Friday, September 5, 2025

O Níver do Ghidelli

Introito: VTNC

Não é culpa de quem nasceu sem oportunidades ser ignorante.
Mas quem estudou e continua ignorante é plenamente culpado - de tudo.
Oenochato

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade 
do que as mentiras.
Nietzsche, mas bem poderia ser 
qualquer brasileiro sensato
dos dias de hoje.


Notícias metafísicas alertam que o Espírito Santo está ausente; dirigiu-se a uma dimensão paralela corrigir o equívoco onde Nosso Amado Presidente (NAP) foi acusado injustamente de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em ação penal envolvendo um triplex em Manhattan, defronte ao Central Park. Por aqui, a capa da revista Crusoé de umas poucas edições atrás retrata NAP como apresentador de circo, clara referência a um programa dominical onde Sílvio Santos oferecia dinheiro aos participantes de suas competições valendo-se do bordão Quem quer dinheiro? A reportagem comenta como NAP supostamente prepara um auxílio de 30 bilhões entre linhas de financiamento e redução de impostos para alguns empresários valendo-se de critérios não muito claros na escolha dos beneficiados. A ajuda aos amigos do Rei é uma prática milenar, uma tradição por assim dizer, e ante a força do hábito não há muito do que reclamar, se o leitor não morar em um país moderno e civilizado. Crescer e ganhar o mercado internacional é uma opção do empresário. Mas é uma opção de risco, e o empreendedor deve estar ciente das ondulações inerentes a esse tipo de operação: bloqueio por parte das superpotências, pirataria, tempestades, fechamento de rotas por outros motivos. Na dificuldade de exportar, o excedente pode ser desovado no mercado interno e adjacências, a preços mínimos e em benefício da população local - seria até um reforço a relações de amizade, indispensáveis para com países fronteiriços. Um governo verdadeiramente de esquerda abriria mão de parte dos impostos - cobrados diretamente do consumidor - em vez de abrir linhas de crédito a quem já tem muito, favorecendo quem vem primeiro em seu discurso, o excelentíssimo povo. E se alguma parte da cadeia não fizer sua parte, ora, nesse momento a tão odiada Medida Provisória, com validade entre 60 e 120 dias, mostra-nos sua face honesta, digna e útil enquanto ferramenta legal para o próprio governo enfrentar tempos difíceis e promover justas punições a quem tenta ganhar mais tem tempos de crise. Assim, ouvir a ideia de NAP financiar tal dificuldade como vem propondo obriga-me a reagir com asco e veemência, recomendando-lhe um sonoro VTNC! NAP, aproveite-se da ausência do Espírito Santo causando uma  Vacância Trinitária na Natureza Celeste e, como a alma mais honesta deste Universo em todos tempos, ocupe seu lugar à esquerda do Pai - posição claramente mais elevada do que a direita (rs!). Até aponto o lado porque se deixar és capaz de dirigir-se para a direção errada, senil que estás. É isso: Lula, VTNC, dá até adesivo de carro! Diga aí, PTlho de plantão: foi nesse projeto de país perdulário em que você votou? Deveria NAP mandar 30 bi para empresários abastados ou reduzir os impostos dos cidadãos comuns?

O Níver do Ghidelli

Aniversariando com cada vez mais empenho e dedicação, o Ghidelli comemorou seu sexagésimo sétimo aniversário em grande estilo e prometendo ser apenas o primeiro de vários skenta para o septuagésimo. A ver. 

O início dos trabalhos transcorreu sob uma Xampa, a Barbier-Louvet Cuvée D'Ensemble Grande Cru, engarrafada em 2020 e entregando muito frescor e equilíbrio, tudo bem balanceado e sem arestas. Não sou conhecedor de Xampas, mas comprá-la a uns R$ 252,00 na pandemia foi grata oferta. Quisera perdurasse... Atualmente a Enoeventos pede R$ 397,60 pela Premier Cru - paguei 231,00. O dóla valia R$ 5,40, não muito diferente de hoje. Uma pena ela ter descambado para a tubaronice. Mas se procurar com cuidado sobram algumas garrafas a bom preço lá. Wine Searcher, nunca sisqueça! O camarão com Mascarpone - já tradicional em nossas reuniões de gala - acompanhou um Tondônia Reserva 2012 Branco. É sempre um prazer abrir um Lopez de Heredia, e se for da linha reserva a felicidade só aumenta. Nariz cítrico com mais notas a desvendar e toque herbáceo, boca com aquele oxidado, marca registrada, boa acidez, persistente, deixa saudades quando a taça chega ao final. É ótima pedida para acompanhar camarões. Seu preço por aqui é proibitivo - a menos que o leitor encontre um desses vendedores de redes sociais que desovam algumas garrafas da importadora-tubarona, mais não é muito comum achar o branco. Esse foi trazido de fora.

Aqui começam uma das bolas divididas do encontro. Se entendi bem, Masdache 2023 é produzido pela Puro Rofe, uma vinícola fundada em 2017 nas proximidades de Lanzarote, Ilhas Canalhas (sic! rs!). Devido aos ventos fortes as vinhas são conduzidas rente ao solo e amparadas por providenciais muretas de pedra. O sítio está em construção, mas aqui tem outras belas fotos do local. Composição de vinhas centenárias, Masdache é um corte não linear (sic rs!) de Malvasía, Diego, Listán Blanco, Listán Negro, Negramoll... tirando a primeira cepa, já ouviu falar de alguma outra? O toque mineral está lá - veja a cor do solo! - cítrico, acidez muito (muito mesmo) presente - safra nova? - ótima boca, no sentido de persistente, e bom equilíbrio, com 13% de álcool e madeira discreta. Se não lesse na ficha técnica não diria ter... Um vinho surpreendente; merece ser degustado. Não é barato (50 dólas), mas está numa faixa que pode ser posto na mala e trazido para compartilhar com confrades incautos... porque pelas cepas do corte um bebedor mais conservador passaria longe. Walew, Ghidelli! Ah, sim: o aniversariante declara as Ilhas Canárias como terra de seus ancestrais, de algumas gerações atrás. Ele curtiu muito quando falei das Ilhas Canalhas, apresentando uma paronomásia em forma de trocadilho.

As ofensas se escalaram com os tintos. Nojento, Don Flavitxo trouxe seu vinho embrulhado. A mulherada sugeriu um Pinot(!); passei longe da cepa, tendo chutado espanhol amparado numa vaga lembrança do Mas Borràs (Pinot!), mas sem fazer a devida conexão. A expressão da Pinot à qual estou acostumado não é aquela; o palpite foi pelo estilo, e não pela uva! E para piorar tudo, era mesmo um Pinot... Incursão da prestigiada Maison Drouhin no Óregon nos EUA iniciada em 1987, imagino que o Vale do Willamette tenha sido escolhido após alguma pesquisa em diversos estados cuja característica comum seja a latitude, bem similar à da Borgonha (Oregon, Washington, Idaho, Michigan, Vermont e Nova York gozam dessa característica). Para mim, a questão se resume assim: o (bom) produtor sabe, e ponto. Se os Drouhin escolheram o Oregon como ponto para suas prospecções, a este idólatra de Baco resta provar e aprovar a oportunidade que veio pelas mãos generosas de Don Flavitxo. Vou abrir um parênteses.
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   Até beber um Borgonha legal, a Pinot nunca me convencera; a postagem Meu Primeiro Valisére (2013) mudou minha percepção sobre ela em definitivo. Antes disso, eu havia trazido do Chile o Leyda Lot 21. Pagara no mercado regular uns USD 40,00, valor próximo aos ícones Don Melchor e Don Maximiano no frixópi de saída do Chile (USD 50,00), sob o comentário do vendedor dele ser o melhor Pinot do Chile. Abri algum tempo depois com o confrade Cesar Matemático (rs), rapá de boa índole tanto quanto bom gosto, e nos olhamos com certa decepção: Esperava mais - dissera um. Eu também, retrucara o outro. A amizade até continuou (risos!), apesar do abalo - ele também nutria boas expectativas para com o Lot 21. O tempo passou e reposicionou o blefe: presentemente paga-se USD 25,00 por ele no Chile (mas se procurar, encontra por USD 15,00). O preço não apenas não se sustentou, ele caiu, passados uns 20 anos, a inflação pela qual atravessou o país e a (super)valorização dos vinhos chilenos em geral. Corta a cena, vamos para o Oregon, um produtor de primeiro nível viaja literalmente meio mundo, se estabelece em um lugar alienígena, abraça a tarefa de produzir um vinho e suas versões mais recentes de Dundee Hills  estão à venda por... USD 35,00-USD 40,00! Tem qualidade muito superior ao que se produz do lado debaixo do Equador, sem dúvida, mesmo não alcançando a similaridade com a Borgonha. Talvez o tempo comprove a proposta do produtor - serão décadas(!); o próprio enólogo da Catena, Alejando Vigil, admite isso -, e nenhum leitor estará aqui para conferir, mas pouco importa; produzir vinho é um projeto de gerações, digno somente dos maiores sonhadores. Drouhin é mais honesto em sua proposta do que 105% de todos os produtores da América do Sul. E Dundee Hills sequer figura entre os vinhos mais caros da região. Aqui, a métrica é diferente: querem cobrar-nos o valor de um vinho acabado pulando toda a etapa da evolução de cinquenta anos ou mais necessárias para um projeto de monta decolar. Estão certos, afinal este é um país de estúpidos onde as exorbitâncias não são reconhecidas.
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   Para felicidade geral o Imperial Gran Reserva 2017 chegou para resignificar (rs) a palavra elegância: muita fruta madura, café ou chocolate (qual?) com mais notas e madeira com presença. Os taninos amaciaram, a expressão geral é de corpo médio amparado em boa acidez, permanência acima da média recheado de frutas e mais toques. Custa uns 70 dólas na Espanha, e R$ 990,00 por aqui, na Grand Cru (R$ 850,00 para assinantes). Dá um pouco mais de 2.6x, um tanto acima do razoável; existem muitas opções melhores. Apenas por curiosidade, a Gran Cru também traz o Lot 21, a R$ 530,00 para meros mortais e R$ 450,00 para assinantes. No Chile, como dito, acha por até USD 15,00, o que dá R$ 82,00 e aí a proporção (preço cheio) salta para 6.46x(!). Isso sim é tubaronice! Tal discrepância sugere registro, mais abaixo.

   A postagem está demasiado grande - e excessivamente atrasada. Termino na próxima.

O que se pede pelo Lot 21 aqui...


Leyda Lot 21 Pinot Noir, preços no Chile e no Brasil. Varia bastante por lá, entre 16.000 e 28.000 Pesos, o que dá entre 16 e 28 dólas. Aqui, R$ 530,00.








Wednesday, August 20, 2025

Maluca enxertada

Introito




Compreender ciência & tecnologia é de suma importância para não sermos enganados por boatos. A IA de hoje em dia até pode ser A(rtificial), mas sem dúvida está longe de ser I(nteligência). A pergunta descuidada, "Qual o maior ministro da educação do brasil?" feita direto no Google recebe por resposta que Andrada é frequentemente citado como um dos mais notáveis devido... às políticas implementadas, como o Programa Universidade para Todos e o aumento do acesso à educação superior. Quem é minimamente informado sabe: o Brasil caiu nos testes internacionais do PISA nos anos subsequentes ao início de sua administração, e a sequência negativa adentrou o governo posterior pela obviedade de que os alunos já haviam ingressado no sistema de ensino e ao sair dele, na presidência seguinte, já tinham sua formação comprometida. Isso é tanto verdade que o governo de Ali Lulá gozou de uma variação positiva no primeiro teste sob sua gestão, com alunos advindos das políticas implementadas por seu predecessor. O problema, então, é que a realidade contradiz a resposta(!) da IA, pois o resultado das tais políticas mostrou-se pífio como assegura o teste internacional onde a possibilidade de fraude está absolutamente afastada. Aliás, o desempenho vergonhoso dos nossos discentes jamais foi contestado, e isso legitima o exame. Tem um caboclo com opinião diametralmente oposta à percepção da IA. Ouça, tem 25 segundos e joga luz na questão.


   O sujeito é vereador em Natal, onde nasceu e passou grande parte de sua vida. Tem propriedade para falar, pois sua comunicação direta e objetiva sugere algum estudo e a estatística do PISA está divulgada neste espaço, aqui, onde o leitor encontrará vínculos para três outras abordagens. Torna-se evidente: alguém está profundamente errado, e não me parece ser o edil. Pergunto para os PTlhos: é nesse projeto de país em que você vem votando ao longo das últimas duas décadas e meia? Eu parei de apoiá-lo, e nem foi na metade do caminho, que não sou tão estúpido assim. Qual é, mesmo, o projeto de país pretendido por essa turma? Faustino acertou na mosca, para qualquer um com mínima percepção do óbvio, que melhorar a educação pode até estar no verbo, mas não no ato da esquerda. E isso não é crime de lesa-pátria, é traição. Dizer que Bolsonéscio nada fez - basta ver o currículo e seus sucessivos sinistros - não lhe alivia a culpa. É questão para outro julgamento.

Maluca enxertada

Don Flavitxo comprara 1,5 kg de queijos da Capim Canstra, para não negar suas origens. Desesperado - eram queijos artesanais e deveriam ser consumidos rapidamente - sugeriu uma reunião com as Malucas, e talvez incluir algum reforço. Imaginamos que Don Ghidellito e sua digníssima esposa não se furtariam ao desafio. Bingo. E o mineiro ainda ofereceu um vinho branco, pedindo-me a escolha a partir de um rol com cinco possibilidades. Preferi a abstenção: eram vinhões, tinha até um Capellanía na lista. Esse espanholeto valorizou-se muito de alguns anos para cá, e disparou mais recentemente. O encontro prometia... Acertado o dia, os confrades posaram sorridentes para a foto. Flavitxo trouxe seu escolhido às cegas e serviu um dedo a título de abertura dos trabalhos, esperando participação dos demais na avaliação. Na hora tive o déjà vu amparado - não apenas! - na lembrança do Antonio Madeira branco, provado há não muito tempo. As Malucas - Mário incluído - não arriscaram um palpite mais firme, baseados em suas memórias olfativa/gustativa. Mas perceberam estar diante de um bom vinho. Márcia, Ghidelli e eu fomos direto em português. A Márcia, inclusive, disse lembrar um Cartuxa branco provado em certa situação. Danadinha...

Mais que danadinha...

O branquinho nojento de Don Flavitxo era um Pêra-Manca 2019, produzido pela Fundação Eugênio Almeida, casa do igualmente muito conhecido... Cartuxa! Marcinha foi direto ao ponto... Mário perguntou se tinha um pouco de mineralidade. Tinha, concordou o Flávio. Corte Antão Vaz e Arinto, creio ter vindo daí minha percepção para a procedência: os Tapada do Chaves também levam boas quantidades de ambas, e tive a felicidade de degustar algumas garrafas do Reserva e do Vinhas Velhas. Pêra-Manca tinha nariz com toques bem cítricos e mais complexidade, boca com acidez média e limão repetindo a sugestão do olfato. Tem muito mais sabores para serem desvendados no palato; faltou melhor apreciador. Ótimo volume de boca, boa persistência, não consegui sentir se teria potencial para envelhecer uma década, algo que sobra a um Tapada Vinhas Velhas - aliás, produzido pela mesma Fundação Eugênio Almeida... O preço de ambos é similar, e algo proibitivo: estão na faixa de R$ 1.000,00, embora apareçam aqui e ali ofertas na casa dos R$ 750,00. É um vinho dos seus USD 70,00 em Portugal, então o valor da 'promo' não está ruim.

   Abrindo os tintos, apresentei o Amarone Corte Brá 2008, da casa Sartori di Verona. Produzido com as tradicionais cepas Corvina, Rondinella e Molinara, mostrou buquê rico, mas a maior surpresa ficou para o final, enquanto a Márcia mantinha um tantinho de cada vinho em suas taças - usou até a de sobremesa, para desespero da anfitriã Luciana. Muita fruta madura, especiaria e chocolate/café, este último dueto curiosamente estava expressando muita força na taça dela ao final do encontro. Boca rica, também volumosa, harmonizou bem com um dos queijos - um mais pegado, não lembro-me exatamente qual. Seu preço médio lá fora está em uns USD 50,00, e a versão 'colheita' parece ter dado lugar à Riserva de alguns anos para cá. Se procurar, encontra o 'colheira' por R$ 350,00, o que pode ser classificado ótima compra. O Viña Tondonia Reserva 2010 chegou arrancando suspiros com seu nariz pegado, generosamente frutado - põe fruta nisso... - e algo tostado; boca com bela acidez e volume, um toquinho doce e álcool bem discreto, com pouca madeira, um conjunto muito harmônico que casou muito bem com o Jámon Serrano oferecido pela Luciana. Já provei diversos vinhos do produtor, e nenhum decepciona, pelo contrário: é sempre uma caixinha de surpresas, principalmente pela elegância nunca sobrepujada pela potência e que às vezes contrasta com outros Riojas mais encorpados. A importadora tubarona oficial vende-o a R$ 830,00 - custa uns USD 50,00 lá fora - mas às vezes aparece em mídias sociais por R$ 400,00, e aí fica bom. Esse exemplar foi comprado nessa condição, e o destaque em amarelo no contrarrótulo aponta a casa comercial. Onde estão aqueles canalhas que defendem o preço cheio praticado por elas? Puxa-sacos de plantão, seguramente desfrutam desses generosos descontos desde sempre ao custo de portarem-se como vendilhões do templo de Baco, propagandeando como arautos do capiroto a política rapineira de seus patrões. O leitor não localiza essas páginas nas mídias? Algumas vão e voltam, precisa ficar atento. E cuidado com o descaminho, que (sic) tem muito. Estou fora, sempre pergunto para o vendedor quem é o importador do produto. Havendo, compro.

   O Pintas Character 2021 chegou nervoso. Fruta meio dura, álcool um pouco aparente, taninos pegados, algo herbáceo... acidez média, preenche a boca mas o conjunto não agradou tanto. Foi o que mais sobrou dentre todos - o Amarone secou - e no dia seguinte, depois de dormir na geladeira e ser retirado meia hora antes do consumo, estava explodindo em frutas; o buquê encontrou o paladar e formaram uma aliança sublime, completa, esbanjando graça. Definitivamente, como está (safra 2021) precisa de (muita) aeração para mostrar ao que vem. Recordo-me de outro vinho assim, o Numanthia: não adianta deixá-lo envelhecer e achar que tudo se resolve com uma decantação de poucas horas; é um vinho para o dia seguinte. E meras 12 horas não bastam, são necessárias 24. Nagibin, que provou de uma garrafa com 20 anos e aerada por apenas 12 horas, não me deixará mentir sozinho (risos!). Veja o vínculo e comprove. Por sobremesa tivemos um Porto, mas... ninguém fotografou! Sei que teve bão... era o quê, mesmo? Um Dona Antónia 10 anos? 😋 Espero que tenha outra prova, em algum momento... Luciana?

Friday, August 8, 2025

Um ligeiro atropelamento

Introito

Qual país pode ser pior do que um onde roubam seus velhinhos?
Aquele onde roubam os velhinhos duas vezes.
Oenochato

   Poucos se lembrarão do Caso Jorgina de Freitas, perpetrado contra a previdência entre 1988 e 1990. Foi um desfalque de mais de 300 milhões de dólas (à época; corrigindo o valor, hoje seriam 777 milhões de dólas, ou R$ 4,22 bilhões). Foi dinheiro de aposentadoria - dos velhinhos - indo para o bolso de gente jovem. Em abril passado a Operação Sem Desconto foi deflagrada para "combater um esquema nacional de descontos associativos ilegais em aposentadorias e pensões". Ou seja, novamente os velhinhos foram aliviados em alguns tostões (8 bilhões). O que fez Nosso Amado Presidente (NAP)? Nada(!). Em vez de repor imediatamente os valores desviados ao longo de todo seu mandato, sua administração entrou com um pedido junto ao STF para que os processos de indenização fossem suspensos. Um governo verdadeiramente voltado para os pobres deveria  antes de tudo proteger os pobres. Em vez disso, NAP simplesmente negou-lhes o direito de processar o Estado em busca de reparação. Gostaria de perguntar ao eleitor de NAP: foi nesse projeto de país que você votou quando fez o 'L'?

O Passadouro e o Valduero

A Débora enviara mil desculpas pelo não, mas na hora fatal voltou atrás e foi direto ao ponto: - Aquele convite ainda está em pé? Claro que estava... e para não se fazer de rogada, chegou dez minutos mais cedo e com uma taça na mão 🤣. Alguma entradinha sem preocupação em harmonizar, e constatamos: um tanto fechado; embora exibisse fruta, sua manifestação era contida. Algo como pimenta também presente, mas não era aquela pimenta de madeira. Boca com taninos nervosos, acidez média, álcool (14,5%) sem incomodar, mas faltava harmonia ao conjunto. Don Flavitxo avisou, quando comentei-lhe sobre a oferta (R$ 200,00): é um vinho longevo... Passadouro Reserva 2016, duriense, não está dando mostras de ter amolecido - provei dele alguns anos atrás por ocasião da compra, acho que não postei, e lá estava fechadão mesmo. Note: foi aberto na noite anterior. Dormiu na geladeira, e alguma suavizada deveria ser observada. Qual nada... mais alguns anos de repouso para as garrafas restantes. Antes de seu final havíamos acordado: faltaria vinho. Desci para a adega, à procura de alguma opção de serviço rápido. Preocupado, coloquei a mão em um escaninho e para alívio e surpresa sai um Valduero Crianza 2016. Acreditava ter bebido a última garrafa, mas havia uma derradeira. Salvo! No pouco tempo de aberto já dentro do balde com gelo, saiu com aromas muito agradáveis roubando da Débora um sorriso alegre e feliz, seguido de um Isso sim... E concordo: fruta, um toque herbáceo, madeira (de leve) e outras notas (chocolate?) com ótima boca: acidez adequada, taninos redondos, álcool discreto, dulçor discreto, tudo certinho, como se espera de um bom vinho. Ótimo momento para ser degustado; se o tiver, vá em frente. Ambos foram comprador em ótimas 'promos', com preços bastante convidativos. Sem gastar muito tempo comprovando os dados, Passadouro Reserva é um vinho uns USD 45,00 em Portugal e aqui pode ser encontrado por algo como R$ 240,00 (eventualmente não informam a safra), ótima compra. Mas teje avisado: se for posterior a 2016, fatalmente estará menos pronto do que o exemplar degustado. Valduero pode ser encontrado a R$ 370,00. A versão Crianza deu lugar à Valduero 2 Maderas, e custa lá fora uns 25 dólas.  Está um tanto tubaroneado...

Um ligeiro atropelamento

Era quase aniversário da Liu, e ela passou num domingo para uma confraternização adiantada. Com um encontro para início das comemorações programado para o sábado seguinte, declarei aquele dia como festivo, e escolhi uma peça digna do momento: o Brise Cailloux 2015, um Cornas do Domaine du Coulet. Aerado algum tempo - não lembro quanto, talvez uma hora - chegou explosivo, com muita fruta negra, especiaria e mais toques. Boca ótima por conta da estrutura casando com a acidez, taninos redondos e álcool à 14% bem integrado ao conjunto, com um dulçor discreto. Pegado e elegante, faz meu tipo de vinho. Se o leitor considerar a postagem passada, onde reflito sobre a questão do vinho mais elegante e do mais encorpado, Brise Cailloux está na categoria fora da curva por apresentar ambos. Tem longa permanência em boca, longa mesmo: conversando, rindo e aproveitando aqueles ótimos momentos, notamos como ele permanece atiçando as papilas, fazendo-se presente, estimulando o próximo gole. É um 100% Syrah proveniente de Cornas, norte do Rhône, onde essa cepa realmente alcança um dos pontos altos de sua expressão. Sobrou um tanto, e não bebi na segunda-feira. Adivinhe. Sim, os Paduquentos caíram de joelhos enaltecendo Baco com fervor e devoção renovadas quando um tantinho caiu em suas taças, e o primeiro buquê subiu-lhes pelos narizes, na terça-feira: Brise Cailloux ainda estava inteiro, maravilhoso - foram eles quem opinaram sobre a fruta mencionada anteriormente. Para não fazer feio (não?), ofereci-lhes um Sassoalloro 2021, produzido pelo Jacopo Biondi Santi em seu Castello di Montepo localizado em Maremma, região costeira da Toscana, mais precisamente na DOCG Morellino di Scansano. A cepa principal por ali é a Sangiovese (mínimo de 85%), e parece seguir a mesma base de corte presente em Chianti e Vino Nobile di Montepulciano (Canaiolo, Colorino e outras). Em Sassoalloro, bem apontaram os confrades, a fruta era vermelha, com boa complexidade. Boca equilibrada, alegre, mas notas abaixo de Brise Cailloux; ficou um toque anticlimático, pois normalmente servimos o vinho mais simples primeiro. Ainda assim tem suas qualidades; podemos dizer que é um vinho para ser apreciado, eventualmente. Mas é inegável: Sassoalloro tomou uma amassada de Brise Cailoux e não foi de leve não senhor; deu-se quase como o atropelamento de um Fusca por um FeNeMê carregado com 200 toneladas, uma diferença de qualidade extravagante. Uma análise dos valores elucidará a questão, bem como deixará exposto algum constrangimento. Não é culpa minha...

   Brise Cailloux é importado pela De La Croix e em sua safra 2018 está custando R$ 588,00. Nos EUA, a safra 2021 custa USD 70,00. Dá R$ 380tão. Curiosamente encontrei um Sassoalloro na mesma loja e na mesma safra degustada, e ele custa algo como USD 38,00, ou R$ 206,00. Fazendo aproximações generosas, Brise está em uma relação 2 x 1 em valor; cumpre sua tarefa de ser um vinho bem melhor pelo dobro do custo. O problema é que por aqui Sassoalloro está R$ 488,00, o que dá 2.33x (nem é uma margem tão alta, mas para mim está acima do limite aceitável; como apareceu em 'promo' e há algum tempo por R$ 245,00 - ótimo preço! - comprei 3 garrafas). Então a ladainha se repete: o consumidor, desavisado, compra mal. Paga uma fortuna pelo vinho e de repente seu representante é massacrado por um de valor somente 20% maior. Fica evidente como a boa compra em uma importadora honesta valoriza nossos suados cruzeiros face a compra do produto de uma importadora tubarona. A comparação via Wine Searcher nunca falha, não é mesmo?

Comprovando...

   Sassoalloro e Brise Cailloux encontrados na mesma loja, nos EUA. Diferença próxima a 2x. Confesso ignorância sobre o Domaine du Coulet com base em minha escassa literatura; o produtor não é referenciado por ela. Comprei o exemplar confiando na curadoria do sempre cuidadoso Geoffroy De La Croix, que não conheço mas sobre quem ouvi algumas estórias do Daniel quando ele era gerente da De La Croix. Parece que a nova direção não seguiu a tradição de bom atendimento, infelizmente, mas recomendo o importador acima desse problema.




   Brise Cailloux e Sassoalloro por aqui. O primeiro em 1,55x comparado ao preço , outro em 2.33x. De quebra, o perfeito exemplo de quando o marketing sobrepuja a qualidade. Particularmente, acho tudo isso excelente! Enquanto houver pessoas idiotizadas - em todos os sentidos! - mundo afora, os adoradores de vinho que buscam informações sempre provarão do melhor pagando menos. O chato é quando a estupidez não mexe somente com o bolso do otário, contaminando decisões cruciais para a própria civilização.





Saturday, August 2, 2025

Don Flavitxo e as Malucas

 Introito. São Luiz do Anauá, RO. População: 7.300.

   Dizem que a imprensa é corrupta, vendida, pelega, fala mal do governo de plantão quando não recebe (generosas) verbas de propaganda, portando-se de maneira oposta caso contrário. Posso falar por mim, e apresentar a trajetória do blog: denuncio a tubaronice de importadores de vinhos há anos, mesmo sob ataque (risos!) de puxadores de samba saco cujos comentários até tempos atrás apareciam na moderação. Sempre foram combatidos com argumentos, menos quando tentaram falar de política, já que por princípio esse assunto não está em debate. Um, mais criativo, perguntou se determinado vinho 'ia bem com lula'. A resposta despertou seu senso de honestidade intelectual, e ambos rimos com a situação. Trégua passada, voltamos a nos digladiar. Recobrando a primeira frase deste parágrafo, ofereço a reflexão: já ouviu falar de São Luiz do Anauá, em Roraima? Se ouviu, então está óbvio: a imprensa está cumprindo seu papel... porque o menor município desse estado, com apenas 7.300 habitantes, recebeu, entre 2021 e 2024, a bagatela de R$ 109.000.000,00 em emendas parlamentares, tornando-se a cidade que recebeu o maior valor de verbas por habitante em todo o país. Ainda assim, e em um imbróglio mal explicado, a posição atual da cidade é falimentar, devedora de débitos acumulados em R$ 52.000.000,00. O assunto é antigo (março de 25), e a própria Assembleia Estadual abriu uma CPI para apurar o caso. O ex-prefeito e pivô da ação é do Partido Solidariedade - até ontem na base do Governo Federal -, e atualmente capitaneado pelo Paulinho da Força, impoluto cidadão de conhecida trajetória política: candidato a vice-presidente e diversas vezes candidato à Prefeitura da cidade de São Paulo, além de vitoriosas campanhas ao Legislativo Federal. Não tenho TV, mas repito: se a imprensa mostrou o Presidente do Solidariedade manifestando sua preocupação quanto aos fatos - a falência municipal é incontestável; a apuração dos culpados é outra estória - então ela novamente cumpriu seu papel. Paulinho não se pronunciando voluntariamente, a obrigação dos jornalistas seria apurar os fatos - onde está a tal imprensa investigativa? Agora... 🙄 se você não está sabendo do que falo... pelo menos recorde-se comigo: já ouvimos muito mais barulho por muito menor escândalo. E nesse caso possivelmente a imprensa não está fazendo seu trabalho. Nosso Amado Presidente (NAP), que prometeu, dentre tantas coisas, acabar com sigilos de gastos presidenciais herdadas da administração anterior não o fez. Mas foi pródigo em juntar-se a pessoas de currículo duvidoso, e os escândalos - como o dos velhinhos, para citar outro e poder usar o plural - avolumam-se. Onde está NAP agora, para bater no peito e dizer aos brados: Mea culpa, mea maxima culpa? Bem... sabemos que português não é com ele - nem com o Xandão! -, o que dizer de latim? Enquanto isso, enfraquecida em um leito hospitalar possivelmente digno de Anauá, a Pátria definha. Foi nesse projeto de país em que você, que fez o 'L', votou?

Outros vinhos

Há não muito tempo provei um Terra di Lavoro 2010, e sabia da existência de outro exemplar na safra 2009 - a estória do colecionador desfazendo-se de sua adega. Não foi difícil convencer as Malucas a entrar na brincadeira, e a aceitar Don Flavitxo como convidado especial deste Enochato: leitoras assíduas do espaço, estavam verdadeiramente curiosas para conferir a existência do mítico bebedor que volta e meia menciono como meu principal mentor nas sendas a Baco. E no dia marcado estava lá o lépido Flavitxo com seu sorriso generoso, cativando a todos com suas estórias. Para agradar a tão ilustre companhia, a Maluca ofereceu uma xampa do Philipponnat, a Royale Brut Reserve. Sempre uma ótima escolha, facilmente eclipsa os concorrentes mais simples como Veuve Clicquot, Piper-Heidsieck e  Taittinger, embora custe sim um tanto a mais. Mas em uma boa 'promo' a diferença pode cair a níveis onde vale investir pela pequena diferença, então fique atento. Philipponnat é muito elegante, combina toques bem cítricos com notas florais e fermento; tem belo equilíbrio e nesta safra 2015, com dégorgement em agosto de 2019, está ótimo e apto para ser degustado. Não conheço tanto sobre xampas, e por isso não arriscarei quanto tempo mais pode envelhecer. Mas está em ótimo momento para consumir...

Como pode ser conferido, nessa safra foi um corte Pinot Noir (65%), Chardonnay (30%) e Pinot Meunier (5%) - a composição varia de safra a safra - e por alguns momentos as Malucas refletiram se não valeria a pena Philipponnat sobre as opções mais simples, como já comentado. É isso mesmo, foram de encontro à minha reflexão de que, em 'promo', a diferença pode não ser significativa. Está este Enochato incumbido de ficar atento à próxima oportunidade. Missão que será levada a cabo com o maior denodo e respeito pelas preferências das confrades. Sem esquecer do Mário como parte das Malucas, além deste escriba, quando uso o nome genérico Malucas para o grupo...

   O Terra di Lavoro 2009 estava como 2010: explosivo, pegado, muita fruta e outras notas, encorpado e estruturado. Recupero sua prova aqui, pois os resultados são similares. Don Flavitxo nos encantou com um Viña Arana Gran Reserva 2015 da La Rioja Alta, grande produtor espanhol. Também tinha bom corpo, acidez viva mas estava visível como a pegada era mais leve e graciosa. Frutas em camadas, especiaria, aquele toque chocolate/café (qual?), madeira discreta e integrada, tudo muito elegante, com maravilhosa persistência a alegrar os bebedores, e recordei-me de como o Il Bosco do evento anterior mostrara-se um vinho superior. Sim, Arana - junto da experiência prévia - raiou como um ponto de virada em minha percepção de vinhos mais elegantes sobre aqueles potentes. E tenho mais uma abordagem a validar: já escrevi em algum momento sobre como bons vinhos defenderem-se bem quando encontram outro igualmente significativo pela frente. Repete-se o mesmo entre Arana e Lavoro: o segundo tacou sobre o primeiro toda sua esplêndida potência mas não o sobrepujou; em uma cinesia discreta Arana alojou-se em um ponto mais alto e brilhou sozinho. Vivo e aprendo. Explico melhor: conscientemente, trocarei os vinhos pegados pelos elegantes, de agora em diante. Eles podem ser bons, ter seu apego, mas quando o bebedor percebe essa sutileza como algo mais palpável, a lembrança do maior requinte de fato sempre permanecerá na lembrança. Tento explicar melhor ainda: simplesmente caiu a ficha.

   Por sobremesa levei um passito que há tempos aguardava a oportunidade de molhar gargantas dignas... e encontrou nas Malucas a hora perfeita. Scacco Matto 2007, produzido com a variedade Albana pela Fattoria Zerbina, na região de Emília-Romagna, mostrou toques cítricos, damasco e mais notas. Alguém teria dito mel? Acidez adequada contrabalançando o dulçor e boa persistência completaram bem a noite. Como disseram os confrades, teve bão. 

   Esta postagem foi tocada a um Passadouro Reserva 2016. Havia provado uma garrafa há algum tempo, e estava bem fechado. Seus exemplares mais simples, Tourigas Franca e Nacional 2018 estavam bem prontos no ano passado, mas não ele. Passadouro Reserva está chegando a seu ponto, embora tenha evolução pela frente. Aerou por mais de duas horas e agora, entrando na quinta, mostra fruta contida e especiaria, com acidez e corpo médios. Ficará um tanto para amanhã. Vejamos a conclusão.

Sunday, July 27, 2025

Momentos felizes e tungas infelizes

Introito: juros mórbidos

Há algum tempo - 24 de março - veículo de comunicação não oficial anunciava, em claro tom de boa notícia, o plano do (des)governo em uma modalidade de empréstimo segurada pelo FGTS do trabalhador. O caboclo tem uma dívida com juros altos, faz o empréstimo a juros menores e a quita, trocando por outra com juros menores. Uma boa ideia? Ótima! Se os juros fossem mesmo civilizados como supõe o Andrada, aquele sujeito que colou para passar em economia, ou algo assim, e hoje é o sinistro (sic) da dita pasta de Nosso Amado Presidente (NAP). Os juros, se comparados ao padrão mundial, são absurdamente altos. Tem até dono de importadora de vinho tubarona pensando em mudar de ramo e abrir uma instituição financeira para financiar os endividados país afora.

A NAP não falta desrespeito (sic) ao cidadão. Lembram-se dele dizendo do brasileiro "não levantar o traseiro para buscar juro menor"? Tá fazendo aniversário de 20 anos! Como os próprios meios de comunicação apontaram à época, NAP poderia simplesmente ordenar aos bancos oficiais a baixa geral de juros para forçar todo o mercado a seguir a tendência. E agora, passadas duas décadas dessa triste declaração, no ano da colheita, e uma geração de brasileiros tão ignorantes quanto a anterior, o trabalhador é obrigado a sacrificar seu sagrado FGTS para amortizar dívida engendrada em um governo tão natimorto quanto o último. Sim, essa nova geração de ignorantes e idiotas é bucha de canhão para a gestão de turno, que nela se esfalfa de tanto passar o conto do vigário. Não tentem enganar-me sugerindo termos uma administração governando para o povo. Governa cada vez mais para os ricos, então urge ser expulso do posto o mais rapidamente possível, para o bem da nação - claro, os deputados discordam: deixe sangrar. Termino com a reflexão de que a ótima ideia do Andrada seria absolutamente desnecessária se o país estivesse em situação de pleno emprego, competitivo internacionalmente, atraindo investimentos e portanto com a mão de obra valorizada, e assim as pessoas não precisariam de empréstimos e, antes disso, sequer precisariam contrair as dívidas que agora tenta-se minimizar. Para quem se esqueceu, os maiores aumentos salariais foram concedidos a quem já ganha (muito) bem como os juízes, por exemplo. Turma de sorte, essa. Nas mãos de um governo verdadeiramente de esquerda estariam cada um em seu quadrado.

Diversas provas, sempre bem acompanhado

   Passou-se bom tempo desde a última postagem, e o assunto da introdução ficou velho, pois foi soterrado pelo escândalo seguinte, e este pelo próximo, e... Provo: o leitor que ainda não se deslembrou da triste piada acima saberia dizer qual seguiu-se a ele? Eu, que acompanho um pouco o assunto, estou em dúvida! Acho que foi a caterva das Forças Armadas se juntando para tentar dar um golpe de estado e imprimindo e distribuindo minutas da proposta aos quatro ventos. Mas posso estar errado, e o assunto agora e vinho. Se alguns problemas impediram-me de levantar a pena para tornar vossa vida miserável, raro seguidor deste espaço, não me faltaram degustações sempre muito bem acompanhado pelas confras, sejam a Paduca, a Maluca, a #Émuitovinho e outras reuniões. Listarei algumas garrafas compartilhadas sem a preocupação do momento ou da companhia.

Essa foi por conta do níver do Mário. Ele apareceu com o Châteauneuf-du-Pape do Domaine Juliette Avril 2016, um CdP como eu gosto (muito!): encorpado, com bons taninos e acidez. Buquê rico em frutas e mais toques - não registrei - e agradou a todos. Boa persistência e volume de boca, custa seus USD 50,00 lá fora, faixa de preço para exemplares já bem respeitáveis do Rhône. Era trazido pela Evino, mas encontra-se esgotado e não encontrei referência de preço por aqui. Embora bom para ser degustado, ainda segura a onda por mais alguns anos; se cruzar com uma garrafa perdida, vá com fé. Junto dele tivemos um Chablis Premier Cru 2017 do William Fevre. Creio ter vindo de fora, mas não era meu. Estranhei sendo um Premier Cru não trazer o nome do vinhedo. Mas tinha aquela mineralidade característica, toques cítricos e marcantes, boca com ótima acidez. Outra garrafa cuja qualidade provocou suspiros entre os bebedores, eu dentre eles. Não sei exatamente quem traz os vinhos do WF, mas se topar com eles em alguma oferta, mande ver. Este 2017 está ótimo para consumo.


Devo ter falado de um consumidor desovando sua adega. Felizmente o motivo não é de saúde! Nem necessidade financeira, mas não entremos nesses detalhes. Alguém n'As Malucas comprou um Quinta do Carmo 2011 talvez com minha indicação da safra, que é icônica, e estava com receio (risos). Bebi um Reserva 2007 (outra grande safra) em 2020, e estava inteirão; esse não tinha motivo para seguir caminho diverso... e sim, ótima fruta, mais toques, complexo, foi outro bom ator em noite de conversas animadas. Para um vinho de 18 Euros em Portugal, não está tão fora aqui se o leitor encontrar na faixa dos R$ 300,00. O problema são diversas outras ofertas muito melhores!  Procure, por exemplo, pelos Quinta do Noval... Estão até R$ 100,00 a menos e custam o mesmo lá fora, configurando melhor compra. Consultando o grupo no Whats, sou recordado (rs) que nesse evento apareceu também um Albarinho da Família Deicas, o Cru D'Exception 2022, cujo nome algo capcioso em português fez jus ao prenúncio. Certamente foi trazido pelas confrades em viagem ao vizinho Uruguai. Custa lá 80 dólas, e está lejo de fazer-lhe justiça: um Chablis de WF custa a metade (em seu país de origem, a França) e acaba com ele. Não é culpa da uva, mas de 200 anos a mais de experiência... Não gastarei tempo procurando e comprovando esses preços; o blog tem moral para tais afirmações.

Tungas

Estamos apenas começando. Nossa maior bandeira, a Malbec, ainda está em seu início. Creio que o desafio nas próximas décadas será comunicar como a Malbec se identifica com cada zona, como é o Malbec de La Consulta ou o Malbec de Agrelo... é a evolução normal de uma região vitivinícola. Como na Borgonha, todos sabem que os tintos são Pinot Noir, mas o que interessa saber é de qual comuna e produtor. Estamos falando de um trabalho de muito anos, mas que deve ser feito. E me refiro especialmente aos vinhos. Eles devem manifestar a tipicidade de diferentes regiões.
Alexandre Vigil
Entrevista à revista DiVino, Edição 18, Ano III, p. 34-40

   Não apenas políticos tungam seus eleitores; juízes também! O Parmera tem mundial? Só pode ser tunga... O Xandão - não o de Brasília, o de Ribeirão! - até levantou o dedo em prenúncio de advertência temendo-me desbocado, mas estes tempos tenho sido comedido até na bebida, o que dizer nas opiniões políticas. 

   Recebi estes dias (22 de abril) correspondência acerca do lançamento do The Birth of Cabernet 2021, obra da Catena, ao preço de R$ 1.442,13. Provavelmente os R$ 0,13 representam a margem de negociação para com o consumidor. Ligue lá, teste e diga-me se estou errado. Segundo o representante-patrono oficial no país, é feito com uvas provenientes dos vinhedos Angélica Sur e La Pirámide. Fui olhar o sítio do produtor. La Pirámide foi plantado em 1983, enquanto Angelica Sur tem como registro 2005... uma criança! É quando olho para a epígrafe da seção, leio o próprio enólogo dizendo quanto tempo demora para comunicar como a Malbec de cada zona se identifica no vinho - décadas! -, um trabalho que precisa ser feito (concordo ab-so-lu-ta-men-te!) e comparo com o marketing do importador, para quem o Birth of Cabernet já nasce como um dos melhores vinhos do país (Argentina). Isso simplesmente desdiz o mesmo enólogo em sua entrevista de 2011... esse pessoal de propaganda deveria ser enforcado sem direito de indenização à família. O problema (como sempre) é o preço. Ele custa exatos 300 cruzeiros. Dá uns 50 dólas. Compro ótimos barbarescos e Xatenêfis por esse valor! Ou seja: estamos pagando adiantado pelo trabalho que, reconhecidamente, levaria décadas para ser realizado e justificar o valor do produto!

   Birth... chega-nos, independente dos benefícios fiscais do Mercosul, a mais de 4x(!) do seu valor do outro lado da fronteira. Não bastasse o acinte, na mesma semana recebo via contato de alguma plataforma social a oferta desse exemplar por modestos R$ 440,00. É o representante do qual comprei, ano passado, por R$ '400,00-', o Tondonia Reserva 2011 (preço do site, R$ 850,00). E não se engane: o contrarrótulo vem com o logotipo do importador oficial. Assim vai o brasileiro, otário de todas as horas, de tunga em tunga e pagando o preço cheio no sítio do importador enquanto ele próprio desova alguns exemplares para consumidores mais ligados nas plataformas sociais - não sou eu, mas recebo muitas dicas de leitores atentos. Se prestar atenção, notará que diversas importadoras tubaronas estão praticando expediente similar; descontos de 50% não são incomuns. Quanto ao pobre e pretensioso Birth of Cabernet, lembrando-me da degustação com o Gran Enemigo, posso dizer: não provei, e não gostei!

Oferta da importadora: R$ 1.442,13.

O preço na Argentina: R$ 300,00.



Oferta de fornecedor baseado em Instagram que fornece contato de Whats: R$ 440,00. Inspeção de contrarrórulo em compra anterior de outro vinho comprovou que a pessoa despacha vinhos do importador de ambos os produtos que constam no sítio da última. Não pode ser coincidência... pode?



Sunday, April 20, 2025

Portuguesinho marrento

Introito: não apenas 10 anos perdidos

Confrade envia-me a ilustração ao lado, sem dizer a fonte. Para o tema em pauta não tinha importância, e também não foi difícil encontrá-la.  É sempre bom manter na página a figura ou filmagem quando ela é fundamental para a discussão. Claro que a mídia pertence ao produtor, e por isso a crédito é sempre fornecido. Ademais, estas considerações jornalísticas estão disponíveis gratuitamente e não visam lucro - esta página sequer é monetizada. O que a informação nos diz? Vamos traduzir para um país onde a média do QI é 83.38. Mas antes, um parênteses: se a média é essa, imagine a sagacidade intelectual da turma distante um sigma do lado esquerdo da gaussiana. O valor, divulgado por algumas fontes internacionais, deve ser tomado com cautela, dizem alguns. Concordo plenamente: basta conversar com algumas pessoas próximas, que você considere de boa instrução, para concluir que estão superestimados. As pessoas próximas podem ser de esquerda ou de direita; o QI não escolhe viés político. Fechemos o parênteses e comecemos a explicação adaptada ao grande público, como proposto.

Imagine uma pista em linha reta onde todos os competidores alinhem-se lado a lado. Isso, a pista tem, por exemplo, espaço para 20 carros. Não há ultrapassagem, tudo o que se precisa fazer para ganhar a corrida é acelerar e chegar na frente. Na primeira figura, a terceira coluna, "% Change", ou porcentagem de variação, mostra a potência do motor de cada automóvel. Para nossa completa vergonha, o carrinho que pilotamos é o penúltimo em potência. Só ganhamos do Japão. Aquela figura mostra ainda a riqueza dos países, por assim dizer (o PIB). Se o Japão está em uma posição vexatória quanto ao crescimento econômico, também podemos observar que é um país que gera o dobro da riqueza do que nós geramos, e eles têm apenas a metade da população, comparado ao Brasil. Os dados referem-se aos últimos 10 anos. Vemos pela potência do motor como nosso desempenho nessa corrida tem sido deplorável. A tal Nova Matriz Econômica, implementada pela Dilma - expulsa do cargo de forma legítima para o bem da nação - começou em 2011. Nosso baixo crescimento pode ser dito herança maldita dela, mas ele em raízes mais antigas. Quão antigas?

Não sei quão antigas tais raízes são, efetivamente, mas aqui tem uma ferramentinha bem legal (sic), com dados acumulados do PIB, compilados desde 1988 até 2022. Você pode colocar os países que desejar, e traçar o gráfico do crescimento de cada um em comparação com os demais. Sei que na figura ao lado pode ficar difícil distinguir quem é quem, então coloquei um pontinho vermelho à direita, para mostrar onde está o Brasil em comparação com Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, China e Índia. Não precisa ter QI muito alto para procurar o ponto na parte mais baixa do gráfico. Em conjunto, os dados apresentados abarcam toda a redemocratização e até hoje, desde FHC 1 e 2, Ali Lulá 1 e 2, Dilma 1 e 2, Temer, Bolsonéscio e Ali Lulá 3. Agora eu quero ver qual pateta conseguirá me convencer de que não estamos imersos, desde sempre, na mais completa e absoluta falta de proposta para o país. Dá até para entender a ocorrência de um ou outro voo de galinha, como se diz, breves períodos de algum crescimento econômico seguido de retrocessos. Bolsonéscio, o Breve, foi eleito deputado em 1990 - desde o início da série histórica. Ele está lá desde sempre; é parte do problema, portanto. Idiotas acreditam-no solução. Nada mais estúpido.

   À guisa de conclusão, fiquemos com o óbvio: falta-nos projeto de país (apontando com dedo a 45 graus). Eles todos já se engolfaram demais em escândalos diversos de corrupção. Se não confiamos mais na Justiça para dar-lhes a devida punição, pelo menos podemos desempregá-los, a todos eles. Comece a escolher melhor seu próximo candidato. Desde já. Na última eleição votei em pessoas com tendências nas quais jamais contava apoiar, pelo simples fato de que todos os esquerdistas - então esquerdopatas - apoiavam uma candidatura inidônea, para dizer o mínimo. Não estou vendo motivos para mudar. A esquerda perdeu-se em sua própria idiotice e pagará por isso na próxima eleição da maneira mais indigna. Com muito prazer, terei minha bota apertando sua garganta um pouco mais.

Um portuguesinho marrento

Faz tempo, mas lembro-me como se fosse hoje: a Débora comentou de uma 'promo de fechamento' 😣 da Grand Cru de S. Carlos - no final parece que não fechou, mas mudou de endereço. Pensando talvez em fazer uma mudança mais sossegada, estavam queimando parte do estoque com desconto um pouco acima daquele então ofertado pela cadeia. Chamada, a Maluca prometeu comparecer em peso. Dito e feito: encontramo-nos lá apenas eu e ela, olhando-nos e perguntando-nos o que fazer. Conjuntamente rolava uma degustação, e elas são ótimas ferramentas profiláticas para espantar de nossos bolsos tudo quanto é (sic) escorpião, medo e inibição... Maquininha na mão, fomos (ela) pesquisando alguns preços no Wine Searcher, e descobrindo alguns na média de 2x. Discretamente levei a mão ao peito, estava apertado: havia um portuguesinho marrento dando sopa...

Quinta do Mouro Touriga Nacional é o irmão menor do Quinta do Mouro Rótulo Dourado, e em sua safra 2017 estava ali quietinho na prateleira, olhar baixo, tímido, descontente com seu valor de face - pornográfico - embora algo animado com a etiqueta de desconto, mas sem que esta lhe sobrepujasse a depressão insuspeita. Fiz algumas sugestões para a Débora - ele tinha algum crédito para gastar - e optamos por rachar o Mouro no meio (sic!) quando chega atrasado o Mário. Ela e eu olhamo-nos discretamente, cúmplices no pecado, sorrisos contidos, companheiros de um futuro prazer, e deixamos o pobre confrade escolher outras garrafas sem nos preocupar em sugerir-lhe a divisão do alentejano. E na sexta passada, alguns meses depois da aquisição, resolvemos ser a hora dele. O bifim ao molho gorgo - preparado por ela - estava muito, mas muito melhor do que o meu 🙄. Agora entendo o motivo das confrarias preferirem coxinha, cachorro-quente, pizza ou simplesmente jantar na casa de outro confrade... 😣. Curso intensivo de cozinha. Projeto futuro. Para a próxima gestão do Senhor. Bem, voltando ao vinho: minha sugestão foi abertura com uma hora de antecedência, ou algo assim. O problema é que a garrafa permaneceu na geladeira... a baixa temperatura retarda a velocidade de oxidação, e a primeira prova apresentou-nos um vinho algo sem graça, poucas características perceptíveis, ligeirinho e sem força. Comentei estar muitas notas abaixo do irmão maior, degustado nos idos de '21 - que também não estava lá grande coisa embora mostrasse ótimas características e potencial, e igualmente foi serviço. Aconteceu da segunda rodada vir um tanto melhor e a terceira começou a surpreender: observamos a acidez tornando-se mais e mais presente, os taninos integrando-se e o álcool compondo-se magnificamente ao conjunto. Em algo como uma hora e pouco de ótima conversa e muitas risadas, o vinho pareceu moldar-se ao nosso humor e ao final éramos três brindando o prazer de partilhar taças e a expectativa antecipada de seu aniversário, logo à frente. Débora notou toques de framboesa e ameixa. Para mim era apenas fruta vermelha, não conseguia distinguir - sujeito ruim de nariz. Muito mais facilmente identificável, o conjunto total chegando na segunda hora com muito equilíbrio, elegância e presença marcante entre tanino e acidez, provocando as papilas com notas de chocolate e um repique herbáceo. Estava maravilho... então sim durava em boca, ótima persistência, e tinha mais complexidade ali, faltou mesmo provador para destrinchar seus componentes. A safra '17 foi ótima em Portugal, e seguramente esse exemplar tem longos anos à frente para evoluir, embora possa ser consumido agora com a devida aeração. Uma pena seu preço estar tão alto no país: entre R$ 686,00 e R$ 1.100,00, de acordo com sua importadora tubarona preferida. Mesmo entre importadoras, é muita diferença! Onde estão aqueles calhordas especialistas em defendê-las neste momento? Como explicar uma diferença desse tamanho? Mentindo muito, claro! A despeito disso, foi uma ótima experiência, e não sobrou testemunha desse encontro... 😗.


Como se fosse preciso...

Escolha sua importadora tubarona preferida, Mistral e Grand Cru...



...e compare com o preço lá fora...


Saturday, April 12, 2025

Postagem em atraso, mas deu bom...

Introito

Quando um homem mente, 
ele assassina uma parte do mundo.
Merlin, em Excalibur (1981)

Néscio: Que ou aquele que é falho de instrução, 
de conhecimento ou de inteligência; 
demente, estúpido, ignorante.
Qualquer dicionário
Neste caso, verbete do Michaelis

Sim, invoquei o significado de néscio recentemente. Estará no contexto. No mais, é bom falar besteiras de vez em quando, e já fiz o suficiente, anteriormente. Por uma vida... Às vezes chamamos a isso ironia, mas não importa tanto, pois tenho certeza: o leitor entendeu a mensagem, e o mérito a mais dele. Volto a falar de Excalibur (1981), resenhado em 2021. É um filme forte, com diálogos ricos, poderosos, aliados a uma estética visual deslumbrante - como as armaduras reluzentes em prata impressionam! Nicol Williamson literalmente rouba as cenas interpretando Merlin, e Helen Mirren no papel Morgana é a antítese perfeita da honestidade e da fidelidade representadas pelo mago, deixando o pobre Nigel Terry (Arthur) apagado em sua interpretação de um personagem às vezes beirando a inocência juvenil advinda de sua criação como filho de um nobre de menor escalão. Do muitos momentos arrepiantes, aponto três. A primeira quando Arthur, recebendo a cura ao beber do Graal, recobra a iniciativa e sai em cavalgada para combater as tropas de Mordred, ao som de O Fortuna. Acompanhamos em linda cena a própria terra recobrar-se de seus ferimentos, conforme anuncia Perceval no início, Você e a terra são um. Eis o diálogo, com um trecho que antecede a cena apontada acima:
Perceval: Você e a terra são um. Beba.
Arthur: Estou definhando. Não posso morrer. Não posso viver.
Perceval: Beba do cálice e você renascerá, e a terra com você. (Arthur bebe) 
Arthur: Perceval... Eu não sabia o quão vazia estava minha alma... até que ela foi preenchida.
Kay: Arthur...
Arthur: Prepare meus cavaleiros para a batalha. Eles cavalgarão com seu Rei mais uma vez. Deixei que outros carregassem o peso da minha vida por tempo demais. Lancelot carregou minha honra, e Guinevere, minha culpa. Mordred carregou meus pecados. Meus Cavaleiros lutaram por minhas causas. Agora, meu irmão, eu serei... Rei!
Kay: Guardas, Cavaleiros, Escudeiros! Preparem-se para a batalha!
e então a tropa sai em cavalgada.

   A segunda cena é a abertura seguida da batalha inicial, travada na calada da noite. Ela evoca um tempo de violência e brutalidade, sem ser (tão) violenta. É fácil notar que a armadura atingida pela lança está vazia, mas não faz muita diferença: a mensagem está dada. Ambas as cenas, citei naquela resenha feita quando o filme chegava ao seu quadragésimo aniversário. Acrescento a terceira: quando a corte está reunida com o Rei Arthur, e Merlin é chamado:
Arthur: Qual é a maior qualidade da cavalaria? Coragem? Compaixão? Lealdade? Humildade? O que você diz, Merlin?
Merlin: Hmm? Ah. Ah. Ah, o melhor. Uh, bem, as qualidades se misturam, como os metais que misturamos para fazer uma boa espada.
Arthur: Sem poesias. Apenas uma resposta direta. Qual é?
Merlin: Tudo bem, então. A verdade. É isso. Sim. Deve ser a verdade acima de tudo. Quando um homem mente, ele assassina uma parte do mundo. Você deveria saber disso.

   Excalibur é um filme para ser visto e revisto. Preciso revê-lo - a última vez foi em '21 - e, assim como Arthur ao beber do Graal curou suas chagas, pretendo ao assisti-lo novamente reafirmar para mim mesmo valores de honestidade, fidalguia (no sentido de nobreza dos sentimentos mais elevados), de compromisso para com a terra (minha nação). Ao contrário de Bolsonéscio, sou movido por uma integridade inegociável, por um respeito extremo ao povo cujos impostos suados com sangue - muitas vezes sem que soubessem - custearam minha educação, e para com quem estou ligado pelo mais profundo respeito e gratidão. Este é o recorte que dá suporte à reflexão de hoje. Esta imagem foi usada pelo candidato para vender-se ao eleitor:


Ele (Sérgio Moro) vai pescar (corruptos) com rede de arrastão de 500 metros...

   Esse sujeito mentiu para todos. Não foi o primeiro; NAP (Nosso Amado Presidente) também. E antes dele o idiota anterior o antecipava em iguais atos, ao deixar de lado os cinco compromisso da mão aberta para dedicar-se à própria reeleição. Todos eles receberam um e apenas um voto meu. Ninguém enganou-me pela segunda vez - se o fizesse, o idiota seria eu mesmo. Veja aí a 'comprovação' (como se necessário fosse...) de como ele tratou a corrupção.


   Dá para notar o cinismo no sorriso do sujeito? A Lava Jato começou em 2014, no governo da Dilma, e investigava fatos pretéritos! Acabar com a operação significou barrar a investigação de fatos passados que, naquele momento, até poderiam chegar ao início da própria gestão Bolsonéscia, mas davam contas de gestões anteriores. E ele acabou com tudo? Ora, a promessa foi combate à corrupção. O esperado era fazê-lo, ou morrer tentando. Ao fugir desse compromisso - dentre outros - passou a governar pelo engodo, não pela verdade - e quando um homem mente, ele assassina uma parte do mundo. Seus seguidores são inspirados pelo alarde de suas alegações, não pelo seu bom exemplo. Ele claramente servia-se do país em vez de servir ao país, e não pode haver dúvida:


   A pergunta a ser respondida é simples: quanto tempo mais bolsonéscios precisarão virar a cara para a realidade, tentando encobrir as colossais falhas de seu 'líder'? Eu sei, é difícil admitir erros. O problema é o quanto mentimos para nós próprios, para nossos vizinhos e pessoas queridas até em algum momento termos coragem de aceitar o fracasso de nossas crenças. Siga esta sugestão: quanto mais rápido, melhor...

Deu bom na Maluca

A Maluca já reuniu-se - felizmente - algumas vezes, e esta não é exatamente a última reunião... na verdade, aconteceu no dia seguinte ao encontro na Ghidelândia - faz um tempinho. Não faz mal: vale sempre a memória do encontro. Aliás, o registro é merecido, pois foi o primeiro encontro da turma em 2025, acontecido quando março já encaminhava-se para seu final. Viagens de um(a) e outro(a), compromissos, convalescência... o Universo conjuminou muitas e diversas alternativas e fusão de múltiplas realidades para manter o grupo afastado. Sim, algumas reuniões aconteceram aqui e ali com membros separados, mas a nossa primeira grande mesa de 2025 só se materializou quando as circunstâncias finalmente permitiram. E como deu bom! Rimos como se não houvesse meses de distância desde o último encontro; brindamos a Baco e a nós mesmos, e nos deixamos embalar pelos sabores acolhedores da comida e taças partilhadas. Foi mais do que um jantar: foi a celebração da amizade que resiste ao tempo e se rega, sempre, de vinhosbões (sic! rs!) e generosas doses de companheirismo. A Maluca é uma confraria que vem dando muito certo.

A Débora deve ter lido alguma postagem mais antiga do blog, tipo esta, pois chegou com um vinho embalado e uma venda para testar este Enochato. Enquanto permanecia de olhos cobertos, lembrei-me do trecho escrito em 2014 acerca da opinião de algum importador sobre degustações assim conduzidas, bem como do triunfo de Don Flavitxo ao matar, vendado e apenas no nariz, a procedência de um Borgonha branco, grande e novo. Era um Corton Charlemagne... Não tinha a menor esperança de chegar próximo, mas também não poderia ficar logo na primeira avalição, se branco ou tinto, não? Confesso: ali (imaginei todos me olhando), às cegas, de mim para mim, como me sairia? Calma, pensei comigo, enquanto evocava a famosa frase de Duna, O medo é o assassino da mente. O medo é a pequena morte que conduz à destruição total. Ah, mentira!, estava é apavorado, isso sim!  🤣 E talvez o pavor não tenha-me permitido notar o toque claramente cítrico logo na primeira cafungada. Mas na segunda ele estava lá, cristalino. Não tive dificuldade em identificá-lo como branco, mas foi o limite. E aqui vai a conclusão da brincadeira: faça isso com sua confraria, não se furte a testar-se. E faz diferença estar vendado. Chamado a opinar às cegas (mas não vendado) sobre o Le Macchiole Paleo, senti-me bastante mais à vontade para sugerir um Bordeaux fino (exatamente assim) - embora fosse italiano, é um Cabernet Franc que derrotou diversos bordaleses em degustações às cegas entre especialistas. O mundo vinho é assim: pode gerar experiências novas e diversão a cada encontro; depende do nosso desprendimento. Quanto menos o caboclo achar-se Robert Parque dos Infernos e mais espelhar-se no Goofy, mais engraçado será.

Mandolin Roussanne 2022 era o branco da conversa. Roussanne é, junto da Marsanne, uma cepa característica do Rhône presente como corte em excelentes Xatenêfis. O melhor que já bebi foi o Vinhas Velhas 2007 do Beaucastel. Nesse nível, é marcante. Mandolin, notas abaixo (claro...) era rico em frutas brancas e (não lembro de onde veio) toques de mel. Boa acidez e volume em boca, não percebi madeira - mas tem, segundo a ficha técnica do importador. Com álcool a 14% - imperceptíveis  - tem um conjunto equilibrado e agradou a todos. É produzido na AVA (Área Vitivinícola Americana) de Lodi, Vale Central. Chegam-nos poucos vinhos mais distintos dos EUA; esse é um deles. A Luciana trouxe-nos em vinho degustado em Ribeirão Preto, num evento onde a Maluca esteve presente em peso, a menos deste Enochato. Paxis 2020 mostrou-se rico em frutas no nariz, e algum melaço. Ligeiro, taninos bem leves, acidez pouco presente. Achei doce demais, e a segunda taça, bem regrada, demorou para descer. Só agora, escrevendo a postagem, noto um 'Medium Dry' no rótulo 🙄, e fico me perguntado se é um meio seco... A estrela foi mesmo o final do Il Bosco 2006 que sobrara do dia anterior e levei para casa pensando em compartilhar. Mantido simplesmente arrolhado e na geladeira, estava ótimo! Como sobreviveu bem, a despeito dos 20 anos nas costas! As Malucas curtiram... Por sobremesa, servi o Oremus e o Guiraud, mas já falei sobre eles anteriormente. 

Escolta

Depois de algum tempo tentando terminar esta postagem, e decidido a fazê-lo desta vez, descobri perdido na adega o Conde de Guião Reserva 2013, comprado há muito tempo em algum evento da Casa Deliza em parceria com a importadora Orion. Não foi servido então, mas a linha mais simples soou honesta. Este ícone estava à venda em uma caixa individual de papelão até bonita e não era muito caro; resolvi arriscar. Produto da Caves Santa Marta, uma cooperativa estabelecida no Douro com mais de 1000 associados, tem um portfólio com aguardentes, espumantes, Portos e uma gama de vinhos desde bag in box até a linha reserva onde Conde de Guião aparenta ser o mais refinado. Corte de Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca, toques de frutas secas e geleia indicando claramente aromas terciários. Algo herbáceo também. Corpo médio, taninos arredondados mas um tanto ralos, uma ponta de ácido - além da acidez - com um final de chocolate amargo. Um pouco de álcool sobrando (14,5%), perfez um vinho não tão equilibrado, embora não ruim. A safra 2013 não contribuiu muito, mas tenho dúvida se os problemas apontados dependem tanto da colheita ou se trata-se mais de processo. Tenho impressão de que custaria, hoje, um Noval TN ou Shiraz mal comprado (R$ 250,00), e não compete com ele. Não se pode ganhar todas... serviu para escoltar o final desta escrita, que arrastou-se por tempo demais. Tenho saudades de muitos vinhos, mas não sentirei nenhuma de Conde de Guião.