Tuesday, September 15, 2026

Baco, o fauno, a vinha, o sol...

Introito - algumas reflexões soltas, parte 2

À mulher de César não basta ser honesta, 
ela deve parecer honesta.
Júlio Cesar

   Na última postagem apresentei dois pensadores que, de diferentes maneiras, estabeleceram regras para classificar as pessoas de estúpidas - ou idiotas; a diferença é mínima. É verdade, muitos utilizam essas palavras como mero xingamentos diretos e não sustentam suas posições. Já enunciei as regras para tal tratamento a diversas pessoas com quem tenho contato mais direto. Inclusive inserindo a máxima Pare de ser estúpido, e eu paro de dizer que você é! (risos). Saiba um pouco mais sobre Bonhoeffer aqui, que é um short relativamente mal produzido mas dá conta de uma introdução. Aqui há um comentário mais longo (15 min) e melhor conduzido. De quebra, aborda os conceitos do Carlo Cipolla e dá uma palhinha sobre o pensamento de Freud e a psicologia das massas. Por 15 minutos do seu tempo? Uma pérola! O resumo da ópera é: existem critérios objetivos para que o qualificativo estúpido - ou idiota - deixe de ser mero insulto e passe a ser uma conclusão sobre determinado comportamento de uma pessoa (ou grupo).

   Tenho uma percepção que não é exatamente um sentimento nem uma sensação, mas que também não é propriamente uma ideia: percebo-a, embora seja difícil traduzi-la em palavras. Em meu idioleto, chamo-a universo moral. O universo moral de uma pessoa seria o conjunto de valores, princípios, intuições e critérios pelos quais ela distingue o que considera certo e errado, justo e injusto, aceitável e inaceitável, digno e indigno.

   A construção do universo moral acontece ao longo de nossas vidas conforme incorporamos valores e princípios, alguns dos quais se tornam inegociáveis e terminarão por constituir nosso caráter. Infelizmente em nosso país quase tudo vem sendo relativizado desde há muito tempo - similar ao homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda - e é difícil depois de certa idade criarmos um escudo contra tentações e deslizes. Se atingimos essa meta em relação àquilo que efetivamente reconhecemos como inegociável, tornamo-nos inflexíveis, intransigentes até, e é essa qualidade que nossos adversários usarão para nos (des)qualificar. Felizmente, pois não poderão nos tratar por corrupto, cínico, quadrilheiro (palavra da moda) e ladrão, por exemplo. 

   O indivíduo pode declarar seu universo moral, mas na verdade são suas ações que o demarca. Vejamos: o caboclo se diz contra a corrupção. Mas seu candidato é um corrupto, ele apenas nega todas as evidências. O que aconteceu? Seu universo moral foi colonizado pelo grupo ao qual o sujeito pertence. A pessoa passa a julgar o mesmo ato de maneiras diferentes conforme quem o pratica, porque sua lealdade ao grupo precede o próprio juízo moral. Então seu universo moral não é o sustentado por ela mesma! Esse universo moral é menor, mais estreito do que se proclama possuir - e a pessoa, um idiota; suas ideias erradas e inconsistentes precisam ser repudiadas pelas pessoas de bem por serem falsas. Afirmo não votar em corrupto. Vem alguém sustentando ser contra a corrupção mas cujo candidato é corrupto e me chama de... isentão(!). É um exemplo acabado de estupidez. Recobro a epígrafe, invocada neste espaço não pela primeira vez e afirmo: não negocio meu voto - muito menos com candidato desse tipo.

   O que acontece quando os fatos são incompatíveis com o universo moral que uma pessoa construiu? A resposta pode nos levar à dissonância cognitiva e à estupidez de Bonhoeffer. A dissonância cognitiva é - aproximadamente - o estado de tensão mental em que crenças, atitudes ou comportamentos entram em conflito. Para preservar determinadas convicções, a pessoa pode então rejeitar ou relativizar fatos que as contrariam. A teoria foi proposta por Leon Festinger. Ele foi citado em um vídeo sugerido em outra postagem, é este, do humorista Leo Lins - não é uma postagem humorística, mas é impossível não rir... O texto é de 8 de setembro de 2023... dei voltas, refleti e caí praticamente no mesmo lugar. Ou estou louco, ou estou muito certo. Estúpidos, enfileirem-se!

Itália 3, Portugal 1

Placares, assim como vinhos, nos enganam, às vezes. Olhando para a garrafa o leitor erguerá uma sobrancelha e se perguntará: quem trucidou um Crasto Reserva Vinhas Velhas 2021 dessa maneira? Devagar com o andor, e não que o santo seja de barro; começarei por onde normalmente termino, o preço: a confra recebeu uma oferta de caixa a pouco mais de R$ 300,00. Seu preço por aí facilmente atinge R$ 600,00, então os olhos da turma brilharam. E resolvemos comprar uma garrafa, porcada (rs), e uma para degustar e avaliar seu estado. Vários degustadores, inclusive a Jancis Robinson apontam-no com data de beberagem (sic! rs!) 2025-2035. Um avaliador nacional, segundo Wine Searcher, declarou "Tem final sedutor, suculento e persistente, com toques de cassis, de amoras, de violetas, de grafite e de alcaçuz, que pedem mais um gole". Bom, opinião unânime: mesmo passando por 8 horas de aeração, Crasto Reserva Vinhas Velhas mostrou fruta contida rodeada por taninos ainda pegados, novos demais embora não verdes. Tem boa estrutura, acidez presente, mas tudo meio desencontrado: um anão de cujas costas sai um adolescente por sua vez originando no mesmo lugar um adulto; quimera onde todas as pernas alcançam o chão e cada pé aponta para uma direção. A boca indica para um grande vinho, num futuro algo distante - quatro ou cinco anos - quando o buquê encontrará o paladar, os taninos, o álcool, a acidez, o açúcar e Baco, o fauno, ambos dançando e rindo ao som da Pã, em meio à vinha e ao sol. Guarde seu exemplar.

Alguém notará: é a segunda postagem seguida envolvendo o Argiolas Iselis Monica di Sardegna Superiore 2019. De saída vou explicando: embora as postagens estejam próximas, os eventos situaram-se distantes no tempo - seguramente mais de um mês. E já comentei sobre a estratégia para montar sua adega: comprar uma caixa de um bom vinho, deixá-lo envelhecer e no momento correto provar uma garrafa a cada dois ou três meses. Quando o bebedor tiver estocadas seis, oito caixas, ou mais, e o amadurecimento delas chegar, ele poderá intercalá-las - quanto mais caixas tiver, maior o espaço entre as repetições. E o felizardo estará sempre bebendo um vinho bom. No presente caso, aconteceu de ter algumas garrafas e também aproveitar a "promo" da Enoeventos que ainda está valendo. E mais: gosto de mostrar vinhos bons para os confrades, além de compartilhar com eles as oportunidades. Esse exemplar, com meras duas horas de aeração, estava como os demais já descritos: balanceado e pronto para beber. Nariz e boca completos, finalizados, no ponto. Com aeração, o álcool em excesso vai-se embora e apresenta-se integrado ao conjunto da obra, que tem boa permanência e final. De resto, tudo lá: fruta, chocolate (café? - risos!), uma delícia. Compre e beba. Não poderia deixar de fazer menção: D. Neusa serviu um espumante nacional que ela não se recorda de onde, nem como, sobrou em suas mãos. Apenas estava lá, e ela sabe como eu aprecio provar espumantes nacionais - embora não os compre pelo mesmo motivo que me leva a não votar em corruptos: é simplesmente desnecessário. Fausto Brut Rosé, da Pizzato, tem buquê até gracioso, mas com baixa acidez e boca discreta, mais rápida que o Pepeu Gomes no Brasileirinho... e basta de comentários. Custa aqui R$ 80,00. Por 7 moedas lá fora compramos espumantes muito melhores.

Como se precisasse comprovar alguma coisa - como é mesmo a estória do universo moral? - seguem os preços do Crasto cá e lá.

Cá...



E lá...

   Sabendo que o produtor é também o proprietário da importadora que traz o vinho para cá, reflito se o preço aqui poderia ser mais atraente para o consumidor. Acaba vendendo porque um bando de idiotas - capturados pela mais profunda dissonância cognitiva - aceitam pagar seu preço cheio de praticamente 3x. Idiotas do mundo, uni-vos! E paguem... Marx e Engels nunca estiveram mais atuais...

2 comments:

  1. Acho a nota de grafite interessantíssima. A primeira vez que a senti em um vinho (Quinta do Noval DOC) parecia que havia aberto um estojo escolar deixado na mochila pelo semestre inteiro. Não sei se o mais difícil foi: (i) descrever que sentia exatamente esse cheiro ou (ii) que de alguma forma isso significava que eu havia gostado do vinho.

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    1. Olá, Manu. Taí uma nota que tenho dificuldade em 'pegar', e lembrar-me dela depois. É sempre uma questão de prestar atenção, não é mesmo? Muitas vezes me referi a algo 'tridimensional' em certos vinhos. De uns tempos para cá venho associando a mentol, se tenho interpretado bem a percepção de outros confrades. É assim que vamos evoluindo...
      Obrigado pela leitura!

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