Saturday, July 27, 2019

Sassicaia destroçado por Borgonha de um terço do seu preço

Introito: bebemorando nos 50 anos da conquista da Lua

   Contam que o primeiro ser vivo a ganhar a órbita terrestre seria um macaco. Ele chegou, olhou para o módulo, coçou o queixo de leve, baixou uma das mãos e fez um sinal de "não" bem claro com o indicador direito. Na cena seguinte os técnicos tentavam empurrá-lo para dentro, enquanto ele se segurava com mãos e pés na borda exterior da cápsula. Nisso chega a senhora Khrushchev com uma linda cadelinha, que pula de seus braços e entra toda feliz no módulo do Sputnik 2. Quase todos disseram, em uníssono:
   - Mas que gracinha...!
   Só a sra. Khrushchev não estava contente:
   - Laika, sai já daí!
   O sr. Khrushchev apenas acendeu mais um charuto. Corria a data de 2 de novembro de 1957, e no dia seguinte Laika, apesar de morta, entrava para a história.
   Quase cinco anos depois, em 12 de setembro de 1962, o então presidente norte-americano John Kennedy realizava o famoso discurso na Rice University:

...We choose to go to the Moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard; because that goal will serve to organize and measure the best of our energies and skills, because that challenge is one that we are willing to accept, one we are unwilling to postpone, and one we intend to win, and the others, too.
 
   Como sabemos, a corrida espacial foi um período onde os americanos estiveram, na maior parte do tempo, correndo atrás do prejuízo, tentando ultrapassar os russos em uma competição onde o segundo colocado nada levaria. Infelizmente naquele tempo a Rússia era um país muito fechado, e por isso os grandes feitos e conquistas realizados pela empreitada acabaram ficando a crédito dos americanos. Mas eles também não chegariam lá não fosse a concorrência de Khrushchev e sua turma. Finalmente, em 20 de junho de 1969, Neil Armstrong proclamava:

That's one small step for a man, one giant leap for mankind.

   Cinquenta anos depois, relembrando tamanho esforço, toda a combinação de habilidades conjugadas e a extrema coragem de seus principais protagonistas, pagamos a todos a justa homenagem da lembrança e reverência. Termino dizendo que alguns brasileiros tiveram participação no projeto, integrando as numerosas equipes que realizaram manualmente complicados cálculos em todas as etapas do vôo.

Começando da esquerda, em "U" invertido: Romeu, Jacimon, Akira,
Neusa (a senhora N), Wilson e este enochato.
Fotógrafo: Plácido "Portuga".

Os vinhos

   Logo na manhã do sábado, após uma breve olhada no Cellar Tracker, achei que umas 10 horas de brisa fariam bem ao Sassicaia. Desci para a adega com o primeiro aerador. Peguei as garrafas que havia selecionado e abri o italianinho.

Aerador com o Sassicaia, depois que ele... despingou* (rs!)

   Lá pelas 14:00 desci com dois outros aeradores e foi a vez do Borgonha. Somente às 19:00 descorchei o argentino. Vamos a eles.

   Tenuta San Guido Sassicaia, Bolgheri, 2009.

   O Sassicaia é tido por alguns como "o melhor vinho da Itália". Eu, que praticamente não entendo muito, recomendo de saída: Calma... Falar em "o melhor vinho da Itália" para uma região que começou a plantar em 1944 (veja aqui) e cujo primeiro rótulo apareceu em 1958... contra toda a história da própria Toscana e do Piemonte... parece um pouco demais, não? Bem, Bolgheri fica em Maremma, na área costeira da Toscana, e é lar de muitas vinícolas boutique. Uma boa descrição da região está aqui. Logo na abertura, quando finalmente consegui* vertê-lo no aerador, mostrou boa fruta. Corte das Cabernets Sauvignon e Franc, não é o que podemos chamar "vinho de terroir": a produção em 2009 foi de 10.000... garrafas? Não, caixas! (veja aqui) Em 2015 foram feitas 17.200 caixas. Os avaliadores deram-lhe "notões", em peso, na safra 2009. É um bom vinho: equilibrado, acidez média, bons taninos. Aberto com 10 anos (recomenda-se pelo menos 7 anos de guarda), e bem aerado, mostrou-se bom acompanhamento ao filé a Rossini. Mas é um vinho... sem terroir. Para alguns, poderíamos dizer, então, "sem alma". Impressionou pela qualidade, porque é bom, e decepcinou pelo preço (USD 210,00, lá fora). Não vale USD 100,00. Pela quantidade produzida, então... (é discutível querer comparar isso, eu sei, mas vou pular essa parte). Mas que não vale, não vale, não vale. A quantidade de opções pelos mesmos USD 100,00 é quase... "infinita". Talvez consiga falar sobre isso depois.

   Pommard 1er Cru Clos des Epeneaux Monopole, Domaine du Comte Armand, 2005

    Pommard está localizada na comuna de Beaune Côte et Sud, que é uma subprefeitura de Beaune, por sua vez um departamento da Côte-d'Or, que está na região da Borgonha... entendeu? Eu ainda não... Les Epenots e Les Rugiens são os dois melhores vinhedos dessa minúscula região - tudo na Borgonha é minúscula, exceto, claro, a qualidade de seus vinhos. Les Epenots pertence exclusivamente ao Domaine Comte Armand, e é o vinho mais sofisticado do produtor. Para entender um pouco mais da Borgonha, veja aqui. Claro, é um 100% Pinot Noir, também abriu com boa fruta. Sua produção atinge 22.000 garrafas, e os avaliadores não deram-lhe "notões". Dois asiáticos deram... Com umas 5 horas de areação,  foi excelente acompanhamento para o filé a Rossini. Tem de tudo, é pura felicidade engarrafada: boa fruta, chocolate (café? - risos!), bons taninos, acidez integrada ao conjunto da obra. Qualquer adorador de Borgonha pode (deve!) bebê-lo de terno. E de joelhos, claro. Esperava que uma ligeira competição entre Epeneaux e Sassicaia gerasse alguma discussão sobre qual seria melhor. Ledo engano: Epeneaux des-tro-çou Sassicaia, em opinião unânime da mesa. O preço médio, nessa safra, é de USD 165,00. Dá uns 50 "Dóla" mais barato que o Sassicaia. E vale muito, mas muito mais...

   Achaval Ferrer Finca Bella Vista Malbec, Perdriel, 2013

    Achaval Ferrer é uma conceituada bodega Argentina, e seu Finca Bella Vista é produzido na zona de Perdriel, em Luján de Cuyo, uma sub-região bem próxima a Mendoza. É um dos melhores produtores da Argentina, e mesmo seus vinhos mais simples chamam atenção: não são aqueles "Malbecões" pesados e doces, "engoiabados", mas sempre bem estruturados, acidez acima da média dos sul-americanos e bom buquê. Também abriu com boa fruta, e ao vertê-lo no aerador tive uma lembrança do Estiba Reservada, da Catena. Mais numa certa "profundidade" do buquê, se o leitor me entende. Não é uma característica comum aos sul-americanos. Sua produção também está em cerca de 22.000 garrafas, segundo o sítio do produtor. Os avaliadores ocidentais deram-lhe "notões", o que só confirma minha má estima para com essa turma. Não é um vinho ruim, não! É bastante bom. Entre os sul-americanos, ele Reina (observou o "R"? Pois é). Mas não competiu tão bem com os outros dois. Boa fruta, couro, boca equilibrada, só poderia ter um pouco mais de acidez. Note que tem, para um sul-americano. Só não acompanha os bons europeus. Sendo franco, também não vale o preço (USD 100,00). Pelo menos não custa na Argentina a metade do que custa no resto do mundo...

   Já comentei algo como... "os melhores vinhos sempre encontram as taças primeiro", no sentido de que, colocados ao dispor dos comensais, os melhores vinhos sempre são consumidos antes. Às cegas ou não. Faça o teste! O Sassicaia, servi às cegas, mas abrimos depois da primeira rodada. O resultado foi: Epeneaux "secou". Sassicaia e Bella Vista sobraram. Este último, sobrou mais... Vide:

Preços

   O leitor mais atento notou os preços no mercado externo (civilizado). Aqui, as coisas são desbalanceadas, como sempre. Achava que o representante do Sassicaia por aqui fosse a Via Vini. Fazendo uma busca para esta postagem, notei que não. Está por R$ 1.900,00 no Vinhos de Qualidade (vines.com.br). Mas também por R$ 2.900,00 na Via Vini. Na verdade, não. Está em "promoção" por esse preço. Fora da promoção, seria R$ 3.600,00:
   Agora... está em "promoção" há... um ano?(!). Sabe aquela estória das Black-Fraidi? Promoção de metade do dobro? Ou então "preço lá em cima, com promoção infinita"? Assim. Posso estar errado, mas entendo por "promoção", ou "preço promocional", a uma oferta limitada no tempo e na quantidade. Claro, os espertos que até apreciam uma ironia - mas ironizam de maneira tão estúpida quanto deselegante - dirão que "é uma promoção, que se estende por um ano". Sim... como sou tolinho... Só vejo maldade em tudo que é ação (sic) dos nossos honestos importadores que fazem das tripas coração para que cheguem a nós vinhos nas melhores condições de preço. Aliás, deve ser mesmo uma boa condição: veja lá, dá pra pagar em 3x...

   O Achaval Ferrer Finca Bella Vista em preços oscilando entre R$ 725,00 (Adega Almeida) a R$ 1.200,00 (Bebida Online).

   O Clos de Epeneaux é representado pela De La Croix. Seu proprietário vive dizendo não acreditar como brasileiro aceita pagar tão caro por vinhos. Quem me contou isso foi o gerente da loja por 12 anos, o Daniel Toledo. Pois então, fazendo sua parte quanto a respeitar a carteira do consumidor brasileiro, o senhor Geoffroy De La Croix, nos presenteia o Clos de Epeneaux em sua safra 2011 pela bagatela de R$ 850,00. Tá certo, não é efetivamente uma bagatela, dada a quantidade de reais necessária para sua aquisição. Mas comparando qualidade com a dos vinhos acima, e seus preços... é sim!

*Comentário final

   Um detalhe digno de nota: logo no começo da manhã, ao abrir o Sassicaia, fiz como orientam os manuais: comecei a verter vagarosamente o líquido para dentro da peça. E... nada! Que diabos! O líquido se recusava a despejar-se no aerador... Só quando a garrafa estava quase na vertical a primeira gotinha despingou (rs!) pela borda e... ping... caiu lá no fundo. Relutante, um fiozinho de vinho seguiu o mesmo caminho. Tive calma, mantive a garrafa na posição e alcancei o resultado esperado. Fiquei intrigado, o que estaria acontecendo? Alguma anomalia gravitacional momentânea? Um efeito quântico desconhecido fornecia impulso negativo ao líquido? Acho que, assim como o macaco do começo da estória não queria entrar na cápsula, o Sassicaia também não queria ir para o aerador... já sabia o destino inglório que o esperava, com o Borgonha ao lado...

Monday, July 22, 2019

Comparando o preço do Dom Melchor em três países

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Introito

   Eu preciso voltar a escrever... É chato (eu acho, e ao menos para mim) só colocar o nome e a foto do vinho e as impressões sobre ele. Precisa contar alguma estória (nem que seja de mentira - risos!)... ou do vinho, ou do rótulo, ou do produtor. Ou de qualquer combinação não-linear (rs) de cada um, somando eventualmente alguma informação sobre a uva, ou sobre o terreno, etc.
   Enquanto a inspiração não vem (rs), vou destilando meu veneninho aqui e ali (gargalhadas!). Não externei para o leitor meu completo desapontamento com o que fizeram do sistema de avaliação por notas nos últimos tempos (década, ou mais 😞): tolos de metralhadora em punho, disparando notas 100 com cadência maior do que metralhadoras Talibans disparam balas reais quando desejam comemorar alguma notícia ou boato bom para eles. O exemplo maior dessa prática é um certo senhor... James Sucks, eu acho, embora outros avaliadores também não escapem de certo pernosticismo.
   Note o leitor que minha má estima não está dirigida ao sistemade notas em si: o desapontamento é "...com o que fizeram do sistema de avaliação...". Para mim, o sistema tem muitos méritos. Assim como a energia nuclear. O problema é o que pessoas sem escrúpulos fazem de um e de outro...

O preço dos vinhos chilenos em geral

   Há algum tempo comentei sobre o Parker ter dito que os vinhos chilenos estavam subprecificados (aqui). Ele disse isso em 2008, e bastou para que o preço deles dobrasse em 2009 (Don Melchor pulou de USD 60,00 para USD 120,00, naquela época), chegando atualmente a USD 150,00, no Chile. Vários outros rótulos/produtores seguiram essa toada. Algum tempo depois, os segundos vinhos também aumentaram bastante, e na sequência até os terceiros vinhos de muitos produtores tiveram seus preços majorados no mercado chileno.
   A escalada de preços vem se espalhando para garrafas cada vez mais simples, e atualmente vários vinhos chilenos estão caros quando comparados com diversos europeus de importadoras que praticam margens de lucro que favoreçam um pouco mais o consumidor final. Digo que "estão caros" porque os chilenos, face aos europeus do mesmo preço, entregam um produto visivelmente de menor qualidade. Já discuti isso na mesma postagem do parágrafo acima. Fazendo rápido uso do Wine-searcher, o leitor pode comparar o preço dos vinhos de sua preferência no país onde é produzido, no Brazil e em qualquer outro lugar (civilizado) do mundo.

O preço do Dom Melchor

   Resolvi comparar o preço do Dom Melchor depois de receber mensagem com preço promocional dele: USD 75.00 na loja Benchmark.com. Tinha de cabeça que na média ele custaria um pouco mais nos EUA, mas, curioso, fui procurar. Vejamos:
   Abaixo, tela com a propaganda oferendo o DM a 75 dólares, e seu preço em algumas lojas chilenas. Podemos arredondar o preço dele por lá a 150 dólares? Então tá, obrigado.


   Não satisfeito, procurei pelo custo do DM nos EUA, atualmente:
    Olhaí (risos): nem está tão bom assim... duas ofertas melhores do que a recebida. Um pouco mais, poderia até chamar de propaganda enganosa (😂😂😂).

   Vamos agora observar o preço dele no Brasil. Lembremos que o imposto do vinho por aqui é de uns 160% (na cabeça de alguns importadores, de alguns lojistas e de idiotas em geral), e de 65% segundo a legislação em vigor. Os preços abaixo também estão em dólares, claro. Está mais barato por aqui do que no próprio país produtor! Pagando 65% de impostos! Os impostos no Chile somam algo como 20% (para bebidas, para o restante dos produtos é cerca de 14%).


   E, novamente, a pergunta que não quer calar: para custar 75 dólares nos Estados Unidos... por quanto o vinho foi vendido?(!). Foi vendido por algum valor, pegou o navio (rs; ou será que foi de avião?), foi descarregado, distribuído e chegou na loja a USD 75.00. E aí, saiu por quanto?(!)

   A conclusão é que o Chile já tornou-se um destino sem grande atração para os enófilos mais esclarecidos. E, por que não dizer, para o turista mais esclarecido de maneira geral. Olhe só mais esta: procure jornais chilenos quando estiver em Santiago. Veja a quantidade de restaurantes oferendo descontos de até 40% para portadores de Cartão Isto, ou Cartão Aquilo (Clube de Leitores Mercúrio, Banco Falabella, etc). Duvida, né? Olhaí...

   Ou seja: o habitante local recebe o desconto, enquanto o turista fica com o preço cheio. O Chile já foi um destino mais atraente...
   Preciso ainda dizer que nada tenho contra o Chile ou os chilenos, nem contra a exploração do turismo, que é uma atividade econômica como outra qualquer. Mas explorar o turista é bem outra coisa...

Friday, November 23, 2018

Black Fraid

Aproveitem as oportunidades

Todo ano a Black Fraid/Fraude/Friday nos aterroriza com propostas sedutoras - quem não aprecia 30% de desconto (ou mais!) em uma compra? O problema é mesmo de sempre: lojas aumentam o preço antes para dar desconto depois, prática extensamente reportada anualmente desde há muito. Em outros casos, o preço de ocasião traz o valor do produto para uma margem semelhante àquela praticada por importadores que normalmente oferecem preços razoáveis em seus produtos. Por razoável quero dizer que a margem média dos produtos oferecidos está em valor consistente com o preço dos produtos lá fora. Enoeventos sempre escreve matérias a respeito, veja aqui.

Assim, o consumidor deve estar atento e... fazer uma auto-crítica - algo muito em voga nestes tempos... - ou melhor, uma análise crítica das ofertas que encontra. Como sempre, a ferramenta Wine-Searcher nos ajuda a entender o quanto uma oferta pode estar... "boa".

Veja algumas oportunidades que encontrei nesta BF de 2018:

  • Pinot da Nova Zelândia, de R$ 828,00 por R$ 579,60, na Wine Brands. Pena que lá fora custe tão menos...





  • Falesco: um italiano muito bom... de R$ 329,00 por R$ 230,30, na Wine Brands. Essa sim, uma boa compra, apesar da atual cotação do dóla (sic) estar alta, o que reflete na comparação final. Imagine se o dóla (sic) estivesse na casa dos R$ 3,00, refaça as contas e... seja crítico.




   Alguns produtores não entram em BF. Apenas apresentam bons preços o ano todo. Cada um com sua política; respeitemos 😎.


  • Para quem gosta de brancos, Masson-Blondelet "D'Or et Diamant" AC 2013, um Pouilly-Fumé que não conheço, mas deu vontade de experimentar, não sei por qual motivo... por R$ 180,00 na importadora, a Cellar  traz uma oferta que, lá fora, está avaliada em R$ 150,00. Tá, sendo justo e crítico, imagine de novo a cotação a R$ 3,00, refaça a estimativa desse valor e depois me diga se ainda vale a pena (apenas resolvi que não farei essa conta, dá muito trabalho...)


Acho que não vou aproveitar as ofertas da BF. As da BF...  Aliás, se pensar como eu e tiver um pouco mais para investir (comprei com minha patota), na mesma Cellar o Condrieu "La Chambée" AC 2016, por R$ 330,00 (R$ 156,00 + 20% de impostos, na Europa), fica surpreendentemente melhor depois de uma hora, uma hora e meia...

Thursday, September 7, 2017

Estarei bebendo coisas?

Estarei bebendo coisas?

   A literatura e o cinema já levaram à exaustão o clichê do personagem a se perguntar se está vendo/ouvindo coisas, quando seus sentidos passam por algum estranhamento. O estranhamento vem dos formalistas russos, que começaram seu movimento entre as décadas de 1910-1930 e acabaram por tornar-se os pais da crítica literária moderna (veja aqui, e demais vínculos na mesma página). O que este escriba tenta fazer agora é levar o estranhamento a um novo sentido: o paladar. A motivação é a de sempre, e não foge muito àquela dos formalistas russos na literatura: crítica de vinhos. A crítica desfruta, no Brasil, terra de pessoas ridículas que não aceitam ter suas ideias confrontadas, de uma certa má estima. Isso é natural em um lugar onde cada um acha-se no direito de dizer verdades absolutas e incontestes. Creio existirem lugares onde ouvir o contraditório e contra-argumentar seja parte corrente do dia a dia.
   No tocante aos vinhos, a crítica deve apontar seus defeitos e, principalmente, nos dias de hoje, seus vícios. Claro, não deve deixar de exaltar as qualidades, quando existirem. O meu descontentamento vem de uma categoria de vinhos que estão se tornando cada vez mais parecidos entre si, apesar de oriundos de diferentes países. Fáceis de beber, são fruto da tentativa desesperada de vários produtores de tornar o vinho agradável ao gosto popular. Vejamos o que foi degustado.

Sarda Matel Reserve 2004. Representante do Roussillon, comuna pertencente à região de Provença, no Sul da França, surpreendeu com boa boca e nariz que fez este pobre-diabo sugerir que fosse um vinho italiano. Tem 14,5% de álcool, bem integrado a bons taninos e boa acidez. É bem honesto para sua faixa de preço, R$ 85,00, ainda comparando o preço lá fora. A confusão com um italiano apenas mostra o quanto este Enochato precisa aprender, mas é um vinho de características europeias. Na média, arrasa com sul americanos nessa faixa de preço.

Roquette e Cazes 2006. Duriense muito famoso aqui pela região de S. Carlos, apresentou bons taninos e boa acidez. O álcool escapou um pouco (também... 15%... - risos), sem comprometer. Notas de goiaba, acredito que pela evolução da safra, não é aquela goiaba enjoativa que  pulula muitos chilenos atualmente, em clara tentativa de substituição da madeira tão apresente até alguns anos atrás. Vendido a cerca de R$ 80,00 "lá fora", os R$ 300,00 que chega a custar aqui apenas evidencia reclamação antiga deste Enochato: a importadora vem aumentando o preço de alguns de seus produtos em dólares ano após ano. Se custasse a metade, seria bem competitivo.

Berônia Tempranillo Elaboración Especial 2004. A Bodegas Beronia, localizada em Rioja, Espanha, produzem excelentes  Tempranillos, embora plante também Graciano, Garnacha e Viura. Em sua linha Crianza, Reserva e Gran Reserva é um clássico para os amantes de vinhos espanhóis. Este Elaboración Especial eu não conhecia, e está precificado na mesma linha dos Reserva. Na Espanha, custa uns R$ 40,00, contra uma média de R$ 125,00 por aqui. Tem 14% de álcool, e é o exemplo acabado do vinho que tenta ser popular. Em nada lembra um Tempranillo "clássico". Para um amigo presente na degustação, nariz respeitado mais pela boa percepção de odores do que pelo tamanho (risos!) - e também para mim! - lembrou bastante o travo algo doce do vinho Português. Esse travo doce no caso dos Portugueses, deixemos claro, não é do tipo enjoativo. A mim parece estar mais ligado ao terroir e à vinificação do que em outros exemplares onde o dulçor cai com certa impressão de não natural. É um pouco difícil de explicar. O bebedor mais experiente saberá do que falo. O menos experiente, lamento, precisará de mais litragem. Enfim, aqui está um vinho ao estilo dito Coca-Cola. Não é ruim, nem desequilibrado. Mas está no conjunto "última escolha" de quem pretende uma nova experiência a cada garrafa.





Friday, July 28, 2017

Vinho com nome de carro?!

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Introito

Vinho com nome de carro... pode, Arnaldo? Lembro-me de há muitos anos ter dirigido um Lamborghini velozmente, quase no limite, por curvas apertadas seguidas de retas deslumbrantes, onde a velocidade chegava literalmente ao máximo. Bons tempos. Tempos felizes. Era assim: meu irmão mais novo tinha um autorama; os carrinhos eram uma Ferrari - que ficava com ele - e uma Lamborghini, que ficava comigo...

Ferruccio Lamborghini

Ferruccio Elio Arturo Lamborghini foi um industrial italiano. Filho de fazendeiros, fundou a Lamborghini Trattori em 1948 e posteriormente a Automobili Lamborghini, em 1963, fabricando carros esportivos de luxo. No início dos anos 1970, com a aposentadoria como industrial, mudou-se para a propriedade La Fiorita, adquirida anos antes, disposto a iniciar-se na produção vitivinícola. Lá foram plantadas as clássicas Sangiovese e Ciliegiolo, além de Merlot e Cabernet Sauvignon. A vinícola fica na Úmbria - dita por alguém como o umbigo da Itália - uma região limítrofe à Toscana. Nos anos 90, Patrizia, filha de Ferruccio que assumiu a produção, focou-se na Sangiovese e na Merlot. Campoleone é fruto desse trabalho.

Lamborghini Campoleone, safras 1999 e 2010

   Tive alguma sorte ao encontrar uma garrafa da safra 1999. Algum tempo depois, a safra 2010, que é a disponível aqui no Brasil, entrou em promoção. Lá fora é um vinho de 50 dólares, e comprei por menos de R$ 200,00 - uma boa compra, sem dúvida. A safra 99 lá fora custa uns 80 dólares. O bom é que está envelhecida o suficiente para uma brincadeira. Tradicionalmente, é um corte meio a meio de Sangiovese e Merlot.
  •    Lamborghini Campoleone 1999: 13% de álcool, mostrou frutas mais vermelhas, boa acidez, corpo médio.
  •    Lamborghini Campoleone 2010: 14% de álcool, apresentou couro/chocolate, frutas negras, boa acidez, corpo médio.


   Abri a garrafa da safra 2010 com duas horas de antecedência, e a da safra 1999 ao receber os convidados. A diferença fez com que os vinhos evoluissem quase ao mesmo tempo, mas mostrarem-se melhores depois de duas horas do início dos "trabalhos" (!). Ou seja: um bom serviço para o 2010 recomenda sua abertura com 4 horas de antecedência. Mas se o degustador desejar acompanhar a evolução - e eu acho que aí está a graça do vinho - a abertura com 2 horas será bastante boa.

   A motivação do encontro foi acerca de repetidas conversas na confraria acerca da internacionalização dos vinhos quando adentramos o Século 21. Parece que a conversa seria mais ou menos vinhos do Século 21 para bebedores do Século 21, ou alguma troça assim. Essa inspiração tornou-se mais conhecida com o advento do Brunelogate, uma proposta de internacionalização dos vinhos italianos para que eles se tornassem mais palatáveis ao consumidor novomundista. Os vinhos continuam bons - até onde seja possível - mas à custa de sacrificar o terroir - o bentido terroir. Só que eles perderam algo. A essência, talvez? No presente caso, não foi muito diferente. Campoleone 2010 é bom. Mas... note a quantidade de álcool. Diferença de safra não é suficiente para proporcionar tamanha variação alcoólica. A menos que fossem safras muitos díspares, uma excepcional e outra absolutamente decepcional (sic! risos!). Não é o caso. Então mudou um pouco o processo. E com isso alguma coisa também foi sacrificada.
  No final, o que temos ao experimentar por exemplo um Brunello pós-2004 é um vinho algo doce logo na abertura. Abra um bom Brunello 1997 para ver de saída aquela água de riacho depois da chuva, que vai evoluindo com as horas(!) até se tornar... um Brunello! Assim, você, bebedor de hoje, que só conhece a safra 2010 de Campoleone, lembre-se sempre da alegoria da caverna de Platão: os vinhos de hoje estão se tornando uma espécie de ilusão daquilo que deveria ser um verdadeiro vinho.

   Chega de conversa fiada. O leitor pode meditar um pouco a respeito por sua conta e risco. Ou sua conta e riso, o que em muitos casos dá na mesma (risos!). De preferência à borda de um bom copo. Termino com as palavras de um dos colegas da confraria:

O 2010 é melhor... 
mas eu prefiro o 99...

Saturday, June 10, 2017

Chileno bate franceses em degustação às cegas!

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Introito (pule se não estiver com saco paciência)

   Aconteceu. Eu vinha reclamando - pouco no blog, porque pouco tenho escrito, e mais à boca torta, não!, à boca miúda (rs) - que, comparativamente, os vinhos sul americanos ficam notas aquém de seus rivais do Velho Mundo. Na minha percepção, aconteceu assim:
   Corriam os idos de 2008. Para refrescar a memória, foi o ano da Grande Crise Econômica do Século 21, também conhecido como Ano da Marolinha. Não sei se foi antes da crise estourar ou depois, mas o senhor Parker declarou:
   - Os vinhos chilenos estão subprecificados.
   Apesar de respeitar o sistema de pontuação de vinhos, apesar de dar algum (somente algum!) crédito a certos avaliadores (e-RobertParker, inclusive), eu não sou otário nem nasci ontem (sou apenas um enochato!). Não tenho dúvida de que rolou alguma grana. A grande dúvida, e isso conta muito, é de qual direção veio ela. Perguntando para alguns conhecidos, a resposta era quase unânime:
   - Dos chilenos, claro!
   Tenho dúvidas. Ora, a USD 50,00 (Freeshop chileno), preço comum para um Don Melchor ou um Don Maximiano em 2008, eu me dava por feliz em comprar um deste e outro daquele quando vinha do Chile. Os vinhos europeus custavam muito caro no Brasil - importadoras como a de la Croix estavam no começo, outras como a Enoeventos sequer existiam, e 90% do comércio de vinhos finos era dominado por 4 ou 5 importadoras. Acho que hoje é só uns 80%... Bem, eu viaja muito ao Chile, e me dava por satisfeito ao trazer alguns ícones de lá. Quando o Parker deu essa declaração, em 2008, foi a senha para os chilenos mais que dobrarem o preço de seus vinhos. Foi o que encontrei, ao retornar em 2009, após um hiato de dois anos. Desgostoso - quando eu pagaria USD 130,00-140,00 por um vinho?! - trouxe apenas segundos rótulos: EPU, Terrunyo, etc. Por coincidência, minha irmã começava a viajar para o exterior, e se dispôs a trazer-me algumas garrafas. Claro que, antes de pagar por vinhos Chilenos nos EUA ou na Inglaterra, apostei em Riojas (Torre de Muga), Barolos, alguns australianos (Torbreck, Dead Arm), um ou outro francezinho... e... fui para a luz!
   Fechando: para mim, quem pagou foram os europeus. Ou os americanos, aventaram alguns, depois de ouvirem meus argumentos. Sou mais os europeus; os americanos precisam comprar vinho porque sua produção não sustenta o consumo... Os chilenos poderiam "comer pela beirada" uma parte do mercado, com seus ícones a USD 50,00. Ao preço do Chile - e a bem da verdade, a USD 70,00 nos EUA!, eles ficaram absolutamente fora do mercado. Os argentinos, com alguns ícones a USD 100,00+, parecem querer trilhar o mesmo caminho. Azar deles (risos!).
   Ao longo do tempo, sem reportar aqui e a despeito do meu nariz claudicante, fui produzindo vários embates comparativos entre europeus e chilenos/argentinos, e fui constatando o quanto estes últimos estão degraus abaixo em qualidade. Os demais sulamericanos então, pelamordeDeus... Para o leitor tomar ciência do que falo, um embate não reportado por mim, mas devidamente registrado, está aqui. A minha opinião foi um pouco diferente daquela do cronista. E, lembro-me bem, Don Melchor sobrou! Ao final, ninguém quis! O Akira olhou para ele com cara de nojo! Menos, menos (risos). Com cara de quem simplesmente não estava a fim, satisfeito com o que deguestara dos outros vinhos. Sim senhores: o sujeito olhou para um Don Mel e dise que... não precisava!
   Recentemente produzi (mais) este embate, mais simples, para testar vinhos que :
   * Tenham preços "acessíveis";
   * Estejam disponíveis no mercado nacional;
   * Não demandem serviço: abriu, "deu 15 minutos", bebeu.

O embate

O tema foi, simplesmente, Syrah. Enrolei devidamente 4 garrafas (uma por conta do Akira e uma que o Jaci deixara comigo tempos atrás, junto de um lote que ele depositou em minha adega para não se preocupar em trazer vinhos de casa), enquanto a Senhora N. e marido traziam a quinta. A ordem do serviço, após todos os vinhos serem abertos ao mesmo tempo, foi a que apresento abaixo, já revelando os atores.


Jean-Luc Colombo La Violette, 100% Syrah (2012). Um Languedoc básico, com breve passagem em barricas, e cuja madeira que quase não aparece, bem integrada ao conjunto. Comprado a R$ 51,00 na Decanter, no Black Friday, está ótimo. Ao preço regular, R$ 94,00, está um tanto fora, como veremos a seguir. Encontra-se "lá" a uns R$ 44,00. A relação é honesta. Boa fruta, mas acidez pouco presente. Foi o meu boi de piranha, um descarrego para iniciar os trabalhos.

Concha y Toro Terrunyo Syrah, 100% Syrah (2008). Este chileno causou furor quando encheu as taças após o La Violette. "Agora sim", foi a impressão geral. Tem sobrevivido bem ao tempo (quase 10 anos), embora não vá evoluir mais (tenho bebido uma garrafa a cada 4 ou 5 meses, ultimamente). Comprado no Chile quando tinha bom preço (R$ 64,00), e atualmente custando R$ 106,00. Aqui, R$ 230,00. Convenhamos, a relação não está ruim, também. Boa fruta, embora peque pela acidez. Madeira perceptível, mas sem exagero, integrada ao conjunto da obra. Já comentei anteriormente: a madeira que faz as pessoas confundirem com potência.

Chateau Camplazens Reserve La Clape, 70% Syrah (2011). Outro Languedoc, agora com mais barrica (12 meses). Comprado a preço regular na Casa do Vinho, atualmente custa R$ 128,00. Lá fora, uns R$ 50,00; novamente bom preço por aqui. Boa fruta, potência advinda de bons taninos e (conectivo de adição!) de boa acidez, gerando final mais longo e marcado. Comparado ao La Violette, a R$ 94,00... bem, ponha mais R$ 30,00 e você tem um vinho de verdade (sic).

Ferraton Pére & Fils Crozes-Hermitage La Matiniere (2010). O nome já diz a prodência e assegura que é um 100% Syrah. Comprado da Enoeventos na melhor Black Friday que já vi, custou por volta de risíveis R$ 100,00 (R$ 143,00, a preço regular), enquanto o preço lá fora está cerca de R$ 65,00! Também 12 meses de barrica, por ser o quarto vinho já estava respirado. Chegou com boa fruta, boa acidez, bons taninos. No conjunto, em minha opinião, um pouco abaixo ao Camplazens, mas "ali". Na cola.

Boschendal The Pavillion, 80% Syrah (2015). Comprado no Vinho e Ponto a R$ 108,00, custa, lá fora... R$ 30,00. Contando na estatística duas lojas no Japão, o que colabora para o preço subir um pouco... de outra forma, por R$ 20,00 estaria bem pago. Um sul-africano diferente, com passagem em madeira (9 meses), com boa fruta, boa acidez e bom tanino, mas claramente aquém dos demais, tirando o La Violette, que é bem leve (e portanto a proposta é outra. Como disse, La Violette foi meu boi de piranha). Não deixa de ser um vinho legal. Tem margem para se tornar uma boa compra; é só cortar o preço pela metade.

$ Preços $

Apenas para recobrar:
Vinho            Preço "cá"    Preço "lá"
La Violette    R$ 94,00      R$ 44,00
Terrunyo       R$ 230,00    R$ 106,00
Camplazens  R$ 128,00    R$ 50,00
Ferraton        R$ 143,00   R$ 65,00
The Pavillion  R$ 108,00   R$ 30,00

Avaliação final

   Terrunyo impressionou alguns, que se animaram mais ao comentar dele. Agradou mais em duas opiniões, enquanto outras duas colocaram o Camplazens em primeiro... e o Ferraton em segundo! Uma opinião não ficou clara para mim. Vou conceder que Terrunyo tenha sido o melhor vinho, por margem mínima, até para justificar o título da postagem (gargalhadas!). Terrunyo custa quase o dobro de seus concorrentes. O preço no Brasil não reflete (ainda) seu custo no país de origem. O leitor pode julgar, mas preciso apresentar mais um dado. E esse faz toda a diferença.

Ato falho

   Quero recobrar parte do Intróito. Aquela parte onde Don Melchor tomou varada (rs) de dois europeus e acabou sobrando para que eu terminasse com ele no dia seguinte, jurando nunca mais comprar um ícone chinelo, digo, chileno. Quero, ainda, lançar uma máxima, que pode até ser contestada. Claro, a premissa é que os degustadores conheçam um pouco de vinho... Vamos lá:
Degustado às cegas, o melhor vinho sempre acaba antes dos demais
    Vejamos o que aconteceu com os vinhos degustados:
   Arrá! Quem praticamente zerou no evento? O Camplazens quase zerou! O Ferraton ficou uma taça atrás! Com cinco garrafas para cinco degustadores, um deles (Jaci) saindo mais cedo, o consumo foi bom. E os melhores vinhos chamam naturalmente as taças. Duvida? Faça você mesmo o teste, quando tiver oportunidade! (risos) O nível do Terrunyo estava mesmo difícil de notar por causa da garrafa escura; fotografei no dia seguinte, à luz do dia:
   Isso reforça minha premissa: os melhores foram os franceses. Com sobras. Se formos invocar a relação custo-benefício... bom aí a coisa fica feia...

Tuesday, June 6, 2017

Que vinho é esse?

Que país é este?

   O saudoso Renato Russo deixou-nos diversas pérolas do cancioneiro nacional antes de fazer as malas e zarpar para longe da mediocridade chamada Brazil. Claro que se pudesse escolher sei que ele ficaria por aqui, ajudando a fazer deste paraíso das bananas um lugar melhor. Uma de suas músicas que mais gosto é justamente a que dá título a esta introdução. O leitor pode se refestelar aqui.

   Hoje começa o julgamento do presidente Michel Temer no TSE. Este blog não trata de política, trata de vinho - mas não possui leitores, então ninguém perceberá. Ah, mas tratará de vinho, também. Tenha paciência, afinal é impossível o cidadão de bem, que aspira manifestar-se para a sociedade ainda que sobre vinho, deixar de lado a situação grotesca pela qual passamos atualmente e portar-se como se nada de mais acontecesse. Resistir é preciso. Aos picaretas do vinho também, mas principalmente aos ratos que roem os cofres públicos e, em última instância, causam um rombo que só é suportado com a criação de mais impostos!

   O senhor Michel Temer recebeu um fanfarrão, segundo o próprio Michel, na calada no noite, na residência oficial do Presidente da República, após este dar entrada na garegam da residência usando nome falso (foi isso mesmo?!). Ouviu o que ouviu, sem dar-lhe voz de prisão. Depois disso, ainda ousa dizer "Não reuniciarei". Grito alto, com as mãos em concha:
   - Saia já daí, Michel!
   Esse senhor precisa ser defenestrado do cargo a qualquer custo, e terá sido tarde. É inaceitável para uma nação ter de suportar um "Não renunciarei" em tamanha cara de pau e permanecer quieta. Temer deve ser alijado da presidência na primeira oportunidade, no mínimo como exemplo para que outros picaretas sequer pensem em repetir esse experiente no futuro. E, a repetirem, a culpa terá sido exclusivamente nossa.

   Depois de todas suas manobras verbais para explicar o inexplicável, se fosse um importador de vinhos, Michel Temer seria para mim uma mistura daquilo que mais critico e abomino. Um assemblage de "a" elevado a "b", onde "a" e "b" são duas importadoras quaisquer listadas a partir da quinta posição na tão mencionada por mim "lista comparativa da margens das importadoras",  publicada pelo sítio Enoeventos, original disponível aqui, e reproduda abaixo.
Ressalte-se que empresas privadas objetivam lucro, e não há nenhum problema nisso. Aliás, é a mola-mestra da economia. Nada contra! Mas quando a margem cobrada chega ao exorbitante, isso reflete diretamente no bolso do consumidor. No meu, no seu, no nosso. Então é minha opinião que o cidadão médio deve ser informado do quão pornográficas chegam a ser certas margens, e, sabendo disso, possa decidir de quem comprar. O imposto sobre bebidas no Brasil é de cerca de 65%. Não há porque pagarmos aqui mais do que 100% sobre o custo do mesmo produto "la fora". E olhe que "lá fora" também existe imposto sobre bebida!

Que vinho é esse?

Em matéria de hoje, UOL publica que "Aécio não achava que cassação ia até o fim no TSE". A certo ponto, em conversa reservada com o sr. Joesley Batista, a quem recebeu em seu quarto do hotel, Aécio Neves esperava Joesley com um vinho aberto, do qual o convidado prontamente se serviu ao entrar no quarto. 
   "Peguei um vinhozinho aqui, viu?", avisa o empresário.
   "OK, peguei para você, acabei de abrir, esse vinho é ruim para caralho, mas é o que tem", responde o senador, que está ao telefone. 
   "Não, tá bom demais", responde Joesley enquanto espera o interlocutor. [em itálico, trecho da reportagem original]







   O senador diz que é "ruim para c@r@#&o" - linguagem bem conveniente para um Senador da República, heim? - E o outro diz "Não, tá bom demais"!

   O inexistente leitor pode ser muita coisa, menos bobo. Sabe que dentre as especialidades de ambos não consta degustar vinho. Mas é de surpreender que o c@r@#&o de um é o bom demais de outro! No final, a pergunta que fica é:

Que vinho é esse?
Senhoras e senhores, aguardo seus palpites...