Wednesday, October 7, 2026

Um espanhol que NÃO fraquejou!

Introito

Ninguém jamais perdeu dinheiro por subestimar 
a inteligência do público americano
 H.L. Mencken (1926), apud 
Sagan, Broca's Brain (1979)

   Segundo dizem, a porcentagem de norte-americanos com diploma superior - contando a formação técnica pós-secundária - está próxima de 50%. Para o Brasil, o número mais confiável que encontrei é de 21,4% (dado de 2026), e na mesma página há um vínculo para o levantamento completo. Esse povo elegeu o Trampi. Bem, antes, o Baiden. Por aqui preferimos - 92% dos votantes... - Ali Lulá dos 40 ministérios e Bolsonéscio. A votação final foi muito estranha: Zema amealhou 0,27% (pouco mais de 300 mil) dos votos. Um ex-governador, vindo do segundo maior colégio eleitoral do país, eleito com mais de seis milhões de votos em seu estado e avaliado como ótimo ou bom por algo como 60% do eleitorado recebe, na eleição seguinte, meros cinco por cento de apoio em seu próprio estado, desconsiderando os votos país afora? Está claro o quanto a propaganda bolsonéscia mostrou-se eficaz em sua proposta de encerrar a fatura no primeiro turno, favorecendo a migração de votos de toda a direita para o primeiro colocado. Outro fator foi importante, embora eu não saiba explicar direito: por capricho do TSE, as páginas de todos os candidatos foram desarticuladas, tendo seu alcance a novos leitores severamente limitado ou mesmo extinto. Para uma campanha dotada de quase 900 milhões (PL), fica fácil se recompor usando influenciadores pagos para veicular sugestões de votos. Se é que foi mesmo isso que aconteceu, recomendo uma pesquisa pelo leitor. Parece claro que o Missão - partido no qual votei - foi soterrado pela falta de estrutura e aporte financeiro para conduzir sua campanha. Nem tudo foram lágrimas, e algumas verdades inconvenientes vieram à tona: Andrada foi derrotado na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, com um detalhe quase lascivo para este analista: enquanto NAP ganhou de bolsonéscio na capital, seu pupilo perdeu; justamente onde anteriormente ele próprio fora prefeito. Uma bela comprovação de suas habilidades gerenciais, não é mesmo? Também foi satisfatório acompanhar outros cidadãos sendo desempregados pelo eleitor, como, por exemplo, o amapaense Rodolfo, um deslumbrado por NAP. Tivemos muitos outros, mas esses bastam.

Um espanhol com karma, mas sem chacra

Sob o pretexto de acompanhar a apuração da eleição a #emuitovinho se reuniu na noite de domingo. Eu havia chamado as meninas para uma pizza, e para minha surpresa Dona Neusa chegou com um vinho a mais, e ele entrou no balde tão logo foi aberto, onde permaneceu enquanto apreciávamos um Cordon Negro, da Freixenet. Não é preciso falar muito mais sobre ele: bate similares nacionais de valores próximos, e isso é apenas mais um indicativo de como nosso vinho exorbita nossos bolsos. Compre vinhos caros, eles valem a pena... mas não pague caro por vinho, é estupidez em sua forma mais acabada. Pensando na Introdução, talvez não... continuemos.  Chacra Treinta y Dos 2016 Pinot Noir apresentou um buquê muito agradável, complexo, repleto de frutas vermelhas, especiarias e madeira - que mal percebi e fui  confirmar na ficha técnica - muito discreta. A boca passou longe do nariz, com um pouco de fruta, taninos leves, acidez indo a média - mas não chegando lá - tímidos 12% de álcool e final ligeiro, típico da maioria dos sul-americanos. Não deu sinal de estar comprometido, pois não apresentava defeitos óbvios. Procurando sobre ele e seu valor no mercado, notei como fala-se de sua acidez viva, mas não vi isso em nosso exemplar. A uma safra com 10 anos - nem tão antiga - parece claro faltar estrutura ao vinho para que ele mantenha a acidez mesmo por um tempo relativamente curto. Essa garrafa veio diretamente da bodega e manteve-se refrigerada até o consumo, então não levantemos problema de armazenamento. Acontece que ele é o melhor do produtor, com a safra 2016 celebrada pelos críticos, com James Sucks atribuindo-lhe 98 pontos, contra 96 do Parque. Comenta-se por aí esse vinho ter um estilo borgonhês. No... no se puede... (risos!). Vamos por partes. Partindo do suposto acima, a falta de estrutura comprometendo a acidez, e ele recebe 96 e 98 pontos de avaliadores enquanto Borgonhas como o Domaine de la Vougeraie Clos de Vougeot Grand Cru na ótima safra de 2009 não vai além de 95, e um Cros Parantoux do Meo-Camuzet (mesmo ano) mal chega a 93 (Wine Spectator) soa como uma piada dos Trapalhões para uma plateia com QI superior a 70: risos amarelos. Orra meu (risos!), um Borgonha dura, tá sabendo? Chacra pode competir muito bem com os melhores chilenos e argentinos, mas pelo que apresentou ao final de dez anos não bate um Borgonha Village de bom produtor. Por exemplo - reclamo muito da margem praticada pela Mistral, mas não questiono a qualidade da curadoria - tomemos um vinho simples do Domaine Jean-Marc Millot, o Gevrey-Chambertin 2021, um Village. Duvido que Chacra chegue perto. Não, não bebi do JM Millot, mas recentemente provei o Dugat-Py Cuvee Coeur de Roy Tres Vieilles Vignes 2009  dessa mesma região, e não é difícil afirmar - se tivesse três neurônios, ainda sustentaria - que a diferença entre eles não é grande, é abissal. E a melhor nota dele é 18,5 no Gault & Millau... Está na hora do pessoal começar a ficar sério, a quantidade de patetices está sobrepujando a fruta (dos próprios vinhos - risos!). Se ele é melhor do que isso, então sua janela de beberagem é muito estreita. Next! 

   Com um perfil bem diferente, Juan Gil Etiqueta Azul 2018, um corte Monastrell (a Mourvèdre francesa, célebre no Rhône), Cabernet Sauvignon e Syrah, 15,5% de álcool, aerou duas horas antes de ir para o balde, e chegou explosivo, intenso: rico em frutas e mais notas de chocolate, couro e especiarias; Dona Neusa apontou mentol, sorrindo de satisfação. Não lembro a opinião da Elvira, mas creio que ela separou algumas frutas - algo muito difícil para mim. Sua potência está amparada por taninos muito marcados mas agora bem redondos, acidez média + e madeira bem integrada, perfazendo um conjunto rico e complexo. Tem ótima permanência com final um tantinho amargo, e isso é uma característica, não um defeito. Jumilla é uma DO de Múrcia, uma pequena região na costa mediterrânea do sudeste da Espanha; Juan Gil é reconhecido por ter colocado Jumilla no mapa internacional do vinho e compete com os melhores produtores da região. No segundo dia - enquanto escrevo esta parte da postagem - apresenta-se pegado, firme, e ao mesmo tempo elegante... acompanhou muito bem um hambúrguer com toucinho e batata frita, trazendo à lembrança o fauno de algumas postagens. Chacra também não desceu de um dia para o outro, mas Juan Gil estava mais ao meu agrado: melhor estrutura, encorpado e pronto para ser degustado, com vida longa pela frente. Este, beba ou guarde. Ademais, esse vinho de bom karma custa uma fração de Chacra; para mim, este é mais um vinho superestimado.

Sobre preços

   Juan Gil custa algo como 27 dólas lá fora (x5, R$ 135,00), e por aqui é encontrado a R$ 430,00. Isso dá quase 3.2x, tubaronice. Seguramente paguei menos nos tempos de Enoeventos com boas ofertas. A importadora tem algumas outras opções do produtor, e são bem razoáveis no quesito qualidade. Só precisa conferir se no preço também continuam interessantes.





   Chacra é um vinho caro na Argentina, R$ 667,80. Se disser no sítio que a indicação é deste Enochato, sai por R$ 667,00. Isso dá USD 120,00, mais ou menos. Chega nos EUA, dependendo da safra, entre USD 90,00 e USD 135,00 (mais taxas!). A pergunta de sempre: por quanto saiu da Argentina? Ainda assim, seu preço "lá", pelo que apresentou, é assustadoramente alto. Espero que venda bem; de repente alguém viaja para lá e me traz um Xatenêfi que esteja sobrando pelos mesmos USD 130,00. Nesse valor dá pra pegar um Beaucastel 2007... com qual você ficaria?