirto destaque-se; bebi dele uma vez, por obra e graça de Don Flavitxo, em evento não postado. O Fontodi Chianti Classico 2010 chegou fechadão - malditos italianos - mesmo sendo 2010. Denorou para abrir, e inicialmente estava tímido. A cereja eu já esperava em um Toscano, e a certo momento apareceu chocolate ao leite. Ao leite: identificável assim mesmo, como cabe a um bom vinho. Durante boa parte do tempo ficou equilibrado por baixo, sem nenhuma exuberância. Ela começou a chegar no final da noite - acho que os confrades já não estavam bebendo dele, eu fui quem insistiu em uma taça, e explodiu no dia seguinte, ontem. O olfato encontrou o paladar, ambos ricos, boa acidez, taninos domados, madeira discreta, enchendo a boca e com ótimo final, marcando bem as papilas. É vendido aqui por importadora tubarona a mórbidos R$ 624,15 - é um bom vinho, mas existem ótimas compras nesse valor, como o Brise Cailloux, Cornas do Domaine du Coulet postado recentemente.

   Com duas postagens em uma, não admira o texto estar grande. Vinhos começando a R$ 150,00 e estendendo-se a R$ 624,00, com predominância na faixa de R$ 200,00 mostram algumas opções para leitores dispostos a investir um pouco mais. Um Fontodi, a USD 40,00 lá fora, ainda vale ser trazido na mala. E viva a tubaronice.

PS: para quem me acha um mentiroso quando recobro fatos passados, fica um tira-teima: estão aí este Enochato e o Mirto.


Saturday, September 6, 2025

Nos finalmentes do Niver do Ghidelli

Terminando o níver do Ghidelli


Trocando uma ideia com Flavito, peguei a conversa do último vinho já adiantada: a Elvira comentava algo sobre Cabernet Sauvignon e vinhos franceses. Argumentei - como já fiz aqui várias vezes - sobre a delicadeza da expressão da CS em Bordeaux em geral e principalmente em exemplares mais especiais, e como sua expressão é diferente daquela que os bebedores dos chilenos amadeirados do início do século estão acostumados. Àquela hora meu nariz estava meio pifado, e quando um nariz meio-pifa (rs) a tendência do cérebro é confundir a fruta com Maizena, o chocolate com chicória e o herbáceo com abobrinha. Até pensei em falar sobre uma ligeira picância de meio de boca ser referência à Cabernet Franc, mas deixei passar. A boca estava identificável, com boa acidez e taninos, mas para mim - e só para mim - estava um pouco impenetrável. Os confrades acharam muito rico de nariz e boca, elegante. Não duvido. O Château Gloria 2015 é um Saint Julien - as principais cepas são a Cabernet Sauvignon e Merlot, complementadas por Cabernet Franc, Petit Verdot, e ocasionalmente Malbec e Carmenère. Segundo o sítio do produtor, nessa safra o corte foi 60% Cabernet Sauvignon, 27% Merlot, 6% Cabernet Franc e 7% Petit Verdot; veja o sítio aqui; uma descrição histórica do vinhedo está aqui. O proprietário nunca o inscreveu para ser reconhecido como Cru Bourgeois, demonstrando sua confiança no produto; Gloria tem a fama de ser um bom vinho per se, dispensando outras formas de impulsionamento. Seu valor de mercado na safra 2015 começa em USD 60,00 nos EUA, enquanto o Chateau Cantemerle, um Quinto Vinhedo na Classificação de 1855 está cotado em USD 40,00. Curiosamente comecei a falar do Cantemerle. Ele e Gloria podem ser encontrados na mesma importadora (não são exclusivos, parece), e Cantemerle custa um tanto mais caro: na boa safra de 2008 está R$ 1.020,00, enquanto Glória na ótima safra de 2019 está R$ 990,00... Parece-nos uma revelação: por aqui - terra de tatus, bolsonéscios e PTlhos idiotas (soa redundante, mas eles dividem-se principalmente entre idiotas e gatunos) - valoriza-se alguma rotulação do vinho antes de sua qualidade intrínseca. Lá fora a categoria parece vir primeiro, pois Gloria custa mais em todos os lugares onde olhei. E a diferença entre as safas disponíveis aqui é gritante... 

Por sobremesa - e falando apenas dos vinhos - tivemos um Taylor Fladgate 20 anos, garrafa já apreciada pela confraria mas talvez não postada. Portos 20 anos são sempre um prazer, pois nessa idade as frutas secas dão o tom principal, com outras notas bem presentes - mas já estava faltando cheirador.  Boca agradável, equilibrada, acompanhando o nariz, acidez presente, bom final, persistente. Foi mais fácil de apreciar se comparado com o Gloria; a boca pareceu ressuscitar... E mudou de vez com o Vin de Constance 2020, um sul-africano típico de sobremesa 100% Muscat de Frontignan (já ouviu falar?) botritizada, com buquê muito pegado à flores - a Elvira constatou com uma exclamação de satisfação plena -, mel e mais complexidade. Bastante doce em boca, mas a acidez igualmente alta deu-lhe um equilíbrio espetacular, apresentando fruta branca e damasco: inesquecível. Esse exemplar veio na mala da Cínthia, filha da D. Neusa que precisou visitar o país por conta de algum compromisso profissional e foi instada a encher uma mala para a confraria (risos!). Esse estilo de vinificação é muito antigo: conta a lenda que Napoleão teria pedido uma taça dele em seu leito de morte. Os Pais da Nação (EUA) também o apreciavam muito, e eu estava curioso por degustá-lo. Valeu até a última gota, e espero ter outra oportunidade antes de comparecer à próxima gestão do Senhor...

   Walew, Ghidelli! Wallew, Don Flavitxo! Walew, Confraria!

Tirando a prova


Château Gloria e Cantemerle, pela mesma importadora tubarona. Custando mais lá fora, Gloria aparece aqui por preço menor. Ainda assim está cerca de 3x... melhor trazer de fora.



   
Gloria lá fora... os dados não mentem...


Friday, September 5, 2025

O Níver do Ghidelli

Introito: VTNC

Não é culpa de quem nasceu sem oportunidades ser ignorante.
Mas quem estudou e continua ignorante é plenamente culpado - de tudo.
Oenochato

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade 
do que as mentiras.
Nietzsche, mas bem poderia ser 
qualquer brasileiro sensato
dos dias de hoje.


Notícias metafísicas alertam que o Espírito Santo está ausente; dirigiu-se a uma dimensão paralela corrigir o equívoco onde Nosso Amado Presidente (NAP) foi acusado injustamente de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em ação penal envolvendo um triplex em Manhattan, defronte ao Central Park. Por aqui, a capa da revista Crusoé de umas poucas edições atrás retrata NAP como apresentador de circo, clara referência a um programa dominical onde Sílvio Santos oferecia dinheiro aos participantes de suas competições valendo-se do bordão Quem quer dinheiro? A reportagem comenta como NAP supostamente prepara um auxílio de 30 bilhões entre linhas de financiamento e redução de impostos para alguns empresários valendo-se de critérios não muito claros na escolha dos beneficiados. A ajuda aos amigos do Rei é uma prática milenar, uma tradição por assim dizer, e ante a força do hábito não há muito do que reclamar, se o leitor não morar em um país moderno e civilizado. Crescer e ganhar o mercado internacional é uma opção do empresário. Mas é uma opção de risco, e o empreendedor deve estar ciente das ondulações inerentes a esse tipo de operação: bloqueio por parte das superpotências, pirataria, tempestades, fechamento de rotas por outros motivos. Na dificuldade de exportar, o excedente pode ser desovado no mercado interno e adjacências, a preços mínimos e em benefício da população local - seria até um reforço a relações de amizade, indispensáveis para com países fronteiriços. Um governo verdadeiramente de esquerda abriria mão de parte dos impostos - cobrados diretamente do consumidor - em vez de abrir linhas de crédito a quem já tem muito, favorecendo quem vem primeiro em seu discurso, o excelentíssimo povo. E se alguma parte da cadeia não fizer sua parte, ora, nesse momento a tão odiada Medida Provisória, com validade entre 60 e 120 dias, mostra-nos sua face honesta, digna e útil enquanto ferramenta legal para o próprio governo enfrentar tempos difíceis e promover justas punições a quem tenta ganhar mais tem tempos de crise. Assim, ouvir a ideia de NAP financiar tal dificuldade como vem propondo obriga-me a reagir com asco e veemência, recomendando-lhe um sonoro VTNC! NAP, aproveite-se da ausência do Espírito Santo causando uma  Vacância Trinitária na Natureza Celeste e, como a alma mais honesta deste Universo em todos tempos, ocupe seu lugar à esquerda do Pai - posição claramente mais elevada do que a direita (rs!). Até aponto o lado porque se deixar és capaz de dirigir-se para a direção errada, senil que estás. É isso: Lula, VTNC, dá até adesivo de carro! Diga aí, PTlho de plantão: foi nesse projeto de país perdulário em que você votou? Deveria NAP mandar 30 bi para empresários abastados ou reduzir os impostos dos cidadãos comuns?

O Níver do Ghidelli

Aniversariando com cada vez mais empenho e dedicação, o Ghidelli comemorou seu sexagésimo sétimo aniversário em grande estilo e prometendo ser apenas o primeiro de vários skenta para o septuagésimo. A ver. 

O início dos trabalhos transcorreu sob uma Xampa, a Barbier-Louvet Cuvée D'Ensemble Grande Cru, engarrafada em 2020 e entregando muito frescor e equilíbrio, tudo bem balanceado e sem arestas. Não sou conhecedor de Xampas, mas comprá-la a uns R$ 252,00 na pandemia foi grata oferta. Quisera perdurasse... Atualmente a Enoeventos pede R$ 397,60 pela Premier Cru - paguei 231,00. O dóla valia R$ 5,40, não muito diferente de hoje. Uma pena ela ter descambado para a tubaronice. Mas se procurar com cuidado sobram algumas garrafas a bom preço lá. Wine Searcher, nunca sisqueça! O camarão com Mascarpone - já tradicional em nossas reuniões de gala - acompanhou um Tondônia Reserva 2012 Branco. É sempre um prazer abrir um Lopez de Heredia, e se for da linha reserva a felicidade só aumenta. Nariz cítrico com mais notas a desvendar e toque herbáceo, boca com aquele oxidado, marca registrada, boa acidez, persistente, deixa saudades quando a taça chega ao final. É ótima pedida para acompanhar camarões. Seu preço por aqui é proibitivo - a menos que o leitor encontre um desses vendedores de redes sociais que desovam algumas garrafas da importadora-tubarona, mais não é muito comum achar o branco. Esse foi trazido de fora.

Aqui começam uma das bolas divididas do encontro. Se entendi bem, Masdache 2023 é produzido pela Puro Rofe, uma vinícola fundada em 2017 nas proximidades de Lanzarote, Ilhas Canalhas (sic! rs!). Devido aos ventos fortes as vinhas são conduzidas rente ao solo e amparadas por providenciais muretas de pedra. O sítio está em construção, mas aqui tem outras belas fotos do local. Composição de vinhas centenárias, Masdache é um corte não linear (sic rs!) de Malvasía, Diego, Listán Blanco, Listán Negro, Negramoll... tirando a primeira cepa, já ouviu falar de alguma outra? O toque mineral está lá - veja a cor do solo! - cítrico, acidez muito (muito mesmo) presente - safra nova? - ótima boca, no sentido de persistente, e bom equilíbrio, com 13% de álcool e madeira discreta. Se não lesse na ficha técnica não diria ter... Um vinho surpreendente; merece ser degustado. Não é barato (50 dólas), mas está numa faixa que pode ser posto na mala e trazido para compartilhar com confrades incautos... porque pelas cepas do corte um bebedor mais conservador passaria longe. Walew, Ghidelli! Ah, sim: o aniversariante declara as Ilhas Canárias como terra de seus ancestrais, de algumas gerações atrás. Ele curtiu muito quando falei das Ilhas Canalhas, apresentando uma paronomásia em forma de trocadilho.

As ofensas se escalaram com os tintos. Nojento, Don Flavitxo trouxe seu vinho embrulhado. A mulherada sugeriu um Pinot(!); passei longe da cepa, tendo chutado espanhol amparado numa vaga lembrança do Mas Borràs (Pinot!), mas sem fazer a devida conexão. A expressão da Pinot à qual estou acostumado não é aquela; o palpite foi pelo estilo, e não pela uva! E para piorar tudo, era mesmo um Pinot... Incursão da prestigiada Maison Drouhin no Óregon nos EUA iniciada em 1987, imagino que o Vale do Willamette tenha sido escolhido após alguma pesquisa em diversos estados cuja característica comum seja a latitude, bem similar à da Borgonha (Oregon, Washington, Idaho, Michigan, Vermont e Nova York gozam dessa característica). Para mim, a questão se resume assim: o (bom) produtor sabe, e ponto. Se os Drouhin escolheram o Oregon como ponto para suas prospecções, a este idólatra de Baco resta provar e aprovar a oportunidade que veio pelas mãos generosas de Don Flavitxo. Vou abrir um parênteses.
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   Até beber um Borgonha legal, a Pinot nunca me convencera; a postagem Meu Primeiro Valisére (2013) mudou minha percepção sobre ela em definitivo. Antes disso, eu havia trazido do Chile o Leyda Lot 21. Pagara no mercado regular uns USD 40,00, valor próximo aos ícones Don Melchor e Don Maximiano no frixópi de saída do Chile (USD 50,00), sob o comentário do vendedor dele ser o melhor Pinot do Chile. Abri algum tempo depois com o confrade Cesar Matemático (rs), rapá de boa índole tanto quanto bom gosto, e nos olhamos com certa decepção: Esperava mais - dissera um. Eu também, retrucara o outro. A amizade até continuou (risos!), apesar do abalo - ele também nutria boas expectativas para com o Lot 21. O tempo passou e reposicionou o blefe: presentemente paga-se USD 25,00 por ele no Chile (mas se procurar, encontra por USD 15,00). O preço não apenas não se sustentou, ele caiu, passados uns 20 anos, a inflação pela qual atravessou o país e a (super)valorização dos vinhos chilenos em geral. Corta a cena, vamos para o Oregon, um produtor de primeiro nível viaja literalmente meio mundo, se estabelece em um lugar alienígena, abraça a tarefa de produzir um vinho e suas versões mais recentes de Dundee Hills  estão à venda por... USD 35,00-USD 40,00! Tem qualidade muito superior ao que se produz do lado debaixo do Equador, sem dúvida, mesmo não alcançando a similaridade com a Borgonha. Talvez o tempo comprove a proposta do produtor - serão décadas(!); o próprio enólogo da Catena, Alejando Vigil, admite isso -, e nenhum leitor estará aqui para conferir, mas pouco importa; produzir vinho é um projeto de gerações, digno somente dos maiores sonhadores. Drouhin é mais honesto em sua proposta do que 105% de todos os produtores da América do Sul. E Dundee Hills sequer figura entre os vinhos mais caros da região. Aqui, a métrica é diferente: querem cobrar-nos o valor de um vinho acabado pulando toda a etapa da evolução de cinquenta anos ou mais necessárias para um projeto de monta decolar. Estão certos, afinal este é um país de estúpidos onde as exorbitâncias não são reconhecidas.
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   Para felicidade geral o Imperial Gran Reserva 2017 chegou para resignificar (rs) a palavra elegância: muita fruta madura, café ou chocolate (qual?) com mais notas e madeira com presença. Os taninos amaciaram, a expressão geral é de corpo médio amparado em boa acidez, permanência acima da média recheado de frutas e mais toques. Custa uns 70 dólas na Espanha, e R$ 990,00 por aqui, na Grand Cru (R$ 850,00 para assinantes). Dá um pouco mais de 2.6x, um tanto acima do razoável; existem muitas opções melhores. Apenas por curiosidade, a Gran Cru também traz o Lot 21, a R$ 530,00 para meros mortais e R$ 450,00 para assinantes. No Chile, como dito, acha por até USD 15,00, o que dá R$ 82,00 e aí a proporção (preço cheio) salta para 6.46x(!). Isso sim é tubaronice! Tal discrepância sugere registro, mais abaixo.

   A postagem está demasiado grande - e excessivamente atrasada. Termino na próxima.

O que se pede pelo Lot 21 aqui...


Leyda Lot 21 Pinot Noir, preços no Chile e no Brasil. Varia bastante por lá, entre 16.000 e 28.000 Pesos, o que dá entre 16 e 28 dólas. Aqui, R$ 530,00.








Wednesday, August 20, 2025

Maluca enxertada

Introito




Compreender ciência & tecnologia é de suma importância para não sermos enganados por boatos. A IA de hoje em dia até pode ser A(rtificial), mas sem dúvida está longe de ser I(nteligência). A pergunta descuidada, "Qual o maior ministro da educação do brasil?" feita direto no Google recebe por resposta que Andrada é frequentemente citado como um dos mais notáveis devido... às políticas implementadas, como o Programa Universidade para Todos e o aumento do acesso à educação superior. Quem é minimamente informado sabe: o Brasil caiu nos testes internacionais do PISA nos anos subsequentes ao início de sua administração, e a sequência negativa adentrou o governo posterior pela obviedade de que os alunos já haviam ingressado no sistema de ensino e ao sair dele, na presidência seguinte, já tinham sua formação comprometida. Isso é tanto verdade que o governo de Ali Lulá gozou de uma variação positiva no primeiro teste sob sua gestão, com alunos advindos das políticas implementadas por seu predecessor. O problema, então, é que a realidade contradiz a resposta(!) da IA, pois o resultado das tais políticas mostrou-se pífio como assegura o teste internacional onde a possibilidade de fraude está absolutamente afastada. Aliás, o desempenho vergonhoso dos nossos discentes jamais foi contestado, e isso legitima o exame. Tem um caboclo com opinião diametralmente oposta à percepção da IA. Ouça, tem 25 segundos e joga luz na questão.


   O sujeito é vereador em Natal, onde nasceu e passou grande parte de sua vida. Tem propriedade para falar, pois sua comunicação direta e objetiva sugere algum estudo e a estatística do PISA está divulgada neste espaço, aqui, onde o leitor encontrará vínculos para três outras abordagens. Torna-se evidente: alguém está profundamente errado, e não me parece ser o edil. Pergunto para os PTlhos: é nesse projeto de país em que você vem votando ao longo das últimas duas décadas e meia? Eu parei de apoiá-lo, e nem foi na metade do caminho, que não sou tão estúpido assim. Qual é, mesmo, o projeto de país pretendido por essa turma? Faustino acertou na mosca, para qualquer um com mínima percepção do óbvio, que melhorar a educação pode até estar no verbo, mas não no ato da esquerda. E isso não é crime de lesa-pátria, é traição. Dizer que Bolsonéscio nada fez - basta ver o currículo e seus sucessivos sinistros - não lhe alivia a culpa. É questão para outro julgamento.

Maluca enxertada

Don Flavitxo comprara 1,5 kg de queijos da Capim Canstra, para não negar suas origens. Desesperado - eram queijos artesanais e deveriam ser consumidos rapidamente - sugeriu uma reunião com as Malucas, e talvez incluir algum reforço. Imaginamos que Don Ghidellito e sua digníssima esposa não se furtariam ao desafio. Bingo. E o mineiro ainda ofereceu um vinho branco, pedindo-me a escolha a partir de um rol com cinco possibilidades. Preferi a abstenção: eram vinhões, tinha até um Capellanía na lista. Esse espanholeto valorizou-se muito de alguns anos para cá, e disparou mais recentemente. O encontro prometia... Acertado o dia, os confrades posaram sorridentes para a foto. Flavitxo trouxe seu escolhido às cegas e serviu um dedo a título de abertura dos trabalhos, esperando participação dos demais na avaliação. Na hora tive o déjà vu amparado - não apenas! - na lembrança do Antonio Madeira branco, provado há não muito tempo. As Malucas - Mário incluído - não arriscaram um palpite mais firme, baseados em suas memórias olfativa/gustativa. Mas perceberam estar diante de um bom vinho. Márcia, Ghidelli e eu fomos direto em português. A Márcia, inclusive, disse lembrar um Cartuxa branco provado em certa situação. Danadinha...

Mais que danadinha...

O branquinho nojento de Don Flavitxo era um Pêra-Manca 2019, produzido pela Fundação Eugênio Almeida, casa do igualmente muito conhecido... Cartuxa! Marcinha foi direto ao ponto... Mário perguntou se tinha um pouco de mineralidade. Tinha, concordou o Flávio. Corte Antão Vaz e Arinto, creio ter vindo daí minha percepção para a procedência: os Tapada do Chaves também levam boas quantidades de ambas, e tive a felicidade de degustar algumas garrafas do Reserva e do Vinhas Velhas. Pêra-Manca tinha nariz com toques bem cítricos e mais complexidade, boca com acidez média e limão repetindo a sugestão do olfato. Tem muito mais sabores para serem desvendados no palato; faltou melhor apreciador. Ótimo volume de boca, boa persistência, não consegui sentir se teria potencial para envelhecer uma década, algo que sobra a um Tapada Vinhas Velhas - aliás, produzido pela mesma Fundação Eugênio Almeida... O preço de ambos é similar, e algo proibitivo: estão na faixa de R$ 1.000,00, embora apareçam aqui e ali ofertas na casa dos R$ 750,00. É um vinho dos seus USD 70,00 em Portugal, então o valor da 'promo' não está ruim.

   Abrindo os tintos, apresentei o Amarone Corte Brá 2008, da casa Sartori di Verona. Produzido com as tradicionais cepas Corvina, Rondinella e Molinara, mostrou buquê rico, mas a maior surpresa ficou para o final, enquanto a Márcia mantinha um tantinho de cada vinho em suas taças - usou até a de sobremesa, para desespero da anfitriã Luciana. Muita fruta madura, especiaria e chocolate/café, este último dueto curiosamente estava expressando muita força na taça dela ao final do encontro. Boca rica, também volumosa, harmonizou bem com um dos queijos - um mais pegado, não lembro-me exatamente qual. Seu preço médio lá fora está em uns USD 50,00, e a versão 'colheita' parece ter dado lugar à Riserva de alguns anos para cá. Se procurar, encontra o 'colheira' por R$ 350,00, o que pode ser classificado ótima compra. O Viña Tondonia Reserva 2010 chegou arrancando suspiros com seu nariz pegado, generosamente frutado - põe fruta nisso... - e algo tostado; boca com bela acidez e volume, um toquinho doce e álcool bem discreto, com pouca madeira, um conjunto muito harmônico que casou muito bem com o Jámon Serrano oferecido pela Luciana. Já provei diversos vinhos do produtor, e nenhum decepciona, pelo contrário: é sempre uma caixinha de surpresas, principalmente pela elegância nunca sobrepujada pela potência e que às vezes contrasta com outros Riojas mais encorpados. A importadora tubarona oficial vende-o a R$ 830,00 - custa uns USD 50,00 lá fora - mas às vezes aparece em mídias sociais por R$ 400,00, e aí fica bom. Esse exemplar foi comprado nessa condição, e o destaque em amarelo no contrarrótulo aponta a casa comercial. Onde estão aqueles canalhas que defendem o preço cheio praticado por elas? Puxa-sacos de plantão, seguramente desfrutam desses generosos descontos desde sempre ao custo de portarem-se como vendilhões do templo de Baco, propagandeando como arautos do capiroto a política rapineira de seus patrões. O leitor não localiza essas páginas nas mídias? Algumas vão e voltam, precisa ficar atento. E cuidado com o descaminho, que (sic) tem muito. Estou fora, sempre pergunto para o vendedor quem é o importador do produto. Havendo, compro.

   O Pintas Character 2021 chegou nervoso. Fruta meio dura, álcool um pouco aparente, taninos pegados, algo herbáceo... acidez média, preenche a boca mas o conjunto não agradou tanto. Foi o que mais sobrou dentre todos - o Amarone secou - e no dia seguinte, depois de dormir na geladeira e ser retirado meia hora antes do consumo, estava explodindo em frutas; o buquê encontrou o paladar e formaram uma aliança sublime, completa, esbanjando graça. Definitivamente, como está (safra 2021) precisa de (muita) aeração para mostrar ao que vem. Recordo-me de outro vinho assim, o Numanthia: não adianta deixá-lo envelhecer e achar que tudo se resolve com uma decantação de poucas horas; é um vinho para o dia seguinte. E meras 12 horas não bastam, são necessárias 24. Nagibin, que provou de uma garrafa com 20 anos e aerada por apenas 12 horas, não me deixará mentir sozinho (risos!). Veja o vínculo e comprove. Por sobremesa tivemos um Porto, mas... ninguém fotografou! Sei que teve bão... era o quê, mesmo? Um Dona Antónia 10 anos? 😋 Espero que tenha outra prova, em algum momento... Luciana?

Friday, August 8, 2025

Um ligeiro atropelamento

Introito

Qual país pode ser pior do que um onde roubam seus velhinhos?
Aquele onde roubam os velhinhos duas vezes.
Oenochato

   Poucos se lembrarão do Caso Jorgina de Freitas, perpetrado contra a previdência entre 1988 e 1990. Foi um desfalque de mais de 300 milhões de dólas (à época; corrigindo o valor, hoje seriam 777 milhões de dólas, ou R$ 4,22 bilhões). Foi dinheiro de aposentadoria - dos velhinhos - indo para o bolso de gente jovem. Em abril passado a Operação Sem Desconto foi deflagrada para "combater um esquema nacional de descontos associativos ilegais em aposentadorias e pensões". Ou seja, novamente os velhinhos foram aliviados em alguns tostões (8 bilhões). O que fez Nosso Amado Presidente (NAP)? Nada(!). Em vez de repor imediatamente os valores desviados ao longo de todo seu mandato, sua administração entrou com um pedido junto ao STF para que os processos de indenização fossem suspensos. Um governo verdadeiramente voltado para os pobres deveria  antes de tudo proteger os pobres. Em vez disso, NAP simplesmente negou-lhes o direito de processar o Estado em busca de reparação. Gostaria de perguntar ao eleitor de NAP: foi nesse projeto de país que você votou quando fez o 'L'?

O Passadouro e o Valduero

A Débora enviara mil desculpas pelo não, mas na hora fatal voltou atrás e foi direto ao ponto: - Aquele convite ainda está em pé? Claro que estava... e para não se fazer de rogada, chegou dez minutos mais cedo e com uma taça na mão 🤣. Alguma entradinha sem preocupação em harmonizar, e constatamos: um tanto fechado; embora exibisse fruta, sua manifestação era contida. Algo como pimenta também presente, mas não era aquela pimenta de madeira. Boca com taninos nervosos, acidez média, álcool (14,5%) sem incomodar, mas faltava harmonia ao conjunto. Don Flavitxo avisou, quando comentei-lhe sobre a oferta (R$ 200,00): é um vinho longevo... Passadouro Reserva 2016, duriense, não está dando mostras de ter amolecido - provei dele alguns anos atrás por ocasião da compra, acho que não postei, e lá estava fechadão mesmo. Note: foi aberto na noite anterior. Dormiu na geladeira, e alguma suavizada deveria ser observada. Qual nada... mais alguns anos de repouso para as garrafas restantes. Antes de seu final havíamos acordado: faltaria vinho. Desci para a adega, à procura de alguma opção de serviço rápido. Preocupado, coloquei a mão em um escaninho e para alívio e surpresa sai um Valduero Crianza 2016. Acreditava ter bebido a última garrafa, mas havia uma derradeira. Salvo! No pouco tempo de aberto já dentro do balde com gelo, saiu com aromas muito agradáveis roubando da Débora um sorriso alegre e feliz, seguido de um Isso sim... E concordo: fruta, um toque herbáceo, madeira (de leve) e outras notas (chocolate?) com ótima boca: acidez adequada, taninos redondos, álcool discreto, dulçor discreto, tudo certinho, como se espera de um bom vinho. Ótimo momento para ser degustado; se o tiver, vá em frente. Ambos foram comprador em ótimas 'promos', com preços bastante convidativos. Sem gastar muito tempo comprovando os dados, Passadouro Reserva é um vinho uns USD 45,00 em Portugal e aqui pode ser encontrado por algo como R$ 240,00 (eventualmente não informam a safra), ótima compra. Mas teje avisado: se for posterior a 2016, fatalmente estará menos pronto do que o exemplar degustado. Valduero pode ser encontrado a R$ 370,00. A versão Crianza deu lugar à Valduero 2 Maderas, e custa lá fora uns 25 dólas.  Está um tanto tubaroneado...

Um ligeiro atropelamento

Era quase aniversário da Liu, e ela passou num domingo para uma confraternização adiantada. Com um encontro para início das comemorações programado para o sábado seguinte, declarei aquele dia como festivo, e escolhi uma peça digna do momento: o Brise Cailloux 2015, um Cornas do Domaine du Coulet. Aerado algum tempo - não lembro quanto, talvez uma hora - chegou explosivo, com muita fruta negra, especiaria e mais toques. Boca ótima por conta da estrutura casando com a acidez, taninos redondos e álcool à 14% bem integrado ao conjunto, com um dulçor discreto. Pegado e elegante, faz meu tipo de vinho. Se o leitor considerar a postagem passada, onde reflito sobre a questão do vinho mais elegante e do mais encorpado, Brise Cailloux está na categoria fora da curva por apresentar ambos. Tem longa permanência em boca, longa mesmo: conversando, rindo e aproveitando aqueles ótimos momentos, notamos como ele permanece atiçando as papilas, fazendo-se presente, estimulando o próximo gole. É um 100% Syrah proveniente de Cornas, norte do Rhône, onde essa cepa realmente alcança um dos pontos altos de sua expressão. Sobrou um tanto, e não bebi na segunda-feira. Adivinhe. Sim, os Paduquentos caíram de joelhos enaltecendo Baco com fervor e devoção renovadas quando um tantinho caiu em suas taças, e o primeiro buquê subiu-lhes pelos narizes, na terça-feira: Brise Cailloux ainda estava inteiro, maravilhoso - foram eles quem opinaram sobre a fruta mencionada anteriormente. Para não fazer feio (não?), ofereci-lhes um Sassoalloro 2021, produzido pelo Jacopo Biondi Santi em seu Castello di Montepo localizado em Maremma, região costeira da Toscana, mais precisamente na DOCG Morellino di Scansano. A cepa principal por ali é a Sangiovese (mínimo de 85%), e parece seguir a mesma base de corte presente em Chianti e Vino Nobile di Montepulciano (Canaiolo, Colorino e outras). Em Sassoalloro, bem apontaram os confrades, a fruta era vermelha, com boa complexidade. Boca equilibrada, alegre, mas notas abaixo de Brise Cailloux; ficou um toque anticlimático, pois normalmente servimos o vinho mais simples primeiro. Ainda assim tem suas qualidades; podemos dizer que é um vinho para ser apreciado, eventualmente. Mas é inegável: Sassoalloro tomou uma amassada de Brise Cailoux e não foi de leve não senhor; deu-se quase como o atropelamento de um Fusca por um FeNeMê carregado com 200 toneladas, uma diferença de qualidade extravagante. Uma análise dos valores elucidará a questão, bem como deixará exposto algum constrangimento. Não é culpa minha...

   Brise Cailloux é importado pela De La Croix e em sua safra 2018 está custando R$ 588,00. Nos EUA, a safra 2021 custa USD 70,00. Dá R$ 380tão. Curiosamente encontrei um Sassoalloro na mesma loja e na mesma safra degustada, e ele custa algo como USD 38,00, ou R$ 206,00. Fazendo aproximações generosas, Brise está em uma relação 2 x 1 em valor; cumpre sua tarefa de ser um vinho bem melhor pelo dobro do custo. O problema é que por aqui Sassoalloro está R$ 488,00, o que dá 2.33x (nem é uma margem tão alta, mas para mim está acima do limite aceitável; como apareceu em 'promo' e há algum tempo por R$ 245,00 - ótimo preço! - comprei 3 garrafas). Então a ladainha se repete: o consumidor, desavisado, compra mal. Paga uma fortuna pelo vinho e de repente seu representante é massacrado por um de valor somente 20% maior. Fica evidente como a boa compra em uma importadora honesta valoriza nossos suados cruzeiros face a compra do produto de uma importadora tubarona. A comparação via Wine Searcher nunca falha, não é mesmo?

Comprovando...

   Sassoalloro e Brise Cailloux encontrados na mesma loja, nos EUA. Diferença próxima a 2x. Confesso ignorância sobre o Domaine du Coulet com base em minha escassa literatura; o produtor não é referenciado por ela. Comprei o exemplar confiando na curadoria do sempre cuidadoso Geoffroy De La Croix, que não conheço mas sobre quem ouvi algumas estórias do Daniel quando ele era gerente da De La Croix. Parece que a nova direção não seguiu a tradição de bom atendimento, infelizmente, mas recomendo o importador acima desse problema.




   Brise Cailloux e Sassoalloro por aqui. O primeiro em 1,55x comparado ao preço , outro em 2.33x. De quebra, o perfeito exemplo de quando o marketing sobrepuja a qualidade. Particularmente, acho tudo isso excelente! Enquanto houver pessoas idiotizadas - em todos os sentidos! - mundo afora, os adoradores de vinho que buscam informações sempre provarão do melhor pagando menos. O chato é quando a estupidez não mexe somente com o bolso do otário, contaminando decisões cruciais para a própria civilização.





Saturday, August 2, 2025

Don Flavitxo e as Malucas

 Introito. São Luiz do Anauá, RO. População: 7.300.

   Dizem que a imprensa é corrupta, vendida, pelega, fala mal do governo de plantão quando não recebe (generosas) verbas de propaganda, portando-se de maneira oposta caso contrário. Posso falar por mim, e apresentar a trajetória do blog: denuncio a tubaronice de importadores de vinhos há anos, mesmo sob ataque (risos!) de puxadores de samba saco cujos comentários até tempos atrás apareciam na moderação. Sempre foram combatidos com argumentos, menos quando tentaram falar de política, já que por princípio esse assunto não está em debate. Um, mais criativo, perguntou se determinado vinho 'ia bem com lula'. A resposta despertou seu senso de honestidade intelectual, e ambos rimos com a situação. Trégua passada, voltamos a nos digladiar. Recobrando a primeira frase deste parágrafo, ofereço a reflexão: já ouviu falar de São Luiz do Anauá, em Roraima? Se ouviu, então está óbvio: a imprensa está cumprindo seu papel... porque o menor município desse estado, com apenas 7.300 habitantes, recebeu, entre 2021 e 2024, a bagatela de R$ 109.000.000,00 em emendas parlamentares, tornando-se a cidade que recebeu o maior valor de verbas por habitante em todo o país. Ainda assim, e em um imbróglio mal explicado, a posição atual da cidade é falimentar, devedora de débitos acumulados em R$ 52.000.000,00. O assunto é antigo (março de 25), e a própria Assembleia Estadual abriu uma CPI para apurar o caso. O ex-prefeito e pivô da ação é do Partido Solidariedade - até ontem na base do Governo Federal -, e atualmente capitaneado pelo Paulinho da Força, impoluto cidadão de conhecida trajetória política: candidato a vice-presidente e diversas vezes candidato à Prefeitura da cidade de São Paulo, além de vitoriosas campanhas ao Legislativo Federal. Não tenho TV, mas repito: se a imprensa mostrou o Presidente do Solidariedade manifestando sua preocupação quanto aos fatos - a falência municipal é incontestável; a apuração dos culpados é outra estória - então ela novamente cumpriu seu papel. Paulinho não se pronunciando voluntariamente, a obrigação dos jornalistas seria apurar os fatos - onde está a tal imprensa investigativa? Agora... 🙄 se você não está sabendo do que falo... pelo menos recorde-se comigo: já ouvimos muito mais barulho por muito menor escândalo. E nesse caso possivelmente a imprensa não está fazendo seu trabalho. Nosso Amado Presidente (NAP), que prometeu, dentre tantas coisas, acabar com sigilos de gastos presidenciais herdadas da administração anterior não o fez. Mas foi pródigo em juntar-se a pessoas de currículo duvidoso, e os escândalos - como o dos velhinhos, para citar outro e poder usar o plural - avolumam-se. Onde está NAP agora, para bater no peito e dizer aos brados: Mea culpa, mea maxima culpa? Bem... sabemos que português não é com ele - nem com o Xandão! -, o que dizer de latim? Enquanto isso, enfraquecida em um leito hospitalar possivelmente digno de Anauá, a Pátria definha. Foi nesse projeto de país em que você, que fez o 'L', votou?

Outros vinhos

Há não muito tempo provei um Terra di Lavoro 2010, e sabia da existência de outro exemplar na safra 2009 - a estória do colecionador desfazendo-se de sua adega. Não foi difícil convencer as Malucas a entrar na brincadeira, e a aceitar Don Flavitxo como convidado especial deste Enochato: leitoras assíduas do espaço, estavam verdadeiramente curiosas para conferir a existência do mítico bebedor que volta e meia menciono como meu principal mentor nas sendas a Baco. E no dia marcado estava lá o lépido Flavitxo com seu sorriso generoso, cativando a todos com suas estórias. Para agradar a tão ilustre companhia, a Maluca ofereceu uma xampa do Philipponnat, a Royale Brut Reserve. Sempre uma ótima escolha, facilmente eclipsa os concorrentes mais simples como Veuve Clicquot, Piper-Heidsieck e  Taittinger, embora custe sim um tanto a mais. Mas em uma boa 'promo' a diferença pode cair a níveis onde vale investir pela pequena diferença, então fique atento. Philipponnat é muito elegante, combina toques bem cítricos com notas florais e fermento; tem belo equilíbrio e nesta safra 2015, com dégorgement em agosto de 2019, está ótimo e apto para ser degustado. Não conheço tanto sobre xampas, e por isso não arriscarei quanto tempo mais pode envelhecer. Mas está em ótimo momento para consumir...

Como pode ser conferido, nessa safra foi um corte Pinot Noir (65%), Chardonnay (30%) e Pinot Meunier (5%) - a composição varia de safra a safra - e por alguns momentos as Malucas refletiram se não valeria a pena Philipponnat sobre as opções mais simples, como já comentado. É isso mesmo, foram de encontro à minha reflexão de que, em 'promo', a diferença pode não ser significativa. Está este Enochato incumbido de ficar atento à próxima oportunidade. Missão que será levada a cabo com o maior denodo e respeito pelas preferências das confrades. Sem esquecer do Mário como parte das Malucas, além deste escriba, quando uso o nome genérico Malucas para o grupo...

   O Terra di Lavoro 2009 estava como 2010: explosivo, pegado, muita fruta e outras notas, encorpado e estruturado. Recupero sua prova aqui, pois os resultados são similares. Don Flavitxo nos encantou com um Viña Arana Gran Reserva 2015 da La Rioja Alta, grande produtor espanhol. Também tinha bom corpo, acidez viva mas estava visível como a pegada era mais leve e graciosa. Frutas em camadas, especiaria, aquele toque chocolate/café (qual?), madeira discreta e integrada, tudo muito elegante, com maravilhosa persistência a alegrar os bebedores, e recordei-me de como o Il Bosco do evento anterior mostrara-se um vinho superior. Sim, Arana - junto da experiência prévia - raiou como um ponto de virada em minha percepção de vinhos mais elegantes sobre aqueles potentes. E tenho mais uma abordagem a validar: já escrevi em algum momento sobre como bons vinhos defenderem-se bem quando encontram outro igualmente significativo pela frente. Repete-se o mesmo entre Arana e Lavoro: o segundo tacou sobre o primeiro toda sua esplêndida potência mas não o sobrepujou; em uma cinesia discreta Arana alojou-se em um ponto mais alto e brilhou sozinho. Vivo e aprendo. Explico melhor: conscientemente, trocarei os vinhos pegados pelos elegantes, de agora em diante. Eles podem ser bons, ter seu apego, mas quando o bebedor percebe essa sutileza como algo mais palpável, a lembrança do maior requinte de fato sempre permanecerá na lembrança. Tento explicar melhor ainda: simplesmente caiu a ficha.

   Por sobremesa levei um passito que há tempos aguardava a oportunidade de molhar gargantas dignas... e encontrou nas Malucas a hora perfeita. Scacco Matto 2007, produzido com a variedade Albana pela Fattoria Zerbina, na região de Emília-Romagna, mostrou toques cítricos, damasco e mais notas. Alguém teria dito mel? Acidez adequada contrabalançando o dulçor e boa persistência completaram bem a noite. Como disseram os confrades, teve bão. 

   Esta postagem foi tocada a um Passadouro Reserva 2016. Havia provado uma garrafa há algum tempo, e estava bem fechado. Seus exemplares mais simples, Tourigas Franca e Nacional 2018 estavam bem prontos no ano passado, mas não ele. Passadouro Reserva está chegando a seu ponto, embora tenha evolução pela frente. Aerou por mais de duas horas e agora, entrando na quinta, mostra fruta contida e especiaria, com acidez e corpo médios. Ficará um tanto para amanhã. Vejamos a conclusão.